Jurassic World – Reino ameaçado (2018)

Por André Dick

Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu os Oscars de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.

Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora a maior peça com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Quando as criaturas pré-históricas retornaram em Jurassic World, o diretor Colin Trevorrow não conseguiu elaborar do melhor modo a história, fazendo quase uma refilmagem do primeiro, sem o mesmo vigor.

Três anos depois estamos de volta à Ilha Nublar, em Jurassic World – Reino ameaçado, desta vez com Trevorrow como um dos roteiristas. O filme inicia com  o casal do filme anterior, formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), se reencontrando depois de algum tempo. Ela não é mais uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, mas sim alguém que tenta ajudar na preservação dos dinossauros, com a ajuda de Franklin (Justice Smith) e da veterinária Zia Rodriguez (Daniella Pineda), enquanto ele mora afastado, no campo. O problema é que há mercenários querendo o DNA de um dos híbridos das criaturas existentes no parque abandonado. Ao mesmo tempo, o Senado norte-americano interroga o Dr. Ian Malcolm (novamente Goldblum) sobre se os dinossauros devem ser tirados da ilha, que sofrerá uma erupção vulcânica capaz de dizimá-los. Claire é contratada por Benjamin Lockwood (James Cromwell), ex-parceiro de John Hammond (Attenborough, no filme de 1993) na clonagem de dinossauros. Ela conhece seu assessor Eli Mills (Rafe Spalls) e a neta de Benjamin, Maisie (Isabella Sermon), esta sob os cuidados da governanta, Iris (Geraldine Chaplin). O maior interesse é pelo velociraptor Blue, que tem uma ligação com Owen, pois foi criado por ele.

A volta do grupo à ilha lembra muito Jurassic Park III, com a presença do chefe dos mercenários Ken Wheatley (Ted Levine). Trata-se de um início pouco original. No entanto, depois de uma sequência fantástica de ação, que sobrepuja a decepção de Jurassic World de Trevorrow, o diretor espanhol J.A. Bayona emprega seu maior talento: a junção entre espetáculo, com efeitos especiais de ponta (e os dinossauros aqui lembram mais aqueles dos filmes de Spielberg, sem tanta computação gráfica), o que já mostrara em O impossível e Sete minutos depois da meia-noite, com um toque por vezes poético. Se há momentos que remetem a O segredo do abismo e mesmo um especificamente aos momentos sobre a criação do mundo na obra de Terrence Malick, Bayona deixa de lado a ligação entre o casal e foca no desejo do ser humano se aproveitar dos dinossauros para romper a barreira do limite. Trata-se de um tema já subentendido no final de O mundo perdido, de Spielberg, sob certo ponto de vista subvalorizado (que conta com uma ótima Julianne Moore), e que aqui recebe o espaço acertado. Além disso, Bayona faz um núcleo interessante do casal com a atriz Sermon, esta especialmente ótima.

As figuras adversárias, representadas por leiloeiro Gunnar Eversol (Toby Jones), ganham um momento à parte que dialoga com o original de Spielberg do melhor modo, numa sucessão de perseguições e um sentimento de claustrofobia. Bayona revela a admiração da criança pelo universo de criaturas ameaçadoras, o que já fizera em seu experimento anterior, Sete minutos depois da meia-noite, mas avança em relação a um prazer de elaborar imagens que ficam na mente do espectador, como aquele em que a sombra de um dinossauro se projeta na parede dentro de um quarto infantil, lembrando os contos de fada ameaçadores. Mais do que isso, em certos instantes este Jurassic World é um filme de terror, com uma referência insuspeita, por exemplo, a O silêncio dos inocentes. Se ele não consegue se elevar como poderia a mais do que um filme de ação bastante eficiente, existe aqui um diretor e uma visão.

Jurassic World – Fallen kingdom, EUA, 2018 Diretor: J.A. Bayona Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, James Cromwell, Toby Jones, Ted Levine, B.D. Wong, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, Jeff Goldblum Roteiro: Colin Trevorrow e Derek Connolly Fotografia: Óscar Faura Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Belén Atienza Duração: 128 min. Estúdio: Universal Picture, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Legendary Pictures Distribuidora: Universal Pictures

Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Guardiões da galáxia Vol. 2 (2017)

Por André Dick

A equipe da série de ficção científica com grande dose de humor retorna em Guardiões da galáxia Vol. 2, mais uma vez dirigido por James Gunn. A volta era previsível, principalmente pela recepção do original junto ao espectador e uma arrecadação de mais de 700 milhões nas bilheterias, uma surpresa, que antecedeu a de Deadpool pelo pouco conhecimento do público em relação aos personagens dos quadrinhos. E ainda mais surpreendente era que Gunn, autor dos roteiros de duas adaptações para o cinema de Scoby-Doo e da refilmagem de Madrugada dos mortos, havia se destacado na direção à frente apenas de Seres rastejantes e Super.
Na equipe, estão novamente Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), formando os Guardiões da galáxia. A Alta Sacerdotisa Ayesha (Elizabeth Debicki), da raça dos Soberanos, os convoca para proteger baterias de grande valor de um monstro ameaçador, chamado Abilisky, em troca da irmã de Gamora, Nebula (Karen Gillan), que estava tentando roubá-las. Esta sequência, que acontece ao som de “Mr. Blue Sky”, da Electric Light Orchestra, é realmente um dos acertos do universo Marvel: além da mescla entre som e imagens, há uma composição refinada dos ângulos do planeta que remetem ao início de Duna, de David Lynch.

Por causa da atitude de um dos guardiões, a Soberana ataca a nave deles com inúmeros drones, quando surge a figura de Ego (Kurt Russell), o pai de Quill, acompanhado de Mantis (Pom Klementieff). Enquanto isso, Ayesha contrata Yondu Udonta (Michael Rooker), o pai adotivo de Quill, para perseguir os Guardiões. É neste momento que Gunn desvia do humor habitual do primeiro, apesar de manter a trilha sonora, para mostrar algumas das cenas mais fortes do universo Marvel.
Ao contrário do primeiro filme, Guardiões da galáxia Vol. 2 tem uma tentativa de abordar uma relação significativa entre o que seria a origem de Quill e a amizade com seus companheiros. Se no primeiro a ligação era com a mãe, desta vez é com o pai, e Kurt Russell entrega um personagem ambíguo na medida certa, num traço de composição em que ele vem se especializando, desde Os oito odiados. O humor, usado em larga escala no primeiro, está presente, mas de maneira mais contida, principalmente por meio do Groot, a melhor participação da narrativa. É possível vislumbrar uma centelha mais dramática em Chris Pratt, assim como em Michael Rooker, embora Zoe Saldana novamente não ganhe o espaço necessário. Bautista novamente tem boa atuação como Drax, principalmente na sua ligação com Mantis, muito bem interpretada por Klementieff. Não temos aqui as presenças de Josh Brolin (Thanos), Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que de certo modo enriqueciam o elenco original, mas as ausências são supridas não apenas pelas atuações do elenco central como pelos coadjuvantes e pela aparição de Sylvester Stallone.

