El Camino – A Breaking bad movie (2019)

Por André Dick

Há uma tradição de séries tão bem-sucedidas que acabam virando filmes. Isso aconteceu, por exemplo, com  Twin Peaks e Arquivo X nos anos 90, utilizando os mesmos atores. Em outros casos, as séries são feitas numa década e transpostas para o cinema em outra, com elenco diferente, a exemplo de Sombras da noite, Os intocáveis, Miami Vice, Agente 86, As panteras e Anjos da lei. Outros filmes, por sua vez, dão origem a séries, no caso de Cobra Kai (estendendo o universo de Karatê Kid para a internet) e O cristal encantado, ou, no caso de Twin Peaks, voltam ao universo televisivo, todas, no entanto, com estilo cinematográfico. Não é, nesse sentido, inesperado que uma das séries mais festejadas dos últimos anos, Breaking bad, veiculada entre 2008 e 2012, ganhe um filme agora, sob a mesma direção do seu criador Vince Gilligan.

A história inicia com um flashback no qual Jesse Pinkman (Aaron Paul) e Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) discutem sobre sua saída dos negócios de Walter White (Bryan Cranston) e sobre  desejos futuros. Logo a história se transporta para o presente quando Jesse está fugindo da polícia a bordo do El Camino e vai parar na casa dos amigos Skinny Pete (Charles Baker) e Brandon “Texugo” Mayhew (Matt Jones). A partir daí, uma espécie de amizade enraizada e bem definida de Jesse com esses personagens, sobretudo com Skinny, o diretor desencadeia uma série de idas e vindas no tempo, primeiro com Jesse lembrando de Todd (Jesse Plemmons), supremacista branco que o prendeu e precisa de sua ajuda para se livrar de um problema em seu apartamento.
O diretor Vince Gilligan (produtor de Arquivo X) é um estilista notável, o que já se pronunciava na série. No filme, ele expande o estilo que influenciou Denis Villeneuve (Sicario) e Ridley Scott (O conselheiro do crime), focado em sua principais inspirações: os irmãos Coen de Onde os fracos não têm vez o David Lynch de Coração selvagem (levando-se em conta que há elementos de Twin Peaks – O retorno inspirados em Breaking bad) e o Tarantino de Kill Bill – Vol. 2. Sua maneira de filmar esse universo árido, com a ajuda da fotografia de Marshall Adams por meio da perspectiva de um homem acuado pelos erros do tempo, Jesse, é notável.

No entanto, sua efetividade não seria a mesma sem a atuação de Aaron Paul, verdadeiramente extraordinário na sua volta ao papel. O roteiro é encadeado por uma série de blocos muito bem definidos, que não tornam a narrativa rígida, pelo contrário extremamente fluida e necessária ao compor seus diálogos. Uma ida de Jesse ao apartamento de Todd é impecável na sua construção de suspense, assim como o encontro dele com Neil Kandy (Scott MacArthur), e seu parceiro de trabalho Casey (Scott Sheperd), numa reminiscência do primeiro episódio de Twin Peaks – O retorno, em que dois policiais se veem à volta com uma moradora de condomínio confusa. A pressão aumenta quando ele se encontra com Ed (Robert Forster), numa outra sequência de grande desenvolvimento em termos de diálogo e imprevisto.
Fala-se que Gilligan considera o filme pode não tão interessante para quem não acompanhou a série. É possível dizer que, exceto alguns detalhes (acompanhei a série de modo excessivamente fragmentado para me considerar conhecedor), ele se mantém perfeitamente como uma obra à parte. Não tem, por exemplo, a mesma ligação de Twin Peaks com a série ou os filmes do Arquivo X com o universo que os precedeu.

Não apenas Paul tem uma ótima atuação, como também MacArthur, Sheperd e Robert Forster, infelizmente no seu papel derradeiro. Todos desempenham seus personagens de maneira destacada num universo caracterizado pela solidão e por uma certa falta de esperança, na maneira como Gilligan amplia o campo de visão de cada cenário, deixando seus personagens minúsculos diante da natureza.
Como a série, porém ainda com mais apuro, isto se parece com um faroeste contemporâneo, igual a alguns dos melhores momentos da obra dos irmãos Coen, e há uma determinada solução que aponta para esse caminho. Jesse é um homem que vem de um quase desaparecimento para uma tentativa de desaparecer totalmente do Novo México e do rastro da polícia e do passado que o envolveu numa série de castigos. Gilligan exerce essa visão de maneira visualmente atrativa, parecendo coloca-lo em cenários abandonados e nunca mais visitados. Mesmo uma conversa ao telefone com seus pais é cercada de ilusões sobre o que poderia ter sido, não tivesse acontecido exatamente o contrário. Desse modo, o filme El Camino – A Breaking bad movie é uma das grandes surpresas desta temporada do Oscar que se aproxima, com grande efeito em quem viu ou não a série. Um exemplo de como lidar com um personagem principalmente em diferentes linguagens, muitas vezes inseparáveis.

El Camino – A Breaking bad movie, EUA, 2019 Diretor: Vince Gilligan Elenco: Aaron Paul, Jonathan Banks, Bryan Cranston, Robert Forster, Charles Baker, Matt Jones, Jesse Plemmons, Scott MacArthur, Scott Sheperd Roteiro: Vince Gilligan Fotografia: Marshall Adams Trilha Sonora: Dave Porter Produção: Mark Johnson, Melissa Bernstein, Charles Newirth, Vince Gilligan, Aaron Paul Duração: 122 min. Estúdio: Sony Pictures Television, Gran Vía Productions, High Bridge Productions Distribuidora: Netflix

 

10 possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme em 2020

Por André Dick

Neste artigo, seleciono alguns possíveis indicados ao Oscar de melhor filme em 2020. Em 2019, acertei 4 candidatos da lista principal e 2 da repescagem. Apresento 10 possíveis nomeados, o que não acontece, no entanto, desde 2012, costumando ficar entre 8 ou 9. Esta lista sai antes de premiações importantes (Independent Spirit Awards, BAFTA, Globo de Ouro, principalmente), ou seja, depois das indicações delas e seus vencedores, as coisas se aclaram um pouco mais. As probabilidades se baseiam em recepção crítica (dos que estrearam até agora; alguns podem ainda ser mal recepcionados) e temas tratados, que agradam mais ou menos à Academia, além dos gêneros de filmes. Alguns deles, como Adoráveis mulheres e 1917, ainda não estrearam e, dependendo das críticas, podem sair da disputa (como aconteceu com A lei da noite em 2017 ou Pequena grande vida em 2018). Também acredito que História de um casamento teria mais chances de figurar entre os candidatos se O irlandês não fosse a obra preferida com distribuição da Netflix (e tenho dúvidas se a Academia emplacaria dois filmes da empresa de streaming). Por isso, coloco também cinco filmes numa repescagem e outros possíveis indicados (esses às vezes guardam surpresas, capazes de se fortalecer na temporada de premiações). Assinalo que A hidden life, de Terrence Malick, corre à margem (o trabalho do diretor é ignorado pela Academia desde A árvore da vida), porém, dependendo de sua recepção em dezembro, pode repetir o que aconteceu, por exemplo, com Trama fantasma. Leve-se em conta que no ano passado ninguém esperava, nessa época, que Bohemian Rhapsody fosse indicado a melhor filme e recebesse 4 Oscars.

