Mowgli – Entre dois mundos (2018)

Por André Dick

Em 2016, a Walt Disney lançou o live-action de Mogli – O menino lobo, cuja adaptação para o cinema mais conhecida era a animação de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman. que transformou a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal. Foi a caixa mágica que se esperava: depois de se aproximar do 1 bilhão nas bilheterias, o estúdio planejou inúmeros live-actions para os próximos anos.
Ao contrário do filme de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de que estávamos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim e Avatar. Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta, tendo merecido o Oscar de efeitos visuais.

Era muito cedo para uma novo olhar sobre a história, mas aqui está ela: Mowgli – Entre dois mundos foi produzido pela Warner Bros. Diante da versão da Disney e o risco de não conseguir uma boa bilheteria, quem o lança diretamente em streaming é a Netflix. O curioso é que ele foi rodado em 2015 e seu primeiro lançamento se daria exatamente no ano em que foi liberado o filme de Favreau, sendo adiado por motivos óbvios. Enquanto a obra da Warner começou a ser discutida em 2012 (tendo como possível diretor, entre outros, Iñárritu), o anúncio de que a Disney faria uma nova adaptação foi oficializado em 2013, então não se sabe o que, nos bastidores, uma influenciou a outra. Estamos diante, aqui, ao que parece, de um estúdio ter trabalhado mais rapidamente do que o outro para lançar antes.
A história mostra Mowgli (Rohan Chand) sendo inicialmente salvo por Bagheera (Christian Bale) – uma pantera –, enquanto seus pais são mortos por uma fera, quando é levado a uma matilha de lobos, na qual é adotado por Nisha (Naomie Harris), Vihaan (Eddie Marsan) e o chefe Akela (Peter Mullan). Ele vive ao lado de seus irmãos lobos e do amigo Bhoot (Louis Ashbourne Serkis) quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Benedict Cumberbatch), auxiliado pela hiena Tabaqui (Tom Hollander). Já o urso Baloo (com voz do próprio Serkis) tem um papel diferente nesta versão: ele ensina a matilha em técnicas de caça e corrida pela floresta. Serkis, ao contrário de Favreau e Reitherman, não lida tanto com o humor.

Esta visão de Andy Serkis, conhecido principalmente pela desenvoltura como ator na captura de imagens de personagens como Gollum (O senhor dos anéis e O hobbit) e César (na recente trilogia do Planeta dos macacos), trabalha mais num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, como a cobra Kaa (Cate Blanchett). A adaptação de Serkis também remete a algumas passagens do Apocalypto, de Mel Gibson. A violência é acentuada: animais são devorados e os machucados do pequeno herói se mostram presentes durante toda a metragem.
A sequência em que o menino precisava escapar de um determinado confronto e se via no meio de um estouro de búfalos da obra de Favreau lembrava um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005), e Serkis, que trabalhou na versão de Peter Jackson dando movimentos ao gorila gigante, repete algumas linhas do cineasta que praticamente o consagrou, com o Gollum, também colocando o personagem perto de desfiladeiros. A hiena lembra exatamente o Gollum de O senhor dos anéis, enquanto a cena com os macacos (engraçados nas versões anteriores) evocam os Orcs, assim como os melhores momentos da versão de Serkis incluem os elefantes – e se destaca mais a violência contra esse animal, quando Mowgli entra em contato com os humanos, principalmente John Lockwood (Matthew Rhys), ecoando Nas montanhas dos gorilas, dos anos 80. Por sua vez, Messua (Freida Pinto) representa a maternidade que Mowgli não teve e os cantos dos indianos, assim como certo design de produção, remetem a Indiana Jones e o templo da perdição e a As aventuras de Pi.

Não se sabe se por causa da adaptação de Favreau Serkis divide a sua obra em dois atos: a primeira passada numa selva tão imaginária e espetacular quanto a da versão de 2016 e a outra passada numa tribo de indianos. E, nisso, é lamentável que o filme de Serkis, com efeitos visuais realmente excelentes e uma bela fotografia de Michael Seresin (da série Planeta dos macacos), acabe sendo tomado em pontos comparativos tão determinados com o de Favreau, mas a questão é que a Warner parece ter lamentavelmente se atrasado na confecção de sua ideia – e seria este o filme que se destacaria – e, mesmo talvez ela sendo original, aparenta ser uma cópia principalmente no plano visual, com exceção de certa temática sobre a identidade do personagem central mais adulta e cenas mais violentas. Isso a prejudica em parte, no entanto se o espectador der uma oportunidade para uma atuação muito boa de Rohan Chand, no papel central (melhor do que Neel Sethi, da obra da Disney) e para o trabalho de vozes acertado de todo o elenco, além da homenagem ao universo de Kipling, terá uma boa experiência.

Mowgli – Legend of the jungle, EUA/ING, 2018 Diretor: Andy Serkis Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Naomie Harris, Andy Serkis, Matthew Rhys, Freida Pinto, Rohan Chand Roteiro: Callie Kloves Fotografia: Michael Seresin Trilha Sonora: Nitin Sawhney Produção: Steve Kloves, Jonathan Cavendish, David Barron Duração: 104 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, The Imaginarium Distribuidora: Netflix

Anúncios

Infiltrado na Klan (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes de 2018, onde recebeu o Grande Prêmio do Júri, Infiltrado na Klan talvez seja a oportunidade de Spike Lee ficar mais próximo de um Oscar depois de concorrer pelo roteiro original de Faça a coisa certa. Depois de uma década de 1990 muito profícua, com exemplares como Mais e melhores blues, Malcolm X e Febre da selva, Lee arrefeceu um pouco neste século, dedicando-se a filmes menos ligados a seu estilo inicial, a exemplo de O plano perfeito e Oldboy (sua boa refilmagem pouco valorizada do original sul-coreano), embora pareça ter novamente investido nos seus temas prediletos em Verão em Red Hook e Chi-Raq.
Infiltrado na Klan mostra Ron Stallworth (John David Washington), contratado como o primeiro detetive negro no departamento de polícia de Colorado Springs. Junto com Flip Zimmerman (Adam Driver), de origem judaica, ele pretende desbaratar um grupo da Ku Klux Klan, mesmo sendo colocado num trabalho burocrático pelo chefe Bridges (Robert John Burke). Numa passagem pelo Black Student Union em que está presente o ex-líder dos Panteras Negras, Stokely Carmichael (Corey Hawkins), ele se interessa por Patrice Dumas (Laura Harrier). A história se passa em 1979, mas, ao longo de toda a narrativa, Spike Lee quer remeter a um diálogo com o seu país, os Estados Unidos, atual. Isso leva os personagens ligados à Ku Klux Klan, sobretudo, a adotarem algumas frases determinadas (e não cabem aqui spoilers).

Lee sempre foi muito provocativo, inclusive nos seus embates com cineastas como Quentin Tarantino. Depois de Django livre, ele se irritou com o fato de o cineasta de Pulp Fiction fazer seus personagens repetirem a palavra “nigger” centenas de vezes durante a metragem, o que lhe rendeu um bom espaço de debate em 2012. O curioso é que Infiltrado na Klan tem uma boa dose de memória desse projeto de Tarantino, não apenas na referência a Alexandre Dumas (lembrado também por Tarantino naquele filme, escritor de origem negra) no sobrenome da personagem Patrice, mas quando ele mostrava uma reunião de integrantes desse grupo racista incrustado na história norte-americana. E é o que seu filme tem de melhor: um humor que destrói, por si só, um discurso de preconceito, por meio da figura de David Duke (Topher Grace), que recebe telefonemas de Ron se passando por um propagador de ódio contra a comunidade negra e indiretamente tirando sarro de seu comportamento. Há, nisso, uma reunião memorável em que os integrantes da KKK são servidos por afro-americanos, e a fala de um desses é antológica, revelando o humor de Lee diante do absurdo da situação.