Como no primeiro, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, quando ele precisa ativar uma bomba, embora seus olhos digam o contrário sobre essa atitude extrema diante de uma ameaça. Não apenas por meio de Quill, é visível que Gunn tenta inserir um caráter mais dramático na sua narrativa, principalmente nas expressões de Rocket e do Groot sendo, em determinado momento, colocado numa situação complicada, ou de Gamora e Nebula, sempre inseridas num conflito não solucionado. Há, inclusive, diálogos com uma conotação mais adulta do que o primeiro, de Drax e Quill em relação a Mantis. A mescla resulta interessante não apenas pela interação de elenco, como pelos bons diálogos de Gunn.
Além disso, ainda mais do que o primeiro, a direção de arte de Guardiões da galáxia Vol. 2 é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana, aqui se destacando o amarelo fabuloso da raça dos Soberanos. E uma influência visível do Flash Gordon oitentista produzido por Dino de Laurentiis, mas, ainda mais, um cuidado visível com a ambientação fantástica, auxiliada pela fotografia de Henry Braham (A lenda de Tarzan).

O planeta em que a nave dos guardiões cai evoca também Endor de O retorno de Jedi e Pandora de Avatar, e Gunn desenha uma sequência ultraviolenta de maneira sintética apenas com o uso da trilha sonora. Percebe-se o cuidado que o diretor possui em relação aos cenários e à maneira como seus personagens interagem com eles. Como no primeiro, há uma certa profusão de CGI e uma competência técnica que às vezes se sobressai à emoção, mas ainda assim o salto do primeiro para o último ato é interessante.
Se o primeiro lidava com o conhecimento entre si dessa equipe, Gunn parece tentar neste segundo o conhecimento do que leva cada um a se sentir feliz junto uns dos outros. Isso não ocorre sem uma certa amargura e um punhado de decepção no que se refere ao passado. Isso é o que torna este segundo mais diferente do primeiro: mesmo sua trilha sonora mais desconhecida, embora muito boa, contribui para um afastamento do apelo mais pop do original, em que passos de dança podiam significar também um duelo para salvar o universo. Os personagens parecem estar em busca de uma explicação para o que mesmo fazem, e esta explicação pode estar dentro deles mesmos. Aparentemente, esta abordagem poderia ser melhor explorada em alguns momentos, mas mesmo assim se sobressaem aqueles mais íntimos da trama, quase ausentes no original. Isso torna Guardiões da galáxia Vol. 2 surpreendentemente emotivo.

Guardians of the galaxy Vol. 2 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Kurt Russell, Sylvester Stallone, Sean Gunn Roteiro: James Gunn Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Studios

 

Passageiros (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o cineasta Morter Tyldum foi recebido com grande ânimo por causa de O jogo da imitação, com Benedict Cumberbatch atuando como Alan Turing, gênio que encontrou uma maneira de enfrentar o grave problema da Segunda Guerra Mundial. Lá, Keira Knightey fazia o par do personagem de Cumberbatch, numa relação conflituosa e abalada pela época em que transcorreu. Agora ele regressa em outro gênero, mais delicado do que o drama, neste Passageiros, tendo uma recepção contrária: poucas vezes se viu tantas críticas negativas. Com uma bilheteria razoável, ele pode, no entanto, se transformar naquilo que mais pretende: uma sessão descompromissada.
Na narrativa, a nave Avalon transporta mais de 5 mil colonos para o planeta Homestead II, um novo habitat, numa viagem que deverá durar 120 anos. No entanto, o engenheiro mecânico Jim “Peter Quill” Preston (Chris Pratt) acorda 90 anos mais cedo. Ele fica desesperado, pois está sozinho, pelo menos se contarmos os humanos. A sua única companhia é o androide Arthur (Michael Sheen), não tão discreto quanto os da série Alien, que atende num bar da nave espacial que remete, claro, a O iluminado.

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Não apenas o bar remete ao filme de Kubrick, como o enorme refeitório dos passageiros (desacordados), embora o design de produção deva bastante a Prometheus, de Ridley Scott, principalmente na sua iluminação. A sua dúvida existencial é justamente se ficará sozinho para o resto de sua vida, uma vez que não consegue mais localizar como poderia hibernar novamente. Esta dúvida não é cercada por alguma angústia, assemelhando-se mais à alegria do personagem de Matt Damon isolado no planeta vermelho em Perdido em Marte. Certo dia, ele, de qualquer modo, parecendo o personagem da série de TV O último cara da terra, decide despertar uma nova passageira, Aurora Lane (Jennifer Lawrence), sem avisá-la sobre isso. Antes, claro, ele fica sabendo de sua história, do fato de que é uma escritora e acaba, antes de tudo, se apaixonando por ela. O drama dessa paixão poderia se equivaler àquele do casal de Solaris, no entanto Tyldum não tem essa pretensão, e temos até uma cena de Aurora subindo pouco discretamente na mesa do refeitório. O roteiro de Jon Spaihts, que colaborou em Prometheus e Doutor Estranho, prefere as características românticas de um encontro improvável do que os dilemas existenciais desses personagens, que certamente renderiam bons conflitos na superfície do filme.

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Tyldum tem em Pratt e Lawrence seus apoios para contar esta história e inicia fazendo com que Preston lembre Quill, o contrabandista dançarino de Guardiões da galáxia. Ele deve ter gostado também de O lado bom da vida, e coloca Lawrence como uma maneira de descobrir uma companheira ao invés de enfrentar a solidão do espaço sideral e para dar também um novo sentido aos passos de dança de um jogo. O mais curioso em relação a Passageiros é o quanto seu roteiro autenticamente fraco possui alguns temas interessantes sobre a solidão humana. Não poucas vezes ele parece remeter a traços da história de Adão e Eva, sobre um casal que pode constituir por si só uma humanidade, quando são ameaçados por uma revelação que pode colocar o relacionamento em prova, e não parece por acaso que a personagem de Lawrence se chame Aurora. Já tivemos clássicos sobre seres humanos com sentimento de solidão no espaço, a começar pelo clássico Corrida silenciosa – sobretudo na amizade entre Preston e os robôs que trabalhavam na nave – e mais recentemente Gravidade. Uma saída dos personagens para um passeio fora da nave lembra imediatamente a de Spock em Star Trek – O filme, no qual se ressalta a beleza visual e certa poeticidade, logo quebrada por um humor desajeitado, que permeia toda a obra, indecisa entre a faceta dramática e a comédia mais facilitada.

