Capitã Marvel (2019)

Por André Dick

O mais recente filme do universo MCU, Capitã Marvel, foi lançado sob o manto da polêmica, desde as declarações de Brie Larson, vistas com desconfiança por alguns, até grupos mobilizados para baixar sua nota em sites de média agregadas – comportamento cada vez mais presente numa batalha entre companhias que veem seus super-heróis sustentarem praticamente toda realização cinematográfica que não se alimente de histórias em quadrinhos. Desde o lançamento de Mulher-Maravilha, o grande condutor no cinema da Marvel, Kevin Feige, queria levar a primeira super-heroína do seu grupo já conhecido às telas, sendo que talvez a primeira que suscitasse isso seria a Viúva Negra, de Scarlett Johansson, nunca tendo, porém, seu merecido filme solo.

Quem encarna a Capitã Marvel é Brie Larson, conhecida por projetos de origem indie, como O maravilhoso agora e, principalmente, Temporário 12, mas verdadeiramente reconhecida pelo primeiro Anjos da lei. Depois do Oscar de melhor atriz, merecido, por O quarto de Jack, ela se aventurou em Kong – A Ilha da Caveira, no belo drama O castelo de vidro e agora neste blockbuster, no qual faz Vers, que mora no planeta Kree e tem como mentor Yon-Rogg (Jude Law), enquanto surge em seus sonhos uma misteriosa mulher (Annette Benning). O seu planeta vive em guerra com os Skrulls, uma raça que passa por planetas tentando dizimá-los e determinado dia, numa das batalhas, Vers acaba parando na Terra, onde imediatamente chama a atenção de dois agentes da SHIELD, Nick Fury (Samuel L. Jacjkson) e Phil Coulson (Clark Gregg). A partir daí, ela passa a ter lembranças de quando era uma piloto da Força Aérea desaparecida anos antes, em 1989, num projeto da Dra. Wendy Lawson (novamente Bening). Vers obviamente se junta principalmente a Fury (e a um gato excêntrico), descobrindo ser, na realidade, Carol Danvers. Fury e ela acabam se deparando com Keller (Ben Mendelsohn, cada vez mais repetitivo), também integrante da SHIELD.

Talvez os melhores momentos do filme de Anna Boden e Ryan Fleck, parceiros de direção também em Se enlouquecer, não se apaixone, se concentrem na amizade que Danvers reencontra em Maria Rambeau (Lashana Lynch), uma companheira sua no tempo em que era piloto na Terra. São momentos nos quais Capitã Marvel se sente mais próxima de uma homenagem declarada ao filme Top Gun, dos anos 80, em cenas calcadas para dialogar com o filme estrelado por Tom Cruise, assim como em determinados instantes, por causa de um determinado personagem, lembra Inimigo meu. Ao lado do carisma de Lynch, e também o de Jackson, rejuvenescido digitalmente de forma muito competente (certamente o efeito visual mais interessante do projeto, quase levando-o à época de Pulp Fiction, de 1994, enquanto a narrativa de Capitã Marvel se movimenta em 1995), o filme se sustenta mais em suas tentativas do que numa possível efetividade. A atuação de Larson é muito limitada, assim como já se mostrava em Kong – A Ilha da Caveira, prejudicando a maior parte das sequências. No entanto, isso não se deve apenas a ela, e sim também ao roteiro concentrado em flashbacks, cenas de ação excessivamente apressadas e um elenco de vilões pouco proveitoso. Boden e Fleck haviam demonstrado especial talento em diálogos em Half Nelson – Encurralados, sobre um professor interpretado por Ryan Gosling, e visivelmente não se sentem confortáveis com este universo mais fantástico.

