Se a Rua Beale falasse (2018)

Por André Dick

Baseado num romance de James Baldwin, de 1974, o novo filme de Barry Jenkins, de Moonlight – Sob a luz do luar, Se a Rua Beale falasse, recorre a um estilo de imagem novamente atemporal, em que as épocas se misturam e se perdem. Os tons de azul, verde e amarelo dos figurinos e das iluminações que percorrem as imagens constituem um panorama amplo de uma história não apenas pessoal, como também vigorosa. KiKi Layne é Clementine “Tish” Rivers, de 19 anos, apaixonada por Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James), 22 anos, acusado de estupro por Victoria Rogers (Emily Rios). e, por isso, injustamente preso. Ela descobre estar grávida e luta para que o marido possa sair da prisão, onde se encontra esporadicamente com ele. É uma obra sobre a descoberta do amor e sobre como o ser humano resiste, por meio dele, à prisão. Desde o início, quando o casal desce por uma rua, parece que estamos num universo à parte, ao qual a realidade vai aos poucos se encaixando.

Com uma impressionante meia hora inicial, em que Jenkins utiliza os melhores elementos de seu filme oscarizado, uma belíssima fotografia de James Laxton e design de produção requintado, a obra prefere aos poucos, numa sucessão de flashbacks que mostram como Tish conheceu seu amado, até o acontecimento-chave para a história, uma certa dispersão planejada. O elenco é muito bom, principalmente KiKi Layne (uma revelação), e Regina King atua de modo exemplar como sua mãe, Sharon Rivers, embora sem tanto tempo de tela. Os personagens coadjuvantes surgem quase todos na primeira hora – a mãe de Fonny, vivida por Aunjanue Ellis, e o pai de Tish, Joseph (Colman Domingo), são especialmente expressivos – e tem boas aparições, com um pano de fundo trazendo a discussão religiosa, no entanto Jenkins prefere focalizar tudo no casal. Há um jantar com a presença deles e da irmã de Tish, Ernestine (Teyonah Parris), que resulta no que há de melhor no filme, que, por vezes, adota certas premissas de tom político que não conseguem soar tão orgânicas na história, mesmo que, como Moonlight, ofereça poesia ao lugar-comum.

É interessante como, ao lado de Chazelle, Jenkins procura variar seu estilo, buscando aqui mais enquadramentos rebuscados (a ampla visão de uma rua, por exemplo) e oferece, ao mesmo tempo, um certo ar atmosférico mais leve (apesar dos temas) que faltava ao peso dramático de Moonlight. Jenkins acerta, por exemplo, nas sequências com o amigo de Fonny, Daniel (Brian Tyree Henry), na qual se desenvolvem diálogos excelentes, com Pedrocito (Diego Luna), que trabalha num restaurante, ou quando o casal encontra um agente imobiliário (Dave Franco). Em certa medida, o roteiro convence sobre o fato de seus personagens não atingirem o que desejam – e os ambientes e os figurinos evocam uma sensualidade contemporânea e clássica ao mesmo tempo, com o auxílio da trilha sonora de Nicholas Britell. O que mais chama a atenção é como Barry Jenkins se afasta de um determinado estilo concebido por Spike Lee em Febre da selva, assim como Moonlight, inovava em relação a Os donos da rua e a Dope. Se Jenkins em seu filme anterior usava muito os ruídos da natureza, a exemplo do mar em algumas sequências, aqui a trilha consegue emprestar a sensibilidade que falta nos espaços urbanos pelos quais os personagens passam ou mesmo na prisão em que está Fonny. Ela oferece uma credibilidade ao romance entre os dois, convencida ainda pela atuações: o espectador trabalha com a consciência de que se trata de uma paixão autêntica.

Jenkins tem um olhar muito interessante para a condição de Fonny e sua amada assim como mostrava Cherrie em três fases da vida em Moonlight, incorporando novamente um sentimento de solidão fortíssimo, de elementos que se estendem ao longo do tempo e que não deixam mais de fazer parte do indivíduo, de lembranças que perduram e atitudes que, por mais que se esforce, não podem ser perdoadas. Novamente chama a atenção como o cineasta aborda os assuntos com uma sabedoria e calma e, na condução de algumas cenas, quase poética (em Moonlight havia uma belíssima sequência com um um jukebox; em Se a Rua Beale falasse o que comove é Fonny fingindo transportar os móveis para dentro de um espaço sem mobílias, a fim de convencer a amada de que ali pode estar a casa de ambos). Ele acerta bastante até o terceiro ato, quando tudo parece se inclinar mais para uma lição de moral e é, acima de tudo, anticlimático, tirando a força que seus personagens tinham até então. Por isso, ele não consegue ser como Loving, de Jeff Nichols, na discussão de seus temas, ou seja, usar uma discrição que comova o espectador. Ainda assim, é cinema de grande nível, tentando ser diferente e não com uma pretensão vazia. A força do filme está no olhar e nas expressões desses personagens e Jenkins não raramente os filma em close-ups. É uma maneira de revelar o amor que une o casal e de fazer o espectador se aproximar de um sentimento incapaz de ser desfeito, independente da situação. Como em Moonlight, mesmo sob um manto de certa melancolia, ainda permanece vivo um otimismo diante de tudo.

If Beale Street could talk, EUA, 2018 Diretor: Barry Jenkins Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Dave Franco, Diego Luna, Pedro Pascal, Ed Skrein, Brian Tyree Henry, Regina King Roteiro: Barry Jenkins Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Megan Ellison, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Adele Romanski, Sara Murphy, Barry Jenkins Duração: 117 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Pastel Productions Distribuidora: Annapurna Pictures

Alita – Anjo de combate (2019)

Por André Dick

Com roteiro de James Cameron e Laeta Kalogridis, Alita – Anjo de combate, baseado na série de mangás criada por Yukito Kishiro, parece uma reprodução das heroínas do responsável por O exterminador do futuro. Encontrada em meio ao ferro-velho de Iron City, pelo Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz), a ciborgue que passa a ser chamada de Alita (Rose Perez) e carrega um cérebro humano, é reconstruída. Logo, ela descobre que muitos da Terra querem chegar a Zalem (o que lembra Elysium), uma espécie de cidade tecnológica no céu da cidade, principalmente o jovem pelo qual se apaixona, Hugo (Keean Johnson). Por sua vez, Ido foi casado com Chiron (Jennifer Connelly), da qual se afastou após a morte da filha e que terá uma ligação essencial com a trama para explicar os destinos da narrativa.
Essa premissa é uma prévia do que virá: Ido, na verdade, trabalha como um guerreiro caçador, buscando peças de ciborgues à noite, no longínquo ano de 2563, até o dia em que precisa enfrentar Grewishka (Jackie Earle Haley), em relação ao qual Alita vai demonstrar sua capacidade de luta chamada “Panzer Kunst”. Nesse sentido, talvez a melhor sequência da história se passa no Kansas Bar, no qual Alita precisa enfrentar vários de sua corporação e, principalmente, uma versão atualizada de uma ameaça que já combateu.

Aos poucos, ela começa a recuperar as memórias de sua vida passada, o que faz lembrar Ghost in the shell, além de possuir uma grande influência dos mangás, com sua cultura cyberpunk, Blade Runner. Não por acaso, trata-se de uma personagem feminina bem delineada. É de praxe nas obras de Cameron: a Grace de Avatar é uma extensão daquelas heroínas que esse cineasta privilegiou em sua trajetória, desde Sarah Connor, de O exterminador do futuro, passando pela Lindsey de O segredo do abismo, Ripley, de Aliens, até a Rose, de Titanic.  Pode-se dizer, nesse sentido, que Alita – Anjo de combate, parece muito mais uma obra de Cameron do que de Robert Rodriguez, o diretor oficial. Conhecido por sua parceria com Quentin Tarantino desde Um drink no inferno, passando por Planeta Terror, Rodriguez se projetou com A balada do pistoleiro nos anos 90 e com Sin City, a adaptação estilosa dos quadrinhos de Frank Miller. Também fez algumas séries com visual kitsch (Pequenos espiões) ou excessivamente exageradas (Machete), e pode-se dizer que a elegância visual de seu novo filme também tem muita influência de Cameron. São em torno de 150 e 200 milhões de dólares muito bem aplicados.