Com uma história assinada por Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel e Kevin Willmott, baseada em livro de Stallworth, Infiltrado na Klan tem como seu destaque, na parte técnica, o diretor de fotografia Chayse Irvin, que extrai da atmosfera e das cores do figurino (principalmente casacos de cor marrom ou figurinos vermelhos) um retrato da década de 70 poucas vezes gravado no cinema. Como já referido, Lee não costuma ter grandes chances ao Oscar grande parte das vezes, porém esta produção vem agradando em geral, o que lhe oferece mais chances.
Cabe lembrar que Faça a coisa certa já tinha uma boa dose de polêmica nos anos 80. O mais marcante nele era o roteiro, determinando uma interpretação fora do série do elenco de negros e de Danny Aiello e a trilha assinada pelo pai de Spike, Bill Lee. O diretor mostra uma história passada no Brooklyn, em seu dia mais quente do ano, onde há uma pizzaria italiana coordenada por Sal (Danny Aiello), menosprezada pelos negros, onde trabalha o entregador Mookie (o próprio diretor). Como a temperatura está elevada, aumenta, também, o clima entre as pessoas, o que resulta num conflito entre os brancos italianos da pizzaria e os clientes de origem afro-americana. Neste filme, já havia todos os temas que podem ser retomados em Infiltrado na Klan, talvez mais associados à política. Já havia, inclusive, como pano de fundo as ideias de Malcolm X, sobre o qual Lee faria uma cinebiografia poucos anos depois, com Denzel Washington recebendo uma indicação ao Oscar e que também trazia, em determinado momento, a presença da KKK. Do mesmo modo, o delicado romance entre Ron e Patrice remete a Febre da selva.

Infiltrado na Klan é o projeto mais interessante de Spike Lee nos últimos anos em razão da sua tentativa de contextualizar os anos 70 de maneira fiel, inclusive no uso da trilha sonora de Terence Blanchard e nos cenários de subúrbios que parecem afastados da realidade e guardam uma ameaça corrente, ao mesmo tempo que faz referências a …E o vento levouO nascimento de uma nação, de D.W. Griffith, que tentava justificar esse movimento supremacista branco em 1915. Além disso, seu elenco é notavelmente talentoso: não apenas Driver, com sua discrição comprometida, mas também Harrier e John David Washington, filho de Denzel, numa atuação eficaz e, ao mesmo tempo, empática, fazendo uma boa ligação com todos. Apenas se lamenta que o roteiro bastante original tenha um terceiro ato, apesar de estabelecer os movimentos adequados, muito rápido em relação aos demais, conduzindo a um desfecho que não soa tão interessante quanto a sátira mordaz empregada por Lee a maior parte do tempo.

BlacKKKlansman, EUA, 2018 Diretor: Spike Lee Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Alec Baldwin, Corey Hawkins, Robert John Burke Roteiro: Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Spike Lee Fotografia: Chayse Irvin Trilha Sonora: Terence Blanchard Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick Duração: 135 min. Estúdio: Blumhouse Productions, Monkeypaw Productions, QC Entertainment, 40 Acres and a Mule Filmworks, Legendary Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Focus Features

 

A balada de Buster Scruggs (2018)

Por André Dick

Depois de realizarem Gosto de sangue e antes de revitalizarem o cinema de gângsteres com Ajuste final, os irmãos Coen realizaram Arizona nunca mais, que mostra a história de um ladrão arrependido (Nicolas Cage), que pede em casamento uma policial (Holly Hunter) – uma espécie de versão mais engraçada de Fargo.
Quando os dois decidem ter filhos, descobre-se que ela é estéril. Para buscar a felicidade, os dois resolvem roubar um dos cinco bebês de um casal cujo sobrenome é Arizona. Tudo ocorre bem no começo, mas surgem dois fugitivos da cadeia, amigos do personagem, e um motoqueiro selvagem, na linha de Mad Max, que pretende recuperar o bebê. Os irmãos Coen acertam no clima da história, nas gags visuais e entregam aqui um de seus melhores filmes, ainda o mais despretensioso deles.

Fazem mais: realizam uma espécie de faroeste moderno e cômico, no qual o homem interiorano precisa fugir das balas de um vendedor por ter roubado um saco de fraldas, antecipando, mais do que Onde os fracos não têm vez, cuja história transporta para os dias atuais o clima de faroeste, na guerra entre psicopatas atrás de maletas de dinheiro e o tráfico de drogas, o desejo de homenagear o clássico de John Wayne em Bravura indômita por meio de uma nova adaptação do romance de Charles Portis – à época do lançamento, os Coen, inclusive, negaram que sua versão seria um remake, e sim uma nova adaptação do mesmo livro que havia inspirado o filme de Henry Hathaway.
Com um gosto tão grande pelo gênero que marcou a história do cinema norte-americano e ainda continua produzindo peças interessantes (só neste ano tivemos também o ótimo Damsel, com Robert Pattinson e Mia Wasikowska), a dupla de irmãos regressa com A balada de Buster Scruggs (ou The ballad of Buster Scruggs), lançado no Festival de Veneza, no qual recebeu o prêmio de melhor roteiro, com o selo da Netflix. Colecionando seis histórias apresentadas diretamente das páginas de um livro antigo, que poderiam situar o filme como uma espécie de No limite da realidade do faroeste, A balada é uma síntese da trajetória dos irmãos, com um talento incomum para o humor corrosivo. Já inicia mostrando a história de Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), um cowboy que vive entrando em duelos a cada cidadezinha ou bar perdido em meio às pradarias, esperando também ser reconhecido como cantor.

Na segunda história, um pistoleiro (James Franco) tenta assaltar um banco perdido em meio à poeira do Velho Oeste, quando se depara com um atendente muito bem preparado, Teller (Stephen Root). Na terceira, um homem (Liam Neeson) viaja com um jovem (Harry Melling) numa carruagem, que se converte em palco de teatro. O rapaz não tem braços nem pernas e faz longos discursos, que mesclam poesia e política. No quarto episódio, temos um prospector (Tom Waits) em busca de ouro numa paisagem intocada. Quando ele chega, a coruja que fica numa das árvores muda de lugar, os cervos e os peixes de um riacho se afastam: tudo simboliza a chegada ameaçadora da civilização. Uma jovem, Alice Longabaugh (Zoe Kazan), em busca de um marido é o mote do quinto episódio. Numa caravana para um lugar determinado (que lembra O atalho, também com Zoe, e Um sonho distante), ao lado de seu irmão Gilbert (Jefferson Mays), ela se ressente de perder o cão que atrapalha a todos latindo e faz amizade com Billy Knapp (Bill Heck), que trabalha ao lado de Arthur (Grainger Hines). E finalmente no sexto episódio temos uma espécie de diálogo com o ato inicial de Os oito odiados, quando uma mulher, Sra. Betjeman (Tyne Daly), e quatro homens, o irlandês Clarence (Brendan Gleeson), o inglês Thigpen (Jonjo O’Neill), o francês René (Saul Rubinek) e Trapper (Chelcie Ross), viajam numa carruagem por uma pradaria que lembra a de um filme de terror.

Os Coen abrem o filme com uma história curta e ágil, uma espécie de curta-metragem que talvez seja o que melhor corresponda à sua filmografia. Scruggs tem um físico franzino, mas enfrenta pistoleiros que tentam encontrá-lo e ainda com uma agilidade impecável para se sair bem num bar sem armamento. Neste episódio, já se deixa claro que a temática principal, que liga todas as histórias, é a morte. Esse registro não passa batido, contudo faz expandir a visão que os Coen lançam sobre o homem: por um lado, cômica, por outro negativa e mesmo pessimista. Eles conseguem sintetizar traços humanos por meio de pequenas fagulhas narrativas, a exemplo da terceira – e mais amarga – história, quando a barbárie humana ultrapassa qualquer discurso retórico. Em certos momentos, a fotografia primorosa de Bruno Delbonnel, habitual colaborador dos mais recentes filmes de Tim Burton, e o desenho de produção de Jess Gonchor (de Bravura indômita) fazem o Velho Oeste se sentir vivo como em A conquista do Oeste, épico dos anos 60, para ser exibido em Cinerama. Delbonnel é o diretor de fotografia que se tornou conhecido por seu trabalho irretocável em O fabuloso destino de Amélie Poulain, que leva as pradarias e as florestas a terem uma grande atmosfera. Isso não atenua numa tela menor.

Em certos momentos, pela influência de Dead man, seu trabalho dialoga com o de Oeste sem lei, com Michael Fassbender, filmado na Nova Zelândia e excêntrico por causa disso, na composição de cores, fazendo o episódio derradeiro lembrar exatamente uma fantasia no Velho Oeste. De qualquer maneira, a beleza das imagens parece esconder a imagem que os criadores de Fargo projetam: o de uma civilização que se antecipava a índios e violência em meio a lugares a se perder de vista. Todos os personagens de A balada guardam em comum a solidão, a falta de uma família estabelecida, e a carruagem representa essa transitoriedade. É um mundo em composição e, ao mesmo tempo, em decomposição, levando o espectador de volta a uma época em que a humanidade era colocada em xeque a cada vilarejo. As atuações do elenco nesse sentido (principalmente as de Blake Nelson, Waits e Kazan) colaboram de forma fundamental para o êxito. Os Coen não chegam a almejar uma pretensa filosofia por meio de seus contos, no entanto ela pode ser vista a cada passo dos personagens. Sob um verniz de despretensão, de contar histórias de um livro (que o filme usa como recurso), eles mostram mais uma vez sua interessante visão sobre a constituição dos Estados Unidos. Melhor: após o marcante Ave, César!, sobre a Hollywood dos anos 50, parecem voltar à melhor forma, aquela dos anos 90, quando encadearam várias obras excelentes e se mostraram autores de cinema fundamentais.

The ballad of Buster Scruggs, EUA, 2018 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Elenco: James Franco, Brendan Gleeson, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tim Blake Nelson, Tom Waits, Stephen Root, Harry Melling, Jefferson Mays, Bill Heck, Grainger Hines, Tyne Daly, Jonjo O’Neill, Saul Rubinek, Chelcie Ross Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Joel Coen, Ethan Coen, Megan Ellison, Sue Naegle, Robert Graf Duração: 133 min. Estúdio: Annapurna Pictures Distribuidora: Netflix

Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (2018)

Por André Dick

Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J. K. Rowling. Em 2016, ambos se reuniram novamente em Animais fantásticos e onde habitam, baseado num roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário. Nele, tínhamos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam era o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras, que encontra sua segunda parte em Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald.
O sequência se passa em 1927 e inicia mostrando o bruxo Gellert Grindelwald (Johnny Depp) sendo levado de Nova York para França, prisioneiro da MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), a fim de ser julgado, porém no caminho é libertado por um de seus seguidores. Na Inglaterra, o magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) solicita ao Ministério Britânico da Magia o direito novamente de viajar, depois da confusão que ocasionou em sua visita a Nova York no primeiro filme. Nesse local, ele encontra o irmão Theseus (Callum Turner), que está noivo de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), uma antiga conhecida de Newt da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, fazendo de ambos os personagens acréscimos bem-vindos, restando saber se a referência à mitologia grega no nome do irmão de Newt ajudará a explicar suas motivações.

Há notícias vindas de Paris de que Credence Barebone (Ezra Miller) está vivo, e sua presença é desejada por Grindelwald, já que ele seria o único que pode enfrentar o Professor Albus Dumbledore (Jude Law) de Hogwarts, de quem Newt foi aluno e o qual reencontra em meio à névoa londrina. Quando Newt chega à sua casa, ele encontra o casal de amigos Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler), este sob feitiço da companheira, acentuando o humor já demonstrado na primeira parte. Ambos vieram à Europa junto com Tina (Katherine Waterston), irmã de Queenie, que está atrás de Credence em Paris, encontrando-o num show no Circus Arcanus, em que o jovem vilão é apaixonado por Nagini (Claudia Kim), uma mulher que se transforma numa cobra gigante. Tina se depara com Yusuf Kama (William Nadylam), interessado em buscar as origens do jovem. Em meio a tudo, Newt cuida dos animais fantásticos, embora sua maleta não revele, como no primeiro, tantas surpresas.

Do mesmo modo que em Animais fantásticos e onde habitam, o roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente ao apresentar os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz outra vez uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, expandindo ainda mais sua personalidade em sua amizade com Dumbledore. Trata-se de um personagem menos desenvolvido do que Harry Potter, porém interessante em seu comedimento e nas nuances (uma aproximação dele com Credence ao alimentar uma pequena ave é um acerto do roteiro).
Enquanto Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, é subaproveitada, Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens sempre atrativos, embora não presentes como deveriam, e Law se mostra surpreendentemente discreto. Ezra Miller não tem oportunidades como no primeiro de mostrar seu talento (o roteiro não colabora), contudo tem boa presença, sempre assustadora, de acordo com Credence. Com uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard, um figurino irretocável de Colleen Atwood (o primeiro venceu o Oscar da categoria) e fotografia novamente impecável de Phillipe Rousselot, além dos efeitos visuais de qualidade, o novo Animais fantásticos é tudo o que se esperava: um grande blockbuster. Há um uso extremamente competente de cenários londrinos e parisienses, mesmo em estúdio, captando uma atmosfera de época com rara perspicácia.

A continuidade como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – o flashback de Newt e Leta em Hogwarts que remete imediatamente à série Harry Potter – e de uma fábula com fundo histórico – quando se evoca o futuro da humanidade num determinado momento-chave. Como no original, não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à invasão alemã em Paris durante a Segunda Guerra, deslizando entre a Torre Eiffel e o submundo da magia, quando no primeiro havia referências ao 11 de setembro, representadas antes de tudo por uma águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana, e aqui reaparece em forma de estátua numa das sequências derradeiras. Da Paris à Áustria, Grindelwald é um Adolf Hitler no meio dos bruxos. Yates desenha uma batalha fantástica no Cemitério Pere Lachaise, de Paris, em que as cruzes se manifestam contra a maldade. Visto como um vilão fora das telas, Depp domina o personagem de maneira inquestionável, substituindo Colin Farrell à altura.

Não há muita emoção no reencontro entre Newt e Tina, principalmente quando adentram o Ministério da Magia, sendo descobertos por Leta e Theseus, tendo de se esconder num maquinário gigante, mas Yates tem uma noção equilibrada de filme que precisa se situar entre a ação, o humor e a fantasia – e o faz em doses animadoras na maior parte do tempo. Impressiona seu ritmo de composição de cada ambiente, fazendo com que os personagens pareçam imersos num universo verdadeiramente à parte. Desde o início, quando há a libertação de Grindelwald nos céus soturnos e chuvosos de Nova York, em meio a uma sequência de relâmpagos, remetendo à saga cibernética das Wachowski, e dragões desenhados em meio às gotas de chuva, passando por uma criatura marítima gigante, até o momento em que, nas ruas de Paris, Newt parece domar uma criatura que parece saída de As sete faces do Dr. Lao, dos anos 60 (assim como quando surge o Circus Arcanus), Animais fantásticos possui uma vibração fantástica, capaz de dialogar com o primeiro e anuncia o que virá. Mesmo quando os diálogos não fluem do melhor modo, é mais uma conquista de Yates e Rowling, uma fantasia capaz de aliar nostalgia e expectativa por novas aventuras desses personagens.