Capitã Marvel tenta se equilibrar entre um universo que remete mais a Guardiões da galáxia, porém não deixa de emular o design de produção de Mudo principalmente na primeira parte, assim como tenta manter um contato com o universo estendido de maneira menos direta, e cenas campestres, como naquele em que Danvers está na casa de Rambeau e vemos um clima quase indie, típico dos diretores. É esta tentativa de trazer elementos novos, mas sem de fato conseguir, que caracteriza em grande parte a produção, com sua trilha sonora curiosa (incluindo até Nirvana, com “Smells like teen spirit”, No Doubt, com “Just a Girl”, e Garbage, com “Special”, cujo videoclipe tem a vocalista numa espaçonave parecida com as desse filme). Mesmo em seus momentos de humor, que remetem a outros personagens da companhia, Capitã Marvel não deixa nunca de carregar um peso, o de não ter exatamente uma linha muito clara do que realmente deseja: como filme de origem, e referências a um objeto que vemos ser seguido desde Os vingadores, ele até funciona em parte, porém, quando precisa atrair o espectador para novos pontos, se compromete quase totalmente. De certo modo, isso se deve a uma narrativa incerta pela pouca afeição de seus diretores a este tipo de material, como também por uma qualificação pouco natural dada aos personagens centrais. É um tanto surpreendente, porém, este filme ser tão mal recebido de certo modo tendo os mesmos problemas de obras recentes do MCU vistas como obras-primas, principalmente ao se apontar seu uso realmente excessivo de CGI, mas que não foge à média do gênero. Trata-se de um universo que precisa se reinventar com diretores mais autorais e não controlados pelo mesmo produtor, que torna cada filme muito parecido um com o outro.

Captain Marvel, EUA, 2019 Diretores: Anna Boden e Ryan Fleck Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Djimon Hounsou, Lee Pace, Lashana Lynch, Gemma Chan, Annette Bening, Clark Gregg, Jude Law Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck, Geneva Robertson-Dworet Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Pinar Toprak Produção: Kevin Feige Duração: 124 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Jogador Nº 1 (2018)

Por André Dick

Há sete anos, Steven Spielberg realizou seu primeiro desenho animado, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerraLincoln e Ponte dos espiões, ele regressou com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. No ano passado, Spielberg fez o “Oscar bait” The Post – A guerra secreta, chegando, talvez, a seu limite como realizador de obras guiadas por fatos, através de um veículo com o objetivo de buscar nomeações a prêmios e sem a devida autenticidade.

Menos de meio ano depois, ele regressa ao universo pop com Jogador Nº 1, baseado em romance de Ernest Cline. A história mostra o jovem Wade Watts (Tye Sheridan), que vive a maior parte do tempo em seu avatar, Parzival, dentro da realidade virtual intitulada Oasis, criada por James Haliday/Anorak (Mark Rylance), com a ajuda de Ogden Morrow (Simon Pegg). Morando em Columbus, Ohio, ele está interessado por uma garota participante do jogo, chamada Art3mis, ou melhor, Samantha Cook (Olivia Cooke), que o ajuda numa missão determinada com amigos Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), em busca de um “easter egg”, e pretende descobrir o que pretende Nolan Sarrento (Ben Mendelsohn). Sarrento quer ter o domínio sobre Oasis, com a colaboração direta do monstro i-R0k (TJ Miller). A história se passa em 2045, quando toda a terra parece ter sido erguido sobre favelas – embora os primeiros momentos lembrem mais Speed Racer, das irmãs Wachowski, e uma estranha movimentação de edifícios lembre A origem, de Nolan.

Se O bom gigante amigo trazia imagens que mesclavam as árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau, Jogador nº 1 é uma coleção de referências cinematográficas diversas. O início remete a De volta para o futuro (com Watts num DeLorean) e King Kong, além de i-R0K ter um peito em forma de caveira, aquela da caverna de Indiana Jones e o templo da perdição, e há uma passagem fantástica (spoiler a seguir) que insere o espectador nos corredores e quartos do Overlook de O iluminado. Trata-se de um alívio, pois finalmente se sabe onde Spielberg estava nas filmagens de The Post: filmando na verdade Jogador Nº 1.
À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar de maneira brilhante, Spielberg desenha um universo atrativo. Jogador Nº 1, ao contrário dos cenários pálidos dos últimos filmes do cineasta, é um primor de concepção visual e remete ao melhor da configuração em video game já mostrada no cinema, a de Tron. A ambientação da casa de Wade Watts – que diz ter sido assim batizado como um Peter Parker ou Bruce Banner – lembra as de Minority Report e A.I., misturando cores soturnas e uma conjunção de imagens computadorizadas. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, ele localiza aqui a de solidão não da infância, como em Império do sol, e sim da adolescência. Em seu roteiro, os jovens não têm praticamente uma “vida real”: eles sobrevivem por meio do jogo. Nisso, os anos 80 povoam o imaginário do filme, também musicalmente, com “Jump”, do Van Halen, por exemplo, assim como numa festa temos New Order.

