Melhores filmes 2000-2009

Por André Dick

Imagem.Melhores filmes 2000.2009.CinematographeCom o intuito de organizar uma seleção de filmes da década de 2000, assim como aconteceu em relação aos anos 80 e 90, é apresentada, aqui, uma lista de melhores a cada ano, de 2000 a 2009, cada uma seguida por menções honrosas. O cinema dos anos 2000 é caracterizado por apresentar o cinema asiático de uma maneira que nunca havia acontecido em décadas anteriores.
Cineastas vindos de Taiwan (Apichatpong Weerasethakul), da China (Jia Zhangkhe), do Japão (Wong Kar-Wai, Hirokazu Koreeda, Katsuhito Ishii), da Coreia do Sul (Joon-ho Bong), da Malásia (Tsai Ming-Liang) foram correntes nessa década, em que o cinema norte-americano também continuou abrindo espaço para diretores estrangeiros, a exemplo de Ang Lee, Werner Herzog, Alfonso Cuarón, Wim Wenders, Paul Verhoeven e Guillermo del Toro.
Na Turquia, surgiu Nuri Bilge Ceylan, na Tunísia Abdellatif Kechiche, e, na Índia, Tarsem Singh.
Ainda no México, como Cuarón e Del Toro, surgiram Carlos Reygadas e Alejandro González Iñarritu.
Também teve destaque o cinema iraniano, com cineastas como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi.
Cineastas que começaram produzindo nos anos 70, 80 e 90 continuaram a mostrar seus filmes, como David Lynch, Martin Scorsese, Steven Spielberg, Tim Burton, David Cronenberg, Oliver Stone, Woody Allen, William Friedkin, Joel e Ethan Coen, James Cameron, Michael Mann, Gus Van Sant, Brian De Palma, Robert Altman, Ron Howard, Jim Jarmusch e Clint Eastwood. Numa retrospectiva, chamou atenção como o trabalho de Ridley Scott nos anos 2000 equivale, em qualidade, ao que mostrou entre Os duelistas e A lenda, nos anos 70 e 80. Entre os anos 2000 e 2009, de cineastas que não haviam se afirmado tanto anteriormente, estão Kathryn Bigelow e M. Night Shyamalan.
O austríaco Michael Haneke retomou seu trabalho firmado nos anos 90 principalmente por meio do Festival de Cannes, assim como os irmãos Dardenne e Lars von Trier. O espanhol Pedro Almodóvar prosseguiu sua trajetória com obras fortes, a exemplo de Fale com ela. O francês Jean-Pierre Jeunet, depois de uma década de 90 interessante, apresentou uma personagem chamada Amélie Poulain. Outro francês, Gaspar Noé, apostou na polêmica de suas obras, como, em outro patamar, François Ozon. E Cristopher Honoré e Céline Sciamma seguiram a linha de uma visão da juventude.
A geração ligada ao cinema indie dos anos 90 continuou seu trabalho nos anos 2000: Quentin Tarantino, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Darren Aronofsky, Alexander Payne, Spike Jonze, Hal Hartley, Richard Linklater, Sofia Coppola e Todd Solondz. David Fincher confirmou seu talento já entrevisto nos anos 90 em filmes como Seven. Surgiram Greg Mottola, com sua visão de juventude, assim como Judd Apatow, depois da série Freaks and geeks, com uma comédia baseada em situações familiares. Noah Baumbach surgiu escrevendo roteiros com Wes Anderson e logo enveredou por uma trajetória própria sólida, assim como David O. Russell.
Também nos Estados Unidos, surgem cineastas com inclinação para o espetáculo, como Peter Jackson, J.J. Abrams, Cristopher Nolan, Bryan Singer e Zack Snyder, outros para o drama cotidiano, como Jason Reitman e Kelly Reichardt, ou drama histórico ou atual, com James Gray, e ainda para elementos de ficção científica no cotidiano, a exemplo de Richard Kelly.
Charlie Kaufman fez uma parceria exitosa com Michel Gondry, outra revelação vinda dos videoclipes, e fez seu próprio filme.
Os irmãos Wachowski tentaram avançar em seus experimentos com as continuações de Matrix e com Speed Racer, enquanto os irmãos Peter e Bobby Farrelly continuaram a atuar no campo da comédia.
O inglês Terry Gilliam, o sueco Lukas Moodysson e o alemão Tom Tykwer trouxeram experimentos estranhos, entre o fantástico, o histórico e o familiar. Da Inglaterra, passaram a se destacar Guy Ritchie, Lenny Abrahamson, Stephen Daldry, Steven McQueen e Edgar Wright. Da Holanda, Anton Corbijn.
No Canadá, surgiram Denis Villeneuve e o jovem cineasta Xavier Dolan, e Atom Egoyan voltou a filmar em grande quantidade.
Na Austrália, manteve sua trajetória Jane Campion, e Baz Luhrmann se firmou, assim como Greg Mclean.
E, no universo da animação, apesar da presença da Pixar, foi Hayao Miyazaki quem continuou se destacando. Entre os cineastas brasileiros, Walter Salles e Fernando Meirelles fizeram carreira internacional. Assinala-se o surgimento de cineastas como Laís Bodanzky, Jorge Furtado, José Padilha, Anna Muylaert e Cláudio Assis.
Antes da lista dos melhores filmes de 2000-2009, segue uma de obras com diretores, atores, atrizes dos quais gosto, ou que suscitaram (e ainda suscitam) uma grande recepção, alguns deles ganhando prêmios importantes, igualmente vistos. Se há filmes que apreciamos em minoria, há outros que parecem receber elogios acima do que percebemos. Alguns que estavam nessa lista, quando revistos, foram para a lista de melhores e de menções honrosas. Alguns desses eu gostaria de assistir novamente, para ver se realmente não possuem um valor não visto na primeira ou segunda sessão, e outros eu considero que possuem um estilo e uma condução que não me atrairiam para uma nova visão. Seleciono esses por considerar que eles possuem, de qualquer modo, uma importância para o cinema dos anos 2000, em maior ou menor escala, e que possuem – como todos os filmes – pequenos ou grandes admiradores, alguns recebendo, inclusive, um status de cult:

X-Men (2000), Código desconhecido (2000), A máquina do tempo (2000), Antes de anoitecer (2000), Revelação (2000), Corpo fechado (2000), Do que as mulheres gostam (2000), Planeta vermelho (2000), A praia (2000), O pântano (2001), Moulin Rouge (2001), Assassinato em Gosford Park (2001), Que horas são? (2001), O quarto do filho (2001), Caramuru – A invenção do Brasil (2001), Millenium Mambo (2001), 15 minutos (2001), Dragonfly (2001), A mexicana (2001), A professora de piano (2001), Minority Report (2002), Confissões de uma mente perigosa (2002), Ararat (2002), Ali (2002), Durval Discos (2002), Femme fatale (2002), Para sempre Lylia (2002), Gerry (2002), Sinais (2002), Vida que segue (2002), Full frontal (2002), Spider (2002), Correndo atrás do diploma (2002), Herói (2002), Eternamente sua (2002), Alex & Emma (2002), Escola do rock (2003), O amor custa caro (2003), Identidade (2003), As invasões bárbaras (2003), O apanhador de sonhos (2003), Oldboy (2003), Uma saída de mestre (2003), Ouro carmim (2003), Os sonhadores (2003), X-Men 2 (2003), Duplex (2003), O segredo de Charlie (2003), Matadores de velhinhas (2004), Quarteto fantástico (2004), Mal dos trópicos (2004), O clã das adagas voadoras (2004), Closer (2004), Meu tio matou um cara (2004), A lenda do tesouro perdido (2004), A inveja mata (2004), Má educação (2004), Tudo acontece em Elizabethtown (2005), Match Point (2005), Syriana (2005), Plano de voo (2005), O Código Da Vinci (2005), Stay (2005), Últimos dias (2005), A vida dos outros (2006), O hospedeiro (2006), A dama na água (2006), Instinto selvagem 2 (2006), Diamante de sangue (2006), Cartas de Iwo Jima (2006), Borat (2006), Old joy (2006), Perfume (2006), Reprise (2006), Filhos da esperança (2006), Um plano perfeito (2006), Juno (2007), Sunshine – Alerta solar (2007), Eu sou a lenda (2007), The bucket list (2007), Eles, os vivos (2007), Quem quer ser um milionário? (2008), 35 doses de rum (2008), Vidas que se cruzam (2008), Deixa ela entrar (2008), As duas faces da lei (2008), Os indomáveis (2008), Horas de verão (2008), Gomorra (2008), Um sonho possível (2009), Os homens que encaravam as cabras (2009), Presságio (2009), Dente canino (2009), Sr. Ninguém (2009), Tetro (2009).

Como observado na lista aos melhores filmes dos anos 1980 e 1990, alguns filmes que não agradam na primeira visão se mostram interessantes e até mesmo indispensáveis quando revisitados. Do mesmo modo, outros que a princípio parecem indispensáveis, com o passar dos anos parecem ter o impacto reduzido e se tornam menos importantes. A premissa de que um filme é bom ou fraco muitas vezes varia, mas a distância dos anos parece ser a melhor maneira de constatar isso. Os anos de cada filme estão de acordo com o IMDb, com raras exceções.
Espera-se que as listas levem você, cinéfilo e leitor, a rever ou descobrir alguns desses filmes.

Melhores filmes.Cinematographe.2000

1. As coisas simples da vida (Edward Yang)
2. Dançando no escuro (Lars von Trier)
3. Gladiador (Ridley Scott)
4. Bem-vindos (Lukas Moodysson)
5. Réquiem para um sonho (Darren Aronofsky)
6. Náufrago (Robert Zemeckis)
7. Garotos incríveis (Curtis Hanson)
8. O tigre e o dragão (Ang Lee)
9. O auto da Compadecida (Guel Arraes)
10. O homem sem sombra (Paul Verhoeven)

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11. Erin Brokovich (Steven Soderbergh) 12. Quase famosos (Cameron Crowe) 13. Amor à flor da pele (Wong Kar-Wai) 14. Plataforma (Jia Zangkhe) 15. Traffic (Steven Soderbergh) 16. Snatch (Guy Ricthie) 17. Dr. T. e as mulheres (Robert Altman) 18. Amores brutos (Alejandro González Iñarritu) 19. Entrando numa fria (Jay Roach) 20. Villa-Lobos (Zelito Viana)

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Menções honrosas: Alta fidelidade (Stephen Frears), As harmonias de Werckmeister (Béla Tarr), Chocolate (Lasse Hallström), Tolerância (Carlos Gerbase), Encontrando Forrester (Gus van Sant), Duas vidas (Jon Turteltaub), Psicopata americano (Mary Harron), Billy Elliott (Stephen Daldry), Eu, eu mesmo e Irene (Peter e Bobby Farrelly), Amnésia (Cristopher Nolan), UK 571 – A batalha do Atlântico (Jonathan Mostow), O peso da água (Kathryn Bigelow), Um homem de família (Brett Ratner), Sexy beast (Jonathan Glazer), 28 dias (Betty Thomas), Tenha fé (Edward Norton), O sexto dia (Roger Spottiswoode), Shaft (John Singleton), Missão: Marte (Brian De Palma)

Melhores filmes.Cinematographe.2001.2

1. Os excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson)
2. Cidade dos sonhos (David Lynch)
3. O senhor dos anéis – A sociedade do anel (Peter Jackson)
4. Donnie Darko (Richard Kelly)
5. O fabuloso destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet)
6. Ghost World (Terry Zwigoff)
7. Abril despedaçado (Walter Salles)
8. A espinha do diabo (Guillermo del Toro)
9. O amor é cego (Peter e Bobby Farrelly)
10. CQ (Roman Coppola)