Pode-se dizer, também, o quanto há de influência aqui, de Sucker Punch, de Zack Snyder, sobre uma menina presa numa clínica psiquiátrica que, para fugir da sua realidade, se recolhia num mundo de sonho, onde podia se livrar dos seus carrascos. Alita, pela própria maneira com que é escrita, também está dividida entre o universo em que precisa obedecer ao doutor que a recria e aquele em que se mostra poderosa, com uma competência para lutar que pode lembrar o Neo de Matrix. Nesse sentido, ao mesmo tempo, a obra das irmãs Wachowski é uma nítida inspiração visual do filme de Rodriguez, assim como o RoboCop de Paul Verhoeven, principalmente em sua violência bastante contundente em alguns trechos, pouco normal numa obra a princípio para um público infantojuvenil. As sequências no Motorball, que dialogam com Speed Racer e Jogador Nº 1 (que virou uma referência para este gênero), são, não raramente, empolgantes e filmadas com autenticidade, elemento cada vez mais raro em blockbusters.

Do mesmo modo, o vilão Vector, feito por um inusitado (pois conhecido por papéis mais melodramáticos) Mahershala Ali, é uma extensão do que os burocratas maléficos dos filmes de Cameron podem fazer, o que acontece desde o tempo em que roteirizou Rambo II e dirigiu O exterminador do futuro 1 e 2, Aliens – O resgateTrue lies e O segredo do abismo. Apesar de boa parte de sua trama ser sobre um romance entre adolescentes, Alita nunca perde o seu foco, o de mostrar um universo fantástico abalado pela tentativa de o ser humano querer atravessar os caminhos da criação e se tornar o olhar vigilante de qualquer tipo de sistema. Rodriguez aplica de maneira muito consciente um certo estilo que demonstrou sobretudo em Sin City, convertendo imagens fantásticas num realismo bastante ameaçador, sem, aqui, no entanto se desviar para uma homenagem a uma época específica (no caso daquele, do cinema noir) e aproveitando o elenco talentoso do melhor modo, inclusive Waltz num momento muito bom, sem recorrer tanto a alguns de seus maneirismos, e Ali (este, se ganhar o Oscar de coadjuvante com Green Book, soma, com Waltz, quatro estatuetas desta categoria apenas na última década), além de uma emocional Connelly. Os intérpretes jovens, Salazar (com sua captação de movimentos), e Johnson, também são plausíveis, assim como Haley. É justamente a figura de Alita, mistura entre humano, animação e ciborgue, que torna o filme eficiente em todos os aspectos. Ela traz, ao mesmo tempo, um discurso, suas lembranças e uma vontade de superação que não torna o roteiro numa peça apenas funcional, como poderia, e sim bastante reflexivo.

Alita – Battle Angel, EUA, 2019 Diretor: Robert Rodriguez Elenco: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Jennifer Connelly, Mahershala Ali, Ed Skrein, Jackie Earle Haley, Keean Johnson Roteiro: James Cameron, Laeta Kalogridis Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: Tom Holkenborg Produção: James Cameron, Jon Landau Duração: 122 min. Estúdio: 20th Century Fox, Lightstorm Entertainment, Troublemaker Studios, TSG Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

Velvet Buzzsaw (2019)

Por André Dick

O diretor Dan Gilroy estreou com um filme muito bem recebido, O abutre, e em seguida fez Roman J. Israel, esq., que rendeu uma indicação ao Oscar de ator para Denzel Washington e dialogava com a atmosfera dos anos 70. Eram obras marcadas pelo estudo de personagens distintos, no primeiro caso um jornalista inescrupuloso e no segundo um advogado muito competente e em busca de maior justiça para seus clientes, embora em determinado ponto se deixasse confundir por acontecimentos. Conhecido antes dessa carreira como cineasta como roteirista, Gilroy assume novamente as duas funções em Velvet Buzzsaw, lançado no Festival de Sundance.
A história se passa em Miami, onde acompanhamos o crítico de arte Morf Vandewalt (Jake Gyllenhaal), que tem como melhor amiga e agente Josephina (Zawe Ashton). Ela trabalha para Rhodora Haze (Rene Russo), dona de uma galeria, que foi vocalista da banda de punk rock que dá título ao filme.

Mesmo tendo um namorado, Ed (Sedale Threatt Jr.), Morf se sente atraído por Josephina, e os dois já tiveram um caso anteriormente. Ela, certo dia, encontra um homem morto perto de seu apartamento, Vetril Dease, pintor de talento desconhecido. Recolhendo suas obras, resolve fazer uma parceria com Rhodora para vendê-la e com Morf para que ele escreva sobre elas.
Dois outros conhecidos de Morf, a curadora Gretchen (Toni Collette) e o artista plástico Piers (John Malkovich), ficam impressionados com o trabalho do pintor recém-descoberto. Este tem obras que são marcadas sobretudo por elementos assustadores, como se trouxessem uma energia soturna com eles, mas que acabam fascinando os frequentadores de exposições. Tudo é articulado sobre um clima de mistério, ao mesmo tempo com um certo descompromisso. A referência de Gilroy é clara: a obra de Dario Argento nos anos 70, principalmente O pássaro das plumas de cristal, que lidava com o universo das exposições de obras de arte. No entanto, Gilroy não é tão estilístico quanto o cineasta italiano, preferindo utilizar uma fotografia bastante realista, aos poucos sendo mesclada com toques de fantástico, feita pelas mãos do ótimo Robert Elswit, que trabalhou com o diretor em seus projetos anteriores e também com Paul Thomas Anderson em Vício inerente, cuja tonalidade de imagens se corresponde com algumas daqui.

Não me parece que o objetivo de Gilroy seja justamente aplicar uma sátira sobre esse universo focado, já vista algumas vezes, contudo mostrar o quanto esses personagens podem lidar com um elemento imprevisível naquilo que está pré-concebido em todos os detalhes, como as peças feitas para agradar ao público ou dialogar com ele sob qualquer ponto de vista. O alvo não é exatamente a cobiça financeira sobre obras, como plana na superfície do roteiro, e sim como esse universo é tão irreal, mesmo se sentindo muitas vezes teorizável concretamente, quanto o que começa a acontecer a partir de determinado ponto. Mesmo porque, caso contrário, ele certamente se transformaria numa espécie de autossátira, a exemplo do que vemos em instantes do brilhante The Square – A arte da discórdia. Há conversas sobre o universo da crítica que remetem a Birdman, no entanto sem a mesma consciência, a não ser no nome da banda que nomeia o filme, clara referência ao Velvet Underground, que teve a capa de um dos seus discos mais conhecidos ilustrada por Andy Warhol (aqui lembrado pela imagem de seu filme Empire, com suas mais de 8 horas de plano-sequência do prédio Empire State Building, de Nova York). Gyllenhaal estabelece uma boa parceria novamente com Russo, depois de O abutre, e sua atuação é o que de melhor tem aqui. Ele consegue se situar entre os duplos de si mesmo e o que enxerga nas obras para seu ganho pessoal e para seu respeito como crítico. O elo com Russo é essencial para que essa duplicidade se estabeleça, assim como a atuação indefinida de Ashton.