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Também há um grande impacto quando a nave passa por uma estrela, lembrando Sunshine – Alerta solar, de Danny Boyle. Há referências também bastante evidentes a 2001 (quando Aurora corre pela espaçonave), e a  fotografia de Rodrigo Prieto é eficaz, principalmente quando mostra a parte externa da nave, assim como a trilha sonora de Thomas Newman oferece ritmo a cada bloco – um ritmo que não havia, particularmente, em O jogo da imitação, um filme com padrão clássico que se demorava excessivamente em cada sequência.
Ainda assim, falta a Passageiros um toque de complexidade pelo roteiro fraco e pela atuação de Pratt, mesmo que em determinados momentos ele até convença, embora Lawrence também não esteja em seus melhores dias. Nesse sentido, temos um exemplar de ficção científica interessante e divertido dentro de alguns aspectos, com bela direção de arte e efeitos visuais de qualidade. Havia uma obra de maior potencial aqui, mas nada que a transforme num desperdício.

Passengers, EUA, 2016 Diretor: Morter Tyldum Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen Roteiro: Jon Spaihts Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Michael Maher, Neal H. Moritz, Ori Marmur, Stephen Hamel Duração: 118 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Columbia Pictures / Original Film / Start Motion Pictures

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Jurassic World – O mundo dos dinossauros (2015)

Por André Dick

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Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu o Oscar de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.
Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora o maior filme com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Já fazem 14 anos desde este último experimento, e desde lá os dinossauros parecem um tanto adormecidos nas grandes telas.

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A expectativa é de que Jurassic World – O mundo dos dinossauros, a nova continuação, não mais dirigida por Spielberg (que apenas produz) e sim por Colin Trevorrow, fosse trazer uma certa magia poucas vezes reencontrada. Deve-se lembrar que Spielberg, afastado dos blockbusters, conseguiu transformar Jurassic World na maior bilheteria de abertura da história. Esta grandeza é acompanhada novamente pelas criaturas. Lá estão elas novamente, junto com um novo casal – embora sempre em briga – formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) . Ela é uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, enquanto ele treina investiga o comportamento dos velociraptors. Em torno deles, a pesquisa do geneticista Dr. Henry Wu (B.D. Wong) produziu o Indominus rex, um híbrido de vários dinossauros, mas que lembra substancialmente um Tiranossaurus Rex. O objetivo: atrair mais pessoas para o parque, pois sua visitação tem diminuído e o público pede por novidades.
Depois de sua irmã Karen Mitchell (Judy Greer) enviar os dois sobrinhos para o parque, Zach (Nick Robinson) e Gray (Ty Simpkins), a fim de que se divirtam, Claire consegue se desvencilhar deles, que ficam uma cuidadora. Esses personagens formam as mesmas características do primeiro Jurassic Park e as crianças novamente estão interessadas em se envolver com o que está escondido na mata. Temos ainda o dono do Jurassic World, Simon Masrani (Irrfan Khan), com as mesmas dúvidas do dono original.
Indefinido entre ser uma continuação ou um remake, Jurassic World infelizmente não funciona, de modo geral, nessas duas concepções. Neste ano, tivemos o altamente subestimado remake de Poltergeist, mesmo com todas suas falhas. Não seria Trevorrow que conseguiria emular Spielberg: ele procura os meios iguais, e a mesma tendência não só ao uso do clássico sinfônico de John Williams, mesmo com a trilha nova de Michael Giacchino, os mesmos temas (a separação dos pais para os filhos), a mesma manipulação emocional e a mania de os personagens se transformarem subitamente pela força de vontade, no entanto ele não é Spielberg e tudo parece soar um pouco desconjuntado.

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Claire passa de uma executiva de terno a uma espécie de Ripley quando apresenta sua regata e diz que nunca mais abandonará os sobrinhos, dos quais queria distância, enquanto Owen tem um domínio insuspeito sobre os velociraptors (eles parecem querer conversar). Não só Owen parece querer conversar com as criaturas, como também Vic Hoskins (Vincent D’Onofrio), o chefe da segurança do lugar, aquele que trocaria todas as milhares de pessoas em visita ao parque por uma tentativa de estabelecer contato com dinossauros geneticamente alterados. Quando ele age, o saco de risos está preparado. As crianças ouvem avisos de perigo, para abandonar o bote, mas é inevitável que elas devem seguir o mesmo caminho do primeiro Jurassic Park. O complicado aqui é que os dinossauros parecem acompanhar até mesmo as placas de trânsito e Owen, além de conversar mentalmente com os velociraptors, tem o ímpeto de correr de moto entre os dinossauros, à noite, numa mata fechada.
Tudo é grandioso como o primeiro Jurassic Park, sem, contudo, o mesmo ritmo e a mesma vida. Os cortes oferecidos pelo diretor são pouco elegantes e quando não pretende mostrar uma cena violenta faz o sangue respingar como numa produção B, além do design de produção francamente decepcionante, uma réplica daquele que vemos nos três anteriores.
Pratt é subutilizado, pois tem uma boa veia para o humor (praticamente ausente da narrativa), já mostrada em Guardiões da galáxia, e Dallas Howard não tem oportunidade de revelar sua porção dramática, usada com intensidade em A vila e Histórias cruzadas, por exemplo, para dar à sua presença mais do que uma conversão repentina. Neill e Laura Dern, do primeiro, neste caso, realmente agiam como seres envolvidos com este universo: em Jurassic World, o casal é apenas uma lembrança de que pode haver romance num filme de verão. E, também por causa do roteiro, Nick Robinson e Ty Simpkins não conseguem se destacar.

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Não sem tentativa. Assim como a refilmagem de Godzilla, do ano passado, este Jurassic World procura abordar temas científicos, sobre a criação híbrida de dinossauros, podendo chegar a uma inteligência inesperada. O personagem de Owen é justamente contra isso, e algumas vezes ele entra em discordância com Claire e Vic sobre como tratar as criaturas pré-históricas. No entanto, esta faceta realmente apenas tenta dialogar com a do primeiro filme, melhor desenhada pelo personagem de Sam Neill. A partir daí, Trevorrow parece homenagear algumas peças de que gosta, como Tubarão e Os pássaros (este talvez na melhor sequência). O roteiro, mesmo escrito a oito mãos, pelo diretor, mais Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver, não mostra uma única vez algo que não pareça já programado antes da primeira escrita. Nesse sentido, é cada vez mais comum se justificar que um filme de ação não precisa de desenvolvimento de roteiro nem de personagens minimamente interessantes. Se esta é sua expectativa, Jurassic World é um parque de diversões. Mas é, ao mesmo tempo, uma grande falha, ao não transpor a nostalgia de vinte anos atrás para algo que ressoe uma emoção verdadeira, não apenas conduzida pelas bilheterias.