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11. Bicho de sete cabeças (Laís Bodansky) 12. E sua mãe também (Alfonso Cuarón) 13. Chegadas e partidas (Lasse Hallström) 14. Os outros (Alejandro Amenábar) 15. O homem que não estava lá (Joel e Ethan Coen) 16. Falcão negro em perigo (Ridley Scott) 17. O escorpião de Jade (Woody Allen) 18. O diário de Bridget Jones (Sharon Maguire) 19. Inteligência artificial (Steven Spielberg) 20. Dia de treinamento (Antoine Fuqua)

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Menções honrosas: Cine Majestic (Frank Darabont) Entre quatro paredes (Todd Field), A promessa (Jack Nicholson), Tá todo mundo louco (Jerry Zucker), O invasor (Beto Brant), Um ato de coragem (Nick Cassavetes), Um anjo rebelde (Nick Castle), A última ceia (Marc Forster), Tempo de recomeçar (Irwin Winkler), Harry Potter e a pedra filosofal (Chris Columbus), Os queridinhos da América (Joe Roth), A cartada final (Frank Oz), Vanilla Sky (Cameron Crowe), Jimmy Bolha (Blair Hayes), Domésticas (Fernando Meirelles e Nando Olival), Zoolander (Ben Stiller), Planeta dos macacos (Tim Burton), A viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki), O assalto (David Mamet), Escrito nas estrelas (Peter Chelsom), K-Pax (Ian Softley), Iris (Richard Eyre), Kate e Leopold (James Mangold), Pulse (Kiyoshi Kurosawa), Amores possíveis (Sandra Werneck), Vida bandida (Barry Levinson), O closet (Francis Veber), Uma lição de amor (Jessie Nelson), Doce novembro (Pat O’Connor), Evolução (Ivan Reitman)

Melhores filmes.Cinematographe.2002

1. Cidade de Deus (Fernando Meirelles)
2. As confissões de Schmidt (Alexander Payne)
3. O senhor dos anéis –  As duas torres (Peter Jackson)
4. Fale com ela (Pedro Almodóvar)
5. Arca russa (Alexander Sukorov)
6. Irreversível (Gaspar Noé)
7. Distante (Nuri Bilge Ceylan)
8. As horas (Stephen Daldry)
9. Regras da atração (Roger Avary)
10. Retratos de uma obsessão (Mark Romanek)

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11. Japão (Carlos Reygadas) 12. Adaptação (Spike Jonze) 13. O pianista (Roman Polanski) 14. Longe do paraíso (Todd Haynes) 15. Dirigindo no escuro (Woody Allen) 16. K – 19 (Kathryn Bigelow) 17. Narc (Joe Carnahan) 18. O romance de Morvern Callar (Lynne Ramsay) 19. A última noite (Spike Lee) 20. Prenda-me se for capaz (Steven Spielberg)

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Menções honrosas: Estrada para perdição (Sam Mendes), Peso morto (Alain Berbérian, Frédéric Forestier), Um grande garoto (Chris Weitz), 8 Mile – Rua das ilusões (Curtis Hanson), Uma mente brilhante (Ron Howard), A estranha família de Igby (Burr Steers), Star Wars II – O ataque dos clones (George Lucas), Bellini e a esfinge (Roberto Santucci), Casamento grego (Joel Zwick), Embriagado de amor (Paul Thomas Anderson), A era do gelo (Chris Wedge, Carlos Saldanha), Infidelidade (Adrian Lyne), Voltando a viver (Denzel Washington), Houve uma vez dois verões (Jorge Furtado), Por um sentido na vida (Miguel Arteta), Equilibrium (Kurt Wimmer), Gangues de Nova York (Martin Scorsese), Dragão vermelho (Brett Ratner), O chamado (Gore Verbinski), O crime do padre Amaro (Carlos Carrera), Ônibus 174 (José Padilha), Cálculo mortal (Barbet Schroeder), Fora de controle (Roger Michell), Insônia (Cristopher Nolan), Códigos de guerra (John Woo), Dívidas de sangue (Clint Eastwood), Tudo ou nada (Mike Leigh), Ken Park (Larry Clark, Edward Lachman), Crimes em primeiro grau (Carl Franklin), Amor à segunda vista (Marc Lawrence), Chicago (Rob Marshall), Por um fio (Joel Schumacher), Solaris (Steven Soderbergh), Secretária (Steven Shainberg), The Strokes – In transit (Juliet Joslin), Reino de fogo (Rob Bowman), Frida (Julie Taymor), Cabin fever (Eli Roth), O quarto do pânico (David Fincher)

1. O senhor dos anéis – O retorno do rei (Peter Jackson)
2. Memórias de um assassino (Joon-ho Bong)
3. Casa de areia e névoa (Vadim Perelman)
4. 21 gramas (Alejandro González Iñárritu)
5. Alguém tem que ceder (Nancy Meyers)
6. Adeus, Dragão Inn (Tsai Ming-Liang)
7. Moça com brinco de pérola (Peter Webber)
8. Dogville (Lars von Trier)
9. Encontros e desencontros (Sofia Coppola)
10. Adeus, Lênin (Wolfgang Becker)

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11. Swimming Pool – À beira da piscina (François Ozon) 12. Anti-herói americano (Shari Springer Berman, Robert Pulcini) 13. Elefante (Gus van Sant) 14. Igual a tudo na vida (Woody Allen) 15. Matrix revolutions (Andy Wachowski, Lana Wachowski) 16. O homem que copiava (Jorge Furtado) 17. Hulk (Ange Lee) 18. As bicicletas de Belleville (Sylvain Chomet) 19. Tratamento de choque (Peter Segal) 20. O último samurai (Edward Zwick)

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Menções honrosas: Amarelo manga (Cláudio Assis), Abaixo o amor (Peyton Reed), Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood), Seabiscuit (Gary Ross), O novato (Roger Donaldson), A vida de David Gale (Alan Parker), O recruta (Roger Donaldson), Peixe grande (Tim Burton), O homem do ano (José Henrique Fonseca), Peter Pan (P.J. Hogan), Simplesmente amor (Richard Curtis), Voando alto (Bruno Barreto), O júri (Gary Fleder), Um duende em Nova York (Jon Favreau), Os vigaristas (Ridley Scott), Jogo de risco (William ‘Bill’ Phillips), Dom (Moacyr Góes), Todo mundo em pânico 3 (David Zucker), O mundo de Leland (Matthew Ryan Hoge), Cold Mountain (Anthony Minguella), Sylvia (Christine Jeffs), Por um triz (Carl Franklin), Harry Potter e o cálice de fogo (Mike Newell), Aos treze (Catherine Hardwicke), Primavera, verão, outono, inverno… e primavera (Ki-duk Kim), Papai Noel às avessas (Terry Zwigoff), Carandiru (Hector Babenco), Matrix reloaded (Andy Wachowski, Lana Wachowski), Procurando Nemo (Andrew Stanton, Lee Unkrich), O exterminador do futuro 3 – A rebelião das máquinas (Jonathan Mostow), Crimes de um detetive (Keith Gordon), Kill Bill – Vol. I (Quentin Tarantino), Medo (Jee-woon Kim), Uma saída de mestre (F. Mary Gray), O agente da estação (Thomas McCarthy), Lisbela e o prisioneiro (Guel Arraes)

Melhores filmes.Cinematographe.2004

1. O castelo animado (Hayao Miyazaki)
2. O sabor do chá (Katsuhito Ishii)
3. Sideways (Alexander Payne)
4. O mundo (Jia Zhangke)
5. A vida marinha com Steve Zissou (Wes Anderson)
6. Kill Bill – Vol. II (Quentin Tarantino)
7. 2046 (Wong Kar-Wai)
8. Meu amor de verão (Pawel Pawlikowksi)
9. Huckabees – A vida é uma comédia (David O. Russell)
10. O silêncio de Melinda (Jessica Sharzer)

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11. Hora de voltar (Zach Braff) 12. Tartarugas podem voar (Bahman Ghobadi) 13. Reencarnação (Jonathan Glazer) 14. Fahrenheit 9/11 (Michael Moore) 15. Primer (Shane Carruth) 16. Clean (Olivier Assayas) 17. Todo mundo quase morto (Edgar Wright) 18. Hotel Ruanda (Terry George) 19. Antes do pôr do sol (Richard Linklater) 20. A queda (Oliver Hirschbiegel)

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Menções honrosas: Menina de ouro (Clint Eastwood), Diário de uma paixão (Nick Cassavetes), Napoleon Dynamite (Jared Hess), Espanglês (James L. Brooks), Diários de motocicleta (Walter Salles), Homem- aranha 2 (Sam Raimi), Em boa companhia (Paul Weitz), Somersault (Cate Shortland), Troia (Wolfgang Petersen), Hellboy (Guillermo del Toro), Melinda e Melinda (Woody Allen), Kung-fusão (Stephen Chow), Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Michel Gondry), Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (Alfonso Cuarón), Colateral (Michael Mann), Edukators (Hans Weingartner), Mistérios da carne (Gregg Araki), O terminal (Steven Spielberg), Quero ficar com Polly (John Hamburg), Crash (Paul Haggis), Redentor (Cláudio Torres), Onze homens e um segredo (Steven Soderbergh), O aviador (Martin Scorsese), Como se fosse a primeira vez (Peter Segal), Em busca da terra do nunca (Marc Forster), A paixão de Cristo (Mel Gibson), Shreck 2 (Andrew Adamson, Kelly Asbury, Conrad Vernon), Madrugada dos mortos (Zack Snyder), A vila (M. Night Shyamalan), O fantasma da ópera (Joel Schumacher), Eterno amor (Jean Pierre-Jeunet), Os incríveis (Brad Bird), Desventuras em série (Brad Silberling)

Melhores filmes.Cinematographe.2005.3

1. Caché (Michael Haneke)
2. Cruzada (Ridley Scott)
3. A lula e a baleia (Noah Baumbach)
4. Johnny & June (James Mangold)
5. Estrela solitária (Wim Wenders)
6. A criança (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
7. A ponta de um crime (Rian Johnson)
8. King Kong (Peter Jackson)
9. O virgem de 40 anos (Judd Apatow)
10. Batalha no céu (Carlos Reygadas)

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11. Munique (Steven Spielberg) 12. O jardineiro fiel (Fernando Meirelles) 13. Batman begins (Cristopher Nolan) 14 Marcas da violência (David Cronenberg) 15. Star Wars – A vingança dos Sith (George Lucas) 16. Flores partidas (Jim Jarmursh) 17. Guerra dos mundos (Steven Spielberg) 18. O segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee) 19. A luta pela esperança (Ron Howard) 20. Boa noite e boa sorte (George Clooney)

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Menções honrosas: O guia do mochileiro das galáxias (Gareth Jennings), Beijos e tiros (Shane Black), Funky Forest – O confronto final (Katsuhito Ishii), O sol de cada manhã (Gore Verbinski), O novo mundo (Terrence Malick), Em seu lugar (Curtis Hanson), Wolf Creek (Greg Mclean), As crônicas de Nárnia (Andrew Adamson), Água negra (Walter Salles), O vale proibido (David Jacobson), Cidade baixa (Sérgio Machado), Os irmãos Grimm (Terry Gilliam), Retratos de família (Phil Morrison), A intérprete (Sidney Pollack), Harry Potter e o cálice de fogo (Mike Newell), V de vingança (James McTeigue), Tideland (Terry Gilliam), Tudo em família (Thomas Bezucha), Amor em jogo (Peter e Bobby Farrelly), Tapete vermelho (Luis Alberto Pereira), Amores constantes (Phillipe Garrell), Constantine (Francis Lawrence), De repente é amor (Nigel Cole), Obrigado por fumar (Jason Reitman), Voo noturno (Wes Craven), Verdade nua (Atom Egoyan), A fantástica fábrica de chocolate (Tim Burton)

