A grande jogada (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Aaron Sorkin, mais conhecido por seu trabalho como roteirista, reúne suas qualidades já percebidas em Questão de honra, O homem que mudou o jogo e A rede social. Em comum, nesses filmes há um trabalho de encadeamento de diálogos muito apurado, nunca deixando de definir o perfil dos personagens. Aqui ele conta a história, baseada em fatos reais, de Molly Bloom (Jessica Chastain), que esteve à frente de muitos jogos de pôquer em Los Angeles e Nova York, até cair na rede do FBI e precisar ser defendida pelo conhecido advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). O roteiro é feito a partir da própria autobiografia de Molly, com um título bastante sugestivo: Molly’s Game: From Hollywood’s elite to Wall Street’s billionaire boys club, my high-stakes adventure in the world of underground poker.

Como o último trabalho de Sorkin havia sido o falho e irregular Steve Jobs, esta estreia em A grande jogada vinha com uma série de dúvidas. No entanto, a maneira como ele apresenta Molly, em que ela faz amizade primeiro com um ator, ou melhor, X (Michael Cera), uma mistura, por informações que acompanham o filme, de Ben Affleck, Tobey Maguire e Leonardo DiCaprio, e depois com Douglas Downey (Chris O’Dowd), que a apresenta a integrantes da máfia russa, é notável pela sequência magnetizante de diálogos e narração em off de Molly, contando sua história. Não há intervalos em A grande jogada, o que poderia soar cansativo, mas nunca ingressa nesse caminho, e sem gostar de jogos muitas vezes me perguntei o que este filme tem de diferente. Na base, ele é uma cinebiografia com elementos até previsíveis, mas a maneira com que foi filmada e a atuação de Jessica Chastain, recuperando-se do overacting de Armas na mesa, no qual tentava exagerar uma frieza, são exemplos de como transformar um filme que poderia ser apenas comum em algo atrativo.

A relação entre Molly e seu pai Larry (Kevin Costner, discreto e eficiente), é o pano de fundo da narrativa, porém é o advogado feito por Elba que traz alguns momentos de intensa dramaticidade, mesmo sendo, no fim das contas, subaproveitado. Não conhecemos muito bem a personagem central como uma personalidade, mesmo com os flashbacks de quando era mais jovem e esportista treinada pelo pai, e sim como a figura inserida numa situação complexa e que determinou sua vida em certo ponto.
Como em Questão de honra, Sorkin apresenta uma atração pelo universo dos advogados e do tribunal, embora as cenas passadas nele não se estendam, sendo mais trabalhados os bastidores, com as tentativas de Charlie em lidar com os advogados que tentam entrar em acordo com sua cliente. E como no ótimo e às vezes esquecido O homem que mudou o jogo há um verdadeiro jogo entre o que pode ser ganho caso se invista em determinadas jogadas – quando no filme de Miller tudo se fazia em torno de compra e venda de jogadores para a construção de uma equipe competitiva. A atração pelo jogo, contudo, era intrínseca, embora no filme com Brad Pitt mais voltada a uma questão histórica, para os personagens e para a equipe.
No entanto, há a presença de mais humor, sobretudo pela figura de Douglas Downey, graças à atuação calibrada do sempre subestimado O’Dowd (o policial de Missão madrinha de casamento) e, quando a violência de uma determinada situação surge para espantar a calmaria, parece que Sorkin recorre a truques bem colocados de suspense.

Apesar de aproximações feitas com A rede social, esta personagem é muito diferente do Zuckerberg daquele filme. Há um senso de realismo muito mais presente, assim como um sentimento de desamparo e solidão da personagem num universo em que ela se insere com gosto pela luxúria e sobrevivência. Sorkin visualiza esse universo longe da simetria informatizada e dividida em atos definidos de Boyle para seu roteiro de Steve Jobs (o qual já não era necessariamente interessante) e recorre a vários cenários para multiplicar essa visão de submundo repleto de ricos, em que transitam interesses pelo dinheiro e pela sexualidade dosados por uso de drogas, sem fixar essa visão.
Chastain transforma Molly numa personagem mais interessante do que transparece ao início, em que parecemos estar diante mais de uma mulher apenas ousada em se envolver com o universo do pôquer – quando há camadas mais psicológicas. Ela encarna uma mulher a princípio determinada, mas depois bastante volúvel, difícil de ser definida. É difícil haver um filme com tantos flashbacks que parece acontecer no mesmo tempo, de maneira linear. Em nenhum momento, Sorkin confunde o espectador com artifícios que fujam ao roteiro ou tenta ser hermético por meio da montagem. Com temas que perfazem um grande panorama, a partir basicamente de apostas, literalmente, A grande jogada se faz marcante.

Molly’s game, EUA, 2017 Diretor: Aaron Sorkin Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O’Dowd, Bill Camp Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Mark Gordon, Amy Pascal, Matt Jackson Duração: 140 min. Estúdio: The Mark Gordon Company, Pascal Pictures, Ciwen Pictures, Huayi Brothers Pictures Distribuidora: STXfilms

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Possíveis vencedores do Oscar 2018

Por André Dick

Gosto tanto da seleção do Oscar deste ano quanto a do ano passado. Há uma obra-prima (Trama fantasma), três filmes excelentes (Lady Bird, A forma da água e Três anúncios para um crime), um muito bom (Corra!) e um historicamente interessante e bem interpretado (O destino de uma nação). Não sou apreciador, no entanto, de Dunkirk, The Post – A guerra secreta e de Me chame pelo seu nome.  Eu teria substituído esses três filmes por Blade Runner 2049, De canção em canção e Projeto Flórida, e acrescentaria um décimo: Todo o dinheiro do mundo ou Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi.
Dos indicados, a disputa vai ficar, ao que tudo indica, entre A forma da água, Três anúncios para um crime e Lady Bird – A hora de voar. Pessoalmente, a única surpresa seria Trama fantasma. Na verdade, depois dos índices baixos de audiência, não sei se a Academia de Hollywood não vai querer surpreender este ano, premiando filmes diferentes de outros eventos. Seria uma alternativa para atrair mais espectadores (que não seja por envelopes trocados). E Boyhood era favorito em 2015 e perdeu, O regresso em 2016 e perdeu, La La Land em 2017 e perdeu, então o filme de McDonagh pode sofrer uma surpresa. Abaixo, quem VAI ganhar, PODE ganhar e DEVERIA ganhar em cada categoria principal, em escolhas pessoais (destaco a imagem do filme preferido).

Melhor filme

Vai ganhar: Três anúncios para um crime

Pode ganhar: A forma da água

Deveria ganhar: Trama fantasma

Melhor diretor

Vai ganhar: Guillermo del Toro (A forma da água)

Pode ganhar: Greta Gerwig (Lady Bird – A hora de voar)

Deveria ganhar: Paul Thomas Anderson (Trama fantasma)

Melhor ator

Vai ganhar: Gary Oldman (O destino de uma nação)

Pode ganhar: Daniel Day-Lewis (Trama fantasma)

Deveria ganhar: Daniel Day-Lewis (Trama fantasma)

Melhor atriz

Vai ganhar: Frances McDormand (Três anúncios para um crime)

Pode ganhar: Saoirse Ronan (Lady Bird – A hora de voar)

Deveria ganhar: Sally Hawkins (A forma da água)

Melhor ator coadjuvante

Vai ganhar: Sam Rockwell (Três anúncios para um crime)

Pode ganhar: Willem Dafoe (Projeto Flórida)

Deveria ganhar: Christopher Plummer (Todo o dinheiro do mundo)

Melhor atriz coadjuvante

Vai ganhar: Allison Janney (Eu, Tonya)

Pode ganhar: Laurie Metcalf (Lady Bird – A hora de voar)

Deveria ganhar: Laurie Metcalf (Lady Bird – A hora de voar)

Melhor roteiro original

Vai ganhar: Greta Gerwig (Lady Bird – A hora de voar)

Pode ganhar: Jordan Peele (Corra!)