Misturando imagens de video game e atores reais – que lembra em alguns instantes o subestimado Warcraft –, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, Jogador Nº 1 não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. Graças às atuações de Sheridan e Cooke, o cineasta consegue entregar certa dramaticidade a partir dessa ideia, embora não extraia notas diferenciadas de Mendelsohn (praticamente o vilão do cinema atual) ou Pegg (um pouco subaproveitado). Talvez se lamente que os atores não apareçam tanto como suas peças virtuais, pois todos exercem uma química em conjunto. Ao contrário do que demonstra no quase desastroso The Post, Spielberg se sente à vontade de regresso à cultura pop que ele ajudou a organizar, desta vez com a colaboração na trilha de Alan Silvestri no lugar de John Williams, que já concede um ritmo diferente – e faz várias referências a seu trabalho em De volta para o futuro. As cenas de ação se sentem vívidas, como aquelas de As aventuras de Tintim, com um senso de realismo mesmo na irrealidade representada.

Talvez ele tenha sido aqui o que menos se revela ultimamente: um autor até discreto. Em poucos momentos, ele homenageia a si mesmo. Ele prefere fazer reverência aos filmes oitentistas de John Hughes, Robert Zemeckis (um de seus “alunos”) e coloca O gigante de ferro, da animação dos anos 90 de Brad Bird, como uma espécie de exterminador do futuro de James Cameron. Em termos conceituais, o roteiro de Zak Penn não traz nada de especialmente relevante, com uma mensagem até previsível, porém Spielberg não se mostra aberto ao excesso de sentimentalismo que por vezes desconcerta sua obra, principalmente ao final. Ele prefere se basear na ideia de um universo múltiplo, uma espécie de Avatar adolescente, para retomar elementos que foi esquecendo ao longo dos últimos anos, praticamente desde o contestado Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Há uma certa despretensão bem-vinda, com uma intensidade notável até a primeira parte, que conduz tudo a um desfecho direto e sem contorcionismos para enfeitar esse universo.

Ready player one, EUA, 2018 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller Simon Pegg, Mark Rylance Roteiro: Zak Penn Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Steven Spielberg, Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger Duração: 140 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, Village Roadshow Picture, De Line Pictures, Farah Films & Management Distribuidora: Warner Bros. Pictures

O destino de uma nação (2017)

Por André Dick

Uma das curiosidades de O destino de uma nação é ser lançado no mesmo ano de Dunkirk, de Nolan. Se este filme conta a história das tropas inglesas presas em Dunkirk por causa de aviões alemães, a obra de Joe Wright conta, digamos assim, seus bastidores. Para um diretor que já havia mostrado uma sequência sem cortes passada na praia francesa em Desejo e reparação, indicado ao Oscar de melhor filme como O destino, não se trata de nada surpreendente. Naquela produção de 2008, Wright se situava entre uma história familiar e uma tragédia de guerra; ele não deixa de fazer o mesmo aqui, embora sem tanto espaço para as nuances familiares.
O destino de uma nação começa em maio de 1940, quando o Reino Unido e França são aliados na Segunda Guerra Mundial. O Partido Trabalhista da Oposição no Parlamento inglês pede que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (Ronald Pickup) renuncie, por ser considerado muito hesitante. No entanto, Neville consegue fazer com que Halifax (Stephen Dillane), seu braço direito, continue num posto do governo.

Para seu lugar, é escolhido Winston Churchill. Casado com Clementine (Kristin Scott Thomas) e tendo como secretária Elizabeth Layton (Lily James), Churchill precisa enfrentar justamente a crise em Dunkirk, com suas tropas ameaçadas pela morte. Ele mantém contato com quem o escolhe para o cargo, rei George VI (Ben Mendelsohn), mas o enfoque de Wright se dá nos discursos e conversas de rotina sobre a guerra entre Churchill e figuras próximas. Todos parecem querer que ele entre, por causa da situações das tropas na praia francesa, em acordo com a Alemanha nazista, por meio da Itália, em relação ao qual ele reluta.
Depois dos criticados injustamente Anna Karenina (uma releitura belíssima de Dostoiévski) e Peter Pan, duas adaptações literárias multicoloridas, Wright escolhe em seu novo filme uma paleta fotográfica assinada por Bruno Delbonnel, baseada no lado soturno da políticas, com fachos de luz entrando pelas janelas. Trata-se de um trabalho de Delbonnel que remete ao que ele fez em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, e um pouco de Sombras da noite, de Burton. Não é muito atrativo à primeira vista, contudo ajuda a contar a história de um período nebuloso para a Inglaterra e a solidão de um homem que deve tomar decisões que envolvem milhares de pessoas.

Oldman faz Churchill com notável empenho e, apesar de ser ajudado por uma maquiagem fantástica, é ele que consegue atribuir nuances ao personagem, com alguns maneirismos que o tornam reconhecível logo depois de meia hora. Sua relação de amizade com a secretária é o que mais aproxima o espectador do filme e Lily James está bem, mas é em seus rompantes de bom humor que a narrativa cresce. Oldman concede uma faceta humana e cotidiana ao grande líder, baseado num roteiro interessante, embora às vezes apegado demais aos fatos históricos, no seu andar, passo a passo. Há dois momentos tremendamente emocionais no filme e se aproximam de conversas mais íntimas de Churchill: aquele no qual conversa por telefone com Franklin Roosevelt e outro que resulta de uma conversa com o Rei, fazendo o personagem se misturar a quem deve perguntar pelo verdadeiro destino de uma nação. Deve-se lembrar também um diálogo decisivo que ele tem com o Rei George VI, já mostrado em O discurso do rei, de Tom Hooper, no qual Mendelsohn mostra sua excelência como ator e diante do qual se lamenta o pouco tempo de tela, pois teria muito a acrescentar em termos de nuances históricas.

O roteiro assinado por Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo, pode às vezes ser previsível em alguns tópicos autobiográficos, porém ainda assim os discursos e as relações de Churchill com a mulher e o rei resultam eficazes para o resultado final. Tem-se a impressão que Wright não se sente mais tão à vontade no formato histórico depois de seus filmes mais fantasiosos (incluindo o interessante Hanna, com uma jovem Saoirse Ronan, que Wright ajudou a revelar). Mesmo em Anna Karenina, no qual ele misturou elementos teatrais com um multicolorido de cenários e figurinos que evocavam Wes Anderson, Wright já havia feito uma obra diferenciada dos filmes anteriores, e talvez por isso mesmo não tenha sido bem recepcionado. Isso faz com que O destino de uma nação não se sinta tão bem resolvido às vezes, pois não é tão eficaz quanto aquele em nenhum momento em termos de narrativa (nem mesmo como Peter Pan). De qualquer modo, ainda é um retrato histórico atrativo e que merece ser visto por sua competência e construção cuidadosa.

Darkest hour, ING, 2017 Diretor: Joe Wright Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Lily James, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Ben Mendelsohn Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Dario Marianelli Produção: Tim Bevan, Lisa Bruce, Eric Fellner, Anthony McCarten, Douglas Urbanski Duração: 125 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films Distribuidora: Focus Features

Rogue One – Uma história Star Wars (2016)

Por André Dick

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No ano passado, todas as expectativas estavam voltadas para o fato de J.J. Abrams ter preparado o capítulo 7 da série Star Wars, intitulado O despertar da força, que alcançou grandes críticas e uma marca inacreditável nas bilheterias, de mais de 2 bilhões de dólares. Com vários méritos, no entanto, O despertar da força não se sentia plenamente um filme da saga: o estilo de Abrams, tentando reaproveitar de Lucas, fazia muitas vezes apenas uma reciclagem de antigas imagens e o estilo do diretor visivelmente não tinha liberdades. Para este ano, havia se anunciado um derivado da série, que deveria se passar entre A vingança dos Sith e Uma nova esperança, de 1977, no qual George Lucas mostrou seus personagens antológicos pela primeira vez. Mais uma chance para vender caixas de brinquedos para a Disney… Rogue One – Uma história Star Wars é dirigido por Gareth Edwards, cujo experimento anterior é o particularmente fraco Godzilla, um festival de destruições por onde o monstro icônico passa, e se sente, desde os trailers, como tal: mistura imagens que lembram os filmes da primeira trilogia com um elenco de qualidade. Não ajudou o fato de a primeira exibição junto a executivos ter recebido inúmeras críticas, convidando o diretor a refilmagens e a uma inclusão, talvez maior, de um personagem relevante para a saga.

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Nesta história, Jyn Erso é uma menina filha de Galen (Mads Mikkelsen), recrutado para trabalhar na construção de uma fortaleza espacial por Orson Krennic (Ben Mendelsohn). Ela fica órfã e passa a ser cuidada por Saw Gerrera (Forest Whitaker). Já adulta, ela se torna uma das componentes da Aliança Rebelde, integrando-se à equipe de Cassian Andor (Diego Luna) e seu androide K-2SO (Alan Tudyk). Enquanto isso, Galen manda uma mensagem à Aliança por meio de um piloto, Bodhi Rook (Riz Ahmed, colega de Gyllenhaal em O abutre). Numa das visitas a uma cidade, Jedha, eles conhecem Chirrut Îmwe (Donnie Yen), um guerreiro oriental orientado pela força – embora não especificamente um jedi – e o mercenário Baze Malbus (Jiang Wen). Ela acaba também se encontrando com o antigo mentor, Saw Gerrera, que possui uma mensagem de holograma que lhe interessa. Do lado do império, Grand Moff Tarkin (Peter Cushing, ressuscitado digitalmente de maneira espantosa) se reúne com Krennic, pondo sua gestão sobre a construção da fortaleza espacial em dúvida.
Quando se assiste a este tipo de filme, o certo é esperar no mínimo competência técnica. Como O despertar da força, Rogue One é espetacular em termos de efeitos visuais. Edwards, no entanto, ao contrário de Abrams, se aprimora ainda mais nos cenários e nas locações. A direção de arte é um espetáculo à parte. Há um senso de realismo e fantasia nela que não havia na obra de Abrams e era seu principal empecilho: em certos momentos, O despertar da força lembrava mais um parque temático do que propriamente um filme da saga Star Wars.

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Inevitável perceber que Edwards também tem uma noção muito maior no que se refere às transições de cena que tinham as peças originais de Star Wars: com a trilha retumbante de Michael Giacchino, mais efetiva do que a de John Williams em O despertar da força, a grandiosidade atinge o ápice durante as batalhas. Embora comece de maneira atropelada, encadeando sequências sem ligação visível entre si, a narrativa se recupera em seguida e não há quedas no ritmo nem a ligação entre os personagens soa forçada como acontecia em alguns momentos do capítulo de Abrams, sobretudo porque tinha de inserir Han Solo e a Princesa Leia em meio a um novo elenco. Edwards têm apenas a necessidade de expor uma missão e uma situação de guerra – mas o faz de modo extremamente notável. Desde referências ao filme A hora mais escura – o diretor de fotografia é o mesmo, Greig Fraser – até Apocalypse now, Rogue One tem ainda momentos que remetem ao grande A vingança dos Sith, de Lucas. Muitos momentos lembram principalmente de Guerra nas estrelas original, sobretudo na precariedade de alguns ambientes, sem o CGI normalmente utilizado, e isso leva o filme a uma nova escala. E Edwards tem um talento notável, não exibido a meu ver em Godzilla, para sequências de ação em que a grandiosidade se torna elemento normal, filmando naves como os Wachowski o fizeram em Matrix revolutions, de maneira mais aproximada e realista.

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Do mesmo modo, apesar de o roteiro de Rogue One não trazer novidades em termos de estrutura (ele é assinado curiosamente por dois diretores, Chris Weitz, de Um grande garoto e A bússola de ouro, e Tony Gilroy, de Duplicidade, Conduta de risco e O legado Bourne), eis a história da Disney que menos se parece com material da companhia. Se ele tivesse sido dirigido por Lars von Trier em sua estreia na ficção, não seríamos surpreendidos com tal grau de descompromisso com a bravura da saga que envolve a família Skywalker. Em Star Wars, sempre tivemos heróis quase imbatíveis; em Rogue One, os componentes da missão são figuras valentes, mas extremamente frágeis. Não vemos arroubos de heroísmo por parte de Jyn e Cassian, apenas a tentativa de completar a missão da melhor maneira. Isso é uma novidade para a mitologia Star Wars e não atenua quando Edwards leva tudo a um terceiro ato realmente espetacular, que rivaliza diretamente com O retorno de Jedi, numa mescla de cenas irreparáveis e extraordinárias. Que o mesmo diretor que fez Godzilla tenha feito este primor técnico e fantástico é uma surpresa – e nos perguntamos se Abrams não deveria ter estado aqui (spoiler até o fim do parágrafo), numa espécie de Melancolia situado no espaço sideral. Esta sequência que remete à obra de Von Trier é de uma beleza plástica memorável, unindo alegria e tristeza num laço inseparável, graças às atuações de Luna e Felicity.

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Nem mesmo a atuação de pouco vigor de Felicity Jones extrai a carga dramática que o filme possui, muito pela presença do ótimo Diego Luna, parceiro de García Bernal na pequena obra-prima … E sua mãe também, do mexicano Alfonso Cuarón. Donnie Yen e Ahmed estão ótimos, mesmo com pouco roteiro, e Mendelsohn, o que é de praxe em suas atuações (a exemplo de Reino animal), temível. Os personagens não atingem seu ápice porque exatamente são mensageiros na nova esperança – eles se concretizam por meio daqueles que ainda virão – e este é o lado mais emocionante de Rogue One, que parece simplesmente não ter sido dirigido para encantar as plateias encantadas pela saga e sim em conquistar um novo público (lamenta-se apenas que o final se sinta apressado e apenas uma ponte estabelecida com Uma nova esperança de maneira muito abrupta, tornando-se, aqui sim, mais para os fãs e conhecedores de Star Wars).
Havia uma grande obra nas mãos de Abrams no ano passado, mas quem a realiza é Edwards, este ano e contra todas as probabilidades. Rogue One não se sente apenas como um derivado: este é um legítimo filme Star Wars e que merecia carregar os créditos de história inicial, o que não acontece por ser exatamente apenas um capítulo à parte dos outros. Mas que capítulo! Não é simplesmente um fan service, apesar de remeter aos outros da saga, e sim uma obra de beleza plástica e conceitual que lembra o que George Lucas fez numa década conhecida hoje como “anos 80”, mas de maneira realmente contemporânea, mostrando uma missão em prol de um novo tempo a ser resgatado.

Rogue One – A Star Wars Story, EUA, 2016 Direção: Gareth Edwards Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Jiang Wen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Jimmy Smits Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Allison Shearmur, Kathleen Kennedy, Simon Emanuel Duração: 134 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Allison Shearmur Productions / Lucasfilm Ltd / Walt Disney Studios Motion Pictures USA

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Lago perdido (2014)

Por André Dick

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Com a reação pouco amistosa do público no Festival de Cannes depois de exibida na amostra “Um certo olhar”, a estreia na direção de Ryan Gosling quase não atingiu seu lançamento comercial. No entanto, com apoio de uma grande distribuidora, a Warner Bros, Lago perdido chega tanto a cinemas do exterior quanto em video on demand, num lançamento simultâneo (sua estreia nos cinemas brasileiros se dará em 23 de julho). Acusado, desde o início, de ser mais uma pose do que um filme, é interessante como, ao mesmo tempo, o mesmo festival de Cannes tenha dado o prêmio do Grande Júri a Mommy e Adeus à linguagem, obras que não se mantêm longe de uma pose de linguagem, principalmente o de Godard, com uma aura de vanguarda que ele não mais carrega desde, pelo menos, o momento em que os rumos da Nouvelle Vague foram capturados pelo cinema em sua amplitude. E ainda o melhor diretor escolhido foi Bennett Miller por seu decepcionante Foxcatcher. Com as críticas pouco favoráveis, imaginava-se que Lago perdido seria o que pode ser chamado de desastre consumado.
Quando se vai ao filme de Gosling, é notório, logo nas primeiras imagens, suas maiores influências: Terrence Malick e David Lynch. A presença desses diretores nas imagens de Lago perdido são claras, e com eles compartilham espaço também Harmony Korine e Dario Argento (um clássico do terror), além de Nicolas Winding Refn, com quem Gosling fez Drive e Apenas Deus perdoa. Há também lances de David Gordon Green, embora este já tenha um diálogo bastante aberto com Malick.