Melhores filmes.Cinematographe.2006

1. Império dos sonhos (David Lynch)
2. Em busca da vida (Jia Zhangke)
3. Serras da desordem (Andrea Tonacci)
4. Dália negra (Brian De Palma)
5. Maria Antonieta (Sofia Coppola)
6. Pequena miss Sunshine (Jonathan Dayton, Valerie Faris)
7. Síndromes e um século (Apichatpong Weerasethakul)
8. Babel (Alejandro González Iñárritu)
9. Volver (Pedro Almodóvar)
10. Fora do jogo (Jafar Panahi)

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11. Climas (Nuri Bilge Ceylan) 12. Miami Vice (Michael Mann) 13. O sobrevivente (Werner Herzog) 14. Apocalypto (Mel Gibson) 15. Um bom ano (Ridley Scott) 16. Missão: impossível III (J.J. Abrams) 17. Sonhando acordado (Michel Gondry) 18. 007 – Cassino Royale (Martin Campbell) 19. Rocky Balboa (Sylvester Stallone) 20. Nacho libre (Jared Hess)

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Menções honrosas: O diabo veste prada (David Frankel), Viagem maldita (Alexandre Aja), The fall (Tarsem Singh), Superman – O retorno (Bryan Singer), Medos privados em lugares públicos (Alain Resnais), A era do gelo 2 (Carlos Saldanha), Mais estranho que a ficção (Marc Forster), Um beijo a mais (Tony Goldwyn), World Trade Center (Oliver Stone), Southland Tales (Richard Kelly), Voo 193 (Paul Greengrass), Half Nelson (Ryan Fleck), As férias da minha vida (Wayne Wang), Silent Hill (Cristophe Gans), Cães assassinos (Nicholas Mastrandea), A fonte (Darren Aronofsky), Apenas uma vez (John Carney), O labirinto do fauno (Guillermo del Toro), A rainha (Stephen Frears), 300 (Zack Snyder), Flanders (Bruno Dumont), O grande truque (Cristopher Nolan), A casa monstro (Gil Kenan), A espiã (Paul Verhoeven), Possuídos (William Friedkin), Nação fast food – Uma rede de corrupção (Richard Linklater), Paprika (Satoshi Kon)

Melhores filmes.Cinematographe.2007

1. Zodíaco (David Fincher)
2. Sangue negro (Paul Thomas Anderson)
3. 4 meses, 3 semanas e 2 dias (Cristian Mungiu)
4. Onde os fracos não têm vez (Joel e Ethan Coen)
5. Viagem a Darjeeling (Wes Anderson)
6. Luz silenciosa (Carlos Reygadas)
7. Letra e música (Marc Lawrence)
8. O gângster (Ridley Scott)
9. Rocket science (Jeffrey Blitz)
10. Lírios-d’água (Céline Sciamma)

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11. Boarding gate (Olivier Assayas) 12. Paranoid Park (Gus van Sant) 13. O segredo do grão (Abdellatif Kechiche) 14. Controle – A vida de Ian Curtis (Anton Corbijn) 15. Antes que o diabo saiba que você está morto (Sidney Lumet) 16. Superbad – É hoje (Greg Mottola) 17. Chumbo grosso (Edgard Wright) 18. O sonho de Cassandra (Woody Allen) 19. A família Savage (Tamara Jenkins) 20. Garage (Lenny Abrahamson)

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Menções honrosas: O ultimato Bourne (Paul Greengrass), Leões e cordeiros (Robert Redford), Mandela – A luta pela liberdade (Bille August), Saneamento básico – O filme (Jorge Furtado), Beowulf (Robert Zemeckis), Temos vagas (Nimród Antal), Do outro lado (Fatih Akin), Morte súbita (Greg Mclean), Tropa de elite (José Padilha), O nevoeiro (Frank Darabont), Senhores do crime (David Cronenberg), Na natureza selvagem (Sean Penn), Ratatouille (Brad Bird e Jan Pinkava), Desejo e reparação (Joe Wright), O escafandro e a borboleta (Julian Schnabel), O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (Andrew Dominik), Desejo e perigo (Ang Lee), Medo da verdade (Ben Affleck), Sem reservas (Scott Hicks), Antes só do que mal casado (Peter e Bobby Farrelly), Jogos do poder (Mike Nichols), Hotel Chevalier (Wes Anderson), Margot e o casamento (Noah Baumbach), A hora do rush 3 (Brett Ratner), Invasores (Oliver Hirschbiegel e James McTeigue), Um beijo roubado (Wong Kar-Wai), The go-getter (Martin Hynes)

Melhores filmes.Cinematographe.2008

1. Andando (Hirokazu Koreeda)
2. O curioso caso de Benjamin Button (David Fincher)
3. O silêncio de Lorna (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
4. Frost/Nixon (Ron Howard)
5. Sinédoque, Nova York (Charlie Kaufman)
6. Wendy e Lucy (Kelly Reichardt)
7. Valsa com Bashir (Ari Folman)
8. O casamento de Rachel (Jonathan Demme)
9. Linha de passe (Walter Salles)
10. Entre os muros da escola (Laurent Cantent)

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11. Ponyo – Uma amizade que veio do mar (Hayao Miyazaki) 12. Ensaio sobre a cegueira (Fernando Meirelles) 13. Kung-fu Panda (Mark Osborne e John Stevenson) 14. Amantes (James Gray) 15. Guerra ao terror (Kathryn Bigelow) 16. A bela Junie (Christophe Honoré) 17. Mamma mia! (Phyllida Lloyd) 18. Operação Valquíria (Bryan Singer) 19. Última parada 174 (Bruno Barreto) 20. Indiana Jones e o reino da caveira de cristal (Steven Spielberg)

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Menções honrosas: Fim dos tempos (M. Night Shyamalan), Sim, senhor (Peyton Reed), Lemon tree (Eran Riklis), Milk (Gus van Sant), W (Oliver Stone), Rede de mentiras (Ridley Scott), Queime depois de ler (Joel e Ethan Coen), Foi apenas um sonho (Sam Mendes), Era uma vez… (Breno Silveira), Cloverfield (Matt Reeves), Dúvida (John Patrick Shanley), 24 city (Jia Zhangke), Batman – O cavaleiro das trevas (Cristopher Nolan), Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen), Afterschool (Antonio Campos), Gran Torino (Clint Eastwood), Austrália (Baz Luhrmann), Homem de ferro (Jon Favreau), Na mira do chefe (Martin McDonagh), Lóki (Paulo Henrique Fontenelle), Adoração (Atom Egoyan), A menina no país das maravilhas (Daniel Barnz), As crônicas de Spiderwick (Mark Waters), WALL-E (Andrew Stanton), Fome (Steve McQueen), Speed Racer (Andy Wachowski, Lana Wachowksi), Tokyo (Jon-ho Bong, Leos Carax, Michel Gondry)

Melhores filmes.Cinematographe.2009

1. Bastardos inglórios (Quentin Tarantino)
2. Enter the void (Gaspar Noé)
3. A fita branca (Michael Haneke)
4. Um homem sério (Joel e Ethan Coen)
5. Star Trek (J.J. Abrams)
6. Eu matei a minha mãe (Xavier Dolan)
7. Amor sem escalas (Jason Reitman)
8. Inimigos públicos (Michael Mann)
9. Sherlock Holmes (Guy Ritchie)
10. Watchmen (Zack Snyder)

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11. Politécnique (Denis Villeneuve) 12. Abraços partidos (Pedro Almodóvar) 13. O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella) 14. Tudo pode dar certo (Woody Allen) 15. Coração louco (Scott Cooper) 16. O fantástico Sr. Raposo (Wes Anderson) 17. Chloe – O preço da traição (Atom Egoyan) 18. Corações em conflito (Lukas Moodysson) 19. Adventureland (Greg Mottola) 20. Micmacs (Jean-Pierre Jeunet)

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Menções honrosas: Distante nós vamos (Sam Mendes), Avatar (James Cameron), Distrito 9 (Neill Blomkamp), Harry Potter e o enigma do príncipe (David Yates), Mother – A busca pela verdade (Joon-ho Bong), (500) dias com ela (Marc Webb), O desinformante (Steven Soderbergh), À procura de Elly (Asghar Farhadi), É proibido fumar (Anna Muylaert), Ganhar ou ganhar (Thomas McCarthy), Up – Altas aventuras (Pete Docter, Bob Peterson), Onde vivem os monstros (Spike Jonze), Titãs – A vida até parece uma festa (Oscar Rodrigues Alves e Branco Mello), Redline (Takeshi Koike), Jean Charles (Henrique Goldman), Direito de amar (Tom Ford), Lunar (Duncan Jones), Se beber, não case! (Todd Phillips), Zumbilândia (Ruben Fleischer), Vício frenético (Werner Herzog), Sede de sangue (Chan-wook Park), Gentlemen Broncos (Jared Hess), Polícia, adjetivo (Corneliu Porumboiu), A caixa (Richard Kelly), Um professor em apuros (Mike Million), O brilho de uma paixão (Jane Campion)

Joy – O nome do sucesso (2015)

Por André Dick

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Nos últimos anos, o diretor David O. Russell se tornou uma aposta praticamente certa para o Oscar. Ele conseguiu que três filmes seguidos seus – O vencedor, O lado bom da vida e Trapaça – fossem indicados ao Oscar de melhor filme e de melhores atuações principais, pouco lembrando o início de sua carreira, quando fez projetos mais independentes – embora com elencos estelares – como Três reis, uma sátira de guerra, e Huckabees – A vida é uma comédia. Tudo indicava que com sua estrela favorita, Jennifer Lawrence, e seu ator favorito, Bradley Cooper, com Robert De Niro de coadjuvante, também presente em seus filmes mais recentes, Joy – O nome do sucesso se tornasse novamente um candidato para a Academia de Hollywood.
Não foi o que aconteceu. Lawrence foi indicada ao Oscar de atriz, mas nas categorias restantes há uma ausência absoluta de seu novo filme. Por um lado, é explicável: Joy é talvez a peça mais incomum, e menos propensa à Academia de Hollywood, desde Huckabees, com uma narrativa, desde o início, bastante estranha e mesmo confusa, mesmo partindo de personagens reais. Parece que O. Russell estava indefinido com o gênero do filme, e também com a ordem em que montaria sua narrativa.

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Nesse sentido, Joy se sente inicialmente como uma peça inacabada. Ele mostra a história de Joy Mangano (Jennifer Lawrence), mãe de dois filhos, que mora com os pais, Rudy (Robert De Niro) e Terri (Virginia Madsen), e o marido, um músico de pouco sucesso, Tony Miranne (Édgar Ramírez). À sua volta, circulam também a avó, sua melhor amiga, Jackie (Dascha Polanco) e a nova mulher do pai, Trudy (Isabella Rossellini), uma viúva italiana bastante envolvida com negócios. Joy também possui uma meia-irmã, Peggy (Elisabeth Röhm). Se Rossellini e Diane Ladd são presenças de Coração selvagem no filme de O. Russell, pode-se dizer que Joy é uma das obras mais distintas do ano que passou, não apenas pela temática como pela disposição de cenários.
A história contada por O. Russell em parceria com Annie Mumolo mostra que Joy, depois de tentar limpar uma sujeira em casa, acaba desenhando o que seria um esfregão mais acessível para uso e pretende vendê-lo em larga escala. Ela acaba conseguindo contato com o executivo da QVC Neil Walker (Bradley Cooper), com poder também dentro de uma emissora de televisão capaz de ajudar na venda de produtos.
Joy é, de certo modo, tão otimista quanto os dois últimos filmes de O. Russell, mais especificamente O lado bom da vida – que cresce a cada nova visualização –, mas com a mesma aura de melancolia e nostalgia do interessante Trapaça. O. Russell é um bom diretor de atores, tem inegável domínio sobre as propriedades narrativas, é ousado o bastante para apresentar uma narrativa diferente, e ainda parece sempre faltar algo em suas histórias. Trapaça, por exemplo, tentava mesclar o estilo de Scorsese com o de séries televisivas dos anos 70 e esbarrava, por vezes, no excesso de diálogos. Joy parece mais acabado nesse sentido, embora o elenco pareça ter participado dele em momentos de folga na agenda, apesar de todos se mostrarem excelentes.