Deveria ganhar: Greta Gerwig (Lady Bird – A hora de voar)

Melhor roteiro adaptado

Vai ganhar: James Ivory (Me chame pelo seu nome)

Pode ganhar: Aaron Sorkin (A grande jogada)

Deveria ganhar: Aaron Sorkin (A grande jogada)

Melhor filme em língua estrangeira

Vai ganhar: The Square: A arte da discórdia (Suécia)

Pode ganhar: Uma mulher fantástica (Chile)

Deveria ganhar: The Square: A arte da discórdia (Suécia)

Melhor animação

Vai ganhar: Viva – A vida é uma festa

Pode ganhar: Com amor, Van Gogh

Deveria ganhar: Viva – A vida é uma festa

Melhor fotografia

Vai ganhar: Roger Deakins (Blade Runner 2049)

Pode ganhar: Hoyte van Hoytema (Dunkirk)

Deveria ganhar: Roger Deakins (Blade Runner 2049)

Melhor trilha sonora

Vai ganhar: Alexandre Desplat (A forma da água)

Pode ganhar: Hans Zimmer (Dunkirk)

Deveria ganhar: Jonny Greenwood (Trama fantasma)

Melhor canção

Vai ganhar: “Remember me” (Viva – A vida é uma festa)

Pode ganhar: “Mighty river” (Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi)

Deveria ganhar: “Remember me” (Viva – A vida é uma festa)

Melhor design de produção

Vai ganhar: A forma da água

Pode ganhar: Blade Runner 2049

Deveria ganhar: Blade Runner 2049

Melhor figurino

Vai ganhar: Trama fantasma

Pode ganhar: A bela e a fera

Deveria ganhar: Trama fantasma

Melhor edição

Vai ganhar: Dunkirk

Pode ganhar: Em ritmo de fuga

Deveria ganhar: A forma da água

Melhor mixagem de som

Vai ganhar: Dunkirk

Pode ganhar: Em ritmo de fuga

Deveria ganhar: Dunkirk

Melhor edição de som

Vai ganhar: Em ritmo de fuga

Pode ganhar: Dunkirk

Deveria ganhar: Em ritmo de fuga

Melhor maquiagem e cabelo

Vai ganhar: O destino de uma nação

Pode ganhar: Extraordinário

Deveria ganhar: O destino de uma nação

Melhores efeitos visuais

Vai ganhar: Planeta dos macacos – A guerra

Pode ganhar: Blade Runner 2049

Deveria ganhar: Blade Runner 2049 

Pequena grande vida (2017)

Por André Dick

O filme mais recente de Alexander Payne foi lançado no Festival de Veneza, sendo, a partir de então, considerado de longe seu pior trabalho. O cineasta nunca chegou a ter entusiastas no meio da crítica, apesar dos Oscars de roteiro adaptado por Sideways e Os descendentes, mas sempre teve inegável respeito e um público admirador. Pequena grande vida se passa num futuro não muito distante, no qual Paul Safranek (Matt Damon), um terapeuta ocupacional, é casado com Audrey (Kristen Wiig), em Omaha. Trata-se de um típico casal classe média, como Payne mora em Eleição, com intenções de uma nova vida. Paul poderia ser também o escritor ébrio de Sideways, o viúvo de As confissões de Schmidt, o herdeiro de Os descendentes. São personagens que carregam uma certa melancolia, uma vontade de verem suas vidas de forma diferente, no entanto barrados em algum momento pela impossibilidade.

Os Safranek resolvem fazer parte de um projeto de miniaturização, em que os humanos são reduzidos a poucos centímetros, depois de reencontrarem um casal de amigos que seguiu o caminho, Dave Johnson (Jason Sudeikis) e Carol (Maribeth Monroe). Com a intenção de viverem uma vida melhor, eles se inscrevem no programa, criado pelo cientista norueguês Jørgen Asbjørnsen (Rolf Lassgård). O objetivo do programa é reduzir os gastos em alimentação para a humanidade e fugir do aquecimento global. No dia da entrevista, o casal está nervoso e precisa se separar antes de verem completa a transformação. E esta se mostra no mínimo excêntrica: os seres humanos parecem bolachas em micro-ondas, que, ao invés de crescerem, diminuem.
Chegando inicialmente a uma casa que lembra a de alguma fábula, em Leisureland, Paul se torna um atendente de telemarketing e vai morar num apartamento bem menor do que antevia seu sonho inicial, enquanto precisa lidar com seu vizinho Dušan (Christoph Waltz), que tem como empregada a ativista política vietnamita Ngoc Lan Tran (Hong Chau) e como melhor amigo Joris Konrad (Udo Kier). A questão é que ele percebe que esse microcosmo tem as mesmas particularidades (econômicas, sociais) da vida normal que vivia antes: Leisureland não passa de Omaha em estado minúsculo. Dušan é a própria representação disso. E Lan Tran mostra numa espécie de periferia que recorda a população esquecida pela ventilação em O vingador do futuro, de Paul Verhoeven, num condomínio interno com luzes futuristas que evoca algo de Terry Gilliam.

Com elementos de ficção científica notáveis e um design de produção de Stefania Cella que justifica seus quase 70 milhões de dólares de orçamento, Pequena grande vida é a comédia mais original do ano, mas uma comédia nos moldes de Payne: com um fundo existencial humano muito belo, elementos de transição dramáticos e aqui imprevisíveis. Quem souber o que vai acontecer na história depois de 20 minutos certamente tem spoilers dele.
Como apreciador da filmografia de Payne, já estava preparado para a decepção depois das considerações inciais sobre o projeto. Não é nenhuma surpresa, mas Pequena grande vida se enquadra naquela seção de filmes que passam a ser vistos de forma injusta mesmo por quem os aprecia. Diante de críticas de todos os tipos, o público em geral costuma querer fazer parte da mesma recepção e, enquanto procura por qualidades em obras indicadas ao Oscar mesmo quando elas não existem como apontado pela maioria ou existem por meio de um marketing prévio, procura apenas por falhas naquelas apontadas (literalmente) como menores. Pequena grande vida foi o selecionado como uma das decepções de 2017, mesmo porque os filmes de Payne sempre são cotados (e indicados) ao Oscar.

