O escândalo (2019)

Por André Dick

Em 2017, as acusações de assédio de atrizes contra o produtor Harvey Weinstein acabaram tomando grande proporção, chegando também a outros nomes., alguns bastante conhecidos no círculo de Hollywood. O escândalo, de certo modo, ao mostrar as acusações contra Roger Ailes, o chefe da Fox News, em 2016, acaba dialogando com esse cenário, em que mulheres constituíram movimentos como %MeToo e Time’s Up.
O filme de Jay Roach, responsável antes por comédias como Entrando numa fria e por Trumbo, que deu uma indicação ao Oscar a Bryan Cranston, procura mostrar algumas jornalistas e apresentadoras desse canal, mais especificamente Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman), que, sob as ordens de Roger, ingressavam na grade como figuras de destaque, a primeira principalmente e a segunda no programa Fox and Friends. Megyn, assessorada por Lily Balin (Liv Hewson) e Julia Clarke (Brigette Lundy-Paine) e casada com Doug (Mark Duplass), acaba tendo um sério contratempo depois de uma pergunta num debate ao então candidato Donald Trump.

O escândalo é uma amostra de fazer um certo cinema que se pretende de denúncia e consegue abranger uma atmosfera situada entre a vida pública e restrita aos bastidores. Ele se apoia tanto nas duas protagonistas quanto na figura da jovem Kayla Pospisil  (Margot Robbie),, não baseada exatamente numa personalidade real, que chega à emissora pretendendo, claro, conquistar seu espaço e se torna amiga de Jess Carr (Kate McKinnon). As discussões sobre posicionamentos ideológicos permeiam o roteiro bem escrito de Charles Randolph, apostando num estilo semelhante em A grande aposta, embora certamente entrecortado algumas vezes por alguns exageros expositivos. A figura de Roger, sustentada por Murdoch (Malcolm McDowell), dono da emissora, é muito bem desenhada por John Lithgow, numa interpretação excepcional, embaixo de uma maquiagem que o deixa quase irreconhecível – a maquiagem é um destaque também em Theron e Kidman, para deixá-las parecidas com as apresentadoras reais. Suas conversas com as âncoras são conflituosas, mostrando as manobras de uma emissora para conquistara audiência, até que o diretor Roach se direciona para o objetivo. E, quando ingressa em âmbito jurídico, num determinado momento, surge a advogada Susan Estrich,, em ótima atuação de Allison Janney, inserindo o filme num ambiente mais ousado.

De certo modo, O escândalo não chega a tomar uma posição como poderia se prever pela sua temática, não no sentido de reconhecer quem é a peça-chave para a denúncia, e sim para outros assuntos que correm à margem. Roach evita também entrar em algumas escolhas mais espinhosas, sem, no entanto, não deixar de explorar o drama dessas mulheres que sofreram assédio.
Charlize Theron é uma grande atriz e tem aqui seu melhor desempenho talvez desde Jovens adultos, um de seus filmes mais subestimados, fazendo uma apresentadora ao mesmo tempo fria e interessada no bem-estar dos familiares. Kidman também é excelente, tecendo uma dualidade entre certa segurança à frente das câmeras e uma necessidade de querer agradar, mas sem nunca conseguir se encaixar no que está acontecendo ao redor. E Robbie tem sua atuação mais dedicada desde O lobo de Wall Street, conseguindo se mostrar vulnerável e, ao mesmo tempo, ambiciosa. Ela tem a cena certamente mais difícil e que causa angústia no espectador, além de se apoiar bem, em alguns momentos, na atuação de Kate McKinnon, mais conhecida por ser humorista no Saturday Night Live e por sua participação no Caça-fantasmas, mais uma no elenco predominantemente feminino e de qualidade notável, alternando comédia e drama com a mesma competência.

O escândalo também se apresenta como um filme sobre a mulher num meio de comunicação e sua tentativa de conciliar a ambição corrente, a dedicação à família e seus valores pessoais e intransferíveis. O roteirista não chega a desenvolvera  ligação entre as três figuras proeminentes como poderia, deixando nas entrelinhas que elas sofreram assédio na mesma proporção, mas se mantêm a distância entre elas, não chegando a querer embarcar num movimento. É nesse ponto, talvez, que alguns considerem sua história mais atenuadora e menos motivador para o universo feminino, abdicando de maior aprofundamento, principalmente no terceiro ato.
Em termos de estilo, é editado de maneira ágil, como alguns filmes que se assemelham a ele, a exemplo de Vice, A grande aposta e As golpistas, todos com um selo de Adam McKay. Como Vice, especificamente, do ano passado, em determinados momentos acaba tratando seus temas de maneira superficial, porém nunca de maneira desinteressante. Isso é apoiado pelo brilhante design de produção e pelo figurino de Colleen Atwood (habitual colaboradora de Tim Burton), que transportam o espectador quase para dentro da emissora de televisão, com uma perspicácia também da fotografia de Barry Ackroyd (de obras como Guerra ao terror e Detroit), o que não é comum em boa parte das obras que tratam de jornalismo.

Bombshell, EUA, 2019 Diretor: Jay Roach Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Malcolm McDowell, Allison Janney Roteiro: Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Aaron L. Glibert, Jay Roach, Robert Graf, Michelle Graham, Charles Randolph, Margaret Riley, Charlize Theron, AJ Dix, Beth Kono Duração: 108 min. Estúdio: Bron Creative, Annapurna Pictures, Denver + Delilah Productions, Lighthouse Management & Media, Creative Wealth Media Distribuidora: Lionsgate

Indicados ao Oscar 2020

Por André Dick

Dos possíveis candidatos ao Oscar que apontei em outubro de 2019 (neste post), sete chegaram às indicações de melhor filme: O irlandês, Coringa, 1917, Adoráveis mulheres, Ford vs Ferrari, Jojo Rabbit e Era uma vez em… Hollywood.  Da repescagem chegaram dois: História de um casamento e Parasita. Coringa teve o maior número de indicações (11), seguido por Era uma vez em… Hollywood, O irlandês e 1917 com 10 cada um.

Melhor filme

Adoráveis mulheres
Coringa
O irlandês
Era uma vez em… Hollywood
Parasita
Jojo Rabbit
Ford vs Ferrari
História de um casamento
1917

Os possíveis indicados principais sempre foram O irlandês, Coringa e Era uma vez em… Hollywood. A partir de dezembro, eles ganharam a companhia de História de um casamento. A princípio, considerava pouco viável dois indicados da Netflix a melhor filme, mas no Globo de Ouro surgiram mais dois: Meu nome é Dolemite e Dois Papas. O vencedor do Festival de Sundance, Jojo Rabbit, não mostrou a mesma força que vencedores dos anos anteriores, Três anúncios para um crime e Green Book, mostraram, sendo ignorado no Independent Spirit Awards. Em início de janeiro, Adoráveis mulheres e 1917 começaram suas campanhas e chegaram também ao Oscar. Ford vs Ferrari, apesar da decepção nas bilheterias, também sempre foi visto como adequado ao gosto da Academia de Hollywood. E Parasita, desde a vitória no Festival de Cannes, foi ganhando cada vez mais admiradores e se tornou um grande e inesperado sucesso de bilheteria. Não vi apenas 1917: os outros são excelentes ou muito bons, não entrando nenhuma obra irregular na lista.
Esta é facilmente a melhor seleção desde o início da regra de possíveis 10 candidatos ao Oscar de melhor filme ao lado daquelas de 2011 – Cisne negro, Bravura indômita, A rede social, Toy Story 3, A origem –, 2012 – A árvore da vida, Os descendentes, O homem que mudou o jogo, O artista, Meia-noite em ParisA invenção de Hugo Cabret – e 2013 – Django livre, O lado bom da vida, Lincoln, As aventuras de Pi, Amor, Os miseráveis e A hora mais escura.
Numa décima vaga, poderiam ter lembrado de O relatório, O caso Richard Jewll e, principalmente, a obra-prima O farol, indicado apenas na categoria de melhor fotografia. Também foi esquecido pelas premiações o melhor Soderbergh dos últimos anos: A lavanderia. Além de um filme que foi destituído pela crítica em geral e de grande qualidade: O pintassilgo, cujo prejuízo para a Warner foi marcante. Também não é preciso ter visto Uma vida oculta, de Terrence Malick, para saber que no mínimo seus valores técnicos foram deixados de lado. A distribuidora independente A24 não conseguiu emplacar seus filmes, mas Midsommar merecia ser lembrado. E, com a indústria ainda querendo manter as salas de cinema como a primeira opção para o espectador, o que não seria possível com a Netflix, 1917 surge preenchendo os requisitos: filme de guerra com potencial de prêmios e de ser blockbuster. Numa temporada do Oscar que parece ter se passado mais à frente da tela de TV (por causa de O irlandês, História de um casamento, Dois Papas) do que nos cinemas, a indústria se precavê. E é justo, pois nessa década certamente haverá uma transformação sem precedentes, com muitos filmes migrando das salas de cinema  para o streaming.
De qualquer modo, depois de seleções menos fortes – entre as quais as de 2015, 2016 e 2019 –, o Oscar volta a mostrar ótimos indicados em grande escala. E possivelmente a disputa será entre Era uma vez em… Hollywood, 1917 e O irlandês, com Coringa e História de um casamento (este, no entanto, bastante desvalorizando pelas premiações e chegando ao Oscar quase sem chances) correndo por fora. A grande surpresa seria a vitória de Parasita, não, claro, pela qualidade.

Melhor diretor

Martin Scorsese, por O irlandês
Todd Phillips, por Coringa
Sam Mendes, por 1917
Quentin Tarantino, por Era uma vez em… Hollywood
Bong Joon Ho, por Parasita

O diretor Martin Scorsese é certamente o nome mais histórico da lista, seguido de perto por Quentin Tarantino. Scorsese já ganhou o Oscar de direção por um de seus filmes menos interessantes, Os infiltrados, e Tarantino recebeu o Oscar de roteiro original por Pulp Fiction e Django livre. Ambos estão num momento de reavaliação de suas trajetórias, com Scorsese fazendo um épico de 3h30 e Tarantino uma ode a Hollywood. Joon Boon Hong fecha seu grande 2019 com esta indicação por Parasita. É merecida: um diretor que tem em sua carreira peças como Memórias de um assassino e Mother e aqui se supera. Todd Phillips é indicado por Coringa, ganhando o reconhecimento que não tinha por sua trilogia Se beber, não case! (sendo os dois primeiros ótimos) e por Cães de guerra. Sam Mendes, por sua vez, já recebeu o Oscar de melhor direção por Beleza americana, mas sua proeza técnica em 1917 tem sido elogiada e pode repetir o feito. Greta Gerwig não teve sua segunda indicação depois de Lady Bird., assim como Clint Eastwood novamente foi deixado de lado por O caso Richard Jewell. Outros indicados possíveis: Robert Eggers (O farol), Céline Sciamma (Retrato de uma jovem em chamas), Josh e Benny Safdie (Joias brutas) e Noah Baumbach (História de um casamento)

Melhor ator

Antonio Banderas, por Dor e glória
Leonardo DiCaprio, por Era uma vez em… Hollywood
Adam Driver, por História de um casamento
Joaquin Phoenix, por Coringa
Jonathan Pryce, por Dois Papas

O grande favorito, depois do Globo de Ouro e Critics’ Choice Awards, é Joaquin Phoneix, por Coringa. Ela já foi ignorado outras vezes, por O mesrtre, Johnny & June e Gladiador, além de não ter sido nomeado por obras-primas como Ela e Vício inerente. Seu concorrente principal Adam Driver, excelente em História de um casamento, que também foi destaque em outros três filmes em 2019: Os mortos não morrem, Star Wars – A ascensão Skywalker e O relatório. Vencedor por O regresso, DiCaprio está ótimo em Era uma vez em… Hollywood, mas desta vez dentro de uma linha de atuação mais segura. Jonathan Pryce, por sua vez, se destaca como o Papa Francisco de Dois Papas, em duelo com o feito por Hopkins. Em mais uma parceria com Almodóvar, Banderas tem uma das melhores oportunidades em sua filmografia com Dor e glória .
Outras grandes atuações, que poderiam ter sido lembradas: Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit), Adam Driver (O relatório)., Christian Bale (Ford vs Ferrari), Paul Walter Hauser (O caso Richard Jewell), Aaron Paul (El Camino – A Braking Bad movie), Brad Pitt (Ad Astra – Rumo às estrelas), Robert Pattinson (O farol), Matthew McConaughey (The beach bum), Adam Sandler (Joias brutas), Song Kang-ho (Parasita) e Robert De Niro (O irlandês). Também estavam entre as apostas Eddie Murphy (Meu nome é Dolemite) e Taron Egerton (Rocketman).