Jurassic World, EUA, 2015 Diretor: Colin Trevorrow Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy, B.D. Wong, Irrfan Khan, Jake Johnson, Brian Tee, Lauren Lapkus, Katie McGrath, Judy Greer, Andy Buckley Roteiro: Colin Trevorrow, Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver Fotografia: John Schwartzman Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Thomas Tull Duração: 126 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Universal Pictures

Cotação 2 estrelas

 

Guardiões da galáxia (2014)

Por André Dick

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O universo da Marvel apresentou, nos últimos anos, uma seleção de filmes de grande bilheteria, com super-heróis firmados nos quadrinhos por Stan Lee. Neste ano, depois de Capitão América e Homem-Aranha, tivemos uma adaptação de quadrinhos não tão conhecidos: aqueles de Guardiões da galáxia. Já com certo estilo garantido e um público fiel, esse tipo de adaptação costuma ser recebida com desconfiança pela crítica, mas, se apresentar elementos novos em relação aos anteriores, logo é acolhida. Não parece ter sido diferente com o filme de James Gunn, antes responsável pelo roteiro das adaptações de Scooby-Doo para o cinema. Os elementos diferentes em relação aos anteriores se baseia na sucessão de gags que esses personagens trazem.
No início, logo na chegada a um planeta estranho, atrás de um objeto, o orbe, o anti-herói, Peter Quill (Chris Pratt), abduzido quando criança depois de um momento definidor de sua vida, precisa enfrentar uma trupe. Mas, antes, ele adentra as ruínas de uma construção no planeta Morag, aos passos de “Come And Get Your Love”, como se fosse uma espécie de Moonwalker, apanhando um rato como microfone. Estes créditos iniciais são hilários e antecipam o que Guardiões da galáxia mais tem de especial: um humor involuntário que remete aos melhores momentos de certo cinema descompromissado dos anos 80. Logo com o orbe, Quill vai parar no negócio de um contrabandista, sendo esperado à porta por Gamora (Zoe Saldana), filha adotiva de Thanos (Josh Brolin), aliado a Ronan (Lee Pace). Daí a se deparar com Rockett (voz de Bradley Cooper) e Groot (voz de Vin Diesel) – um “ent” minúsculo –, é questão de uma dezena de minutos. Todos já estão numa prisão, onde conhecem Drax (Dave Bautista), de onde tentarão escapar – e neste ponto já estão no encalço para recuperar o orbe.

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Pode-se perceber por poucas cenas iniciais o que Guardiões das galáxias tem de melhor: as referências, no espaço, à Terra, e elas acontecem com Peter, abduzido quando criança mas teve tempo, pelo menos, de assistir a um dos musicais preferidos dos anos 80. Gunn tem, entre seus filmes, evidentemente uma referência clara, que é o Flash Gordon do início dos anos 80, embora com cenários mais baseados no CGI. Isto é explicado não apenas pela trilha sonora – conduzida pelo DJ Quill – como pelos vilões ameaçadores e, de certo modo, bastante caricatos. A questão é que o motivo para o enredo – o orbe que todos tentam possuir – é muito parecido com o Tesseract de Os vingadores, evidentemente pela mesma origem, mas isso inclui um sentido de comparação capaz de empobrecer o filme de Gunn em termos de motivação. Trata-se de uma justificativa do roteiro para reunir todos esses personagens em torno de uma necessidade de variação, mas não se sustenta ao longo da narrativa.
Os guardiões são figuras interessantes, a exemplo de Rocket, mas são baseados numa corrente de humor que não se mantém o tempo todo, sobretudo quando se pega como parâmetro a meia hora inicial, com uma dose equivalente de humor no espaço que não se vê desde os desentendimentos de Han Solo e Chewbacca com os problemas mecânicos da Millenium Falcon. De qualquer modo, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação (Uma aventura LEGO também possuía essa característica), mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, num possível plano de fuga. Sempre que há uma queda no ritmo, Gunn aproveita para lançar mão de seu repertório musical setentista, no qual se encaixa até mesmo a contagiante “Cherry Bomb”, das Runaways, numa profusão setentista espaço sideral afora. Certamente, Rocket, o guaxinim, é a melhor figura, ao lado de Groot, fruto de experimentos científicos – fazendo com que, em determinado momento, se rebele num planeta cujas sacadas parecem remeter às tribos de Ewoks de Endor. Com voz de Bradley Cooper – particularmente não parece dele –, Rocket é o melhor personagem de Guardiões da galáxia, mesmo que sem sua voz humana seja produto apenas de efeitos especiais competentes. No entanto, mais do que a relação entre Peter e Gamora, é a amizade entre Rockett e Quill que dá o mote emocional do filme. E não se pode negar que o elenco tem outros bons nomes, como Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que conseguem boas participações.

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Gunn é um diretor competente para desenvolver ambientes e ele disfarça bem o orçamento não tão milionário quanto o de outros filmes da Marvel com uma boa concepção de cores e de cenários, trazendo uma mistura entre o verde e o rosa para a composição do filme – em razão principalmente da tonalidade de pele de Gamora. A direção de Guardiões da galáxia, até determinado ponto, é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana. De qualquer modo, ele não tem o mesmo sucesso nas transições da narrativa: apesar de o ritmo ser ágil nos atos que enlaçam o filme, não há uma continuidade clara em determinados momentos e, com metragem razoável (certamente suas duas horas deveriam ter sido encurtadas), ele se sente estranhamente confuso nas cenas de ação, influenciadas diretamente pela segunda trilogia de Star Wars, e mesmo o duelo entre Gamora e Nebula (Karen Gillan), que poderia lidar com uma questão familiar mais sólida, assim como os atritos entre Quill e seu antigo chefe,  Yondu (Michael Rooker), se mantêm com algum interesse, mas menos do que aquele que serve para novos duelos. Há as mesmas características da segunda trilogia de Star Wars, uma certa profusão de CGI e falta de naturalidade nas ações e uma competência técnica que acaba extraindo a emoção. Algumas vezes, nessas cenas, os personagens não são  bem visualizados e não sabemos muito bem o que está acontecendo, não simplesmente por causa da ação desenfreada e sim por uma dificuldade nos cortes para cada passagem. E entre os vilões, por mais que sejam bons atores (Brolin), falta um roteiro mais interessante, o que certamente possui, por exemplo, Tom Hiddleston como Loki. No entanto, Guardiões da galáxia continua seguindo a linha de humor existente no início do filme e tenta equilibrar Runaways e Marvin Gaye – a trupe de Quill é um convite a uma sessão não apenas de efeitos especiais, mas sonora.