A fotografia de Phedon Papamichael sabe capturar o mundo em miniatura de maneira plasticamente bela, assim como Damon, Waltz e sobretudo Chau (revelada em Vício inerente) entregam ótimas atuações. Damon, que esteve em outro filme bastante subestimado no ano passado, Suburbicon, está especialmente no momento de sua carreira que melhor recorda a autenticidade de interpretação revelada em Gênio indomável, há mais de duas décadas, enquanto Waltz não se apresentava tão eficiente desde Django livre. Se alguns momentos do terceiro ato não chegam a ser desenvolvidos como poderia – e o humor se mescla com o drama por vezes de maneira estranha –, o conceito desenvolvido por Payne não vai no sentido óbvio: de que o dinheiro não definiria esse personagem de Paul, nem visualiza exatamente uma Era da Aquarius para a humanidade se sentir menos culpada.
De modo geral, existe aqui e na filmografia de Payne uma necessidade de validar o sentimento humano. No seu filme anterior a este, Nebraska, víamos um senhor de terceira idade tentando reaver um pouco de autoestima, mas, principalmente, de valores familiares até então dispersos pelo tempo. Conforme Payne, o que importa em Pequena grande vida é o tamanho das ações, independente do universo em que se esteja, e pensar no extraordinário não necessariamente modifica mais do que pensar no que está ao alcance e necessidade imediatos. Muito se comenta que o roteiro foca uma classe média nos Estados Unidos eternamente descontente; isso parece uma brincadeira diante da visualização do filme. Não se trata de um Querida, encolhi as crianças com fundo mais sério, e sim uma grande obra injustamente recepcionada até agora como comum. Uma obra profundamente humana por causa do estilo de Payne, sempre em movimento e sem fixar maneirismos.

Downsizing, EUA, 2017 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matt Damon, Christoph Waltz, Hong Chau, Kristen Wiig, Udo Kier Roteiro: Alexander Payne e Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Produção: Mark Johnson, Alexander Payne, Jim Taylor Duração: 135 min. Estúdio: Ad Hominem Enterprises Distribuidora: Paramount Pictures

Mudo (2018)

Por André Dick

Quando se lê uma lista considerável de comentários sobre o novo filme de Duncan Jones, a impressão é que há muitas obras elaboradas com cuidado visualmente. Desde sua estreia, o filme distribuído pela Netflix vem sofrendo um massacre em larga escala, assim como o interessante Bright, no ano passado. A crítica, em parte, tem a função de dizer o que acha: em parte, isso se dá de maneira levemente desequilibrada em relação a blockbusters menos inventivos e aceitos como se fossem obras-primas. É interessante que Mudo tenha Ted Sarandos como um dos produtores e ele tenha dito há alguns meses que a Netflix não se importa como os críticos. Dito isso, não estou entre os especiais admiradores de Lunar, que quase todos os “fãs” de Jones (e coloco entre rigorosas aspas, pois mesmo um espectador qualquer não tem direito a usar grosserias para qualificar uma obra, a exemplo de o “pai dele (David Bowie) deve estar se revirando na cova”, a não ser que haja quem aplauda, e costuma ser uma horda) consideram o seu melhor trabalho. Um de seus filmes seguintes me parece melhor: Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos é muito divertido, uma grande homenagem aos video games e ao cinema dos anos 80, com um orçamento imenso e uma arrecadação nada desprezível (mais de 400 milhões de dólares).

No entanto, Mudo é outra coisa: uma espécie de conto futurista passado em Berlim, daqui a 40 anos, em que um homem mudo, Leo Beiler (Alexander Skarsgård), quer reencontrar sua namorada iraniana, Naadirah (Seyneb Saleh, a menos convincente do elenco). Eles trabalham num clube noturno, ele como barman, ela como garçonete, que remete às obras de Paul Verhoeven nos anos 90, principalmente Instinto selvagem e Showgirls. Naadirah é misteriosa e tem como melhor amigo Luba (Robert Sheehan, ótimo). Enquanto isso, dois homens, “Cactus” Bill (Paul Rudd) e Donald “Duck” Teddington (Justin Theroux), estão envolvidos com gângsteres, liderados por Maksim (Gilbert Owuor). Há um elemento interessante do personagem central: traumatizado por uma paisagem da infância, que dá início ao filme e lembra Crepúsculo dos deuses, ele é um amish. Imediatamente, isso faz recordar A testemunha, dos anos 80, em que Harrison Ford, o Rick Deckard de Blade Runner, interpretava um policial que precisava proteger o garoto testemunha de um assassinato e pertencente a esta comunidade nos Estados Unidos.

Como essas histórias se cruzam indica a falta de interesse de Jones em solucionar qualquer explicação previamente colocada. Jones lida com um tema muito delicado de forma a contrastar a vida adulta e infantil e o que reserva o comportamento doentio, sem deixar de indicar uma saída. Desde o momento em que Naadirah desaparece, a obra se torna uma peça com clima noir, e há uma captura de ambientação no mínimo fascinante (o designer de produção de Gavin Bocquet, responsável pela segunda trilogia injustiçada de Star Wars, e a fotografia Gary Shaw facilmente disputariam um Oscar).
O parceiro de Jones no roteiro é Michael Robert Johnson, um dos autores do ótimo Sherlock Holmes de Guy Ritchie, em 2009. A infância, especificamente, para Jones se sente ameaçada constantemente em Mudo. O personagem se expressa verbalmente apenas por comentários escritos no seu bloquinho de notas, onde também faz desenhos imaginando uma vida agradável com a amada Naadirah. E ele é o extremo oposto do comportamento de um determinado personagem em relação às crianças. “Cactus” Bill tem uma filha, Josie (interpretada muito bem pelas gêmeas Mia Sophie-Bastin e Lea Sophie-Bastin), que também fica desenhando num caderno enquanto acompanha o pai. Este enxerga em seu parceiro um comportamento específico: esta visão que nada parece ter a ver com a trama na verdade não é seu pano de fundo e sim o seu centro. A mudez do personagem de Leo é parecida com a mudez de meninas em situações nas quais são colocadas por cafetinas ou mesmo com o desejo de se reabilitarem fisicamente por meio de cirurgias. Além disso, o personagem de Leo pela sua tradição, não comporta tecnologia e parece deslocado entre figuras andróginas, não por culpa, e sim por estar à margem. O futuro de Jones não é leve.

Jones se utiliza de referências mais selvagens – seu futuro é amargo e embarcado em sexo desvirtuado – do que Villeneuve no recente Blade Runner 2049. É importante dizer que, embora não se compare a este trabalho, Mudo explora traços inexplorados na ficção memorável com Ryan Gosling. Há algo de mais sujo, de underground, nas paisagens do filme, que remetem mais ao Blade Runner de Scott dos anos 80, e, involuntariamente, dialogam com o recente Ghost in the shell, com Scarlett Johansson.
Embora Rudd e Theroux tenham as grandes atuações do elenco (Theroux especialmente num papel complicador), Alexander Skarsgård é convincente, de forma inesperada, num papel que poderia ser mal desenvolvido. Há um visível desenvolvimento dele como ator, depois de A lenda de Tarzan (não assisti a Big little lies, pelo qual ele ganhou vários prêmios este ano, inclusive o Globo de Ouro). Um determinado momento passado numa piscina é cortante e se liga com o final de maneira extraordinária.
E há elementos de Blade Runner na estética, mas, sobretudo, de Apenas Deus perdoa, de Refn, e uma dose de violência que inexistia em Lunar, por exemplo. Ao mesmo tempo, há inovações e Jones tem um bom olhar para enfocar lugares internos, como um clube de boliche ou os próprios apartamentos pelos quais o personagem central peregrina atrás de pistas de sua amada. Algumas soluções visuais são impressionantes: quando Leo vai fazer uma pesquisa na biblioteca de Berlim e ela parece se mostrar infinita como num conto de Borges. A decepção dos que se insurgem contra um filme dessa qualidade não dura muito: logo surgirá outro blockbuster de alguma produtora a ser lançada nas cadeias de cinema para saciar a sede de elogios. Se a Netflix distribuir mais obras diferenciadas e destinadas ao culto, ganha o espectador que não se importa com um pré-determinado consenso (o filme da moda) a curto prazo. Ou seja, assistir a uma obra sempre por si mesmo.

