Roda gigante (2017)

Por André Dick

A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, o diretor Woody Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris) e agora com Roda gigante.

No filme, passado nos anos 1950, vemos a narração de um jovem salva-vidas, Mickey Rubin (Justin Timberlake), que trabalha na praia de Coney Island, perto de um parque de diversões, onde Ginny Rannell (Kate Winslet) trabalha num restaurante e seu marido Humpty (Jim Belushi) num carrossel, quando não está pescando. Mais: eles moram de frente para a roda gigante do lugar. Ela é mãe de Richie (Jack Gore), um piromaníaco, e determinado dia recebe a filha sumida de Humpty, Caroline (Juno Temple), fugindo do ex-marido, um gângster. Para Allen oferecer seu toque autoral, Mickey deseja ser escritor de peças de teatro e Ginny é uma ex-atriz.
As referências do diretor ao cinema dos anos 30 a 50 são apaixonadas, com uma trilha sonora embalada pelo jazz e um trabalho espetacular novamente da fotografia de Vittorio Storaro, que trabalhou com ele em Café Society e remete aos melhores momentos de O conformista, dos anos 70 (quando mostra o restaurante de Ginny), e O fundo do coração (quando algumas situações ganham colorações diferentes) e um desenho de produção belíssimo. Storaro ilumina o parque de diversões com uma alegria incomum, enquanto a casa dos Rannell tem tons mais azulados e vermelhos, de acordo com o sentimento sugerido, igual ao filme de Coppola. Este é um Adventureland de época e sem muitos amores a serem descobertos.

Neste ponto, Allen parece dialogar com um universo de sonhos não concretizados, e igualmente pouco amargo e sim otimista, mais no sentido de Blue Jasmine do que de Magia ao luar, por exemplo. No entanto, Roda gigante parece uma obra inacabada, embora Kate Winslet ainda seja uma boa atriz. Não se trata exatamente da escolha do diretor, mas porque, ao longo do filme, Allen usa uma série de elementos para que o espectador consiga identificar as mudanças de comportamento e tom de Ginny em relação às pessoas, dependendo de sua situação. Quando finalmente o espectador parece entendê-la, assim como seu encanto pela arte, ele pede para que entendamos, como em Blue Jasmine, que tudo aquilo que foi visto na verdade foi guiado por um certo desequilíbrio, sem que se elabore o que veio antes de sua vida com Humpty e depois para que se chegasse naquele ponto, sendo o comportamento dela apenas falho ou não suficientemente tratado. O homem, para Allen, nunca é responsável pela situação da vida alheia: seria apenas alguém que divaga sem solidez, e Humpty, que só pensa na filha, se torna cada vez mais violento.

Inicialmente, a situação de Ginny destoa do tom ameno, embora amargo, de todo o filme, tornando-se um estudo de caso frustrante. Allen parece não querer dar espaço a um tema pesado, tentando se desapegar da preocupação da personagem de enfrentar seu sonho (a atuação, o mundo da arte) para, enfim, reduzir todos os personagens a um ponto de interrogação e conscientes de uma vida que o diretor considera plana. Para ele, Ginny, como o filho, é uma fonte de destruição e não se deve ouvi-la nem ampará-la. A atuação de Kate Winslet nos diz o contrário do que entrega o diretor: embora ela queira falar, ele não permite. E, se Timberlake só oferece uma real atuação em A rede social, não convencendo aqui como um aspirante a dramaturgo e prejudicando cada cena com Winslet, Belushi não chega a ser o elo fraco, parecendo até divertido como em alguns momentos de Twin Peaks. A parte menos interessante fica a cargo de uma subaproveitada Temple, com uma personagem um tanto dispersa. E o Allen com tom moralista, que torna os personagens apenas em símbolos do que gostaria de transmitir – aquele de Crimes e pecadosMemórias Match Point – é, sem dúvida, o menos atrativo, extraindo toda a energia que poderia haver na estrutura de Roda gigante.

Wonder wheel, EUA, 2017 Diretor: Woody Allen Elenco: Jim Belushi, Juno Temple, Justin Timberlake, Kate Winslet Roteiro: Woody Allen Fotografia: Vittorio Storaro Produção: Letty Aronson, Edward Walson, Erika Aronson Duração: 101 min. Estúdio: Gravier Productions, Perdido Productions Distribuidora: Amazon Studios

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Viva – A vida é uma festa (2017)

Por André Dick

Nos últimos anos, a Pixar tem se destacado junto à Disney com obras como Divertida mente, mesmo sem os atrativos da época de Wall-E e UP, quando a companhia, ainda independente, fazia um trabalho considerado superior à maioria das animações. Particularmente, Universidade Monstros é o trabalho mais interessante da companhia, mas nunca foi devidamente aceito; no início de 2016, O bom dinossauro já havia sido severamente subestimado e Carros 3, no ano passado, fracassou injustamente nas bilheterias. No entanto, ao final do ano, surgiu um novo desenho animado, desta vez assumindo o posto de grande bilheteria: Viva – A vida é uma festa. Trata-se de um projeto pensado com visível afeto pela cultura que apresenta, dando atenção a detalhes temáticos e históricos.

A história se passa em Santa Cecilia, no México. Miguel Rivera (Anthony Gonzalez), de 12 anos, filho de Enrique (Jaime Camil) e Luisa (Sofía Espinosa), é o tataraneto de Amelia Rivera (Alanna Ubach), que foi casada com um músico que abandonou sua família. Ele abandonou Amelia e sua filha Ines (Ana Ofelia Murguía), bisavó de Miguel. Desde então, Amelia proibiu a música em sua família, agora dedicada ao trabalho de sapataria. O menino, no entanto, sonha em se transformar conhecido como Ernesto de la Cruz (Benjamin Pratt), cantor e ator consagrado dos tempos de Amelia. Quando é descoberto com um violão construído por ele próprio, a avó de Miguel, Elena (Renée Victor), fica muito irritada.
Depois de uma descoberta familiar, ele sai em busca de um violão para o show de talentos do Dia dos Mortos. Passando para o além, ele e seu cão Dante (uma homenagem à Divina Comédia) terão de passar por uma série de aventuras conhecendo figuras em forma de esqueleto, já mortas. Miguel conhece Hector (Gael García Bernal), que foi amigo de Ernesto. Ele está para ser esquecido pelo mundo dos vivos, pois ninguém mais homenageia sua imagem no Dia dos Mortos. Para isso, ele carrega um pedaço de fotografia. E o menino, para não ser amaldiçoado, não podendo mais voltar ao mundo dos vivos, por tentar roubar o vilão, precisa correr contra o tempo e solucionar questões que correspondem à história da família, tudo ao som de uma agradável trilha sonora de Michael Giacchino.

Dirigido por Lee Unkrich, o mesmo de Toy Story 3, com a codireção Adrian Molina, Viva – A vida é uma festa se situa entre o mundo dos vivos e o dos mortos, mas o faz de uma maneira nada previsível, não procurando colocar o espectador em meio a lições de moral apenas emotivas. Ele possui um núcleo, que é justamente a figura de Miguel. Querendo ser reconhecido como músico, em nenhum momento ele se comporta como alguém que deseja passar por cima dos outros a fim de atingir seus objetivos, e sim uma figura generosa. A maneira como Unkrich o desenvolve é o sinal de êxito do filme. Seu visual, além disso, é de um primor poucas vezes visto em animações, mesmo as de mais qualidade: há uma sensação de profundidade nas cenas, assim como os personagens não soam como caricaturas. Interessante como é mostrado o mundo dos mortos, com um colorido multifacetado e mesmo futurista, remetendo a algumas sequências de Tomorrowland. Um certo ar de estranheza percorre o mundo dos mortos, parecendo dialogar com algumas obras de Tim Burton, sem nunca perder o seu objetivo. E há figuras como Frida Kahlo (Natalia Cordova-Buckley) que aparecem no mundo dos mortos e acrescentam à movimentação dos personagens coadjuvantes de maneira bem-humorada. Há uma inserção do espectador neste universo apresentado.

Toda a jornada de Miguel é governada por um caráter de crescimento interno, reproduzido principalmente na maneira como ele passa a enxergar as figuras que antes idolatrava. O dilema dele – de precisar voltar à vida para não permanecer no universo dos mortos – tem elementos daquele de Marty McFly no primeiro De volta para o futuro – e mesmo seu braço se transformando em esqueleto ou a fotografia de Héctor remetem ao filme de Zemeckis. Havia bons momentos sobre o reconhecimento da terceira idade em Carros 3 e em Viva isso se repete de maneira comovente, por meio das figuras referenciais da família de Miguel. Os diretores Unkrich e Molina conseguem transparecer um sentimento que poucos filmes atingem, a exemplo de Nebraska, de Alexander Payne, ao tratar do isolamento de um familiar já um tanto distanciado dos demais devido ao tempo de vida. O roteiro de Adrian Molina e Matthew Aldrich é de grande sensibilidade nesse sentido, distribuindo para os personagens um espaço notável e sintetizando tudo com a canção “Remember Me”, numa obra que homenageia a cultura mexicana e a torna universalmente bela.

Coco, EUA, 2017 Diretor: Lee Unkrich Elenco: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Lombardo Boya, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Edward James Olmos, Sofía Espinosa Roteiro: Adrian Molina e Matthew Aldrich Fotografia: Matt Aspbury e Danielle Feinberg Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Darla K. Anderson Duração: 109 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

 

Thelma (2017)

Por André Dick

O cineasta dinamarquês Joachim Trier se projetou com duas peças elogiadas, Reprise e Oslo, 31 de agosto, ambos com o ator Anders Danielsen Lie e um tom de melancolia exasperante e uma fotografia capaz de captar uma faceta gélida da humanidade. Em sua estreia nos Estados Unidos, realizou o ótimo Mais forte que bombas, em que colocava Jesse Eisenberg no papel de um filho de uma jornalista feita por Isabelle Huppert e retratava a solidão da adolescência nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que conflitos estabelecidos de maneira primordial. Sempre interessou a Trier um certo olhar sobre a sociedade, e não por acaso o personagem de Eisenberg nesse filme era um professor da área. Há uma perspectiva muito apurada sobre a solidão contemporânea na obra dele, que se manifesta por meio de figuras diferentes e mesmo sem pontos em comum: o personagem central de Oslo, 31 de agosto tinha questões a resolver totalmente diferentes daquele de Mais forte que bombas, no entanto sente-se uma unidade neles.