Guardians of the galaxy, EUA, 2014 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, Josh Brolin Roteiro: Chris McCoy, Nicole Perlman Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 121 min. Distribuidora: Hughes Winborne / Walt Disney Pictures Estúdio: Craig Wood / Marvel Enterprises / Marvel Studios

cotacao-3-estrelas-e-meia

Uma aventura LEGO (2014)

Por André Dick

Uma aventura LEGO 7

Nos últimos anos, Wes Anderson está acostumado a tomar como base o universo de Roald Dahl para suas histórias, principalmente no reino do stop-motion em que figura O fantástico Sr. Raposo, ao mesmo tempo em que a série Toy Story definiu a cultura dos brinquedos em movimento. Em meio a isso, mesmo o personagem de um jogo, Ralph, se revolta contra sua sina de figurar sempre como vilão, e tenta fugir ao lugar-comum. Brinquedos ou aquilo que os suscita nunca estiveram distantes das cifras e da imaginação infantil, e se vierem em 3D poderão garantir ainda mais entretenimento. Não demoraria, diante deste panorama, que se tivesse a ideia para uma própria marca de brinquedos tivesse o seu filme e, com o auxílio fundamental da Warner Bros, ela se materializou com Uma aventura LEGO, que no início deste ano superou nas bilheterias o favorito Caçadores de obras-primas, de George Clooney, e coloca o stop-motion como o seu principal trunfo, assim como em Sr. Raposo, de Anderson, constituindo-se num exemplo para futuras incursões na área. O intuito do filme, depois de sua primeira meia hora, é homenagear a cultura pop, sobretudo aquela que surge dos quadrinhos e do cinema. Mas, até certo ponto, é essa cultura que acaba criando força sobretudo junto às crianças, conseguindo fazer com que elas consigam estabelecer um diálogo entre a tecnologia em que já são inseridas desde cedo e as peças nostálgicas que lembram mais a imaginação colocada em verdadeira prova.
O início de Uma aventura LEGO parece uma homenagem a O senhor dos anéis e Star Wars, mas depois que o roteiro se fixa na figura de Emmett, o filme parece destinado mais a ser uma homenagem, em diversos tempos, à série Matrix. Emmet Brickowoski (Chris Pratt) é recebido como uma espécie de predestinado a salvar o universo ameaçado por Lord Business (com a voz de Will Ferrell), que pretende neutralizar a liberdade da criação com a descoberta de um certo Kragle.

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Depois de uma passagem por seu local de emprego – e brinquedos podem não parar de cantar por 5 horas, sobretudo se for a canção “Tudo é possível” –, ele acaba caindo numa rede de aventuras, quando Emmett conhece a Wildsyle (Elizabeth Banks), e um mago, Vitruivius (com toda a carga de sabedoria para um nome de origem latina, embora com conhecimento suficiente na área em que Emmett deve atuar), que lembra Gandalf e Obi Wan-Kenobi, com algumas mensagens que poderiam soar como as deYoda, não fosse a voz de Morgan Freeman. Atrás deles, vem o policial Good Cop/Bad Cop, ou seja, com duas faces (a boa e a ruim), uma espécie de Gollum com distintivo e com voz de Liam Neeson. Ao trio se junta Batman (Will Arnett), namorado de Wildstyle. Depois de Burton e Nolan, não surpreende que o Batman aqui só queira trabalhar com peças de montagem escuras ou cinzas e em determinado momento pode até mesmo conhecer Han Solo, Lando Calrissian e Chewbacca (num anúncio prévio para o novo filme da franquia de J.J. Abrams), reproduzindo, inclusive, uma imagem icônica de O império contra-ataca que envolve a Millenium Falcon.
Todo o filme é desenhado num fluxo de visitação a alguma fábrica da Lego ou de estúdios alternando cenários para que os personagens passem em movimento contínuo, e não estaria dizendo a verdade se não admitisse que os bonecos lembraram de quando a infância reservava sempre um tempo para a imaginação – principalmente na passagem de Uma aventura LEGO pelo velho oeste, influenciada pelo gênero do faroeste, tão em voga entre os anos 50 e 70, com um certo clima do Rango de Verbinski, mas sem esquecer por sua evolução em meio aos piratas da Middle Zealand, em que se evoca a franquia também da parceria Johnny Depp e Verbinski, Piratas do Caribe. Essas mudanças repentinas de lugar podem dialogar não apenas com o universo Lego, mas com A história do mundo (de Mel Brooks) e O sentido da vida (do grupo Monty Phyton), com a diferença de que aqui a história da humanidade se desenha com um fluxo de homenagens de vertente pop, com a colaboração das vozes dos atores para oferecer mais humanidade a todo o cenário, que em alguns momentos pode lembrar também os espaços de Tron, sobretudo na alternância entre mundos, ainda mais clara ao final. Tudo é acelerado, como se fosse parte de uma mente que, cansada de um lugar, se transporta imediatamente para outro, e o aspecto frenético pode ser uma influência clara de Edgar Wright, que fez Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente no modo que é feito a transição de uma cena para outra – quando, se a gag visual ou verbal não funciona, logo é coberta por outra, capaz de fazer esquecer a anterior, que não teria dado certo (também poderia se imaginar o personagem de Emett com a voz de Michael Cera).

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Com uma agilidade grande na composição de peças, o filme não interrompe sua sucessão de imagens e efeitos plásticos, com uma sobreposição constante de cores fortes, não se permitindo a intervalos, e há referências a muitos filmes, mas também porque surgem, em diferentes momentos, Lanterna Verde (Jonah Hill) e Superman (Channing Tattum) – numa homenagem aos heróis da DC Comics, da Warner Bros. Parte do imaginário infantil está retratado no filme, e o herói faz parte das unidades que seguem todas as regras, com uma desenvoltura incomum para a sua construção diária de prédios. No entanto, o que Uma aventura LEGO propõe é que a imaginação terá de ser mais forte para compensar a existência deste universo, e o personagem Emmet acaba sendo o ponto-chave para o êxito: os criadores do filme conseguiram torná-lo num brinquedo com sensações críveis ligadas tanto à sua insegurança quanto ao romantismo que reserva pela rebelde Wildstyle (nisso, a voz de Chris Pratt colabora para que isso aconteça). Neste sentido, ele dialoga diretamente com um dos clássicos infantis da década de 80, A história sem fim, em que o personagem, trancado num sótão de colégio, se permitia viajar com sua imaginação pela Terra de Fantasia, com as figuras mais interessantes. É certamente o poder da imaginação que faz com que Uma aventura LEGO não se torne um encaixe desvariado de peças, mas de fato um filme que questiona até que ponto essa mesma cultura pop permite uma criação de seu próprio mundo, individual. Embora ele não consiga atingir o grau de emoção que envolve os personagens de A história sem fim, não é por falta de tentativa, de forma mais destacada em seu final, quando o humor é atenuado em prol até de uma mensagem. Possivelmente, a sua crítica corrosiva ao imaginário pré-concebido seja dirigido aos próprios criadores do brinquedo Lego – mas sem a mesma contundência, pois se trata, claro, também de uma homenagem à empresa. No entanto, é por meio desse imaginário pré-concebido que pode surgir exatamente o possível caminho de Emett, que é construir suas peças distante do manual que antecipa o que deve ser feito. Uma aventura LEGO tenta fazer o mesmo com o espectador, e este pode estar disposto ou não a aceitar a diversão oferecida.