Melhor atriz

Cynthia Erivo, por Harriet
Scarlett Johansson, por História de um casamento
Saoirse Ronan, por Adoráveis mulheres
Charlize Theron, por O escândalo
Renee Zellweger, por Judy

Renée Zellwegger teve um início de século marcante, fazendo sucesso com O diário de Bridhget Jones e Chicago, além de ganhar o Oscar de atriz coadjuvante por Cold Montain. Depois de uma segunda década do século apagada, ela reaparece na cinebiografia Judy. Tem como concorrente Saoitse Ronan, indicada recentemente por ótimas atuações em Brooklyn e Lady Bird, que interpreta a escritora Jo em Adoráveis mulheres. Também estão entre as rivais  Scarlett Johansson, no melhor momento de sua carreira em História de um casamento. Charlize Theron, vencedora por Monster, é lembrada pelo polêmico O escândalo, e Cynthia Erivo por Harriet.
Poderiam ter sido lembradas Adèle Haenel (Retrato de uma jovem em chamas), Zhao Tao (Amor até as cinzas), Elle Fanning (Um dia de chuva em Nova York), Lupita Nyong’o (Nós), Costance Wu (As golpistas)., Felicity Jones (The aeronauts), Florence Pugh (Midsommar), Ana de Armas (Entre facas e segredos), Cate Blanchett (Cadê você, Bernadette?) e Awkwafina (A despedida)

Melhor ator coadjuvante

Tom Hanks, por Um lindo dia na vizinhança
Anthony Hopkins, por Dois Papas
Al Pacino, por O irlandês
Joe Pesci, por O irlandês
Brad Pitt, por Era uma vez em… Hollywood

Esta categoria reúne alguns atores com uma filmografia invejável. Depois das últimas premiações, Brad Pitt parece ser o favorito por Era uma vez em… Hollywood, mas não se pode desconsiderar Al Pacino e Joe Pesci, por O irlandês, ambos já vencedores do Oscar (Pacino com Perfume de mulher de melhor ator e Pesci nessa mesma categoria por Os bons companheiros). Juntam-se a eles Anthony Hopkins, com atuação memorável em Dois Papas, e Tom Hanks, na indicação solitária de Um lindo dia na vizinhança, depois de 20 anos sem uma nomeação (desde Náufrago).
Poderiam ter sido lembrados, caso a concorrência não fosse tão forte, Willem Dafoe (O farol), Sam Rockwll (Jojo Rabbit e O caso Richard Jewell),, Ray Liotta e Alan Alda (História de um casamento), Robert Pattinson (O rei) e Timothée Chalamet e Chris Cooper (Adoráveis mulheres)

Melhor atriz coadjuvante

Kathy Bates, por O caso Richard Jewell
Laura Dern, por História de um casamento
Scarlett Johannson, por Jojo Rabbit
Florence Pugh, por Adoráveis mulheres
Margot Robbie, por O escândalo

A atriz Laura Dern vem sendo muito premiada pela atuação em História de um casamento. No entanto, as outras indicadas são fortes: Margot Robbie por O escândalo; Kathy Bates (vencedora do Oscar de melhor atriz com Louca obsessão), por O caso Richard Jewell; Florence Pugh (também presente em 2019 no terror Midsommar) por Adoráveis mulheres; e a segunda nomeação para Scarlett Johansson por Jojo Rabbit,.
Poderiam também concorrer: Jennifer Lopez (As golpistas), Meryl Streep (A lavanderia), Annette Bening (O relatório), Beanie Feldstein (Fora de série), Nicole Kidman (O pintassilgo), Noémie Merlan (Retrato de uma jovem em chamas), Tilda Swinton (Os mortos não morrem) e Thomasin McKenzie  (Jojo Rabbit)

Melhor roteiro original

Rian Johnson, por Entre facas e segredos
Noah Baumbach, por História de um casamento
Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns, por 1917
Quentin Tarantino, por Era uma vez em… Hollywood
Bong Joon-ho, Jin Won Han, por Parasita

Sempre quando é indicado, Quentin Tarantino costuma ser o favorito nesta categoria, e não é diferente agora por Era uma vez em… Hollwyood. No entanto, ele tem uma boa competição com Joo Boon Hong, por seu trabalho excepcional em Parasita. Noah Baumbach apresenta um trabalho irrepreensível em História d eum casamento e deveria ser um dos lembrados naturalmente já outras vezes – o foi antes apenas por A lula e a baleia. Rian Johnson teve uma recepção exitosa de Entre facas e segredos, e Sam Mendes  e Krysty Wilson-Cairns fazem o elogiado roteiro de 1917. Entre os trabalhos não lembrados, gosto muito do roteiro dos irmãos Safdie para Joias brutas e de Robert Eggers e seu irmão Max para O farol. Também é excepcional o roteiro de Retrato de uma jovem em chamas, escrito por Céline Sciamma.

Melhor roteiro adaptado

Steven Zaillian, por O irlandês
Taika Waititi, por Jojo Rabbit
Todd Phillips, Scott Silver, por Coringa
Greta Gerwig, por Adoráveis mulheres
Anthony McCarten, por Dois Papas

Uma categoria com trabalhos muito competentes. Taika Waiiti concorre por Jojo Rabbit, um trabalho muito bom de narrativa mesclando drama e humor; Greta Gerwig tem a história em vista em Adoráveis mulheres; Topp Phillips e Scott Silver fazem um ótimo trabalho em se inspirar livremente na figura dos quadrinhos em Coringa; E o trabalho de Steve Zaillian em O irlandês é primoroso, na sua sucessão de tempo e familiaridade, com muitas características interessantes. Anthony McCarten é responsável pelo duelo verbal de Dois Papas. Mereciam ter sido lembrados os trabalhos de adaptação de O pintassilgo, As golpistas, O caso Richard Jewell e A lavanderia.

Melhor filme estrangeiro

Corpus Christi (Polônia)
Honeyland (Macedônia do Norte)
Os miseráveis (França)
Dor e glória (Espanha)
Parasita (Coreia do Sul)

O grande favorito da categoria é o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e de vários prêmios posteriormente: Parasita. Ele só parece ter como adversário direto Dor e glória, de Pedro Almodóvar, embora Os miseráveis também tenha agradado ao público em Cannes. Aliás, a categoria está cada vez mais ligada aos filmes que são exibidos no festival francês.

Melhor animação

Como treinar o seu dragão 3
I lost my bod
Klaus
Link perdido
Toy Story 4  

Com a não inclusão de Frozen 2 entre os finalistas da categoria, dando espaço a um inesperado Klaus, Toy Story 4 se tornou o grande favorito. No entanto, Link perdido surpreendeu no Globo de Ouro e Como treinar o seu dragão 3 tem muitos admiradores. Acredito que O rei leão deveria ter sido indicado nesta categoria, mesmo sendo considerado live-action.

Melhor curta de animação

Dcera
Hair Love
Kitbull
Memorable,
Sister

Melhor documentário

American Factory
The Cave
The Edge of Democracy
For Sama,” Waad Al-Kateab
Honeyland

Melhor documentário em curta-metragem

n the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone
Life Overtakes Me,” Kristine Samuelson
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha,” Laura Nix

Melhor curta-metragem

Brotherhood,
Nefta Football Club
The Neighbors’ Window,
Saria,
A Sister

CATEGORIAS TÉCNICAS

Melhor fotografia

Rodrigo Prieto, por O irlandês
Lawrence Sher, por Coringa
Jarin Blaschke, por O farol
Roger Deakins, por 1917
Robert Richardson, por Era uma vez em… Hollywood

Melhor trilha sonora

Hildur Guðnadóttir, por Coringa
Alexandre Desplat, por Adoráveis mulheres
Randy Newman, por História de um casamento
Thomas Newman, por 1917
John Williams, por Star Wars – A ascensão Skywalker

Melhor canção original

“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)
“I’m Gonna Love Me Again” (Rocketman)
“I’m Standing With You” (Breakthrough)
“Into the Unknown” (Frozen 2)
“Stand Up”  (Harriet)

Melhor design de produção

Bob Shaw and Regina Graves, por O irlandês
Ra Vincent and Nora Sopkova, por Jojo Rabbit
Dennis Gassner and Lee Sandales, por 1917
Barbara Ling and Nancy Haigh, por Era uma vez em… Hollywood
Lee Ha-Jun and Cho Won Woo, Han Ga Ram, and Cho Hee, por Parasita

Melhor figurino

Sandy Powell, Christopher Peterson, por O irlandês
Mayes C. Rubeo, por Jojo Rabbit
Mark Bridges, por Coringa
Jacqueline Durran, por Adoráveis mulheres
Arianne Phillips, por Era uma vez em… Hollywood

Melhor edição

Michael McCusker, Andrew Buckland, por Ford vs Ferrari
Thelma Schoonmaker, por O irlandês
Tom Eagles, por Jojo Rabbit
Jeff Groth, por Coringa
Jinmo Yang, por Parasita

Melhor edição de som

Don Sylvester, por Ford vs Ferrari
Alan Robert Murray, por Coringa
Oliver Tarney, Rachel Tate, por 1917
Wylie Stateman, por Era uma vez em… Hollywood
Matthew Wood, David Acord, por Star Wars – A ascensão Skywalker

Melhor mixagem de som:

Ad Astra
Ford vs Ferrari
Coringa
1917
Era uma vez em… Hollywood

Melhor maquiagem e cabelo

O escândalo
Coringa
Judy
Malévola – Dona do mal
1917

Melhores efeitos visuais

Vingadores – Ultimato
O irlandês
1917
O rei leão
Star Wars – A ascensão Skywalker

Na parte técnica, um bom duelo entre Coringa, O irlandês, Jojo Rabbit, Era uma vez em… Hollywood e 1917. Dumbo foi esquecido nas categorias de melhor figurino e design de produção, assim como O rei. Ad Astra era um concorrente certo em efeitos visuais e talvez fotografia ou design de produção. O fechamento da nova trilogia de Star Wars foi lembrado, com três indicações. Num ano com menos concorrentes, O rei leão teria muitas chances em melhor fotografia e design de produção (excelentes). Alita – Anjo de combate parecia ser um forte concorrente na categoria de efeitos visuais, mas caiu entre os pré-indicados, e mixagem de som. Eu estava torcendo por alguma lembrança (em trilha sonora ou mixagem de som) para Doutor Sono ou It – Capítulo 2 (maquiagem e cabelo). Surpreendente Meu nome é Dolemite não ter sido indicado sequer a figurino, pois recebeu o prêmio na categoria no Critics’ Choice Awards. Entre os filmes estrangeiros, Retrato de uma jovem em chamas poderia concorrer facilmente a melhor fotografia e figurino.
A cerimônia de entrega do Oscar ocorre em 9 de fevereiro.

 

Adoráveis mulheres (2019)

Por André Dick

Depois de uma estreia exitosa com Lady Bird – A hora de voar, indicado aos Oscars de melhor filme e direção, Greta Gerwig se tornou uma das promissoras cineastas da atualidade. Talvez seu nome tenha sido o mais comentado, entre as diretoras de cinema, desde Sofia Coppola. A origem, de certo modo, era muito parecida. Lady Bird se baseava nas características do cinema indie, o mesmo que Sofia ajudou a popularizar com As virgens suicidas e Encontros e desencontros: personagens descompromissados, uma história simples, uma maneira de filmar sem grandes adornos e muita agilidade narrativa. Isso aproximava o trabalho das duas de modo fundamental, e, além disso, havia a humanidade dos personagens.
Em seu segundo filme, Adoráveis mulheres, Gerwig toma como base o romance de Louisa May Alcott, já adaptado para o cinema antes (uma das versões é de 1994), que mostra uma jovem chamada Jo March (Saoirse Ronan). Ela é uma escritora em busca dos primeiros interessados a publicá-la, o que encontra na figura do Sr. Dashwood (Tracy Letts), em torno de 1868, em Nova York. Um pouco depois, ela entra em contato com o professor Friedrich Bhaer (Louis Garrel) Enquanto isso, sua irmã, Amy (Florence Pugh), vive em Paris com a tia March (Meryl Streep), e reencontra Laurie (Timothée Chalamet), um antigo amigo.

Gwrwig retrocede alguns anos antes para mostrar como Jo conheceu Laurie, tornando-se muito próximos, e como vivia com as irmãs Meg (Emma Watson), Amy (Pugh) e Beth (Eliza Scanlen), numa casa em Concord, Massachusetts. As irmãs são muito unidas, ao lado da mãe Marmee (Laura Dern). Seu pai (Bob Odenkirk) está, por sua vez, na Guerra Civil.
No prosseguimento de sua trajetória como diretora, Gerwig adota mais ou menos as mesmas escolhas de Sofia quando resolveu fazer Maria Antonieta e, recentemente, O estranho que nós amamos. Desde o início, é possível perceber uma tentativa de certa grandiosidade, ao mostrar Jo dançando com o Prof. Bhaer num baile, que remete a cenas de clássicos (especificamente O portal do paraíso, A época da inocência Gangues de Nova York) e, em seguida, um desfile suntuoso de figurinos deixando o filme visualmente muito atrativo para o espectador, em combinação com a ótima fotografia de Yorick Le Saux, alterando lugares escuros e iluminados de maneira amplamente eficaz.

Nesse sentido, Adoráveis mulheres se aproxima da suntuosidade de Maria Antonieta, por exemplo, e se afasta quase completamente dos elementos de cinema indie que caracterizam Lady Bird. Isso, por um lado, é elogiável, pois a diretora não quis se repetir, inclusive nos primeiros acordes da trilha sonora de Alexandre Desplat, evocando John Williams, com outra influência clara de Gerwig: A cor púrpura, de Steven Spielberg Se o filme de Spielberg mostrava de maneira excepcional a trajetória de mulheres afrodescendentes com uma trajetória de sofrimento, Gerwig revela uma aristocracia modesta em Adoráveis mulheres. As paisagens invernais, no entanto, aproximam muito os filmes, assim como os enquadramentos de Gerwig, a imponência das casas e um transporte para os anos 1860, enquanto o filme de Spielberg se passava no início do século XX. Embora os temas sejam diferentes, a imersão é a mesma. Gerwig faz lembrar de como eram os filmes históricos feitos para o Oscar, com talento.
No que se refere ao desenvolvimento das personagens, Gerwig conta com o apoio vital da melhor do elenco: Saoirse Ronan, seguida por Chalamet, seguindo seu bom momento desde Querido menino e Um dia de chuva em Nova York. Além  disso, Gerwig extrai de Emma Watson a melhor atuação da atriz desde As vantagens de ser invisível. Outra atriz que se destaca é Florence Pugh, uma revelação nos últimos anos, só não mais que Eliza Scanlen, mesmo com breve participação.

A relação de Laurie com Jo e Amy atravessas as épocas e Gerwig decidiu contar a história, com idas e vindas no tempo, com uma sucessão de acontecimentos dialogando por conta própria., sem uma unidade evidente. O filme está no seu melhor quando concentra seus personagens em cenários pequenos, dando uma dimensão de afeto a essas adoráveis mulheres, à luz de velas e iluminadas pelo sol atravessando a janela, assim como por meio de cenas em que fazem peças teatrais caseiras. Há uma conversa entre Marmee e Jo, elucidando o que habita a narrativa, e oportunizando a Laura Dern seu grande momento como atriz discreta (que era sobretudo nos anos 80 e 90).
Gerwig usava um humor discreto em Lady Bird e aqui emprega um certo classicismo, parecendo querer reproduzir os filmes talhados para o Oscar, lembrando em alguns momentos Brooklyn (com a mesma Saoitse Ronan). É uma característica que não se aproximou de Sofia nem mesmo no grandioso Maria Antonieta, cuja narrativa ainda trazia elementos dos filmes indie da diretora. Na maioria das vezes, Gerwig consegue empregar bem esse tom ao contrário de muitos pares.

Do mesmo modo que Lady Bird, Jo é visivelmente o alter ego de Gerwig, e traz com isso, além de motivações artísticas muito interessantes, um certo discurso às vezes entregue um pouco de maneira expositiva. Ao contrário do que acontecia no seu filme de estreia, Gerwig parece ter dúvida se o espectador vai entender as motivações de Joe nas entrelinhas. No terceiro ato, ela faz quase uma ligação direta de sua trajetória como diretora com os percalços da personagem.
É nesse ponto que Adoráveis mulheres mostra a união  entre um cinema mostrado com absoluta beleza técnica, por um lado, e aquele que evolui em termos de história e elenco, por outro. E isso se dá de maneira efetiva, pois, de Saoise, passando por Chalamet, até Laura Dern e Meryl Streep, o que não falta a esta adaptação é um elenco. Talvez Gerwig pudesse ter mesclado seu estilo anterior a um novo sem perder as características básicas. Mas, mesmo ao fazer de Adoráveis mulheres uma procura pelo Oscar, ela mantém um tom otimista e afetuoso, no qual o ser humano aprende tanto fora quanto dentro da obra que ele compõe para sua vida de maneira sensível.

Little women, EUA, 2019 Diretora:  Greta Gerwig Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Timothée Chalamet, Meryl Streep, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Louis Garrel, Chris Cooper Roteiro: Greta Gerwig Fotografia: Yorick Le Saux Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Amy Pascal, Denise Di Novi, Robin Swicord Duração: 135 min. Estúdio: Columbia Pictures, Regency Enterprises, Pascal Pictures, Di Novi Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

O farol (2019)

Por André Dick

Em 2015, quando surgiu à frente de A bruxa, filme de terror bastante elogiado, Robert Eggers tornou-se um dos cineastas a se acompanhar. Particularmente, não apreciei sua estreia, mas era inegável que ele conseguia construir uma atmosfera e, se tivesse às mãos uma história superior, poderia lidar melhor com elementos que já demonstrava. Isso acontece justamente em O farol, cuja estreia aconteceu no Festival de Cannes do ano passado com grande recepção, escrito por ele e seu irmão Max.
Ele acompanha a trajetória de Ephraim Winslow (Robert Pattinson), que vai parar numa ilha da Nova Inglaterra, a fim de guardar um antigo farol, no século XIX, ao lado do estranho Thomas Wake (Willem Dafoe). A premissa é bastante curta, quase desinteressante, ecoando, por exemplo, A luz entre oceanos e o brasileiro A ostra e o vento, mas a diferença é que Eggers entrega aqui um duo espetacular de Pattinson e Dafoe, ambos, talvez, em seus melhores momentos na década passada, o que não é pouco, pois ambos fizeram grandes filmes (para citar apenas um de cada, Cosmópolis e Projeto Flórida).

Eggers utiliza essas figuras taciturnas para desenvolver uma espécie de simbologia ligada ao oceano, com influência da mitologia grega. Ephraim começa a ver imagens oníricas ligadas justamente à figura de uma sereia (Valeriia Karamän), depois de encontrar uma pequena estatueta desse ser, despertando nele também desejos que desconhece. Ele também passa a se deparar com uma gaivota perturbadora, sendo avisado por Wake de que matá-la pode trazer problemas para ambos. Trata-se de uma espécie de Ulisses, aquele homem que ouve encantado o canto das sereias e precisa ser amarrado (embora isso não necessariamente aconteça no filme, o diálogo é explícito).
A chuva incessante sobre a ilha parece levar esses personagens a criar uma redoma em torno concentrada por lances de loucura. Pattinson, para desenvolver seu personagem, recorre certamente a atuações de Von Sydow na fase bergmaniana de loucura particular ou coletiva, principalmente em A hora do lobo e Shame. São esses dois filmes que Eggers incorpora em seu roteiro de maneira acertada, focando a loucura como um símbolo da própria vida que esses personagens passam a levar. Em entrevistas, Pattinson tem dito o quanto teve dificuldades com o diretor: o que transparece, no entanto, por meio de expressões, é uma das atuações mais surpreendentes dos últimos anos, original e impactante.

O personagem de Thomas Wake, além de guardar um segredo, tenta impedir que Ephraim tenha uma autonomia, tentando atraí-lo para sua rotina, incluindo doses etílicas consideráveis. Em algumas sequências, ele lembra um Ahab sem uma obsessão em mente, com a longa barba e a performance enlouquecedora de Dafoe, indo na mesma linha de seu companheiro de elenco. Em determinado momento, o tom conflituoso é tamanho que o espectador parece acompanhar uma espécie de pesadelo kafkiano (nesse sentido, há algo nele também do experimento de Steven Soderbergh do início dos anos 90, com Jeremy Irons no papel do escritor). O cenário da ilha e do vazio que cerca o farol, além da presença da estranha gaivota, colabora decisivamente para isso. Além disso, a fotografia em preto e branco de Jarin Blaschke, em tamanho de tela 1,19: 1 (típico na era do cinema mudo), dialoga com a filmografia de Bergman, incluindo aí outras obras-primas, como O sétimo selo.
Eggers também não utiliza apenas referências esparsas ao clássico diretor sueco: a maneira como ele movimenta a câmera tem muita semelhança, além da necessidade de mesclar um cenário real, dramático, a elementos de terror. Isso era muito presente em A hora do lobo, já referido, no qual um casal morava numa ilha atormentada por estranhas figuras de uma mansão. Também é visível a influência do cinema de Béla Tarr, sobretudo O cavalo de Tuim, com a presença considerável de efeitos sonoros do vento e dos pássaros, além das ondas do mar batendo nos rochedos da ilha, inserindo o espectado no centro da situação que vivem os personagens. Por isso, a partir do terceiro ato e, principalmente, a conclusão tornam a história ainda mais notável, por toda a ousadia e o cuidado em retratar a época. A última cena é tão pictórica que poderia, como outras passagens do filme, ser emoldurada. Poderia ser apenas estilo sobre substância, sem nenhuma história verdadeira a ser contada: não é. Este é um tipo de cinema cada vez mais raro e é preciso dedicar toda a atenção quando ele surge, com alguém disposto a bancá-lo, sem fazer concessões.