Desta vez, em Thelma, Trier busca exatamente o caminho de uma mistura entre drama e suspense, com ecos de Carrie, a estranha, de Brian De Palma e uma singela homenagem ao cinema de super-heróis. A personagem central, exatamente Thelma, feita pela Eili Harboe, chega à universidade, onde irá estudar, distanciando-se do pai, Trenn (Henrik Rafaelsen), e da mãe, Unnie (Ellen Dorrit Petersen), mas com o conselho de que deve aproveitar o quanto puder a experiência. Ela começa a se interessar por uma jovem, Anja (Kaya Wilkins), que vê primeiramente na biblioteca quando sofre uma estranha convulsão, no exato momento em que pássaros batem na vidraça da janela, lembrando algo da série Lost.
Thelma é repleto de momentos que remetem a outras obras e talvez esta seja sua maior característica. Trier busca novamente o retrato afastamento da sociedade, que retrata sobretudo em Oslo, 31 de agosto, para se fixar numa personagem que o representa do melhor modo. Com um problema que os outros não conseguem entender, Thelma parece situada entre a realidade e o onirismo. As cenas em que ela passa por uma bateria de exames é a mais provocativa do filme, mas Trier está interessado em situá-la como alguém que tenta se desapegar da religião e não consegue.

Sua visão de uma serpente do paraíso às voltas do seu interesse pela jovem estudante é capaz de provocar toda uma simbologia da qual parte o filme. No entanto, há um problema nisso: a simbologia acaba por vezes se sobrepondo à personagem, e mesmo a atuação de Eili Harboe soa distante para o espectador. Aos poucos, essa falta de aproximação adequada justifica o ponto que Trier deseja abordar. E se, do mesmo modo, o personagem de Anja não chega a se efetivar como um claro complemento e sim apenas como uma peça capaz de substituir os desejos mais íntimos da protagonista, há uma cena antológica em que o personagem central se sente, por meio de outro, se dividir em milhares de pedaços. Em outra sequência, numa festa, Thelma vê o corpo dos outros se iluminar: o fogo e a eletricidade correspondem a uma sexualidade interrompida. A personagem procura pelo passado dos amigos na internet, no entanto nesta nada descobre.
Não sem méritos, Trier, de origem publicitária, compõe uma sequência de imagens capaz de atrair o espectador. Ele tem em vista muitas referências, principalmente Suspiria, de Argento, nas cenas que envolvem a água, seja na piscina ou num lago. A água representa tanto a sensação de morte quanto de vida da personagem. Diante delas, chega a ser quase uma obrigação reconhecer que Trier tem um olhar para capturar o fantástico de modo muito incisivo. Os símbolos são inquietantes: peixes embaixo de um lago congelado, pássaros sem direção e uma serpente rastejando pelo campus da universidade até o quarto de Thelma.

Onde ele se perde é exatamente onde Thelma mais deveria entregar com credibilidade uma trama misteriosa: seu personagem central nunca se sente exatamente inter-relacionada com os demais, não apenas pela frieza de Harboe (ainda assim numa boa atuação) e sim por problemas de ajuste no roteiro, escrito pelo diretor em parceria com seu habitual parceiro Eskil Voght. Os personagens se sentem unidimensionais mesmo inseridos numa situação fantástica e os temas implícitos nunca se manifestam com a confiança que deveriam ser manifestados. Ainda assim, a maneira como Thelma é conduzido leva o espectador a se interessar pelo desenvolvimento e desfecho. Sente-se uma elegância inusual na maneira como Trier mostra os corredores da universidade, assim como as árvores e postes de luz que definem suas direções, representando uma solidão da juventude. Uma ida a uma peça musical é a representação de algo se transformando, não se sabe de que modo, assim como uma caminhada no gelo pode representar uma ameaça inexplicável. É um bom núcleo para se estudar certos relacionamentos humanos, dos quais Thelma nunca se afasta com sua carga de impressões sobre a humanidade.

Thelma, Noruega, 2017 Diretor: Joachim Trier Elenco: Eili Harboe, Kaya Wilkins, Henrik Rafaelsen, Ellen Dorrit Petersen, Grethe Eltervåg Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt Fotografia: Jakob Ihre Trilha Sonora: Ola Fløttum Produção: Thomas Robsahm Duração: 116 min. Estúdio: Motlys Distribuidora: SF Studios Norway (Noruega) e Magnolia Pictures (Estados Unidos)

120 batimentos por minuto (2017)

Por André Dick

Um dos grandes títulos lançados no Festival de Cannes de 2017, 120 batimentos por minuto, do diretor e roteirista marroquino, naturalizado na França, Robin Campillo, pretende traçar um panorama sobre o vírus da Aids, que se alastrou em meados dos anos 80 em todo o mundo. O foco é a França, mais exatamente um grupo, ACT UP, que protesta contra empresas farmacêuticas no início dos anos 90. Essas empresas não desejam a liberação fácil de remédios para as pessoas doentes. Com um início trepidante, quase em estilo documental e muito influenciado pelo estilo de filmagem de Kechiche em Azul é a cor mais quente, por meio da fotografia instável de Jeanne Lapoirie, o filme de Campillo se situa entre os protestos – nos quais os integrantes jogam balões com um produto que lembra sangue – e as reuniões desse grupo. Não parece inoportuno lembrar que Campillo fez o roteiro de outro filme muito parecido com este em termos de estrutura e constantes debates, Entre os muros da escola, que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2008.

Mais atentamente, Campillo, que fez parte desse grupo de protesto na realidade, dá destaque a um dos jovens, Nathan (Arnaud Valois), e sua relação com Sean (Nahuel Pérez Biscayart). Nathan é HIV positivo, e Sean é negativo; eles se apaixonam num ambiente apropriadamente conturbado. Ambos os atores estão excelentes, trazendo nuances a seus personagens. Nathan tem um discurso sobre a vida depois que contraiu a doença num metrô observando o pôr do sol em Paris por trás dos edifícios e esta sequência concede uma sensação incômoda de perda, ao mesmo tempo que impõe um novo sentido à vida. No início, Campillo organiza tudo como uma zona de guerra contra a indústria e contra a falta de anseios da sociedade em relação a notícias que possam explicar melhor a nova doença, sem que ela fique circunscrita ao fato de que ela só existiria entre homossexuais, e a maneira como, de determinado momento, se espalhou essa notícia. Há poucos filmes, impressionantemente, sobre o assunto: Filadélfia, de Jonathan Demme, talvez tenha sido o primeiro mais contundente, dando uma premiação de Oscar a Tom Hanks, seguido pelo belo e semiesquecido Clube de compras Dallas. Recentemente, a HBO fez um grande filme (apesar de lançado apenas na TV é um filme de fato), The normal heart, com grande elenco, e Mark Ruffalo e Julia Roberts em grandes atuações, sobre a epidemia de Aids na Nova York dos anos 80. Talvez este seja o principal filme sobre o tema.

Contudo, Campillo não consegue entrelaçar os manifestos, a discussão em grupo e a intimidade dos personagens. Os diferentes registros soam conflitantes entre si, fazendo de um filme que deveria ser comovente estranhamente distante do espectador. Não que o drama dos personagens não convença, mas a maneira com que é tratado não faz o conjunto dramático ressoar como deveria. As reuniões são intrigantes, entretanto, ao mesmo tempo, sem o peso necessário, e os personagens são muito dispersos para que o espectador tenha uma ideia mais exata de suas emoções. Por outro lado, há momentos em que os personagens dançam em um clube noturno e Campillo os visualiza quase como partículas espalhadas pelo espaço: o efeito visual é interessante. Sabemos o que eles querem: a maneira como isso é apresentado não é levada aos extremos, como deveria. O roteiro escrito pelo diretor em parceria com Phillipe Mangeot mostra a liderança de Thibault (Antoine Reinartz) e Sophie (Adèle Haenel, a médica de A garota desconhecida, que, depois de Lírios-d’água, tem tido algumas atuações estranhas, parecendo sempre assustada), mas esses líderes não possuem uma ligação mais próxima dos integrantes do movimento, e os únicos momentos em que os vemos agindo são em espaço público. E há Max (Félix Maritaud), que contraiu a doença com transfusão, acompanhado de sua mãe Hélène (Catherine Vinatier).

De qualquer modo, o casal composto por Nathan e Sean mostra uma fuga a essas manifestações públicas e um ingresso na intimidade. Sean trata de um ex-amante que nunca mais encontrou, e Nathan se torna como uma espécie de reprodução da imagem dele. O momento em que compartilham o espaço de um quarto soturno leva o espectador para longe das manifestações públicas e do toque e do romantismo, porém Campillo, de certo modo, impede que cheguemos mais perto desses personagens por uma necessidade de seguir uma linha mais documental, da qual fazem parte inúmeros filmes franceses.
Há toques, aqui, do Assayas de Depois de maio, mas de maneira ainda mais radical, sem espaço para inter-relações mais evidentes. De certa maneira, o filme segue um terceiro ato bastante pesaroso, com um inquestionável registro de boas atuações e cinco minutos finais de grande sensibilidade. No entanto, não concedem o espaço que Campillo certamente desejaria: aquele de maior compreensão em relação às figuras que mostra, como indivíduos e não parte de um movimento. Para o diretor, o primeiro momento é o da ação, e o segundo da reflexão. Depois, enfrenta-se o desconhecido. Quando se chega ao final catártico, é normal que algo tenha se perdido, no entanto, de repente, se encontra, na representação de um grito até então abafado que, instantaneamente, desperta e se torna parte de cada um e de algo maior. Nesse caminho, 120 batimentos por minuto se transforma num filme bastante interessante para a discussão de um tema, mas um tanto em falta com seu impacto em termos de cinema e narrativa a ser acompanhada. O que sobra em talento para Campillo captar imagens talvez não tenha a devida ênfase em seus relatos históricos, relevantes como igualmente necessários.

120 battements par minute, FRA, 2017 Diretor: Robin Campillo Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Félix Maritaud, Ariel Borenstein, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Coralie Russier, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Jérôme Clément-Wilz, Jean-François Auguste, Saadia Bentaieb Roteiro: Robin Campillo e Philippe Mangeot Fotografia: Jeanne Lapoirie Trilha Sonora: Arnaud Rebotini Produção: Hugues Charbonneau, Marie-Ange Luciani, Jacques Audiard Duração: 140 min. Estúdio: Les Films de Pierre, France 3 Cinéma, Page 114, Memento Films, FD Production Distribuidora: Memento Films

 

Logan Lucky – Roubo em família (2017)

Por André Dick

Depois de Magic Mike, Steven Soderbergh havia anunciado sua aposentadoria da grande tela. No entanto, ele nunca se afastou realmente dela, ajudando na produção, como diretor de fotografia e montador, de Magic Mike XXL, por exemplo. Na TV, fez Behind the Candelabra, muito bem recebido pela crítica. Diretor de algumas peças muito interessantes, principalmente Kafka, Irresistível paixão, Erin Brokovich, Traffic e Contágio, ele fez muito sucesso com uma série irregular, Onze homens e um segredo. Soderbergh é um cineasta que se especializou em adotar uma espécie de visão sobre os Estados Unidos e seus problemas, envolvendo desde o subúrbio ameaçado por grandes empresas até famílias que sofrem a ameaça da invasão das drogas por meio de seus filhos e uma espécie de alarme para os relacionamentos do futuro. No entanto, ele tem uma especial atração pelo tema do roubo, o que está presente não apenas na série referida, como em Irresistível paixão.

O mesmo acontece em Logan Lucky – Roubo em família, no qual ele volta ao ambiente que lhe agrada em especial, meio setentista, na maneira de construir a atmosfera e a narrativa, mesmo que passada nos dias atuais. No Condado de Boone, Jimmy Logan (Channig Tatum) é demitido de seu trabalho. Ex-jogador de futebol (o que faz lembrar seu personagem policial em Anjos da lei), ele está em permanente conflito com a ex-esposa Bobbie Jo (Katie Holmes), com quem tem uma filha, Sadie (Farrah Mackenzie). Também tem um irmão, Clyde (Adam Driver), veterano da Guerra do Iraque, onde perdeu parte de um dos seus braços, que trabalha num bar. Os irmãos moram numa cidade dedicada à mineração, ou seja, não se visualiza exatamente um ganho especial em dinheiro onde estão. Soderbergh não chega a elaborar esses personagens, e eles dizem muito: Clyde, por exemplo, poderia estar em Erin Brokovich e sua discussão sobre o aparato governamental por trás do destino das pessoas.

Ainda assim, a trama vai se movimentando de maneira fluida, sem que percebamos a sua estrutura algumas vezes previsível. Certo dia, Jimmy tem um plano de roubo no Charlotte Motor Speedway na Carolina do Norte, que eles vão tentar concretizar com o conhecido Joe Bang (Daniel Craig) e seus irmãos Sam (Brian Gleeson) e Fish (Jack Quaid), além da irmã de Jimmy e Clyde, Mellie (Riley Keough). Há outros personagens, que entram e saem da trama sem uma motivação clara, sem que isso os torne menos atrativos: a médica Sylvia Harrison, feita por Katherine Waterson. e o ricaço Max Chilblain, que vende bebida, feito por Seth MacFarlane (diretor de Ted), maquiado de maneira engraçada, além da agente de Hilary Swank são apenas alguns. De algum modo, todos acabam por contribuir com a narrativa, feita mais por meio de diálogos soltos do que exatamente uma estrutura preexistente sem nunca aparentar ser disperso. Logan Lucky dialoga, em certos momentos, com filmes dos irmãos Coen, a exemplo de E aí, meu irmão, cadê você? Onde os Coen se mostram um pouco mais pretensiosos, Soderbergh reduz o que poderia soar forçado, tornando mais comercial uma trama que não teria normalmente nada de comercial, remetendo, nesse caso, a Robert Altman e experimentos como Nashville e Um perigoso adeus. E as figuras femininas são um destaque: além de Waterston e Swank, Riley Keough, que apareceu em filmes underground de relevo nos últimos anos, a exemplo de Docinho da América e Lovesong, e mesmo a discreta Katie Holmes aparecem bem.

Com seu horizonte do interior dos Estados Unidos, Logan Lucky é uma mistura bem dosada entre comédia e ambientes presidiários, como era Irresistível paixão. O elenco, de maneira geral, é ótimo, principalmente Craig num papel inesperado, ainda que sem a diversão prometida pelo trailer. Tatum e Driver possuem boa química e Keough novamente chama a atenção por seu talento, mesmo que com pouca participação. Há alguns lances de emoção em família, mas nada que tome muito conta da metragem: Soderbergh está interessado em mostrar esse roubo pelos irmãos Logan, Joe e seus irmãos e o faz com uma narrativa entre a lentidão e o movimento, sem nunca tornar a narrativa pesada ou falha em seus momentos menos inspirados. Podia não ter acertado, como, especialmente, na segunda parte de sua trilogia de Onze homens e um segredo, contudo acaba sendo efetivo. Termina sendo uma das grandes diversões de 2017, um retorno inspirado de Soderbergh depois de uma quase aposentadoria, recuperando seus melhores momentos. O roteiro de Rebecca Blunt contribui muito para isso, tornando cada diálogo e situação em peças sólidas.

Logan Lucky, EUA, 2017 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Channing Tatum, Adam Driver, Farrah Mackenzie, Riley Keough, Daniel Craig, Katie Holmes, Charles Halford, Seth MacFarlane, Jack Quaid, Brian Gleeson, Katherine Waterston, Dwight Yoakam, Sebastian Stan, PJ McDonnell, Robert Fortner, Hilary Swank Roteiro: Rebecca Blunt Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: David Holmes Produção: Gregory Jacobs, Mark Johnson, Channing Tatum, Reid Carolin Duração: 119 min. Distribuidora: Fingerprint Releasing, Bleecker Street

Melhores filmes de 2017

Por André Dick

O cinema de 2017 trouxe um bom número de filmes que marcaram o espectador. Não é um ano comum este em que tivemos no cinema mais um filme de Terrence Malick, assim como a volta de David Lynch em Twin Peaks.
Se as animações não fizeram o mesmo sucesso do ano passado e mesmo assim foram exitosas (Meu malvado favorito 3, LEGO Batman), inclusive aquelas mais de arthouse (A tartaruga vermelha, Minha vida de abobrinha), o gênero de super-heróis teve novas obras da Marvel e da DC.
Os blockbusters e a ficção científica, de modo geral, estiveram muito bem servidos, desde Logan, passando por Kong – A Ilha da CaveiraAlien: Covenant, Dunkirk, Blade Runner 2049, Valerian e a cidade dos mil planetas, até o existencialista Planeta dos macacos – A guerra. No fim do ano, Star Wars – Os últimos Jedi tentou provar que a franquia continua rendendo em termos de crítica e financeiros.
Se a juventude teve momentos de conflito em família (Quase 18), com a sexualidade (Thelma), ela também esteve na guerra (A longa caminhada de Billy Lynn, Frantz, Castelo de areia e Até o último homem) e tentando se adaptar a uma vida de roubos (Em ritmo de fuga, Tramps) ou à alta tecnologia (O círculo), assim como envolvida com o terrorismo (Nocturama). Também esteve na busca por seguidores religiosos, em Silêncio, e por fãs de música, em Patti Cake$.

O gênero do terror passou por uma revitalização com Corra!, A morte te dá parabéns, Raw, Ao cair da noite, Annabelle 2 e A cura, principalmente, com diferentes estilos e mesmo aplicando um bom humor, sendo que o maior sucesso desse campo foi It – A coisa, com seu grupo de crianças. Em ExtraordinárioO livro de Henry, também havia a amizade entre crianças e a descoberta do mundo adulto.
No cinema de ação, a mistura entre lutas e neons ficou explícita em Atômica e John Wick 2, mas nenhum deles parecia superar o sul-coreano A vilã.
O universo da família esteve bem representado pelos mais diversos filmes, com os objetivos mais múltiplos: Mãe!, Os Meyerowitz, O filme da minha vida, Logan Lucky, Primeiro, mataram o meu pai, O castelo de vidro, Fala comigo, Um homem chamado Ove, Como os nossos paisO mínimo para viver, O reino da beleza, Manchester à beira-mar, Mulheres do século 20 e Suburbicon.
E filmes falaram da solidão contemporânea com rara eficácia: Já não me sinto em casa nesse mundo, O mar de árvores, Una, A garota desconhecida, Certas mulheresMoonlightColossalO estado das coisas, Um limite entre nós e o belíssimo Columbus.

Se tivemos a mitologia de lendas inglesas em Rei Arthur – A lenda da espadaDeath note, Power Rangers e A vigilante do amanhã – Ghost in the shell transitaram pelo universo de adaptações de games e mangás orientais.
Algumas cinebiografias ajudaram a movimentar o gênero, daquele que fez posse de uma marca de lanches até uma primeira-dama afetada por uma perda histórica: Fome de poder, Estrelas além do tempo, Loving, Até o último homem, Maudie – Sua vida e sua arte, Regras não se aplicamAlém das palavras e Jackie.
A poesia esteve em discussão na época clássica, em Além das palavras (sobre Emily Dickinson), passando pelo momento atual em Paterson (um poeta motorista de ônibus) e pela autobiografia Poesia sem fim, além de estar registrada na vida de um cineasta no documentário David Lynch – A vida de um artista e na influência de uma música, vivida por Rooney Mara, por Rimbaud em De canção em canção.
Enquanto a história foi recontada por filmes como Primeiro, mataram o meu pai, passado no Camboja, mostrando mais uma vez o talento de Angelina Jolie na direção, o tema da imigração se fez presente no sensível O outro lado da esperança (da Finlândia) e o preconceito foi debatido explícita ou implicitamente em Terra selvagem, Uma mulher fantásticaA qualquer custo, Detroit em rebelião, Extraordinário e Bright. O tênis serviu para falar do movimento de mudança feminino em A guerra dos sexos e para tratar de lendas esportivas separadas pelo comportamento em Borg vs McEnroe.
Hong Sang-soo continuou sua filmografia metalinguística com Na praia à noite sozinha, e o canadense Denys Arcand regressou com O reino da beleza, mas é Chan wook-Park que fez uma adaptação ousada de um livro inglês em A criada. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne tiveram mais uma visão sobre a situação da Europa em A garota desconhecida, assim como Julia Docournau entregou um terror com estilo francês em Raw e François Ozon retratou a Segunda Guerra Mundial em Frantz. O chinês Zhang Yimou tentou estabelecer uma ponte entre os blockbusters da América do Norte e da Ásia em A grande muralha. E o grande sucesso de público e crítica do cinema brasileiro foi Bingo – O rei das manhãs.

Os filmes avaliados para as listas estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2017, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2016, seja (agora um diferencial em relação aos anos anteriores) nos cinemas, em VOD ou na Netflix. Não é mais possível avaliar como foi o ano apenas com base naquelas obras que chegaram às salas, principalmente porque várias de qualidade não estreiam por causa de filmes de menos qualidade. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e irão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta a seguir listas com filmes que quase entraram na lista dos 25 melhores, menções honrosas, apreciados, subestimados, apreciados em parte e decepções e/ou superestimados. Foi um grande ano cinematográfico.

Quase entraram entre os 25

Castelo de areia (Fernando Coimbra), Z – A cidade perdida (James Gray), Logan Lucky – Roubo em família (Steven Soderbergh), Lion – Uma jornada para casa (Garth Davis), O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki), Ao cair da noite (Trey Edward Schults), Primeiro, mataram o meu pai (Angelina Jolie), Liga da Justiça (Zack Snyder), Fala comigo (Felipe Sholl), Patti Cake$ (Geremy Jasper), Maudie – Sua vida e sua arte (Aisling Walsh), A morte te dá parabéns (Cristopher B. Landon), Terra selvagem (Taylor Sheridan), A longa caminhada de Billy Lynn (Ang Lee), Regras não se aplicam (Warren Beatty), O reino da beleza (Denys Arcand), Loving (Jeff Nichols), Uma mulher fantástica (Sebastián Lelio)

Menções honrosas

O castelo de vidro (Destin Cretton), Bright (David Ayer), O mar de árvores (Gus Van Sant), John Wick – Um novo dia para matar (Chad Stahelski), Um homem chamado Ove (Hannes Holm), Na vertical (Alain Guiraudie), Até o último homem (Mel Gibson), Homem-Aranha – De volta ao lar (Jon Watts), Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo), Eu já não me sinto em casa nesse mundo (Macon Blair), Annabelle 2 – A criação do mal (David F. Sandberg), Tramps (Adam Leon), Quase 18 (Kelly Fremon Craig), Guardiões da galáxia Vol. 2 (James Gunn), Buster’s mal heart (Sarah Adina Smith), Thelma (Joachim Trier), Uma beleza fantástica (Simon Aboud), Mulheres do século 20 (Mike Mills), A guerra dos sexos (Jonathan Dayton, Valerie Faris), Gaga: five foot two (Chris Moukarbel), Colossal (Nacho Vigalondo), Spielberg (Susan Lacy), O mínimo para viver (Marti Noxon), Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan), Lovesong (So Young Kim), O invasor americano (Michael Moore), Top model (Mads Matthiesen), Beleza colateral (David Frankel), Boneco de neve (Tomas Alfredson), Suburbicon Bem-vindos ao paraíso (George Clooney), A qualquer custo (David Mackenzie), Una (Benedict Andrews), Certas mulheres (Kelly Reichardt), Star Wars – Os últimos Jedi (Rian Johnson), Wilson (Craig Johnson), Eu, Daniel Blake (Ken Loach), Free fire – O tiroteio (Ben Wheatley)

Apreciados

Nossas noites (Ritesh Batra), Detroit em rebelião (Kathryn Bigelow), Atômica (David Leitch), Doentes de amor (Michael Showalter), Onde está Segunda? (Tommy Wirkola), Kong – A ilha da Caveira (Jordan Vogt-Roberts), A garota desconhecida (Jean-Pierre e Luc Dardenne), Logan (James Mangold), Raw (Julia Docournau), Você e os seus (Hong Sang-soo), T2: Trainspotting (Danny Boyle), Power Rangers (Dean Israelite), Fome de poder (John Lee Hancock), A vilã (Jung Byung-Gil), O estado das coisas (Mike White), Frantz (François Ozon), Além das palavras (Terence Davies), Planetarium (Rebecca Zlotowski), Rakka (Neil Blomkamp), Mulher-Maravilha (Patty Jenkins), Lady Macbeth (William Oldroyd), A tartaruga vermelha (Michel Dudok de Wit), Um limite entre nós (Denzel Washington), Aliados (Robert Zemeckis), Estrelas além do tempo (Theodore Melfi), Borg vs McEnroe (Janus Metz Pedersen), Minha vida de abobrinha (Claude Barras), Extraordinário (Stephen Chobsky)

Subestimados

Sandy Wexler (Steven Brill), Vida (Daniel Espinosa),  Transformers – O último cavaleiro (Michael Bay), War machine (David Michôd), A vigilante do amanhã – Ghost in the shell (Rupert Sanders), Carros 3 (Brian Fee), Rei Arthur – A lenda da espada (Guy Ritchie), O livro de Henry (Colin Trevorrow), A grande muralha (Zhang Yimou), O círculo (James Ponsoldt), Piratas do Caribe – A vingança de Salazar (Joachim Rønning, Espen Sandberg)

Apreciados em parte

Assassin’s creed (Justin Kurzel), Como nossos pais (Laís Bodanzky), David Lynch A vida de um artista (Jon Nguyen, Rick Barnes, Olivia Neergaard-Holm), Armas na mesa (John Madden), Thor: Ragnarok (Taika Waititi), Feito na América (Doug Liman), LEGO Batman – O filme (Chris McKay), Death note (Adam Wingard), Passageiros (Morter Tyldum), Bingo – O rei das manhãs (Daniel Rezende), Depois daquela montanha (Hany Abu-Assad), Vizinhos nada secretos (Greg Mottola)

Decepções e/ou superestimados

Dunkirk (Cristopher Nolan), It – A coisa (Andy Muschietti), A bela e a fera (Bill Condon), Toni Erdmann (Maren Ade), Fragmentado (M. Night Shyamalan), Jogo perigoso (Mike Flanagan), Okja (Joon-Ho Bong), Sete minutos depois da meia-noite (Juan Antonio Bayona), Bom comportamento (Ben Safdie, Josh Safdie), Shimmer Lake (Oren Uziel), Nocturama (Bertrand Bonello), Sala verde (Jeremy Saulnier), Marjorie prime (Michael Almereyda), Minha prima Rachel (Roger Michell), A morte de Luís XIV (Albert Serra), Strange weather (Katherine Dieckmann)

Abaixo, a lista dos 25 melhores filmes de 2017 segundo o Cinematographe. Agradeço pela companhia durante o ano e desejo um ótimo 2018.

Com uma trilha sonora esplendorosa de Alexandre Desplat, apanhando algumas notas de Jerry Godsmith da antiga série de cinema Star Trek, e fotografia notável de Thierry Arbogast, arquitetando um festival de cores, Valerian se move num ritmo contínuo, mas sem parecer excessivo nesse ponto. Luc Besson tem um talento notável aqui para compor um quadro de imagens coloridas sem parecer kitsch, acertando na escolha do par central: DeHaan e Delevingne possuem uma química em todas as cenas nas quais aparecem juntos. Talvez mais do que todos os acertos técnicos ou de escolha de elenco, fica visível o respeito que Besson tem por esse universo de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, do qual é visivelmente um admirador.

A obra de Olivier Assayas, apostando no drama em que é especialista, embora às vezes irregular, não deixa de ser um thriller disfarçado de Hitchcock por meio da paisagem parisiense, com toques de Leos Carax e seu Holy Motors, além de uma interessante analogia final com Oslo, 31 de agosto, por meio da presença do ator Anders Danielsen Lie. Assim como na obra de Carax, a tecnologia parece deixar o cinema “antigo” para trás: a sensação, aqui, é que Assayas está tratando do cinema digital em primeiro lugar por meio de uma trama instigante. Há uma cena que define isso: quando Maureen, numa bela interpretação de Kristen Stewart, está diante de um acontecimento que mudará sua trajetória, há barulhos e luzes distantes que remetem a uma sala de cinema. O que estará acontecendo lá? Para Assayas, está acontecendo essa procura por sua própria identidade. É estranho, diferente e assustador, como Personal shopper.