The Lego movie, EUA, 2014 Diretores: Christopher Miller, Phil Lord Elenco: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett, Nick Offerman, Alison Brie, Morgan Freeman, Charlie Day, Liam Neeson Roteiro: Christopher Miller, Dan Hageman, Kevin Hageman, Phil Lord Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Dan Lin, Roy Lee, Stephen Gilchrist Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Animal Logic / LEGO / Lin Pictures / Warner Bros. Pictures  

Cotação 3 estrelas

Ela (2013)

Por André Dick

Her 7

O diretor Spike Jonze surgiu como uma das maiores revelações do cinema, à frente de Quero ser John Malkovich, uma experiência com John Cusack, e alguns anos depois fez o original Adaptação, com o melhor momento de Nicolas Cage. Desde então, Jonze só havia conseguido imprimir sua marca autoral no infantojuvenil com temática adulta Onde vivem os monstros. Alguns anos depois, ele finalmente volta ao cinema, com Ela, já sem a parceria no roteiro de Charlie Kaufman, trazendo novamente Joaquin Phoenix depois de sua atuação antológica em O mestre. Phoenix interpreta Theodore Twombly, nome próprio de alguma história infantil, que escreve cartões de amor numa empresa, BeautifulWrittenLetters.com, e se mantém solitário depois do casamento com Catherine (Rooney Mara). Até o dia em que ele decide adquirir um sistema operacional com inteligência artificial – cuja voz é de Scarlett Johansson (que substituiu Samantha Morton depois das filmagens).
Alguns têm falado que o filme apresenta elementos biográficos de Jonze e de sua relação com Sofia Coppola, e não por acaso temos Johansson, que havia feito Encontros e desencontros. Mas, se Sofia Coppola visualiza a solidão como uma espécie de artefato pop, Jonze a toma como uma espécie de síntese do ser humano. Em Ela, Theodore é um ser solitário, avesso aos relacionamentos, e Jonze não foge, neste ponto, a alguns clichês do gênero. Mesmo quando ele inicia o relacionamento de amizade com seu sistema operacional, chamado de Samantha, parece que há algo solto no filme e os personagens, de algum modo, não têm uma ligação estabelecida. Samantha organiza a agenda de Theodore e lhe repassa as informações de mensagens pessoais, tentando organizar não apenas a autoestima dele, como também sua vida profissional. No entanto, este é o preparo de uma narrativa com diversas nuances, que lidam com o afeto, a solidão e a companhia de maneira não tratada antes, e sob um ponto de vista moderno.

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O filme se passa num futuro não longínquo, mas as relações vistas nele já se mostram contemporâneas: a necessidade de, por meios tecnológicos, iniciar uma relação, e até que ponto ela será virtual ou verdadeira. Jonze discute essas questões num roteiro escrito com uma qualidade notável, em que o excelente Phoenix vai mostrando um crescente capaz de tornar detalhes mesmo banais em algo com sentimento. Jonze sempre soube também construir imagens que gravam na mente do espectador, com um sentido de lembrança e de conflitos inescapáveis. Mesmo os escritórios, as sacadas, os elevadores, corredores de estação de trem da cidade de Los Angeles no futuro (mas com várias cenas rodadas em Xangai) se mostram com uma sensação de que algo se perdeu, ou quando Theodore caminha pela rua mostrando as pessoas a Samantha. De elaboração a princípio simples, a direção de arte do filme mistura as suas cores com aquelas do figurino de Theodore, e há uma névoa em algumas imagens que lembram não apenas flashbacks, mas também uma atmosfera de sonho, o que empresta ainda mais ao filme uma sensação de conectar o espectador com lembranças dispersas. Se não soubéssemos que a história se passa no futuro, poderíamos imaginá-la num passado estilizado, pois tudo evoca algum tipo de lembrança. Ao mesmo tempo em que nos sentimos num local populoso, parece que estamos vagando, com o personagem, numa metrópole semiabandonada. A caracterização dos edifícios, as suas luzes e a imponência, também contrasta com a natureza (de árvores e do mar) em alguns trechos do filme – e deitar-se na areia da praia configura uma mudança da rotina.
Chama a atenção, também, como Ela, com seu bom humor em alguns momentos – sobretudo em seu início, quando mostra a relação de Theodore com seu videogame realista ou uma conversa sexual com uma mulher cuja voz é de Kristen Wiig –, consegue mesclar sentimentos variados em relação aos conflitos entre Theodore e Samantha. Se no início eles parecem corriqueiros, e às vezes não tão interessantes, Jonze faz com que o personagem central comece a materializar Samantha em uma figura humana, mesmo que sem rosto. Ela tem o comportamento de uma pessoa, com sentimentos em relação a Theodore e ao mundo, sente-se magoada e reage ao relacionamento, ou o possível abandono. Ela quer se transformar verdadeiramente num ser humano, interessada por livros e em valorizar as cartas escritas por Theodore – ditadas para um computador que vai desenhando a caligrafia das palavras. Ou seja, é notável como Jonze torna a atuação de Johansson naquela que é, talvez ironicamente (pois é uma atriz sempre acusada de chamar a atenção mais pela aparência do que pelo vigor dramático), a melhor de sua trajetória.