Mute, EUA/ALE/ING, 2018 Diretor: Duncan Jones Elenco: Alexander Skarsgård, Paul Rudd, Justin Theroux, Robert Sheehan, Gilbert Owuor, Mia Sophie-Bastin, Lea Sophie-Bastin Roteiro: Michael Robert Johnson e Duncan Jones Fotografia: Gary Shaw Trilha Sonora: Clint Mansell Produção: Ted Sarandos e Stuart Fenegan Duração: 126 min. Estúdio: Liberty Films UK, Studio Babelsberg Distribuidora: Netflix

Trama fantasma (2017)

Por André Dick

Depois da distância relativamente grande entre os lançamentos de Sangue negro e O mestre, Paul Thomas Anderson voltou a filmar em seguida uma grande adaptação do livro Vício inerente, de Thomas Pynchon. Mostrando uma multiplicidade em seu estilo e deixando para trás a fase, digamos, mais popular, de Boogie Nights e Magnólia, com tramas muito mais lentas e se baseando mais na composição de poucos personagens, e não em panoramas de época ou dinastias de família, Anderson volta a um estilo mais clássico (de O mestre) em Trama fantasma.
A narrativa se passa em Londres, nos anos 50, focando no designer de moda muito respeitado pela alta sociedade Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Ele tem a colaboração da irmã Cyril (Lesley Manville), para coordenar seu estúdio, exatamente no lugar onde vive. Ele também possui recordações constantes da mãe. Indo para sua casa de campo, na Baía de Robin Hood, encontra, no restaurante do Victoria Hotel, trabalhando como garçonete, a jovem Alma (Vicky Krieps), por quem imediatamente se interessa. Ela passa a servir de modelo para seus vestidos e vai morar com Reynolds em Londres. Embora ela seja sensível, o designer não se mostra muito aberto a compartilhar sentimentos, além de uma frieza diária que desperta em Alma uma vontade de se afastar. Tudo parece indicar que Alma terá o destino da amada anterior de Reynolds, Johanna (Camilla Rutherford), que ele descarta logo no início.

Anderson, além de dirigir, realizou o roteiro e a fotografia, belíssima, de Trama fantasma. Com auxílio novamente da excepcional trilha sonora de Jonny Greenwood (integrante do Radiohead), ele elabora um retrato dinâmico da sociedade londrina dos anos 50 por meio de Reynolds e, como o guru de O mestre, usa o estilista para tratar de sentimentos em relação sobretudo ao mundo feminino. Trama fantasma é um retrato sobre alguém apegado à saudade pela mãe e que não consegue se afastar do mundo criativo da moda – ao qual a mãe também se dedicava – para ele próprio constituir uma família. Alma representa justamente essa lacuna e descobre a essência do personagem, manipulador e voltado apenas a si mesmo, para que possa dividir uma relação em que ele não esteja no domínio o tempo todo. A “trama fantasma” a que se refere o título está em mensagens escondidas nos vestidos que Reynolds costura, mas também à presença da mãe na casa onde vive.

É de se duvidar que exista um cineasta que trabalhe melhor a conjunção de uma narrativa e recriação de época, por meio do figurino de Mark Bridges e design de produção de Mark Tildesley, ou que consiga extrair uma atuação irretocável como a que Anderson extrai de Day-Lewis, talvez no papel definitivo de sua carreira, porém completo apenas por causa de Vicky Krieps. Esta, além de uma revelação, tem uma atuação fora de série, jogando com as qualidades opostas do personagem de Day-Lewis, mas de certo modo sendo reflexo dele.
No entanto, acreditar que o filme utiliza o visual e a atuação do elenco para esconder que não teria o que dizer é o risco do imponderável quando uma obra está aberta a avaliações. Anderson, por meio das atuações, sabe, como em O mestre, em jogar com um humor imprevisível: Reynolds e Alma entediados na festa de casamento de Barbara Rose (Harriet Sansom Harris), ou o olhar que ele lança quando ela volta a fazer barulho passando manteiga no pão são de uma plena humanidade intempestiva. Do mesmo modo, o comportamento de Alma ao notar que a grande obra do amado pode estar sendo desrespeitada, que lembra o comportamento de Freddie Quell (Joaquin Phoenix) em O mestre, ou quando em determinado momento surge o doutor Robert Hardy (Brian Gleeson).

Em Trama fantasma, nunca vemos ninguém exatamente despido. Anderson também não evoca carícias entre o casal. Tudo é deixado como sugestão, contudo também porque o corpo é inalcançável: a roupa deve cobrir o corpo, assim como os sentimentos inconfessáveis. Em um momento discreto, ele tira o batom dos lábios de Alma para que finalmente possa vê-la – mas ele não deseja realmente isso, pois seria não ver apenas a si próprio. Se havia uma profusão de diálogos em Vício inerente, Anderson se concentra aqui em diálogos mínimos, pausados, e alguns inesperadamente engraçados (sobretudo quando Reynolds se sente perturbado por alguma conversa ao café da manhã). E ele aprimora momentos sutis, como aquele em que o designer está numa situação delicada e um vestido sendo refeito representa ele mesmo se refazendo.
Assim como em toda sua trajetória, Paul Thomas Anderson tem uma atração pela simetria, entretanto, se em filmes agora longínquos, como Embriagado de amor, ele apostava em travellings, aqui ele mostra Reynolds dirigindo pelas estradas do interior com uma velocidade nervosa, moderna, oposta ao seu classicismo diante dos figurinos que desenha e confecciona.

Para Anderson, este personagem, como praticamente todos de sua obra, está à margem mesmo tentando se inserir no sistema. Ele é requisitado pela alta sociedade, mas tem aversão constante a cumprir seus requisitos habituais. A sua ideia de família com a irmã, cuja imagem substitui seu pai (em uma conversa, ela o enfrenta com empenho) e tem em Manville um desempenho irretocável, é apenas para justificar seu negócio e sua arte, no entanto algo sempre está ausente. Anderson lida com o tema do amor de forma complementar à mágica ilusória de Embriagado de amor e da época dos hippies de Vício inerente: Reynolds e Alma precisam, ao que tudo indica, um do outro, porque justamente a alegria de um não é a do outro. Só parece, pois se complementam. A alimentação remete ao instinto básico, como também à infância e à vontade de ser cuidado. Na tentativa de alcançar uma harmonia, Anderson vê o ser humano predisposto a tudo, inclusive a voltar novamente no tempo e querer uma acolhida para, por um tempo, poder se esquecer de si mesmo, tendo finalmente se encontrado. Para Anderson, afinal, a proximidade triste da morte do personagem central também pode ser a alegria da proximidade materna.

Phantom thread, EUA, 2017 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Vicky Krieps, Camilla Rutherford, Harriet Sansom Harris, Gina McKee, Brian Gleeson Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Paul Thomas Anderson (não creditado) Trilha Sonora: Jonny Greenwood Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, JoAnne Sellar, Daniel Lupi Duração: 130 min. Estúdio: Annapurna Pictures, Ghoulardi Film Company, Perfect World Pictures Distribuidora: Focus Features, Universal Pictures

Lady Bird – A hora de voar (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Sundance de 2017 e desde então elevado pela crítica a ponto de chegar a indicações principais ao Oscar, Lady Bird, de Greta Gerwig, é um filme sobre a adolescência com vários elementos que já vimos antes. São organizados de maneira a fazer o espectador sentir uma espécie de nostalgia, assim como as obras dos anos 80 de John Hughes e do recente e excepcional As vantagens de ser invisível e de Quase 18, em que uma jovem gosta de um colega sem saber ao certo o motivo. Saoirse Ronan interpreta Christine McPherson, mais conhecida pelo nome-título, filha de Marion (Laurie Metcalf) e Larry (Tracy Letts), que tem um irmão, Miguel (Jordan Rodrigues), adotado. Ela estuda numa escola secundária religiosa de Sacramento, onde sua melhor amiga é Julie Steffans (Beanie Feldstein). Ambas resolvem entrar no grupo de teatro escolar, com o padre Leviatch (Stephen McKinley Henderson) à frente, onde Lady Bird conhecerá Danny O’Neill (Lucas Hedges). Essas inter-relações de Lady Bird levam a um conflito frequente com a mãe e a uma tentativa de sempre compreender sua melhor amiga. E ela não gosta da cidade onde vive, pois queria ter uma experiência artística em Nova York ou qualquer outro lugar.

Gerwig, assim como no roteiro que ajudou a escrever com seu marido Noah Baumbach, também diretor, em Frances Ha, mostra uma generosidade com esse sentimento de uma pessoa querendo sair da adolescência e entrar na vida adulta. A personagem, aqui, pretende ingressar numa boa universidade, mas sem deixar a essência para trás. Entre descobertas e paixões, também com o jovem de uma banda de música, Kyle Scheible (Timothée Chalamet, infelizmente a peça menos funcional do elenco), Lady Bird tende a descobrir que seu microuniverso se estende a um cosmos do qual não chegava a ser admiradora e se aproxima de Shelly (Marielle Scott), a namorada do irmão.
Além de tudo, o filme possui uma montagem muito criativa, com cenas curtas e ainda assim eficazes. Embora nos primeiros 15 minutos há certos maneirismos e referências claríssimas a Eleição, de Alexander Payne, aos poucos mesmo eles vão se encaixando nos personagens. Ronan, desde Brooklyn, possui uma grande empatia com o público e aqui se destaca realmente como uma atriz capaz de sustentar a história. Suas amizades e romances são visivelmente elementos autobiográficos de Gerwig. Quando a personagem começa a tentar deixar de lado sua antiga amiga, para se tornar próxima de Jenna (Odeya Rush), isso não vem sem uma determinada pré-condição de que ela consegue se aceitar, nem a si, nem sua família. Há elementos aqui que Gerwig explorou no roteiro de outro filme que fez com Baumbach, Mistress America, mas neste ela ainda mantinha uma certa aura cultural que não satisfazia aos seus objetivos, nem havia propriamente uma fluidez na história.

Gerwig insere seus personagens num equilíbrio entre a transgressão (querer ser rebelde) e a permanência (a tradição da família), não sem uma boa porção de gags, visuais sobretudo, em peças de teatro exageradas. No roteiro, há um humor agridoce que Gerwig traz também de Mulheres do século 20, no qual faz uma jovem também de cabelo tingido, como Lady Bird, ajudando uma amiga a criar seu filho adolescente. Com uma mescla de nuances e sobreposições de tempos que remetem aos melhores momentos recentes de Malick (quando várias festas de fim de ano passam e Lady Bird procura emprego), sem o uso de voice overs, por outro lado, a narrativa se constrói de maneira interessante e sem, embora aparente, um elemento pop. Para um olhar superficial, trata-se apenas de um filme sobre a vinda da adolescência, como se costuma falar.

No entanto, vendo-se atentamente, Lady Bird representa uma espécie de transição entre sentimentos passageiros e outros mais duradouros. O que está para se passar na vida dela é justamente esse sentimento de que os indivíduos não são construídos também por seu núcleo (familiar, escolar etc.): Greta mostra com sensibilidade de que não há possibilidade de um indivíduo ser alguém distanciado de tudo para se entender, e com isso vem o elemento da sexualidade. O momento em que ela percebe que o espaço da escola se desloca para outros lugares é o momento exatamente de compreender que as gags proporcionadas pela primeira parte não se sustentam longe de um conhecimento existencial. Há cenas significativas que parecem descompromissadas, como aquela da festa de colégio em que todos estão vestidos com roupas de Velho Oeste e há cactus luminosos: Lady Bird mostra visão sobre o interior dos Estados Unidos e de como a religião da escola onde ela estuda simboliza a época posterior dos confrontos dessa região.

Em razão de um roteiro simples e personagens mais ainda, no entanto sem nunca perder um elemento de humanidade que normalmente é esquecido na maior parte dos filmes, por meio de um elenco cuja simpatia conta muito (Tracey Letts, Stephen McKinley Henderson e Beanie Feldsteine de forma destacada), Lady Bird realmente consegue voar. Aqui, a passagem para as novas gerações não traz conflito, e sim aceitação, mesmo que por vezes dolorosa. A sequência final, na qual temos um vínculo com a primeira parte da narrativa, deixa a personagem e o espectador em suspenso, devido à sua fragilidade, e a química entre Ronan e a ótima Metcalf indica essa progressão. Para Greta, o início da vida adulta não significa mais do que entender quem nos formou, independente de qual seja a aceitação. Para muitos, isso pode ser uma obviedade: não para quem viveu a adolescência e sabe que ninguém nasce com uma linguagem independente dos demais. Lady Bird, no fundo, trata disso como poucos filmes a respeito de sua faixa etária: nós somos feitos de um sentimento universal e é isso que nos faz, de fato, humanos.

Lady Bird, EUA, 2017 Diretora: Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Stephen McKinley Henderson, Lois Smith, Jordan Rodrigues, Marielle Scott Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: Jon Brion Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Evelyn O’Neil Duração: 93 min. Estúdio: Scott Rudin Productions, Management 360, IAC Films Distribuidora: A24, Universal Pictures Release date

 

Fullmetal alchemist (2018)

Por André Dick

Dirigido por Fumihiko Sori a partir de um mangá de Hiromu Arakawa (que já ultrapassou a venda de 70 milhões de exemplares, além de ter animações para a TV), Fullmetal alchemist é uma produção totalmente japonesa com uma tentativa de avançar no terreno da fantasia cinematográfica. O filme inicia mostrando os irmãos Edward e Alphonse Elric, que moram com a mãe na cidade rural de Resembool. Depois da morte dela (e o enterro dialoga com a ambientação do terror Medo), eles tentam usar a alquimia para trazê-la de volta, mas um dos irmãos fica gravemente ferido, perdendo seu braço para salvar a alma do seu irmão, que é transposta para uma armadura medieval. Eles violam leis que envolvem a transmutação humana.
Anos depois, Edward (Ryosuke Yamada) quer recuperar o corpo do irmão (Atomu Mizuishi) por meio de uma procurada pedra filosofal e para isso tem a companhia de Winry Rockbell (Tsubasa Honda), que repara os estragos que costumam acontecer com seu braço e perna, e a ajuda do coronel Roy Mustang (Dean Fujioka), que faz parte de um grupo do Estado especializado em alquimia.