O que mais interessa nesta obra de Gilroy é a multiplicidade de estilos que ele adota: se tudo começa como uma conversa de artista e relações que parecem lembrar um filme B, logo ele passa para um clima de suspense e tensão e, quando parece finalmente se desviar para uma espécie de análise do mundo da arte, ele entrega um caminho mais virulento e inesperado do que se costuma ver em peças de Hollywood. Esta é uma história que pode ser até estranha, como já o era a anterior de Gilroy, no entanto é justamente isso que lhe concede as maiores qualidades. Nesse sentido, talvez o espectador que julgue o debate sobre arte no filme pouco natural tende a considerá-lo mais superficial. Por outro lado, quando se considera que a mescla feito entre esse tema e os gêneros de terror e suspense se mostra notavelmente funcional, particularmente na meia hora derradeira, quando o diálogo entre o universo da arte e o desfecho para cada personagem se estabelece, é que a narrativa se mostra mais encontrada e verdadeiramente original.

Velvet Buzzsaw, EUA, 2019 Diretor: Dan Gilroy Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Toni Collette, Zawe Ashton, Tom Sturridge, Natalia Dyer, Daveed Diggs, Billy Magnussen, John Malkovich, Sedale Threatt Jr. Roteiro: Dan Gilroy Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Marco Beltrami e Buck Sanders Produção: Jennifer Fox Duração: 113 min. Estúdio: Netflix, Dease Pictures Inc. Distribuidora: Netflix

Climax (2018)

Por André Dick

O diretor franco-argentino Gaspar Noé sempre foi conhecido por seus filmes polêmicos, a começar por Sozinho contra todos, mas, principalmente, por Irreversível, desde o seu lançamento em Cannes. O Festival francês costuma ser o palco da estreia de seus filmes, e o mesmo ocorreu com Enter the void, em 2009, e Love em 2015 – em ambas as ocasiões sem receber nenhum prêmio ou mesmo ter um destaque especial. Se Enter the void tornou-se, com o tempo, numa obra referencial – e parece, em retrospectiva, o melhor trabalho de Noé –, com Love (lançado nos cinemas em 3D) não aconteceu o mesmo, mas se manteve cult, tratando de uma história sobre um triângulo amoroso que se depara com uma determinada realidade capaz de levá-lo a um extremo por vezes conflitante e desagradável, mesmo em meio a cores brilhantes.

Em Climax, seu novo filme, também lançado em Cannes, acompanhamos alguns dançarinos que se reúnem para ensaiar, com o objetivo de fazerem uma turnê na França e nos Estados Unidos. Depois de assistirmos cada um deles em vídeos de audição, Noé mostra todos dançando num espaço iluminado nos moldes das suas peças anteriores. Os movimentos de dança belíssimos e bem coreografados são ousados, frenéticos e compõem uma sequência que antecede os créditos, já aos 45 minutos de narrativa. A divisão clara do filme indica que Noé, no princípio, continua brincando com a linguagem cinematográfica, assim como em Love, com seu 3D pouco habitual. Seus jovens, depois de falarem para a câmera a fim de conseguirem suas participações no grupo, são filmados de frente, como se estivessem num documentário, compartilhando impressões sobre alguns temas. Sob certo ponto de vista, este é o momento em que mais Noé presta homenagem a Jean-Luc Godard, sobretudo aquele de A chinesa ou Made in U.S.A., dos anos 60, com o uso de uma certa câmera estática, mas sem exatamente congelar o que está mostrando e também sem o mote político.

Quando todos estão flertando uns com os outros, eles bebem a sangria que a líder da companhia, Emmanuelle (Claude Gajan Maull), fez. A mistura entre bebida e frutas, além de proporcionar as cores buscadas por Noé, acentua também o lado enigmático da obra. Os efeitos dela contribuem para o que Noé mostra a seguir, continuando suas experimentações principalmente de Enter the void, com a sua câmera acompanhando os personagens pelas costas, num trabalho de fotografia notável novamente do habitual parceiro, Benoît Debie. Entre os personagens que acompanhamos, estão David (Romain Guilermic), Selva (Sofia Boutella) e Daddy (Kiddy Smile), este o DJ da festa. Os personagens vão se revelando e as inter-relações, apesar de continuarem confusas, se mostram mais evidentes. A principal atriz é Boutella, que surgiu no blockbuster Kingsman e depois esteve em A múmia, sendo no mínimo uma presença curiosa e mainstream nesta obra underground e entregando certamente a sua melhor atuação até agora, embora esteja muito bem em Atômica, ao lado de Charlize Theron.
Mas o apanhado é de horror, uma espécie de Birdman de Iñárritu situado às portas do inferno de Dante Alighieri, e é curioso que a personagem se chama Selva (remetendo a “selva oscura” da Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / Mi ritrovai per una selva oscura”). Em Enter the void, sabemos que se trata, do ponto de vista de alguém que faz uma passagem pelo inferno e purgatório até chegar ao paraíso – uma possível outra vida. É uma viagem quase dantesca, e nela temos cenas singulares a Noé: cenas graficamente densas e violência. Esse lado mais denso pode, por outro lado, reservar um escapismo e a compreensão do maior significado da vida, no fundo a base para se entender a trajetória de Noé.

Porém, também temos, ao mesmo tempo, uma ligação com o personagem central de Enter the void, que carregava todos os elementos: havia referências ao fogo, à água, à terra e ao ar (sobretudo num momento surpreendente, em que Noé lança seu personagem para acima da cidade de Tóquio, como se fosse um anjo de Asas do desejo). Se o personagem morria em posição fetal no banheiro da The Void, aqui Selva é abalada pela bebida e logo em seguida mesmo as paredes adquirem imagens que lembram um espaço à parte. Noé emplaca um clima de tensão e horror, com sua inevitável reflexão sobre vida e morte, contrapondo a leveza da música da primeira parte à opressão da segunda. Ainda assim, ele parece dialogar mais com o Fellini de Satyricon, principalmente no surrealismo subterrâneo, do que qualquer outro cineasta produzindo nos dias de hoje. E, se normalmente ele costuma ser extremamente negativo em relação à realidade, aqui não parece ser diferente, com um toque, ao final, de David Lynch. Para Noé, os anjos podem vir salvar, afinal, um espaço perturbador. O resultado é, no mínimo, interessante e mantém Noé entre os nomes de grande talento do cinema contemporâneo.

Climax, FRA/BEL, 2018 Diretor: Gaspar Noé Elenco: Sofia Boutella, Kiddy Smile, Roman Guillermic, Souheila Yacoub, Claude Gajan Maull, Giselle Palmer, Taylor Kastle, Thea Carla Schott Roteiro: Gaspar Noé Fotografia: Benoît Debie Produção: Edouard Weil, Alice Girard, Vincent Maraval Duração: 96 min. Estúdio: Rectangle Productions, Wild Bunch, Arte France, La Cinémas de la Zone, Eskwad, KNM, Arte France Cinéma, Artemis Productions, Vice Studios, Arte France, VOO, Be TV, Shelter Prod, Taxshelter.be, ING, CNC, La Sacem, Cineventure 3 Distribuidora: O’Brother (Bélgica) e Wild Bunch (França)

Vice (2018)

Por André Dick

Em 2015, ao oferecer um movimento ininterrupto, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas, A grande aposta acabava apresentando uma dissolução interessante de gêneros. Além disso, tinha um elenco estelar em grande forma (Ryan Gosling, Brad Pitt, Christian Bale e Steve Carell, entre outros), apesar de alguns nomes não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro dos Estados Unidos em 2008 e suas consequências eram mais importantes para o espectador ter consciência sobre o tema. Seu diretor Adam McKay, mais conhecido por sua parceria com Will Ferrell em comédias, tornava esse assunto complexo e delicado numa bateria de imagens que pareciam mesclar ficção e documentário com a mesma intensidade, apoiado também em Margin Call, de alguns anos antes. Trata-se de um caminho muito difícil e que descontenta, de certo modo, ao público que aguarda mais “fatos reais” e aquele que aguarda mais “ficção”; é uma dosagem complicada para se atingir.