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A interação entre Phoenix (visível para o espectador) e ela (ausente de nossa visão) é memorável a partir de determinado momento, quando temos os mais variados sentimentos no que se refere a esta relação. Sobretudo porque Jonze nos lança na questão recorrente de que o ser humano vem se tornando mais frio e atento a programas de computador, e menos confortável em relações verdadeiras. O que ele nos lembra, mais do que tudo, é como a imaginação costuma ressoar mais forte mesmo quando parecemos nos entregar a uma distância com o contato humano. Mesmo os relacionamentos com Amy (Amy Adams, numa participação relativamente curta, mas eficiente), casada com Charles (Matt Letscher), com Paul (Chris Patt), colega que trabalha na empresa de Theodore, e a moça de um encontro às escuras (Olivia Wilde, deslocada como convém ao personagem), são um tanto evasivos, imersos num ambiente introspectivo. Nesse sentido, o sentimento se torna mais forte sobretudo pela capacidade que temos de, por meio da imaginação, delinear nossa concepção verdadeira de humanidade, e como ela acabará nos inserindo de verdade no mundo.
E o que Jonze faz é uma realização. Não era uma expectativa chegar a este filme de Jonze como um exemplo de cinema em que o escape se torna, na verdade, uma maneira de se encontrar de maneira tão elaborada, e cuja emoção vai repercutir na trilha da banda Arcade Fire (cujo clipe da canção “The Suburbs” foi feito por Jonze). Não que seus filmes anteriores, sobretudo Adaptação, não tivessem este elemento, mas não de maneira tão dosada quanto aqui. Há elementos que o afastam da metalinguagem de Charlie Kaufman, mas se aproximam do ato final de Sinédoque, Nova York, com a passagem do tempo e a mistura entre realidade e imaginação – como naquele instante extraordinário em que Theodore se insere numa paisagem invernal, com árvores, ou quando passeia com Samantha num dia de verão. Os cortes oferecidos por Jonze dessas imagens dialogam com nossa memória e aliam comoção e envolvimento. É interessante como, de algum modo, o diretor se expõe, com seu elenco, ao risco, no sentido de efetuar uma imagem ampla do que poderia ser apenas trazer a curiosidade do amor de um homem por um programa de computador. A ideia, que parece não oferecer a segurança para um filme, torna-se, aos poucos, cada vez mais plausível e, quando percebemos, estamos inseridos na história de amor talvez mais original já feita, não exatamente pela relação virtual, mas como ela é abordada de modo verdadeiro e sem artifícios. Quando Samantha diz a Theodore que ele a ajudou a se descobrir, não estamos mais lidando com um sentimento virtual, com uma fuga da realidade, desculpando-se pela solidão, e sim com o pleno entendimento do amor. É o que torna Ela um filme tão próximo, com seu universo aparentemente tão distante: ele nos lembra de nós mesmos.

Her, EUA, 2013 Direção: Spike Jonze Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher, Portia Doubleday Roteiro: Spike Jonze Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Owen Pallett Produção: Megan Ellison, Spike Jonze, Vincent Landay Duração: 120 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas

A hora mais escura (2012)

Por André Dick

A hora mais escura.Filme.Jessica Chastain

Antes de Guerra ao terror, que lhe rendeu o Oscar de melhor diretora e o de melhor filme, a cineasta Kathryn Bigelow nunca havia recebido grande atenção, mesmo tendo uma obra de terror comentada nos anos 80 (Quando chega a escuridão) e outra de ação no início dos anos 90 (Caçadores de emoções). A sua competência como diretora começou a ser reconhecida sobretudo por lidar com um sentimento norte-americano que passou a vigorar depois do terrível atentado às duas torres do World Trade Center, em 2001: o receio de novos ataques. Se Guerra ao terror não era um grande filme, era de se esperar que A hora mais escura viesse no mesmo rumo, pois é quase uma continuação daquele, no sentido de ser semidocumental, embora situado dentro do universo investigativo da CIA. Este é um dos motivos pelo qual o filme vem gerando grande polêmica nos Estados Unidos. Discute-se que Bigelow e seu roteirista, Mark Boal, tiveram acesso a informações confidenciais sobre a operação militar que levou a Osama bin Laden. Associado a isso, sofrem críticas as cenas de tortura que introduzem o filme, logo depois de vozes do 11 de setembro, que lembram o documentário Fahrenheit 11/9, de Michael Moore.
É difícil assistir a essas cenas, que transcorrem, com algumas pausas, durante a primeira meia hora. Ou seja, se havia uma possibilidade de se atenuar as tentativas de descobrir onde Bin Laden estava, ela logo desaparece, para dar entrada ao torturador, Dan (Jason Clarke), capaz, mais adiante, até de compartilhar um cigarro com uma de suas vítimas, Ammar (Reda Kateb, em interpretação impressionante). A maneira como Bigelow filma essas sequências, alternando a escuridão do ambiente, com a luz da porta que se abre, ou do teto, e mesmo das luzes acesas no rosto do torturado, conduzem o espectador a um universo que não gostaria certamente de conhecer – universo repleto de black sites, tendo num deles jaulas de prisioneiros dividindo espaço com uma de macacos.
Dito isso, A hora mais escura, embora em nenhum momento se constitua em diversão de Hollywood, não se concentra em tais cenas – mais um retrato desalentador dos fatos do que uma condescendência –, preferindo mostrar os passos da agente Maya (Jessica Chastain) atrás do homem que pode ser o informante de Bin Laden. Ela chega a um escritório coordenado por Joseph Bradley (Kyle Chandler, parecendo fazer quase o mesmo papel de Argo) e faz amizade com Jessica (Jennifer Ehle, parecida com Meryl Streep, mais jovem), sendo assessorada também por Jack (Harold Perrineau). Maya assiste às primeiras cenas de tortura incólume, inclusive pesquisando-as em seu escritório, e mais adiante participa diretamente de outra. Com isso, Bigelow tem a pretensão de considerá-la como parte direta daquele universo, no sentido de tomada de ações, fator para que o filme se torne mais real. A hora mais escura é também a hora da personagem: ela não coloca obstáculos para sua perseguição ter êxito. Do mesmo modo, ela é identificada por Bradley como “assassina”, quando Dan diz que ela parece muito nova para a função. Para Maya, os obstáculos são os outros, e talvez esta parte seja a menos verossímil de A hora mais escura. Sabe-se da tentativa, por anos, de se encontrar Bin Laden, mas no filme, em muitos momentos, tem-se a impressão de que Maya estava agindo quase sozinha, ou assessorada por poucas pessoas, além de receber a desconfiança de um superior decisivo – Leon Panetta (James Gandolfini) – e de George (Mark Strong), diretor de divisão da CIA, para que a ação tenha uma finalidade. De certa forma, esta escolha pela descontextualização atinge a questão ligada aos árabes. A política nunca é suscitada explicitamente, permanecendo nas entrelinhas, assim como a tensão real pode não se dissipar simplesmente com o fato de haver o intermédio de um Lamborguini.