Fantastic beasts – The crimes of Grindelwald, EUA/ING, 2018 Diretor: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Zoë Kravitz, Callum Turner, Carmen Ejogo, Claudia Kim, William Nadylam, Kevin Guthrie, Jude Law, Johnny Depp Roteiro: J. K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J. K. Rowling, Steve Kloves, Lionel Wigram Duração: 134 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Heyday Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Millennium – A garota na teia de aranha (2018)

Por André Dick

O diretor uruguaio Fede Alvarez chegou a Hollywood com a exitosa refilmagem de Evil Dead, um filme mais assustador do que o original dos anos 80, de Sam Raimi, e em seguida fez o sucesso de bilheteria O homem nas trevas. Estranhamente, este segundo, mesmo com suas limitações narrativas, teve uma extraordinária recepção crítica. Imagine-se o que pensa agora Alvarez com a recepção dada à sequência de Millennium – Os homens que não amavam as mulheres, de David Fincher, intitulado A garota na teia de aranha. A sua estreia se deu no Festival de Veneza e desde então tem enfrentado comentários pouco elogiosos no que se refere a seu desenvolvimento.
Pode-se dizer que, por anos, se achou estranho que Daniel Craig e Rooney Mara, os astros do original de 2011, e David Fincher nunca se interessaram pela continuação da história escrita por David Lagercrant, com base em personagens criados por Stieg Larsson. No entanto, busca-se, neste novo filme, dar continuidade à trajetória de Lisbeth Salander, com Claire Foy (The crown e mais recentemente em O primeiro homem) no papel que era de Mara, a hacker de computador que se mostra mais uma vez como justiceira contra homens que agridem mulheres.

Depois de um início forte, em que ela enfrenta um homem que bate em prostitutas – o que dialoga com o episódio anterior –, Salander é procurada por Frans Balder (Stephen Merchant), funcionário da NSA e criador do Firefall, um programa que fornece acesso a códigos nucleares espalhados pela Terra. Ele quer destruir o programa, mas sua preocupação central é com a segurança do filho August (Christopher Convery). Em meio a tudo, ela pede ajuda novamente ao jornalista do Millennium, Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason), que tem um relacionamento com sua editora, Erika Berger (Vicky Krieps, de Trama fantasma), enquanto Edwin Needham (Lakeith Stanfield) também está no alcanço de Salander, sendo especialista de segurança da NSA.
Lvarez, de forma apropriada, no entanto, coloca como principal flashback da vida de Salander a menina Camila (Carlotta von Falkenhayn), sua irmã, abalada por problemas que moldariam a própria personalidade dela e que também dialogam com a obra de Fincher. Na verdade, A garota na teia de aranha é uma continuação que se autossustenta e, ao mesmo tempo, expande os temas do anterior de modo eficaz, apostando numa trilha sonora incisiva e uma fotografia extraordinária de Pedro Luque, que, apesar de lembrar aquela do Millennium de 2011, não chega a ser tão intimista.

No filme anterior Blomkvist forma parceria com Lisbeth, sob a tutela do Estado desde os 12 anos e que, sem nenhum tipo de estudo, conseguiu se tornar numa investigadora perita. O jornalista é chamado por um ricaço, Henrik Vanger (Christopher Plummer), de um clã que mora numa ilha, para, além de escrever uma biografia sobre ele, buscar a solução para o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet, desde 1966. Ele mora num vilarejo da Suécia, quase sem contato com os familiares. A recompensa seria dar ao jornalista algumas informações sobre Wennerstrom na justiça. Depois de se instalar numa pequena casa à beira de um lago, onde tem como companhia apenas um gato, Blomkvist inicia o processo de entrevistas com familiares, tentando descobrir sobretudo o que aconteceu com Harriet, num passo a passo lento e investigativo. Nada disso há nessa sequência de Alvarez, muito mais parecido com um thriller policial, em que Krieps em determinado momento evoca uma femme fatale e a vice-diretora do Serviço Secreto Sueco Gabriella Grane (Synnove Macody Lund) observa uma silhueta feminina num restaurante.

Como no primeiro,  o enfoque em Lisbeth é sempre misterioso. Com vários piercings e tatuagens (a garota com a tatuagem de dragão do título original), ela atua como um hacker, invadindo os computadores das pessoas que pretende investigar. É uma personagem situada entre a infância – na obra anterior, está sempre com algum lanche para crianças por perto – e o mundo conturbado em que se inseriu desde cedo. Em nenhum momento, no entanto, é uma figura completamente autônoma ou responsável por tudo o que faz e, quando age violentamente, no filme, é para se vingar do que cometem com ela.
Sua parceria com Blomkyvist não se dá com a mesma intensidade, e Sverrir Gudnason mal tem chance de aparecer, como em Borg vs McEnroe, no qual fazia um tenista com grande competência, também não possuindo o talento interpretativo de Craig. Talvez, no entanto, o que mais funcione seja uma dupla feminina: Gabriella Grane e uma personagem interpretada com raro talento por Sylvia Hoeks (tão bem quanto em Blade Runner 2049), que confere à obra de Alvarez uma perturbação existente no ato final do original de Fincher, mesclando traumas de infância e violência incontida. A mulher representa aqui justiça, perversão e traição, não necessariamente nessa ordem, e tudo produzido pela figura do homem, tal como na obra de Fincher. A personagem de Hoeks lembra, em determinado momento, pelo próprio figurino, uma espécie de Chapeuzinho Vermelho às avessas, representando o próprio lobo em meio a paisagens gélidas da Suécia, ecoando o subestimado Boneco de neve. Alvarez tinha tudo para sucumbir ao estilo de Fincher extremamente forte. Suas composições são belas, inserindo os personagens em quadros, sem jamais perder a essência deles. Por causa das escolhas narrativas e principalmente em razão de Claire Foy, A garota na teia de aranha é uma sequência muito interessante.

The girl in the spider’s web, CAN/ALE/SUE/EUA/ING, 2018 Diretor: Fede Alvarez Elenco: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield, Sylvia Hoeks, Stephen Merchant, Vicky Krieps, Synnove Macody Lund, Christopher Convery Roteiro: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight Fotografia: Pedro Luque Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Ole Søndberg, Søren Stærmose, Amy Pascal, Elizabeth Cantillon Duração: 115 min. Estúdio: Columbia Pictures, Metro-Goldwyn-Mayer, Regency Enterprises, Scott Rudin Productions, Yellow Bird, The Cantillon Company, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Legítimo rei (2018)

Por André Dick

Depois do sucesso crítico de A qualquer custo, indicado ao Oscar principal, o diretor escocês David Mackenzie volta à cena, desta vez com um filme histórico baseado na constituição de sua terra natal. É de se esperar uma obra que respeita os dados históricos, sem verter em demasiada liberdade, e é isso realmente o que acontece. Legítimo rei conta a trajetória de Robert the Bruce (Chris Pine), o homem que liderou os escoceses contra os ingleses na Primeira Guerra da Independência do seu país.
Se no início o seu pai entra em acordo com a Inglaterra por meio de um casamento arranjado de Robert com Elizabeth de Burgh (Florence Pugh), depois de tratativa com Edward I (Stephen Dillane), em frente ao castelo sitiado de Stirling, em 1304 d.C., logo Mackenzie mostra esse personagem em permanente rebelião contra o sistema.