The lighthouse, EUA, 2019 Diretor: Robert Eggers Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson, Valeriia Karamän  Roteiro: Robert Eggers e Max Eggers Fotografia: Jarin Blaschke Trilha Sonora: Mark Korven Produção: Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Robert Eggers, Lourenço Sant’Anna, Youree Henley Duração: 110 min. Estúdio: A24, Regency Enterprises, RT Features Distribuidora: A24 (Estados Unidos) e Focus Features (Internacional)

 

Melhores filmes de 2019

Por André Dick

O ano de 2019 teve dois momentos no cinema: um no primeiro semestre praticamente destinado aos grandes sucessos da Disney, incluindo o encerramento de Vingadores e as live-actions, e um segundo semestre, principalmente a partir do lançamento de Era uma vez em… Hollywood, destinado a um cinema que respira os anos 70 (Coringa, Ford vs Ferrari, Meu nome é Dolemite, Ad Astra, História de um casamento. Shaft), e mais voltado a uma tentativa de reverter expectativas em alguns gêneros, principalmente no gênero do terror (Midsommar, It – Capítulo 2).
A consolidação das franquias da Disney praticamente tornou o estúdio no principal mantenedor da ida do grande público ao cinema, mas a Warner Bros tentou suas cartadas, com Coringa, principalmente, depois de um primeiro semestre bastante problemático, apenas destacando-se Shazam! e Godzilla II – Rei dos monstros. A Netflix, portanto, tentou continuar investindo num cinema mais autoral, apoiando-se em grandes diretores, como Baumbach e Scorsese, a fim de levar mais adiante o que pretende, que é se tornar a segunda distribuidora do muindo, apenas atrás da Disney, em termos de ganhos, apresentando obras como O irlandês, História de um casamento, O rei, Dois Papas, A lavanderia e El camino.

O cinema sofreu um pouco com isso com o excesso de live-actions, apesar da boa qualidade (Dumbo, Aladdin, O rei leão, A dama e o vagabundo, este em streaming), no entanto, a partir de setembro, com a temporada de premiações, a qualidade se sobressaiu de modo destacado.
Se o cinema internacional trouxe novas peças bem-vindas de Ceylan (A árvore dos frutos selvagens), Yorgos Lanthimos (A favorita), Gaspar Noé (Climax), Jean-Luc Godard (Imagem e palavra), Pawel Pawlijowski (Guerra fria), Pedro Almodóvar (Dor e glória) e Julian Schnabel (No portal da eternidade), aos poucos mesmo blockbusters tiveram uma qualidade inabitual (Ad Astra e Entre facas e segredos, por exemplo). O fechamento da saga de Star Wars se deu com grande polêmica e visto como uma obra divisiva, mas, particularmente, bastante satisfatória.
Cineastas firmados ou fizeram sucesso (Vidro, de Shyamalan) ou foram amplamente ignorados (Allen em Um dia de chuva em Nova York). Atores e atrizes surgiram como cineastas: Paul Dano (Vida selvagem) e Olivia Wilde (Fora de série).
O universo adolescente esteve bem representado sob várias perspectivas em Querido menino, O mau exemplo de Cameron Post, Boy erased, Anos 90, Oitava série e na comédia Fora de série.

Continuações ou refilmagens, como Creed II, Toy Story 4, X-Men – Fênix Negra, Hellboy, Uma aventura LEGO 2, John Wick 3 – Parabellum, Gloria Bell e Suspíria, se tornaram alguns dos motivos para a ida ao cinema. No Brasil, tivemos destaques como Bacurau, Turma da Mônica – Laços e A vida invisível, em termos de público ou crítica (ou ambos).
O mundo da música se deu de diversos modos em Vox Lux, Rocketman, Corações batendo alto, Espírito jovem e Yesterday; O tema pesado do tráfico de drogas apareceu também sob pontos de vista diferentes em El camino, A mula e Dogman. Os conflitos de segregação racial foram analisados em Green Book – O guia e Se a Rua Beale falasse. O gênero do faroeste se renovou com humor e uma visão mais existencial em Hostis, Sob o sol do velho oeste Os irmãos Sisters. O universo religioso foi revelado com alguns temas polêmicos, em Graças a Deus e Dois Papas. Mais uma vez a ligação entre a política, a vida cotidiana e conflitos financeiros esteve presente em A lavanderia, Vice e As golpistas.
Abaixo, as listas de menções honrosas, filmes apreciados e decepções e/ou superestimados. Todos estrearam comercialmente, nos cinemas ou plataformas diversas, no Brasil ao longo de 2019.

Menções honrosas

Creed II (Steven Caple Jr.), Se a Rua Beale falasse (Barry Jenkins), O rei leão (Jon Favreau), It – Capítulo 2 (Andy Muschietti), Velvet Buzzsaw (Dan Gilroy), Climax (Gaspar Noé), Shazam! (David F. Sandberg), Dor e glória (Pedro Almodóvar), Obsessão (Neil Jordan), Shaft (Tim Story), Vidro (M. Night Shyamalan), Guerra fria (Pawel Pawlikowski), Ad Astra – Rumo às estrelas (James Gray), Turma da Mônica – Laços (Daniel Rezende), Annabelle 3 (Gary Dauberman), Histórias assustadoras para contar no escuro (André Øvredal), Imagem e palavra (Jean-Luc Godard), As golpistas (Lorene Scafaria), Doutor Sono (Mike Flanagan),  O rei (David Michôd), Entre facas e segredos (Rian Johnson), Ford vs Ferrari (James Mangold), Alita – Anjo de combate (Robert Rodriguez), Fora de série (Olivia Wilde), Cemitério maldito (Kevin Kölsch e Dennis Widmyer), Toy Story 4 (Josh Cooley), The perfection (Richard Shepard), Espírito jovem (Max Minghella), Paddleton (Alexandre Lehmann), A mula (Clint Eastwood), Assunto de família (Hirokazu Koreeda), Bem-vindos a Marwen (Robert Zemeckis), Oitava série (Bo Durnham), Sob o sol do oeste (David e Nathan Zellner), Graças a Deus (Olivier Assayas), Quem somos agora (Matthew Newton), Pássaros de verão (Ciro Guerra, Cristina Gallego), O que nos mantêm vivos (Colin Minihan), No coração das trevas (Paul Schrader), Grande saída (Alex Ross Perry), Acrimônia (Tyler Perry), WiFi Ralph – Quebrando a internet (Rich Moore, Phil Johnston), Os irmãos Sisters (Jacques Audiard), Vice (Adam McKay), Anos 90 (Jonah Hill), Zumbilândia – Atire duas vezes (Ruben Fleischer).

Apreciados

Poderia me perdoar? (Marielle Heller), Boy erased – Uma verdade anulada (Joel Edgerton), Com quem será? (Victor Levin),  A professora do jardim de infância (Sara Colangelo), Verão de 84 (François Simard, Anouk Whissell, Yoann-Karl Whissell), Stan & Ollie – O gordo e o magro (John S. Baird), Corações batendo alto (Brett Haley), Amizade desfeita 2: dark web (Stephen Susco), The girl (Lukas Dhont), Brightburn (David Yarovesky), Meu nome é Dolemite (Craig Brewer), Projeto Gemini (Ang Lee), Cadê você, Bernadette? (Richard Linklater), A vida secreta dos bichos 2 (Chis Renaud), Polémon: Detetive Pikachu (Rob Letterman), Hostis (Scott Cooper), Anima (Paul Thomas Anderson), Dumbo (Tim Burton), Uma aventura Lego 2 (Mike Mitchell), Aladdin (Guy Ritchie), X-Men – Fênix Negra (Simon Kinberg), Gloria Bell (Sebastián Lelio), John Wick 3 – Parabellum (David Stahelski), Godzilla II – Rei dos monstros (Michael Dougherty), JT LeRoy (Justin Kelly), Calmaria (Steven Knight), A cinco passos de você (Justin Baldoni), Estrada sem lei (John Lee Hancock), Deixando Neverland (Dan Reed), A morte te dá parabéns 2 (Christopher Landon), Hellboy (Neil Marshall), O menino que queria ser rei (Joe Cornish), Amanda (Mikhaël Hers), Dois Papas (Fernando Meirelles).

Decepções e/ou superestimados

A esposa (Björn Runge), Predadores assassinos (Alejandro Aja), Guava Island (Hiro Murai), Capitã Marvel (Anna Boden, Ryan Fleck), Cafarnaum (Nadine Labaki), Free Solo (Jimmy Chin, Elizabeth Chai Vasarhelyi), Máquinas mortais (Christian Rivers), Um ladrão com estilo (David Lowery), Os animais somos nós (Jeremiah Zagar), Nós (Jordan Peele), Bacurau (Kleber Mendonça Filho), Estranha presença (Lenny Abrahamson), Desculpe te incomodar (Boots Riley), Eu mato gigantes (Anders Walter), O mau exemplo de Cameron Post (Desiree Akhavan), High flying Bird (Steven Soderbergh), Casal improvável (Jonathan Levine), Homem-Aranha –  Longe do lar (Jon Watts).

A seguir, a lista dos 25 melhores filmes do ano do Cinematographe.

Dogman é o novo filme do diretor Matteo Garrone, logo após Conto dos contos, baseado não mais num universo onírico, fantasioso, ligado a fábulas, e sim um um neorrealismo fundamentado no cinema italiano dos anos 60, principalmente com suas cenas noturnas, remetendo a Antonioni. Responsável pela loja Dogman, localizada no bairro de Magliana, em Roma, Marcello (Marcello Fonte) passa os dias cuidando de cães, dando banho e tosando, enquanto faz um tráfico de drogas discreto, de cocaína, escondendo isso de sua filha, Alida (Alida Baldari Calabria). Fonte, premiado como melhor ator em Cannes, tem uma atuação extraordinária, assim como Garrone desenvolve o ambiente de um bairro bastante decadente, à beira-mar, longe das maravilhas despertadas pela obra de Fellini da década de 60, com uma profusão poucas vezes vista.

Este é um filme sobre a cultura e a política na América, a mania de se tentar esvaziar os temas para preenchê-los com um colorido animador, e como tudo isso não impede uma maldade que se manifesta sempre dos lugares mais inesperados e por pessoas já esvaziadas de qualquer sentimento. Por isso, Vox Lux é um referencial para entender sua própria época. A estrela está chorando pelas perdas que acontecem ao seu redor com toda a sua crise e desorientação pessoal; ela aparenta servir de guia. Não serve, mas ela está lá, tentando resistir, como cada um que se junta a um coro musical ilusório. Para o diretor Cobert, a arte é muito mais; é um retrato da confusão buscando pela tranquilidade, como na cena em que mãe e filha se ajoelham na areia da praia para orar pelas pessoas que se foram. Não importa o passar dos anos, o que importa é a experiência do momento e a carga de aprendizado que ele carrega. Vox Lux leva isso a um ponto em que o espectador tem certeza de que está diante de algo a ser transformado, e simplesmente é aquilo que o público espera atingir por meio dos sonhos fornecidos por outra pessoa. Não deixa de ser uma tentativa de reencontrar um sentimento de otimismo.

Com roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara, o primeiro filme de Lanthimos sem trabalhar sua própria história, A favorita flutua entre episódios distintos, quase como contos da realeza, e corridas de pato em meio a punições a criadas que ousam buscar um tratamento médico para os problemas de saúde da rainha. Suas características podem ser descobertas em meio aos percalços existenciais de cada um e na futilidade de Sarah, atendida prontamente por todos. Lanthimos insere mais suas propriedades quando transforma Abigail no centro da história, e Stone consegue reproduzir sua estranheza de maneira por vezes impactante. A utilização dos cenários para representar os sentimentos de cada uma dessas mulheres constrói um contraste interessante. O Palácio de Kensington representa uma redoma de solidão e, ao mesmo tempo, de lugar onde muitas personalidades vão se revelar de modo contundente. Se no início o humor está mais presente (com uma personagem, por exemplo, sendo jogada de uma carruagem diretamente na lama), a dramaticidade e mesmo certos elementos soturnos aos poucos vão consumindo a história, chegando a um último ato anticlimático, em relação à filmografia de Lanthimos, embore funcione simbolicamente.