Logo em seguida a uma perseguição a Padre Cornello (Kenjirou Ishimaru), que pode ter uma pedra filosofal, ele terá de enfrentar uma trupe chamada de Homúnculos, composta por Lust (Yasuko Matsuyuki), Envy (Kanata Hongo) e Gluttony (Shinji Uchiyama), ao mesmo tempo que tem o auxílio do capitão Hughes (Ryuta Sato) e do professor Shou Tucker (Yo Oizumi). Em meio a tudo, ele tem experiências com o Portal da Verdade, à procura do corpo de seu irmão.
No início do filme, é bem mais fácil que o espectador acostumado às animações consiga encaixar melhor as informações passadas pelo diretor num ritmo rápido e de quem conversa diretamente com os fãs. Porém, com o desenrolar da narrativa, o espectador vai se acostumando às referências e ao imaginário enfocado. Se houve muitas reclamações em relação à adaptação de Death Note no ano passado, sobretudo pela mudança dos personagens para os Estados Unidos, sob a direção de Adam Wingard, talvez Fullmetal alchemist não passe pelo mesmo problema: não apenas pelos atores, pela linguagem e pelo visual entre uma época passada e futura, ele parece respeitar mais o original.

Fullmetal alchemist possui um visual interessante e efeitos especiais em CGI que não ficam a dever para uma produção do gênero norte-americana com orçamento muito maior. Filmado na Itália, possui belas paisagens naturais e um trabalho de figurino competente. Como no mangá e nos animes, há um certo envolvimento com os personagens e uma trama de mistério que conduz a algumas soluções interessantes, outras nem tanto. O design de produção mistura traços europeus e orientais, dialogando, em alguns momentos, com Mistérios de Lisboa, principalmente nas mansões campestres. A fotografia de Keiji Hashimoto conserva um aproveitamento de uma cor amarelada para imagens que remetem ao passado ou mais tranquilas (a cena do jantar) com uma cor mais natural (quando os personagens estão ao ar livre) e uma mais esbranquiçada ou soturna (quando a ação atravessa para outra dimensão ou implica o aparecimento de criaturas).

Percebe-se a inexperiência do diretor, no entanto há uma busca por uma fotografia que alia tecnologia e um universo rural, com referências visuais claras a obras como Prometheus e ao thriller de suspense A criada. Eu tenho muitas dúvidas quando há críticas pesadas a este tipo de filme, que traz um novo mercado para o gênero de fantasia, e críticas enaltecendo filmes que não possuem peso dramático mesmo quando procuram por isso. Fullmetal alchemist falha algumas vezes na transição de cenas, contudo procura uma conexão humana e personagens menos unidimensionais. O dilema de Eric querer encontrar o corpo do irmão e o que isso implica nas suas ações é bem trabalhado, mesmo que a atuação de Yamada não seja a melhor possível e a personagem de Winry seja subaproveitada. A crítica norte-americana não vai tecer muitos elogios porque significa outro mercado surgindo para competir com o cinema de Hollywood. De qualquer modo, ficando no plano da diversão de qualidade, esta obra de Sori traz elementos muito interessantes.

鋼の錬金術師, JAP, 2018 Diretor: Fumihiko Sori Elenco: Ryosuke Yamada, Tsubasa Honda, Dean Fujioka, Ryuta Sato, Jun Kunimura, Fumiyo Kohinata, Yasuko Matsuyuki Roteiro: Fumihiko Sori e Takeshi Miyamoto Trilha Sonora: Reiji Kitasato Fotografia: Keiji Hashimoto Produção: Yumihiko Yoshihara Duração: 135 min. Estúdio: Oxybot Inc., Square Enix Distribuidora: Warner Bros. Pictures/Netflix

Eu, Tonya (2017)

Por André Dick

“Eu, Martin Scorsese ou David O. Russell.”
Este é um filme de Craig Gillespie, o mesmo da refilmagem interessante de A hora do espanto, mas parece desses dois cineastas, levando em conta que O. Russell já homenageia, digamos assim, o estilo de Scorsese. Se o espectador está procurando por movimentos de câmera do início ao fim, com pessoas olhando pelos vidros de um carro ou na plateia de um evento esportivo, com o olhar atento ao que está acontecendo, Eu, Tonya é uma bela referência, embora seu foco não seja este.
O filme está concentrado na história de Tonya Harding (Mckenna Grace na infância e Margot Robbie na adolescência e vida adulta), que se tornou um grande nome da patinação artística nos Estados Unidos nos anos 90. A sua mãe, LaVona Fay Golden (Allison Janney), a tira da escola, nos anos 70, para tentar torná-la uma profissional, mas sempre com muita agressividade e muitos maços de cigarro. Esta história basicamente constitui a primeira parte do filme, que é narrado como se os personagens estivessem dentro de um programa de TV explorando suas imagens e condições.

Tonya acaba se casando com Jeff Gillooly (Sebastian Stan) com o objetivo de fugir desta pressão materna, mas cai em outra situação angustiante. Isso porque Gillooy, sempre acompanhado pelo amigo Shaw Eckhardt (Paul Walter Hauser), não é a figura mais atrativa para se ter uma conversa sobre um relacionamento ou mesmo para se tratar de maneira tranquila sobre a família. Gillespie emula bastante Os bons companheiros e Cassino para tratar desse relacionamento conturbado, enquanto a mãe de Tonya dá espaço a outra treinadora, Dody Teachman (Bojana Novakovic), para as Olimpíadas de Inverno de 1992. Baseada em fatos reais, a narrativa traz uma tentativa de boicote a uma das patinadoras rivais de Tonya, o que tomou grande repercussão nos Estados Unidos.
Se a obra inicia nos anos 70 e possui uma certa aura de Trapaça, inclusive na trilha sonora, assim como da série Vinyl, os travellings se multiplicam e acabam minando uma narrativa já não interessante como poderia, entretanto é quando a ação se transporta para os anos 90 que os eixos da história se dispersam e realmente não se encontram tão cedo, apenas mais ao final. Robbie é uma boa atriz em punhado de sequências, no entanto não lhe é oferecida a chance de brilhar, o que é estranho, já que ela é uma das produtoras.

Ela fez o filme visando à indicação ao Oscar, que conseguiu, já merecida por O lobo de Wall Street, no qual fazia a esposa casada com o personagem de DiCaprio (e em cujo estilo a obra de Gillespie também se baseia, principalmente quando insere os depoimentos), e se tornou uma estrela popular depois de interpretar Arlequina em Esquadrão suicida e a namorada do rei das selvas em A lenda de Tarzan, contudo deveria ter pedido menos espaço no roteiro ao personagem do marido violento, que se torna, em última instância, o principal. Há uma razão: os personagens não chegam a ser por um momento sequer agradáveis, parecendo todos oportunistas, enquanto Tonya se deixa levar pela violência alheia e não coloca freios nela. A personagem da mãe, além de unidimensional e evitando que Janney, normalmente uma ótima atriz, consiga extrair um punhado de sinceridade dela, se torna a representação de todos do filme: tanto Stan quanto Hauser estão difíceis de suportar em seus respectivos papéis. Essa é a diferença em relação a Scorsese: este, mesmo quando foca bandidos, consegue extrair deles algum elemento de humor, algum atenuante para criar um interesse por suas trajetórias. Em Eu, Tonya, Gillespie mostra apenas a miséria de comportamento humano, porém querendo ser também divertido, como Scorsese. Quem apreciar o enfoque de Gillespie terá mais chance de apreciar a história.

