O primeiro homem (2018)

Por André Dick

Em 2014, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar principal, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, veio com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, apresentou uma história que podia ser considerada romântica em seu limite. Talvez ele não apresentasse nada de muito novo sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tinha muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) eram figuras que, como no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividiam entre o que pretendem ser e o que se mostrava realmente viável. Isso conferia ao filme uma camada que Chazelle tornava encantadora pela maneira como a revelava, aos poucos.

Depois do grande desempenho junto ao crítico e à pública de La La Land, recebendo seis Oscars, a nova obra do diretor, O primeiro homem, mostra a vida do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling), a partir de 1961, e sua rotina com a sua primeira esposa Janet Shearon (Claire Foy), até começar a fazer parte da missão coordenada pela Nasa em direção à Lua em 1969. Esses são personagens que realmente existiram e próximos de um contexto do qual La La Land se afastava: o da tentativa de ser fiel aos fatos. Chazelle sofre uma transformação por trás das câmeras. Se em Whiplash e La La Land, ele utilizava um estilo simples e ambientes arejados, nada disso se repete em O primeiro homem.
Com uma notável tentativa estética, por meio da fotografia de Linus Sandgren, de remeter ao estilo de Terrence Malick de A árvore da vida, assim como àquele visto em Interestelar, de Christopher Nolan, e ao clássico 2001, de Kubrick – na iluminação dos capacetes dos astronautas, sobretudo –, a dicção de Chazelle quase desaparece. Temos a sensação de assistir a uma busca de estilo que ressoa uma determinada emulação de outros artistas. Chazelle não está preocupado com o sentimento, a exemplo do que víamos em La La Land, apenas com a técnica e em criar enquadramentos diferenciados. Por sua vez, a tentativa de ir à Lua se torna menos intensa e o personagem de Neil Armstrong é emblemático nesse sentido.

Não apenas desenhado com um sujeito frio e distante da família e da esposa, por causa de uma perda marcante, mal percebemos o quanto ele interage com outros personagens, como seus companheiros de aventura Buzz Aldrin (Corey Stoll) e Michael Collins (Lucas Haas), além dos astronautas Ed White (Jason Clarke), Roger B. Chaffee (Corey Michael Smith) e Gus Grissom (Shea Whigham) e o diretor de operações de voo Deke Slayton (Kyle Chandler), reunindo um grande elenco. Nas cenas em que interage com os filhos, a lembrança imediata é o estilo de Malick em A árvore da vida, porém o que o cerca é uma sensação permanente de luto. Por isso, talvez esse sentimento se estenda ao restante da história. As reuniões na Nasa, que eram tão interessantes em Os eleitos, de Philip Kaufman, o qual certamente influenciou também Chazelle, são passageiras. A câmera de Sandgren treme como se estivéssemos num filme de guerra de Kathryn Bigelow, porém isso não guarda relação com os sonhos desses personagens. Há um verniz documental sobre um fundo de mundo de transformação, mas as duas características não se fundem como poderia. Alguns bastidores históricos do universo da cultura não se encaixam com a narrativa, provocando certa estranheza.

O primeiro homem é um filme levemente autocentrado e desprovido de certa emoção que faz Gravidade e Perdido em Marte, por exemplo, parecerem playgrounds de desenvolvimento de personagens – e mesmo oferece certa ausência do clima de rotina e mudança histórica encontrados em Estrelas além do tempo. E impacta a maneira como Gosling e Foy, um par de grande talento, fica sem sustentação do roteiro e sem colaboração de Chazelle. Gosling parecia um ator perfeito para esse papel, no entanto seu olhar vago é muito diferente daquele que utiliza em Drive, O lugar onde tudo termina e Blade Runner 2049, nos quais possui um roteiro para trabalhar; aqui ele aparenta estar apenas entre momentos marcantes para a humanidade, mas dos quais ele se aproxima apenas por um interesse remoto e baseado em efeitos visuais muito bem realizados. Isso se deve muito ao roteiro de Josh Singer, que ganhou um Oscar inexplicável por Spotlight e escreveu The Post, baseado no livro de James R. Hansen, que não consegue tecer um elo real entre os personagens – principalmente de Neil com seus parceiros de voo – e faz com que Chazelle tente concentrar a expectativa e suspense nas engrenagens de um foguete indo ao espaço. O que não tinham Spotlight e The Post? Exatamente relações efetivas entre os personagens (difícil recordar, ao longo do filme, uma fala de Lukas Haas, por exemplo).

A missão da Nasa na Apollo 11 em direção à Lua é uma reminiscência de infância, dos sonhos de cada criança quando descobrimos que o homem chegou a ela, e teve sua transmissão ao vivo desse acontecimento. Tudo isso desperta uma grande nostalgia. O primeiro homem faz o contrário. O que ele consegue, no máximo, é reverter essa espécie de sonho coletivo numa espécie de conto sobre um homem solitário e como a chegada à Lua, na verdade, foi apenas uma extensão do vazio que o preenche toda a narrativa, com a trilha sonora introspectiva de Justin Hurwitz. Essa sequência do pouso (imaginamos não ser um spoiler) é um registro da secura da paisagem diante a qual Neil se mostra sempre, mesmo quando visualiza a Lua à noite no céu. Muitas críticas avaliam que o filme de Chazelle falharia ao ser um tanto antiamericano: não é o caso, apenas não sendo patriótico ou com sentimentos retumbantes pelo êxito do país na corrida espacial, que seriam incoerentes com a figura mostrada de Neil Armstrong na narrativa, na qual o luto é definidor mesmo para um discurso de John Kennedy sobre a Lua. O seu problema é não ser uma obra com a grandeza do acontecimento enfocado, apesar de sua parte técnica notável, deixando no espectador a sensação de que muitos elementos estavam prontos para funcionar, sem serem, ao fim, colocados em prática.

First man, EUA, 2018 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit, Lukas Haas Roteiro: Josh Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Wyck Godfrey, Marty Bowen, Isaac Klausner, Damien Chazelle Duração: 136 min. Estúdio: Universal Pictures, DreamWorks Pictures, Temple Hill Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Universal Pictures

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Nasce uma estrela (2018)

Por André Dick

A nova versão de Nasce uma estrela, apesar de ser a quarta, depois da primeira em 1937, com Janet Gaynor e Fredric March e da segunda em 1954, estrelada por Judy Garland e James Mason, dialoga muito com a terceira, de 1976, com Barbra Streisand e Kcaris Kristofferson. Não se diz isso tendendo a desvalorizar o filme de Bradley Cooper, sua estreia como diretor, e sim como um mérito. Apesar de ter sido mal recebida em sua estreia, a versão dos anos 1970 conseguia captar o universo de música country daquele período, assim como o agito mais contemporâneo do surgimento de uma estrela. Cooper, sem imitar Kristofferson, mas se baseando nele e na sua persona de cinema mais recente, Jeff Bridges (Coração louco), faz um astro da música country, Jackson Maine, que tem problemas com bebida e um problema de audição cada vez mais frequente, atingido por acufenos.