Mais do que aterrorizar, Amat Escalante pretende estabelecer ligações entre um ser alienígena e personagens no interior do México. Com a ajuda da fotografia de Manuel Alberto Claro, do Chile, ele traça um mapa dessa situação, nunca se aproximando demais da ficção científica nem abdicando de uma influência surrealista. O melhor em seu cinema, desde Heli, é sua facilidade em construir uma narrativa antilinear que não soa desesperada em ser arthouse. Escalante lida com cenas de nudez sem que elas ultrapassem um determinado limite ou configurem um exagero, mas de forma quase casual. Alguns tendem a aproximar a atmosfera de A região selvagem daquela de Stalker; eu diria que ela está mais próxima de Twin Peaks, com sua floresta no meio da neblina e uma aparente tranquilidade nunca solucionada. Escalante é mais um grande nome do cinema mexicano, ao lado de Iñárritu, Cuarón, Reygadas e Del Toro.

Corra! foi lançado no Festival de Sundance e, a partir de um orçamento irrisório de 4,5 milhões, arrecadou 254. O sucesso se deve certamente à sua mescla entre suspense, terror, crítica social e toques de comédia que parecem deslocados, mas que no conjunto fortalecem o resultado. É um filme que prende a atenção do início ao fim, no entanto o espectador necessita de uma certa suspensão da narrativa mais comum do gênero, pois Corra! trabalha num campo em que Richard Kelly, de A caixa sobretudo, é um referencial. Desde a década de 70, o terror normalmente esteve personificado em ameaças indestrutíveis, como Freddy Krueger, Michael Myers e Jason, além de outros derivados; em Corra! esse medo parece se basear no comportamento da humanidade e de como a vítima reage a ele.

Uma espécie de testamento de sua obra, Alejandro Jodorowsky, autor de clássicos como El Topo e Santa Sangre, faz uma homenagem à sua origem como poeta, intercalando imagens de infância e da sua entrada na vida adulta, cercada de figuras estranhas. Mais do que uma das influências de David Lynch, por exemplo, Jodorowsky é um criador de imagens inesquecíveis, o que faz novamente aqui com auxílio da fotografia de Cristopher Doyle, que trabalha frequentemente com Wong Kar-Wai. A mescla de cores e uma narrativa surrealista conduz o filme a um espaçamento em que o espectador não sabe exatamente o que está acontecendo ao certo, mas sabe certamente que é grande cinema.

Alien: Covenant expande com qualidade evidente as ideias de Prometheus, sem ficar restrito ao universo simplesmente de monstros alienígenas; pode-se dizer que Ridley Scott ingressa numa fase em que o choque, como mostra ao final de O conselheiro do crime, atualiza o heroísmo dos anos 70 e 80. Não assusta como Vida, inspirado em Alien, mas é mais denso, e que alguns espectadores não queiram esse caminho mostra o quanto Scott está no caminho certo: do acréscimo substancial à sua criação. Do mesmo modo, Katherine Waterston, na figura de Daniels, configura uma espécie de libertadora de uma certa visão masculina, como Ripley. No entanto, enquanto havia fúria em Ripley, Waterston atenua seu enfrentamento com um receio plausível. Ela sofre ao ter de enfrentar a situação, não é uma guerreira como Ripley – e nisso Scott desenha um arco diferente e interessante da produção de Cameron principalmente, na qual Sigourney Weaver construía uma versão feminina de combate. No final, apesar da montagem excessivamente rápida, Scott continua exímio em filmar cenas de ação, com a fotografia impecável de Dariusz Wolski.

Além de Pablo Larraín extrair grandes atuações de todo o elenco, o que mais chama atenção, contudo, é a maneira como o cineasta transmite as sensações de cada personagem. Há um sentido de solidão diante do inesperado, uma angústia que não consegue se desprender do corpo e puxa o enfrentamento de toda uma existência. Jackie, depois do assassinato de JFK, vê toda sua vida se transformar em horas, e o que lhe resta é tentar projetar imediatamente o que pode acontecer a seguir. O roteiro de Noah Oppenheim (o mesmo, surpreendentemente, de Maze Runner) é eficaz na maneira como liga passado e presente (o da entrevista) e como deixa algumas lacunas para o espectador preencher, sobretudo quando Jacqueline precisa preparar o enterro do marido. O político, que existia por exemplo em JFK, de Oliver Stone, acaba sendo diluído em meio a comportamentos de bastidores que oscilam entre o drama implacável e a simples necessidade de esquecer o que aconteceu.

Os atores que representam Cherrie nas três fases da vida apresentam características que levam a crer que parecem realmente a mesma pessoa, e este é outro acerto de Barry Jenkins. O personagem acaba tendo uma ênfase que não se dá por meio dos diálogos (eles quase inexistem de sua parte) e Jenkins dá uma espécie de transcendência a momentos focados do cotidiano. Durante quase todo a narrativa, ele tem receio justamente de se enxergar, de saber o que realmente deseja em relação ao que se passa à sua volta, e isso se mostra ainda mais quando Jenkins lança a analogia entre as cores de sequências diferentes para interligá-las. Se para alguns isso pode soar apenas visualmente interessante, estilo sobre a substância, é preciso dizer que ele realmente consegue efetuar um desenho para cada símbolo que vai evocando, principalmente mais ao final, de maneira comovente. Essas cenas dispersas parecem banhadas literalmente pela luz do luar, assim como o momento definidor para o sentimento de Cherry se dá à noite em frente ao mar. É uma obra absolutamente comovente, sem fazer nenhuma força para que isso aconteça.

O mais interessante talvez seja como Selton Mello vai costurando memórias e narrações internas com o cenário ao redor: as viagens de motocicleta por estradas desertas evocam uma solidão estendida aos personagens. Se o diálogo com o cinema de Fellini é evidente por meio da metalinguagem e da maneira como se desperta a paixão pelo cinema, os arredores da casa de campo onde Tony e sua mãe vivem, com seus varais de roupa e uma longa fileira de árvores distante remete ao melhor Andrei Tarkosky de O espelho e Nostalgia, com sua sensação de isolamento de tudo, o que se sente igualmente na ficção científica do cineasta russo Solaris. Conhecendo algumas dessas paisagens, arrisco dizer que Selton Mello as mostra como talvez nenhum cineasta brasileiro antes dele (lembrei algumas vezes do subestimado e semiesquecido O quatrilho, mas aqui uma dinâmica narrativa maior está em jogo). Isso não é pouco, visto a qualidade de algumas obras.

A trilha sonora de Michael Giacchino fornece a introversão e a generosidade que o roteiro do diretor Matt Reeves e Mark Bombak repassa aos espectadores por meio de pouquíssimos diálogos. O filme passa sensações ao invés de um sentimento de aventura: a maneira como César precisa enfrentar o Coronel, o tratamento dado aos seus companheiros símios na construção do muro, o sentimento de ter uma menina órfã depois de causar a ela o que ele mesmo passou em sua vida. Todos esses temas se misturam com uma paisagem invernal, em mudança (o diretor de fotografia Michael Seresin acerta na paleta de cores escolhida), e os personagens em esconderijos ou presos, esperando o anúncio de uma rebelião que possa trazê-los de volta à vida. Planeta dos macacos – A guerra é um filme muito denso e mesmo profundo, com uma segurança técnica irretocável e um senso de escala capaz de proporcionar às cenas de ação uma grandiosidade especial.

Nicole Kidman está num de seus melhores momentos (embora Geraldine Page faça muito bem o papel no original de Clint Eastwood, muito inferior a este), Kirsten Dunst é minuciosa nos gestos de uma jovem melancólica, Colin Farrell é notável, entre uma certa ingenuidade e uma tentativa de manipular, e Elle Fanning acerta no tom de fingimento (o único senão é sua pouca presença, ao contrário de sua personagem na versão de 1971). Por esses elementos, entende-se que Sofia Coppola volta a seus melhores momentos, de Maria Antonieta e Um lugar qualquer, mas com um desenvolvimento ainda maior de temas discretos, que não se apresentam para o espectador com uma necessidade de convencê-lo sobre determinadas abordagens. Para Sofia, o mistério da humanidade está escondido no bosque como o soldado, à espera de atendimento. Não parece por acaso a maneira como a diretora utiliza a névoa do amanhecer como uma espécie de convite a tentar desvendar esse mistério insondável.

Gore Verbinski lida com suas ideias de maneira às vezes subjetiva, mas que conferem poder de fôlego, mesmo no final do terceiro ato, quando tudo é impulsionado a um gênero que mais parece dialogar com as fitas de terror de Roger Corman, quase se transformando num exemplo de cinema dos anos 50 sob o olhar contemporâneo. Pode-se dizer que, com esse intuito, Verbinski desenha um cinema que parte dos anos 40 e chega aos dias atuais, utilizando molduras já usadas com outras verdadeiramente inovadoras, sempre inovando com um design de produção no qual mergulha literalmente tanto os personagens quanto os espectadores. Há um senso de realidade permanente nas passagens do lugar sendo descobertas e é como se fossem pinturas vivas.

Darren Aronofksy destrói o conceito literário de autor e de si mesmo – à medida que escreve o roteiro. A metáfora de mãe! é uma sátira ao próprio Aronofsky: importa, para ele, não a personagem, e sim Jennifer Lawrence, que está, por sinal, excelente, no melhor momento de sua carreira depois de Joy, lembrando muito a performance de Laura Dern em Império dos sonhos. Sem a musa não há obra, não há vida. Mas, no final, pode-se trocá-la: é preciso um novo escrito. Sim, o terceiro ato é difícil de ser visto, especialmente uma cena desagradável, contudo é ele que sintetiza a estranheza.
Diante disso, estamos também lançados num filme sem gênero demarcado. O que mãe!, além de uma adaptação de ideias de A república de Platão, poderia ser? Um drama? Um suspense? Um terror? Certamente, um híbrido de todos esses gêneros. E mãe!, mesmo com seu psicologismo por vezes nada discreto, mas ainda interessante, ainda consegue ser um filme pop, ou seja, acessível, exercendo um magnetismo próprio e fascinante de um acabado cult movie. Poucos diretores conseguiriam isso, e Aronofsky é um deles.