Em linhas gerais, Eu, Tonya trata de uma mulher que deixa sua vida ser governada, de certo modo, pela violência. Isso, por um lado, soa uma visão determinada sobre essa personagem, por outro o espectador se torna apenas testemunha de uma série de atitudes incompreensíveis. Por isso, ao se ver nesse filme uma espécie de libelo feminista, talvez esteja se escondendo o seu potencial fator: o de que ele atenua a violência contra a mulher, de que pelo menos Tonya teria nascido não para lutar por sua vida e sim para, literalmente, ser agredida, tanto física quanto psicologicamente. Seu grande confronto com a vida seria este, não exatamente sua tentativa de ser uma exímia patinadora. Pode ser uma ideia a ser revista; a impressão que fica, pessoalmente, é esta. Gillespie compõe uma cinebiografia que se pretende original, moderna, contudo parece uma repaginação de muitas coisas já vistas, e melhores. Com essa influência estilística e algumas vezes temática de Scorsese e O. Russell, Eu, Tonya imagina estar gravando uma espécie de vida em movimento acelerado, sem perceber, muitas vezes, que isso só torna sua narrativa mais atrasada, não apenas em termos de funcionalidade, como de ideias.

I, Tonya, EUA, 2017 Diretor: Craig Gillespie Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Bobby Cannavale, Paul Walter Hauser, Bojana Novakovic Roteiro: Steven Rogers Fotografia: Nicolas Karakatsanis Trilha Sonora: Peter Nashel Produção: Tom Ackerley, Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless Duração: 119 min. Estúdio: LuckyChap Entertainment, Clubhouse Pictures, AI Film Distribuidora: Neon

Pantera Negra (2018)

Por André Dick

No Festival de Sundance de 2013, Fruitvale Station, estreia de Ryan Coogler na direção e produzido por Forest Whitaker, foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público. O diretor obtinha grandes atuações de todo o elenco e não havia um excesso narrativo, mas a composição de quadros que iam compondo a figura do personagem central. No seu filme seguinte, Creed, Coogler convocou novamente Michael B. Jordan, astro de Fruitvale Station, para interpretar Adonis, filho de Apollo Creed treinado por Rocky Balboa, e voltou a mostrar um trabalho exímio.
Diante desses dois filmes, era de se esperar que Pantera Negra fosse um significativo avanço no universo compartilhado da Marvel. O filme mostra o herói que já havia estreado em Capitão América – Guerra Civil, quando seu pai, o rei T’Chaka (John Kani), acabava deixando o trono de Wakanda, nação fictícia da África, para T’Challa (Chadwick Boseman). Este é o Pantera Negra, que tem uma força sobrenatural por causa de um metal raro, o vibranium, e é acompanhado por Nakia (Lupita Nyong’o), W’Kabi (Daniel Kaluuya, logo depois de Corra!) e pela irmã Shuri (Letitia Wright).

A história tem como referência inicial o ano de 1992, em Oakland, Califórnia, mas logo se desloca para Wakanda, uma nação altamente tecnológica, onde T’Challa precisa enfrentar o líder da tribo Jabari, M’Baku (Winston Duke), para se tornar finalmente o líder, sob o olhar de Zuri (Forest Whitaker) e sua mãe Ramonda (Angela Bassett). Enquanto isso, Erik Killmonger (Michael B. Jordan) está atrás de relíquias de Wakanda num museu, com a ajuda de Ulysses Klaue (Andy Serkis, mostrando sua fraqueza como ator quando não está interpretando personagens digitais). No meio do caminho, o Pantera Negra com seus amigos verão seu caminho cruzar com o agente Everet K. Ross (Martin Freeman).
Pantera Negra tem um aspecto de filme de espionagem, lembrando em alguns momentos Capitão América – O soldado invernal, principalmente na passagem por um cassino da Coreia do Sul, que também remete a 007 – Operação Skyfall. Ele tem o objetivo de mesclar realidade e fantasia, com belos figurinos que evocam as cores de Rainha de Katwe, sobre uma menina que joga xadrez em Uganda, e O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles. Há boas cenas de ação, algumas em slow motion, e um senso de grandeza em algumas delas. No entanto, para além de seus objetivos, Pantera Negra tem uma estrutura muito clara em sua bela concepção, com a fotografia de Rachel Morrison (Mudbound). E esta estrutura tem a finalidade de se enquadrar no universo compartilhado da Marvel: lá estão rápidas referências a Guerra Civil e a inclusão de Ross, que participava do filme dos irmãos Russo, para dar uma impressão de continuidade.

Também se apaga quase totalmente o estilo de Ryan Coogler, exceto pela inclusão de uma trilha sonora com alguns raps. Dizem que ele teria exigido concessões ao produtor Kevin Feige e que de fato as obteve, mas isso não fica claro na narrativa. Não há uma movimentação de câmera que tenha seu estilo, nem o elenco, mesmo muito bom, tem grandes chances, em razão do roteiro previsível. É preciso dizer que, tanto quanto Doutor Estranho e Thor: Ragnarok, a impressão que se tem é que algumas obras da Marvel são recebidas com um entusiasmo acima da qualidade que possuem. Nos filmes da companhia, falhas visíveis – como o CGI de má qualidade – não são assinaladas, e atos definidos com a previsibilidade de uma narrativa comum como os que mostram Pantera negra se sentem aliviados pela crítica em geral, além do humor forçado (neste, M’Baku é uma espécie de Grão-Mestre, personagem de Jeff Goldblum em Thor: Ragnarok). O design de produção se sente sem imaginação, com interiores que remetem a Os vingadores de Joss Whedon e, mais ao final, a Tron – O legado, sem o mesmo trabalho de cores. Para uma produção de 200 milhões de dólares, falta em parte atestar o investimento na tela (basta comparar o uso de espaçonaves aqui e em Star Wars – O último Jedi). As sequências com rinocerontes digitais parecem mais antigas que as criaturas de O senhor dos anéis – O retorno do rei.
Coogler certamente se esforça em dar seu estilo ao filme: há um certo poder em cenas nas quais Pantera Negra se vê como um líder a ser seguido, como em Creed. No entanto, ele não possui espaço para jogar com seu estilo de narrativa. Se determinadas cenas poderiam lembrar o mistério de A marca da pantera, de Paul Schrader, no recuo a um passado ainda mais tribal, tudo é revertido em CGI que desveste as cenas de solidez. Alguns diálogos se encadeiam como passes para a montagem progredir, e não para se envolver com os personagens. Lupita Nyong’o e Michael B. Jordan, principalmente, são convincentes em seus personagens, e Freeman é um alívio cômico, porém não têm muito o que fazer com um roteiro tão limitado.