Depois de dois anos, vendo o efeito da administração dos ingleses sobre o povo escocês, e após a morte de William Wallace (personagem representado por Mel Gibson em Coração valente), ele começa seu embate com John Comyn (Callan Mulvey) e se manifesta exatamente novamente aquele personagem que Pine interpretou em A qualquer custo: a família, aqui, precisa ser mantida e respeitada em nome de um ideal maior (nesse sentido, explica-se o título original, de um “rei fora da lei”). Este ideal pode colocar em perigo a sua filha e a própria esposa, mas confere a Bruce um papel histórico. A união a princípio desconfortável com Elizabeth logo é superada, e a mulher representa aqui um sentimento de desafio às leis e às regras, bem esclarecido pela atuação dedicada de Pugh, que no ano passado se revelou em Lady Macbeth. Ela oferece a Robert o sentimento de união familiar que parece lhe faltar com a ausência especialmente de um ente querido. Tanto é que uma das sequências mais impressionantes do filme mostra a preocupação de fuga da amada, em meio a labaredas de fogo. E os papéis de combate se estabelecem. Contra ele estão Edward, o Príncipe de Gales (Billy Howle), além de Aymer de Valence (Sam Spruell), e a seu lado lutam Angus Macdonald (Tony Curran) e James Douglas, numa atuação histriônica de Aaron Taylor-Johnson. Conhecido por ser um dos irmãos com superpoderes de Vingadores – A era de Ultron e por um papel excêntrico em Animais noturnos, Taylor-Johnson quase não possui diálogos, porém sua presença é destacada.

Antes que tudo se dirija à grandiosa Batalha de Loudon Hill, Mackenzie mostra Bruce como um homem errático, graças à boa atuação de Pine, mesmo que não lhe sejam dadas as devidas matizes e nuances psicológicas para que seja visto como alguém complexo. No entanto, Pine, por sua despretensão, alcança exatamente a configuração de um indivíduo falho e muitas vezes ingênuo diante dos percalços a serem superados. Seu estilo de atuação bastante conhecido desde que encarnou o capitão Kirk em Star Trek se baseia em poucos movimentos e tonalidades, entretanto se revela consistente na busca de diálogo com seus inimigos e na liderança de seu exército.
A direção, baseada num figurino e desenho de produção dedicados, deposita nas cenas de ação e batalhas seu maior atrativo, ao contrário, por exemplo, de uma linha mais poética medieval, a exemplo do que víamos no clássico Excalibur. É muito mais realista do que o Rei Arthur de Guy Ritchie, seguindo mais a linha de Cruzada, de Ridley Scott, com alguns toques da versão de Robin Hood desse diretor e do seu clássico Gladiador (na apresentação das figuras paternas), sem nunca deixar de apostar na sua linha de frente: roteiro e atuações calibradas. Além disso, a fotografia de Barry Ackroyd, habitual colaborador de Paul Greengrass e Kathryn Bigelow, insere o espectador no escopo da batalha, captando de maneira inegavelmente competente o desespero no rosto dos homens com a vida por um triz. Por vezes, Mackenzie renova a brutalidade da Idade Média com imagens de tirar o fôlego, compostas com certo enquadramento funcional e um jogo de luzes por vezes pictórico, aliado às cores de cada figurino belíssimo.

Lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Legítimo rei talvez seja a peça, até agora, mais ousada, em termos de produção, da Netflix. Resta saber se sua parte inicial, um pouco titubeante, numa apresentação apressada de determinados personagens e pouco desenvolvimento, se deve ao corte feito pelo diretor na metragem: foram dispensados 23 minutos de trama. Há, sem dúvida, cortes abruptos, passagens que não se esclarecem com a devida ênfase e pouca necessidade de levar os personagens a um termo em comum, parecendo mais dispersos. Se a sequência inicial sem cortes durante oito minutos pode lembrar um De Palma ou, mais recentemente, o estilo de Iñárritu, principalmente o de Birdman e O regresso, em seguida tudo, diante disso, parece, em termos técnicos, mais comportado. Mackenzie, de qualquer maneira, não desiste; sua narrativa segue num crescendo. E, nisso, o espectador não deve se enganar: mesmo que o desenvolvimento dos personagens não seja o forte de Legítimo rei, está aqui um filme com a intensidade de um épico tão em falta no cinema contemporâneo.

Outlaw king, EUA/ING, 2018 Diretor: David Mackenzie Elenco: Chris Pine, Aaron Taylor-Johnson, Florence Pugh, Billy Howle, Tony Curran, Callan Mulvey, Stephen Dillane Roteiro: David Mackenzie, Bathsheba Doran, James MacInnes, Mark Bomback, David Harrower Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Tony Doogan, Lucie Treacher Produção: David Mackenzie, Gillian Berrie, Richard Brown Steve Golin Duração: 121 min. Estúdio: Sigma Films, Anonymous Content Distribuidora: Netflix

Bohemian Rhapsody (2018)

Por André Dick

A cinebiografia é praticamente um gênero em voga no cinema desde o início da década de 90. Recentemente, tivemos O primeiro homem, sobre Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na lua, e a temporada de premiações costuma reservar uma porção desses exemplares. Por isso, Bohemian Rhapsody, que traz a vida de Freddie Mercury, nos bastidores e à frente da banda Queen, é mais uma obra desse gênero. Se o trailer parecia antecipar uma sucessão de momentos kitsch, pode-se identificar no filme uma tentativa de conciliar tudo com um retrato de época consistente.
Sua história inicia mostrando Farrokh Bulsara (Rami Malek), estudante da Indian-British Parsi e filho de pais imigrantes, Bomi (Ace Bhatti) e Jer (Meneka Das), que trabalha como carregador de bagagens no aeroporto de Heathrow. Indo a um show da banda Smile, ele se encontra com os integrantes Brian May (Gwilym Lee), guitarrista, e Roger Taylor (Ben Hardy), baterista, quando descobre que o vocalista Tim Staffell (Jack Roth) saiu dela. Juntos com o baixista John Deacon (Joseph Mazzello), eles formam a banda Queen, apresentando-se em vários lugares da Inglaterra e tentando gravar seu primeiro LP. Nessa jornada, Farrokh muda seu nome para Freddie Mercury e passa a namorar Mary Austin (Lucy Boynton).

Durante a turnê da banda nos Estados Unidos, o vocalista percebe ser bissexual e quando vai gravar com o quarto álbum, A night at opera, ele cria a música “Bohemian Rhapsody” – para minha geração, talvez mas conhecida principalmente pela introdução do divertidíssimo Quanto mais idiota melhor, de 1992 – no melhor momento do filme. Todos recolhidos numa fazenda, essas sequências lembram o melhor do excêntrico Frank, em que um vocalista feito por Michael Fassbender se escondia por baixo de uma cabeça gigante e tinha receio de fazer sucesso. Mercury se desentende com o produtor executivo Ray Forster (Mike Myers, o Wayne do filme referido que ajudou a popularizar a música nos anos 90), que se nega a lançar a canção de seis minutos, projetando que ela seria um fracasso, enquanto o DJ Kenny Everett (Dickie Beau) a lança na rádio, dando início a um enorme sucesso. Em seguida, o espectador vai testemunhando reviravoltas na vida pessoal do músico: Freddie se envolve com seu agente pessoal Paul Prenter (Allen Leech), e a relação com Mary se torna mais conflituosa. Numa festa em sua casa, Freddie se apaixona por Jim Hutton (Aaron McCusker), um dos garçons. A partir daí, sua homossexualidade começa a ganhar holofotes e ele acaba assumindo uma carreira à parte, longe dos parceiros, no entanto sempre com Mary tentando aconselhá-lo. Este é o elemento mais criticado no roteiro: pouco se dá atenção à homossexualidade de Mercury, no entanto ele respeita muitas entrevistas do cantor, que nunca chegou a ser dedicado a discutir sobre ser homossexual e mesmo evitou (como Cazuza e Renato Russo no Brasil) a misturar obra e vida pessoal. Trata-se de uma escolha artística da equipe de Bohemian Rhapsody.
O concerto Live Aid, no estádio de Wembley, um espetáculo antológico, que marcou a década, recebe imagens fantásticas, muito bem filmadas, e, se a direção de Bryan Singer suscitou polêmica (um pouco antes do fim das filmagens, ele abandonou o posto, deixando-o para Dexton Fletcher), ela ainda revela um autor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack, o caçador de gigantes e os dois X-Men com a nova geração. Não se percebe nada distinto de seu estilo na obra, o que leva a crer que Fletcher pouco acrescentou o seu nas cenas que filmou e não refilmou cenas ou editou as que já haviam sido rodadas.

O mais interessante de Bohemian Rhapsody é como ele converte seus elementos mais kitsch num olhar caloroso sobre a chegada dos anos 80, as transformações na sociedade por meio da música, dos cabelos e a ameaça silenciosa da Aids. Rami Malek tem uma atuação extraordinária mesmo com um roteiro por vezes limitado. Tornando cenas efêmeras em um painel do seu tempo, embora o filme, para muitos, atenue os acontecimentos reais, Malek extrai uma singeleza da figura de Mercury, um showman verdadeiro e despretensioso, sem ligação alguma com a pompa dos que o precederam, como Mick Jagger, ou sucederam, como Bono Vox, mas investindo no rock como coro natural dos estádios. Difícil imaginar Sacha Baron Cohen, a primeira opção para o papel, sem cogitar que a obra cairia numa estranha comédia involuntária. Talvez o único antes de Malek que tenha encarnado um astro musical tão à altura tenha sido Val Kilmer na pele de Jim Morrison no The Doors, de Stone, uma peça que tem elementos parecidos com este, no entanto muito mais psicodélicos e um tanto desencontrados na sua tentativa de atingir uma antilinearidade narrativa. Boynton, por sua vez, também é uma figura agradável, como já aparentava em Sing Street, na qual era a musa do líder de uma banda de rock de adolescentes.

A fotografia de Newton Thomas Sigel, que realizou um trabalho espetacular em Drive e colaborou com Singer em diversos filmes, ordena as iluminações tipicamente oitentistas – flashes de luz entrando pelas janela, ecoando Flashdance – e o figurino multicolorido dos personagens, além do palco situado entre os anos 70 e 80, parecendo sair de um musical. Singer, sempre com uma atenção visual, apanha elementos de filmes sobre astros, como The Runaways, The Commitments e Quadrophenia, e lança o espectador no universo saindo da contracultura e das manifestações contra a Guerra do Vietnã, visando a uma liberdade de expressão mais duradoura e às opções sexuais, do grupo que arquitetou a trilha sonora de uma das diversões cinematográficas mais exitosas da cultura pop, o visionário Flash Gordon. Singer visualiza muito bem os estúdios de música e as cenas de festa luxuosas e tentando enganar seu personagem central. Além disso, o roteiro de Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo e A hora mais escura, ao dar vida real aos músicos que circulam em torno de Mercury, parece impedir justamente nesse gesto uma mera cinebiografia centralizadora. Por isso, não se arrisca dizer que a verve de “We will rock you” atinge o espectador com consciência e destreza.

Bohemian Rhapsody, EUA/ING, 2018 Diretor: Bryan Singer Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Tom Hollander, Mike Myers, Ace Bhatti, Meneka Das Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Newton Thomas Sigel Produção: Graham King, Jim Beach Duração: 134 min. Estúdio: 20th Century Fox, New Regency, GK Films, Queen Films Distribuidora: 20th Century Fox

Halloween (2018)

Por André Dick

Em 1978, John Carpenter, um mestre do terror e do suspense, criou uma das franquias mais exitosas do gênero, com Halloween, tendo à frente a jovem Jamie Lee Curtis e um assassino por trás de uma máscara, Michael Myers. Ele rendeu uma série de sequências, a segunda com o mesmo estilo, assinada por Rick Rosenthal, e a terceira mudando a perspectiva para um tom mais fantasioso. Depois, vinte anos depois, tivemos Halloween H-20 – Vinte anos depois, com a personagem de Curtis de volta, assim como em Halloween – Ressurreição. Já em 2007 e 2009 Rob Zombie fez uma reinicialização da saga contra o psicopata, desta vez com um estilo mais hiperbólico, com violência ao extremo e um excesso de luzes que remetia a um clube noturno.
O novo Halloween se passa quatro décadas depois do que aconteceu na noite enfocada pela obra clássica de John Carpenter. A localidade é a mesma: Haddonfield, Illinois. No entanto, o filme começa com jornalistas, Aaron Korey (Jefferson Hall) e Dana Haines (Rhian Rees), que vão para o Sanatório de Smith Grove tentar entrevistar Michael Myers (Nick Castle sem máscara e James Jude Courtney com), tratado pelo Dr. Ranbir Sartain (Haluk Bilginer), que substituiu o Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence).

Os jornalistas buscam, em seguida, de Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), a sobrevivente da chacina de 1978. Sua relação com a família é distante, tendo perdido a guarda de sua filha, Karen Nelson (Green), que se casou com Ray (Toby Huss) e teve a filha Allyson (Andi Matichak). Esta tem como amigos Vicky (Virginia Gardner) e Dave (Milles Robbins) e namora Cameron Elam (Dylan Arnold).
Se a história continua a história de 1978, desconsiderando as continuações, pode-se dizer que o estilo é mais interessante, sob o ponto de vista de movimentação de câmera, o que se deve à presença de David Gordon Green na direção, cineasta de origem indie. Diretor de obras respeitadas (George Washington, Prova de amorContra corrente), Gordon Green nos últimos anos se situou entre comédias desconexas (Sua alteza), retratos de homens comuns (Joe e Príncipes da estrada) e uma análise semidocumental das eleições (Especialista em crise, uma espécie de No com Sandra Bullock), mas voltou a mostrar seu melhor em O que te faz mais forte. Isso inclui diálogos críveis e uma montagem suficientemente atraente para que não esqueçamos da importância de cada personagem e do drama existencial maior que cerca cada pessoa. Seu filme comove do melhor modo e dá a importância adequada aos acontecimentos enfocados.

No entanto, o que o diretor Green faz é muito mais eficaz: ele mostra como um determinado acontecimento lida não apenas com o extremo da pessoa visivelmente atingida por um atentado terrorista, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), como aqueles familiares que o cercam, do mesmo modo que os amigos próximos. Essa característica se reproduz na maneira que enfoca Laurie Strode, traumatizada por décadas com Michael Myers e que construiu uma casa que parece uma fortaleza contra o crime. Há, sem dúvida, um posicionamento crítico e social na visão de Gordon Green. Aqui, as mulheres resistem ao mal, enquanto os homens, de certo modo, são fracos ou fascinados pela figura do psicopata, ou simplesmente desconsideram a segurança da família (sim, de modo geral, eles são os vilões). Laurie não quer depender da polícia, adquirindo suas próprias armas para defesa, mesmo porque aquela não lhe ofereceu segurança no primeiro filme. O xerife Frank Hawkins, (Will Patton) simplesmente não consegue organizar seus comandados, enquanto pensar muito não parece ser o forte de Dr. Ranbir. A neta de Laurie também, em determinado momento, enfrenta o namorado diante de uma atitude dele, enquanto Dave recua em defender Vicky numa sequência que envolve o menino Julian Morrisey (Jibrail Nantambu), de quem ela é babá, num diálogo direto com o original de Carpenter, aqui um dos colaboradores da antológica trilha sonora.

O roteiro de Jeff Fradley, Danny McBride e David Gordon Green, nesse sentido, é interessante na sua maneira de editar as passagens, sem excessos. A primeira meia hora, principalmente na visita dos jornalistas a Myers no sanatório, é muito bem feita e simbólica. Eles caminham em direção ao criminoso sobre um chão pintado como se fosse um tabuleiro gigante, antecipando as próprias ações a seguir: saber quais personagens escaparão de Myers será o principal. Depois, Laurie observa sua neta Allyson a distância, do lado de fora do colégio, como se fosse um espectro, igual a Myers no original observando os jovens pelas ruas, mostrando seu trauma inabalável. Green mescla o estilo dos anos 70 a uma nova visão de cinema, com destaque para a iluminação dos ambientes, não apenas pelo uso de luzes quanto pela mescla entre o ambiente noturno, entrecortado pelas abóboras iluminadas nas ruas e varandas das casas, e as sirenes dos carros de polícia, influenciado não apenas pelo Carpenter dos anos 70, como por Corrente do mal, de David Robert Mitchell, e Nicolas Winding Refn (além de uma breve homenagem a Sombras da vida, na cena do lençol de fantasma). A elegância de sua direção é essencial para a permanência do gênero de terror nesta releitura, servindo também como sequência, muito digna de um clássico.

Halloween, EUA, 2018 Diretor: David Gordon Green Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, Will Patton, Virginia Gardner, Nick Castle Roteiro: Jeff Fradley, Danny McBride, David Gordon Green Fotografia: Michael Simmonds Trilha Sonora: John Carpenter, Cody Carpenter, Daniel Davies Produção: Malek Akkad, Jason Blum, Bill Block Duração: 105 min. Estúdio: Miramax, Blumhouse Productions, Trancas International Films, Rough House Pictures Distribuidora: Universal Pictures

22 de julho (2018)

Por André Dick

Não chega a ser o forte de Greengrass a discussão que repercute do relato contado, mas em Voo United 93 tínhamos uma concepção visual de suspense, para a qual convergia o fato histórico. Capitão Phillips, seu filme indicado ao Oscar, também não parece funcionar exatamente como ação. Contado como uma espécie de documentário, salvo a presença de Hanks e de Barkhad Abdi (excelente), não há movimento além daquele empregado pela montagem – e um filme que pretende manter 100% de tensão acaba por vê-la diluída, fazendo de sua metade final um momento estafante. A emoção costuma surgir de personagens, e não de uma ação e de uma montagem que tenta trazer a emoção: o que parece inexistir em Capitão Phillips é exatamente a ligação entre os personagens, a qual se tenta preencher com movimento, um traço bastante explorado em Voo United 93, mesmo com personagens a princípio reunidos por uma situação calamitosa.

Em Capitão Phillips, ele mostra uma direção com uma variação de movimentos de câmera, tentando, de certo modo, se desvencilhar da dificuldade em lidar com os temas, sejam políticos ou sociais, que pretende colocar como pano de fundo. É difícil imaginar o que Greengrass quis nesta mistura de fatos reais com elementos do que existe de mais questionável nessa forma de cinema: a maneira patriótica e agressiva como ele filma ou a maneira de manipulação que ele lança sobre esses personagens, principalmente sobre os piratas da Somália. Segundo Greengrass, o objetivo desses piratas por meio do roubo seria viajar para os Estados Unidos. Os Estados Unidos permitirão isso? Greengrass tem todas as fontes para responder, mas parece uma difícil escolha.

Já em 22 de julho, amadurecido com a passagem dos anos e já afastado da série que o revelou, do personagem Bourne, Greengrass, baseado no livro One of Us: The Story of a Massacre in Norway – and Its Aftermath, de Åsne Seierstad, retoma esse traço documental com impressionante sobriedade. A história começa mostrando o responsável pelo massacre de centenas de pessoas na Noruega em 2012: Anders Behring Breivik (Anders Danielsen Lie), que ataca tanto com uma bomba lançada perto do escritório do primeiro-ministro Jens Stoltenberg (Ola G. Furuseth), quanto assassina jovens na ilha de Utoya. Greengrass desenha essa escala de violência mostrando a preparação de Beivik, em direção a essa ilha, pretendo assinalar sua loucura. Sua concepção dada ao caminho dele lembra aquela que Gus Van Sant oferece aos jovens de Elefante, influenciado por um antissemitismo flagrante e praticante de xenofobia – que fazem figuras psicopatas tentarem justificar sua própria loucura.

O advogado de Breivik, Geir Lippestad (Jon Øigarden) não quer defender o assassino, mas se impõe como parte de uma defesa constrangida. No entanto, o grande destaque é o foco dado a um dos sobreviventes, Viljar Hanssen (Jonas Strand Gravli), que fica com fragmentos de uma bala em seu crânio e a cegueira de um olho, enquanto ajuda seu irmão, também testemunha do acontecimento, Torje (Isak Bakli Aglen).
22 de julho se constitui num dos filmes mais particulares da filmografia de Greengrass e possivelmente o mais autoconsciente de seus caminhos. Com um estilo europeu e uma fotografia belíssima de Pål Ulvik Rokseth, ele contrasta o ataque feito ao país à tentativa de Viljar superar a violência em sua recuperação diária. A atuação de Gravli é espetacular, talvez a mais contida até agora do ano e ainda assim altamente impactante, assim como Anders Danielsen Lie, ator preferido de Joachim Trier, é de uma frieza controlada e angustiante no papel do homem que procura deixar uma espécie de legado da distorção da realidade. 22 de julho poderia servir para apresentar um discurso político por trás de suas ideias, mas como em Voo United 93, Greengrass mostra a humanidade resistente das vítimas de um psicopata.

Ao contrário de outro filme lançado este ano sobre esse acontecimento, este no festival de Berlim, Utoya, 22 de julho, Greengrass não se foca apenas no acontecimento que dá resultado ao restante. Não tenta criar atenção com a figura do assassino caçando jovens pela ilha de maneira claustrofóbica, embora certamente crie um mal-estar, e sim expande a noção de um país voltado para suas camadas sociais mal resolvidas, embora apenas implicitamente. Filmes com essas temáticas costumam ser recebidos muito bem ou de maneira enviesada, observando apenas seus problemas ou sua tentativa de reproduzir a dor. Greengrass estabelece uma relação indireta entre a situação do assassino, do menino que se recupera e do advogado em meio à turbulência de defender um criminoso declarado e que passa a sofrer ameaças, junto com sua família, e recebe o convite de tirar sua filha do colégio onde ela estuda. Ele não está interessado exatamente em revelar como esse assassino interfere na sociedade norueguesa, e sim como esta responde a um acontecimento que transtorna todos. Para Greengrass, a superação humana absorve toda a mudança guardada depois de um acontecimento dessa natureza e, sem tentar explicá-lo, o coloca em observação sob vários ângulos.