Era uma vez em Hollywood

Quentin Tarantino teve alguns filmes indicados ao Oscar principal (Pulp Fiction, Bastardos inglórios e Django livre). Este Era uma vez em Hollywood parece ser o próximo, principalmente por seu elenco (Brad Pitt especialmente a coadjuvante), e parte técnica de grande potencial. No entanto, Os oito odiados foi ignorado, e era uma obra-prima. Seu diferencial para atrair é a homenagem de Tarantino à Hollywood do final dos anos 60, por meio de um ator que está sendo esquecido e tem sua última oportunidade no universo cinematográfico, feito com grande talento por Leonardo DiCaprio.

Adoráveis mulheres

Após o sucesso de crítica de Lady Bird e ser indicada a direção e filme, Greta Gerwig traz em seu segundo projeto um grande elenco: além de sua atriz favorita, Saoirse Ronan, Timothée Chalamet, Meryl Streep, Florence Pugh, Laura Dern e Emma Watson. A história, adaptada por Gerwig e Sarah Polley de um romance de Louisa May Alcott, mostra irmãs na Nova Inglaterra em 1860, durante a Guerra Civil Americana. Com trilha sonora de Alexandre Desplat, o trailer antecipa uma mescla entre O estranho que nós amamos e Maria Antonieta, ambos de Sofia Coppola.

O irlandês

Com seus 210 minutos, O irlandês dificilmente ficará de fora dos indicados, embora o filme anterior de Scorsese, Silêncio, tenha sido nomeado apenas para melhor fotografia. O irlandês, porém, parece ser uma síntese da trajetória do diretor, mesclando desde os tempos de Touro indomável e Os bons companheiros (na parceria de De Niro e Joe Pesci) até O lobo de Wall Street. Ele conta a história de Frank Sheeran (Robert De Niro), que trabalha para a máfia e é veterano da Segunda Guerra Mundial. A trama acompanha seu envolvimento com o sumiço do líder trabalhista Jimmy Hoffa (Al Pacino). Lembremos que já há um filme especificamente sobre Hoffa, de 1992, interpretado por Jack Nicholson. Uma das expectativas é quanto ao rejuvenescimento de atores como De Niro, Pesci e Pacino, num trabalho ousado da equipe de Scorsese.

Coringa

Premiado de forma surpreendente com o Leão de Ouro em Veneza, Coringa é o segundo filme consecutivo de adaptação de quadrinhos, depois de Pantera Negra, a ter reais chances de indicações ao Oscar nas categorias principais. Além de Joaquin Phoenix no papel central, de Arthur Fleck, temos ainda Robert De Niro como coadjuvante e a fotografia de Lawrence Sher. O diretor Todd Phillips foi deixado de lado pelo Oscar por Se beber, não case! depois de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme com a comédia. Coringa pode ser sua chance de chegar ao prêmio.

Ford vs Ferrari

Com direção de James Mangold (Logan), Ford vs Ferrari talvez seja uma mescla entre Rush e o clássico Grand Prix, indicado ao Oscar de melhor filme em 1967. O filme traz a história de um designer de carros, Carroll Shelby (Matt Damon), e do motorista de carro de corrida Ken Miles (Christian Bale), que estiveram à frente de uma equipe que ajudou a Ford a construir um carro capaz de competir com a Ferrari. Já presente no Oscar com Johnny & June e Os indomáveis e indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado por Logan, Mangold costuma ter boa recepção na Academia.

A beautiful day in the neighborhood

Diretora de Poderia me perdoar?, que rendeu uma indicação ao Oscar para Melissa McCarthy, além de para ator coadjuvante e roteiro adaptado, Marielle Heller traz a história de um jornalista da Esquire, Lloyd Vogel (Matthew Rhys), que precisa fazer uma matéria sobre o apresentador de televisão infantil Fred Rogers (Tom Hanks) e muda sua percepção sobre a vida. Hanks é preterido pela Academia desde Náufrago (não tendo sido indicado por ótimas atuações em Prenda-me se for capaz, Cloud Atlas e Sully), mas o filme tem elementos que costumam agradar à Academia.

Jojo Rabbit

Quem viu o trailer deste filme certamente percebeu a inspiração do vencedor do Festival de Toronto, quase uma garantia de ser indicado ao Oscar mais almejado: a filmografia de Wes Anderson, mais exatamente sua obra Moonrise Kingdom. O diretor Taika Waititi, de Thor: Ragnarok e A incrível aventura de Rick Baker, reúne um grande elenco numa espécie de sátira da Segunda Guerra Mundial e a Adolf Hitler (que ele mesmo interpreta). O menino JoJo (Roman Griffin) descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) esconde uma menina judia em sua casa, o que vai de encontro aos ensinamentos que recebeu do nazismo. Parece evidente também a influência de O ditador e A vida é bela nessa trama.

Luta por justiça

Em nova obra de Destin Daniel Cretton, que fez O castelo de vidro e Temporário 12, o advogado Bryan Stevenson (Micheal B. Jordan) se desloca para o Alabama, a fim de defender os injustamente condenados, começando por Walter McMillian (Jamie Foxx), no corredor da morte, preso injustamente pela morte de uma mulher. Cretton não tem até agora sido lembrado pela Academia, no entanto costuma apresentar excelente trabalho de direção de atores e histórias profundamente humanas. No elenco ainda está Brie Larson, atriz preferida do cineasta, que esteve em seus dois filmes.

1917

Sob a direção de Sam Mendes, que se dedicou à série 007 nesta década, 1917 tem como cenário a Primeira Guerra Mundial, no ano do título, no norte da França, acompanhando dois jovens soldados ingleses, Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman), que recebem a missão de levar uma mensagem passando por linhas inimigas. Com fotografia de Roger Deakins, a inspiração é claramente Dunkirk, de Nolan, de 2017. Mendes já venceu o Oscar por Beleza americana, e 1917 tem grande chance como filme de guerra, gênero apreciado pela Academia, contando ainda no elenco com Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Mark Strong.

The farewell

Com um pôster muito parecido com o de Flores de aço, de 1989, The Farewell tem na direção  Lulu Wang. Mostra a história de uma família, na qual o personagem central é o aspirante a escritor chinês-americano Billi (Awkwafina), que se reúne ao saber que a avó, chamada Nai Nai (Zhao Shuzhen), está prestes a morrer. Muito elogiado no circuito de festivais, tem mais chances do que aparenta

Repescagem

Parasita

Vencedor do Festival de Cannes em 2019, este é facilmente o melhor filme de Bong Joon-ho desde Memórias de um assassino. É um tanto insano, sem gênero definido, parece não dizer nada, mas sabe trabalhar seus temas. Joon-ho aprendeu com os erros de Okja e soube deixar as metáforas mais implícitas ao invés de tentar explicá-las para o espectador. Para isso, o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo assegura os movimentos de câmera para fazer o espectador se inserir dentro dos ambientes. É uma espécie de jornada por uma sociedade em construção ou desconstruída, nunca previsível. Joon-ho pode repetir o fato de um diretor estrangeiro ser indicado, como Michael Haneke por Amor, em 2013, e Pawel Pawlikowski por Guerra fria, em 2019.