É interessante observar que um filme tão em linha reta quanto Pantera Negra seja recebido como uma novidade no gênero. De certo modo, o universo partilhado da Marvel planifica uma ideia de cinema que se repete apenas para registrar um certo poder de indústria. O impacto de cada lançamento não vem dele e sim do que ele pode suscitar em termos de notícia. Há uma específica frieza no tratamento de temas relacionados aos afrodescendentes, como se fossem implicados para o filme se inserir em discussões e não pela importância vital que naturalmente teriam (sugere-se, nesse sentido, o recente representante do Senegal ao Oscar de filme estrangeiro, Félicité). Seria válido, não soasse tão pouco autêntico e sem emoção dosada, ainda mais vindo de Coogler, que revitalizou o debate sobre a comunidade afrodescendente em Creed e Fruitvale Station. Algumas vezes, os personagens são utilizados não como peças narrativas. Talvez quem tenha produzido Pantera Negra ache que reunir um diretor e um elenco extraordinários reverteria exatamente numa obra épica, apostando principalmente no discurso que traria por meio de seu roteiro. Se houvesse real espaço para as ideias que Coogler aplicaria num blockbuster mais independente de uma linha a ser seguida, Pantera Negra possivelmente seria um filme diferenciado. Da maneira como foi montado e pensado, parece seguir o que já mostra certo desgaste.

Black Panther, EUA, 2017 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Kevin Feige Duração: 134 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Três anúncios para um crime (2017)

Por André Dick

Visto como um dos grandes favoritos ao Oscar depois de ser escolhido como melhor filme no Festival de Toronto, Três anúncios para um crime estende aos Estados Unidos a trajetória de seu diretor britânico, Martin McDonagh, mais conhecido por Na mira do chefe e Sete psicopatas e um shih tzu. McDonagh tem um certo estilo situado entre o humor corrosivo e o policial, fazendo de certos artifícios previsíveis uma possibilidade de rever certa tradição dentro de gênero. Em seu novo filme, ele mostra uma mãe divorciada, Mildred Hayes (Frances McDormand), que, descontente com o fato de que nunca descobriram o responsável pelo assassinato de sua filha adolescente, Angela (Kathryn Newton), decide alugar três outdoors com Red Welby (Caleb Landry Jones), com um recado para a polícia de Ebbie, Missouri, onde mora. Ela vive com o filho Robbie (Lucas Hedges) e se desentende constantemente com o ex-marido, Charlie (John Hawkes). Sua melhor amiga é Denise (Amanda Warren). Todos parecem entendê-la; ela também entende a todos, mesmo que não queira deixar isso claro. Ao mesmo tempo, joga sinuca às vezes com James (Peter Dinklage, ótimo). Sua maior qualidade não é exatamente a simpatia, e McDormand parece não mostrar aqui as qualidades que lhe deram o Oscar de melhor atriz em Fargo e sim os sentimentos de secura encontrados em sua personagem, por exemplo, de Moonrise Kingdom.

Por meio do protesto, o principal alvo é o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson, entre o ingênuo e o patético, com grande eficácia), sempre acompanhado pelo oficial Jason Dixon (Sam Rockwell). Este é acusado de castigar afrodescentes na delegacia, no entanto McDonagh não chega a mostrá-lo fazendo isso, tentando capturar uma ambiguidade que certamente leva a muitas reclamações em relação ao roteiro. Enquanto Bill vive com a mulher, Anne (Abbie Cornish), e as duas filhas, numa fazenda com estábulos e muitos cavalos, Jason vive com sua mãe (Sandy Martin), com problemas visíveis de saúde, embora tão problemática quanto seu filho.
Se os dois primeiros atos mesclam drama e humor de maneira adequada – e o personagem de Dixon é o principal motivo para sustentar a combinação –, parece que o grande momento do filme é a partir da meia hora final, e ela acaba oferecendo mais sentido a toda a narrativa de McDonagh. Visivelmente influenciado pelos irmãos Coen, a personagem Mildred é desagradável, graças a uma performance fria de McDormand, mas tem um clímax bem desenvolvido. E, pelo menos antes, há uma sequência magnífica em que ela avista um cervo perto de um dos outdoors, que parece mesclar exatamente o passado e o presente. Harrelson e Rockwell não chegam a ter um roteiro em conjunto, mas, separados, conseguem render bons momentos, sobretudo na leitura de uma determinada carta, condicionando o espectador a uma cena típica dos irmãos Coen e realizada com grande êxito em termos de timing. Há algumas gags envolvendo o personagem de Dinklage que funcionam por exatamente não aplicar o politicamente correto, embora em nenhum momento sigam um caminho de desconsideração a certos comportamentos. A nova namorada de Charlie, Penelope (Samara Weaving), representa bem isso.

O mais interessante é como McDonagh mostra a reação dos personagens ao protesto de Mildred. O xerife tem um certo problema de saúde e faz chantagem emocional com ela, no que não tem êxito, e sua relação com a mulher tem uma emoção calibrada (Cornish também atua bem). Uma determinada sequência passada no estábulo de sua fazenda é cortante, tanto pela atuação de Harrelson quanto pela atmosfera campestre de afastamento de tudo. Já Dixon tem uma reação exasperada ao ver os cartazes e completamente descontrolado e desligado de qualquer racionalidade. Por isso, o que acontece a ele revela não a tentativa de transformá-lo em outra figura e sim numa espécie de símbolo de certo desconhecimento de si mesmo. McDonagh, de maneira bem-humorada, inclui tanto uma carta quanto uma briga de pub convincente para acordá-lo.
Desse modo, o roteiro de McDonagh trata da raiva internalizada e a passividade de personagens. Em meio a um cenário perdido no meio do nada, destacado pela trilha sonora de Carter Burwell, parece um faroeste fora de época e possui cenas de violência bem inseridas no contexto. As feridas dos personagens, antes nunca expostas, começam a se avolumar com uma contundência fora de série. Quem com ferro fere, com ferro será ferido, parece estar inscrito nas iniciais desses personagens.

Nisso, Mildred é a representação da mudança que deseja inserir movimento numa paragem quase em forma de natureza morta, destacando-se nisso a atuação de Rockwell, no final de contas talvez a mais expressiva depois de um começo mais caricato. Para isso, a fotografia de Ben Davis colabora de maneira decisiva. Ebbing é vista como uma cidade idílica; por baixo, ela esconde problemas que caracterizam muitas cidades grandes. A violência gera violência nesse lugar afastado de tudo, porém pode apaziguar a transmissão dessa violência para outros lugares. No entanto, ao mesmo tempo, para McDonagh, não há reais mudanças, o que não equivale a dizer que elas não devem ser procuradas. A boa impressão em relação a Três anúncios é de que ele é absolutamente estranho, no mínimo original, e, apesar de não parecer a aclamada obra-prima como foi recebido, é um dos melhores momentos do cinema norte-americano nos últimos anos.

Three billboards outside Ebbing, Missouri, EUA/ING, 2017 Diretor: Martin McDonagh Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Amanda Warren, Sandy Martin, Samara Weaving, Kathryn Newton Roteiro: Martin McDonagh Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh Duração: 115 min. Estúdio: Blueprint Pictures, Fox Searchlight Pictures, Film4 Productions, Cutting Edge Group Distribuidora: Fox Searchlight Pictures