A hora mais escura.Jessica Chastain.Filme 2

A hora mais escura.Imagem.Filme

De qualquer modo, seja pela captura de imagens, por meio da fotografia notável de Greig Fraser, Bigelow nunca faz a narrativa descansar. Ela mostra alguns atentados ocorridos desde o 11 de setembro com realismo, mesclando-os com imagens reais. Ou seja, aqui a Guerra ao terror se espalha justificadamente pelo mundo (e temos locações na Polônia, no Paquistão, no Iraque, na Inglaterra). As tomadas do filme são impressionantes, sobretudo quando a câmera é colocada à distância de pontos-chave, mostrando um céu azul que cria uma ligação com as cores das frutas de beira de estrada, no momento da procura ao esconderijo de Bin Laden, mas contrasta com tudo que cerca a narrativa. Nesse sentido, temos o centro de observação da casa onde Bin Laden estaria escondido com a mesma estrutura de uma equipe de observação de alguma pesquisa espacial, com o objetivo de colher detalhes, a fim de se ter um olhar mais adequado sobre a ação a ser desencadeada e sobre desvendar o que realmente abriga o local, no entanto já sem nenhuma sensação de conquista. Tudo vai da imensidão dos cenários e do barulho das ruas à restrição e ao silêncio de salas, interrompido por chamadas telefônicas.
Por meio de uma montagem que remete a um thriller, Bigelow obtém a pressão de escritórios, reuniões, discussões, dúvidas e brigas e perseguições cegas, por exemplo, no momento da tentativa de se rastrear ligações públicas em meio a um mercado público, com a participação decisiva de dois investigadores, Larry (Édgar Ramírez) e Hakim (Fares Fares), no que é diametralmente o oposto de Argo, cuja narrativa não trazia quase nenhum conflito entre os personagens e o que havia era propositadamente calculado e pouco efetivo. Em relação a Argo, deve-se dizer também que Maya é uma representação mais próxima da realidade, por isso menos admirável se comparada à postura de Tony Mendez naquele filme, apesar, também, de suas ações serem diferentes. Nesse sentido, Argo é patriótico no sentido de que não há falhas a serem vistas, enquanto A hora mais escura mostra não apenas as falhas, a moralidade ambígua, como também a tentativa de apaziguar um sofrimento inerente a cada uma daquelas figuras que o filme mostra de forma tão realista. Do mesmo modo, enquanto o filme anterior de Bigelow, Guerra ao terror, apresentava uma realidade da forma devastadora possível, A hora mais escura faz o mesmo, mas com uma intensidade maior no sentido existencial – a dor do sofrimento e da perda, do conflito pressionado pela política e por ataques, poucas vezes foi registrado de maneira tão explícita.

A hora mais escura.James Gandolfini

A hora mais escura.Quadro

Isso se deve tanto à presença de um elenco memorável quanto à atuação de Jessica Chastain, atriz que apareceu em três filmes de destaque em 2011, A árvore da vida, Histórias cruzadas e O abrigo. É ela, cuja fisionomia vai da preocupação à indiferença, diante de vários acontecimentos, passando por uma espécie de maldade contida (seu olhar diante de uma explosão vista pela tela do computador), ou de indignação, quando confronta Bradley, colocando ou não o véu para esconder o rosto e se mesclar a uma cultura da qual, indiretamente, faz parte, que traz para A hora mais escura um elemento mais humano, perigoso e próximo para espectador compartilhar suas dúvidas e ressalvas sobre o que está vendo. Em meio a uma cena ao afastamento, ela apoia um All Star sobre a mesa para lembrar algo mais remoto. Mais adiante, o olhar dos fuzileiros para ela, que contrasta com sua importância para o ato final, não é diferente daquela situação que precisa vivenciar para passar despercebida. Quando ouve o elogio de um assistente de que Maya é inteligente, o chefe da CIA diz: “Todos nós somos inteligentes”. Mesmo porque a personagem age num plano em que o político, se existe, nunca revela diretamente sua influência (o filme evita mencionar os nomes de Bush e de Obama, embora se mostre a imagem de ambos pela televisão, em diferentes momentos). Não havendo o político, a sua importância, segundo Bigelow, passa a ser quase nula. Não precisamos saber seu passado, nem se ela tem uma família ou teve interesse em se casar e ter filhos: Maya é um protótipo de isolamento autoimposto, pois ela, para o filme, só possui uma finalidade, a de estabelecer a ligação entre as imagens iniciais e a perseguição capaz de conduzir a um final. E, embora sem retórica, é por meio da presença dela diante do líder da CIA, com sua sombra projetada num quadro com a bandeira norte-americana (com a qual muitos personagens, afinal, contracenam), que se constitui uma voz ausente e presente. Mesmo sendo vital para a operação, ela, na verdade, se constitui numa espécie de distância calculada das autoridades. Percebe-se, no final, que Maya está sempre surgindo da escuridão ou sendo encoberta por ela: suas ações são secretas, não podem ganhar um corpo familiar. Perguntada pela amiga se tem amigos ou namorados ou por Panetta sobre qual é seu passado, Maya entrega apenas o silêncio.
À frente das câmeras de Bigelow, Chastain consegue traduzir o que a diretora trabalha em cada sequência. Se a piada do Globo de Ouro em relação a James Cameron foi mordaz, é verdade que Bigelow conseguiu extrair de Cameron o drama pré-resolução, o nervosismo transmitido pelas hélices de um helicóptero sendo ligadas e um grupo de fuzileiros adentrando o recinto para que se constitua uma missão, ao som, aqui, de mais uma trilha sonora primorosa de Alexandre Desplat. E, ao mesmo tempo em que a última meia hora constitui uma das sequências mais elaboradas do cinema recente, com uma impressionante reconstituição dos fatos relatados superficialmente (mesmo em razão da falta de informações detalhadas) pela imprensa, ela também é das mais melancólicas – e evita, a todo custo, qualquer ação ou elemento patriótico. Neste ponto, tanto Bigelow e Chastain conseguem concentrar, na tomada final, tudo aquilo que A hora mais escura apresenta: a solidão do ser humano, sobretudo diante dos fatos e das primeiras falas ecoando no início, assim como das cenas da tortura. Como, depois disso, apagar o início? Como apagar todas as vozes? Não há como, e é justamente nesse olhar da personagem, de uma memória que persistirá, portanto nunca entrará em descanso pleno, que se baseia, a meu ver, a visão de Bigelow. Depois de tudo, a questão lançada seria o que se ganha, na verdade, com todos os acontecimentos anteriores. Se este filme excepcional deixa perguntas soltas no ar, sem querer decisivamente respondê-las, é justamente porque, como o espectador, dificilmente se conhecerá as verdadeiras respostas.

Zero dark thirty, EUA, 2012 Diretor: Kathryn Bigelow Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Jennifer Ehle, Chris Pratt, Taylor Kinney, Kyle Chandler, Édgar Ramírez, Reda Kateb, Harold Perrineau, James Gandolfini, Frank Grillo, Fares Fares, Mark Duplass, Stephen Dillane, Jason Clarke Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison Roteiro: Mark Boal  Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 157 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas