A fita branca (2009)

Por André Dick

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Depois de seu filme mais polêmico, A professora de piano, Michael Haneke realizou Caché, que dialoga com A estrada perdida, de David Lynch, mostrando o casal Georges e Anne – nomes recorrentes de seus personagens – inserido num bairro ameaçador, com sua entrega diária de vídeos misteriosos. Seu trabalho seguinte, A fita branca, vencedor da Palma de Ouro, é um filme híbrido, ou seja, é difícil definir sua narrativa, uma mistura de suspense, drama e policial do início do século passado. O cineasta austríaco, que este ano recebeu o Oscar de filme estrangeiro com o excelente Amor, consegue compor um grande painel de uma comunidade alemã antes da I Guerra Mundial, entre 1913 e 1914, com a colaboração do trabalho de fotografia de Christian Berger (indicada ao Oscar, como o filme), inspirado em Sven Nykvist, colaborador de Bergman, com sua indefinição entre a claridade do verão, com o sol, e o inverno e sua brancura assustadora.
Nessa comunidade rural, de Eichwald, vive um professor de música, narrador da história, de quem não sabemos o nome (Christian Friedel), que se apaixona por Eva (Leonice Benesch), uma babá. Se ela não é Grace, de Dogville, a comunidade passa também por um momento delicado. O médico da região (Rainer Bock) está voltando de cavalo, e surge um arame que acaba por derrubá-lo. Ele é pai de Anna (Roxane Duran) e Rudolf (Miljan Chatelain), que ficam aos cuidados da parteira local (Susanne Lothar), mãe de um garoto com Síndrome de Down, Karli (Eddy Grahl).

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Outros acontecimentos estranhos surgem: um celeiro pega fogo, Karli sofre violência, uma agricultora morre, criando a revolta de um filho. Tudo, no entanto, parece calmo na comunidade, como antes, sempre sob as ordens do Barão (Ulrich Tukur), casado com Marie-Louise (Ursina Lardi), e do pastor (Burghart Klaussner), cujos filhos mais velhos, Klara (Maria-Victoria Dragus) e Martin (Leonard Proxauf), precisam enfrentar ordens diárias. As crianças da região estão sempre sob um estranho domínio de uma força que parece pairar na comunidade, e se esconde durante o dia e atrás de símbolos da pureza, como a da fita branca colocada nos filhos do pastor, que devem ser libertados de todo e qualquer desvirtuamento. Nesse sentido, Haneke tem razão quando diz que seu filme trata da origem do terror: é justamente o que percebemos em seu filme – há uma indefinição no que se refere à situação dos personagens, ameaçados por um movimento que muitas vezes esconde seu nome. O suspense é iminente em cada trajeto que faz a história, embora ele nunca se coloque como simplesmente um artefato de medo.
A fita branca consegue manter um estranho fascínio desde o início, em razão de sua fotografia que evoca ao mesmo tempo um lugar distante e um agrupamento capaz de sair do seu sentimento de morte, mas também por causa de seus personagens, que aparecem e desaparecem sem exatamente fixarem alguma espécie de sentimento definitivo. Desde o menino que se arrisca na ponte, pensando que se não caiu é porque Deus gosta dele, até o professor que deseja casar com Eva, numa espécie de afeto não anunciado, A fita branca se sustenta no equilíbrio entre o drama histórico e a narrativa de fonte literária e religiosa. É interessante como o professor viaja para pedir a mão de Eva em casamento, e ambos não conseguem ao menos se tocar, em razão da espera pelo casamento. Leve-se em conta que Eva reconduz ao cenário do Éden bíblico, e A fita branca, com seu objetivo de mostrar uma história melancólica, consegue tornar essa interpretação mais evidente. O cenário, se visto de maneira diferente, seria mais próximo do idílico: uma espécie de vila estruturada em seus mínimos detalhes, com suas casas organizadas milimetricamente, com agricultores. Daí, A fita branca também dialogar com a Lumberton de Veludo azul, cujo céu azul contrasta com a escuridão não apenas da noite, como também dos personagens: o preto e branco da fotografia de Berger é tão assustador quanto o dia ensolarado captado por Frederick Elmes em Veludo azul. É à noite, com as portas trancadas e os quartos desolados, que muitas figuras de A fita branca se revelam.

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É esta sensação de receio diante dos acontecimentos que surge quando vemos o filme: a começar por uma plantação de repolhos que sofre uma transformação em determinado momento. Assim como no recente Amor, Haneke consegue mesclar a perplexidade trazida pelo comportamento humano com uma espécie de sentimento que se esconde em pequenos gestos, como aquele em que o pastor é presenteado pelo filho Gustav (Thibault Sérié) com um pássaro. Lembremos que em Amor o pássaro é uma peça-chave decisiva, e em A fita branca ele também simboliza tanto a vida quanto a morte. Há, nesse movimento do pássaro preso na gaiola, uma influência decisiva do expressionismo alemão, também quando remete a floresta a uma paisagem ameaçadora.
Não apenas isso. A fita branca revela, por trás do puritanismo, uma espécie de tradição que luta para sobreviver baseada especificamente naquilo que não pode não pode ser vista, mesmo sendo, como verdade. A figura autoritária é comum tanto no meio religioso quanto no meio político e no meio da saúde. E ainda há o pai de Eva (Detlev Buck), cujo cuidado autoritário parece mais saudável do que todos os comportamentos vislumbrados no filme: quando o professor viaja para lhe pedir a mão de Eva, recebe o compromisso de conviver com ela durante um ano antes de se casar, para concluir se o seu sentimento é verdadeiro. Todos esses personagens são ligados por Haneke, revelando sua inclinação à força de Estado, para que possa suportar um universo como este. Por isso, ao mesmo tempo, eles não possuem nome próprio, somente a designação, pela qual podem ser entendidos universalmente.
Nesse sentido, mesmo que haja essa analogia, tanto no filme quanto nas declarações de Haneke, das crianças mostradas em A fita branca com a geração que viria a apoiar o nazismo, parece que a narrativa não se mostra tão simbólica ou simplista. Mesmo que a fita branca signifique uma espécie de sinal da raça pura, parece que Haneke desenha mais um mal oculto que é reproduzido por novas gerações diante daquela tradição autoritória que se mostra em vários personagens. Do mesmo modo, o comportamento dos adultos vai sempre contra o que eles mesmos avaliam como correto: a violência opressora é evidente, desde o menino amarrado na cama até o castigo da menina que precisa ficar de costas para os outros. Ainda assim, em meio a uma crueldade do ser humano, sustentado por uma estrutura de Estado, Haneke busca exatamente os personagens que podem não exatamente transformar esse universo, pois também seguem uma tradição, mas  não corrompê-lo. É neste ponto que surge o casal constituído pelo professor e pela babá. A espera de um ano para o casamento, segundo o pai dela, pode passar rápido; para Haneke, as gerações, e sua tradição, também podem passar rapidamente e serem vistas como um exemplo a não ser seguido.