22 july, EUA, 2018 Diretor: Paul Greengrass Elenco: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden, Isak Bakli Aglen, Maria Bock, Thorbjørn Harr, Seda Witt, Ola G. Furuseth, Hilde Olausson Roteiro: Paul Greengrass Fotografia: Pål Ulvik Rokseth Trilha Sonora: Sune Martin Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Gregory Goodman, Paul Greengrass Duração: 143 min. Estúdio: Scott Rudin Productions, Netflix Distribuidora: Netflix

O primeiro homem (2018)

Por André Dick

Em 2014, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar principal, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, veio com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, apresentou uma história que podia ser considerada romântica em seu limite. Talvez ele não apresentasse nada de muito novo sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tinha muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) eram figuras que, como no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividiam entre o que pretendem ser e o que se mostrava realmente viável. Isso conferia ao filme uma camada que Chazelle tornava encantadora pela maneira como a revelava, aos poucos.

Depois do grande desempenho junto ao crítico e à pública de La La Land, recebendo seis Oscars, a nova obra do diretor, O primeiro homem, mostra a vida do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling), a partir de 1961, e sua rotina com a sua primeira esposa Janet Shearon (Claire Foy), até começar a fazer parte da missão coordenada pela Nasa em direção à Lua em 1969. Esses são personagens que realmente existiram e próximos de um contexto do qual La La Land se afastava: o da tentativa de ser fiel aos fatos. Chazelle sofre uma transformação por trás das câmeras. Se em Whiplash e La La Land, ele utilizava um estilo simples e ambientes arejados, nada disso se repete em O primeiro homem.
Com uma notável tentativa estética, por meio da fotografia de Linus Sandgren, de remeter ao estilo de Terrence Malick de A árvore da vida, assim como àquele visto em Interestelar, de Christopher Nolan, e ao clássico 2001, de Kubrick – na iluminação dos capacetes dos astronautas, sobretudo –, a dicção de Chazelle quase desaparece. Temos a sensação de assistir a uma busca de estilo que ressoa uma determinada emulação de outros artistas. Chazelle não está preocupado com o sentimento, a exemplo do que víamos em La La Land, apenas com a técnica e em criar enquadramentos diferenciados. Por sua vez, a tentativa de ir à Lua se torna menos intensa e o personagem de Neil Armstrong é emblemático nesse sentido.

Não apenas desenhado com um sujeito frio e distante da família e da esposa, por causa de uma perda marcante, mal percebemos o quanto ele pouco interage com outros personagens, como seus companheiros de aventura Buzz Aldrin (Corey Stoll) e Michael Collins (Lucas Haas), além dos astronautas Ed White (Jason Clarke), Roger B. Chaffee (Corey Michael Smith) e Gus Grissom (Shea Whigham) e o diretor de operações de voo Deke Slayton (Kyle Chandler), reunindo um grande elenco. Nas cenas em que brinca com os filhos, a lembrança imediata é o estilo de Malick em A árvore da vida, porém o que o cerca é uma sensação permanente de luto.
Por isso, talvez esse sentimento se estenda ao restante da história. As reuniões na Nasa, que eram tão interessantes em Os eleitos, de Philip Kaufman, o qual certamente influenciou também Chazelle, são passageiras. A câmera de Sandgren treme como se estivéssemos num filme de guerra de Kathryn Bigelow, porém isso não guarda relação com os sonhos desses personagens. Há um verniz documental sobre um fundo de mundo de transformação, mas as duas características não se fundem como poderia. Isso tudo parece proposital por parte de Chazelle, tornando os fatos históricos preenchidos por um ar de certa insegurança e mesmo espanto (os voos dos astronautas antes da missão final são, de certo modo, assustadores, sobretudo no uso da câmera). Não há elementos retumbantes; tudo parece em suspenso, contido.

O primeiro homem é um filme levemente autocentrado e desprovido de certa emoção que faz Gravidade e Perdido em Marte, por exemplo, parecerem playgrounds de desenvolvimento de personagens – e mesmo oferece certa ausência do clima de rotina e mudança histórica encontrados em Estrelas além do tempo. E impacta a maneira como Gosling e Foy, um par de grande talento, fica às vezes sem sustentação do roteiro. Gosling parecia um ator perfeito para esse papel, no entanto seu olhar vago é muito diferente daquele que utiliza em Drive, O lugar onde tudo termina e Blade Runner 2049, nos quais possui um roteiro para trabalhar; aqui ele aparenta estar apenas entre momentos marcantes para a humanidade, mas dos quais ele se aproxima apenas por um interesse remoto e baseado em efeitos visuais muito bem realizados. Ainda assim, Gosling entrega uma atuação que ajuda O primeiro homem a não ser um filme plenamente comercial. Há uma sequência no início de choro que remete à atuação dele impecável em De canção em canção e sua presença sintetiza um certo olhar distante da humanidade.
Isso se deve muito ao roteiro de Josh Singer, que ganhou um Oscar inexplicável por Spotlight e escreveu The Post, baseado no livro de James R. Hansen, que não consegue tecer um elo real entre os personagens – principalmente de Neil com seus parceiros de voo – e faz com que Chazelle tente concentrar a expectativa e suspense nas engrenagens de um foguete indo ao espaço. O que não tinham Spotlight e The Post? Exatamente relações efetivas entre os personagens (difícil recordar, ao longo do filme, uma fala de Lukas Haas, por exemplo). A questão é que este elemento se encaixa com a proposta da narrativa, que visa exatamente um sentimento constante de deslocamento do mundo, percebido nos flashbacks e na visão que o filme entrega da vida dos filhos dos astronautas, sempre próximos de um abandono anunciado. E, nessa linha, os pátios das casas mostrados por Chazelle mesclam uma alegria e um desconforto em igual escala.

O curioso é que a missão da Nasa na Apollo 11 em direção à Lua é uma reminiscência de infância, dos sonhos de cada criança quando descobrimos que o homem chegou a ela, e teve sua transmissão ao vivo desse acontecimento. Tudo isso desperta uma grande nostalgia. O primeiro homem faz o contrário. O que ele consegue é reverter essa espécie de sonho coletivo numa espécie de conto sobre um homem solitário e como a chegada à Lua, na verdade, foi apenas uma extensão do vazio que o preenche toda a narrativa, com a trilha sonora introspectiva de Justin Hurwitz. Essa sequência do pouso (imaginamos não ser um spoiler) é um registro da secura da paisagem diante a qual Neil se mostra sempre, mesmo quando visualiza a Lua à noite no céu.
Muitas críticas avaliam que o filme de Chazelle falharia ao ser um tanto antiamericano: não é o caso, apenas não sendo patriótico ou com sentimentos retumbantes pelo êxito do país na corrida espacial, que seriam incoerentes com a figura mostrada de Neil Armstrong na narrativa, na qual o luto é definidor mesmo para um discurso de John Kennedy sobre a Lua e com um instante-chave da personagem de Foy. É, por alguns instantes, bastante profundo. O seu problema é não ser uma obra com a grandeza do acontecimento enfocado, apesar de sua parte técnica notável, deixando no espectador a sensação de que muitos elementos estavam prontos para funcionar, sem serem, ao fim, totalmente colocados em prática. O que temos ainda, porém, é uma obra bastante interessante de um gênero que não cansa de receber novos exemplares de impacto.

First man, EUA, 2018 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit, Lukas Haas Roteiro: Josh Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Wyck Godfrey, Marty Bowen, Isaac Klausner, Damien Chazelle Duração: 142 min. Estúdio: Universal Pictures, DreamWorks Pictures, Temple Hill Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Universal Pictures