História de um casamento

Outro projeto do diretor Noah Baumbach na Netflix, depois de Os Meyerowitz, mostra o divórcio entre o diretor de teatro Charlie (Adam Driver) e uma atriz (Scarlett Johansson). Bem recebido no Festival de Toronto, parece seguir a linha temática dos anos 70, de obras como Kramer vs Kramer, nos moldes do que Baumbach aprecia em sua filmografia, a exemplo de Frances Ha, Enquanto somos jovensGreenberg. O elenco tem ainda Laura Dern e Alan Alda.

Entre facas e segredos

Logo depois de Star Wars – Os últimos Jedi, Rian Johnson emprega uma trama nos moldes de Agatha Christie, com um detetive tendo de investigar um assassinato com um grande número de suspeitos. Parece retomar elementos de A ponta de um crime, um de seus melhores filmes. O elenco é de destaque: Daniel Craig, Chris Evans, Don Johnson, Toni Collette, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon e LaKeith Stanfield.

Ad Astra – Rumo às estrelas

O filme de James Gray tinha todas as chances claras… não tivesse sido, como O primeiro homem, no ano passado, uma decepção nas bilheterias. Uma bela ficção científica, sua parte técnica e a atuação de Brad Pitt podem ajudá-lo a se credenciar. Além disso, pode repetir a influência que tem o gênero nos últimos anos, visto Gravidade e Perdido em Marte.

As golpistas

Este parece ser o filme independente com possibilidades de ser lembrado pelo Oscar. Dirigido por Lorene Scafaria, com base num artigo de 2015 da revista New York, “The Hustlers at Scores”, de Jessica Pressler, a trama segue um grupo de strippers na cidade de Nova York que passam a roubar dinheiro, envolvidas com acionistas de Wall Street. No elenco, estão Constance Wu, Jennifer Lopez, Julia Stiles, Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo e Cardi B. Um detalhe importante: Lopez produz o filme com Jessica Elbaum, Will Ferrell e Adam McKay, esses dois indicados por A grande aposta e Vice.

Outros possíveis indicados

A lavanderia (Steven Soderbergh), O relatório (Scott Z. Burns), Waves (Trey Edward Shults), The aeronauts (Tom Harper), Meu nome é Dolemite (Craig Brewer), Cats (Tom Hooper), Dowton Abbey – O filme (Michael Engler), The last black man in San Francisco (Joe Talbot), Clemency (Chinonye Chukwu), O escândalo (Jay Roach), Judy (Rupert Goold), Dois papas (Fernando Meirelles), Dark waters (Todd Haynes), Harriet (Kasi Lemmons), Star Wars – A ascensão Skywalker (JJ Abrams), A grande mentira (Bill Condon), The personal history of David Copperfield (Armando Iannucci), A hidden life (Terrence Malick)

Projeto Gemini (2019)

Por André Dick

Projeto Gemini é uma espécie de mistura entre thriller e ficção científica na qual Will Smith interpreta Henry Brogan, um experiente assassino do governo dos Estados Unidos, que precisa matar um homem identificado como terrorista num trem bala. Essa cena inicial é tão parecida com aquela que introduz Floyd Lawton, o Pistoleiro, em Esquadrão suicida, também interpretado por Smith, que se pode lembrar que Ang Lee trabalhou no gênero de adaptações de quadrinhos com Hulk. Trata-se da sequência mais tensa do filme, com uma agilidade de enquadramento e de disposição dos elementos em cena.pela fotografia de Dion Beebe, responsável pelos trabalhos de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi e No limite do amanhã, duas peças de ação compacta.

E este é o ponto de partida de uma obra que vai levar Brogan a conhecer Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead), que trabalha alugando barcos, antes de saber que a pessoa que ele matou era inocente. Ele se torna um alvo pelo ocorrido, inclusive de Clay Varris (Clive Owen), responsável por uma unidade secreta de biotecnologia que atende pelo nome Gemini. O nome, propriamente, é um aviso: há uma figura gêmea na história, a partir do DNA. Para ajudá-los, aparece Baron (Benedict Wong).
Lee sempre foi um exímio diretor de cenas de ação, como vemos em O tigre e o dragão e, mais recentemente, no ótimo e menosprezado A longa caminhada de Billy Lynn. Também é um diretor que concentra talento para interações dramáticas, desde Tempestade no gelo, passando por O segredo de Brokeback Mountain, até As aventuras de Pi. Lee se destacou no campo da fantasia justamente com Pi e depois disso quis jogar com o 3D em Billy Lynn e a movimentação maior de 120 quadros por segundo, o que se repete aqui (mas em raríssimos cinemas mesmo nos Estados Unidos; no Brasil pode-se encontrar versões com até 60 quadros por segundo).

Nada disso indica que o roteiro, inexplicavelmente rodando em Hollywood desde o final dos anos 90, deveria ser colocado em segundo plano, pois ainda estamos tratando de um filme e não de um experimento puramente técnico – e mesmo este não se dá pela velocidade da imagem e sim pelo talento do diretor de fotografia em reunião com o diretor, ou seja, se um filme precisa de uma determinada composição para ser bom ele, definitivamente, não é. Não se está aqui menosprezando a técnica e sim a sua aceitação como ponto primordial para que outros elementos de uma obra não sejam desenvolvidos. Se muitos viram em Gravidade apenas um experimento de efeitos visuais, talvez não foram receptivos à ideia de que a história mostra, de maneira enfática, a aceitação de uma mulher no espaço sobre as perdas em sua vida e o possível reencontro com uma nova oportunidade. Em Projeto Gemini, Lee pode estar ecoando ainda certos temas de seu filme anterior, sobre um jovem soldado, mostrando que a guerra humana se reciclasse sem interrupção, inclusive em seres humanos completamente idênticos. Há algumas mudanças de cenário próprias de uma obra que pretende inaugurar uma franquia, porém sem o devido interesse estético, mesmo com as boas locações. Em meio a isso, o interesse em contar uma história de maneira autoral parece menos interessante a Lee.

Assinado por David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, este é o elemento mais complicado de Propjeto Gemini. Se Smith até consegue transparecer um certo conflito no papel central, finalizando seu bom ano iniciado pela atuação como Gênio em Aladdin, mas a boa atriz Mary Elizabeth Winstead se mostra um pouco deslocada e a figura mais jovem de Brogan – um Will Smith rejuvenescido por computador e com uma certa ênfase em maneirismos que poderia lembrar Zoolander (o melhor rejuvenescimento do cinema ainda é o de Robert Downey Jr. em Capitão América – Guerra civil, e que O irlandês traga boas novas) – não tem muito a fazer, além de o vilão ser esquecível. Falta um tratamento dramático, mesmo inserido na ação, capaz de oferecer a Smith a oportunidade de entregar uma atuação como a de Beleza oculta. A tentativa de desenvolver um romance entre Henry e Danny se sente, a partir de determinado momento, apenas para preenchimento de diálogos soltos. No entanto, Lee é um hábil diretor de imagens requintadas, e Projeto Gemini se sente o tempo todo um thriller elegante, com certas cenas de ação que remetem a Matrix reloaded, no entanto que no fim das contas são boas e efetivas embora sem o mesmo realismo do mais recente Missão: impossível, por exemplo. Do mesmo modo, há algumas boas ideias sobre clonagem de humanos, ainda que sem o desenvolvimento necessário para que o roteiro se desprenda da ideia de ser mais uma obra de ação contemporânea sem uma proposta exatamente nova.

Gemini man, EUA, 2019 Diretor: Ang Lee Elenco:  Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Jerry Bruckheimer, David Ellison, Dana Goldberg, Don Grangerim Squyres Duração: 117 min. Estúdio: Skydance Media, Jerry Bruckheimer Films, Fosun Pictures, Alibaba Pictures
Distribuidora: Paramount Pictures

Coringa (2019)

Por André Dick

Há uma década, Todd Phillips realizou uma das comédias mais interessantes do cinema deste século, Se beber, não case!, muitas vezes subestimada, que ganhou duas sequências, a terceira parte com menos qualidade, igual à outra empreitada de sua autoria, Um parto de viagem. Em 2016, ele lançou Cães de guerra, uma espécie de sátira à política da era George W. Bush, com dois amigos lucrando com a venda de armas para territórios em combate. Sem exatamente ser associado a temas sérios, Phillips tinha como projeto antigo fazer uma adaptação da origem do Coringa para o cinema. Ela se tornou real com a atuação de Joaquin Phoenix, um dos atores mais brilhantes de sua geração, que apenas nesta década atuou em obras notáveis como O mestre, Ela, Vício inerente e Você nunca esteve realmente aqui.

Com um roteiro apresentando elementos de dois filmes de Scorsese – O rei da comédia e Taxi Driver –, Coringa mostra Arthur Fleck (Phoenix), que trabalha como palhaço nas ruas de Gotham City, em 1981, e em casa cuida de sua mãe Penny (Frances Conroy). A cidade está passando por um momento conturbado, com muitos desempregados e lixo nas ruas, atraindo, inclusive, uma invasão de ratos. Arthur sofre de problemas neurológicos, um deles rir compulsivamente quando em estado de ansiedade. Ele tem uma boa relação com a mãe, com quem costuma assistir ao programa de Murray Franklin (Robert De Niro), um talk show, no entanto precisa tomar muitos medicamentos, para que suas crises não piorem. Também tem interesse por uma vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), que encontra certo dia no elevador, com a sua filha – numa cena capaz de transferir o espectador para algo de Drive. Todos os problemas de Fleck são acentuados pelo fato de não ser bem aceito em seu ambiente de trabalho, apesar do apoio de Gary (Leigh Gill) e da “amizade” de Randall (Glenn Fleshler), e os rumos da política na cidade, com a candidatura de Thomas Wayne (Brett Cullen).

Phillips costura os rumos da vida de Fleck, que, em meio a tudo, sonha em fazer um show de comédia stand-up , com uma visão sombria sobre o comportamento humano. Seu roteiro, apesar de tomar como referência as obras de Scorsese, como já fazia em Cães de guerra – com seus elementos visuais e narrativos de O lobo de Wall Street –, vai muito além e considerá-lo um simples apêndice dessas obras mostra um desentendimento da proposta de Phillips: não estamos diante de um taxista que detesta o cheiro das ruas nem de um stalker em busca da amizade de seu comediante favorito. Sem se basear exatamente no cânone de histórias em quadrinhos do Coringa, o diretor desenha uma figura da qual o espectador se aproxima aos poucos como de um personagem a ser estudado. É exposta a relação dos cenários nos quais Fleck perambula com seu comportamento, e a maneira como ele projeta a realidade se confronta com sua visão sobre construção familiar, a partir da figura emblemática da mãe, feita com sensibilidade por Conroy, e, fantasiosamente, de Murray, em bela atuação de De Niro. A maneira como ela espera dele um comportamento feliz e como ele visualiza o apresentador Murray Franklin como uma espécie de pai artístico é entrelaçada com outra subtrama definidora de que aqui está uma adaptação dos quadrinhos realmente psicológica, escolhida como melhor filme no Festival de Veneza.

Phoenix, com uma atuação extraordinária, vai modulando nuances e mudando seus trejeitos a cada vez que vai descobrindo mais sobre si mesmo (e se autodescobrir, em seu  caso, não é exatamente um mérito) e Phillips não o visualiza, embora pareça, como uma vítima da sociedade, e sim como o resultado de escolhas passadas feitas por outras pessoas, traduzidas no que ele tenta ser e não consegue, pois os limites entre o certo e o errado já se perderam em sua mente e não são simples ou firmados.
Com uma trilha sonora incessante de Hildur Guðnadóttir, retratando o descompasso do personagem central, e uma fotografia exímia de Lawrence Sher, com o qual Phillips habitualmente trabalha e que se inspira na de Emmanuel Lubezki de Birdman, em alguns momentos, Coringa revela um universo no qual a piada feita em cadernos borrados de pensamentos nunca consegue realmente se manifestar – apenas uma risada compulsiva. Fleck é uma espécie de travessia da tentativa de se adaptar e o resultado da inadaptação, e os passos dados por Phoenix na construção de seu personagem são marcantes porque se situam num espaço em que a clareza não se manifesta nunca. Isso porque não sabemos o que nele é humano e desumano, pois ambas as facetas algumas vezes parecem existir nele em diferentes etapas da narrativa e Gotham City e seus habitantes são a projeção de como ele se sente em relação às pessoas.

Por isso, a tentativa de se aproximar amorosamente da vizinha Sophie se mostra tão dolorosa e Phillips consegue extrair uma sensação de solidão inabalável do apartamento em que Fleck vive com sua mãe, com uma densidade singular. São raríssimas as obras capazes de lidar com temas delicados de maneira tão ampla e, principalmente, acompanhar a progressão de um indivíduo em suas complicações antissociais. Se este é visto como uma saída para a sociedade em ruínas? Só o espectador mais desavisado entenderia assim. Coringa provoca o espectador a pensar sobre o que constitui um indivíduo, no caso de Fleck os problemas neurológicos e o que isso é usado em nome de um combate ao sistema – Phillips não está interessado nisso em nenhum momento, como se predispõe a dizer, uma vez que ele enxerga o sistema como parte da própria desculpa para um ser humano com elementos psicóticos se manifestar. Kubrick já usou esses temas em Laranja mecânica, mas Phillips faz em seu filme mais do que uma releitura: ele faz uma leitura da sociedade contemporânea por meio da entrada de um homem na insanidade completa. Desde o início, o filme não está tentando ser bem-humorado; ele pesa. Não serve para indicar exemplos, a não ser de como o cinema pode fazer um registro de impacto quando conta uma história com maestria.

Joker, EUA, 2019 Diretor: Todd Phillips Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Douglas Hodge Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver Fotografia: Lawrence Sher Trilha Sonora: Hildur Guðnadótti Produção: Todd Phillips, Bradley Cooper, Emma Tillinger Koskoff Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, Village Roadshow Pictures, Bron Creative, Joint Effort Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Melhores filmes de 2017

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2017. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Não se costuma incluir obras que são consideradas séries, mas abriu-se uma exceção para Twin Peaks – O retorno, uma vez que se trata, na minha opinião, de um filme dividido em 18 episódios e dirigido por um dos maiores cineastas da história. Ele foi exibido como tal no Museu de Arte Moderna em Nova York no fim de 2017, assim como em outros lugares do mundo. Este foi um ano especialmente difícil para se escolher a ordem. Qualquer um dos quatro primeiros colocados poderia ser o melhor filme desse ano. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. The Square – A arte da discórdia (Ruben Östlund) 24. Alien: Covenant (Ridley Scott) 23. Graduation (Cristian Mungiu) 22. O sacrifício do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos) 21. O filme da minha vida (Selton Mello) 20. Planeta dos macacos – A guerra (Matt Reeves) 19. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola) 18. A cura (Gore Verbinski) 17. mãe! (Darren Aronofksy) 16. Em ritmo de fuga (Edgar Wright) 15. Columbus (Kogonada) 14. Sombras da vida (David Lowery) 13. A forma da água (Guillermo del Toro) 12. Lágrimas sobre o Mississipi (Dee Rees) 11. Todo o dinheiro do mundo (Ridley Scott)

Midsommar – O mal não espera a noite (2019)

Por André Dick

No ano passado, tivemos uma estreia marcante do diretor Ari Aster à frente do filme de terror Hereditário. Com um padrão autoral e um modo de filmar com características singulares, fazendo de maquetes a própria estrutura da casa mostrada na história, Aster agora regressa com seu segundo projeto, Midsomar – O mal não espera a noite, distribuído pela mesma A24, de filmes independentes.
A jovem Dani Ardor (Florence Pugh) recebe uma notícia perturbadora relacionada à irmã e aos seus pais e pede a ajuda de seu namorado, Christian Hughes (Jack Reynor), estudante de antropologia. Este, no entanto, com o apoio de seus amigos Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgren), parece querer distância dela. Segundo os amigos, ela é psicologicamente instável. O amigo sueco, Pelle, convida a todos para ir à sua comunidade de origem na Suécia, durante o solstício de verão. É um lugar adequado para Christian fazer uma pesquisa para seu trabalho acadêmico.

O mais interessante é como Aster mostra, antes da chegada, o carro levando os amigos e a câmera se inverte na estrada: é a entrada num universo à parte. É o que parece a princípio. Com o uso de um psicotrópico, Dani tem a sensação primeiro de uma vegetação crescer em seu pé e depois de que pessoas da comunidade, os Hårga, estarem rindo dela, até se trancar numa cabana e daí sair correndo floresta afora. Aster corta a sequência e já mostra o grupo chegando ao núcleo de habitações da comunidade. A partir daí, será tudo realidade ou a imaginação da personagem central?
Esta comunidade afastada é filmada por Aster com toques de um surrealismo remetendo à parte da filmografia de Alejandro Jodorowsky, principalmente A montanha sagrada (há realmente um urso trancado numa jaula?). Todos na comunidade vestem branco (com bordados floridos) e as mulheres, guirlandas, e brincam pelo espaço, dançam ou ficam estendidos em gramados, numa espécie de paraíso afastado da barbárie. Mas também participam de cerimônias estranhas, não raramente sob efeito de alguma bebida feita com poções indefinidas – e estão interessados mesmo em observar algum tipo de sacrifício que possa justificar sua existência. Lá o grupo de norte-americanos também conhece um casal, Connie (Ellora Torchia) e Simon (Archie Madekwe), levado pelo irmão de Pelle, Ingemar (Hampus Hallberg).

Como em Hereditário, Aster não está muito preocupado em esclarecer para o espectador se o que está assistindo é real ou fruto de uma alucinação – aqui literalmente. Essa comunidade tem galpões com histórias contadas por meio de desenhos, assim como tapeçarias adiantando pontos da trama e um senso de humor peculiar – em determinado momento, uma integrante da comunidade pergunta ao grupo se deseja assistir a Austin Powers. Aster, obviamente, não está interessado em provocar sustos ou simplesmente amedrontar. Por meio de um design de produção fabuloso de Henrik Svensson e efeitos sonoros que lembram as obras de David Lynch, ele faz uma espécie de análise sobre a culpa da personagem principal em relação à família e à comunidade como sua possível substituta.
Como os amigos de Christian não gostam dela, com exceção de Pelle (ironicamente, o nome do personagem da peça de Bille August vencedor do Oscar de filme estrangeiro pela Suécia em 1989), que sofreu um abalo na vida parecida com o dela, Dani se sente sempre deslocada – e esse deslocamento a faz pensar que nenhum deles pode substituir sua vontade de estar estruturada por uma ideia de união familiar e a busca do indivíduo é pelo entendimento alheio de sua dor, mesmo que a “ajuda” possa vir de lugares terrivelmente estranhos e de comportamentos indefiníveis. Para isso, Pugh consegue superar sua ótima atuação de Lady Macbeth e se mostra uma das melhores atrizes da nova geração, com um misto de insegurança, desconfiança e aversão ao que acontece a seu redor, principalmente nas atitudes do namorado. Aster utiliza as imagens mais como metáforas de uma trama do que propriamente para contar uma narrativa. As roupas floridas das mulheres da comunidade, assim como a carruagem que leva Dani, enfeitada por flores, são complementares.

Os diálogos quase não importam e as ações dos personagens são quase sempre previsíveis: o filme contado por Aster, como em Hereditário, não está nos diálogos e sim nas imagens. E é nelas que, como em sua estreia, Midsommar adquire um impacto imprevisto. Pode haver em alguns momentos o predomínio da estética sobre o conteúdo, mas é uma estética elaborada em minúcias. Iniciando numa paisagem invernal e soturna, a obra se transfere para o dia tão iluminado que parece brilhar, no entanto ele não parece ser o mais propício para os rumos da narrativa. A própria maneira como o diretor colhe pontos de O homem de palha, por exemplo, é justificada pelo contexto, sem nunca, no entanto, parecer uma diluição. O seu desinteresse em mostrar os integrantes da comunidade é justamente para causar um impacto nos momentos necessários. A claridade da fotografia de Pawel Pogorzelski, o mesmo de Hereditário, se justifica em todos os seus pontos e ajuda a contar a história de maneira decisiva. E é por meio dela que Midsommar adquire outro estágio no ato final, quando os personagens vão se dispersando para, na verdade, concentrar o relato num só olhar. É uma sucessão de sequências raramente permitidas em Hollywood e que fazem o gênero de terror adentrar no campo indefinido da arte mais subjetiva possível.

Midsommar, EUA, 2019 Diretor: Ari Aster Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Will Poulter Roteiro: Ari Aster Fotografia: Pawel Pogorzelski Trilha Sonora: Bobby Krlic Produção: Lars Knudsen e Patrik Andersson Duração: 147 min. Estúdio: Square Peg, B-Reel Films Distribuidora: A24 (Estados Unidos) e Nordisk Film (Suécia)

Ad Astra – Rumo às estrelas (2019)

Por André Dick

O gênero de ficção científica vem ganhando cada vez mais destaque em Hollywood, principalmente nesta década, quando os efeitos especiais se aprimoraram em grande intensidade, não apenas por causa de franquias rentosas, mas também em razão de filmes mais baseados em conceitos. Nesse sentido, Ad Astra – Rumo às estrelas é uma peça típica dessa fase estabelecida de viagens espaciais.
Brad Pitt, em outro grande momento seu este ano, depois de Era uma vez em… Hollywood, interpreta o major Roy McBride, que é convocado para uma missão no espaço: chegar a Netuno, onde estaria seu pai, Clifford (Tommy Lee Jones), dado como morto desde a sua adolescência, depois de participar do Projeto Lima, no qual se pretendia identificar a existência de vida fora da Terra e que pode estar causando danos ao planeta. A primeira etapa é chegar à lua, ao lado do coronel Thomas Pruitt (Donald Sutherland), amigo de seu pai, na base SpaceCom. O território lunar abriga complexos lembrando um shopping center.