Das weisse Band – Eine deutsche Kindergeschichte / The white ribbon, Alemanha/Áustria/França/Itália, 2009 Diretor: Michael Haneke Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaussner, Steffi Kühnert, Josef Bierbichler Produção: Michael Katz Roteiro: Michael Haneke Fotografia: Christian Berger Duração: 144 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Canal+ / X-Filme Creative Pool / Wega Film / Les Films du Losange / Lucky Red

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

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Fahrenheit 11 de setembro (2004)

Por André Dick

Filme.Michael Moore

O diretor Gus Van Sant realizou Elefante, baseado no assassinato de diversos alunos em Columbine, recebendo a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes em 2003. O filme, sem fugir ao tom documental, mostra como transcorre determinado dia num colégio de Portland, Oregon, colocando o o espectador diante da ameaça iminente da dupla que fará um ataque, à espera, em casa, do armamento. Um ano antes, esse acontecimento havia sido tratado exatamente pelo documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Foi o documentário seguinte do cineasta que acabaria ganhando também a Palma de Ouro em Cannes: o polêmico Fahrenheit 11 de setembro, o filme-evento de 2004.
Moore deseja apontar as falhas de George W. Bush, ao contrário da condescendência de Oliver Stone em W, no qual Josh Brolin interpretava com competência, mas prejudicado pelo roteiro, o ex-presidente e, desse modo, parte do terrível ataque às torres do World Trade Center para mostrar o comportamento do governo dos Estados Unidos em relação aos atos de terrorismo. Para isso, lança mão de várias revelações: mostra, por exemplo, que os únicos voos que saíram dos Estados Unidos logo depois do 11 de setembro levaram embora familiares de Bin Laden, o responsável pelo atentado. Além do principal: Bush seria indeciso, ou precavido diante de suas ligações, para tomar qualquer decisão (como quando soube do ataque, enquanto ouvia crianças contarem histórias numa escola da Flórida, numa das melhores cenas do filme, embora, se vista de forma distanciada, excessivamente simplista). E coloca em dúvida, inclusive, a sua eleição, com a polêmica na contagem dos votos da Flórida, onde o irmão de Bush era governador, e ele mesmo aparece numa conversa estranha dentro de um avião, em disputa com Al Gore, seguida por uma posse longe de amistosa.

Filme.Michael Moore 4De tão incisivas, algumas críticas chegam a ser cômicas, e há intervalos sempre quando o assunto parece se tornar denso em excesso, pontuado pela trilha excelente de Jeff Gibbs, com referências à série policial Dragnet e a faroestes. Mas o retrato dado por Moore a Bush é revelador: mostrando o passado do ex-presidente, a obsessão de sua família pelo petróleo no Oriente Médio, o oportunismo na invasão ao Iraque, já que lá não estava quem assumiu o atentado, Bin Laden, cuja família mantinha relação de negócios com os Bush e os Estados Unidos. E o que foi bastante discutido enquanto ele era presidente: a necessidade de criar um clima de terror para a população, como se fosse acontecer um novo ataque a qualquer momento – e algumas invenções para evitar ferimentos. Neste ponto, Moore utiliza todos os meios para esvaziar a criação de um estado de medo, mostrando que a preocupação quanto à defesa não era tão grande, ao filmar apenas um guarda, que ajudava a cobrir toda uma costa dos Estados Unidos. Se em alguns momentos ele soa exagerado – é difícil separar, numa situação dessas, o que é fingimento ou realidade, pois se trata de um medo coletivo –, para o momento em que fala, 2004, embora não seja datado por isso, Fahrenheit 11 de setembro é eficiente. Havia excessos, e eles estão no filme.
É surpreendente, também, o trecho de uma entrevista de Condoleezza Ricce, em que ela diz que o governo havia recebido um relatório afirmando que o país poderia ser atacado, com um título sugestivo: “Bin Laden pretende atacar os Estados Unidos”. Todos os políticos, mesmo aqueles cujo nome pode assustar, são vistos como pessoas que agem apenas para encobrir a verdade (há uma colagem de depoimentos desastrosos). Não por acaso, os créditos iniciais acontecem quando o presidente e outras personalidades de seu governo (como Colin Powell e Donald Rumsfeld) são maquiados – Bush especificamente para tratar da invasão ao Iraque. Moore segue o mesmo caminho de Pakula em Todos os homens do presidente e de Oliver Stone em JFK: a política é apenas um meio para tratar do comportamento ambíguo. E, principalmente como JFK, Fahrenheit 11 de setembro manipula o espectador sempre que deseja, no entanto sem deixar de fasciná-lo. Trata-se de uma visão pessoal e, por isso, mais polêmica, em que o quebra-cabeças é armado conforme se espera em relação à sua finalidade e com uma montagem intensa.