Green Book é um exemplar de cinema despretensioso em relação ao qual o espectador acaba relevando certas inconsistências de roteiro e mesmo a mensagem de pano de fundo às vezes previsível até demais. Ele tem, além de uma atmosfera trabalhada, com uma fotografia sensível de Sean Porter, que lembra a de obras recentes como Carol e Fome de poder, uma espécie de equilíbrio entre tons narrativos que não é fácil de conseguir, principalmente no cinema contemporâneo, muito mais rápido e quase sem elementos clássicos.  O fato de Don Shirley sentir-se deslocado em relação à cultura construída por afro-americanos e o atrito dela com o universo da composição clássica, assim como seus trejeitos mais elaborados, contribui para isso de maneira significativa, provocando no espectador uma certa compreensão mais universal. A figura do Green Book, que apontava, por exemplo, os lugares que poderiam hospedar afro-americanos no Sul dos Estados Unidos dos anos 60, acaba servindo como símbolo de que, na verdade, Toni também se sente deslocado não apenas em relação à sua cultura original quanto em relação à influência que recebe do novo amigo, ao vivenciar o preconceito junto com ele (e talvez a única cena mais deslocada seja aquela do banheiro numa mansão sulista). Em determinados momentos, esse aspecto lembra No calor da noite, premiado com o Oscar de melhor filme em 1967, com Sidney Poitier.

Com belo roteiro assinado por Schnabel com Jean-Claude Carrière, conhecido romancista e corroteirista, por exemplo, de O discreto charme da burguesia, e Louise Kugelberg, o filme possui uma fotografia tremida de Benoît Delhomme, parecendo até uma peça de Von Trier. No entanto, é como se o espectador visse as paisagens do modo que Van Gogh as vê, com sua proliferação de amarelos e desvios da realidade para contemplações próximas da eternidade, como ele diz em determinado momento. Tudo vai se configurando como se um pintor fosse lançando as cores na tela, na composição de uma obra. Van Gogh, deste modo, é um personagem muito disponível para se lidar com uma faceta quase poética de uma realização cinematográfica. Alguns cineastas já trabalharam sobre sua obra com destaque, com destaque para Robert Altman em Vincent & Theo, a animação Com amor, Van Gogh e o episódio de Sonhos, de Akira Kurosawa, que mostrava o pintor, interpretado por Martin Scorsese, caminhando dentro de algumas de suas obras.

Como a série, porém ainda com mais apuro, isto se parece com um faroeste contemporâneo, igual a alguns dos melhores momentos da obra dos irmãos Coen, e há uma determinada solução que aponta para esse caminho. Jesse é um homem que vem de um quase desaparecimento para uma tentativa de desaparecer totalmente do Novo México e do rastro da polícia e do passado que o envolveu numa série de castigos. Gilligan exerce essa visão de maneira visualmente atrativa, parecendo coloca-lo em cenários abandonados e nunca mais visitados. Mesmo uma conversa ao telefone com seus pais é cercada de ilusões sobre o que poderia ter sido, não tivesse acontecido exatamente o contrário. Desse modo, o filme El Camino – A Breaking bad movie é uma das grandes surpresas desta temporada do Oscar que se aproxima, com grande efeito em quem viu ou não a série. Um exemplo de como lidar com um personagem principalmente em diferentes linguagens, muitas vezes inseparáveis.

A lavanderia não é necessariamente um drama ou uma comédia, situando-se num meio-termo oportuno que conduz o risco de emprego de dinheiro em questões duvidosas. Embora toda a narrativa que envolve a personagem de Meryl Streep seja mais de um drama de Hollywood, interrompido apenas por uma cena em que ela imagina fazer algo, em outros momentos o filme parece uma sátira, que, embora lembre A grande aposta, não tem o encantamento de McKay pelas trapaças. Ou seja, Soderbergh lança um certo pesar mesmo quando parece brincar com as vítimas das enganações de Mossack e Fonseca – e ao filmá-los por meio de imagens emulando propagandas luminosas lança, na verdade, uma bruma de dúvida sobre seu comportamento. Nesse sentido, o filme de Soderbergh, apesar de nunca explorar com a devida ênfase seus personagens, é um estudo muito curioso sobre o universo dos negócios e o reflexo na vida de várias pessoas, mesmo que pareça episódico. É na sua aparente leveza que sua trama se fortalece de maneira substancial, definindo-se como um dos melhores momentos na trajetória de Soderbergh e do cinema deste ano.

Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se os vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

A estreia do ator Paul Dano na direção se dá em Vida selvagem. Ao assisti-lo, é difícil não lembrar que Dano estava no elenco de um dos filmes que definiram a trajetória de Paul Thomas Anderson, Sangue negro. É na filmografia desse cineasta que ele vai buscar referenciais importantes, para o uso de uma narrativa minimalista, atuações contidas e ainda assim fortes e uma fotografia irretocável do mexicano Diego Garcia (Cemitério do esplendor, Boi neon), que parece reproduzir pinturas clássicas de Edward Hopper. Discreto e eficiente no sentido visual, mesclando belas imagens a um figurino de época escolhido com acerto, Vida selvagem incorpora ainda mais o conflito quando surge o Warren Miller de Bill Camp. É com ele que Mulligan e Gyllenhaal experimentam performances ainda mais poderosas. De qualquer modo, é ainda o conflito solitário de Joe com a ideia de uma família a ser conservada que move esta adaptação bela e concisa de Dano e Kazan. São momentos breves e passageiros que mais ficam gravados no espectador. As sequências sem diálogos, embora com outro estilo, lembram O mestre, de PTA, principalmente quando mãe e filho se deslocam atrás do pai para o cenário dos incêndios florestais. Esse cenário, aliás, contrasta com a própria gelidez dos personagens. No entanto, é uma gelidez apenas superficial, pois há sentimentos por trás das ações de cada um bastante visíveis e atrativos para o espectador lidar com a narrativa de maneira interessada. E a cena final, além de tudo, é um primor de construção.

Por isso, pode-se dizer que esta refilmagem lida com uma camada quase histórica e absolutamente séria e outra camada ligada ao terror mais ostensivo. Quase nunca Suspíria se inclina para o sangue do original – no entanto, quando se inclina, lida com imagens que, embaralhadas, vão formando um sentido metafórico, principalmente no primeiro ensaio de dança, que cria um paralelo com uma situação angustiante e muito bem filmada. Mesmo quando Susie chega à Academia, forma-se a palavra Theathre num letreiro embaralhado a seu fundo; em outros momentos, o espectador vê a capa de uma revista com a palavra Terror, como se estivesse comentando o que acontece, e a gangue Baader-Meinhof, um grupo violento à solta em Berlim e que toma conta dos noticiários.

Da relação dele com o pai, Felix Van Groeningen extrai uma história agridoce, situada entre um lado trágico – o périplo de Nic por casas de recuperação é o principal elemento disso –, e nunca pendendo para o uso do vício em drogas como um traço pop, o que vemos em certo cinema de Danny Boyle, sem deméritos para o olhar que este lança. Ele se lança mais no terreno que era desbravado por Trier em Oslo, 31 de agosto: o sentimento inescapável de alguém sentir-se sozinho e sem apoio, mesmo tendo opções para contornar seu rumo. Há uma dramaticidade decisivamente corrente no roteiro do diretor em parceria com Luke Davies, sem apelar a um excesso de situações que mostrem o jovem usando drogas, e sim seus efeitos em relações sociais. A atmosfera de solidão e dificuldade de inserção de Nic não raramente reproduzem cenários constantemente desabitados, só preenchidos por sentimentos perdidos no tempo.

Amor até as cinzas possui, como em toda a obra de Jia, uma fotografia deslumbrante, com uma predileção por captar ambientes externos com um cuidado irreparável, assim como deixa cenários internos com uma sensação de realismo destacada. A China antiga e a China moderna convivem não raramente no mesmo enquadramento, e se temos algum sinal de neve é sempre em meio a uma natureza já surgida no asfalto. Cenas que captam a tradição chinesa são ampliadas com um afeto trabalhado, lembrando o que Ka-Wai e Kurosawa já fizeram para o Oriente em termos de imagem. E, em meio a essas imagens, a presença cada vez maior do Ocidente, sobretudo na circulação de automóveis e jogos, e um sentimento de que a China vive o futuro, principalmente na velocidade dos trens e na tentativa de incorporar outras linguagens, realçadas pelo talento da atriz Zhao Tao, aqui numa relação conturbada por décadas.

O diretor Drew Goddard há alguns anos fez O segredo da cabana, que se caracterizava principalmente pelo uso da metalinguagem num filme de terror e suspense. Em Maus momentos no Hotel Royale, ele regressa para montar uma história que remete a Quentin Tarantino e aos irmãos Coen e por isso mesmo poderia ser apenas um derivado, uma mescla repetitiva.. Como em O segredo da cabana, ele mostra um mundo de universos espelhados, mas que um não representa exatamente quem parece. No entanto, ao contrário desse filme, Goddard está mais interessado em construir uma narrativa milimetricamente pensada, em que fragmentos vão se unindo sob diferentes pontos de vista, o que, pela ambientação e traço teatral, lembra imediatamente Os oito odiados. Há um atrativo fabuloso na fotografia de Seamus McGarvey, habitual parceiro de Joe Wright, capaz de rivalizar com seu trabalho de iluminação em Anna Karenina, embora não com a mesma variedade de cenários. No entanto, McGarvey coloca o espectador no centro da ação. Muitas vezes, parece estilo sobre substância, uma espécie de Tarantino e irmãos Coen olhando a filmografia de Refn. No entanto, é mais: uma amostra do cinema contemporâneo que pode ser ágil longe de grandes orçamentos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Chalamet e Fanning são surpreendentes em seus papéis – e divertidos, principalmente ela. Allen consegue produzir um roteiro adequado à personalidade de cada um, fazendo de Um dia de chuva em Nova York aquele que mais dialoga com os jovens desde Igual a tudo na vida. Também é o mais nostálgico desde, talvez, Meia-noite em Paris, com sua tendência a imaginar um universo paralelo do protagonista. A maneira como Allen utiliza a fotografia de Vittorio Storaro também é um destaque. Em sua terceira parceria iniciada em Café Society, Storaro ilumina os personagens como se estivessem sempre sob um pôr-do-sol, a exemplo do que acontecia em O céu que nos protege. Os interiores também são belíssimos, com uma visão de Nova York poucas vezes vista, e em alguns momentos lembra o trabalho cenográfico de De olhos bem fechados – e Allen parece estar tratando da sociedade nova-iorquina de forma mais incisiva aqui.

Os diálogos quase não importam e as ações dos personagens são quase sempre previsíveis: o filme contado por Aster, como em Hereditário, não está nos diálogos e sim nas imagens. E é nelas que, como em sua estreia, Midsommar adquire um impacto imprevisto. Pode haver em alguns momentos o predomínio da estética sobre o conteúdo, mas é uma estética elaborada em minúcias. Iniciando numa paisagem invernal e soturna, a obra se transfere para o dia tão iluminado que parece brilhar, no entanto ele não parece ser o mais propício para os rumos da narrativa. A própria maneira como o diretor colhe pontos de O homem de palha, por exemplo, é justificada pelo contexto, sem nunca, no entanto, parecer uma diluição. O seu desinteresse em mostrar os integrantes da comunidade é justamente para causar um impacto nos momentos necessários. A claridade da fotografia de Pawel Pogorzelski, o mesmo de Hereditário, se justifica em todos os seus pontos e ajuda a contar a história de maneira decisiva. E é por meio dela que Midsommar adquire outro estágio no ato final, quando os personagens vão se dispersando para, na verdade, concentrar o relato num só olhar. É uma sucessão de sequências raramente permitidas em Hollywood e que fazem o gênero de terror adentrar no campo indefinido da arte mais subjetiva possível.