Ali, Roy embarca no foguete Cepheus, com destino a Marte. Há um aviso vindo de uma estação espacial norueguesa, onde ele vai se deparar com babuínos sendo testados cientificamente. Na SpaceCom de Marte, o astronauta conhece Helen Lantos (Ruth Negga), e é colocado para gravar mensagens endereçadas ao Projeto Lima, da qual seu pai faz ou fazia parte. Dali ele parte para Netuno, a fim de que possa esclarecer as dúvidas de sua existência.
O personagem de Roy é um solitário, recém-separado de Eve (Liv Tyler) – e o nome dela obviamente é uma referência bíblica – e que não sabe ao certo o destino de seu pai. O espaço se constitui para ele como um grande lugar para solidão se manifestar. James Gray, naturalmente, tem grande proximidade desse tema depois, principalmente, do belíssimo Amantes, mas também do falho, embora tecnicamente perfeito, Era uma vez em Nova York e do ótimo Z – A cidade perdida, aqui com a solidão da selva. Pitt entrega um desempenho tão contido e emocional que se fica perguntando onde estariam os papéis de sua trajetória capazes de extrair tanto sentimento (em alguns momentos lembra muito o de A árvore da vida). Seu personagem tem elementos do Leonard Kraditor, feito por Joaquin Phoenix em Amantes, na sua insegurança diante das decisões a serem tomadas na vida amorosa.

Na maior parte do tempo, Ad Astra parece uma compilação de referências a 2001 – Uma odisseia no espaço e sua passagem pela lua é uma das mais interessantes já feitas no cinema, ao lado justamente da obra de Kubrick e de O primeiro homem, do ano passado, recordando, numa cena de ação, até mesmo o mais recente Mad Max, com uma profusão sonora de grande qualidade e impacto notável. Ao mesmo tempo, ele recorda muito Interestelar, inclusive pelo diretor de fotografia ser o mesmo Hoyte van Hoytema, e em alguns momentos Gravidade, duas referências do gênero de ficção científica dos últimos anos.
Gray focaliza a solidão humana como ponto de partida para a substituição das figuras paterna e materna finalmente pela mulher amada – e o trajeto que o astronauta faz é um mergulho em si mesmo. Metaforicamente, o filme funciona muito bem, não aparando, porém, algumas arestas da narrativa, soando um pouco abruptos os saltos no roteiro. Os personagens não chegam a ser interessantes, no entanto seus intérpretes buscam um acesso direto ao público, sem passarem pelos diálogos. Neste ponto, ele lembra bastante High life, de Claire Denis, no qual Robert Pattinson faz um astronauta vagando no espaço, inclusive na sua lentidão proposital, sem nenhuma lembrança dos blockbusters de Hollywood, mesmo em seu traço romântico, característica que obtém também da versão de Steven Soderbergh de Solaris.

Se o filme de Denis é mais pessimista do que o de Gray e com efeitos especiais menos imponentes, em base eles procuram pelo mesmo caminho de análise de como o ser humano reage à vastidão das estrelas. Pelo seu orçamento maior, Ad Astra amplia seu escopo com mais brilhantismo visual e um design de produção mais variado, embora não totalmente acertado – Gray é um diretor acostumado a lindas ambientações de época –, e entrega uma fotografia capaz de deixar o espectador com a sensação de pairar no espaço. Lamenta-se apenas que a trilha sonora de Max Richter seja muito intrusiva, vaga e tente emular as de Hans Zimmer, sem a mesma qualidade (imagina-se como o filme cresceria com uma trilha do segundo). A jornada desse astronauta torna-se uma viagem pessoal que se estende a quem a acompanha, e profundamente dolorosa em alguns pontos nos quais Gray sobrepõe o drama à técnica que o cerca. Isso talvez se mostre pela presença de um determinado ator, no seu melhor momento em anos, num momento de profunda melancolia causada pelo espaço. É este ator que, com Pitt, ajuda a justificar mais esta obra de Gray, cuja narrativa, de modo singular, consegue realmente mostrar uma viagem espacial capaz de transformar um indivíduo.

Ad Astra, EUA, 2019 Diretor: James Gray Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Ruth Negga, Liv Tyler, Donald Sutherland Roteiro: James Gray e Ethan Gross Fotografia: Hoyte van Hoytema Trilha Sonora: Max Richter Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, James Gray, Anthony Katagas, Rodrigo Teixeira, Arnon Milchan Duração: 124 min. Estúdio: 20th Century Fox, Regency Enterprises, Bona Film Group, New Regency, Plan B Entertainment, RT Features, Keep Your Head Productions, MadRiver Pictures, TSG Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Rambo – Até o fim (2019)

Por André Dick

O ator Sylvester Stallone conseguiu construir sua carreira principalmente em cima de dois personagens: Rocky Balboa, o lutador de boxe humilde da Filadélfia, e John Rambo, o veterano que voltou do Vietnã sem a guerra ter saído dele. No seu primeiro filme, Rambo – Programado para matar, ele colocava uma cidade do interior em polvorosa depois de um xerife arrogante tentar expulsá-lo do lugar. Era a oportunidade de Stallone mostrar uma vertente mais violenta do seu boxeador. E o filme era um dos grandes momentos do cinema dos anos 80. Na continuação, com roteiro de James Cameron, ele voltava de fato ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra – e sua história pouco provável rendeu boas sátiras, como Top Gang, apesar de suas cenas de ação serem uma cortesia de George Pan Cosmatos. Nos episódios seguintes, ele ia ao Afeganistão combater os russos, numa das produções mais caras da história e com cenas de ação muito bem filmadas, e à Birmânia.

Em Rambo – Até o fim, o personagem cuida da fazenda herdada do pai em Bowie, Arizona, com a amiga Maria Beltrane (Adriana Barraza) e sua neta Gabrielle (Yvette Monreal) salvando pessoas de tormentas, montado em cima de um cavalo. Gabrielle fica sabendo notícias do paradeiro de seu pai (Marco de la O) por meio de uma amiga, Jezel (Feneza Pineda), mas, por ele tê-la abandonado, é impedida por sua avó. Rambo tenta protegê-la da maldade do mundo, sendo contrariado pelo ímpeto de quem deseja descobrir seus caminhos por si só. Ou seja, ele projeta a figura do cowboy norte-americano. Stallone escreve o roteiro com Matt Cirulnick, no entanto, com uma série de lugares-comuns, ele não consegue reproduzir o fechamento para seu personagem Rocky em 2006, o ótimo Rocky Balboa – embora ele voltasse na história de Creed em 2015. Isso talvez se deva não apenas a Stallone não ter mais encontrado o ponto de vista que fazia Rambo ser tão interessante na Guerra Fria, colocando-o numa paisagem evocando a dos dois Sicario, em meio ao cartel de drogas mexicano e à exploração de mulheres, assim como Onde os fracos não têm vez (no qual Stallone diz ter especialmente se inspirado). Rambo, apesar da violência que empreendia contra os inimigos, sempre possuiu uma faceta de tentativa de mudar o próprio mundo.

Este Rambo atual, que, na verdade, podia atender por outro nome (se não fosse a questão da guerra e o uso do arco e flecha), talvez por fazer parte de outra fase de vida de Stallone, não tem essas características Nisso, acaba se reproduzindo uma espécie de testamento sobre a falência da humanidade. Se a primeira parte é bastante previsível, com uma série de discussões que não encontram o ponto, sem dúvida a segunda parte é forte e conta com a presença de uma jornalista, Carmen (Paz Vega), a qual investiga o cartel. No entanto, o roteiro não constrói a passagem para o terceiro ato e a figura da jornalista, que seria muito interesse para desenvolver uma trama paralela, se torna pouco aproveitável. Os vilões pouco têm a dizer e não se constrói a expectativa de Rambo em enfrentá-los. Além disso, todo o trabalho de fotografia lembra o de um antigo telefilme, em contraposição, por exemplo, ao terceiro, que, com todos seus problemas narrativos, era um evento de luzes e sombras.

Não ajuda Adrian Grunberg ser um diretor muito inexperiente para lidar com um personagem de quase 40 anos, reduzindo-o praticamente a algumas cenas violentas (um elemento também dos outros da série, prejudicado especificamente por uma que, além do exagero, extrai do personagem sua humanidade presente principalmente no original de 1982), um tanto abruptas e sem a agilidade de um filme de ação. Também nos outros filmes, Rambo sempre agiu de maneira extrema, mas o roteiro entregava um desenvolvimento capaz de convencer o espectador de que havia mais do que um enfrentamento em jogo; aqui vemos um homem amargurado, à vontade apenas em construir túneis de guerra debaixo de uma fazenda, sem a necessária empatia, mesmo na sua preocupação paternal. Sobre o retrato que o filme oferece do México, mesmo cineastas naturais do país, como Amat Escalante no ótimo Heli, que, aliás, poderia ser uma prévia desse filme – melhorada –, costumam receber críticas pelo retrato que fazem dele. Não há nenhuma novidade no que é visto, com argumentos prós e contras. Ou seja, este Rambo pode não mostrar uma boa imagem dos mexicanos e é antecedido nisso por dezenas de obras, inclusive indicadas ao Oscar, a exemplo de Babel e Traffic. Talvez se possa dizer que as duas atuações mais dedicadas sejam justamente dos atores Sergio Peris-Mencheta e Óscar Jaenada nos papéis dos traficantes Hugo e Victor Martinez – ambos, apesar de pouco a dizerem, interpretam bem seus personagens. Quanto a Rambo e seus dilemas de guerra, é mais interessante voltar aos três filmes dos anos 80, quando ele não falava tanto de si mesmo, mas seu silêncio costumava indicar exatamente o que sentia.

Rambo – Last blood, EUA, 2019 Diretor: Adrian Grunberg Elenco: Sylvester Stallone, Paz Vega, Sergio Peris-Mencheta, Adriana Barraza, Yvette Monreal, Genie Kim, Joaquín Cosío, Oscar Jaenada, Marco de la O, Sergio Peris-Mencheta, Óscar Jaenada Roteiro: Matthew Cirulnick e Sylvester Stallone Fotografia: Brendan Galvin Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Avi Lerner, Kevin King Templeton, Yariv Lerner, Les Weldon Estúdio: Millennium Media, Balboa Productions, Templeton Media Distribuidora: Lionsgate

 

It – Capítulo 2 (2019)

Por André Dick

Depois do grande sucesso de It – A coisa, já era previsível sua sequência. Na verdade, ele foi concebido para que ela existisse, dividindo o romance com mais de mil páginas de Stephen King entre as fases infantil e adulta, ao contrário da série em dois capítulos distribuída nas locadoras como filme em 1990, e muito assustadora, dirigida por Tommy Lee Wallace. Em It – Capítulo 2, do Clube dos Perdedores original, Mike Hanlon (Isaiah Mustafa quando adulto e Chosen Jacobs quando criança) foi o único a ficar em sua cidade, Derry, Maine, trabalhando como bibliotecário, além de ter problemas com drogas, por causa dos traumas com o palhaço Pennywise (Bill Skarsgård). Ele percebe, vinte e sete anos depois, que aos poucos a criatura está voltando à pequena comunidade para criar terror entre os habitantes, depois de um acontecimento com Adrian Mellon (o cineasta e ator Xavier Dolan).

Ele, então, avisa os antigos amigos. Bill Denbrough (James McAvoy e Jaeden Lieberher) tornou-se um escritor e é casado com uma atriz de destaque (Jess Weixler). Beverly Marsh (Jessica Chastain e Sophia Lillis) tem um casamento infeliz com Tom Rogan; Ben Hanscom (Jay Ryan e Jeremy Ray Taylor), que era perseguido pelo excesso de peso, trabalha como arquiteto renomado; Richie Tozier (Bill Hader e Finn Wolfhard) é um DJ de Los Angeles; Eddie Kaspbrak (James Ransone e Jack Dylan Grazer) continua um hipocondríaco à frente de uma empresa de limusines; e Stanley Uris (Andy Bean e Wyatt Oleff) virou sócio de uma firma de contabilidade. A primeira reunião se dá num restaurante chinês, com uma iluminação que cria, ao mesmo tempo, toda uma atmosfera de acolhimento e insegurança, com um desfecho surpreendente – e talvez seja a melhor sequência, aquele que melhor separa o que seria esta segunda parte da primeira. A fotografia de Checco Varese é grande, conseguindo inserir o espectador dentro da história, colhendo inspiração em George Romero (especialmente Creepshow) e Dario Argento, e a trilha sonora de Benjamin Wallfisch não se sente mais diluída de John Williams.

Também regressa Henry Bowers (Teach Grant), que perseguia o Clube dos Perdedores e está numa clínica, quando se sente estranho ao ver um balão vermelho flutuando em frente a uma das janelas do lugar – e balões vermelhos em It significam a presença de algo muito amedrontador.
Convencionou-se dizer que esta sequência é muito inferior ao original. Pode-se dizer que ele é realmente diferente – para melhor. O bom momento do primeiro filme de Amdy Muschietti, também responsável por este segundo capítulo, é quando a turma descobre que, além da amizade, tem em comum essa ameaça do palhaço. Até aí, a narrativa já construiu uma atmosfera eficiente e envolvente, o que significa que temos também pelo menos três cenas assustadoras e uma analogia com a violência paterna por meio de um banho de sangue que faz lembrar O iluminado.

Mesmo Bill Skarsgård funciona até este momento em que aparece mais discretamente. No entanto, aos poucos, percebe-se como o diretor na verdade se apoia demais em experimentos de nostalgia, como Os Goonies e Super 8, além de Stranger things (utilizando até mesmo seu ator principal, Wolfhard), para pretensamente fazer uma peça de terror que, a cada passo, aparenta ter sido realizada e decidida por um grupo de executivos em busca de uma franquia da maneira mais previsível e sintomática.  Ele salta do horror e do suspense para a comédia e depois para o drama não porque deseja uma síntese desses gêneros e sim porque deseja apenas agradar ao espectador, não de maneira criativa e sim apenas procurando seu desejo de rever imagens de crianças andando de bicicleta.
O que não existe em It – Capítulo 2 é essa atmosfera de filme infantojuvenil, que não combina com os elementos mais pesados. Enquanto no elenco original apenas dois atores se saíam bem (Jaeden Lieberher e Sophia Lillis), o elenco adulto é muito superior, a começar por McAvoy e Jessica Chastain, seguidos por Bill Hader e Jay Ryan. São atuações conflitantes, de pessoas que representam adultos abalados por um trauma de infância e que precisam voltar a locais marcantes do passado para tentar uma reviravolta contra Pennywise. E funciona. Muschietti empreende uma espécie de clima épico, sugerido pela extensa duração (quase 3 horas), para mostrar um clima de reunião que retoma flashbacks da infância, mas é, sobretudo, assustador, com diversas sequências realmente de terror, e não de diversão para contentar as plateias menos interessadas por isso e mais por ação disfarçada de suspense.

Trata-se de uma espécie de Linha mortal ou de Sobre meninos e lobos, com os adultos tentando entender o que ocorreu na infância, em sequências menos óbvias e visualmente mais ousadas, como aquela em que Beverly fica trancada num banheiro, com influência de Kubrick, remetendo a uma passagem da infância. Há outra em que Bill Denbrough entra numa espécie de mansão mal-assombrada num parque de diversões – e se trata de uma verdadeira composição aterradora que talvez gostaria de ter sido apresentada este ano em Nós. As bicicletas são substituídas por adultos se sentindo perdidos num ambiente antes familiar, e o bosque se mostra um espaço para a expectativa criada de que algo pode realmente acontecer. Apesar de incorrer em certos exageros próprios de sua filmografia, desde Mama, Mushiettetti tem aqui um olhar muito mais interessado por nuances. É isso que torna esta sequência muito superior ao filme de 2017.

It – Chapter Two, EUA, 2019 Diretor: Andy Muschietti Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Bill Hader, Isaiah Mustafa, Jay Ryan, James Ransone, Andy Bean, Bill Skarsgård, Chosen Jacobs, Jaeden Lieberher, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer Wyatt Oleff Roteiro: Gary Dauberman Fotografia: Checco Varese Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Barbara Muschietti, Dan Lin, Roy Lee Duração: 169 min.  Estúdio: New Line Cinema, Double Dream, Vertigo Entertainment, Rideback Distribuidora: Warner Bros. Pictures

 

Turma da Mônica – Laços (2019)

Por André Dick

O cinema brasileiro naturalmente busca dialogar com a tendência de adaptações de quadrinhos e animações para o cinema. Nos anos 90, houve a versão em filme do livro de Menino maluquinho, com tom infantojuvenil, também presente em sua sequência, e agora há a adaptação da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, nesta obra dirigida por Daniel Rezende. Conhecido por ser um exímio editor, de filmes como Cidade de Deus, A árvore da vida, Na estrada, Tropa de elite e RobCop (ou seja, uma trajetória de talento comprovado), Rezende estreou como diretor em Bingo – O rei das manhãs. Dono de uma visão interessante, com visual apegado ao jogo de cores, Rezende fez de Bingo um sucesso, embora seja mais do que superestimado, baseado na exitosa atuação de Vladimir Brichta.

Este novo experimento dele, no universo infantil, possui como base personagens que marcaram a infância de milhões de brasileiros. Temos Cebolinha (Kevin Vechiatto) e Cascão (Gabriel Moreira) fazendo brincadeiras em seu bairro e sendo perseguidos por Mônica (Giulia Benite) e seu coelho Sansão – e eventualmente com a amiga Magali (Laura Rauseo). Esses personagens têm características definidas: Cebolinha troca o “r” pelo “l”, Mônica costuma ficar irritada quando provocada por ele, Cascão não gosta de tomar banho e Magali se alimenta compulsivamente. Tudo isso poderia soar exageradamente rotulável ou mesmo sem vida necessária no filme. Não é o que acontece. Turma da Mônica – Laços é o tipo de filme que possui um coração definido, e ele está exatamente em imagens e passeios que remetem à infância. Rezende utiliza a extraordinária fotografia de Azul Serra para fazer um diálogo dela com os figurinos dos personagens e deixar a imagem de modo geral alaranjada, com um aspecto de infância eterna e de certa melancolia. Seu trabalho tem como base evidente o de Bruno Delbonell para Jeunet em O fabuloso destino de Amélie Poulain, embora menos saturado.

Os pais dos personagens ficam alheios às aventuras, e só se preocupam quando eles desparecem à procura de Floquinho, o cão de Cebolinha, que aqui parece pintado com spray verde.  Os principais são o Sr. Cebola da Silva (Paulo Vilhena) e Dona Cebola (Fafá Rennó), Onde está Floquinho? O que teria acontecido com ele? O roteiro, escrito por Thiago Dottori, baseado em história de Vitor Cafaggi, Lu Caffagi e Mauricio de Sousa, se baseia nessa premissa que dialoga com Super 8 para desenvolver a amizade entre os integrantes da turma, quando ingressam na mata à procura de um sequestrador. Turma da Mônica – Laços não procura exatamente subtramas e envolvimento de muitos personagens, embora haja a participação curiosa de Rodrigo Santoro em determinado momento, e sim apenas um elo essencial sobre o que é importante na infância, nesse caso o cão que faz companhia à turma e à família. Trata-se obviamente de um caminho que não renderia um filme interessante, mas Rezende está tão certo de que seus personagens conversam com a plateia que ele não tem essa preocupação. Um acampamento noturno dos amigos tem uma atmosfera de perigo e, ao mesmo tempo, acolhedora, e o amanhecer em meio às árvores desperta um sentimento de que a infância vai se desapegando da casa para um conhecimento de mundo, no que dialoga com uma determinada sequência do belo Conta comigo, dos anos 80.

Com atores não excelentes, mas convincentes, Turma da Mônica tem seu elo de ligação principal em Mônica, feita por Giulia Benite, e Cebolinha, feito por Kevin Vechiatto. São eles que acabam traduzindo essa sensação de que os quadrinhos ganham vida na tela, junto com a fotografia em conversa com o design de produção de Cassio Amarante (Central do Brasil, Abril despedaçado, Bingo e As melhores coisas do mundo) que reproduz o Bairro do Limoeiro como uma espécie de viagem a um lugar reconhecível e distante, com suas enormes árvores, além do uso das cores dos figurinos dos personagens nas casas, carros, bicicletas e objetos de casa. E é evidente que Rezende recolhe alguns toques dos gramados da casa que deram tanto êxito a Terrence Malick em sua obra-prima A árvore da vida sob um enfoque mais infantojuvenil, mas que também irá agradar a plateia adulta. A sensação é de ver uma história sem época definida, ou melhor, a sua época é a da infância universal.

Turma da Mônica – Laços, BRA, 2019 Diretor: Daniel Rezende Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Fafá Rennó, Rodrigo Santoro Roteiro: Thiago Dottori Fotografia: Azul Serra Produção Bianca Villar, Cássio Pardini, Charles Miranda, Cao Quintas, Karen Castanho, Fernando Fraiha Duração: 97 min. Estúdio: Biônica Filmes, Quintal Digital, Latina Estúdio, Maurício de Sousa,  Produções Paris Filmes Distribuidora: Paris Filmes, Downtown Filmes