Determinada noite, depois de um show, ele sai com o motorista de limousine Wolfe (Michael Harney), pelas ruas da cidade, até encontrar um bar. Nele, acaba conhecendo uma cantora, Ally (Lady Gaga), que trabalha como atendente também num restaurante, amiga de Ramon (Anthony Ramos). Ambos imediatamente se aproximam e Jackson identifica um talento nela até então não descoberto por nenhum outro, nem pelo pai dela, Lorenzo (Andrew Dice Clay), que tentou ser cantor e brinca sempre dizendo que amigos o apontavam como melhor do que Frank Sinatra.
A referência a um passado nostálgico e do universo nova-iorquino permeia esta versão de Nasce uma estrela, com sua infinitude de estradas e shows a se perderem de vista. O roteiro de Cooper escrito com Eric Roth e Will Fetters é exemplar na passagem de tempo, sem ficar atento demais a pequenas minúcias, mas inserindo tudo numa espécie de mosaico sonoro e contemporâneo. Jackson ajuda Ally a surgir como cantora, assim como compõe com ela músicas que fazem sucesso. Porém, é sua sensibilidade no primeiro encontro, quando vai ao camarim dela, que torna esse o registro de um homem que deseja encontrar na figura feminina uma maneira de entender melhor suas ausências pessoais. Quando ele a convida para adentrar o palco, a fim de cantarem juntos uma nova música feita por ela no estacionamento de um supermercado, além de lembrar a atmosfera de Quase famosos, muito convincente, ajuda a entrelaçar épocas distintas.

De certo modo, Bradley Cooper, ator que se projetou com a trilogia Se beber, não case!, apanha a faceta do trabalho de Todd Phillips (um dos produtores desta sua estreia como diretor), carregada de cenários reais, e oferece um verniz onírico com a contribuição da fotografia de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofksy. Ele se baseia na iluminação de um dos melhores filmes sobre o universo musical, The Runaways, com uma grande concentração da cor vermelha nos bastidores, em contraponto à claridade do deserto e do sonho americano.
O que Nasce uma estrela tem de melhor, além da química entre Cooper e Lady Gaga, é a relação que ele mostra entre o sonho idealizado e o sonho a ser atingido por meio do marketing. Ally é uma cantora de uma nova geração e não tarda a seguir passos que, para Jackson, não são os mais corretos – ela de fato se torna uma artista parecida com Lady Gaga –, influenciada pelo oportunista Rez Gafron (Rafi Gafron). Ele é auxiliado pelo irmão, também seu empresário, Bobby (Sam Elliott, com participação menor do que poderia), com quem se desentende em relação à figura paterna. Cooper consegue trazer os cenários dos shows para a frente da plateia como se fizessem parte da composição desses personagens e os torna realistas, a exemplo da passagem pelo Saturday Night Live. Malick havia conseguido isso em De canção em canção, no ano passado, embora com um tom mais poético na captação de imagens, próprio do diretor de A árvore da vida. Cooper concentra esse realismo de modo a expandir a relação entre Jackson e Ally, abdicando do desenvolvimento, inclusive, de outros personagens, que só aparecem para fortalecer essa relação.

As cenas em que estão na sua casa demonstram isso de maneira exata, e Gaga consegue alcançar uma atuação que já se entrevia em seu documentário excelente, Gaga: five foot two, no qual, sendo exibida nos bastidores de seu novo projeto musical (iniciado, inclusive, com uma parabenização pelo papel conseguido para este filme), já se mostrava boa atriz. Sem recursos excessivos de maquiagem ou figurino excêntrico, Gaga se mostra uma estrela no cinema maior do que aquela com a qual é comparada inúmeras vezes, Madonna, a qual nunca atingiu notas dramáticas no cinema como sua colega de música faz neste projeto. Cooper, por sua vez, é uma espécie de solitário, e demonstra isso muito bem quando domina a maior parte das cenas. Seu drama pessoal, tocado pelo problema alcóolico, pode ser tematicamente previsível, porém consegue se estabelecer de modo vital para o funcionamento da engrenagem, sobretudo numa cena em que partilha alguns diálogos com um pai de família dedicado e melhor amigo, Noodles (Dave Chappelle). Perceba-se, em igual intensidade, como Cooper torna a narrativa repleta de espelhos ou de imagens espelhadas em molduras, e ao final mostra a antítese disso. Não há nada especialmente novo na história: a tentativa de fazer sucesso, como chegar lá, as consequências e os caminhos a seguir depois de tudo são alguns dos percalços de Nasce uma estrela. No entanto, tudo é conduzido com rara habilidade.

Há, por trás da narrativa, um diálogo com New York, New York, de Scorsese, com a diferença de que Jackson é um personagem simpático e afetuoso, ao contrário daquele saxofonista feito por De Niro no filme referido. Não apenas há traços melhor elaborados do que o filme de 1976 com a aversão de Jackson ao caminho seguido pelo amada, como também uma homenagem derradeira lembra muito a de Liza Minnelli. Como diretor, além da atuação com mais nuances do que a de Kristofferson, da versão dos anos 70, fazendo deste o seu melhor trabalho desde O lado bom da vida, Cooper compõe vinte minutos finais especialmente belos, reunindo sentimentos e conflitos que não podem ser sintetizados por palavras, apenas por imagens. Vem dessa parte final a grandeza desta versão de Nasce uma estrela: em seu tempo de viagem, conta mais o que percebemos no interior dos personagens e o que permanecem são os momentos mais afastados do grande público e que impulsionam esse casal atrás de um sonho, como na melhor canção do filme, “Shallow”. Temos aqui um exemplo de filme que capta parte da vida e de sentimentos ligados a ela muitas vezes esquecidos e que permanecem fortes independente do que aconteça.

A star is born, EUA, 2018 Diretor: Bradley Cooper Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Andrew Dice Clay, Dave Chappelle, Sam Elliott, Anthony Ramos, Rafi Gavron Roteiro: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters Fotografia: Matthew Libatique Produção: Bill Gerber, Jon Peters, Bradley Cooper, Todd Phillips, Lynette Howell Taylor Duração: 135 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Live Nation Productions, Metro-Goldwyn-Mayer Pictures, Gerber Pictures Peters Entertainment, Joint Effort Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Venom (2018)

Por André Dick

A corrente de filmes de super-heróis rendeu algumas das maiores bilheterias do ano, incluindo as duas principais. Se Venom segue o filão de adaptações de histórias em quadrinhos, desta vez mostrando um supervilão, pode-se lembrar que ele já apareceu em Homem-Aranha 3, o fechamento contestado da trilogia de Sam Raimi, vivido então por Topher Grace. O personagem regressa neste filme sob direção de Ruben Fleischer, que se tornou conhecido por seu cult de comédia Zumbilândia e depois teve uma má recepção com Caça aos gângsters, com um visual elaborado, tanto na direção de arte de época quanto no figurino, além do elenco que inclui Ryan Gosling e Emma Stone. Dessas duas obras, Venom recupera a parte técnica bem elaborada e um cuidado na maneira com que se desenham os personagens num ritmo vertiginoso, sem dar muita importância a explicações psicológicas ou algo do gênero.