Diante de críticas que extraíram de maneira geral a qualidade de uma obra tão rica desde o lançamento no Festival de Toronto – ajudando a fazer com que fosse um fracasso de bilheteria, ou seja, escondendo mais um acerto do público –, O pintassilgo se mantém de modo tocante no que se refere à construção de uma identidade por meio da arte e das figuras ao seu redor. É apropriadamente bela a sequência na qual Theo se encontra com Pippa na vida adulta (interpretada por Ashleigh Cummings), e ela lhe diz não consegue suportar o que os faz ter em comum, justamente o atentado. É como se apenas Theo vivesse naquele situação que marcou sua vida e ela acabasse interferindo em todas as escolhas, e ele continuasse em meio aos escombros, solitário, caminhando pelas cinzas, no que lembra Mais forte que bombas, de Joachim Trier. Além disso, a analogia entre o acontecimento e partículas de poeira no ar é muito bem trabalhada, assim como a da explosão com o personagem na banheira ou se jogando na piscina, como se quisesse um alívio em relação ao pensamento recorrente.

Nunca deixe de lembrar é um filme longo (188 minutos), mas que vale plenamente sua duração, tanto pelas atuações (principalmente Sebastian Koch, assustador sem forçar overacting) quanto pelo estilo narrativo ágil adotado por Donnersmarck, concentrado em momentos afetuosos ou com fundo histórico de maneira efetiva. A maneira como mostra a aproximação de um jovem da arte se oferece de modo simples e ainda assim funcional, nunca deixando os personagens sem interesse. Baseado na obra do pintor Gerhard Richter, que, por sua vez, negou o filme, trata-se de uma obra cinematográfica lenta, parecendo, por vezes, excessiva, mas que controla seus meandros de maneira excepcional. O roteiro discute de maneira ampla a presença do artista em um período nefasto, tentando replicar as ideias pessoais sobre o mundo em imagens. Isso é conectado com a relação amorosa e o sonho de atingir uma obra, o que constitui uma base prática para o entendimento do outro. Nunca deixe de lembrar, do diretor Florian Henckel von Donnersmarck, o mesmo de A vida dos outros, foi lançado no Festival Internacional de Cinema de Veneza e indicado aos Oscars de melhor filme estrangeiro e melhor fotografia. O trabalho de Caleb Deschanel é realmente extraordinário, dando o tom entre história e ficção da narrativa.

Chama a atenção, igualmente, como Baumbach entrelaça o cenário de ruas lotadas de Nova York e os preparativos da peça de Charlie para estrear na Broadway com as ruas cheias de palmeiras de Los Angeles e o apartamento a ser preenchido ainda por móveis, para evocar um estabelecimento provisório a fim de se lutar pela guarda do filho. Tudo guarda uma estética dos anos 70, impressão consolidada pela trilha sonora de Randy Newman e pela fotografia de Robbie Ryan, criando uma textura caseira e documental para cada cena, porém sem menosprezar o trabalho de luzes e sombras. Isso cria uma sensação extra de solidão dos personagens. No entanto, Baumbach não conduz tudo para um mero drama conjugal nem se apega àquilo que sustentava alguns de seus filmes, um humor patético, e sim para um teatro contundente sobre como o embate pode levar pessoas a se recolocarem no mundo, tentando descobrir o que as levou até determinado ponto e sem negar os sentimentos de afeto. Em alguns momentos, parece que História de um casamento está tratando de um divórcio. Na verdade, ele está tratando, de modo pouco usual e brilhante, da verdadeira conciliação.

Com uma trilha sonora incessante de Hildur Guðnadóttir, retratando o descompasso do personagem central, e uma fotografia exímia de Lawrence Sher, com o qual Phillips habitualmente trabalha e que se inspira na de Emmanuel Lubezki de Birdman, em alguns momentos, Coringa revela um universo no qual a piada feita em cadernos borrados de pensamentos nunca consegue realmente se manifestar – apenas uma risada compulsiva. Fleck é uma espécie de travessia da tentativa de se adaptar e o resultado da inadaptação, e os passos dados por Phoenix na construção de seu personagem são marcantes porque se situam num espaço em que a clareza não se manifesta nunca. Isso porque não sabemos o que nele é humano e desumano, pois ambas as facetas algumas vezes parecem existir nele em diferentes etapas da narrativa e Gotham City e seus habitantes são a projeção de como ele se sente em relação às pessoas.

O irlandês adota uma dramaticidade baseada no biografismo e sem ceder a alguns exageros típicos dos filmes antigos do cineasta, em que a violência era quase fantasiosa de tão acentuada, e entre essas obras se inclui Os infiltrados. Se em meio a esse universo a figura da mulher se perde (e ela era presente em Os bons companheiros com Lorraine Bracco, em Cassino com Sharon Stone e em O lobo de Wall Street com Margot Robbie) é porque Scorsese parece estar tratando do auge e do aprisionamento da figura clássica e queda da figura masculina entre os anos 50 e início dos anos 80. Novos gângsters ainda viriam, no entanto Scorsese prefere mesclar uma espécie de sentimento religioso e de desapego às relações para mover sua obra em direção a uma coda melancólica e impecavelmente habitada nos longínquos anos 70. Tudo soa como um testamento do cineasta, desde a escolha dos atores que o acompanharam ao longo de sua carreira até os momentos mais próximos de um afeto já perdido, quando o olhar diante dos filhos em relação às ações de uma vida toda não se faz mais possível. Mesmo a narração de Sheeran soa desanimada, diante de um universo conturbado e impecavelmente bem desenhado.

Como artista que é, Joon-ho não utiliza o seu filme para pregar um discurso; pelo contrário, ele deixa o espectador subentender, por meio de suas imagens, o que bem quiser. Em igual escala, a atmosfera criada trata dos próprios personagens: quando cai uma chuva torrencial, a família Kim está deslocada e sem espaço, ao contrário da família Park. As paredes da casa também passam a simbolizar para um outro universo, mesmo que dentro do mesmo espaço. Nisso, os cheiros e as roupas trazem uma espécie de aproximação e afastamento entre iguais. A arquitetura moderna da casa, deixando tudo à mostra, esconde, de maneira paradoxal, os sentimentos e intenções de cada um dos integrantes dessas famílias. Não está em jogo cada um mostrar o que é de fato e sim aquilo que esconde.

Era uma vez em… Hollywood, pelo próprio título, já estabelece uma ligação direta com o cinema de Sergio Leone, principalmente com os excepcionais Era uma vez no Oeste e Era uma vez na América. No entanto, Tarantino, ao contrário de Leone, é um cineasta mais interessado no aspecto pop e na metalinguagem de sua narrativa. Era uma vez em… Hollywood é um filme em parte comportado para os padrões de Tarantino, com diálogos aparentemente deslocados, no entanto, como é de praxe, eles ressoam no conjunto e estabelecem uma unidade. Por outro lado, nessa espécie de retração, Tarantino parece expandir sua visão: as obras das quais ele trata de forma mesmo clara se sentem mais a serviço da composição dos personagens. Dalton, por exemplo, é uma figura introspectiva, feita na medida certa por DiCaprio, tendo como referência sua atuação em O lobo de Wall Street. Enquanto Martin Scorsese conseguiu extrair dele uma veia histriônica quase insuspeita, Tarantino a reaproveita sob um olhar mais saudoso – do cinema que homenageia.

O personagem principal tem uma narração breve, com poucas falas, mas que remetem a uma narrativa noir de detetive e mesmo os cenários vão simbolizando essa tentativa de evocar outra época, com elementos típicos: a chuva, a escuridão da estrada, uma moça caminhando na rua sendo seguida de perto com os faróis de um carro, isqueiros sendo acesos e homens de chapéu soprando fumaça de cigarro. Tudo parece uma grande representação do cinema clássico, no entanto sob uma ótica contemporânea, com extrema perspicácia. É mais ou menos o movimento feito por Chan-wook Park em A criada: utilizar imagens com um ambiente já gravado na memória cinematográfica do espectador sob um ponto de vista diferente. Nesse sentido, as imagens de Longa jornada noite adentro lidam com uma constante espécie de nostalgia.

Lançado no Festival de Cannes do ano passado, A árvore dos frutos selvagens é mais um grande filme (em todos os sentidos, com seus 188 minutos) de Nuri Bilge Ceylan. Se em 2014 ele recebeu a Palma de Ouro com Winter sleep, e já havia se mostrado um diretor e roteirista de talento único em outros projetos, como DistanteClimas e Era uma vez na Anatólia, Ceylan busca aqui reproduzir uma espécie de visão da juventude do mesmo tipo de universo já revelado em sua obra anterior. Interessante como Ceylan posiciona seu personagem central contra a sociedade em torno e parece não permitir acesso às suas ideias, ou simplesmente não possui interesse por elas. Sinan é claramente sem empatia, decepcionado com sua situação, mas é exatamente aí que Ceylan o torna diferenciado: pelo tom agridoce, delimitado pelo contato constante com a natureza e as estações. Sua aproximação do pai se dá por meio do conceito de que cada geração se dá por um sinal de mudança, simbolizada pela visita ao colégio. Há um diálogo extremamente humano, emocional, no qual vemos os personagens se revelarem à margem de um passado ainda capaz de visitá-los, no entanto sem deter a continuidade.

Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

Entre facas e segredos (2019)

Por André Dick

O diretor Rian Johnson, antes de se tornar mais conhecido por Star Wars – Os últimos Jedi, foi sempre um admirador de histórias de investigação. Sua obra A ponta de um crime era uma espécie de noir adolescente, com Joseph Gordon-Levitt no papel de um jovem tentando desvendar um assassinato ligado a estudantes num colégio. Em 2012, ele fez Looper, desta vez brincando com a passagem do tempo, em que Levitt se tornava Bruce Willis, numa ficção científica também com elementos de mistério.
Agora, entre Facas e segredos, Johnson volta aos tempos de A ponta de um crime, com uma história sinuosa de enigmas. Tudo começa com a investigação feita pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) em relação ao suicídio de um romancista de livros de crime, Harlan Thrombey (Christopher Plummer). Ele apareceu morto na manhã seguinte de sua festa de 85 anos, encontrado pela empregada Fran (Edi Paterson). Blanc passa a investigar os componentes da família do escritor, todos hospedados em sua mansão: seu genro Richard (Don Johnson), casado com a filha Linda (Jamie Lee Curtis), pais de Megan (Katherine Langford), a ex-nora Joni (Toni Collette), além de Walt (Michael Shannon), com quem Harlan trabalhava na editora, casado com Donna (Riki Lindhome ) e pai de Jacob (Jaeden Martell). E há ainda Hugh (Chris Evans), também filho de Richard e Linda, e a enfermeira que cuidava do milionário, Marta Cabrera (Ana de Armas). Quase todos eles, de certa maneira, um pouco antes da morte, acabaram sendo desmascarados pelo escritor e, desse modo, podem ter culpa no cartório.

Ajudando o detetive Blanc estão o tenente Elliot (Lakeith Stanfield) e o policial Wagner (Noah Segan) – e os primeiros interrogatórios são cercados por uma aura de Agatha Christie, a referência principal de Johnson. Blanc é uma espécie de inspetor Hercule Poirot (vivido mais recentemente por Kenneth Branagh na versão de Assassinato no Expresso Oriente). Blanc não sabe por quem foi contratado para o caso. Isso acaba criando uma expectativa de que algo muito errado está acontecendo na mansão onde ocorreu a morte.
Johnson, de modo geral, tem um conhecimento respeitável do cinema. Seus filmes possuem um jogo de luzes e sombras, auxiliado pela fotografia de Steve Yedlin, e um design de produção interessante. Em certos momentos, a mansão lembra de Mistério em Gosford Park, de Robert Altman, e Os sete suspeitos, dos anos 80, um experimento também nos moldes de Agatha Christie, além de Vocês ainda não viram nada!, de Alain Resnais. Ele também sabe usar as digressões, estabelecendo pequenas pistas, quase invisíveis, para o espectador destrinchar o mistério.

No entanto, sua maior qualidade continua sendo a direção de atores. Todos no filme estão bem, desde o sempre ótimo Plummer – reprisando o seu papel de Todo o dinheiro do mundo, com um ar mais simpático, se isso pode ser dito diante do que ele acaba travando com a família –, passando por Johnson e Curtis, até Collette e Shannon, embora nem todos sejam exatamente desenvolvidos ou recebam muitos diálogos. Ainda assim, são Ana de Armas e Daniel Craig os destaques. Armas teve um papel de relevo em Blade Runner 2049 como a companhia virtual do personagem principal e aqui, como a enfermeira que toda a família gostaria de adotar, se mostra na medida exata, entre o conflito de ter ocasionado uma tragédia e sua condição quase de heroína. Já Craig que nos últimos anos praticamente se dedicou ao papel de James Bond se mostra muito à vontade, mesclando o papel que fazia em Millennium com seu humor britânico às vezes deslocado das situações.

A ligação de seu detetive com Marta é o que leva Entre facas e segredos à frente, junto com a sucessão de diálogos rápidos. Todas as figuras parecem ter torcido para o desaparecimento do escritor patriarca da família, porém é Blanc quem tentará desvendar por que eles se comportam desse modo. A maneira como o espectador vai conhecendo um a um é o grande atrativo para o estabelecimento dessa trama. Talvez, nisso, o único porém seja que Entre facas e segredos seja um grande parque de mistério metalinguístico, com os personagens agindo a todo momento como partes de um grande esquema, sem espaço para uma certa humanização. Johnson, como em A ponta de um crime, em nenhum momento deixa essa família suspirar, digamos, vida real: ela está a serviço de um tabuleiro. Talvez por isso o acréscimo de Chris Evans, ator normalmente associado ao Capitão América, seja tão relevante: ele consegue estabelecer uma dinâmica vibrante junto com Armas e Craig. Se os dois primeiros atos vão preparando a tensão para estabelecer a trama, o terceiro vai amarrando as pontas soltas de maneira verossímil, sem cair em elementos de farsa. Misturando elementos de humor, surpresa e tensão, Entre facas e segredos se mostra uma das diversões mais consistentes do ano,.

Knives out, EUA, 2019 Diretor Rian Johnson Elenco: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeith Stanfield, Katherine Langford, Jaeden Martell, Christopher Plummer Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: Nathan Johnson Produção: Ram Bergman, Rian Johnson Duração: 130 min, Estúdio: Media Rights Capital, T-Street Distribuidora: Lionsgate

História de um casamento (2019)

Por André Dick

Revelado no final dos anos 90, o diretor Noah Baumbach passou a se destacar quando coescreveu A vida marinha com Steve Zissou com Wes Anderson e fez A lula e a baleia, um drama sensível sobre uma família envolvida pela arte com um núcleo em processo de separação. Seus filmes posteriores, de certo modo, sempre desenvolveram essa ideia de família sendo investigada em seus pormenores, seja por meio de uma figura frustrada (Greenberg), ou uma jovem que gostaria de ser artista (Frances Ha), ou ainda casais que se sentem adolescentes numa época errada (Enquanto somos jovens). Baumbach, em 2017, fez um dos melhores filmes da década, Os Meyerowitz, demitido de Cannes por Pedro Almodóvar mesmo antes de sua estreia. Nele, o diretor concentrava os ganhos anteriores com uma história muito bem narrada sobre um pai de família dedicado à arte que se via numa situação difícil em meio aos filhos.

Agora, ele regressa com o que parece ser o destaque de sua carreira, devido ao hype desde o lançamento no Festival de Toronto: História de um casamento, nova parceria com a Netflix. Baumbach escolhe como cenário original a cidade de Nova York, como fez em seus filmes anteriores, desta vez mostrando um diretor de teatro, Charlie Barber (Adam Driver), casado com uma atriz, Nicole (Scarlett Johansson), a musa de suas peças. Ela teve um breve sucesso em Hollywood com um filme de adolescentes e, quando se mudou para Nova York, apaixonou-se pelo que viria a se tornar seu marido. Ambos têm um filho, Henry (Azhy Robertson), que passa a ser o ponto crítico de um divórcio. Para tratar dele, Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern), e Charlie, Bert Spitz (Alan Alda), depois de passar pelo escritório do desconfiado Ray Marotta (Ray Liotta). Enquanto Nora é rigorosa, Bert é mais pacífico.
Baumbach mostra que Nicole deseja se separar porque, principalmente, quer se dedicar a ser atriz de uma série de TV em Los Angeles. No início, como em sua filmografia, Baumbach apanha algumas influências básicas de Woody Allen, o que fez com que sua carreira fosse vista, de certo modo, como uma homenagem ao criador de Noivo neurótico, noiva nervosa. Em História de um casamento, ele sublinha Charlie como um artista egocêntrico, mas que deseja acompanhar o crescimento do filho. É interessante como Baumbach se dedica a mostrar esses personagens com nuances definidas. Charlie é um tanto manipulador, sendo amigo da mãe da esposa, Sandra (Julie Hagerty), e de sua irmã, Cassie (Merritt Wever), sem antes perguntar sobre como Nicole se sentiu nos episódios de TV que passou a gravar.

Ele é uma espécie de incógnita, que parece dedicado plenamente a seu filho, no entanto não vê o casamento como uma possibilidade de dialogar com sua carreira artística, não da maneira que gostaria. Aos poucos, no entanto, Baumbach vai se afastando dos maneirismos de Allen para ingressar num drama que faz lembrar, em seu estilo, fotografia e trilha sonora, o grande vencedor do Oscar de 1980, Kramer vs Kramer, sobre um pai (Dustin Hoffman) e uma mãe (Meryl Streep) disputando na justiça a guarda do filho.
História de um casamento, sob esse ponto de vista, não é original. Mas, em razão das atuações notáveis de Adam Driver e Scarlett Johansson, ambos nos melhores momentos de suas trajetórias, torna-se um estudo muito interessante como um divórcio pode mover personagens a mudar interiormente e deslocarem seus maiores objetivos para algo que pode ser mais sensível e atemporal, ligado aos filhos e a uma ideia de família, embora não seja exatamente aquela esperada. O personagem de Driver, nesse sentido, é significativo. Do mesmo modo, Baumbach vê a ação dos advogados como pessoas que interferem diretamente não apenas na privacidade, mas no rumo e na conveniência do que obriga cada um a se adaptar, e nesse sentido Dern, Liotta e Alda são bastante funcionais. Detalhes da vida íntima vêm à tona em troca de direitos e acusações são feitas no tribunal, enquanto existe um alívio nas conversas privadas. Há pelo menos uma cena de conflito entre os personagens de Driver e Johansson que estão entre algumas das melhores já feitas, não apenas porque a teatralidade funciona, como também, ao mesmo tempo, impulsionado pelas atuações, surge a autenticidade do sentimento exposto.

Chama a atenção, igualmente, como Baumbach entrelaça o cenário de ruas lotadas de Nova York e os preparativos da peça de Charlie para estrear na Broadway com as ruas cheias de palmeiras de Los Angeles e o apartamento a ser preenchido ainda por móveis, para evocar um estabelecimento provisório a fim de se lutar pela guarda do filho. Tudo guarda uma estética dos anos 70, impressão consolidada pela trilha sonora de Randy Newman e pela fotografia de Robbie Ryan, criando uma textura caseira e documental para cada cena, porém sem menosprezar o trabalho de luzes e sombras. Isso cria uma sensação extra de solidão dos personagens. No entanto, Baumbach não conduz tudo para um mero drama conjugal nem se apega àquilo que sustentava alguns de seus filmes, um humor patético, e sim para um teatro contundente sobre como o embate pode levar pessoas a se recolocarem no mundo, tentando descobrir o que as levou até determinado ponto e sem negar os sentimentos de afeto. Em alguns momentos, parece que História de um casamento está tratando de um divórcio. Na verdade, ele está tratando, de modo pouco usual e brilhante, da verdadeira conciliação.

Marriage story, EUA, 2019 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: David Heyman, Noah Baumbach Duração: 136 min. Estúdio: Heyday Films Distribuidora: Netflix

As golpistas (2019)

Por André Dick

Há alguns anos, Adam McKay apresentou uma visão interessante sobre a crise econômica que se abateu nos Estados Unidos em A grande aposta. Para isso, ele lidava com um panorama no qual tínhamos integrantes de Wall Street ligados ao caos financeiro ocorrido a partir de 2008. Alguns anos depois, McKay, junto com Ferrell e alguns outros nomes, produzem o que seria uma expansão de um determinado segmento daquele filme: a ligação, proposital ou não, entre strippers e executivos que passavam suas noites gastando dinheiro em boates.
Em As golpistas, a diretora Lorene Scafaria mostra uma jovem, Dorothy (Constance Wu), chamada por Destiny na noite, que começa a trabalhar no Moves, e se torna amiga de Ramona Vega (Jennifer Lopez), uma das principais dançarinas, ambas ganhando muito dinheiro. No entanto, Dorothy tem uma filha e acaba seguindo outro caminho, até que problemas financeiros a trazem novamente para Nova York, onde vai reencontrar a antiga amiga.

De certo modo, Scafaria mostra essas personagens femininas ligadas por uma necessidade de dinheiro mais do que, inicialmente, por uma amizade, embora Ramona se mostre como uma pessoa experiente e, na medida do possível, aja como uma espécie de figura materna. Novamente com problemas financeiros, Dorothy se depara com a antiga boate quase vazia e repleta de garotas russas, elas acredita que não vai conseguir retomar os antigos tempos e decide seguir um plano de Ramona: começar a enganar executivos durante a noite para extrair deles informações capazes de lhes render dinheiro. Tudo isso é parte de um relato a uma jornalista, Elizabeth (Julia Stiles), levando-se em conta que o filme se baseia na matéria “The Hustlers at Scores: The Ex-Strippers Who Stole From (Mostly) Rich Men and Gave to, Well, Themselves”, de Jessica Pressler.
Elas se juntam a Mercedes (Keke Palmer) e Annabelle (Lili Reinhart) e passam a circular na noite em busca de possíveis vítimas de seus golpes. As golpistas, de certo modo, é uma espécie de versão de As viúvas situada num universo que remete a Spring breakers. A maneira como Scafaria filma as ações tem uma influência clara de Terrence Malick,, principalmente do segmento de Cavaleiro de copas em que o roteirista do filme (Christian Bale) se envolve com uma stripper (Teresa Palmer), também no modo como a câmera transita pelos cenários vazios ou cheios.