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Nenhum personagem, a não ser Joy, é muito trabalhado, e lamenta-se a pouca participação de Walker, uma bela criação de Cooper (ausente da temporada de premiações justamente por um papel de pouca extensão). O. Russell, no entanto, simboliza a personagem central pelos cenários: sua casa está sempre repleta de gente, com pouco espaço, e quando ela vai para a televisão parece que há uma ampliação e se abre uma paisagem invernal com muitos anúncios e neons chamativos. A família diante da TV esperando o aparecimento do produto é um registro quase de Frank Capra. Também a admiração de sua mãe por novelas. Há algo de uma reconstituição de época que remete a Grandes olhos, de Tim Burton, no sentido de que Joy faz parte daquele sonho tão pronunciado na América de independência – e o encontro no qual mostra a funcionalidade do esfregão para Walker é numa sala asséptica, totalmente iluminada, um ambiente onírico, como transparece ao longo do filme. Os personagens parecem vagar entre a realidade e o sonho, a exemplo da mãe de Joy, totalmente desconectada, e o pai e Trudy, a nova namorada, parecem mais propensos a reuniões que lembra um clã, uma máfia – mesmo porque De Niro é visto sempre assim, e Rossellini também se mostre assustadora, embora sem esse objetivo. Todas as imagens que remetem a Joy acabam tendo esse aspecto, seja seu encontro com Tony ou quando caem flocos de gelo sobre seu cabelo diante de uma vitrine. O. Russell torna o personagem quase sempre uma pose de algo interno.

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Há, igualmente e em maior ou menos intensidade, algo dos irmãos Coen aqui, mais especificamente de Gosto de sangue, Arizona nunca mais e Onde os fracos não têm vez, uma espécie de procura pela presença da mulher num universo puramente masculinizado – embora todas estejam ao redor de Joy e ela seja a grande figura a ser seguida – e mais ao final há ecos de Estrela solitária, de Wenders. Muito curioso é um momento (talvez spoiler para alguns) em que Joy sai do seu trabalho e chega até um vizinho que lhe entrega uma arma e ela passa a atirar, como se precisasse incorporar a violência associada ao homem para ter sucesso. É um conto bastante simples de superação – superação mais empreendedora do que psiquiátrica, como vimos em O lado bom da vida – e que recorre quase sempre aos atores para ter um motivo maior.
Joy, de certo modo, é o filme menos pretensioso de O. Russell desde Huckabees, e por isso sua importância. Inicialmente cotado para premiações, ele não mostra em nenhum momento as características para ser lembrado, ou seja, sua temática parece absurdamente comum, quando, na verdade, conta parte da história que possui a mulher na construção da América. Lawrence, como em outros papéis, está excelente, e dispensa-se de comentar sua química habitual com Cooper e De Niro. Além disso, os quesitos de produção são, do mesmo modo que em outros filmes do diretor, ótimos, principalmente o figurino e a fotografia. Chama mais atenção realmente por que O. Russell deixa algumas pontas soltas em seu filme e não o encerra da maneira mais apropriada com o material que tinha às mãos. O que se diria é que Joy merece uma visão, apesar de todas as críticas negativas pelas quais foi cercado desde seu lançamento.

Joy, EUA, 2015 Diretor: David O. Russell Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Elisabeth Röhm, Édgar Ramírez, Virginia Madsen, Dascha Polanco, Isabella Rossellini, Diane Ladd, Jimmy Jean-Louis Roteiro: Annie Mumolo, David O. Russell Fotografia: Linus Sandgren  Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: John Davis, John Fox, Jonathan Gordon, Ken Mok, Megan Ellison Duração: 124 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Annapurna Pictures / Davis Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

A grande aposta (2015)

Por André Dick

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Este novo filme de Adam McKay, diretor de O âncora, Ricky Bobby e Quase irmãos (todos com Will Ferrell) e também presente na direção e roteiros de Saturday Night Live, é baseado num livro escrito por Michael Lewis, sobre a crise financeira de 2007-2008, causada, como todos sabem, por uma bolha no mercado imobiliário. Em 2005, a possibilidade de isso acontecer, especificamente em 2007, é antevista por Michael Burry (Christian Bale). Ele configura esse mercado como completamente instável, baseado em empréstimos fora de qualquer padrão. Visto como uma pessoa antissocial (e assumindo-se como tal), ele vai a vários bancos para tirar lucro da ideia, apostando o dinheiro da empresa para ganhar em cima da esperada perda na área. Os bancos apostam que o mercado é seguro, e ele acaba sendo visto como um desequilibrado; riem dele pelas costas.
Num determinado local, quem ouve a história de suas peregrinações é Jared Vennett (Ryan Gosling), que logo nota que as previsões são verdadeiras, e se junta a Mark Baum (Steve Carell). Os dois descobrem que a possível quebra está ligada a CDOs, grupos de empréstimo. Baum trabalha com Porter Collins (Hamish Linklater), Danny Moses (Rafe Spall) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong), tentando ser convencida pela esposa, Cynthia (Marisa Tomei), a largar a profissão e o universo de Wall Street. A profissão de quem lida com o dinheiro é constantemente satirizada em A grande aposta e associada, como no filme de Scorsese, a strippers e boates onde ele é jogado pelos ares.

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Há também, na mesma escala, os investidores Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), sabendo das ideias de Burry por via indireta, que passam a trabalhar para o ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt). Todos esses personagens estão envolvidos com a mesma possibilidade, no entanto nunca são vistos juntos, ou seja, eles apenas anteveem o que irá acontecer sem terem certeza de que isso acontecerá – ao mesmo tempo em que têm essa certeza.
McKay trabalha com esse elenco de maneira muito competente, mas estranhamente desigual, sendo prejudicado pela montagem, que dá espaço maior a personagens não tão interessantes quanto os de Bale, Pitt, Rosling e Carell, os principais (e fiquei imaginando se tivessem conseguido encaixar aqui Jim Carrey em seus melhores momentos). Todos estão muito bem, especialmente Carell, na atuação dramática que poderia ter lhe rendido uma nova indicação ao Oscar e complementa, em outro plano, aquela excelente que teve em Amor a toda prova (em que também contracena com sua esposa aqui, Tomei). O personagem de Bale é fascinante, principalmente no início, quando lhe é dado um merecido espaço, com suas manias, fuga do stress por meio de uma bateria e a Síndrome de Asperger. McKay, ainda assim, se equivoca ao restringi-lo somente a um espaço, sendo como o homem que não vê os outros, mas sabe tudo o que irá acontecer aos outros. Falta, digamos, um ponto alto, capaz de atrair todos os personagens, mesmo separados, para o mesmo núcleo dramático.

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O roteiro é bastante complexo, principalmente para quem não sabe os detalhes da crise, ou seja, em certos momentos parece mais para o público norte-americano. No início, existe a impressão de que se trata mais de uma comédia satírica sobre o que aconteceu, porém, aos poucos, vai se anunciando mais um drama nas entrelinhas referentes aos personagens, sobretudo nas atuações de Pitt e Carell, às vezes oportunizando mesmo uma lição de moral, o que seria dispensável diante do que o filme nos mostra (e dificilmente A grande aposta pode ser visto como uma comédia, do modo como é vendido, não mais, por exemplo, do que um Cosmópolis, uma sátira ferina de Cronenberg tanto ao capitalismo exacerbado quanto aos ocupantes de Wall Street).
Há uma agilidade sensível na direção, ao mostrar personagens falando para a câmera. Isso às vezes funciona, outras não (passa a ser um recurso estranho quando ele se ausenta por muito tempo), no entanto a montagem vai selecionando muitas imagens para que o espectador nãos e distraia, mesmo que não entenda plenamente o contexto. Para isso, ele coloca Margot Robbie (curiosamente de O lobo de Wall Street) e Selena Gomez para dar explicações práticas das negociações em andamento, sobretudo, no segundo caso, quando há uma reunião em Las Vegas para discutir os rumos da economia. Há uma certa linguagem moderna que, por vezes, acaba se chocando com as reflexões do filme, mais exatamente do personagem de Carell, e isso cria um conflito claro na estrutura.

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Às vezes, ele lembra O lobo de Wall Street pela bateria de diálogos rápidos (Pitt tentou, lembremos, comprar os direitos e fazer esse filme), assim como uma excelente obra dos anos 90, chamado O sucesso a qualquer preço. E é interessante como todos os atores envolvidos no projeto já participaram de filmes com uma sátira ou crítica ao chamado capitalismo (mesmo Gosling fez Lost river, que trata também de pessoas sendo desalojadas e não deixa de ser uma metáfora da bolha financeira de 2008). Mas aqui não há o talento de Martin Scorsese quando, em O lobo de Wall Street, desmontou esse universo com o auxílio da atuação de DiCaprio. Havia mais foco na maneira como se dava esse olhar, e os personagens eram caricaturais, sem nenhum moralismo, quando aqui pelo menos o personagem de Pitt aparece para dizer palavras capazes de mostrar os verdadeiros erros. É interessante como McKay, um diretor de comédias, acaba levando mais a sério e querendo demonstrar com dados e definições de conceitos esse universo. Tudo é entregue para que o espectador possa selecionar as partes capazes de deixar o panorama mais claro; às vezes não fica, mas o elenco se esforça.
Mesmo com todas as falhas, ainda há mais virtudes em A grande aposta e uma real vida nas atuações, sem a neutralidade forçada e esforçada, por exemplo, de um Spotlight. Nisso, a fotografia de Barry Ackroyd, apesar de lembrar bastante a da série The Office (com Carell), e outras séries, diga-se de passagem, oferece um movimento ininterrupto e capta melhor os cenários, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas. A grande aposta acaba tendo como referência uma dissolução interessante de gêneros no fim das contas, além de contar com um elenco estelar em grande forma, apesar de alguns não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro e suas consequências até hoje, inclusive seu reaproveitamento sob outras formas, conta mais para o espectador ter consciência sobre o tema.

The big short, EUA, 2015 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Max Greenfield, John Magaro, Karen Gillan, Melissa Leo, Hamish Linklater, Billy Magnussen, Rafe Spall, Tracy Letts Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner Duração: 130 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Plan B Entertainment / Regency Enterprises

Cotação 3 estrelas e meia

 

Creed – Nascido para lutar (2015)

Por André Dick

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Sequências e refilmagens têm se proliferado em Hollywood há décadas, e nos últimos anos não é diferente. Enquanto há obras que conseguem trazer acréscimos ou mesmo renovar a versão antiga, há aquelas que se mostram mais pendentes a ter como objetivo uma homenagem ao elenco e ao diretor da franquia. Diante disso, nem toda a expectativa diante do filme poderia indicar o resultado emocional que Creed – Nascido para lutar proporciona, mas, sobretudo, para quem é admirador da série Rocky (mesmo daqueles filmes considerados mais pop, embora o quinto tenha deixado especialmente a desejar). Para esta continuação indireta da série, pois muda o protagonista, Stallone convocou Ryan Coogler, o diretor do belo Fruitvale Station, sobre um acontecimento trágico num metrô de Nova York. Já naquele filme, a competência de Coogler na condução de uma narrativa curta se mostrava com grande relevância, assim como a empatia do seu protagonista, interpretado por Michael B. Jordan, que regressa aqui como Adonis, um rapaz que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa de seu pai, Mary Anne (Phylicia Rashad), já que ele é filho de um caso extraconjugal.