A obra de Fleischer teve problemas em suas filmagens, muitos cortes na edição final (fala-se em 40 minutos) e um trabalho de marketing no mínimo duvidoso. Mostra como o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy), sob a liderança do editor Jack (Ron Cephas Jones), entra em contato com a corporação Life Foundation, que investiga resquícios de vida num cometa, tendo à frente o CEO Carlton Drake (Riz Ahmed). Ele descobre haver essas pesquisas secretas num documento em posse da sua noiva, Anne Weying (Michelle Williams). Eddie se desentende com Carlton numa visita à empresa, tentando trazer a verdade à tona. Depois de algum tempo, Drake continua fazendo testes com humanos utilizando a forma de vida que caiu com o cometa, uma espécie de parasita. Diante disso, Brock é procurado por Dora Skirth (Jenny Slate), que trabalha para Drake. A partir daí, ele se envolve numa rede de acontecimentos que podem levá-lo a um momento extremamente delicado em sua vida, entre idas a um minimercado constantemente assaltado e incômodos com o vizinho afeiçoado a ligar o rock no último volume diante de seu apartamento, além de uma ida altamente nonsense a um restaurante, a fim de comer de forma desajeitada frutos do mar num aquário.

Fleischer sabe utilizar com maestria a fotografia excepcional de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofsky e aqui utiliza cores e neons que remetem tanto a seu trabalho em Cisne negro. Também mostra sua agilidade já mostrada nos dois primeiros Homem de ferro. Se as tomadas de efeitos visuais com a criatura que se apossa de Brock lembram as do filme Vida, um terror sobre um hospedeiro alienígena que torna caótica uma estação espacial, o humor da história, que cria um fio tênue entre os personagens, é o que mais sustenta tudo, mesmo a tentativa de dramaticidade. Para isso, a atuação de Hardy é exitosa. Um grande ator já revelado em O regresso, ele tinha bons momentos como o vilão Bane de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge e mal aparecia em Mad Max, no entanto é aqui que com uma veia humorística muito bem dosada que ele se sobressai. Além disso, ele tem química com Williams, uma atriz que pouco aparece em blockbusters e naturalmente bem aproveitada pelo roteiro, nos momentos mais efetivos. A inclusão do seu novo namorado, Dr. Dan Lewis (Reid Scott), que tenta ajudar Brock em sua forma de Venom, é também um acerto do roteiro, fazendo o personagem central nunca se sentir antipático, mesmo sendo de fato um supervilão, assim como deposita em Ahmed, ator muito competente, revelado em O abutre, uma boa vilania.

Sustentado por um roteiro de Scott Rosenberg e Jeff Pinker, reescrito por Kelly Marcel, Venom possui uma ambientação que consegue mesclar a atmosfera urbana de uma grande cidade, no caso a mesma San Francisco de Homem-Formiga, e uma fantasia com efeitos visuais no mínimo competentes. As sequências de ação, principalmente aquelas em que o personagem se envolve em lutas, são bastante eficazes, mas nenhuma supera uma na qual ele está de moto – e sua habilidade elástica se mostra muito parecida com a sequência de moto de As aventuras de Tintim, com uma câmera panorâmica para mostrar o salto do personagem. Claro que, depois dessa produção, fica difícil colocá-lo como um vilão do Homem-Aranha em alguma aventura posterior do universo da Marvel – seja da Fox ou da Disney –, graças à intervenção de Hardy, porém é possível dizer que se trata de uma obra despretensiosa que consegue atingir seu feito de maneira interessante. Assim como sem sua grande realização cult Zumbilândia, Fleischer sabe como mesclar ação e uma montagem agilíssima, além de alguns momentos realmente tensos, entregando ao espectador parte de suas expectativas. Desse modo, Venom nunca se sente aborrecido ou em queda, entrelaçando boas situações e um núcleo bem dosado de humor.

Venom, EUA, 2018 Diretor: Ruben Fleischer Elenco: Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed, Scott Haze, Reid Scott, Jenny Slate, Ron Cephas Jones Roteiro: Jeff Pinkner, Scott Rosenberg, Kelly Marcel Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Avi Arad, Matt Tolmach, Amy Pascal Duração: 112 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Entertainment, Tencent Pictures, Arad Productions, Matt Tolmach Productions, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Noite de lobos (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival Internacional de Toronto há menos de duas semanas, Noite de lobos já está disponível na Netflix. Seu diretor é Jeremy Saulnier, muito elogiado por seu filme de estreia, Ruína azul, e mais ainda pelo seguinte, Sala verde. Se esses filmes já demonstravam uma tentativa de o diretor mostrar tramas antilineares, maior ainda era a propensão de ambos à violência. Ela se repete na sua nova obra.
Sua história, assinada por Macon Blair (diretor do muito interessante e vencedor do Festival de Sundance em 2017, Já não me sinto em casa nesse mundo), a partir de um romance de William Giraldi, é ainda mais estranha: o especialista em lobos Russell Core (Jeffrey Wright) vai para Keelut, no Alasca, a fim de caçar lobos que teriam matado três crianças. Quem o chama é Medora Slone (Riley Keough, depois de uma sequência de êxitos no interior dos Estados Unidos com Docinho da América e Logan Lucky), que teve o filho Bailey desaparecido. Ela quer que Core mate os lobos responsáveis. Ao mesmo tempo, Saulnier mostra o marido dela, Vernon (Alexander Skarsgård), na guerra do Iraque, agindo de maneira impactante diante de um abuso cometido por um soldado.

O comportamento de Medora é estranho durante uma noite, quando parece estar dominada por algum espírito maligno e tenta seduzir Core. No dia seguinte, ele vai atrás dos lobos, mas, sem conseguir atingi-los, na volta à casa de Medora tem uma grande surpresa, o que leva os aldeões a dizerem que ela está sob domínio de um demônio-lobo.
Vernon volta para casa e começa a agir de modo ainda mais estranho quando tem uma revelação chocante – e Saulnier parece predisposto a aliar o universo dos lobos com o do combate e da guerra, em sequências de ultraviolência, o que remete a seus filmes anteriores, principalmente Sala verde. Vernon visita uma bruxa local, Illanaq (Tantoo Cardinal), enquanto Russell tenta pedir ajuda ao chefe de polícia Donald Marium (James Badge Dale). O comportamento de Cheeon (Julian Black Antelope), um dos amigos de Vernon e que também perdeu um filho para a matilha de lobos que cerca o local, se conecta com as ações deste – e a passagem na qual enfrenta a polícia lembra aquela da segunda parte de O exterminador do futuro, de James Cameron, no entanto também com a guerra no Iraque. Lugares desolados, para Saulnier, e isso se mostra especificamente no filme anterior dele, estão predispostos a atrair a loucura e o desafio às leis.

Não se pode dizer que Noite de lobos tem como premissa copiar premissas de filmes de terror norte-americanos. Seu clima é mais introspectivo e possui uma fotografia notável de Magnus Nordenhof Jønck, com o talento já mostrado em Lean on Pete. Seu trabalho aqui remete à de dois filmes recentes passados num ambiente gelado, Terra selvagem e Boneco de neve, dialogando com as atuações do elenco, sobretudo de Skarsgård, logo depois do subestimado Mudo, e de Wright, muito compenetrado em sua sensação de nada saber sobre o que está acontecendo. Eles conseguem lidar muito bem com o simbolismo da trama, que tem correspondência com A hora do lobo, de Ingmar Bergman, dos anos 60, sobre um casal afastado numa ilha que vivia uma espécie de pesadelo. Esta obra bergmaniana é uma das influências mais notáveis na obra de David Lynch e, se Saulnier não tem a capacidade para tornar suas imagens tão enigmáticas, consegue, através das atuações e da maneira como dispõe a narrativa, sem um início, meio e fim claros, desenvolver uma notável amplitude quando é preciso o soco emocional para fazer as coisas andarem em frente.

O clima de aldeia ameaçada, além disso, remete ao clássico Grito de horror, de Joe Dante, pois o filme de Saulnier é, antes de tudo, uma revisitação à clássica figura cinematográfica do lobisomem, mas sob um olhar contemporâneo e mais em consonância com temas geopolíticos. Para Saulnier, o instinto da natureza do homem se mostra em diferentes contextos – o calor do Iraque e o gelo do Alasca são polos iguais –, assim como a violência se propaga do mesmo modo: um tiro na nuca de Vernon no Iraque e depois em outro personagem se juntam com o mesmo sentido, de que a violência fantasiosa do lobisomem, que morde suas vítimas, se dá agora por meio de tiros. O nível de sangue, que extrapolava em Sala verde e no filme dirigido pelo roteirista de Noite de lobos, contrasta com o cenário desolador do Alasca e sua brancura e desolação, porém é resultado também dessa guerra estrangeira trazida para o interior dos Estados Unidos. É como se Saulnier dispusesse esse contraste de maneira a fazer o espectador se espantar com seu simbolismo. Ele não expõe de maneira clara, como fazia em Sala verde, por exemplo, os temas que estavam por trás de tudo: pelo contrário, nunca entendemos realmente por que os personagens agem de uma maneira ou outra, sempre contrariando suas próprias posições iniciais. Por isso, talvez, Noite de lobos esteja sendo tão mal recebido. Trata-se de um avanço surpreendente e anticomercial na concepção de um cineasta que parecia fadado apenas a cenas chocantes e muitas vezes gratuitas, em alguns momentos tentando emular Quentin Tarantino. Desta vez, ele certamente tem algo a dizer, embora não pareça, pelos poucos diálogos e pela narrativa nada linear.

Hold the dark, EUA, 2018 Diretor: Jeremy Saulnier Elenco: Jeffrey Wright, Alexander Skarsgård, James Badge Dale, Riley Keough, Irene Bidel, Julian Black Antelope, Tantoo Cardinal Roteiro: Macon Blair Fotografia: Magnus Nordenhof Jønck Trilha Sonora: Brooke Blair e Will Blair Produção: Russell Ackerman, Eva Maria Daniels, John Schoenfelder Duração: 125 min. Estúdio: Addictive Pictures, VisionChaos Productions, FilmScience Distribuidora: Netflix

 

Foxtrot (2017)

Por André Dick

Drama israelense que ficou entre os pré-finalistas ao Oscar de filme estrangeiro, depois de iniciar uma trajetória exitosa no Festival de Veneza do ano passado, Foxtrot, como muitas produções de qualidade, não chegou aos cinemas brasileiros, sendo lançado diretamente em vídeo. Com sua história contundente, ele mostra Michael (Lior Ashkenazi) e Dafna Feldmann (Sarah Adler), importante casal de Tel Aviv que recebe a notícia de militares israelenses de que seu filho Jonathan (Yonathan Shiray), que serve como soldado, morreu. Eles possuem outra filha, Dafna (Ilia Grosz), inserida no mesmo drama.
No entanto, acontece uma reviravolta, e se descobre que o Jonathan Feldman que morreu é outro. O diretor irá mostrar, a partir daí, exatamente Jonathan com seus colegas no posto onde trabalha, em situação precária, vigiando a entrada de pessoas vindas da Palestina. O filme desliza para um tom crescente de pessoas perdidas no meio do nada que remete muito a Incêndios, de Villeneuve, no entanto com elementos mais bem-humorados.

O diretor Samuel Maoz está em busca claramente de uma síntese para um tema espinhoso – o da guerra nas fronteiras de um país –, escolhendo como pressuposto uma família em ordem desestabelecida por uma notícia contrária a qualquer expectativa. O diretor localiza a família em ambientes bem arejados e esteticamente belos, enquanto no deserto tenta focar essa estética nas cores dentro de um contêiner onde ficam os soldados e em vidros quebrados de uma construção a distância. Do mesmo modo, contrapõe o ambiente de dança onde está a mãe idosa de Michael (Karin Ugowski), sobrevivente de Auschwitz, um deles com um rifle em meio à estrada, que dá passagem, num momento aparentando certo surrealismo, a um camelo, indo em direção a um horizonte infinito.
Se ele coloca o pai no início maltratando um cão depois de saber da morte do filho, Foxtrot lida com a raiva de modo a canalizá-la em um sistema já entregue pela sociedade: a guerra está presente, no entanto os pais do filho soldado não estão preparados justamente para carregá-la em seu cotidiano. A mãe está desperta, no entanto à base de remédios; o pai tenta se punir no banheiro abrindo uma torneira com água quente, fazendo ferida em sua mão.

Essa espécie de busca pela punição vai no sentido oposto do cotidiano de Jonathan com seus amigos: enquanto eles esquentam latas congeladas de carne e contam os segundos que levam para uma delas rolar no trailer precário onde ficam, elas não antecipam o que irá ocorrer a eles numa determinada noite. Há um determinado receio no ar do que pode acontecer a esses personagens, como se tudo estivesse no limite de um embate não configurado de forma explícita, sendo quase uma faceta mais realista de Cães do guerra, a obra subestimada de Todd Phillips de alguns anos atrás.
O diretor Maoz certamente traz para o filme sua participação na Guerra do Líbano, mostrando essa divisão entre um cenário familiar e um cenário de adversidade. Jonathan também representa, por meio dos seus desenhos, uma lembrança, para seu pai, de um passado já distante. É interessante como a figura da mulher se torna manifesta quase que praticamente por meio dos desenhos – e uma conversa de Jonathan, que os realiza, ao lembrar para seus colegas de exército sobre uma revista particular encontrada por seu pai, desencadeia no ato final uma animação que lembra ligeiramente Valsa para Bashir, voltado a um reencontro familiar no imaginário.

A dor com a qual Foxtrot lida envolve não apenas a família, como também a própria tradição da qual ela faz parte. Por isso, é tão espetacular quando, de maneira discreta, Maoz costura o primeiro ato com o ato final, como se tudo fizesse parte de uma história a ser recontada por gerações. A descoberta de pequenas lembranças, objetos deixados para a posteridade, se encaixa com uma notável sensibilidade voltada à culpa pelo que se escondeu. Preocupado com um certo discurso poético subliminar, Maoz lida com o destino dos personagens como parte daquilo que os antecedeu não apenas no cargo do qual se encarregam e sim do passado que recontam às pessoas próximas. Nesse sentido, a visita de Jonathan à sua mãe adquire toda uma carga simbólica, fazendo de Foxtrot um registro documental da sensibilidade.

פוֹקְסטְרוֹט, ISR/ALE/FRA/SUI, 2017 Diretor: Samuel Maoz Elenco: Lior Ashkenazi, Sarah Adler, Yonathan Shiray, Ilia Grosz, Karin Ugowski Roteiro: Samuel Maoz Fotografia: Giora Bejach Trilha Sonora: Ophir Leibovitch, Amit Poznanky Produção: Eitan Mansuri Duração: 112 min. Estúdio: Bord Cadre Films

Sicario – Dia do soldado (2018)

Por André Dick

É no mínimo surpreendente que Sicario – Terra de ninguém, um dos melhores filmes sobre tráfico de drogas, dirigido por Denis Villeneuve, tenha recebido uma continuação tão interessante pelas mãos do italiano Stefano Sollima. Isso talvez se deva ao fato de Taylor Sheridan, roteirista do primeiro, regressar aqui, para mostrar a trajetória novamente de Alejandro Gillick (Benicio del Toro) e Matt Graver (Josh Brolin), do Departamento de Justiça.
Se o primeiro barrava os limites entre o certo e o errado, entre a ética do Estado ou seu rompimento, para evocar indagações internas na agente do FBI Kate Macer, interpretada por Emily Blunt, isso, de certo modo, ganha um grande potencial, até maior, em Sicario – Dia do soldado, com uma configuração notável dos problemas no México. Sheridan, mais uma vez, depois dos trabalhos exibidos em A qualquer custo (pelo qual foi indicado ao Oscar) e Terra selvagem (o qual escreveu e dirigiu), mostra seu interesse por personagens vivendo uma experiência à parte do mundo conturbado, em lugares afastados, no entanto sempre afetados pela realidade mais explosiva. Toda a sua narrativa poderia ser equiparada, como A qualquer custo, com um faroeste contemporâneo, no qual os mocinhos e bandidos não são bem definidos, os cavalos são helicópteros ou caminhonetes e as regras da lei são constantemente quebradas para que se imponha o mínimo de ordem.

Graver é chamado novamente à ação depois de um atentado terrorista num supermercado de Kansas City, pelo secretário de Defesa dos EUA, James Riley (Matthew Modine). Supervisionado por Cynthia Foards (Catherine Keener), Graver, depois de uma passagem pela Somália (em cenas que lembram A hora mais escura), tenta colocar traficantes de drogas uns contra os outros dentro do México. Ele pede a participação do antigo companheiro no sequestro de Isabel Reyes (Isabela Moner), filha adolescente de 16 anos de um dos mais poderosos líderes de um cartel de drogas mexicano, mas dando a entender que são os rivais dele que o realizam – quando o espectador sabe se tratar de agentes ligados ao governo, com ou sem lei. A maneira como Sollima grava essas sequências, nas quais a verdade existe para o espectador, não para Isabel, numa espécie de metalinguagem bem-sucedida (tudo é uma grande encenação), se faz fidedigna do talento de Villeneuve em compor um clima de tensão, localizável anteriormente em Incêndios, tanto dentro de pavilhões militares quando em estradas em meio ao deserto. Esta característica se revela nos momentos de emboscada, que Sollima roda com uma urgência incomum no cinema norte-americano sem se expor a lugares-comuns excessivos.

Esta continuação de Sicario guarda em parentesco com o primeiro, além da fotografia extraordinária de Dariusz Wolski (utilizando suas lentes já testadas nesse cenário com O conselheiro do crime, de Ridley Scott, uma influência clara para o original de Villeneuve), a sua maneira discreta de tratar de temas familiares, como se mostra no comportamento de Gillick, em mais uma atuação irrepreensível de Del Toro. Sua amizade com Isabel é parecida com aquela que tinha com a agente feita por Blunt no primeiro e os maneirismos do ator mexicano nunca perdem para sua convicção em interpretá-los. Ao recordar novamente de sua filha, impossível não registrar o domínio da figura da mulher num ambiente petrificado.
Muitos apontam este filme como uma sequência desnecessária, contudo é possível ver os personagens sendo explorados de uma maneira interessante. Pode-se ver certa influência de Traffic, de Soderbergh, e de Heli, à medida que a trama cria raízes no México. No original de Villeneuve, quase tudo se concentrava em Macer e em seus amigos, a exemplo de  Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), ficando para os personagens aqui enfocados apenas um mistério. Eles surgiam sempre à espreita, sem terem muito o que dizer; aqui, eles dizem, porém quando não se expressam é que seus sentimentos vêm mais à flor da pele. O destino de Gillick é um ponto realmente bem trabalhado, além de ressoar para além das imagens.

Sollima oferece a eles mais diálogos e transparência, ao mesmo tempo que os conserva à distância do espectador. É como se ele tivesse conseguido acertar naquilo que Ridley Scott não conseguiu, em Hannibal, continuação de O silêncio dos inocentes. Utiliza a ação como um soco, não deixando de lado a violência, mas sem utilizá-la com exagero. Tanto a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir lembra a composição de Jóhann Jóhannsson (infelizmente falecido) quanto a fotografia de Wolski repete tons daquela de Deakins. Em termos narrativos, é claramente diferente do primeiro (mais lento e com transições discretas, uma especialidade de Villeneuve), com uma linearidade mais ligada a um cinema de ação, sem nunca deixar de ser igualmente interessante. Talvez sua recepção menos entusiasmada tenha se dado em razão de uma certa visão política que seria prejudicial ao país focado. Isso, porém, não se expande na abordagem de Sollima: ele apenas confere problemas que estão localizados nesse combate entre personagens ligados aos Estados Unidos e seus vizinhos, sem querer indicar nenhuma solução.

Sicario – Day of soldado, EUA, 2018 Diretor: Stefano Sollima Elenco: Benicio del Toro, Josh Brolin, Isabela Moner, Jeffrey Donovan, Manuel Garcia-Rulfo, Catherine Keener Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Hildur Guðnadóttir Produção: Basil Iwanyk, Edward L. McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 122 min. Estúdio: Black Label Media, Thunder Road Pictures Distribuidora: Columbia Pictures, Lionsgate

O predador (2018)

Por André Dick

O filme original da série O predador é de 1987, dirigido por John McTiernan, uma referência em cinema de ação daquela década, a julgar também por Duro de matar, que faria no ano seguinte, rendendo a Bruce Willis sua franquia mais consistente. Ao mostrar um extraterrestre ultraviolento perseguindo militares numa selva da América Central, Arnold Schwarzenegger se destacava no elenco, mas era o visual que o tornava um grande atrativo, assim como o clima claustrofóbico. O predador basicamente era um caçador que farejava a violência. No início dos anos 90, sob outro diretor, Stephen Hopkins, a criatura de outro planeta ressurgiu na cidade grande, em Los Angeles, sendo perseguido por um policial vivido por Danny Glover. Embora nos anos 2000 tenha sido utilizado em filmes da série Alien vs Predador, apenas seu reaproveitamento em Predadores, com Adrien Brody num planeta inóspito, traria verdadeiros acréscimos.

O novo O predador, por sua vez, é uma realização de Shane Black. Desde o roteiro dos quatro filmes da série Máquina mortífera, dos anos 80 e 90, com Mel Gibson e Danny Glover, Black se tornou um especialista em obras sobre duplas. Em O último boy scout, ele colocou, sob direção de Tony Scott, Bruce Willis ao lado de Damon Wayans. Já em 1993, em O último grande herói, ele traz uma homenagem ao cinema de ação, na amizade entre um menino e Arnold Schwarzenegger. Em 2005, Black finalmente estreou na direção com o ótimo Beijos e tiros, uma homenagem ao cinema noir com cores surpreendentes, tendo à frente o dueto entre Val Kilmer e Robert Downey Jr. De qualquer modo, o seu grande ponto alto foi Dois caras legais, uma parceria entre Ryan Gosling e Russell Crowe que teve uma infeliz bilheteria.
Na continuação dos três anteriores, Black e seu roteirista Fred Dekker (que escreveu e dirigiu nos anos 80 o curioso Deu a louca nos monstros), mostram um franco-atirador, Quinn McKenna (Boyd Holbrook), que descobre a figura dos predadores e, antes de ser preso, manda o que restou das armaduras de um para sua casa, numa caixa de correspondência. Ele se separou de Emily (Yvonne Strahovski), com quem vive seu filho Rory (Jacob Tremblay), que possui uma espécie de autismo e sofre bullying no colégio, mas acaba tendo acesso à caixa enviada pelo pai.

O ótimo ator de Moonlight Trevante Rhodes atua como Gaylord “Nebraska” Williams, um ex-fuzileiro naval que participa da operação de caça aos predadores e conhece Quinn num ônibus para prisioneiros militares, enquanto Olivia Munn aparece como Casey Bracket, uma professora e bióloga que logo está em meio ao conturbado universo, tentando ajudar Will Traeger (Sterling K. Brown), agente que investiga a espécie rara. Ainda temos um veterano de guerra, Baxley (Thomas Jane), e Lynch (Alfie Allen), também ex-fuzileiro. Não se pode dizer que no novo O predador haja uma dupla determinada, mas não há dúvida de que Qunn e Nebraska formam uma em momentos decisivos.
É notável que Shane Black, como já havia demonstrado em Homem de ferro 3 e Dois caras legais, tem uma noção clara de como dirigir cenas de ação e, como nesses filmes, ele imprime um humor em situações muitas vezes de tensão. Se o objetivo do espectador é encontrar algo que se aproxime da claustrofobia da selva do primeiro O predador, esta nova empreitada sugere mais um blockbuster com todos os elementos aguardados: o mocinho que tenta se reaproximar do filho, os burocratas do governo querendo estudar uma espécie ameaçadora, os amigos que se juntam num combate que pende mais para o extraterrestre fazer vítimas. Também não há o elemento que se destaca sobretudo nos primeiros filmes, que mostravam um alien sedento por violência.

Há uma mescla clara de gêneros, o que em alguns momentos funciona, em outros não, e é visível que o filme foi editado de outra maneira depois do primeiro trailer vir a público, com destaque sendo dado ao menino Rory. A presença do personagem é muito discreta, e Tremblay não tem possibilidade de mostrar o talento que exibiu em O quarto de Jack, quase como se Black o tivesse inserido para aproximar a franquia de um público infantojuvenil (ele já fizera isso com o garoto que ficava amigo de Tony Stark em Homem de ferro 3), tendo sido impedido por produtores de mostrar mais a sua figura, conforme mostrava o trailer original. De modo geral, o elenco, com exceção de Rhodes e Brown, é bastante limitado, e Holdbrook soa como genérico.
Em termos de efeitos visuais e direção de arte, o novo O predador é competente, dificilmente falhando em ambientações ou explosões que vêm à tona no terceiro ato. Contudo, a simples presença de Shane Black poderia levar o filme a ser o que não se configura: numa grande tomada de ação que pelo menos lembrasse na agilidade e na tensão o de McTiernan, já que, em termos de elenco e localização, a história não propicia maiores momentos. Tudo é muito parecido, na estrutura da história com Super 8, desde o contato de Rory com a nave do predador até as ruas de subúrbio à noite sendo atacadas pelo alien ameaçador – aliás, não por acaso a fotografia é do mesmo Larry Fong que trabalhou com Abrams. Inclusive, há uma sequência num ônibus e outra no colégio de Rory que remetem à maior inspiração de Stranger things. Nesse sentido, a localização pende mais para a despretensão de filmes infantojuvenis dos anos 80 sem nunca aplicar sua própria personalidade e, mesmo que existam momentos até violentos para uma obra assim, eles nunca impedem de ser uma ficção científica comportada em termos de visão e alcance.

The predator, EUA, 2018 Diretor: Shane Black Elenco: Boyd Holbrook, Trevante Rhodes, Jacob Tremblay, Keegan-Michael Key, Olivia Munn, Thomas Jane, Alfie Allen, Sterling K. Brown Roteiro: Fred Dekker, Shane Black Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: John Davis Duração: 107 min. Estúdio: Davis Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

10 possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme em 2019

Por André Dick

Abaixo, seleciono alguns possíveis indicados ao Oscar de melhor filme em 2019. Em 2017, acertei apenas 3 candidatos; em 2018, acertei 5. Neste embalo, o Cinematographe vai acabar antecipando todos os indicados 😂, servindo como referência para quem gosta de fazer previsões – isso se a Academia de Hollywood colocar 10 filmes na disputa principal, o que não faz desde 2012. Esta lista sai antes de premiações importantes (Independent Spirit Awards, BAFTA, Globo de Ouro, Festival de Cinema Internacional de Toronto, principalmente), ou seja, depois dos vencedores e indicações delas, as coisas se aclaram um pouco mais. As probabilidades se baseiam em recepção crítica (dos que estrearam até agora; alguns podem ainda ser mal recepcionados) e temas tratados, que agradam mais ou menos à Academia, além dos gêneros de filmes. Por isso, coloco também cinco filmes numa repescagem.

Nasce uma estrela

Estreia na direção de Bradley Cooper, esta nova adaptação da obra de William A. Wellman segue os passos do cantor Jackson Maine (o próprio ator), que se apaixona por uma estrela quase em queda, Ally (Lady Gaga). A boa recepção no Festival de Veneza indica que este é um dos grandes cotados para o Oscar. E mais ainda: vai na linha de La La Land, trazendo à tona o mundo da música, embora aqui não com danças ou direção de arte especialmente criativa. Pelas imagens do trailer e críticas, esta versão dialoga muito com a de 1976, que tinha Kris Kristofferson e Barbra Streisand.

O primeiro homem

Depois do grande desempenho de La La Land, recebendo 6 Oscars, o novo filme de Damien Chazelle mostra a vida do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua rotina com a sua primeira esposa Janet Shearon (Claire Foy), até começar a fazer parte da missão coordenada pela Nasa em direção à Lua. As imagens do trailer, com a fotografia de Linus Sandgren, remetem ao estilo de Terrence Malick de A árvore da vida. Ainda no grande elenco estão Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit e Lukas Haas (o menino de A testemunha). É o filme com mais embalagem de Oscar do ano.

If Beale Street could talk

Baseado num romance de James Baldwin, o novo filme de Barry Jenkins, de Moonlight – Sob a luz do luar, traz no elenco Stephan James, KiKi Layne, Teyonah Parris e Regina King. Kiki Layne é Clementine “Tish” Rivers, apaixonado por Fonny (Stephan James), acusado de estupro. Ela descobre estar grávida e luta para que o marido possa sair da prisão. Será exibido no Festival de Toronto.

Beautiful boy

Este filme, dirigido pelo belga Felix Van Groeningen (Alabama Monroe), está sendo apontado como um dos preferidos da crítica. Traz a amizade e os conflitos entre um pai, Davis Sheff (Steve Carell), e seu filho Nic (Timothée Chalamet). Ele tem elementos para o prêmio, mas Carell ainda é visto com desconfiança pela Academia (foi indicado apenas por Foxcatcher, apesar de suas atuações extraordinárias em A grande aposta e A melhor escolha) e Chalamet já teve muitos holofotes com Me chame pelo seu nome, o que pode ser tão positivo quanto negativo em relação a este filme. Ainda assim, tem todos os elementos para surpreender.

Roma

Produção da Netflix vencedora do Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza, Roma prossegue a trajetória exitosa de Alfonso Cuarón, Oscar de direção por Gravidade. Ele faz o mesmo movimento que efetuou depois de sua versão de Grandes esperanças em 1998 em Hollywood, voltando à época ao México para filmar …E sua mãe também. A história foca Cleo (Yalitza Aparicio), de origem indígena, que trabalha como empregada doméstica para uma família de classe média na Cidade do México. Por ser da Netflix, seria uma surpresa a indicação principal – entretanto, sendo de Cuarón, é uma possibilidade. A fotografia em preto e branco é do próprio diretor, substituindo sua parceria com Emmanuel Lubezki.

Eighth grade

O mais antimainstream dos possíveis indicados, Eighth grade é dirigido por Bo Burnham, de 28 anos, conhecido nos Estados Unidos por ser comediante e um youtuber.  A distribuidora A24, que teve um grande 2018, parece menos competitiva este ano. Hereditário não é cotado, assim como Clímax, de Gaspar Noé, e Under the Silver Lake, mal recebido em Cannes. A tarefa ficou com este filme, lançado em Sundance. Ele conta a história de Kayla Day (Elsie Fisher), de 13 anos, que passou sua última semana na Suffern Middle School. Ela lança alguns vídeos no YouTube, mas não recebe a atenção que quer. Eighth grade tem todos os elementos para ser o Lady Bird deste ano.

The favourite

O cineasta grego Yorgos Lanthimos vem sendo acompanhado desde os sucessos Dente canino, Alpes O lagosta e teve um grande momento em 2017 com O sacrifício do cervo sagrado. Nesta peça histórica, ele mostra por que pode ser lembrado pela Academia, depois de receber o Grande prêmio do júri e de melhor atriz (Olivia Colman) no Festival de Veneza. A história se passa na Inglaterra, durante o século XVIII, quando a rainha Anne (Colman) tem uma amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz), governando na realidade em seu lugar. Surge uma nova serva, Abigail Masham (Emma Stone), que é prima de Sarah e passa a ser a nova favorita da rainha. O design de produção é fabuloso, lembrando Barry Lindon e Maria Antonieta.

Infiltrado na Klan

Lançado no Festival de Cannes de 2018, esta talvez seja a oportunidade de Spike Lee ficar mais próximo de um Oscar depois de concorrer pelo roteiro original de Faça a coisa certa. O filme mostra Ron Stallworth (John David Washington), contratado como o primeiro detetive negro no departamento de polícia de Colorado Springs, Colorado. Junto com Flip Zimmerman (Adam Driver), ele pretende desbaratar um grupo da Ku Klux Khan. Lee não costuma ter grandes chances ao Oscar grande parte das vezes (o melhor exemplo é sua cinebiografia Malcolm X, praticamente esquecido nos anos 90, não fosse a indicação para Denzel Washington), porém esta produção vem agradando em geral, o que lhe oferece mais chances.

Mary Queen of Scots

Esta obra de Josie Rourke mostra Mary Stuart (Saoirse Ronan) tentando fazer com que sua prima Elizabeth (Margot Robbie) seja condenada. A junção das atrizes que fizeram sucesso no ano passado com Lady Bird e Eu, Tonya, respectivamente, além da reconstituição de época maravilhosa, faz deste filme um dos possíveis candidatos. Trata-se de um retrato sobre uma relação conflituosa, que, pelo trailer, pode apelar à extrema qualidade ou ao overacting, dependendo da abordagem.

Boy erased

Dirigido pelo ator australiano Joel Edgerton, Boy erased tem um elenco surpreendente, incluindo Russel Crowe, Nicole Kidman, Lucas Hedges e o próprio Edgerton. Hedges, revelação de Manchester à beira-mar e que no ano passado esteve em Três anúncios para um crime e Lady Bird, interpreta Jared Eamons, que é filho de um pastor batista, Marshall (Crowe), e de Nancy (Kidman), no interior dos Estados Unidos e precisa participar de um programa que tentará mudar sua orientação sexual, coordenado pelo terapeuta mental Victor Sykes (Edgerton). É um tema que costuma agradar à Academia de Hollywood.

Repescagem

Widows

Esta nova obra de Steve McQueen é sua primeira depois do êxito de 12 anos de escravidão no Oscar. Ela segue a vida de quatro viúvas que, depois de seus maridos (Liam Neeson, Manuel García-Rulfo, Jon Bernthal e Garret Dillahunt) morrerem, começam a atuar como criminosas. O elenco apresenta Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki e Cynthia Erivo à frente de uma narrativa baseada em roteiro de McQueen e Gillian Flynn, autora de Garota exemplar e Lugares escuros, a partir de um livro de Lynda La Plante.

The ballad of Buster Scruggs

O novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen teve ótima recepção em Veneza, recebendo o prêmio de melhor roteiro. Seu problema é extrafilme: James Franco está em seu elenco e, desde as acusações de assédio no ano passado, seu nome não é bem visto em Hollywood. Distribuído também pela Netflix, ele é um faroeste episódico, com o bom humor conhecido dos seus autores. Pode surpreender, como já o fizeram Fargo e Onde os fracos não têm vez, ou decepcionar, a exemplo de Inside Llewyn Davis.

Pantera Negra

O filme de super-herói da Marvel é um dos cotados à categoria principal do Oscar desde sua estreia. No entanto, deve-se lembrar que Deadpool, cotado em 2016, sequer foi indicado a melhor maquiagem. Por isso, a obra de Ryan Coogler pode até chegar ao prêmio, mas dependerá de os participantes da Academia estarem propensos a finalmente indicar um filme do gênero na categoria principal.

O retorno de Mary Poppins

Este novo filme de Rob Marshall, diretor do oscarizado Chicago, pode tanto render várias indicações, como o original de 1964, quanto ser esquecido. Tudo depende realmente de sua recepção ao final do ano – levando em conta que também se pretende um blockbuster, o que costuma causar rejeição na Academia. No papel de Mary Poppins, Emily Blunt é uma atriz cada vez mais respeitada, sobretudo depois de atuações em Sicario, Um lugar silencioso e A garota no trem.