Especialista em cenas de ação elaboradas, como mostrou principalmente em Chumbo grosso, aqui Edgar Wright consegue ainda mais. Inspirado claramente pelo referido DriveAtração perigosa, de Ben Affleck, e Caçadores de emoções, Wright torna o arsenal de cores dos cenários num pacote de amplo apelo popular, sem facilitar a narrativa. O diretor utiliza esse apoio de maneira eficiente em várias sequências, fazendo um repertório capaz de desenhar ainda melhor seu personagem central e inserir o espectador no ritmo da narrativa, basicamente sobre o sonho de um jovem em adentrar na vida adulta. Como em Scott Pilgrim, não há gênero definido aqui, apenas diversão inteligente garantida.

O diretor estreante Kogonada mescla seus personagens aos lugares que visitam, e a maneira como eles os filma também em casa, com seus reflexos em espelhos, mostra um grande potencial narrativo. Poderia resultar num cinema excessivamente calculado, restrito a imagens e simbologias, porém há uma emoção que abastece internamente a história. Mais ainda quando Casey (Haley Lu Richardson), em determinado momento, fala de seus sentimentos e a câmera, que filmava um prédio, de costas, a mostra de frente, mas sem revelar o que está dizendo. Nesse sentido, humanidade e arquitetura se conjugam no mesmo tempo. Em outro momento, a personagem central liga para uma pessoa e a observa do lado de fora em razão de o prédio ser todo envidraçado: o olhar invade a arquitetura, mas nem por isso há uma aproximação maior entre as pessoas. Outro momento que chama a atenção é quando, sentindo-se um tanto perdido, Jin observa a distância um prédio abandonado: é como se o prédio representasse exatamente como ele se sente.

Noah Baumbach consegue conciliar o ambiente urbano de Nova York, pano de fundo para muitos de seus filmes com um ambiente mais bucólico, de interior, como se a intimidade dos personagens sempre estivesse conciliada com os cenários. Algumas passagens podem parecer desnecessariamente explicativas, no entanto conservam sempre um tom familiar capaz de tornar o material de Baumbach próximo do espectador. Os personagens, mesmo adultos, adotam algumas vezes um comportamento infantil, mas o roteiro não torna isso superficial, tentando minimizar a dimensão deles, e sim os torna mais complexos. Na tentativa de não reprisarem o passado, eles olham para a geração futura com a preocupação de fazerem o certo: não há também um sentido de competição novamente em cena.

O filme lança os homens no lado oposto das mulheres: para Chan-wook Park, elas assumem seus papéis, enquanto eles fingem assumi-los e, quando o fazem, nunca saem de seus esconderijos. Nesse sentido, seu objetivo é psicológico em vários sentidos, e absolutamente simétrico em suas escolhas. Um drama nos moldes vitorianos transportado para o cenário asiático, com toques de um thriller e sobre a violência subjetiva, A criada também é um filme de costumes excêntricos com tendência ao erótico em algumas cenas belissimamente filmadas. É inevitável, por sua temática e cenas ousadas, lembrar do francês Azul é a cor mais quente, que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013. De qualquer modo, Park, ao contrário de Kechiche, não filma essas cenas como semidocumentais: ele adota mais a beleza plástica de cores e gestos de Oshima em O império dos sentidos.

Como A separação e mesmo À procura de Elly, que tinha uma primeira metade esplendorosa para uma segunda de menos impacto, O apartamento joga com o sentimento do espectador de modo a fazê-lo entender os sentimentos de vingança e de perdão em igual sintonia. Sabemos por que a raiva transborda e entendemos quando ela deixa de ter efeito, quando as pessoas se desnudam diante de um acontecimento e se mostram simplesmente pelo que são. Vencedor dos prêmios de melhor roteiro e ator em Cannes, O apartamento investe numa narrativa situada entre o universo iraniano e a peça de origem norte-americana de Miller, instituindo um paralelo entre os personagens representados e os da realidade, assim como o belo cenário teatral cria um contraste com o apartamento real cheio de rachaduras e ainda não habitado por completo, à medida que o casal deseja sair dele.

Claro que, por todo seu contexto, sua publicidade, Silêncio trata da fé do ser humano: quando vamos ao filme, porém, Martin Scorsese lança um olhar de que a condição da fé passa pela materialidade, tanto que os personagens cristãos são obrigados a enfrentarem símbolos, neste caso cruzes ou a imagem de Cristo num molde de metal que eles precisam desrespeitar ou não. Vários filmes de Scorsese tem esse conflito religioso como pano de fundo – como o subestimado Vivendo no limite, sobre um motorista de ambulância, Gangues de Nova York, permeado pela violência, ou ainda Cabo do medo –, e obviamente ele não está doutrinando o espectador e sim mostrando que o discurso está ligado mais a símbolos. A pergunta que Scorsese lança é: podemos prendê-los e ameaçá-los de morte?

Quase não há mais obras sobre gângsters e este especificamente traz uma mistura de Os intocáveisDália negra e Dick Tracy (os tiroteios são filmados com uma precisão irretocável), além de Inimigos públicos, de Michael Mann, principalmente na maneira como Ben Affleck apresenta seus personagens. A reconstituição fina oferecida pelo filme não é menos atrativa do que sua narrativa desenhada com recursos mínimos a partir do romance de Dennis Lehane. Não há o mesmo nervosismo urbano dos primeiros filmes de Affleck, justamente pela atmosfera, e sim uma frieza impactante nas entrelinhas, acrescentada pela narração esporádica de Coughlin. Também não há nenhum humor aqui: esta é uma tentativa de empregar o mesmo clima das peças de gângsters dos anos 40 e 50. Talvez seja ainda mais: Affleck mostra como os gângsters estão presos a um momento histórico e a um comportamento que apenas pretende flertar com a violência, sem ter nenhuma ideia do que ela acarreta.

Quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades. Nesse sentido, Damien Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

A maneira como o diretor Jim Jarmusch mostra os poemas criados pelo motorista de ônibus (criações de Jarmusch e do poeta Ron Padgett) vai se mesclando ao seu dia a dia repetitivo, e Driver tem a melhor atuação de sua trajetória, depois de viver o vilão Kylo Ren do Star Wars de Abrams, mostrando um crescimento desde os filmes realizados com Baumbach: fazendo um homem tranquilo e gentil, trata-se da liderança do filme e conduz tudo com rara eficácia. Ele se sente gentil, contudo não de maneira simplista, e generoso, sem aparentar um exagero. Num determinado momento decisivo, ele olha para a capa de um de seus livros preferidos, imaginando possivelmente seu poema junto dele. Em outro, ele visualiza o nome de uma marca de fósforos, Ohio Blue Tip, gravado na caixinha, e começa a selecionar a partir dessa imagem palavras para um poema. As palavras e os versos são retratados como parte de um mesmo ciclo: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, o volante e a biblioteca; tudo recomeça novamente a partir da imaginação.

Se o original de Ridley Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K (Ryan Gosling). Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa, outra assinada por Denis Villeneuve.

De canção em canção requer novas visualizações para se obter mais das camadas que Terrence Malick entrega. Talvez seja melhor assisti-lo como um conjunto de peças que vão se encaixando mais por meio da sensação visual e dos temas enfocados e pelas atuações, não se dando tanta importância à ordem em que isso acontece: melhor seria acompanhar os trajetos indefinidos dos pássaros no céu, mostrados ao longo de todo o filme, em momentos diferentes. Como a vida, Malick não esclarece onde as relações começam ou terminam: é a própria viagem que se faz o importante. Os personagens conturbados necessitam apenas de uma ligação humana para darem sentido ao que vivem. O que se tem é mais um dos grandes momentos do cinema, uma amostra de como tornar um filme numa verdadeira experiência, muito em razão novamente da arte conjunta de Malick e Lubezki.

Este é considerado um “show de TV”, sobretudo porque é dividido em episódios. Mas Decálogo, de Krzysztof Kieślowski, também era dividido em episódios de TV e muitos o elegem como melhor filme dos anos 80. Twin Peaks é um experimento cinematográfico que apenas um canal de TV quis bancar, nos tempos modernos. Quem quiser o considera uma série de TV, mas, como diz Lynch, pode ser um filme de 18 horas, uma continuação direta de Twin Peaks – Fire walk with me (1992) e de Império dos sonhos, com o anjo de Laura Palmer pairando sobre a pequena cidade na divisa com o Canadá, em meio a visões de Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e tentativas do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) de voltar ao bom café. O diretor, o elenco, a fotografia, a trilha sonora e o design de produção são de artistas renomados do cinema. Twin Peaks é cinema que não chegou à tela grande – como várias grandes obras hoje. Das suas 18 horas, ao menos 10 são algumas das maiores peças audiovisuais da década. Da sala vermelha de Lynch à estrada perdida de Hitchcock, também é a história do cinema sendo recontada, passando pelo extraordinário momento em que o destino de Laura é selado. Neste momento, o cinema passa a não ser apenas cinema.

Melhores de 2017 (diretores, atores, atrizes… e categorias técnicas)

Por André Dick

Cinematographe apresenta, a seguir, listas dos cinco melhores nas categorias principais (diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, elenco, roteiro original e roteiro adaptado) e técnicas (fotografia, trilha sonora, montagem, design de produção, figurino, maquiagem, efeitos visuais e efeitos sonoros) de filmes disponibilizados comercialmente em diferentes plataformas no Brasil ao longo de 2017. Não há, nelas, ordem de preferência. O próximo post apresentará os melhores filmes do ano.

Melhor diretor

Jim Jarmusch (Paterson), Denis Villeneuve (Blade Runner 2049), Damien Chazelle (La La Land), Terrence Malick (De canção em canção), David Lynch (Twin Peaks – O retorno)

Melhor ator

Andrew Garfield (Até o ultimo homem), Adam Sandler (Os Meyerowitz – Família não se escolhe), Joel Edgerton (Loving), Ryan Gosling (La La Land), Kyle MacLachlan (Twin Peaks – O retorno)

Melhor atriz

Jennifer Lawrence (mãe!), Natalie Portman (Jackie), Sareum Srey Moch (Primeiro, mataram o meu pai), Rooney Mara (Una), Danielle Macdonald (Patty Cake$)

Melhor ator coadjuvante

Ben Stiller (Os Meyerowitz – Família não se escolhe), Dev Patel (Lion – Uma jornada para casa), Garrett Hedlund (A longa jornada de Billy Lynn), Trevante Rhodes (Moonlight – Sob a luz do luar), Miguel Ferrer (Twin Peaks – O retorno)

Melhor atriz coadjuvante

Bridget Everett (Patty Cake$), Naomi Watts (Twin Peaks – O retorno), Lily Gladstone (Certas mulheres), Izabela Vidovic (Extraordinário), Greta Gerwig (Mulheres do século 20)

Melhor elenco

Os Meyerowitz – Família não se escolhe, De canção em canção, Twin Peaks – O retorno, Silêncio, O estranho que nós amamos

Melhor roteiro original

Kogonada (Columbus), Jim Jarmusch (Paterson), Noah Baumbach (Os Meyerowitz – Família não se escolhe), Jordan Peele (Corra!), Mike Mills (Mulheres do século 20)

Melhor roteiro adaptado

Martin Scorsese e Jay Cocks, baseado em romance de Shūsaku Endō (Silêncio), Loung Ung e Angelina Jolie, baseados em romance de Loung Ung (Primeiro, mataram o meu pai), Selton Mello e Marcelo Vindicato, baseados em romance de Antonio Skármeta (O filme da minha vida), Barry Jenkins, baseado em peça teatral de Tarell Alvin McCraney (Moonlight – Sob a luz do luar), Chan-wook Park e Chung Seo-Kyung, baseados em romance de Sarah Waters (A criada)

Melhor fotografia

Roger Deakins (Blade Runner 2049), Chung Chung-hoon (A criada), Linus Sandgren (La La Land), Emmanuel Lubezki (De canção em canção), Christopher Doyle (Poesia sem fim)

Melhor trilha sonora

Mica Levi (Jackie), Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (Blade Runner 2049), Justin Hurwitz (La La Land), Alexandre Desplat (Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso), Angelo Badalamenti (Twin Peaks – O retorno)

Melhor montagem

Jonathan Amos e Paul Machliss (Em ritmo de fuga), Tom Cross (La La Land), Joe Walker (Blade Runner 2049), Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase (De canção em canção), Sebastián Sepúlveda (Jackie)

Melhor design de produção

Dennis Gassner (Blade Runner 2049), Seong-hie Ryu (A criada), Eve Stewart (A cura), David Wasco (La La Land), Hugues Tissandier (Valerian e a cidade dos mil planetas)

Melhor figurino

Jacqueline West (A lei da noite), Pascale Montandon-Jodorowsky (Poesia sem fim), Sang-gyeong Jo (A criada), Madeline Fontaine (Jackie), Dante Ferretti (Silêncio)

Melhor maquiagem

BrightValerian e a cidade dos mil planetas, Star Wars – Os últimos Jedi, Extraordinário, Guardiões da galáxia Vol. 2

Melhores efeitos visuais

Blade Runner 2049, Alien: CovenantStar Wars – Os últimos JediValerian e a cidade dos mil planetasLiga da Justiça

Melhores efeitos sonoros

Blade Runner 2049, Alien: CovenantStar Wars – Os últimos JediDunkirkLiga da Justiça

Extraordinário (2017)

Por André Dick

Conhecido por escrever o romance-diário As vantagens de ser invisível e adaptá-lo para o cinema, também à frente da direção, Stephen Chbosky era o diretor ideal para Extraordinário. A partir de outro romance, um best-seller escrito por R. J. Palacio, Chbosky mostra os passos de August “Auggie” Pullmann, que possui um problema raro que afeta sua face, “disostose mandibulofacial”. Depois de várias cirurgias, ele estudou em sua casa, com aulas da própria mãe, Isabel (Julia Roberts). No entanto, antes do ensino médio, Isabel e seu marido, Nate (Owen Wilson), o matriculam numa escola particular.
A experiência de um novo mundo se descortina para August. No primeiro dia, ele é acompanhado por três futuros colegas, entre eles Jack Will (Noah Jupe). Depois, ele é ajudado pelo diretor Tushman (Mandy Patinkin) e pelo professor de inglês Sr. Browne (Daveed Diggs) a enfrentar o bullying de Julian (Bryce Gheisar) e seus amigos. Toda essa parte lembra muito As vantagens de ser invisível, que tratava de um adolescente solitário, com problemas para se enturmar e visivelmente desconfortável no colégio, que fazia amizade apenas com um professor (Paul Rudd).

Chbosky também se concentra na rotina de Olivia, ou “Via”, a irmã de Auggie, que se matricula numa peça de teatro, onde conhece um rapaz, Justin (Nadji Jeter), depois que sua amiga, Miranda (Danielle Rose Russell) passa a ignorá-la. Ela não tem vergonha do irmão, mas se sente um pouco feliz por ser colocada sempre em segundo plano pelos pais, principalmente a mãe, que desistiu de sua carreira para cuidar do filho. Chbosky, com o auxílio da ótima atuação de Izabela Vidovic, como Olivia, tira um pouco o foco do personagem central e faz com que uma coadjuvante cresça em importância para a narrativa. Nesse sentido, lamenta-se que, mesmo terno, o personagem da mãe não se destaque como poderia, e Julia Roberts entrega ainda assim uma bela atuação, e o do pai é pouco aproveitado, mesmo com o sempre interessado Owen Wilson.

Para um filme que mostra uma criança com problema de ser aceita socialmente, Chbosky é muito sensível e tenta contrabalançar realidade e fantasia. O menino é fã de Star Wars e várias vezes se enxerga como se Chewbacca estivesse chegando ao colégio. Trata-se de uma resolução talvez simplista para o problema, mas, ao mesmo tempo, toca o espectador. Sua admiração também pela ciência – sintetizada pelo fato de querer esconder seu rosto usando um capacete de astronauta – funciona em vários pontos, interligando-o a outros personagens. Do mesmo modo, há uma lembrança cortante de Via da sua avó (feita por Sonia Braga) diante de uma praia deserta que sintetiza mais o personagem do que todas as suas situações.
Talvez o filme que mais tenha contato com Extraordinário seja o belíssimo Marcas do destino, em que Eric Stoltz fazia um jovem, Roy L. Dennis, com uma doença que o fazia se parecer com o “homem elefante” de Lynch. Lá, Bogdanovich equilibrava as atuações de Stoltz e Cher, como sua mãe, com rara eficácia. Em Extraordinário, Chbosky toca em alguns pontos sensíveis quando mostra diálogos entre Auggie e sua mãe, e a química entre Tremblay e Roberts é comovente.

Depois de O quarto de Jack, pelo qual merecia uma indicação ao Oscar, Tremblay aparece sob uma maquiagem muito bem feita, mas, quando precisa realçar pontos sensíveis a seu personagem, demonstra a competência que já havia repetido este ano no curioso O livro de Henry. Ele ganha uma companhia exitosa de Vidovic e Jupe, ambos muito bem, servindo como acréscimos substanciais à sua história. Apenas se lamenta que, ao contrário do que mostra em As vantagens de ser invisível, Chbosky evita a complexidade da história e prefere estabelecer pontos entre os personagens com uma humanidade que parece por vezes encaixada demais para agradar à plateia. Seu roteiro para A bela e a fera deste ano já tinha esse problema. Isso, por um lado, não prejudica Extraordinário, uma vez que sua narrativa continua fluida, por outro lado concede certo desapontamento por não se ver esses personagens e suas inter-relações exatamente desenvolvidas. Ainda assim, seu entusiasmo diante da vida contagia o espectador.

Wonder, EUA, 2017 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Julia Roberts, Owen Wilson, Jacob Tremblay, Mandy Patinkin, Noah Juper Daveed Diggs, Nadji Jeter, Danielle Rose Russell, Sonia Braga Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Fotografia: Don Burgess Produção: Michael Beugg, Dan Clark, David Hoberman, Todd Lieberman Duração: 113 min. Estúdio: Lionsgate, Mandeville Films, Participant Media, Walden Media, TIK Films Distribuidora: Lionsgate

Bom comportamento (2017)

Por André Dick

Desde sua estreia no Festival de Cannes, Bom comportamento gerava grande expectativa, principalmente pela atuação de Robert Pattinson, cotado ao prêmio de melhor ator antes de serem revelados os vencedores. Ele interpreta Constantine Nikas, que tenta tirar seu irmão Connie (Ben Safdie, um dos diretores do filme, ao lado de Joshua Safdie) da terapia para conduzi-lo a um assalto a banco no Queens. Sua namorada, Corrie (Jennifer Jason Leigh), é chamada a tentar ajudá-lo numa situação que se configura arriscada. Seu interesse em ajudar o irmão é genuíno, mesmo que desperte um conflito com a avó, lembrando, num outro escopo, a relação dos irmãos de Rain Man.
Depois de uma passagem angustiante por um hospital, ele precisa em determinado momento da ajuda de uma senhora, Annie (Gladys Mathon), que mora com sua neta Chrystal (Taliah Webster), quando a história se desenrola de maneira decisiva, e as imagens acabam lembrando, mesmo de forma involuntária, Enter the void, de Gaspar Noé, sobretudo na maneira como são filmados os televisores.