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É uma semelhança importante com Fruitvale Station, no sentido de que o personagem inicia numa situação difícil; porém, a partir da adoção, a vida de Adonis se transforma. Trabalhando já adulto numa empresa, seu maior desejo é ter uma carreira de pugilista, tendo lutas escondidas em Tijuana, México. Também não quer ser associado à figura do pai, a fim de não receber favores indesejados. Ele decide se mudar de Los Angeles para a Filadélfia, atrás da figura de Rocky Balboa.
Se lhe dissessem que uma continuação para a história de Rocky mostraria o filho de Apollo Creed, talvez você imaginasse apenas um motivo para caça-níqueis, mas não com Jordan e Coogler, e um Stallone no auge de sua trajetória. Difícil imaginar que Stallone não tenha seu momento dramático mais intenso, mesmo em comparação com seus filmes anteriores da série, principalmente o primeiro, Rocky II e o ótimo Rocky Balboa. Ele está realmente excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa de treinar o filho de seu melhor amigo e que o recuperou para a carreira depois da morte de Mickey em Rocky III. As nuances que Stallone entrega para seu personagem contrastam, por exemplo, de Rocky Balboa, em que ele se mostrava mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; aqui ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino – e também Stallone se dissocia, pelo menos no título, de uma de suas séries favoritas, ao lado de Rambo. Vejamos apenas as cenas mais discretas do personagem, como aquelas em que ele divide o espelho da academia com Creed para ensinar os golpes ou quando ele, numa situação delicada, precisa apoiar o jovem treinado a continuar na sua trajetória. Stallone parece, por meio do filme, ter consciência do legado desse personagem não apenas para sua trajetória (independente de se gostar ou não dele, de respeito) como da própria história do cinema.

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No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca, que é conquistada por Creed. Há uma humanidade em ambos os personagens que poucas vezes vimos nesse tipo de história, tanto pela presença de Jordan como de Thompson. É certo que o romance entre eles remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca, embora numa participação talvez não tão merecedora do que deveria ganhar, é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire. Em termos de roteiro, ambos conseguem traduzir as falas de maneira fluente, sendo o primeiro filme da série não roteirizado por Stallone, e sim por Coogler e Aaron Covington.
Se há uma queda na narrativa, ela acontece um pouco entre o segundo e o terceiro atos, mas Coogler traz uma hora final emotiva, com um poder muito grande de estabelecer a ligação emocional entre os personagens, e Stallone mais uma vez se destaca: a sua figura envelhecida e sábia é como se fosse o retrato de Mickey mais uma vez à tona. Contudo, em se tratando de uma visão de sabedoria, é Coogler que estabelece uma relação entre a Filadélfia dos anos 70 e dos anos 2010, não apenas pela atmosfera, como também pela trilha sonora. Coogler consegue captar um movimento de transformação do bairro, já antecipado por Stallone em seu belo Rocky Balboa de 2006.

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Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, Coogler consegue realmente dar uma sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa, ao contrário da pressa de Abrams no último Star Wars em estabelecer vínculos com os fãs, apesar ainda ser muito interessante. Mas Coogler é mais exato ao criar um compasso original para as cenas de luta, uma delas sem um corte sequer, muito em razão da competência da fotografia de Maryse Alberti, além de empregar uma emoção especial no ato final, que eleva Creed a outro patamar, apesar de sua temática não original em relação aos filmes anteriores. Também não há nenhum material que deseje se aproximar de um Touro indomável, no tom ou maneira de se filmar (levando em conta que Scorsese inovou na maneira de captação das lutas). A referência, no universo do boxe, é realmente a série Rocky, da qual o diretor se teria dito fã a Stallone antes de colocar o projeto em prática. E, sem dúvida, há um contato direto com a obra original de Stallone, vencedor merecido do Globo de Ouro de coadjuvante (e, espera-se, também do Oscar). Quando a figura de Adonis se mescla com a de Apollo e com a de Rocky, sabemos que Coogler acerta em cheio no drama e na preferência de quem sempre gostou desses personagens. Creed se sente, desse modo, como uma continuidade de algo importante, mas também como algo independente, com seus próprios contornos e motivos. B. Jordan, nos minutos finais, assim como o filme de Coogler, é digno de premiações.

Creed, EUA, 2015 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Graham McTavish, Madeira Harris, Andre Ward, Gabe Rosado Roteiro: Aaron Covington, Ryan Coogler Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: David Winkler, Irwin Winkler, Kevin King Templeton, Robert Chartoff, Sylvester Stallone, William Chartoff Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas

Indicados ao Oscar 2016

Por André Dick

Indicados ao Oscar 2016

Melhor filme

O regresso
Spotlight – Segredos revelados
Mad Max – Estrada da fúria
Perdido em Marte
Ponte dos espiões
A grande aposta
Brooklyn
O quarto de Jack

O regresso.Filme 3

A categoria principal não chegou a trazer nenhuma grande surpresa, a não ser, talvez, Brooklyn, considerado uma produção menor. No entanto, já aparecia em listas de apostas, assim como O quarto de Jack. Os demais filmes eram previstos, sobretudo O regresso, Mad Max e Spotlight. Acredito que a disputa fique entre esses filmes. A ficção científica de Ridley Scott, que recebeu um estranho Globo de Ouro de melhor comédia/musical, preencheu a cota de filmes mais comerciais junto com Mad Max, impedindo a indicação de Creed, um filme que seria merecedor (e indicado apenas, embora merecidamente, a ator coadjuvante). Spielberg novamente mostra sua força junto à Academia com a indicação de Ponte dos espiões. Talvez surpreenda a ausência de Carol da lista, mas Haynes nunca foi apreciado pela academia, e seu muito melhor Longe do paraíso não foi indicado também na categoria principal. Os oito odiados não ter sido indicado é uma grande surpresa, apesar de não ter estado entre os favoritos nas apostas, pois se trata de um grande filme. E seu número de indicações (apenas três) é mais lamentável ainda. Alguns filmes que ao serem lançados eram bastante lembrados para as indicações, Steve Jobs e Joy, tiveram poucas (o primeiro duas, e o segundo, uma), sempre no campo das atuações. Não sou admirador de A grande beleza, filme anterior de Sorrentino, mas Youth merecia um espaço entre os melhores filmes. A colina escarlate, de Guillermo del Toro, No coração do mar, de Ron Howard, e À beira mar, filme injustiçado de Angelina Jolie Pitt, foram, como nas demais premiações, ignorados. Também eram cotados Beasts of no nation (com produção da Netflix) e Straight Outta Compton – A história do NWA.

Spotlight.Filme 6

Melhor diretor

Alejandro G. Iñárritu, por O regresso
Tom McCarthy, por Spotlight – Segredos revelados
Adam McKay, por A grande aposta
George Miller, por Mad Max: Estrada da fúria
Lenny Abrahamson, por O quarto de Jack

As indicações a diretor não surpreenderam, mas mostram que, a princípio, há dois concorrentes principais: Alejandro G. Iñárritu e George Miller, um mexicano e um australiano. Não acho que McCarthy e McKay possam ter chances por seus trabalhos mais convencionais (principalmente McCarthy), a não ser que Spotlight volte a crescer entre os acadêmicos. Lenny Abrahamson é uma grata surpresa: irlandês, ele tem feito filmes estranhamente comoventes, como GarageFrank. E como esquecer Tarantino? Spielberg e seu habitual favoritismo não contaram. Uma surpresa, pelas apostas feitas, Ridley Scott não ter sido indicado, mas, para quem já foi esquecido por outros filmes muito superiores – Alien, Blade Runner, Cruzada, O gângster, Êxodo, Prometheus –, não chega a ser injusto. Eu havia apostado em Tarantino e Scott para receberem o prêmio, pois não acho que premiariam Iñárritu duas vezes: no entanto, seu trabalho perto dos de McCarthy e McKay é visivelmente superior. Não duvido mais de um Oscar consecutivo (seria, aliás, merecido). Ryan Coogler poderia ter sido lembrado pelo trabalho em Creed. A direção de Paolo Sorrentino em Youth é de uma sensibilidade ímpar também.

Perdido em Marte 5

Melhor ator

Bryan Cranston, por Trumbo
Leonardo DiCaprio, por O regresso
Michael Fassbender, por Steve Jobs
Eddie Redmayne, por A garota dinamarquesa
Matt Damon, por Perdido em Marte

O ator Bryan Cranston já se consagrou na TV com The breaking bad; em Trumbo, ele faz o escritor. Pode levar pelo histórico da Academia de premiar atores que fazem personagens históricos. Fassbender é indicado pela primeira vez pelo papel principal, por uma atuação insegura, enquanto Redmayne volta um ano depois à categoria, depois de ganhar por A teoria de tudo. DiCaprio é o favorito por O regresso, embora sua atuação não se compare a outras pelo qual foi indicado, como Gilbert Grape e O lobo de Wall Street. Damon faz um trabalho no máximo competente em Perdido em Marte: o Globo de Ouro já foi uma surpresa. Michael B. Jordan foi notoriamente esquecido por Creed. Outro esquecido foi Michael Caine, por Youth, em que aparece excepcional. A campanha pela indicação de Johnny Depp por Aliança do crime não deu certo. Steve Carell também está excelente em A grande aposta (num grande elenco, é, a meu ver, o melhor); foi um esquecimento injusto, diante de sua indicação no ano passado por Foxcatcher.

O quarto de Jack 2

Melhor atriz

Cate Blanchett, por Carol
Brie Larson, por O quarto de Jack
Saoirse Ronan, por Brooklyn
Charlotte Rampling, por 45 Anos
Jennifer Lawrence, por Joy – O nome do sucesso

Cate Blanchett, dois anos depois de ganhar o Oscar por Blue Jasmine, volta a ser indicada por Carol. Trata-se de uma grande atuação, ainda assim com poucas cenas. Brie Larson, que há alguns anos foi cogitada por Temporário 12, é indicada por O quarto de Jack. Saoirse Ronan está pela primeira vez em destaque em Brooklyn  (ela já mostrou grande talento em Hanna, O grande Hotel Budapeste e Rio perdido), com uma atuação comovente, e Lawrence mais uma vez é lembrada por Joy (em filmes de David O. Russell, ganhou por O lado bom da vida e foi indicada por Trapaça). Dessas, parece que Charlotte Rampling talvez seja contemplada por 45 anos. Entre as esquecidas, Emily Blunt está muito bem em Sicario. Levando em conta que Mapas para as estrelas estreou em fevereiro nos Estados Unidos, Julianne Moore foi igualmente esquecida pelas premiações, incluindo o Oscar.

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Melhor ator coadjuvante

Christian Bale, por A grande aposta
Tom Hardy, por O regresso
Mark Ruffalo, por Spotlight – Segredos revelados
Mark Rylance, por Ponte dos espiões
Sylvester Stallone, por Creed – Nascido para lutar

Essa categoria costuma ter favoritos, e acredito que Stallone seja ele, por sua atuação excepcional em Creed. Os outros, como Bale, Hardy e Ruffalo, são bastante competentes – ainda não vi Rylance em ação. Harvey Keitel em Youth está excepcional. E Benicio del Toro era cogitado por Sicario – Terra de ninguém, assim como Paul Dano por Love & Mercy (ele também aparece bem em Youth). O mais interessante aqui é não ter sido lembrado nenhum coadjuvante de Os oito odiados: Bruce Dern, Kurt Russell ou Walton Goggins. Emory Cohen está ótimo em Brooklyn, mas talvez fosse considerado ator principal. Qualquer um deles merecia. Idris Elba era bastante cogitado por Beasts of no nation. Também achei a atuação de Seth Rogen em Steve Jobs excelente.