Backseat

Estrelado por Christian Bale, quase irreconhecível como Dick Cheney, vice-presidente de George W. Bush, uma das figuras que mais se insurgiram, de maneira polêmica, no combate ao terrorismo e em divergências sobre armas de destruição no Iraque, e tendo a seu lado Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Bill Pullman e Alison Pill, Backseat é o novo filme de Adam McKay, que alguns anos atrás concorreu com o surpreendente A grande aposta.

Outros possíveis candidatos: Tully (Jason Reitman), Ilha dos cachorros (Wes Anderson), Old man & the gun (David Lowery), Hereditário (Ari Aster), A garota na teia de aranha (Fede Alvarez), Don’t worry, he won’t get far on foot (Gus Van Sant), Bohemian Rhapsody (Dexter Fletcher), Jogador Nº1 (Steven Spielberg), First reformed (Paul Schrader), The front runner (Jason Reitman), White boy Rick (Yann Demange), On the basis of sex (Mimi Leder), Welcome to Marwen (Robert Zemeckis), Você nunca esteve realmente aqui (Lynne Ramsay), Wildlife (Paul Dano), The miseducation of Cameron Post (Desiree Akhavan), Leave no trace (Debra Granik), Blaze (Ethan Hawke), Creed 2 (Steven Caple Jr.), Suspiria (Luca Guadagnino), Todos lo saben (Asghar Farhad), Peterloo (Mike Leigh), At eternity’s gate (Julian Schnabel), The public (Emilio Estevez), The seagull (Michael Mayer), The son (Denis Villeneuve), The sisters brothers (Jacques Audiard), Missão: impossível: Efeito Fallout (Christopher McQuarrie), Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (David Yates), Máquinas mortais (Christian Rivers), Life itself (Dan Fogelman), Legítimo rei (David Mackenzie), 22 july (Paul Greengrass), Can you ever forgive me? (Marielle Heller), The children act (Richard Eyre)

Alfa (2018)

Por André Dick

A pré-história, curiosamente, nunca chegou a ser tema de muitos filmes, apesar de seus atrativos. Dirigido por Albert Hughes, o mesmo de O livro de Eli, Alfa tenta romper esse pouco empenho em trazer histórias nesse período. Certamente o mais conhecido do gênero é A guerra do fogo, do diretor de O nome da rosa e O urso, o francês Jean-Jacques Annaud, com excelente nível de produção, ótimas fotografia, direção de arte e maquiagem (premiada justamente pelo Oscar), uma espécie de extensão da primeira parte de 2001. Além disso, o filme ganhou o César (o Oscar francês) de melhor filme.
O filme de Annaud traz um grupo de homens pré-histórico que desconhece o fogo, já descoberto pela tribo inimiga. O que mais importa é o comportamento do homem nessa época, com cenas envolvendo uma mulher (Rae Dwan Chong, de A cor púrpura), e a tentativa de amizade com os mamutes (o que seria imitado em 10.000 a.C., de Roland Emmerich). No todo, é um filme interessante, mas irregular.

Alfa se passa na Europa, em 20.000 a.C., quando tribos de homens caçadores se preparam para a caça a fim de encontrar alimentos suficientes para enfrentar o inverno. O líder dessa tribo, Tau (Jóhannes Haukur Jóhannesson), treina seu filho adolescente Keda (Kodi Smit-McPhee), apesar da negativa de sua esposa Rho (Natassia Malthe). Durante o combate a bisões da estepe, o menino acaba sofrendo um acidente e seu pai imagina que ele acabou morrendo. Isso, no entanto, não aconteceu e a partir daí surge uma luta pela sobrevivência. O ponto mais alto é justamente quando Keda precisa enfrentar uma matilha de lobos, dos quais um fica ferido e a ele se afeiçoa, sendo chamado Alpha. Ele o chama desta maneira certamente porque seu pai é o líder de sua tribo, e ele enxerga no animal uma extensão da liderança e do conhecimento em relação ao território de perigo que o cerca.

É interessante como Hughes faz uma boa mescla entre elementos de A guerra do fogo com a série de animação A era do gelo, mas sob um ponto de vista histórico, sem bom humor. Alfa também parece reproduzir, em alguns momentos, por causa também da paleta de cores, algumas imagens históricas, como aquela, em câmera lenta, do bisão no confronto com Keda, pausando suas imagens em slow motion, com toques ainda de Dança com lobos, mais exatamente de uma cena marcante da obra de Kevin Costner. A partir da imagem que se estabelece entre Keda e o lobo, pode-se identificar uma aproximação não apenas de Dança com lobos como de Caninos brancos, o filme com Ethan Hawke do início dos anos 90. Se Kodi Smit-McPhee fosse um ator mais completo, a narrativa certamente renderia mais. Trata-se de um jovem ator, talvez promissor, mas sem ainda a estrutura para sustentar praticamente sozinho um filme todo. Não que ele não se esforce: quando a narrativa não tem o ímpeto necessário, é por causa das escolhas do roteiro.

Se a primeira parte é levemente previsível, o filme ingressa em seguida numa tentativa de sobrevivência do personagem diante de várias situações, algumas mais plausíveis do que outras. Hughes concilia elementos de filmes de fantasia com a tentativa de reproduzir um período inóspito na vida na Terra. Ele acerta mais quando usa as imagens no sentido poético, com tomadas aéreas que remetem ao documentário Voyage of time, de Terrence Malick, do que explorando a parte técnica de ação. Ou seja, quando ele insere as imagens de maneira mais emocional ele ganha pontos, lembrando, inclusive, o recente Corpo e alma, indicado ao Oscar de filme estrangeiro. A fotografia de Martin Gschlacht não tem a competência de Lubezki, porém consegue oferecer um enquadramento que ressoa junto ao espectador, sobretudo na sequência em que Keda luta contra um lago congelado. De modo geral, Alpha não estabelece da melhor maneira a ligação entre a ideia de família do jovem sobrevivente com sua família e seu clã, e ainda assim Hughes extrai certo crédito das premissas oferecidas.

Alpha, EUA, 2018 Diretor: Albert Hughes Elenco: Kodi Smit-McPhee, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Natassia Malthe Roteiro: Daniele Sebastian Wiedenhaupt Fotografia: Martin Gschlacht Trilha Sonora: Joseph S. DeBeasi Produção: Albert Hughes, Andrew Rona Duração: 96 min. Estúdio: Columbia Pictures, Studio 8, The Picture Company Distribuidora: Sony Pictures

 

25 melhores filmes de Ficção Científica do século XXI (até agora)

Por André Dick

O Cinematographe preparou uma lista com os 25 melhores filmes de Ficção Científica do século XXI até agora. Pode-se dizer que o gênero nunca esteve tão forte quanto nos últimos dez anos, com um número significativo de obras que fazem justiça à imaginação original de Mèlies, principalmente com a revitalização das franquias Star Wars, Star Trek e Alien. O formato das imagens é inspirado naquele do site MUBI e o link com os cartazes dos filmes no Letterboxd está aqui. Segue a lista abaixo. Convido a deixar a sua lista de preferidos na área de comentários.