A maneira como a riqueza é enfocada, justamente por meio de cenários grandiosos de casas ou pequenos, mostrando certa falência financeira, denota uma necessidade clara de se fazer um cinema calcado em ideias mais do que a princípio se anuncia. As golpistas, em seu ato inicial, parece uma sucessão de imagens adequadas a um videoclipe, com personagens entrando e saindo de cena sem a devida ênfase, com uma necessidade de destacar o visual, mas, aos poucos, ele começa a fazer sentido quando a personagem de Dorothy toma a dianteira – e a atuação de Cosntance Wu se mostra sólida. Lopez nunca teve muitas oportunidades em sua trajetória como atriz de demonstrar uma variação de sentimentos, e consegue, em As golpistas, fazê-lo. Vão anos desde a sua exposição excessiva em comédias românticas, que acabaram por impedi-la de se tornar uma atriz com tanto êxito como teve em sua trajetória musical.
Quando há uma transição do segundo para o terceiro ato, e Ramona se mostra uma personagem com mais nuances, a direção de Scafaria cresce e As golpistas se torna um retrato sobre um mundo feminino abandonado pelo masculino, mas que dele tenta se nutrir. Por que os executivos que levaram os Estados Unidos a um período tão conturbado da economia não são punidos?

Esse, curiosamente, é o dilema de Ramona exposto para Dorothy e no meio se situam as figuras de mães, avós e filhas. Tudo se compõe como um universo feminino que quer sobreviver sem a figura do homem, pois este se mostra distante ou não tem nenhuma segurança. O apartamento cheio de peles de animais para comemorar o Natal é apenas o ponto máximo desse desejo.
Curiosamente, As golpistas obtém certa influência não apenas de A grande aposta, em relação ao qual é levemente superior, mas também da Sofia Coppola de Bling Ring, com a obsessão das mulheres em conseguir comprar bens, roupas, joias, no que vai dialogar justamente com os homens dos quais tentam extrair dinheiro durante a noite. A diretora Scafaria, de certo modo, toma um caminho menos arriscado quando as cenas de dança parecem robotizadas, a fim de não tornar essa visão do submundo tão impactante ou explícita, evitando também incorrer em problemas de censura. Nisso, As golpistas perde um pouco do realismo, no entanto não sem retribuir em estilo: é difícil ver um filme tão bem fotografado (por Todd Banhazl), em detalhes e nuances capazes de sempre atrair a atenção do espectador, embora a história pareça até mesmo superficial ou linear, a partir do ponto de que se trata de uma narrativa baseada em depoimentos.

Hustlers, EUA, 2019 Diretora: Lorene Scafaria Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Julia Stiles, Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo, Cardi B. Roteiro: Lorene Scafaria Fotografia: Todd Banhazl Produção: Jessica Elbaum, Will Ferrell, Adam McKay, Elaine Goldsmith-Thomas, Jennifer Lopez Duração: 110 min. Estúdio: Gloria Sanchez Productions, Nuyorican Productions, Annapurna Pictures Distribuidora: STXfilms

O irlandês (2019)

Por André Dick

Aguardado por alguns anos e depois de vários contratempos para conseguir orçamento necessário (em torno de 160 milhões de dólares), O irlandês acabou se tornando um dos destaques da Netflix antes de ser lançado. Não apenas por ser de Martin Scorsese, mas também por sua ousadia em fazer o rejuvenescimento de atores com efeitos visuais que acabaram prolongando a pós-produção.
Lançado finalmente, estamos diante de uma história com 209 minutos, no melhor estilo dos clássicos da Nova Hollywood dos anos 1970. Scorsese marca seu retorno depois de seu experimental Silêncio, sobre a ida de jesuítas para o Oriente a seu espaço mais habitual: o que enfoca mafiosos, sejam declarados ou não. Para isso, ele acompanha, desde o início, a viagem de Frank Sheeran com Russell Bufalino (Joe Pesci), com suas respectivas esposas, Irene (Stephanie Kurtzuba) e Carrie (Kathrine Narducci). As lembranças começam quando eles param perto de um posto de gasolina. Sheeran recorda que ali ele conheceu, nos anos 50, o amigo quando teve problema em seu caminhão no tempo em que transportava carne. Nesses transportes, ele conhece Felix “Skinny Razor” DiTullio (Bobby Cannavale), com o qual passa a fazer combinações criminosas. Depois de um acerto com o advogado sindical Bill Buffalino (Ray Romano), Sheeran acaba finalmente sabendo quem é Russell, amigo de Angelo Bruno (Harvey Keitel). Ele passa a trabalhar para ele no universo de gângsters da Filadélfia, também integrando o sindicato dos caminhoneiros dos Estados Unidos. É então que ele conhece Jimmy Hoffa (Al Pacino), o grande líder da União dos Teamsters, mestre em longos discursos e promessas de união entre os integrantes da categoria, que se torna, junto com sua esposa Jo (Welker White) e o filho adotivo Chuckie O’Brien (Jesse Plemons), amigo de Sheeran e, mais do que próximo, parceiro de crime. Hoffa também cria um laço de afeto com Peggy (Lucy Gallina na infância e Anna Paquin na vida adulta), filha de Sheeran, e, em meio aos problemas do sindicato, quer deter o crescimento de Anthony “Tony Pro” Provenzano (Stpehen Graham).

Nos anos 90, Os bons companheiros focava uma máfia de origem pedestre. Isso porque podemos ver que O poderoso chefão, de Coppola, é mais sofisticado e seus mafiosos estão sempre um pouco afastados do cotidiano, mais próximos de uma tragédia grega, em que cada elemento familiar pode também representar uma traição e o pecado. Em Scorsese, por sua vez, os mafiosos até então apareciam à solta pela rua e arranjam brigas de bar com a mesma facilidade com que se barbeiam, além de ostentarem dinheiro, mesmo inconscientemente, ao invés de tentar escondê-lo em algum banco. Os companheiros de Scorsese são, em última instância, pop stars do crime, expondo-se em bares ou salões de jogo com suas amantes (e os personagens do cineasta nunca foram exatamente discretos; basta lembrar, por exemplo, o açougueiro feito por Day-Lewis em Gangues de Nova York). Em O irlandês, mesmo porque Hoffa é uma figura também política respeitada, os mafiosos se comportam de maneira obscura, e Sheeran ao longo da narrativa parece mais um vulto do que qualquer outro, com uma atuação contida, emocional e detalhada de De Niro, por trás de um CGI de rejuvenescimento adequado na maior parte do tempo, a não ser num breve momento em que aparece na Segunda Guerra Mundial.

Em Os bons companheiros, toda essa tentativa que Scorsese vinha tendo em sua carreira anterior, de mostrar o universo da máfia, mas já no início com Caminhos perigosos – a máfia no Little Italy – e Touro indomável (não por acaso com dois atores de Os bons companheiros), se encontra maximizada. Não por acaso, ele faria em meados dos anos 90 Cassino, com De Niro e Pesci também como mafiosos em Las Vegas.
O irlandês é uma mescla desses dois filmes com o humor impagável de O lobo de Wall Steet. O seu roteirista Steve Zaillian já havia escrito O gângster para Ridley Scott e aqui segue o caminho de subtramas acumuladas, a partir do livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, distribuindo gags funcionais ao logo de algumas cenas extremamente bem construídas, por meio dos diálogos e das atuações.
Scorsese, com um brilhantismo auxiliado pela montagem de Thelma Schoonmaker, em seu auge aqui, consegue delinear, neste caos narrativo e nesta desregularização dos valores – há valores aqui, mas mundanos – uma certa referência familiar e mesmo de saudosismo. Para os personagens, a família tem um significado intenso, mesmo que ele em determinados momentos não importe, pois os negócios e a influência vêm em primeiro lugar. Uma cobrança de Sheeran ao dono de uma mercearia sobre o tratamento dado à sua filha Peggy é exemplar nisso. De Niro empreende a mescla entre ser oculto e extremamente violento, embora Scorsese nunca esclareça muito bem seus objetivos, o que era tão forte com os personagens centrais de Os bons companheiros e O lobo de Wall Street.

Na verdade, todos agem em conjunto para manter exatamente este domínio sobre as coisas que podem perder o controle. Castas são colocadas em jogo, mas nunca totalmente, e, por baixo de uma camada de violência e mesmo de secura e tragédia, uma espécie de olhar para as coisas realmente importantes e mais permanentes, tanto para Frank quanto para Jimmy e Russell.
Que O irlandês seja um filme sobre a máfia e sobre os mafiosos, ninguém duvida, no entanto ele, antes disso, mostra a decadência de um personagem, atraído pelo status do desaparecimento, e depois sua tentativa, afinal, de viver aquilo que antes criticava. Nesse sentido, como Os bons companheiros e O lobo de Wall Street, também é uma crítica ferina a um certo modo de vida e uma constatação já tardia para Scorsese de que não vale a pena viajar para fora da cidade sem ter certeza se irá voltar. Mesmo os trechos passados na cadeia são cômicos, na tentativa tanto de torná-la uma extensão de uma sorveteria quanto de um bar. A questão é que Scorsese, em O irlandês, mesmo com o tom épico, nos designs de produção e figurinos valiosos, trata do pano de fundo político da década de 60 em alguns momentos, com Hoffa (interpretado nos anos 90 por Jack Nicholson) sendo perseguido pelo filho de Kennedy, Robert (Jack Huston), e testemunhando a invasão na Baía dos Porcos em Cuba, momento em que o filme dialoga diretamente com JFK – A pergunta que não quer calar, de Oliver Stone.

De Niro consegue oferecer seu elemento meio cômico e dramático típico, enquanto Pesci se mostra pela primeira vez comedido. Já Al Pacino parece fazer uma boa mescla entre o Big Boy Caprice de Dick Tracy e o tenente-coronel Frank Slade de Perfume de mulher. Por sua vez, os coadjuvantes, como Romano e Plemons, mereciam mais tempo de cena, principalmente pela duração de 3 horas e meia, no entanto é plausível que Scorsese se sinta mais confortável em centralizar a história do trio de amigos por interesse. Aliado à encenação irretocável em tribunais, evocando O poderoso chefão II, O irlandês adota uma dramaticidade baseada no biografismo e sem ceder a alguns exageros típicos dos filmes antigos do cineasta, em que a violência era quase fantasiosa de tão acentuada, e entre essas obras se inclui Os infiltrados. Se em meio a esse universo a figura da mulher se perde (e ela era presente em Os bons companheiros com Lorraine Bracco, em Cassino com Sharon Stone e em O lobo de Wall Street com Margot Robbie), é porque Scorsese parece estar tratando do auge e do aprisionamento da figura clássica e queda da figura masculina entre os anos 50 e início dos anos 80. Novos gângsters ainda viriam, no entanto Scorsese prefere mesclar uma espécie de sentimento religioso e de desapego às relações para mover sua obra em direção a uma coda melancólica e impecavelmente habitada nos longínquos anos 70. Tudo soa como um testamento do cineasta, desde a escolha dos atores que o acompanharam ao longo de sua carreira até os momentos mais próximos de um afeto já perdido, quando o olhar diante dos filhos em relação às ações de uma vida toda não se faz mais possível. Mesmo a narração de Sheeran soa desanimada, diante de um universo conturbado e impecavelmente bem desenhado.

The irishman, EUA, 2019 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Bobby Cannavale, Anna Paquin Ray Romano, Jesse Plemons, Stephanie Kurtzuba, Kathrine Narducci, Jack Huston Roteiro: Steven Zaillian Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Robbie Robertson Produção: Martin Scorsese, Robert De Niro, Jane Rosenthal, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler, Gerald Chamales, Gastón Pavlovich, Randall Emmett, Gabriele Israilovici Duração: 209 min. Estúdio: TriBeCa Productions, Sikelia Productions, Winkler Films Distribuidora: Netflix