Steve Jobs.Filme 3

Melhor atriz coadjuvante

Jennifer Jason Leigh, por Os oito odiados
Rooney Mara, por Carol
Rachel McAdams, por Spotlight – Segredos revelados
Alicia Vikander, por A garota dinamarquesa
Kate Winslet, por Steve Jobs

Outra categoria bastante disputada. Mara vem precedida pelo prêmio de atriz em Cannes. Não acho que McAdams tenha uma atuação fora de série em Spotlight. Jason Leigh está excelente em Os oito odiados, e Kate Winslet é sempre uma aposta segura (seu papel é um dos melhores em Steve Jobs). Vikander vem sendo bastante elogiada desde Ex-Machina. Jane Fonda era cogitada por Youth, mas acabou ficando de fora. Nesse filme, Rachel Weisz se apresenta mais uma vez fora de série (como em O jardineiro fiel, quando ganhou). Também Kristen Stwart passou a ser cotada por Acima das nuvens, por ter vencido o César (o Oscar francês). Emma Stone também estava ótima no menosprezado Sob o mesmo céu. Se Mapas para as estrelas tivesse sido lembrado pelas premiações, uma possível indicada seria Mia Wasikowska.

Divertida mente 15

Melhor roteiro original

Matt Charman, por Ponte dos espiões
Alex Garland, por Ex-Machina – Instinto artificial
Peter Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley, por Divertida mente
Josh Singer, Tom McCarthy, por Spotlight – Segredos revelados
Jonathan Herman, Andrea Berloff, por Straigh Outta Comptom

Muito lamentável o esquecimento de Tarantino pelo roteiro de Os oito odiados. O trabalho de Garland em Ex-Machina é fraco, e a narrativa de Divertida mente tem falhas visíveis, assim como a de Spotlight. Melhores os roteiros de Youth, Eden e Creed.

Brooklyn

 Melhor roteiro adaptado

Charles Randolph, Adam McKay, por A grande aposta
Nick Hornby, por Brooklyn
Phyllis Nagy, por Carol
Drew Goddard, por Perdido em Marte
Emma Donoghue, por O quarto de Jack

Todos os indicados a esta categoria eram esperados, mas parecem trabalhos convencionais os que vi (falta O quarto de Jack). Há trabalhos muito competentes nos subestimados Cidades de papel e No coração do mar.

O filho de Saul

Melhor longa estrangeiro

Theeb (Jordânia)
A war (Dinamarca)
Mustang (França)
O filho de Saul (Hungria)
O abraço da serpente (Colombia)

O grande favorito é O filho de Saul, no entanto é uma grata surpresa a lembrança para o filme O abraço da serpente, da Colômbia.

O menino e o mundo

Melhor longa de animação

Anomalisa
Divertida mente
Shaun, o carneiro
O menino e o mundo
As memórias de Marnie

O brasileiro O menino e o mundo é lembrado ao lado do favorito Divertida mente. Interessante a inclusão de Anomalisa, animação de Charlie Kaufman, que vem causando polêmica.

Melhor documentário em curta-metragem

Body team 12
Chau, beyond the lines
Claude Lanzmann: spectres of the Shoah
A girl in the river: the price of forgiveness
Last day of freedom

O peso do silêncio

Melhor documentário em longa-metragem

Amy
Cartel land
O peso do silêncio
What happened, Miss Simone?
Winter on fire: ukraine’s fight fo freedom

Melhor curta-metragem

Ave Maria
Day One
Everything Will Be Okay (Alles Wird Gut)
Shok
Stutterer

Melhor curta em animação

Bear story
Prologue
Os heróis de Sanjay
We can’t live without cosmos
World of tomorrow

Categorias técnicas

 Sicario.Filme 5

Melhor fotografia

Edward Lachmann, por Carol
John Seale, por Mad Max – Estrada da fúria
Emmanuel Lubezki, por O regresso
Roger Deakins, por Sicario – Terra de ninguém
Robert Richardson, por Os oito odiados

Os oito odiados.Filme 5

Melhor trilha sonora

Carter Burwell, por Carol
Ennio Morricone, por Os oito odiados
Jóhann Jóhannsson, por Sicario – Terra de ninguém
Thomas Newman, por Ponte dos espiões
John Williams, por Star Wars – O despertar da força

 Spectre.Filme 14

Melhor canção original

“Earned It” (The Weeknd), por Cinquenta tons de cinza
“Manta Ray” (J. Ralph & Anthony), por Racing extinction
“Simple Song #3” (Sumi Jo), por Youth
“Writing’s On The Wall” ( Sam Smith), por 007 contra Spectre
“Til It Happens To You” (Lady Gaga e Diane Warren), por The hunting ground

 Carol.Filme 25

Melhor figurino

O regresso
Carol
Cinderela
A garota dinamarquesa
Mad Max – Estrada da fúria

 A grande aposta 11

Melhor edição

A grande aposta
Mad Max – Estrada da Fúria
O regresso
Spotlight – Segredos revelados
Star Wars – O despertar da força

Ponte dos espiões

Melhor design de produção

Ponte dos espiões
A garota dinamarquesa
Mad Max – Estrada da fúria
Perdido em Marte
O regresso

 Mad Max 19

Melhor edição de som

Sicario – Terra de ninguém
Mad Max – Estrada da fúria
Perdido em Marte
O regresso
Star Wars – O despertar da força

O regresso 12

Melhor mixagem de som

Ponte dos espiões
Mad Max – Estrada da fúria
Perdido em Marte
O regresso
Star Wars – O despertar da força

 Star Wars VII.9

Melhores efeitos visuais

Star Wars – O despertar da força
Mad Max – Estrada da fúria
Perdido em Marte
Ex-Machina – Instinto artificial
O regresso

Mad Max 3

Melhor maquiagem e cabelo

O centenário que saiu pela janela e desapareceu
Mad Max – Estrada da fúria
O regresso

O regresso, Star Wars, Mad Max, Ponte dos espiões, A garota dinamarquesa e Perdido em Marte foram reconhecidos nas categorias técnicas. Mas é impressionante o esquecimento de filmes como A colina escarlate – pela fotografia, pelo figurino e design de produção –, Peter Pan – por essas mesmas categorias, mais mixagem de som e efeitos especiais –, No coração do mar – pelos figurinos, mixagem de som e efeitos especiais, além de pela fotografia –, 007 contra Spectre – pelo design de produção e fotografia – e Jogos vorazes: A esperança – O final – nas categorias de mixagem de som, som, design de produção e efeitos visuais. Na categoria de fotografia, pergunta-se se premiarão Lubezki pela terceira vez seguida (depois de Gravidade e Birdman), o que seria merecido, ou farão uma homenagem a Deakins, nunca premiado, pelo trabalho em Sicario, ou Seale, por Mad Max. Bela lembrança a Richardson pelo trabalho excepcional em Os oito odiados. E o de Edward Lachman em Carol é o destaque do filme. A categoria de fotografia é sempre a mais competitiva: como esquecer trabalhos como aqueles apresentados em Jauja, Youth, À beira mar, Rio perdido, Madame Bovary, Love Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência? Normalmente, a Academia se comove com o trabalho técnico de filmes orientais, mas A assassina foi esquecida em várias categorias em que seria forte: fotografia, design de produção, figurino.
O figurino e o design de produção de Brooklyn não terem sido lembrados é estranho também. Homem-Formiga poderia ter sido incluído ao menos em efeitos visuais, melhores do que os de Ex-Machina e O regresso, por exemplo (apesar de este ter a cena do urso).
A cerimônia de entrega do prêmio acontece no dia 28 de fevereiro.

Steve Jobs (2015)

Por André Dick

Steve Jobs.Filme 7

O roteirista Aaron Sorkin realizou o roteiro de três filmes especialmente admiráveis, Questão de honra (1992), A rede social (2010) e O homem que mudou o jogo (2011). E também fez o roteiro do muito interessante – embora não no nível desses anteriores – Jogos do poder, além das séries referenciais de TV The west wing e The newsroom. Não parecia haver melhor nome para fazer um roteiro sobre a vida do grande nome da informática Steve Jobs. À frente da direção, o inglês Danny Boyle, de Trainspotting, A praiaQuem quer ser um milionário? e 127 horas, pode ser sinal ao menos de competência visual.
Este filme, que vem logo depois da obra sobre o nome da informática interpretado por Ashton Kutcher, inicia em 1984, quando Steve Jobs está para apresentar uma de suas criações da Apple Macintosh e nos bastidores precisa lidar, com a ajuda da assessoria de Joanna Hoffman (Kate Winslet) não somente com um artigo da revista Time sobre a paternidade de Lisa (a ótima Ripley Sobo), filha que teve com Chrissan Brennan (Katherine Waterston), da qual nega ser o pai. Além disso, a tensão recai sobre o engenheiro Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), cobrado ostensivamente por Jobs, uma vez que Sorkin não deixa dúvidas de imediato que estamos diante de alguém com um rigor inabalável e uma maneira complicada de lidar com as pessoas.

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Isso é reiterado quando ele se encontra com o cofundador da Apple, Steve Wozniak (Seth Rogen), que pede a Jobs para reconhecer a equipe do Appple II, enquanto o CEO da Apple, John Sculley (Jeff Daniels, em raro momento), tenta comover Jobs. Como comover Jobs? Para Sorkin, eis um homem que tem muitas falhas, e o roteiro inicial deseja expô-las didaticamente, mas cujas nuances podem deixá-lo complexo. Este início é tão bem teatral e esquemático – em outros momentos isso não seria ruim – que acaba por derrubar Steve Jobs do alto de onde imaginaria estar.
Eis aí um dos problemas: Sorkin é um roteirista que dá muito peso ao jogo de palavras e aos diálogos tensos e afiados. Em Steve Jobs, isso não é diferente. O problema é a maneira como eles são filmados. Enquanto nos filmes anteriores havia uma tensão quase documental, como em A rede social e O homem que mudou o jogo, Boyle tem uma clara tendência a transformar parte de suas obras em um videoclipe estendido, pelo visual e pela maneira como focaliza. Os saltos temporais – o roteiro se desloca para 1988 quando Jobs esteve à frente da empresa NeXT, mostrando novamente seus problemas com a filha e depois para 1998, quando Lisa passa a ser interpretada pela convincente Perla Haney-Jardine – são bastante previsíveis e nem mesmo as possíveis reviravoltas finais, com Sorkin tentando desviar a atenção do espectador para o fato de que o roteiro é papel fino, Steve Jobs consegue ser brilhante como alguma criação à frente de seu tempo.

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Se Fassbender inicia com os maneirismos de seu personagem Archie Hicox em Bastardos inglórios, e sem nenhum sinal de originalidade que víamos em suas atuações em Prometheus, 12 anos de escravidão e Slow west, e termina como Cristof (o diretor do programa de O show de Truman feito por Ed Harris), pode-se dizer que, de forma surpreendente, a melhor atuação é de Seth Rogen, enquanto Daniels e Winslet estão altamente competentes, e Katherine Waterston, exclusivamente no início, faz lembrar os bons momentos de Vício inerente. Esse elenco precisa lidar com um roteiro com referências muitas vezes técnicas (os especialistas em informática talvez extraiam mais do filme), e de maneira geral costuma se sair bem. No entanto, Sorkin empresta uma estrutura muito previsível realmente a eles. Tudo é tão planejado e encaixado e as relações que se mostram ao longo de um certo tempo tão teatrais que se torna claro: não é exatamente a criatividade da ideia (existente, pois mostra como pessoas se apegam a determinadas situações, lugares e pessoas sem notar), e sim a maneira como é apresentada, de maneira apressada e desigual. Há um componente teatral de muito vigor, que dialoga às vezes mesmo com Birdman (os bastidores de uma apresentação e a vida intermediada por várias dessas interpretações). Nesses atos divididos claramente, Sorkin deseja jogar com os mesmos temas envolvendo amizade e traição assistidos em A rede social, porém David Fincher (que foi o primeiro diretor cogitado para este Steve Jobs) localiza algo de mais humano e trágico, quando Boyle, como na maior parte de sua trajetória, com exceção de seu filme de estreia, Trainspotting, é muito técnico; a questão é não se sentir os diálogos do melhor modo, nem existe a passagem de um mundo universitário para uma descoberta envolvendo uma rede de contatos maior.