Em Vice, chamado antes da estreia de Backseat, o foco passa a ser a política norte-americana a partir principalmente de meados da década de 1960, com McKay lançando as luzes sobre a figura de Dick Cheney. Ele foi o vice-presidente dos Estados Unidos nas duas gestões de George W. Bush, e McKay quer mostrar seu início de trajetória no Wyoming, quando passou a namorar Lynne (Amy Adams). Depois de conhecer Donald Rumsfeld (Steve Carell), Cheney se incorporou aos republicanos. Como em A grande aposta, a grande virtude de Vice é sua montagem frenética, fazendo com que o espectador não perceba direito a passagem de tempo. No entanto, aqui, por mostrar uma figura política de destaque por várias décadas, parece que McKay procura abraçar mais do que pode.
Ao construir um panorama de Cheney nos bastidores, sua chegada à Casa Branca ainda na gestão de Nixon, depois sua importância nos bastidores nos governos de Reagan e Bush pai, por exemplo, McKay quer mostrar sua ação entre 2001 e 2009, quando esteve por trás da política de tortura contra presos em Guantánamo, principalmente terroristas. Porém, McKay se situa muito na superfície, mesmo que tenha propositadamente um sentido documental. Ou seja, o personagem de Cheney é visto com certo humor, apoiado na atuação de Christian Bale, com contundência, no entanto não são passados dados suficientes desta figura para que procuremos analisar as informações dispostas ou que alguns espectadores já tem previamente.

É curioso, nessa linha, que Cheney passe de uma espécie de ingênuo beberrão nos anos 60 para alguém capaz de influenciar e ditar estratégias para os presidentes. O problema de filmes que criticam uma determinada figura é saber exatamente como seguir esse rumo sem parecer exagerado. Vice não quer evitar o exagero, no entanto ele se apoia demasiadamente na ideia de que Cheney era apenas um desequilibrado: ele, ao fazer isso, evita analisar exatamente como foi proporcionado espaço a esse desequilíbrio e os motivos, mesmo que não explicáveis. Usando a voz que deu conhecimento a sua versão de Batman, Bale se esconde por trás de uma pesada maquiagem (aliás, impecável) e com maneirismos na maneira de falar, tentando copiar Cheney, que podem ser vistos como perfeitos, não incorressem não raramente num overacting bastante cansativo com o passar do tempo. Esse, contudo, não é o problema: Vice não consegue reunir as boas atuações de Adams e Carell, além de Rockwell, num conjunto que ressoe para o espectador. Eles oferecem bons momentos, mas estão ligeiramente dispersos na narrativa. Como não se trata exatamente de um documentário, não basta apresentar imagens soltas deles, como fazia Michael Moore em Fahrenheit 11/9, e sim buscar uma estrutura narrativa.

McKay poderia ter tornado Vice num grande filme, assim como a fotografia de Greig Frasier, de A hora mais escura, é notável, melhor característica da narrativa. Sua tentativa de expandir o estilo de Oliver Stone dos anos 90, mesclando imagens e sobrepondo estilos, além de trechos de telejornais (em que Naomi Watts é a apresentadora, numa participação que lembra a de Margot Robbie em A grande aposta), como víamos em obras como JFK, Um domingo qualquer e Reviravolta, além de Nixon, é claro e muitas vezes efetivo, fazendo de sua peça uma espécie de reunião de camadas sonoras e visuais. Imagine-se, portanto, o que Stone faria com esse material no melhor momento de sua trajetória. Também há uma certa influência na movimentação de câmera de David O. Russell, aquele especificamente de Trapaça. Ainda assim, quando ele precisa mostrar um certo aprofundamento na composição da narrativa, não consegue inserir do melhor modo a figura do personagem de Jesse Plemmons, por exemplo, e acaba por perder o fio da meada. Isso, no entanto, não tira de seu filme um certo atrativo de ambientação (poucas vezes a Casa Branca teve um design de produção tão realista no cinema), assim como ele mostra a política com um aspecto de noite contínua, em que personagens sobem e descem de helicópteros para decidir o que o povo deve, enfim, seguir. Talvez por lidar com temas polêmicas, McKay prefira brincar mais com uma cena de créditos antes do seu momento do que tratar de seus personagens, ainda vivos e que podem muito bem processá-lo por qualquer ideia mais densa, digamos assim. Nesse sentido, o diretor prefere planar sobre os assuntos, mantendo-se a distância, sobretudo quando adentra a Guerra do Iraque, e fazendo dessa o seu modo de criar um “ataque”. Na verdade, porém, McKay não ataca e se resguarda por trás de uma visão de que o establishment norte-americano está a serviço de pessoas incapazes para seus postos, contudo sem querer trabalhar exatamente os motivos, o que apontaria entender seu público (e este inclui mesmo aqueles que não concordam com sua visão sobre os fatos). Quando a resposta parece evidente, apenas parece: ele quer, antes de tudo, emular Stone e David O. Russell e ser indicado ao Oscar.

Vice, EUA, 2018 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Tyler Perry, Alison Pill, Lily Rabe, Jesse Plemons Roteiro: Adam McKay Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Kevin J. Messick, Will Ferrell, Adam McKay Duração: 132 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Gary Sanchez Productions Distribuidora: Annapurna Pictures

A favorita (2018)

Por André Dick

O melhor de O sacrifício do cervo sagrado, filme imediatamente anterior de Yorgos Lanthimos ao mais recente A favorita, era a sua compreensão de atmosfera, apostando tudo num sentimento de obra de terror, sem cair num humor corrosivo que por vezes pode desconstruir em demasia a narrativa. Em Dente canino e O lagosta, o excesso de estranheza por vezes distanciava o espectador, como se inserido num surrealismo desmesurado. Quem conhece o trabalho do diretor sabe que ele privilegia a construção das imagens, sempre impactantes, em detrimento de uma explicação narrativa (que na maioria das vezes não importa para seu interesse). Em O sacrifício, ele se limitava a algumas bordas, e apara as arestas de maneira mais reflexiva e contundente, construindo uma mistura de gêneros efetiva e surpreendente. Ainda utilizando uma espécie de estilo de teatro filmado com diálogos lentos e atores quase estáticos, esses elementos não se encontram em A favorita.

Vendedor do Grande prêmio do júri e de melhor atriz (Olivia Colman) no Festival de Veneza e com várias indicações ao Oscar, A favorita se passa na Inglaterra, no início do século XVIII, quando a rainha Anne (Colman) tem uma amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz), governando na realidade em seu lugar. Surge uma nova serva, Abigail Masham (Emma Stone), que é prima de Sarah e passa a ser a nova favorita da rainha. Em linhas gerais, a narrativa foca na relação de inimizade entre Sarah e Abigail, mas se estende também à tentativa de Robert Harley (Nicholas Hoult) influenciar nas decisões relacionadas à política e à guerra com a França. Essas relações, no entanto, servem mais a exibir como uma rainha entra num jogo de espelhos com duas mulheres que desejam conquistar o poder, cada uma à sua maneira. Sarah manipula Anne para que seu marido, Lorde Marlborough (Mark Gatiss), se destaque à frente da guerra. Por sua vez, Abigail flerta com Samuel Masham (Joe Alwyn). Esse flerte, porém, é gélido, quase como a relação do personagem de Nicole Kidman com seu marido médico em O sacrifício do cervo sagrado.

O design de produção de Fione Crombie é fabuloso, lembrando Barry Lindon e Maria Antonieta, o figurino de Sandy Powell notável e a fotografia de Robbie Ryan usa a lente olho de peixe, como Emmanuel Lubezki nos trabalhos de Iñárritu e Malick, para captar uma certa grandeza palaciana, em contraposição aos humanos mesquinhos e reduzidos quase a indivíduos sem nenhuma personalidade. Lanthimos sempre foi muito próximo da ideia de um estilo estranho e em A favorita ele consegue, de certo modo, inserir elementos de humor onde costuma não haver. No entanto, parte de sua estranheza é evidentemente tornada mais popular e palatável, para que o público possa se aproximar mais dos personagens. Enquanto Stone opta por uma variação de humor correspondente ao roteiro que recebe, sendo de fato a intérprete principal (embora na temporada de premiações seja incluída como coadjuvante), Weisz se comporta como na maior parte de sua filmografia recente, não chegando a ter uma grande interpretação, no entanto com sua habitual competência, enquanto Colman aparece bem em seu papel, principalmente na sua demonstração de desgaste com a dor física imposta por problemas de saúde.

Com roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara, o primeiro filme de Lanthimos sem trabalhar sua própria história, A favorita flutua entre episódios distintos, quase como contos da realeza, e corridas de pato em meio a punições a criadas que ousam buscar um tratamento médico para os problemas de saúde da rainha. Suas características podem ser descobertas em meio aos percalços existenciais de cada um e na futilidade de Sarah, atendida prontamente por todos. Lanthimos insere mais suas propriedades quando transforma Abigail no centro da história, e Stone consegue reproduzir sua estranheza de maneira por vezes impactante. A utilização dos cenários para representar os sentimentos de cada uma dessas mulheres constrói um contraste interessante. O Palácio de Kensington representa uma redoma de solidão e, ao mesmo tempo, de lugar onde muitas personalidades vão se revelar de modo contundente. Se no início o humor está mais presente (com uma personagem, por exemplo, sendo jogada de uma carruagem diretamente na lama), a dramaticidade e mesmo certos elementos soturnos aos poucos vão consumindo a história, chegando a um último ato anticlimático, em relação à filmografia de Lanthimos, embore funcione simbolicamente. Ainda assim, a figura do homem, como aquela vista por meio do primeiro-ministro Sidney Godolphin (James Smith), é, não raras vezes, patética.

Volta e meia, Lanthimos faz com que os cenários sejam escuros, quase como se tudo fosse um subterfúgio, assim como deixa as luzes das janelas em determinados momentos fazerem o contrário. Os bastidores se aproximam da realidade e o que se mostra diante dos olhos de todos lembra mais uma peça teatral encenada, em que as personagens precisam disfarçar aquilo que realmente pensam. Quando a rainha brinca com os dezessete coelhos que possui, eles estão na parte iluminada do seu quarto, ao contrário de quando ela precisa esconder sua sexualidade. Whit Stillman havia tentado alguns desses movimentos em Amor & amizade, sem a concretização vista aqui. Para Lanthimos, esconder a sexualidade faz parte da própria ordem do poder enfocado por A favorita. Este, no entanto, atua como um eixo de coordenação entre figuras que podem ser vistas como vítimas, no caso de Abigail, e extremamente poderosas, no caso da rainha. É aí que o diretor conduz tudo a uma espécie de tragédia geral: a história se repete mesmo que sejam figuras diferentes a vivê-la.

The favourite, EUA/IRL/ING, 2018 Diretor: Yorgos Lanthimos Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn Roteiro: Deborah Davis, Tony McNamara Fotografia: Robbie Ryan Produção: Ceci Dempsey, Ed Guiney, Lee Magiday, Yorgos Lanthimos Duração: 120 min. Estúdio: Scarlet Films, Element Pictures, Arcana, Film4 Productions, Waypoint Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight PicturesRelease date

Creed II (2018)

Por André Dick

A primeira parte da série Rocky, de 1976, recebeu os Oscars de melhor filme e direção e o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo. Já Rocky III e Rocky IV foram feitos sob o influxo da estética do videoclipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito da diversão. No quarto, especificamente, o lutador enfrentava Ivan Drago (Dolph Lundgren), boxeador russo treinado em laboratórios, depois de ele matar seu amigo Apollo Creed numa luta-evento. É justamente com este quarto filme da série que Creed II estabelece mais contato.
Michael B. Jordan regressa como Adonis, filho de um relacionamento extraconjugal de Apollo, que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa dele, Mary Anne (Phylicia Rashad), com quem possui um relacionamento baseado na confiança.

Depois de derrotar Danny “Stuntman” Wheeler (Andre Ward) e se tornar campeão mundial, ele é procurado por um agente, Buddy Marcelle (Russell Horsnby) para lutar com Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan (mais uma vez  Lundgren), que matou seu pai em Rocky IV. Sem o apoio de Rocky para a nova empreitada, ele se muda para Los Angeles, onde vai treinar sob o comando de Tony “Little Duke” Evers (Wood Harris), filho do treinador de seu pai. No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca Taylor, namorada de Creed. O romance entre os dois remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire, principalmente em Rocky II, com o qual este filme tem muitas semelhanças também. Aqui o casal em início de vida conjunta precisa estabelecer uma nova estrutura para que cada um possa se realizar em sua área: Bianca é uma música, com problemas auditivos.
Stallone está mais uma vez excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa colocar Adonis como uma espécie de substituto para a paternidade falha que teve com Robert.

As nuances que Stallone entrega para seu personagem diferem daquelas exibidas em Rocky Balboa, no qual era mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; a partir do primeiro Creed ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino, e não é diferente aqui. Neste, a família Drago chega à Filadélfia com o objetivo de modificar a mitologia de turistas indo visitar a estátua de Rocky. Há um ressentimento de Ivan ao relação ao boxeador que o derrotou três décadas atrás, e uma tentativa de usar o filho de Creed para uma vingança pessoal. Os personagens são interdependentes. Deve-se dizer que o quinto filme, que tinha novamente John G. Avildsen na direção (como o primeiro) já apresentava um estilo que está sendo trabalhado na série Creed: embora com resultado irregular, era soturno, mais denso, mostrando a interrupção da carreira de Rocky (em razão da quantidade de socos que recebeu na cabeça), a volta para a Filadélfia (em razão de um contador desonesto) e o início de treino de um jovem com talento.
Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância, desenhando vínculos familiares. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, o jovem diretor Steven Caple Jr. consegue realmente dar sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa. Como John G. Avildsen no original, Stallone em Rocky II e Rocky Balboa e Coogler em Creed, o cineasta está interessado sobretudo nos personagens e a carga dramática que ele imprime ao filme está longe de ser superficial. Mesmo que não consiga atingir o punch de Coogler do primeiro, por contar com um roteiro mais didático e expositivo (Juel Taylor, que o assina com Stallone, é um estreante), ele extrai novamente ótimas atuações de todos (B. Jordan está novamente num dos melhores momentos de sua carreira) e encadeia a narrativa de maneira ágil do início ao fim. A sequência está no seu melhor quando mostra situações familiares de Creed, principalmente quando se vê diante de uma situação-chave em sua vida. E algumas sequências são, além de bem filmadas, simbólicas, como aquela em que o personagem central, sentindo-se destruído, tenta buscar um novo horizonte embaixo d’água, com imagens que remetem a cruzes no fundo de uma piscina, indicando vida e morte.

É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a obras como esta, em que encobre suas limitações com uma composição bem feita. Caple Jr. não coloca em nenhum momento a estética de videoclipe, mas mostra uma rotina de boxeador mais contida. Creed passa a viver com a namorada num apartamento vazio em Los Angeles, a academia onde treina tem uma imagem de seu pai Apollo que parece pesar sobre seus ombros; as ruas da Filadélfia e o restaurante de Rocky parecem desolados. A própria vida do filho e do pai Drago, na Ucrânia, embora não explorada como iria sugerir um roteiro superior, se dá num ambiente desolador, quase pós-guerra, com uma fotografia mais propensa a uma obra como Foxtrot, o que não deixa de ser curioso, pois Rocky IV era basicamente um documento cinematográfico da Guerra Fria nos anos 80. No entanto, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e da trilha sonora casadas de maneira efetiva. A analogia que Caple Jr. faz entre os Balboa, os Creed e os Drago mostram, mais do que uma vida dedicada à luta, uma superação diária de traumas insolucionáveis, que devem ser enfrentados mesmo assim. Para esses personagens, apesar de existirem o medo e o ressentimento, não pode haver meio-termo; é preciso enfrentá-los.

Creed II, EUA, 2018 Diretor: Steven Caple Jr. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Russell Horsnby, Florian Munteanu Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Irwin Winkler Duração: 130 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures, Chartoff-Winkler Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (Estados Unidos), Warner Bros. Pictures (Internacional)

Green Book – O guia (2018)

Por André Dick

O diretor Peter Farrelly ficou conhecido por sua parceria com o irmão Bobby à frente de filmes como Debi & Loide, O amor é cego e Eu, eu mesmo e Irene. Depois de alguns exemplares que pareceram retroceder a qualidade da comédia em sua carreira (a continuação de Debi & Loide, Passe livre e Os três patetas), Peter decidiu fazer uma obra à parte de de sua trajetória. Green Book – O guia foi o resultado. Lançado no Festival de Sundance, onde foi escolhido como melhor filme, ele mostra dois personagens que existiram na vida real.
Frank Vallelonga (Viggo Mortensen), mais conhecido como Tony Lip, é um italiano do Bronx, casado com Dolores (Linda Cardellini), que é escolhido como motorista da turnê do pianista “Doc” Don Shirley (Mahershala Ali). O primeiro encontro entre os dois se dá no apartamento de Don Shirley, em cima do Carneggie Hall, onde esse surge vestido com um figurino de origem africana. Pelo tom escolhido por Farrelly, muito leve, talvez seja necessário avaliar que não há um enfoque excessivamente político nas escolhas dele. Com um roteiro de diálogos ágeis, Green Book é quase uma reminiscência dos antigos filmes de Hollywood, uma espécie de road movie nos moldes que Farrelly já fez em Eu, eu mesmo e Irene e Debi & Loide com paisagens que lembram uma espécie de sonho norte-americano perdido.

A princípio, Vallelonga é um italiano racista, mas Farrelly quer mostrá-lo como aquele que, de certo modo, vai fazer Don Shirley se autodescobrir realmente. Isso soa em parte forçado, com uma certa condescendência. No entanto, Green Book é um exemplar de cinema despretensioso em relação ao qual o espectador acaba relevando certas inconsistências de roteiro e mesmo a mensagem de pano de fundo às vezes previsível até demais. Ele tem, além de uma atmosfera trabalhada, com uma fotografia sensível de Sean Porter, que lembra a de obras recentes como Carol e Fome de poder, uma espécie de equilíbrio entre tons narrativos que não é fácil de conseguir, principalmente no cinema contemporâneo, muito mais rápido e quase sem elementos clássicos.
O debate cultural, no entanto, quando Tony aconselha o pianista a ouvir nomes da música negra da época, a exemplo de Aretha Franklin, Chubby Checker e Little Brown, para fugir um pouco do seu universo clássico de compositores como Chopin, soa um pouco forçoso, visto que é como se a figura do afro-americano tivesse de ser guiada pela do branco que aprendeu a reconhecer culturas híbridas. No entanto, é quase o discurso oposto que Spike Lee apresentava em Faça a coisa certa, quando o personagem do entregador de pizza que interpretava apontava a seu chefe, um pizzaiolo italiano, que seus ídolos eram predominantemente afrodescendentes. No entanto, ao contrário de Lee, Farrelly não chega a ser contundente ao abordar esses temas.

Sob outro ponto de vista, isso parece exatamente proposital, com uma qualidade inegavelmente certeira e voltada aos enquadramentos de uma amizade solidificada pelas atuações convincentes de Morttensen e Ali. São ambos que tornam o filme uma referência para seu gênero, com um estilo cada qual despojado e com uma empatia inusitada. As sequências nas quais estão no carro, viajando pelo interior, são as melhores: incluem aquela em que Vallelonga pega uma determinada pedra num estabelecimento e outra em que Doc visualiza afro-americanos trabalhando no campo enquanto veem o seu motorista branco abrir a porta do carro para ele. Deve-se dizer que, em alguns momentos, o posicionamento de Don Shirley não chega a ser plausível, porém o roteiro constrói a sua figura de maneira até complexa, como alguém incompleto, que se entrega ao vício quando não consegue solucionar sua própria vocação no mundo, que é tocar piano – e Ali tem grande participação no êxito do resultado, mais ainda do que em Moonlight.

Nesse sentido, talvez a maior qualidade de Green Book seja tocar em temas conflituosos de maneira menos grave do que acontece. Isso, por um lado, poderia desmerecer um pouco tais temas; por outro, mostra que há uma tentativa de mostrá-los sob outro ponto de vista, mais direcionados a uma procura de se libertar das amarras do que se espera previamente do gênero dramático. O fato de Don Shirley sentir-se deslocado em relação à cultura construída por afro-americanos e o atrito dela com o universo da composição clássica, assim como seus trejeitos mais elaborados, contribui para isso de maneira significativa, provocando no espectador uma certa compreensão mais universal. A figura do Green Book, que apontava, por exemplo, os lugares que poderiam hospedar afro-americanos no Sul dos Estados Unidos dos anos 60, acaba servindo como símbolo de que, na verdade, Toni também se sente deslocado não apenas em relação à sua cultura original quanto em relação à influência que recebe do novo amigo, ao vivenciar o preconceito junto com ele (e talvez a única cena mais deslocada seja aquela do banheiro numa mansão sulista). Em determinados momentos, esse aspecto lembra No calor da noite, premiado com o Oscar de melhor filme em 1967, com Sidney Poitier.

Aqui, na verdade, Tony representa a pouca cultura, a grosseria, os maus modos e a falta de refinamento, sempre com um cigarro caindo do canto da boca. Aos poucos, ele também vai se sentindo deslocado do antigo universo que frequentava e ganha um pouco da sofisticação que vê nas peças de Chopin tocadas por Don Shirley. Engana-se quem pensa que o diretor de Green Book busca alguma facilitação no tratamento desse “embate” entre pessoas que poderiam ser apenas estranhas uma em relação à outra durante toda a narrativa. Ele está, utilizando elementos menos dramáticos, na verdade mostrando um panorama muito interessante da época enfocada, em que dois homens que parecem opostos, em seu comportamento e cultura, na verdade se completam. Há um momento em que um policial aponta que Toni, pela origem italiana, se adapta bem a ser o motorista do músico. Nesse momento, Farrelly indica que, em graus maiores ou menores, qualquer resquício de preconceito na sociedade se corresponde, mesmo indiretamente. Isso poderia ser absolutamente previsível. Não o é, e dificilmente é tratado com tanta humanidade quanto em Green Book.

Green Book, EUA, 2018 Diretor: Peter Farrelly Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini Roteiro: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly Fotografia: Sean Porter Trilha Sonora: Kris Bowers Produção: Jim Burke, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly, Nick Vallelonga Charles B. Wessler Duração: 130 min. Estúdio: Participant Media, DreamWorks Pictures, Innisfree Pictures, Cinetic Media Distribuidora: Universal Pictures

Indicados ao Oscar 2019

Por André Dick

Dos possíveis candidatos ao Oscar que apontei em setembro de 2018 (neste post), quatro chegaram às indicações de melhor filme: Infiltrado na Klan, Nasce uma estrela, A favorita e Roma. Das repescagens, Pantera Negra e Vice (à época chamado de Backseat). Entre os outros que apontei, Duas rainhas não conseguiu chegar a tempo para as indicações: o filme com Saoirse Ronan e Margot Robbie não aconteceu junto à crítica e ao público. Boy erased – Uma verdade anulada também não conseguiu transformar as presenças de Lucas Hedges, Nicole Kidman e Russell Crowe em seu elenco em referenciais atrativos. Já o antimainstream Eighth grade teve boas indicações na temporada, no entanto sem alcançar a força de Lady Bird – A hora de voar, do ano passado, com temáticas semelhantes. Com ótimas atuações de Steve Carell e Timothée Chalamet, Querido menino infelizmente não agradou aos integrantes da Academia de Hollywood, pois merecia ser lembrado. No entanto, as grandes surpresas foram O primeiro homem e Se a Rua Beale falasse, dos diretores que em 2017 quase conquistaram juntos o Oscar de melhor filme por La La Land e Moonlight, lembrados em várias premiações, serem deixados de lado.

Melhor filme

Pantera Negra
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
Green Book – O guia
Roma
A favorita
Nasce uma estrela
Vice

A seleção deste ano tem filmes excelentes (A favorita, Nasce uma estrela), um ótimo (Green Book – O guia), dois muito bons (Infiltrado na Klan e Bohemian Rhapsody) e um historicamente interessante e bem interpretado (Vice), apesar de abaixo do esperado. Pantera Negra se tornou a primeira obra de super-heróis a ser indicada ao Oscar principal, o que é um feito histórico. Novamente a Academia não atinge 10 concorrentes. Nas duas vagas não preenchidas, os votantes poderiam ter lembrado de Suspiria, de Luca Guadagnino (do superestimado Me chame pelo seu nome, do ano passado, indicado então ao prêmio principal), Maus momentos no Hotel Royale (com ótima atuação de Jeff Bridges e brilhante direção de arte), O primeiro homem (uma bela ficção científica, que se provou ao longo da temporada, e daí talvez seu esquecimento, anticomercial), Querido menino (um dos mais belos filmes já feitos sobre a relação entre um pai e um filho), A balada de Buster Scruggs (inusitado faroeste dividido em contos dos irmãos Coen), 22 de julho (melhor trabalho de Paul Greengrass, já lembrado pelo Oscar em Voo United 93 e Capitão Phillips), Hereditário (terror marcante de Ari Aster) e Vida selvagem (estreia na direção do ator Paul Dano). Estavam entre os cotados No coração das trevas (de Paul Schrader), Mais uma chance (de Tamara Jenkins) e Podres de ricos, mas não conseguiram chegar aos finalistas. E, se fosse lembrar de blockbusters, daria mais destaque a Jogador Nº 1 e Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald, menosprezados mesmo nas categorias técnicas (Animais fantásticos não ser indicado a efeitos visuais, design de produção e figurino faz lembrar o esquecimento recorrente da série Harry Potter na premiação). A Academia só nomeia os melhores filmes quando eles atingem, junto aos votantes, uma determinada média, porém é estranho peças como O primeiro homem,  A balada de Buster ScruggsSe a Rua Beale falasse, por exemplo, com indicações importantes, não chegarem a essa média. Nisso, anos que alternam entre 8, 9 ou 10 candidatos (este número apenas nos dois primeiros anos em que a regra passou a valer, em 2009 e 2010) parecem indicar uma inconstância que não está de acordo com o que acontece, pois claramente há no mínimo de 15 a 20 obras marcantes por ano.
Dos indicados, a disputa vai ficar, ao que tudo indica, entre Roma, Green Book – O guia e Nasce uma estrela. Correndo por fora paradoxalmente A favorita.

Melhor diretor

Alfonso Cuarón, por Roma
Adam McKay, por Vice
Yorgos Lanthimos, por A favorita 
Spike Lee, por Infiltrado na Klan 
Pawel Pawlikowski, por Guerra fria

O grande favorito é Alfonso Cuarón, por Roma. Apesar de ter sido premiado já com Gravidade, as premiações parecem apontá-lo como o principal nome. O grego Lanthimos já havia sido indicado pelo roteiro de O lagosta e por filme estrangeiro em Dente canino. Sua indicação é bastante merecida por A favorita. Uma surpresa a indicação de Pawel Pawlikowski por Guerra fria, contrapondo-se a Cuarón e Roma, entretanto bem-vinda: é um dos melhores cineastas surgidos na Europa nos últimos 20 anos.  E Spike Lee, normalmente negligenciado, volta a estar presente entre os indicados por Infiltrado na Klan. Talvez o mais deslocado aqui seja McKay, por um trabalho de direção até dinâmico, no entanto superficial, em Vice. Bradley Cooper, diretor exitoso em sua estreia em Nasce uma estrela, foi ignorado, o que mostra como a corrida do Oscar mudou na reta final, já que era um dos possíveis favoritos. Poderiam facilmente ter indicado Luca Guadagnino (Suspiria), Lynne Ramsay (Você nunca esteve realmente aqui), Paul Dano (Vida selvagem), Damien Chazelle (O primeiro homem), Felix Van Groeningen (Querido menino), Paul Greengrass (22 de julho) e Joel e Ethan Coen (A balada de Buster Scruggs).

Melhor ator

Rami Malek, por Bohemian Rhapsody
Christian Bale, por Vice 
Viggo Mortensen, por Green Book – O guia 
Bradley Cooper, por Nasce uma estrela 
Willem Dafoe, por No portal da eternidade

Bradley Cooper está fora de série em Nasce uma estrela. Gosto muito também da atuação de Rami Malek, e foi ele quem fez Bohemian Rhapsody chegar à temporada de premiações com tantas chances. O ator Willem Dafoe está sendo muito elogiado por sua atuação como Van Gogh em No portal da eternidade. Mais uma vez lembrado, depois de Capitão Fantástico, no ano passado, Viggo Mortensen tem boa presença em Green Book – O guia, numa apreciável parceria. O favorito parece ser, de qualquer modo, Christian Bale, que em Vice interpreta Dick Cheney com a voz sussurrada que empregou em Batman debaixo de muita maquiagem. É uma atuação correta, mas não à altura de sua trajetória, embora o roteiro não o ajude. Entre os esquecidos, aprecio em especial as performances de Steve Carell em Querido menino; John David Washington em Infiltrado na Klan; Ethan Hawke em No coração das trevas; Ryan Gosling em O primeiro homem; Joaquin Phoenix em Você nunca esteve realmente aqui e A pé ele não vai longe; e Jay Duplass em Outside in.  

Melhor atriz

Glenn Close, por A esposa 
Lady Gaga, por Nasce uma estrela 
Olivia Colman, por A favorita
Melissa McCarthy, por Poderia me perdoar
Yalitza Aparicio, por Roma

Olive Colman, das indicadas, aparecia há pouco tempo como literalmente a favorita, embora estejam a seu lado Lady Gaga e Glenn Close. Colman tem uma boa atuação, porém não saberia dizer se comporta um prêmio. Gaga é surpreendente em Nasce uma estrela e Close está muito bem em A esposa, por outro lado o filme é ligeiramente superficial. Depois de uma indicação como coadjuvante em Missão madrinha de casamento, Melissa McCarthy regressa à categoria de atriz principal por Poderia me perdoar? Yalitza Aparicio é, apesar de não ser atriz profissional, a grande figura de Roma: sua indicação é um reconhecimento. Acrescento entre as atrizes que poderiam ter sido lembradas: Rosamund Pike (A private war), Elsie Fisher (Eighth grade), Toni Collette (Hereditário), Viola Davis (As viúvas), Juliette Binoche (Deixe a luz do sol entrar), Regina Hall (Support the girls), Carey Mulligan (Vida selvagem) e Charlize Theron (Tully). Apesar de elogiada, não acredito que Emily Blunt merecesse ser indicada por O retorno de Mary Poppins ou Um lugar silencioso.

Melhor ator coadjuvante

Mahershala Ali, por Green Book – O guia 
Richard E Grant, por Poderia me perdoar?
Sam Elliott, por Nasce uma estrela 
Adam Driver, por Infiltrado na Klan
Sam Rockwell, por Vice

Indicado no ano passado por Me chame pelo seu nome na categoria de melhor ator, Timothée Chalamet poderia ter regressado nessa categoria com uma performance realmente extraordinária, em Querido menino; acabou sendo preterido. Vencedor do Oscar por Três anúncios para um crime, Sam Rockwell é lembrado por sua atuação como George W. Bush em Vice, no qual não chega a se destacar. Muito bem em Green Book, Mahershala Ali já ganhou o prêmio por Moonlight. Talvez seja sua segunda premiação. Sam Elliott, apesar de aparecer pouco, deixa sua marca na narrativa de Nasce uma estrela, e Adam Driver mostra uma boa atuação em Infiltrado na Klan (já havia sido esquecido há alguns anos por Silêncio, de Scorsese). Esquecidos: Steve Carell (Vice), Nicholas Hoult (A favorita), Daniel Kaluuya (As viúvas), Jesse Plemmons (A noite do jogo), Robert Pattinson (Damsel), Jeff Bridges (Maus momentos no Hotel Royale), Ed Oxenbould (Vida selvagem), Russell Crowe (Boy erased) e Jonas Strand Gravli (22 de julho).

Melhor atriz coadjuvante

Emma Stone, por A favorita
Rachel Weisz, por A favorita
Amy Adams, por Vice
Regina King, por Se a Rua Beale falasse
Marina De Tavira, por Roma

Emma Stone e Rachel Weisz fazem uma boa parceria em A favorita, tornando a presença de suas personagens no melhor embate da temporada. Mais uma vez, Amy Adams recebe uma indicação por Vice, novamente sem o hype de ganhar. Regina King é uma das favoritas, por Se a Rua Beale falasse. Uma surpresa a indicação de Marina de Tavira por Roma, substituindo Claire Foy, que aparece bem em O primeiro homem, embora não com a mesma contundência de suas atuações na TV, em The crown. Esquecidas: Olivia Cooke (Puro-sangue), Zoe Kazan (A balada de Buster Scruggs), Rachel McAdams (Desobediência), Tilda Swinton (Suspiria), Elizabeth Debicki (As viúvas) e Nicole Kidman (Boy erased).

Vidro (2019)

Por André Dick

O universo do cineasta M. Night Shyamalan sempre teve como base uma mistura entre realidade e fábula. Isso fica claro não apenas em A dama na água e O último mestre do ar, mas, principalmente, A vila, filme campestre de suspense e terror, com grande elenco. Trata-se de uma vila, da qual as pessoas que nela moram não podem sair, cercada por grandes cercas e sempre com um vigia à noite, pois monstros podem atacar. Já é possível ver que a história  lida com o imprevisível, mas William Hurt e Sigourney Weaver, como os mandantes desta vila, concedem credibilidade aos diálogos. Um dos jovens (Joaquin Phoenix) acaba ferido por um rapaz excepcional (Adrian Brody), que está apaixonado por uma jovem cega (Bryce Dallas Howard). Ela se disponibiliza a sair da vila para buscar remédios, embrenhando-se na floresta assustadora. O figurino é adequado para isso (todo amarelo) e é interessante imaginar que estejamos em algum século passado para vermos o modo como essas pessoas agiam.

De certo modo, essa captura de uma realidade sob a camada fantasiosa já se encontrava em Corpo fechado, no qual Bruce Willis agia como um homem com um poder: ao tocar nas pessoas, consegue ver imagens capazes de identificar se são boas ou más. Em Fragmentado (a partir daqui, spoilers ligando os filmes), uma inesperada sequência de Corpo fechado, o personagem feito por James McAvoy, Kevin Wendell Crumb, se dividia em múltiplas personalidades, principalmente “a besta”. O foco era no sequestro que ele fazia de três jovens, Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy). Crumb está de volta em Vidro, assim como o personagem David Dunn (Bruce Willis) e seu rival Elijah Price, o Sr. Glass (Samuel L. Jackson), rivais em Corpo fechado, uma espécie de estudo cinematográfico sobre as HQs antes de elas virem ajudar a coordenar a forma como se organiza a indústria contemporânea.
Inicialmente, Shyamalan mostra Dunn procurando Crumb depois que este escapou do zoológico, sob vigia do filho, Joseph (Spencer Trate Clark). Antes guarda na Filadélfia, agora ele é dono de uma loja de equipamentos de segurança e vai encontrar novas vítimas da “besta” quando o carrega preso. No entanto, acabam parando no Hospital Psiquiátrico Ravenhill, sob investigação de Ellie Stapple (Sarah Paulson), onde se encontra internado Glass. De maneira inesperada, Shyamalan estabelece contatos entre personagens de filmes diferentes, construindo uma trilogia jamais esperada, considerando-se que Stapple dialoga com a psiquiatra Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), do filme anterior.

Do mesmo modo, quando coloca Casey (novamente Taylor-Joy) querendo ajudar Crumb, mostra uma interessante aproximação da mulher do universo dos quadrinhos enfocado principalmente em Corpo fechado e expandido aqui de modo ágil, também por meio da mãe de Price (Charlayne Woodard). Vidro consegue ser o estudo sobre três personagens, ligados por imagens de infância definidoras para seu comportamento, mesclando suspense e elementos de terror, sem nunca parecer uma obra derivada – mesmo que a visão de infância de Glass remeta ao parque de diversões de A fúria, de De Palma, uma clara influência aqui, e aos flashbacks de Casey em Fragmentado, quando os animais a serem abatidos numa caçada não eram tão ameaçadores quanto um determinado familiar. E que a infância é o mote de boa parte da filmografia de Shyamalan basta ver O sexto sentido e A visita.
Talvez seja surpreendente que Shyamalan consiga fazer, inclusive, o melhor episódio de sua trilogia, uma vez que os outros sofriam de quedas abruptas de ritmo, principalmente Fragmentado, e o primeiro possuía um final em aberto nunca satisfatório. Shyamalan adota uma variação de cenários dentro do Hospital Psiquiátrico, que acabam dialogando com os impulsos da narrativa: veja-se por exemplo a grande sala com pintura rosa, quase onírica, semi-iluminada, em que os personagens recebem perguntas da Dra. Stapple. Do mesmo modo, cada personagem adota uma cor: Glass, a roxa; Dunn, o branco; e Crumb, o amarelo, servindo como figurinos de heróis ou vilões de quadrinhos.

Shyamalan também tenta visualizar Casey como aquela que compreende a “besta” quase como Clarice na continuação de O silêncio dos inocentes em relação a Hannibal Lecter. O lugar onde Crumb prendia as jovens em Fragmentado não deixava de lembrar não apenas um labirinto humano, como também a falta de passagens para um lado equilibrado. Aqui os corredores do hospital e os quartos contrastam: os primeiros são escuros, nebulosos, e os segundos, iluminados. Nesse sentido, o trabalho de fotografia de Mike Gioulakis, o mesmo do anterior, é superior e com mais sutilezas.
Do mesmo modo, as luzes que disparam no rosto de Crumb criam uma sensação de claustrofobia e McAvoy é realmente bom aqui, sem precisar concentrar sua atuação como um destaque e sim como complemento aos demais personagens. Alternando uma estranha humanidade com uma violência de serial killer, Crumb tem um significado mais trabalhado do que no anterior e faz com que o terceiro ato se desenhe como uma espécie de mescla entre fantasia e ecos do 11 de setembro, que ocorreu um ano após o lançamento de Corpo fechado e que já se expressava na obra de Shyamalan em obras como Sinais e Fim dos tempos. A sequência em que Crumb corre como um animal contra policiais tendo ao fundo edifícios que remetem ao World Trade Center (representando, ao mesmo tempo, um ataque bestial de humanos contra humanos), é uma das melhores da trajetória o diretor. Os demais do elenco, principalmente Paulson, Willis, Taylor-Joy e Jackson, são muito competentes e ligados a um desespero humano por saber onde estamos. Eis que, para o diretor de origem indiana, os verdadeiros heróis estão concentrados todos os dias em enfrentar seus problemas de rotina. Num movimento incomum em seus filmes, Shyamalan se permite mesmo a se emocionar.

Glass, EUA, 2019 Diretor: M. Night Shyamalan Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Samuel L. Jackson, Charlayne Woodard, Spencer Trate Clark Roteiro: M. Night Shyamalan Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: West Dylan Thordson Produção: M. Night Shyamalan, Jason Blum, Marc Bienstock, Ashwin Rajan Duração: 129 min. Estúdio: Blinding Edge Pictures, Blumhouse Productions Distribuidora: Universal Pictures (Estados Unidos) e Buena Vista International (Internacional)