Filme.Michael Moore 6

O problema e a qualidade fundamentais do filme é justamente a presença de Michael Moore. Ele, por vezes, se excede com passagens de pretensão cômica, tentando tornar o tema mais acessível e leve para o espectador. Embora isso funcione em alguns momentos, em outros soa apenas deslocado. Moore se coloca, desde o início, como o antagonista de Bush, quando este lhe sugere procurar um trabalho de verdade, e não interrompe a sucessão de ataques àquele que continuou o que o pai começou no início dos anos 90: a invasão ao Iraque. É esta invasão que Moore tenta colocar como o estopim dos desejos de Bush em conquistar mais petróleo para os Estados Unidos, com a pretensão de um combate mais efetivo a quem poderia esconder armas de destruição em massa (acusação que se mostrou infundada), tirando-o de Saddam Hussein e o colocando como peça a ser julgada pelo povo, sem haver a própria reflexão, reduzindo tudo a uma espécie de genética texana de Bush e seu estilo de caubói e comprador de poços. Se no seu início Moore inspirou diretamente Kathryn Bigelow em A hora mais escura, esta passagem pelo Iraque inspirou o filme anterior da diretora, Guerra ao terror. São imagens de impacto, principalmente pela associação entre a música ouvida pelos soldados e a violência que empregam na invasão a casas durante todos os dias. Neste trecho, Moore compõe aquilo que exatamente forma Fahrenheit 11 de setembro: para qual fim existe uma guerra. No seu olhar, ao som de Bruce Springsteen, a guerra apenas é uma forma de fortalecer o sistema do medo e do financiamento de armas.
Michael Moore aparece também, algumas vezes, fazendo entrevistas ou se manifestando em frente ao Congresso Nacional, onde pede a adesão à guerra de filhos de senadores e deputados, o que causa constrangimento notável. Também entrevista mães que perderam seus filhos no Iraque e jovens negros e da periferia cooptados pelo governo para servirem na guerra e pretensamente melhorarem de vida, o que vai ao encontro do início, quando a comunidade negra da Flórida não é ouvida no Senado. Por baixo de toda a política do documentário, existe, na verdade, uma tragédia de classes poucas vezes abordada com a mesma sensibilidade. Por isso, polêmico ou exagerado, este documentário também vencedor do Oscar de melhor documentário é uma peça-chave para entender o que aconteceu nos Estados Unidos no período turbulento da Era Bush e suas consequências para a política internacional, entregando um humor, mesmo que em doses desmedidas, que acaba por desfazer a aura política de poder e superioridade.

Fahrenheit 9/11, EUA, 2004 Diretor: Michael Moore Elenco: Michael Moore, George W. Bush Produção: Michael Moore Roteiro: Michael Moore Trilha Sonora: Jeff Gibbs Duração: 110 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films

Cotação 4 estrelas e meia

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Vencedores do Festival de Cannes 2013

Por André Dick

La vie d’Adele.Filme

A 66ª edição do Festival de Cannes terminou hoje, e a Palma de Ouro de melhor filme foi para La vie d’Adèle, do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, que conta a história do amor entre Adèle (Adele Exarchopoulos), uma adolescente, e Emma (Léa Seydoux, de Meia-noite em Paris), uma estudante de arte. O prêmio do grande júri ficou com Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen, que conta a história de um cantor folk dos anos 60, com elenco de destaque: Carey Mulligan (que também aparece no filme que abriu o Festival, O grande Gatsby), John Goodman, Garrett Hedlund (Na estrada), Oscar Isaac (Drive) e Justin Timberlake.
Amat Escalante foi escolhido como melhor diretor, por Heli, enquanto Bruce Dern (pai de Laura Dern) saiu do Festival com o prêmio de melhor ator, pela atuação em Nebraska, de Alexander Payne (de Os descendentes), e Bérénice Bejo (O artista) com o de melhor atriz, por Le passé. O melhor roteiro ficou nas mãos de Jia Zhangke, por A touch of sin, e o Prêmio do Júri foi para Like father, like son, de Hirokazu Koreeda. A Palma de Ouro para melhor curta-metragem é de Safe, de Moon Byoung-Gon, e a Câmara de Ouro (para diretores estreantes), de Ilo Ilo, de Anthony Chen.

The immigrant.Filme

De maneira geral, pelas críticas, La vie d’Adele foi a grande surpresa do festival, embora o filme Le passé tenha sido também bastante elogiado, tendo atrás das câmeras o ótimo Asghar Farhadi, de A separação. Não tão elogiado (mas considerado uma obra-prima pela respeitável Slant, que o comparou, pela reconstituição e fotografia, a Era uma vez na América, de Sergio Leone), The immigrant é o novo filme de James Gray, com Joaquin Phoenix (que atuou em Amantes, outro filme de Gray), Marion Cotillard e Jeremy Renner. O novo filme de  Nicolas Winding Refn, Only God forgives, também com Ryan Gosling, não teve a mesma repercussão de Drive, que levou o prêmio de melhor diretor. Mas, ao que tudo indica, não deve ser menosprezado. Filmes violentos, como ele parece ser na avaliação da crítica, costumam não ser tão bem recebidos em Cannes, embora Drive o fosse.
O que se leva do festival é que o premiado nos últimos anos tem feito ótima trajetória depois e indicado ao Oscar de melhor filme, como A árvore da vida e Amor. O prêmio para os Coen era esperado desde a exibição, mas parece não conferir a ele certeza de chegada com fôlego no final do ano passado: Barton Fink (premiado com a Palma de Ouro principal) e O homem que não estava lá (premiado com melhor direção) concorreram depois, no Oscar, em categorias técnicas e de ator coadjuvante. No entanto, os Coen, recentemente, com Onde os fracos não têm vez, Um homem sério e Bravura indômita estão entre os diretores preferidos da Academia.

Nebraska.Filme

Nebraska, de Alexander Payne, é em preto e branco e conta a história de um senhor (Bruce Dern) com demência, que realiza uma viagem. Em ritmo de road movie, com elementos que Payne já trabalhou em seus ótimos As confissões de Schmidt e Sideways, Nebraska talvez traga o que Os descendentes deveria ter lhe trazido em 2011: o Oscar de melhor filme. Bruce Dern também comoveu a plateia de Cannes, o que lhe confere, desde já, destaque. Os filmes La Venus à la fourrure, de Roman Polanski, com sua mulher Emmanuelle Seigner, e Only lovers left alive, de Jim Jarmush, com Tom Hiddleston,Tilda Swinton e John Hurt, aproveitando a mitologia dos vampiros, tiveram uma boa recepção no Festival, e são de diretores que normalmente trazem uma visão diferente. Behind te Candelabra, com Matt Damon, Michael Douglas, Rob Lowe e Dan Aykroyd, em mais um último filme de Steven Soderbergh (que há pouco também lançou Terapia de risco), não chamou muita atenção, mas vem recebendo críticas positivas.
Entre os filmes exibidos na mostra “Um outro olhar”, parece que Sofia Coppola não repetiu o êxito de outros, com seu Bling Ring – A gangue de Hollywood, mas sempre é interessante aguardar pelos filmes de quem realizou Encontros e desencontros e Maria Antonieta. Não se deve esquecer que Cosmópolis, de David Cronenberg, e Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, foram praticamente ignorados no Festival de 2012.

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Pulp Fiction – Tempo de violência (1994)

Por André Dick

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É  preciso ingressar no universo de Quentin Tarantino para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher do chefe, Mia (Uma Thurman), por uma noite. Tarantino leva o casal o casal para uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, também com sósias de James Dean e Marilyn Monroe, onde Vincent tenta demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake e comentar sobre o passado de outro capanga selecionado para cuidá-la. De acordo com o ambiente, a conversa desvia para o plano da atuação:  Mia participou de um piloto de série de TV, e Vincent, com suas pulp fictions de bolso, deseja participar desse universo paralelo. Trata-se de uma das sequências mais divertidas, com elementos de videoclipe, e referências a Os embalos de sábado à noite, ainda que vaga e estranha, pois não se sabe ao certo se termina em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.

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Em outra história, temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo, na II Guerra Mundial. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com uma taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gângsteres que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes (Amanda Plummer e Tim Roth) que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

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São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial de Andrzej Sekula (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem com precisão rítmica de Sally Menke, que participou dos filmes de Tarantino até Bastardos inglórios e veio a falecer em 2010 (e é justamente a montagem que veio a prejudicar longas sequências de Django livre). Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos. Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos com velocidade, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos, o que se revela também em suas trajetórias de vingança, Kill Bill, Bastardos inglórios e o recente Django livre. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme (com a colaboração de Menke) consegue sempre transformá-lo numa peça que vai tomando mais força. E impressiona como as atitudes dos personagens vão mudando conforme a necessidade, como o intervalo que se dedica a Butch e a Marcellus, com um ato derradeiro impressionante e que antecipa Kill Bill, ou quando percebemos que Vincent e Jules podem estar no passado de uma história que já teve seu final.
Neste filme, que melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude –, Tarantino também retoma atores improváveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

David Lynch no Festival de Cannes

Por André Dick

Twin Peaks.David Lynch.Filme

O cineasta David Lynch teve, a partir da década de 90, mais reconhecimento na Europa do que nos Estados Unidos, e isso se deve sobretudo ao Festival de Cannes. Coração selvagem foi seu primeiro filme exibido no Festival, no mesmo período em que o diretor fazia sucesso na televisão com Twin Peaks. Competindo com Coração de caçador, de Clint Eastwood, Nouvelle Vague, de Jean-Luc Godard, Cyrano de Bergerac, de Jean-Paul Rappeneau, Bem-vindos ao paraíso, de Alan Parker, e Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, entre outros, Coração selvagem recebeu a Palma de Ouro principal. Neste filme (crítica completa aqui), mais do que em outros, Lynch tenta criar uma ligação com a cultura pop, mas, como em Veludo azul, na procura por um certo interior norte-americano. Para ele, as figuras perdida pela estrada – e elas são muitas em Coração selvagem – são estranhas e ajudam a definir a realidade para o casal Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern).
Se em 1999, Lynch voltou ao Festival de Cannes com o sensível História real (crítica completa aqui), que foi comprado pela Walt Disney para distribuição mundial, em 2001 ele recebeu a Palma de Ouro de melhor diretor com Cidade dos sonhos (crítica completa aqui), dividindo a cena com os irmãos Coen, por O homem que não estava lá. O prêmio de melhor filme foi para O quarto do filho, de Nano Moretti, e estavam na mostra competitiva A pianista, de Michael Haneke, Vou para casa, de Manoel de Oliveira, Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, e o desenho animado Shreck.

Coração selvagem.Blog

No entanto, o filme que rendeu mais polêmica da trajetória de Lynch foi exatamente a adaptação para o cinema de Twin Peaks, exibido na mostra competiva de Cannes em 1992. Tarantino, que estreava por lá com seu Cães de aluguel, saiu da sessão desapontado, dizendo que nunca mais veria um filme do diretor, do qual se dizia fã. Pedro Almodóvar – um dos integrantes do júri, que tinha como presidente Gérard Depardieu –, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.
Twin Peaks – Fire walk with me figurou ao lado de filmes que acabaram se tornando referências, como O jogador, de Robert Altman, Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, Retorno a Howards End, de James Ivory, O fim de um longo dia, de Terence Davies, e Simples desejo, de Hal Hartley. Quem venceu foi As melhores intenções, de Bille August, que já havia recebido a Palma pelo ótimo Pelle – O conquistador.
É a melhor obra de Lynch e aquela que antecipa seus filmes mais recentes (como A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos), sendo menos hermético do que todos eles. É, no entanto, o cineasta em estado bruto, uma paranoia visual em vermelho, com contrastes de verde, amarelo e azul.

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Laura Palmer é o foco deste filme, ao contrário da série, em que havia inúmeros personagens, e talvez esta seja a principal distância que o filme mantém da série (já que a fotografia de Ron García e a música arrebatadora de Angelo Badalamenti continuam iguais, senão melhores). Não há o hotel Great Northern, ou seja, não há também cenas de humor ou de encontros de estrangeiros pelos corredores do hotel; os conflitos da madeireira, os discursos estranhos do prefeito, também não vemos os relacionamentos amorosos do xerife e do dono do hotel ou as inúmeras passagens na lanchonete, onde aconteciam alguns dos momentos mais divertidos da série; nem tanta presença de Dale Cooper, cujo bom humor certamente mantinha boa parte da série; ou seja, de certo modo, é outra coisa (cenas extras com alguns desses personagens foram cortadas, e comenta-se que teriam até uma hora, que há anos se promete serem lançadas).
Todavia, o clima da série está todo lá, com a inserção de jovens que tentam lidar com a proximidade de Laura com a morte (Bobby e James, seus amantes), o homem perturbado que guarda o diário de Laura (e que na série mora ao lado dos Tremond, suicidando-se em sua estufa); o cafetão Jaques Renault; a misteriosa casa de Laura Palmer; a dança do anão e a sala vermelha; os semáforos noturnos impedindo a passagem ou não dos motoqueiros; e mais: há um plano em negativo que conduz a outro universo, desencadeando um universo bom. O universo do filme se reduz especificamente à trajetória de Laura, à sua solidão; por isso, para uma série tão expansiva, cheia de personagens, fica um vazio, mas é o vazio a ser completado com a história dela, para que entendamos o que vem depois. Desse modo, o filme se sustenta sozinho, também pela qualidade da narrativa e a direção excepcionalmente concentrada de Lynch.
É importante dizer que o cineasta transforma vários símbolos (o anão, Bob, Mike) em figuras importantes para tentar esclarecer este filme. O sangue, ao final, transformando-se em cereal de milho mostra a “garmonbozia” (mistura de dor e sofrimento) do anão e toda a simbologia da série – do menino Tremond, passando pela cena do jantar e do café da manhã na casa dos Palmer, até o menino atrás da máscara (o mesmo menino Tremond), comendo o cereal.
É como se o mundo se alimentasse também dessa dor e através desse alimento nativo, de séculos. A floresta de Lynch representa séculos de simbologia – nela, esconde-se algo sempre estranho, uma ameaça. E os clarões na floresta, onde mora a Senhora do Tronco, iluminam, na verdade, os personagens do outro mundo, que não existem. A cena em que Laura e Bobby recebem drogas no meio do bosque representa esse prenúncio de perigo. Laura vê as árvores, a floresta, como uma representação deste subterfúgio e de seu desaparecimento.
Do mesmo modo, entrar num quadro ou num sonho pode ser um perigo iminente em um universo onde se busca os amigos para fugir de casa, do sonho de vida. Lynch quer desenhar esta pintura, porém não especifica as cores, deixando que façamos a própria mistura.
E, ao fazer reaparecer o anjo que some num quadro de Laura Palmer – com o qual ela sonha, como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, ao final, Lynch encerra a série e o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

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Twin Peaks.Filme.Cinema

Mas há, antes de tudo, o prólogo do filme. Depois da abordagem surreal a um ônibus escolar de Fargo pelo FBI, ele mostra a investigação de Chester Desmond (Chris Isaak), que, ao contrário do agente Cooper, prefere códigos por meio de Lil, vestida de vermelho, e Sam Stanley (Kiefer Sutherland), do assassinato de Teresa Banks, que antecede o de Laura Palmer, na série de TV. Depois de uma estranha passagem pela delegacia de Deer Meadow, onde aconteceu o crime, eles vão a uma lanchonete, Hap’s Diner, em frente da qual há a imagem de um palhaço em neon chorando, entrevistam a antiga chefe de Teresa, e no dia seguinte encontram o dono de um campo de trailers, Carl Rodd, feito por Harry Dean Stanton, com um curativo que não consegue cobrir totalmente o sangue na testa, quando são visitados por uma senhora quase anã, que cobre um dos olhos com um pedaço de pano. Em seguida, temos cenas de sonho e uma aparição surpreendente de David Bowie em meio a chuviscos de TV. Há mais: postes habitados por sons indígenas, um anel embaixo de um trailer que pode ser uma passagem para um universo paralelo e uma atmosfera que impressiona. Trata-se da meia hora mais estranha da trajetória de David Lynch e o definidor de que o filme para o cinema de Twin Peaks é uma obra-prima.  Coração selvagem é um ótimo filme, mas é Twin Peaks – Fire walk with me (crítica completa aqui) que merecia a Palma de Ouro.

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Barton Fink – Delírios de Hollywood (1991)

Por André Dick

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Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, além de premiado nas categorias de ator (John Turturro) e diretor (Joel Coen, quando Ethan ainda assinava apenas como roteirista), Barton Fink é talvez o filme mais ousado dos realizadores de Arizona nunca mais e Fargo. Numa época em que ainda eram praticamente esquecidos pelo Oscar, cujo prêmio principal ganharam com Onde os fracos não têm vez, os Coen também revelam uma transgressão acima de suas obras recentes.
Barton Fink (Turturro) é um escritor de teatro que começa a se destacar por volta de 1941, e vai para Hollywood (daqui em diante, possíveis spoilers). Instalado no Hotel Earle, vazio e perturbador (muito parecido com o Overlook, de O iluminado), em que os sapatos são colocados à porta do quarto, à espera de serem engraxados pelo atendente, Chet (Steve Buscemi), ele recebe ordens do número um do estúdio, Jack Lipnick (Michael Lerner) para criar um roteiro sobre um certo lutador de boxe, com todos os clichês que o gênero propõe. Enquanto fica sentado à frente da sua máquina antiga, Barton tenta alcançar sua imaginação, mas é impedido pelo barulho do vizinho, Charlie Meadows (John Goodman), e um papel de parede que insiste em ficar descascando. Barton é uma espécie de Joseph C. Gillis, de Crepúsculo dos deuses, com talento, mas também em busca da aceitação de Hollywood.

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Quando liga para a recepção a fim de pedir que o vizinho não faça mais ruídos que podem tirar sua concentração, Meadows aparece à porta. Ambos conversam e Barton deseja mostrar que está acima do novo amigo, um vendedor de seguros que vê como uma representação do povo incapaz de compreender seu teatro revolucionário: “Minhas histórias não interessam a alguém como você”. O olhar de Charlie, não percebido por Barton, repreende a afirmação. Repreende mais: o filme exatamente coloca Barton e Meadows em quartos vizinhos para que possam entender o quanto são parecidos. As moscas traduzem o calor do local, assim como o corredor, a falta de inspiração, e impressiona como os Coen conseguem extrair da direção de arte de Dennis Gassner (indicada ao Oscar), apoiada na fotografia de Roger Deadkins, uma espécie de complemento à sua visão sobre a Hollywood dos anos 40, reconstituída primorosamente em seus papéis de parede, estúdios agradáveis, salões de dança animados ou melancólicos, rajadas de luz sobre a grama verde e uma estrada que contorna o parque se direcionando para o nada.
Diante da pressão, Barton procura inspiração em filmes com astros musculosos e que tratavam das lutas de boxe. Ainda precisa lidar com o supervisor de produção do filme, Ben Geisler (Tony Shalhoub), que recita frases enigmáticas, e com o braço direito de Lipnik, Lou Breeze (Jon Polito).
Numa sequência, ao estilo diferente dos Coen, Barton assiste a uma luta e seu olhar, fixo na tela, traz a desilusão de um sistema que não permite a imaginação do autor, obrigando-se a se render ao comercial. Barton ainda tenta respirar uma visão social, do proletariado, ou seja, não sabe o que esperam dele. Mais ainda complexa é sua maneira de se livrar do fato de que o diretor do estúdio quer uma história antecipa, à beira da piscina. Obviamente, Barton não a tem, e nem por isso ele deixa de prestar loas à sua condição de artista, colocando-se até mesmo contra seu subordinado fiel, Breeze. A única via de escape de Barton, no quarto abafado e com mosquitos, é o retrato de uma menina na parede, olhando para o mar, como se pertencesse a um cenário de Edward Hopper. Para o quadro, o filme se dirige toda vez que Barton Fink sente que o quarto é um lugar abafado demais para sua criatividade.

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Em meio à sua trajetória, ele encontra um dramaturgo conhecido, WP Mayhew (John Mahoney), que admira, e pede conselhos para conseguir colocar no papel suas ideias. O dramaturgo passou pelo mesmo que ele, é um bêbado, que mija em árvores, enquanto sua secretária, Audrey Taylor (Judy Davies), escreve seus roteiros. É por ela que Barton cria interesse.
Assim, os Coen focalizam a solidão de Barton em Los Angeles, apenas interrompida por Charlie e pela visão feminina de Audrey. Isso não o impede de ser procurado por uma dupla de detetives antissemita, em plena época de surgimento de Hitler. São esses dois policiais que, numa hora determinada, precisaram enfrentar a revanche do Hotel. Barton e Meadows são dois dos personagens mais consistentes e complexos da trajetória dos Coen porque representam, nesse sentido, a história que se passa por trás dele: o poder de Hollywood, em seu início; a proximidade da Guerra e toda a loucura que ela traz junto; o ser humano inconfiável (como indicar sua visita a parentes?). John Goodman havia atuado em Arizona nunca mais, como o bandido que escapava da prisão para raptar o bebê de Nathan (Nicolas Cage), e empreende uma atuação notável, enquanto Turturro, logo depois de Faça a coisa certa, entrega outro desempenho magnífico. E os Coen oferecem, em seu quarto filme, logo depois de Gosto de sangue, Arizona nunca mais e Ajuste final, o que eles acabaram comprovando mais adiante em filmes como O homem que não estava lá, Onde os fracos não têm vez, Fargo, O grande Lebowski e Bravura indômita: uma paixão incondicional pelo cinema e pelas formas que se movimentam nele, indo do humor ao policial noir, do suspense ao drama, da sátira a costumes a uma crítica corrosiva do sistema, seja qual for ele.

Barton Fink, EUA, 1991 Diretor: Joel Coen, Ethan Coen Elenco: John Turturro, John Goodman, John Mahoney, Judy Davis, Jon Polito, Michael Lerner, Tony Shalhoub Produção: Ethan Coen, Bill Durkin, Jim Pedas, Ted Pedas Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Duração: 116 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 4 estrelas e meia

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Paris, Texas (1984)

Por André Dick

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Nascido em Düsseldorf, na Alemanha, em 1945, Wenders fez filmes memoráveis logo no início da carreira, como O medo do goleiro diante do pênalti e, principalmente, O amigo americano. Em 1982, seguiu para os Estados Unidos, onde trabalhou com Coppola no filme Hammett, uma ficção sobre o escritor Dashiel Hammett. Interessado pela paisagem dos Estados Unidos, ele não demorou a compor sua obra-prima, Paris, Texas, um filme ao mesmo tempo reflexivo e inovador, no trabalho com os planos, com os enquadramentos, do holandês Robby Müller, influenciando de maneira decisiva o gênero road movie e servindo como referência para filmes posteriores.
O cinema de Wim Wenders sempre esteve ligado ao trabalho elaborado com a imagem: Asas do desejo tem uma fotografia tanto em preto e branco quanto colorida (dependendo do ponto de vista, se dos anjos ou dos homens), por exemplo. Mas, ainda assim, Asas do desejo não consegue sobrepujar Paris, Texas, seu grande filme de 1984, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e a referência dos caminhos adotados em sua trajetória.
Wenders investiga o interior dos personagens, analisando seus conflitos e angústias, a começar por Travis Henderson (Harry Dean Stanton), que, depois de vagar durante quatro anos (o filme inicia com ele de boné vermelho, caminhando em meio a uma pradaria, com o céu azul ao fundo), acaba sendo ajudado por um médico, Dr. Ulmer (Bernhard Vicki), e reencontrado pelo irmão, Walt (Dean Stockwell), no Texas, perto do México. Sem lembrar do que aconteceu, parte numa viagem de estrada para Los Angeles, pois não quer viajar de avião, onde encontra seu filho, Hunter (Hunter Carson), a quem abandonou, e cujas imagens do passado só podem ser recuperadas em alguma película de Super 8. E, assim como Walt, sua esposa Anne (Aurore Clément), que ajuda a cuidar de Hunter, nunca mais havia tido notícias de Travis. Com uma fotografia de um terreno comprado em Paris, cidade do Texas – pois ele sempre ouvira da mãe que ela havia conhecido seu pai lá –, ele volta a procurar um entendimento com o irmão e a família. Querendo reconstruir sua vida, ou pelo menos reencontrar um período esquecido dela, parte em busca da ex-mulher, Jane (Nastassja Kinski), junto com seu filho de sete anos. Trata-se, sem dúvida, de uma história simples, mas que cresce na visão de Wenders, à medida que ele coloca Jane como uma estranha também para Travis e seu filho (em seu jogo de espelhos e atendimento), mas antecipa todo o afeto que tem por eles através do silêncio.

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As viagens são sempre realizadas em meio à reflexão, mas o que permanece, além do retrato da propriedade adquirida, que pode regressar à infância, é justamente o vínculo da família, mesmo que ele se reproduza rapidamente na tristeza contida de cada personagem. Dificilmente a paisagem do interior dos Estados Unidos foi tão bem registrada, o que viria a influenciar muitos cineastas depois, a exemplo de David Lynch, Joel e Ethan Coen, Walter Salles Jr. e o próprio Terrence Malick (sobretudo em seu filme mais recente, To the wonder).
Se como road movie, o filme de Wenders é uma referência central, o roteiro de L.M. Kit Carson, baseado em texto de Sam Shepard, que interpretou o fazendeiro em Dias de paraíso, de Malick, consegue sugerir muitas vezes em vez de mostrar, o que o torna uma raridade. O início, quando o personagem central vaga no deserto, é notável, pois consegue, em seguida, desencadear todo o passado dele, mas sem exageros ou intensidade dramática fora da ordem. Para este efeito, Harry Dean Stanton é um ator perfeito. Um pouco antes de se tornar pai de Molly Ringwald em A garota de rosa shocking ou um dos coadjuvantes preferidos de David Lynch (em Twin Peaks e Império dos sonhos), Stanton entrega uma das maiores atuações da década de 80, e não muito longe dele ficam as de Stockwell e Kinski (que havia feito um cult, A marca da pantera, dois anos antes) e do garoto Hunter Carson.
Embora críticos considerem que a obra de Wenders se tornou comum – com exceção a seu último filme, a pintura em forma de documentário, em 3D, Pina –, Paris, Texas antecipa também Até o fim do mundo, uma reflexão subestimada de Wenders sobre o fim do milênio. É claro, por exemplo, que o retrato apresentado pelo filme sobre o fim de século – a história se passa em 1999 – também trazia o passado. Paris, Texas, nesse sentido, é um filme sintomático, na medida em que Wenders queria fazer uma transição, uma ponte de ligação entre os anos 50, 60 e 70 – esta a década em que Hollywood teve alguns de seus maiores sucessos da história, consagrando cineastas de grande público, como Steven Spielberg e George Lucas – e os anos 90. As paisagens de Paris, Texas trazem à lembrança os faroestes dos anos 50 e 60 de Hollywood, mas também a luminosidade da década de 80. Travis é uma espécie de Ulisses vagando por esse cenário mítico (como escreve Claude Beylie, é “uma espécie de western imóvel, sem diligência, sem xerife, sem índios, uma viagem ao deserto tendo como guia um Ulisses taciturno e mudo”), e seu aspecto acaba criando um paralelo com a figura vital desse gênero, a do desbravador. Ainda assim, Travis está mais propenso a suas perdas anteriores, capaz de se equilibrar com o presente que ainda precisa criar. Desde sua ausência física do início do filme até sua curiosidade em descobrir onde está Jane, o personagem parece passar por uma espécie de descoberta que pode tanto reerguê-lo quanto mantê-lo no mesmo lugar. Wenders utiliza sua sensibilidade para traduzir, por meio de Travis, sua presença estrangeira na América: se ele faz parte daquele cenário, Wenders também se sente incluído. No entanto, ele não quer permanecer no lugar em que estava antes; o movimento passa a ser sua casa.

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O filme se apresenta, conscientemente, como um retrato de uma década que prenunciou a “globalização”. Todos os seus outdoors e seus personagens deslocados, em quartos de hotel e ao longo de uma estrada, cores de rodovia se misturando com o pôr do sol, ou às placas dos veículos, são o prenúncio de uma melancolia despertada pela trilha sonora de Ry Cooder. Estar em meio ao deserto também significa estar em meio ao fim do mundo. Paris é uma cidade do interior do Texas, mas, como em Até o fim do mundo, pode ser tanto a aproximação quanto a distância, suscitada pelo nome, o mesmo da capital francesa e pelo relato da mãe de Travis. A figura de Nastassja Kinski ajuda a dar essa impressão europeia ao filme, com o contraste entre o cabelo alaranjado e o figurino rosa. O personagem está abalado não apenas pela separação daquela que não encontrará mais, mas também pela mulher em que acreditava para ter uma vida em comum. Seu filho, em sua caminhonete, passa a ser esta possibilidade, porém não apenas ele: a própria paisagem que Wenders filma com refinamento pode levar este personagem não a uma localidade determinada, mas compreender que estar entre dois pontos distantes é a maneira mais propícia para imaginar um reencontro.

Paris, Texas, Alemanha/ França/ EUA, 1984 Diretor: Wim Wenders Elenco: Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Dean Stockwell, Aurore Clément, Hunter Carson Produção: Anatole Dauman, Don Guest Roteiro: L. M. Kit Carson, Sam Shepard Fotografia: Robby Müller Trilha Sonora: Ry Cooder Duração: 150 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Apocalypse now (1979)

Por André Dick

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O cineasta Francis Ford Coppola foi sempre reconhecido, desde o início da saga de O poderoso chefão, como muito próximo da megalomania. Apesar disso, ele teve uma função de destaque ao ajudar novos talentos da Nova Hollywood, como George Lucas, com quem brigou e fez as pazes algumas vezes e que quase realizou Apocalypse now. Se hoje Coppola realiza produções mais discretas (como Tetro e Twixt), ficaram na memória dos produtores os riscos dos anos 80, com O fundo do coração e Cotton Club, e o grandioso Drácula de Bram Stoker, do início dos anos 90. Ainda assim, as filmagens de Apocalypse now, adaptação do livro de guerra “O coração das trevas”, de Joseph Conrad, que podiam aproximá-las de um retrato próximo do inferno, foram as mais conturbadas em muitos anos, e Cimino tentou copiá-las (com êxito) em O portal do paraíso.
Um ator principal substituído depois de cenas rodadas (Harvey Keitel por Martin Sheen, conhecido por Terra de ninguém, de Malick, e que sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens), no período mais chuvoso das Filipinas, a equipe atacada por doenças de todos os tipos, e Marlon Brando fazendo inúmeras exigências e cachê milionário para fazer quase uma participação (embora especial) são os principais elementos dessa produção que se atreveu a desafiar o próprio desastre anunciado pela Guerra do Vietnã, tornando-se, por si só, um desastre financeiro. Continua atual a saga do capitão Benjamin Willard (Sheen), convocado por superiores para tentar encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Brando), que abandonou o exército e se embrenhou nas matas do Camboja com uma espécie de seita a segui-lo como um messias. Homem exemplar do exército, a única razão para suas atitudes seria: a guerra o enlouqueceu.

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Imerso no álcool, o comandante fica impassível diante do pedido, mas segue com um grupo para ajudá-lo. Todos inexperientes e pouco adequados ao cenário da guerra, como um conhecido surfista, Lance (Sam Bottoms). Quando eles chegam a um campo de batalha, e Willard pergunta quem manda ali, sem que se saiba realmente, eles encontram o Tenente Coronel Bill Kilgore (um Robert Duvall antológico), que logo se encanta com a presença do conhecido surfista. Seu hobby é justamente surfar (ou tentar surfar) nas águas do Vietnã. Depois de um ataque orquestrado pela “Cavalgada das Valquírias” e cercado de bombas, ele diz: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”. Com um chapéu de caubói, não há mais índios para matar, e sim vietcongs.
Tudo em Apocalypse now é simbólico, mesmo quando o helicóptero desce num acampamento carregado de coelhinhas da Playboy, e imaginamos não muito diferente o set de filmagem de Coppola, com uma série de rebeldes típicos dos anos 70 (não apenas Brando, como também o “sem destino” Dennis Hopper e, claro, Coppola), sendo possível ver uma atmosfera de show de Jim Morrison no The Doors. Esta primeira parte de Apocalypse now, com seu ritmo entre o violento e o meditativo, é clássico, pois acompanhamos a emoção de Coppola ao adentrar na floresta, com as curvas sinuosas dos rios, as palmeiras e cabanas construídas milimetricamente para sequências de ação grandiosas e que mesmo hoje parecem superar muitos filmes de guerra (os helicópteros em cadeia e em fúria martelam os ouvidos). Ele realmente consegue examinar a guerra como um lugar da loucura forçada, sobretudo na figura de Bill Kilgore. À medida que a selva vai ficando densa, Coppola parece carregado, e carrega o espectador, para o próprio “coração das trevas”. “É o horror, é o horror”, vai repetir mais tarde o coronel Kurtz para um impassível Willard.

Apocalypse now

Apocalypse now, que dividiu o prêmio principal do Festival de Cannes com O tambor, é resultado de idiossincrasias misturadas com genialidade e, à medida que o espectador se torna mais familiarizado com o ambiente, é como se também não conseguisse sair dele. Ainda estamos longe dos humores de Forrest Gump correndo para salvar seus companheiros em meio a bombas de napalm, e a meditação constante de Willard vai se perdendo, como os vultos de seus companheiros, na própria loucura que gerou também a seita de Kurtz e os fez reféns de uma espécie de paraíso perdido em meio à mata. Coppola também evidencia seu cansaço, ao se entregar e entregar sua equipe à própria insegurança do cenário. “Por que Kurtz fez isso?”, vem sempre à mente de Willard, e para o espectador isso passa a exigir não apenas expectativa de um reencontro, inclusive também aversão a ele ter de existir, assim como da compreensão de que ele também, afinal, inserido no mesmo contexto, pode vir a ficar louco. Pois o Coronel Kurtz é Marlon Brando, um ator que um ano antes havia feito o pai de Superman e antes foi o Dom Corleone supremo. Ele é a própria metáfora de Coppola para a guerra do Vietnã: ele fala em ritmo trôpego, e não sabemos exatamente por que há tantas pessoas a segui-lo (Brando se negou a contracenar com Hopper, que faz um fotógrafo seguidor que nunca encontra o mestre, ou melhor, este anuncia o que o próprio ator acaba enfrentando no filme). Mas entendemos toda a atmosfera. Quando surge o território de Kurtz, detrás da neblina, o espectador parece chegar a um espaço habitado pelos povos indígenas, e o cheiro de napalm se mistura com outros.
Atrás das sombras, com a água gotejando da careca, Brando olha para Sheen como Coppola olha para o espectador: por trás de uma possível genialidade, há um vulto precário. Nesse sentido, Coppola metaforiza a guerra do Vietnã como o fracasso de um homem para enfrentar uma guerra e sua busca por aquilo que pode ser capaz de reverter sua expectativa diante do outro. O contraponto não podia ser mais exato do que Willard. Ele viaja para cumprir uma missão. Será que, de fato, ele conseguirá entender esse homem que acaba buscando no material de pesquisa que leva junto consigo? É possível manter uma esperança e uma fidelidade àquilo que se imagina conhecer?

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As respostas não estão dentro do filme, mas em sua moldura. Por mais que surjam novos fotógrafos, é importante lembrar que um dos trunfos de Apocalypse now, para que se conte esta história terrível da guerra, é o italiano Vittorio Storaro, vencedor do Oscar pelo trabalho. Imaginam-se as dificuldades pelas quais a equipe tenha passado, mas não interfere, em nenhum momento, no trabalho brilhante de Storaro, que consegue iluminar e encobrir as cenas com névoa e fumaça da maneira mais adequada – ele consegue destacar filmes como O céu que nos protege e Dick Tracy de forma iniguavável. A fotografia, nesse sentido, é um personagem tão forte quanto os que circulam no filme, sustentando, por exemplo, boa parte da atuação de Brando e mesmo de Sheen, um ator mais introspectivo (para não dizer exatamente limitado, pois deve ter sido uma dificuldade chegar ao fim das filmagens), e que, por isso, é filmado de maneira discreta. No entanto, o mérito dessa escolha é de Coppola, o qual consegue, em seu filme, antecipar o que Oliver Stone e Kubrick fariam tão bem, em Platoon e Nascido para matar, retratando o calor da selva como motivo para a loucura e a transgressão, embora não seja o motivo para que esta guerra seja enfrentada. Para Coppola, a guerra traz a síntese do povo que dela faz parte. É muito difícil, diante dessa verdade, não enlouquecer.

Apocalypse now, EUA, 1979 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Frederic Forrest, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Albert Hall, Harrison Ford, Dennis Hopper, Scott Glenn, Bo Byers, Linda Carpenter Produção: Francis Ford Coppola Roteiro: Francis Ford Coppola, John Milius, Michael Herr Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Carmine Coppola, Francis Ford Coppola Duração: 153 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

Festival de Cannes

Por André Dick

Festival de Cannes.

A partir de hoje, apresentaremos algumas críticas de filmes premiados com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, começando com Apocalypse now, que dividiu a conquista com O tambor, em 1979. Há, também, duas críticas sobre os filmes mais recentes a receberem o prêmio principal: a de Amor, aqui, vencedor de 2012, e a de A árvore da vida, aqui, vencedor de 2011.
A seleção de filmes em competição na 66ª edição do festival, que iniciou no dia 15 de maio com a exibição de O grande Gatsby, de Baz Luhrmann, se encontra aqui. Ela inclui novos filmes de Alexander Payne, Joel e Ethan Coen, Asghar Farhadi, Roman Polanski, Nicolas Winding Refn, François Ozon e Jim Jarmursh. Na mostra que acompanha o festival, “Um certo olhar”, temos o novo filme de Sofia Coppola, Bling ring: a gangue de Hollywood. Com Steven Spielberg à frente do júri, o Festival continua sendo a maior referência para produções que irão se destacar ao longo do ano.