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Steve Jobs

Ou seja, Steve Jobs se sente com os personagens excessivamente conscientes de seu papel, sem deixar muito espaço para a discussão de quem pode ter feito algo capaz realmente de mudar o rumo das coisas. Rogen, como ator, é um dos poucos capaz de oferecer essa dimensão à história, o que Fassbender consegue apenas em alguns momentos. O personagem de Rogen, Wozniak, acaba fazendo o elo real e emotivo dessa história sobre a disputa existente por trás de criações associadas à mudança da humanidade em todos os planos, partindo do universo informatizado ou apenas de um desenho no paint. Para Boyle e Sorkin, Steve Jobs só conseguia expressar suas emoções quando via sua vida representada por números, equações e telas em movimento para o ser humano tocar. É uma perspectiva, mas, sem dúvida, a história acaba, por isso, reduzindo sua persona.
De qualquer modo, mais especificamente, o meio do filme de Boyle é realmente um problema, pois, além da atuação de Fassbender decair, a presença de Rogen diminui e a personagem de Winslet se torna apenas um complemento, não parte do centro, como na primeira parte. Isso não tira a competência de Steve Jobs para mostrar o panorama de épocas diferentes, trazendo um ato final mais interessante, reflexivo e movimentado, embora exagere em muitos momentos – a plateia batendo os pés antes de Jobs subir ao palco e mostrar mais uma de suas criações – e Fassbender, em certos momentos, não ajude, o que faz diferença, pois aparece durante o filme todo, sendo talvez o maior desapontamento, à medida que deveria ter sido o maior acerto de Boyle na escolha do elenco.

Steve Jobs, EUA, 2015 Diretor: Danny Boyle Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Katherine Waterston, Jeff Daniels, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Perla Haney-Jardine Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Alwin H. Kuchler Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Christian Colson, Danny Boyle, Guymon Casady, Mark Gordon, Scott Rudin Duração: 123 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Cloud Eight Films / Decibel Films / Legendary Pictures / Scott Rudin Productions / The Mark Gordon Company / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas

Carol (2015)

Por André Dick

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O diretor Todd Haynes é um dos nomes mais respeitados em Hollywood, um dos poucos vistos com características autorais, já demonstradas em larga escala, seja em Veneno, seja no estranhíssimo Velvet Goldmine ou na homenagem a Bob Dylan em Não estou lá. No entanto, seu grande filme até agora continua sendo Longe do paraíso, em que Dennis Haysbert interpreta Raymond Deagan, um jardineiro afroamericano que se torna próximo de Cathy Whitaker (Julianne Moore), o que causa um escândalo na sociedade conservadora dos Estados Unidos dos anos 1950. Casada com Frank (Dennis Quaid), o qual considera que precisa tratar sua homossexualidade com um psiquiatra, ela apresenta a Raymond a arte moderna por meio de pinturas. Lançado em 2002, Longe do paraíso possui uma maravilhosa atmosfera com a contribuição da fotografia de Edward Lachman.
É justamente ele que regressa para fotografar o novo filme de Haynes, Carol, baseado em livro de Patricia Highsmith, mais uma vez apostando no relacionamento proibido para a sociedade dos anos 50. Desta vez, é Carol Aird (Cate Blanchett), em processo de separação de Harge (Kyle Chandler, quase sempre fazendo personagens desajustados pela bebida), que se interessa por uma balconista de loja, Therese Belivet (Rooney Mara).

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O primeiro encontro se dá às vésperas do Natal, em Manhattan, quando as lojas estão repletas, mas Haynes já distribui seu olhar para o que deseja mostrar: uma jovem que não se decidiu ainda se irá se casar com o namorado, Richard Semco (Jack Lacy), o qual pretende levá-la para França, ou tentará vivenciar um amor com Carol. Estamos longe, claro, de qualquer tratamento mais moderno sobre a relação entre mulheres, nos moldes de Azul é a cor mais quente.
Carol é muitas vezes calculado e preciosista, como Longe do paraíso, se não fosse também bastante distanciado em termos de personagens e de como eles chegam ao espectador. As primeiras aproximações entre Carol e Therese se dão de tal maneira clássica que ficamos confusos à primeira vista se Haynes está querendo compor um painel meio neutro, colocando os personagens distantes uns dos outros para representar esse mundo em que poucos, afinal, conseguem se encontrar. O primeiro encontro que entre as duas acontece na loja em que Therese trabalha: ela observa Carol na vitrine, que parece também observá-la a distância; Carol se aproxima e finge esquecer uma luva para que Therese possa procurá-la. Nesse meio tempo, o espectador já tem informações de que ela tem severos desentendimentos com o marido. É Longe do paraíso visto sob o ponto de vista estritamente feminino, mas sem a mesma ênfase e o mesmo brilho de Haynes, apesar da belíssima parte técnica, uma reconstituição de época esforçada. Este é o Inside Lewyn Davis ou o Era uma vez em Nova York de Haynes.
Aos poucos, percebe-se que também não teremos muitas informações, a não ser o fato de que Therese deseja ser fotógrafa, e para isso estabelece contato com Dannie McElroy (John Magaro), que trabalha no The New York Times, e Carol quer brigar pela guarda de sua filha na justiça, Rindy (Kk Heim), com seu marido. São personagens deslocadas do seu período e de suas respectivas posições, e Haynes tem um talento, como em Longe do paraíso, a fornecer imagens que tratam desse deslocamento.

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Quando o filme passa a ser uma espécie de road movie clássico, parece que o filme tem um verdadeiro encanto em mostrar as paisagens de uma América perdida em beiras de estrada e de hotel, além de um personagem misterioso da vida de Carol se antecipar a alguns fatos, Abby Gerhard (Sarah Paulson, muito bem). Os personagens estão sempre querendo dizer algo, mas pouco o fazem, a não ser por olhares misteriosos e toques a distância, preenchidos pela trilha sonora agradável de Carter Burwell e a câmera da Canon levada por Therese é o ponto de aproximação mais direto de Carol: por meio de uma fotografia que tira dela escolhendo uma árvore de Natal, está o núcleo dramático do filme.
Haynes tem uma tendência em filmar rostos atrás de vidros, principalmente embaçados, confundido o espectador, e o máximo que essas pessoas trocam são toques querendo atrair algum tipo de afeto perdido. Nesse meio termo, as duas encontrarão um homem chamado Tommy Tucker (Cory Michael Smith) e percebe-se o quanto Rooney Mara ainda tem dificuldades de repetir o êxito interpretativo de Millennium (em Terapia de risco já não havia conseguido, embora em Peter Pan esteja bem): dificilmente ela funciona, e ter sido premiada como atriz principal em Cannes é um mistério (embora eu não tenha visto todas as atuações), sempre salva, nas cenas, por uma Blanchett impressionantemente contida e só não melhor do que em Cavaleiro de copas, o filme mais recente de Malick.

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Blanchett começa com uma determinada lentidão, quase sem roteiro, e ao final se vê uma implosão dramática difícil de ser alcançada, apesar dos classicismos de Haynes na maneira de filmar, imprimindo uma sutileza que extrai da carga dramática apenas lances de olhar. É Blanchett que, afinal, faz valer a sessão de Carol, um filme particularmente com uma emoção tão distanciada que não permite ao espectador se aproximar de qualquer um de seus personagens – principalmente com os arroubos, delicados para um drama dessa espécie, de Chandler.
É de se perguntar por que Haynes tem uma perícia muito grande em montar personagens femininos e fazer dos personagens masculinos apenas tolos em movimento. Um dos motivos de Carol ser tão pouco efetivo em sua parte dramática é justamente colocar quase todos os personagens masculinos com uma tendência apenas à incompreensão diante da mulher, afinal elas também estão enfrentando o posicionamento deles. Quando mais ao final Haynes coloca tudo num movimento mais interessante, e o receio da solidão como tema fundamental, o filme parece crescer. Torna mais claro o seu foco: a impossibilidade de duas pessoas terem uma relação numa época em que essa aproximação era ainda mais dificultosa e impedida por tudo ao redor.

Carol, EUA, 2015 Diretor: Todd Haynes Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Jake Lacy, Kyle Chandler, Sarah Paulson, John Magaro, Greg Violand, Kk Heim, Sadie Heim, Trent Rowland, Nik Pajic, Cory Michael Smith, Carrie Brownstein Roteiro: Phyllis Nagy Fotografia: Edward Lachman Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Christine Vachon, Elizabeth Karlsen, Stephen Woolley, Tessa Ross Duração: 118 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Film4 / Killer Films / Number 9 Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

Os oito odiados (2015)

Por André Dick

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Depois de Django livre, Tarantino volta ao gênero do faroeste em que desenhava um panorama da escravidão nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que oferecia uma vingança a seu personagem principal, interpretado por Jamie Foxx. Em Os oito odiados, novamente com uma fotografia excepcional de seu habitual parceiro, Robert Richardson, Tarantino volta a mostrar não exatamente surpresas na estrutura do roteiro (dividido em capítulos como os seus melhores filmes, a começar por Bastardos inglórios), mas na maneira de captar a ação. É como se ele tivesse vendo a estrutura de alguns filmes europeus (vide O gebo e a sombra), com uma caracterização quase teatral. Enquanto Django livre era um faroeste inteligente e plástico, sua sustentação se dava principalmente pelas cenas de tiroteio com a característica mais pop de Tarantino.
Em Os oito odiados, John Ruth (Kurt Russell) leva uma prisioneira algemada a seu braço, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), numa diligência conduzida por OB Jackson (James Parks), quando se depara com a figura do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e, em seguida, com aquele que se diz novo xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins). Numa nevasca complicada, eles acabam parando na hospedaria acolhedora de Minnie, antes de onde deveriam ficar, exatamente a cidade de Mannix. Na hospedaria, encontram o General Sandy Smithers (Bruce Dern), Oswaldo Mobray (Tim Roth, pouco mais de vinte anos depois de fazer o assaltante nervoso de Pulp Fiction), Bob (Demian Bichir) e Joe Gage (Michael Madsen).

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Interessante como cada personagem parece ter uma característica que parece defini-lo, a começar com Mannix, visto como um covarde por John Ruth e Major Marquis. Oswaldo Mobray é uma espécie de inglês elegante apegado às vítimas que ainda fará, Bob se mostra como o mexicano solícito, Joe Gage (talvez uma brincadeira com John Cage, o músico de vanguarda) como aquele interessado em visitar a sua mãe e escrever em seu diário, e o General Sandy Smithers não pretende sair de seu silêncio numa poltrona acomodada longe da porta.
Todos esses personagens ganham um espaço e a demora que leva para cada um entrar ou sair do estabelecimento de Minnie concedem suspense para a narrativa, justificando a montagem de Fred Raskin, colaborador de Tarantino desde Django livre e substituto de Sally Menken, a montadora dos clássicos do diretor. Há uma base nítida não apenas em filmes europeus (o já citado O gebo e a sombra e O cavalo de Turim); Tarantino leva para o cinema a mesma peça que encenou inicialmente quando ainda decidia se faria o filme ou não. A colocação de estacas pelos personagens para encontrar o banheiro na nevasca é um exemplo claro de que se dá importância aqui a uma lentidão que não havia na narrativa apressada de Django livre. Ou quando Ruth adentra a hospedaria e procura por comida ou café, sem considerar quem se encontra no lugar.
Ao mesmo tempo, o design de produção deste filme parece mais rico e dialogar mais com o Velho Oeste do que o de Django livre. Todos os detalhes (da paisagem invernal à concepção rústica da hospedaria) recebem um cuidado por parte de Tarantino, inclusive alguns que não são comuns em sua trajetória. Outro exemplo: a trilha sonora de Ennio Morricone (cujas notas lembram aquelas de Os intocáveis) supera a escolha de canções dos últimos filmes de Tarantino que mais usavam esse elemento (Kill Bill – Vol 1 e Django livre). Ou seja, nesses filmes, em algum momento, o diretor parecia não mesclar música e imagens, senão simplesmente colocar a imagem como pano de fundo para a música que transcorria – a longa cavalgada de Django até a fazenda do vilão feito por DiCaprio é um exemplo clássico dessa tendência de Tarantino.

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Os oito odiados.Filme

Além disso, a trilha de Morricone parece soar estranha no conjunto, pois lembra mais os acordes empregados num filme de terror ou de suspense, mais especificamente com outro filme em que homens ficam presos num lugar, numa determinada estação do Ártico, em O enigma de outro mundo. Tarantino imagina, mais do que John Carpenter, de qualquer modo um Sam Peckinpah. Ao contrário de discussões sobre quem pode carregar um alien, há referências à escravidão, à aversão aos mexicanos, ao racismo, à rivalidade entre o sul e o norte dos Estados Unidos e nenhum dos personagens se coloca como isento de culpa.
Em termos plásticos, mesmo pela fotografia cuidadosa de Richardson, não se pode deixar de ver algumas semelhanças do filme, como O regresso, diante da obra O portal do paraíso, de Cimino, sobretudo porque a ação se passa no Wyoming, e com a obra estrelada por Warren Beatty nos anos 70, Quando os homens são homens, tanto pelas paisagens gélidas quanto pelo inesperado comportamento dos personagens. Esta plasticidade, no entanto, só é realmente destacada por causa do elenco, sobretudo Samuel L. Jackson, que consegue suas melhores atuações justamente com Tarantino. Assim como em Pulp Ficition, ele é aquele que tece o elo entre os personagens, entre a justificativa de vingança e a necessidade de estabelecer acordos, entre a intranquilidade e o sossego diante das piores situações. É um personagem bastante ambíguo, como todos os outros, ao qual Tarantino dá especial atenção porque sabe que sua obra depende dele para render.
E Tarantino sempre cresce, com seus personagens, em lugares delimitados, e por isso suas obras Kill Bill – Vol. 1 e Django livre se sentem um pouco mais dispersas exceto nas sequências de confrontos pessoais.

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Assim, ele parece conduzir melhor seus filmes quando coloca os personagens em situações no limite em lugares demarcados. A interação do personagem de Jackson com os demais é sustentada pelo confronto de olhares, uma especialidade do ator e também de seu companheiro de cena, Bruce Dern, logo depois de Nebraska e numa situação mais delicada, enquanto Russell e Jason Leigh compõem uma dupla inquieta e implacável – e quando surge um momento de alívio, e é dada à personagem dela o direito de cantar uma música, Tarantino lembra de que seu filme trata de outro tema. A aparenta passividade dos personagens contrasta com a violência que carregam, principalmente de Ruth e sua prisioneira. O sangue, no filme, respinga sobre o gelo e não há fogo que possa aquecer esses personagens, em razão da frieza que carregam. Nesse sentido, Tarantino compõe um faroeste que tem as características do gênero apenas em sua superfície – quando esconde, mais ao chão, sua verdadeira subversão e seus diálogos que rumam a uma situação indefinida.
Daí, talvez, ser Os oito odiados o filme mais violento de Tarantino, com cenas realmente de desviar o olhar, numa espécie de diálogo com o mais recente Refn, de Drive e Apenas Deus perdoa. E talvez por isso ele coloque em cena imagens religiosas que possam tentar salvar esse universo e os homens e mulheres que habitam esse universo – sendo a mulher o símbolo da solidão e uma espécie de figura associada às bruxas, como era vista em uma determinada época. A violência contra a mulher em Os oito odiados é perturbadora, mais do que em qualquer obra de Tarantino, mas cria uma correspondência com a imagem de Jesus Cristo crucificado logo no início do filme, quando surge, ao fundo, a diligência que dá início à história. E a narrativa centra também suas expectativas em discussões políticas, sobre a Guerra Civil dos EUA e sobre uma determinada carta de Abraham Lincoln a um de seus personagens, podendo ser verdadeira ou não. O encontro entre esses personagens não é motivo apenas para uma sequência ininterrupta de diálogos, alguns deles extensos, e num contato direto com outras obras de Tarantino, e sim com uma teatralidade conduzida com esmero impressionante. A maneira como o cineasta leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória de Tarantino e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

The hateful eight, EUA, 2015 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern, Michael Madsen, James Parks Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Ennio Morricone Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher Duração: 182 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Columbia Pictures / The Weinstein Company

Cotação 5 estrelas

Spotlight – Segredos revelados (2015)

Por André Dick

Spotlight.Filme

Alguns filmes adquirem, de um momento para outro, uma determinada importância que os fazem ser assistidos com mais ou menos expectativa. Alguns correspondem a ela, outros não. Quando o também ator Tom McCarthy (ele está na série Entrando numa fria, como um dos cunhados de Robert De Niro), realizou, por exemplo, O agente da estação, ainda era um cineasta em início de trajetória, e Ganhar ou ganhar mostrou sua sensibilidade, por meio da bela atuação de Paul Giamatti, enquanto Trocando os pés trouxe mais um Adam Sandler de rotina, mas com Spotlight – Segredos revelados ele acaba chamando a atenção para si e para o elenco que atrai para esta história baseada em fatos reais.
O jornal Boston Globe contava com uma equipe de reportagens especiais, Spotlight, tendo à frente Walter Robbinson (Michael Keaton), com Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) como parceiros. Eles são incumbidos pelo novo chefe, Marty Baron (Liev Schreiber), de investigar abusos por parte de padres pedófilos ligados à Igreja Católica em Boston. Trata-se de um assunto de extrema importância, sobretudo porque necessita um tratamento que não seja condescendente com o assunto. Há alguns filmes pontuais que fazem uma crítica direta à Igreja Católica e são bastante ousados, a exemplo de O poderoso chefão III, quando mostra Michael Corleone com contatos diretos dentro do Vaticano.

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O tema de Spotlight é distinto – e lida com uma questão que atinge a Igreja há alguns anos, por todas as notícias a que se tem acesso. McCarthy tinha uma linha a seguir de emotividade, no entanto, em termos narrativos, Spotlight se destaca por ser um filme de diálogos sobre uma matéria a ser feita. Parece que muito está acontecendo, e quando se percebe não chega a haver uma linha mais aprofundada de cada personagem. Eles buscam informações e se movimentam, mas o espectador dificilmente está com eles. Como na referência central do filme, Todos os homens do presidente, sobre o Caso Watergate, eles vão atrás de pessoas e poucas vão recebê-los, no entanto Pakula sabia construir um crescente de tensão e desconfiança; McCarthy parece apenas registrar fatos e colocar personagens para dizê-los sem a ênfase necessária, ao som de uma trilha sonora surpreendentemente tímida de Howard Shore.
Spotlight fica no limite da denúncia, no entanto um pouco afastado do tema que pretende abordar, por meio, principalmente, do empecilho que o direito colocaria para impedir a verdade. A questão, ao que parece, é que a importância de Spotlight não parece ser a mesma de seu tema em questão, e pelo que se vê essa mistura está sendo feita em grande quantidade, mesmo quando tem grandes momentos.
Os relatos de vítimas são muito bem feitos no início, dando ao filme uma carga dramática específica, principalmente os de Phil Saviano (Neal Huff), Joe Crowley (Michael Cyril Creighton) e Patrick McSorley (Jimmy LeBlanc), todos em excelentes atuações, por outro lado McCarthy os descarta para dar uma movimentação ininterrupta. Todos os jornalistas falam o tempo todo dos casos, não abrindo espaço para uma emoção que podem tirar deles. Nessa movimentação, é visível que se ausenta a parte que na investigação é responsável pelos acontecimentos. Quando ela surge, é de maneira um tanto encoberta, como se não quisesse mostrá-la. Ou seja, há uma pauta jornalística a ser cumprida pela equipe Spotlight; isso em termos de cinema não significa que dê um filme destacado. E é difícil acreditar que McCarthy deseja extrair um traço de humor do aviso de Matt Carroll a seus filhos.

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Com esta falta de carga dramática, as atuações têm dificuldade para se sobressair, exceto as de Mark Ruffalo e de alguns coadjuvantes (Stanley Tucci e Schreiber), principalmente Billy Crudup como o advogado ambíguo Eric Macleish e John Slattery, no papel de Ben Bradlee Jr. Keaton e McAdams, apesar de estarem bem (e admiro ambos), talvez estejam em parte desperdiçados em personagens que poderiam mais contundência. Não há traços claros da sensibilidade interpretativa que McCarthy mostrou em seus belos O agente da estação e Ganhar ou ganhar, ou a simplicidade que realçava as bordas emocionais desses filmes. Num ano em que há um filme como Juventude, é difícil considerar que Spotlight chegue perto de ter o melhor elenco.
A montagem, para um filme quase documental, é igualmente confusa e as camadas vão se sobrepondo, abandonando ideias interessantes, outras menos, porém sempre deixando para trás alguma linha pela qual o espectador poderia seguir com mais clareza para que o impacto seja devidamente atingido. À medida que Spotlight hesita em mostrar quem eram os responsáveis pelos acontecimentos, em raras exceções, o filme se sente, de certa maneira, incompleto. Não há uma clareza entre o público e o privado, não da maneira proposital que deveria, e sim para o crescimento dos personagens nessas duas redomas. A exposição do problema crucial para Boston, tão referida ao longo do filme, se torna para além do filme: não é o ponto para McCarthy. Tudo, para ele, continua e continuará em segredo, pelo menos para o espectador que acompanha a história. A verdade só poderá vir depois da notícia, e nos perguntamos se veremos Saviano, Crowley e McSorley diante de quem cometeu algo trágico em suas vidas.

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Mesmo a maneira com que McCarthy filmou sua história, com um design de produção bastante simplista (lembra um telefilme antes das produções mais recentes sofisticadas) e movimentos de câmera em parte previsíveis (algumas conversas são acompanhadas pelas costas dos personagens, mas nunca recebem um significado mais amplo), incomoda. Além disso, a redação de jornal não se confirma como um lugar atrativo e os cenários além dela são dispersos e pouco numerosos. McCarthy opta por uma certa secura visual, como se isso desse a ele mais efetividade no tratamento do tema.
E ele realmente não consegue solucionar a montagem da melhor maneira. Não era o objetivo, claro, mostrar a amizade entre os repórteres; o problema é que em Spotlight não há um elo de ligação evidente que os torna uma equipe, e isso é sentido no resultado final, que parece absorver toda a emoção que haveria nos relatos originais, entregando apenas o que seria impresso. Isso acaba criando um afastamento inevitável do espectador que percebe esse impasse na narrativa de McCarthy, de que os personagens são apenas o elo para uma denúncia de impacto enorme (o final mostra muito bem essa característica, especialmente) e não, como em Todos os homens do presidente, também figuras intrinsecamente ligadas ao assunto, exceto a do personagem feito por Ruffalo, ao menos em termos de convencimento cinematográfico. O editor feito por Keaton é um exemplo. É isto o que mais chama a atenção ao fim de Spotlight: a vida dessas pessoas prejudicadas tragicamente por padres pedófilos parece, antes de tudo, servir apenas a uma matéria, e o roteiro acaba por se ressentir de um acabamento: aquele que faz do espectador também parte daquela emoção. Para o que gostaria de ser, falta, na verdade, um editor para Spotlight.

Spotlight, EUA, 2015 Diretor: Tom McCarthy Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachael McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Billy Crudup, John Slattery, Len Cariou, Neal Huff, Michael Cyril Creighton, Jimmy LeBlanc Roteiro: Josh Singer, Tom McCarthy Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Blye Pagon Faust, Michael Sugar, Nicole Rocklin, Steve Golin Duração: 128 min. Distribuidora: Sony PicturesEstúdio: Anonymous Content / Participant Media / Rocklin / Faust

Cotação 2 estrelas e meia