Há filmes que têm um conceito interessante, e este é um. Sua primeira meia hora é muito bem solucionada: a montagem trepidante não dá quase espaço ao espectador recuperar o fôlego, e tudo se interliga de modo eficiente. No entanto, aos poucos, parece que algo na narrativa vai se perdendo. Apesar de elogiada, a trilha sonora de Daniel Lopatin é muito intrusiva, querendo dar uma dimensão especial a cada cena, o que tira o realismo que elas possuem e não está à altura do compositor que lhe serve de inspiração, Cliff Martinez. Perde-se o número de vezes em que a tensão é diluída por sua presença de fundo, extraindo mesmo a energia dos atores, parecendo um filme policial lado B dos anos 90. Ao mesmo tempo, uma certa história paralela se superpõe à principal, e um dos personagens principais se torna coadjuvante. Os close-ups vão tentar emprestar dramaticidade às sequências e algumas vezes conseguem, no entanto eles tentam imprimir muitas vezes expressões faciais que não acrescentam à narrativa.

Os ambientes sujos ou com neons tentam captar um universo em ebulição; faltam, contudo, diálogos e situações mais interessantes. Não raras vezes, a escrita soa forçada, ao contrário do que acontece num filme de Tarantino, a exemplo de Cães de aluguel, uma referência aqui. A atuação de Pattinson é boa, mas não chega perto da competência demonstrada em Cosmópolis, The Rover, Mapas para as estrelas e Z – A cidade perdida, ou mesmo Lembranças, passado na mesma Nova York. Os diretores não conseguem desenvolver um personagem que poderia ser fascinante, assim como desperdiçam Jennifer Jason Leigh, e a própria cidade onde a ação se passa. Uma metrópole sempre é um ótimo cenário para colocar personagens em movimento, guiados por uma perturbação interna ou externa, pois o diálogo é estabelecido de imediato. Em Bom comportamento, isso acontece mais ao início, mas, à medida que a trama progride, vai se sentindo um certo vazio, e não é apenas dos lugares imensos e caóticos que enfoca, sempre com uma câmera acelerada, tentando acompanhar a ação desses personagens.

A impressão que se tem é que, mais do que um drama, é um filme de ação disfarçado de indie. O melhor personagem, mais humano, acaba sendo Connie, numa boa atuação de Ben Safdie, e a revelação Taliah Webster representa bem a solidão e opressão de uma adolescente nesse universo enfocado. Ao mesmo tempo, por ser filmada com uma cor rosa, ela representa um resquício de inocência em meio a um universo marginal. Imagina-se um outro filme dirigido por Scorsese, dos anos 70 e 80, ou mesmo verdadeiramente influenciado pelo ótimo Vivendo no limite, com mais urgência e acerto. Por exemplo, Taxi Driver, uma referência visível, criava um atrito entre o mundo de Bickle, o taxista, e a trilha sonora calma: em Bom comportamento, tudo deve sugerir um mundo de perdição, e isso acaba sendo levado ao exagero. Uma boa aproximação seria com Baby Driver, com tom mais comercial e fotografia mais leve, muito superior em sua despretensão de mostrar o mundo do crime. Enquanto o filme de Wright acelera, o dos irmãos Safdie é de um vazio e pretensão capaz de agradar a quem imagina estar diante de um cinema antimainstream, quando, sem saber muito bem, está mergulhado naquilo que visa aos mesmos prêmios do cinema mainstream.

Good time, EUA, 2017 Diretores: Ben Safdie e Josh Safdie Elenco: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Ben Safdie, Barkhad Abdi, Buddy Duress Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein Fotografia: Sean Price Williams Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Dougas, Paris Kasidokostas Latsis Duração: 99 min. Estúdio: Elara Pictures, Rhea Films Distribuidora: A24

Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso (2017)

Por André Dick

George Clooney tem se mostrado alguém capaz de mesclar as carreiras de ator e diretor com uma competência poucas vezes vista. Depois de ser elogiado principalmente por Boa noite e boa sorte, que recebeu várias indicações ao Oscar, inclusive a melhor filme, sua carreira passou a ser mais visada: nesse caminho, Tudo pelo poder foi um êxito fora de série, com uma parceria notável entre Clooney e Ryan Gosling, e Caçadores de obras-primas, recebido com uma grande indiferença.
Para este novo projeto, depois da rejeição a seu último filme, Clooney obteve um roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen, que ele desenvolveu ainda mais com Grant Heslov. Passado em 1959, no bairro de Suburbicon, habitado por brancos, tudo treme com a chegada dos Mayer, uma família afro-americana. O início representa bem isso: o carteiro passeia pela rua entregando correspondências até que vê a senhora Mayer (Karimah Westbrook). Ele logo pergunta à vizinha se já viu quem chegou ao bairro e o que acontece a seguir é uma reunião no estilo Ku Klux Khan como que para definir o que fazer com a nova família. Isso é mais do que uma sátira: é uma visão ainda mais contundente sobre os subúrbios que Tim Burton já havia feito nos ótimos As aventuras de Pee-wee e Edward, mãos de tesoura, além do recente Grandes olhos.

Determinada noite, a família de Gardner Lodge (Matt Damon) é atacada por ladrões (Glenn Flesher e Alex Hassell), que amarram sua mulher, Rose (Julianne Moore), loira, que vive numa cadeira de rodas, assim como Margaret, a irmã gêmea, com cabelo escuro, e o filho Nicky (Noah Jupe). Este é o único que conversa com o filho dos Mayer, Andy (Tony Espinosa).
A invasão é estranha e deixa marcas na família, mas o que mais implode é a raiva dos moradores de Suburbicon contra os novos vizinhos. Margaret passa a agir de modo ainda mais estranho, tomando o lugar da irmã, inclusive ao pintar o cabelo da mesma cor que o dela. Há uma estranha relação entre Gardner e os bandidos que invadiram sua casa, que remete a Fargo e Arizona nunca mais, outras obras dos Coen. De maneira geral, pode-se entender por que esse roteiro dos Coen foi escrito logo depois da estreia deles, em Gosto de sangue, em 1984: ele basicamente antecipa os temas da dupla de diretores no cinema. No entanto, ao contrário dos Coen, Clooney utiliza os pátios de um bairro calmo nos Estados Unidos para fazer uma espécie de homenagem às pinturas de Edward Hopper, assim como em Um homem sério, no entanto com uma falta de alívio cômico (o humor, sobretudo no personagem de Damon, é anticlimático a todo momento).

O filme soa pesado em todos os termos de tratamento que oferece a seus personagens, lembrando a estreia de Clooney na direção, Confissões de uma mente perigosa, nunca deixando o espectador confortável, e a trilha excelente de Alexandre Desplat mostra uma espécie de recuperação da imagem do subúrbio como uma ameaça presente desde Alfred Hitchcock. Os personagens também são ambíguos, no melhor sentido, nunca se sentindo fáceis ou meras caricaturas, como poderiam ser, o que acontece nos experimentos mais fracos dos Coen, a exemplo de Matadores de velhinhas e O amor custa caro. Clooney trabalhou com os diretores em outro momento menos inspirado, E aí, meu irmão, cadê você?, e aqui ele mostra um determinado senso que remete a eles no visual. No entanto, mais do que a eles, Clooney retoma um padrão clássico de imagem e sonoro, dos anos 50, para introduzir uma ambientação bem trabalhada. Mesmo quando Gardner e Margaret são flagrados no porão por Nicky há um clima de Psicose no ar (não parece aleatória a escolha de Julianne Moore para o papel, tendo ela feito a refilmagem da obra de Hitchcock nos anos 90). Também existe uma mescla entre comportamento estranho, relacionamentos não esclarecidos e um desrespeito constante à infância diante dos problemas que eclodem no bairro. O elenco, a começar por Moore e Isaac, contribui muito para esse senso deslocado.

A fotografia de Robert Elswit, com sua luminosidade, apenas esconde um lado muito nublado, turvo, da América, que não se deixa identificar. Numa visita à delegacia, também sentimos a presença da textura de imagem, além do trabalho impecável de figurino, da obra-prima O mestre, de Paul Thomas Anderson. Não parece inexplicável que este filme tenha sido tão questionado pela crítica em geral: Suburbicon realmente não define seu gênero nem explica exatamente sua proposta. A visão de Clooney para o que deveria ser um roteiro menos corrosivo dos Coen se mostra caótica, tanto quanto a recepção da vida moderna que temos aqui por meio de imagens dos anos 50. Tudo aqui antecipa a era Kennedy e os protestos em torno de Malcolm X, que trouxeram um novo panorama à sociedade norte-americana. O trabalho de Gardner Lodge, por trás de escritórios e portas simétricas, esconde apenas uma desilusão. Para Clooney, esses personagens querem mudar suas famílias, de algum modo, e visam sempre uma espécie de trama implícita em suas ações. Não há nada em Suburbicon que não esteja em pé de confronto, mas os personagens se escondem disso, agindo de maneira infantilizada e enfrentando uma rua escura com uma bicicleta.

Suburbicon, EUA, 2017 Diretor: George Clooney Elenco: Matt Damon, Julianne Moore, Oscar Isaac, Noah Jupe, Glenn Fleshler, Alex Hassell, Gary Basaraba, Jack Conley, Karimah Westbrook, Tony Espinosa, Leith Burke Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, George Clooney, Grant Heslov Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: George Clooney, Grant Heslov, Joel Silver, Teddy Schwarzman Duração: 105 min. Estúdio: Paramount Pictures, Black Bear Pictures, Silver Pictures, Smoke House Pictures Distribuidora: Paramount