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Gosling, de certo modo, não esconde suas influências, como se fosse exatamente um fã. Mas, se há detalhes que anunciam que esta é uma obra de estreia, pode-se também dar o benefício da dúvida: se todos os filmes com tom de declaração de amor ao cinema alheio tivessem o impacto de Lago perdido já haveria o que se entende de influência do cinema autoral. Gosling não está interessado, e em se tratando de um astro de Hollywood que não precisava arriscar nada é algo inusitado, em preservar a imagem que apresenta como galã: Lago perdido, mais do que uma homenagem ao cinema desses autores, é uma viagem por um trem fantasma, por vezes bastante assustadora.
A cidade fantasma, Lost River, é aquela em que mora o que seria o personagem principal, Bones (Iain De Caestecker) . Ele divide a casa com a mãe, Billy (Christina Hendricks) e o irmão menor (Landyn Stewart), mas há uma dívida de aluguel de três meses. A mãe vai até um banqueiro, Dave (Ben Mendelsohn), a fim de solucionar a questão; ele lhe passa, numa espécie de Cidade dos sonhos, um cartão para que ela procure um emprego. Este se localiza num lugar cuja entrada é realmente a de um trem fantasma – e o que acontece dentro dele remete, tanto por Cat (Eva Mendes, também esposa de Gosling e uma ótima participação especial) quanto pelo banqueiro, aos personagens do underground de Lynch. É esta faceta que Lago perdido mais deve ao cinema do criador de Cidade dos sonhos. Neste lugar em ruínas, casas são destruídas diariamente e Bones o percorre atrás de resíduos de cobre, para que possa vendê-los. No entanto, circula pela cidade Bully (Matt Smith), com um uniforme de artista e microfone à mão que o ameaça, sempre acompanhado pelo assustador Face (Torrey Wigfield).
Numa das fugas, Bones acaba chegando a um lago onde postes de luz estão semisubmersos – e parecem ao longe o monstro do Lago Ness (o título original do filme é justamente Como pegar um monstro). Ao mesmo tempo, tem como vizinha Rat (Saoirse Ronan), que possui a figura de um flamingo em neon que ilumina seu quarto à noite e uma avó (Barbara Steele, de obras clássicas de um mestre do terror, Mario Bava), que fica imóvel diante de uma televisão assistindo a um vídeo antigo. Todas as imagens de Lago perdido não podem ser lidas, como uma peça surrealista, em sua superfície, como o lago que pode cobrir uma cidade; para cada grafite num muro, pode haver uma sala de cores que remetem a uma ficção científica, e casas podem parecer detritos enquanto o clube simetricamente calculado pode esconder o que a cidade esconde.

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Muito em razão da fabulosa fotografia de Benoît Debie – que fez não apenas um ótimo trabalho em Spring Breakers, como sobretudo em Enter the void e The Runaways –, e de uma trilha sonora impactante de  Johnny Jewel (ouça a excelente canção “Tell me”, cantada pela atriz Saoirse Ronan), Lago perdido é um mergulho numa atmosfera ao mesmo tempo acolhedora (as paisagens da natureza no início ou o registro de momentos afetuosos, como o irmão correndo ao lado do carro parado, com o irmão menor à direção) e horripilante: se os passeios pelas ruas abandonadas lembram os passeios do casal de vampiros em Amantes eternos (filmado na mesma Detroit em que Gosling capturou seu filme), as imagens do clube – ou trem fantasma – reservam um subterrâneo dessa cidade que, na verdade, desapareceu. Há muito do trabalho de cores de Dario Argento (principalmente de Suspiria) e de Jodorowsky filtrado por Refn, no entanto Gosling tem um tato para a ambientação mais natural, menos rebuscada, que não se encontra nesses diretores, fazendo com que Lago perdido muitas vezes crie um choque entre um plano onírico e uma vegetação local – o corte da corrida de Bones fugindo de Bully, para o escritório em que sua mãe se reúne com o banqueiro, é exemplar, assim como os momentos em que ela vai para o trabalho com um taxista (Reda Kateb). Tudo tem a sensação de um pesadelo, que pode ser entendido como parte da realidade que se descortina pelos personagens quando em contato sobretudo com a noite.
Nesse sentido, a procura de Bones por uma cidade escondida nas águas é a procura por Lost River, que ele vai percorrer com uma alucinante corrida, mais ao final. Lamenta-se diante deste trabalho apenas que Gosling não tenha conseguido transformar os momentos de aproximação entre os personagens em algo mais corrente: se a relação entre o filho e a mãe logo se estabelece, o seu contato com a vizinha se torna um pouco apressado, o que se deve visivelmente a momentos enigmáticos, no sentido que pode lembrar tanto Apenas Deus perdoa quanto uma ficção científica em que a figura feminina pode ser abafada com um peixe perdido no rio, num ambiente que parece capturar O segredo do abismo, de James Cameron, por mais estranha que seja esta aproximação. Ou seja, em determinado momento, a representação da mãe lutando contra a dominação é a mesma do filho procurando libertar esta cidade, com a grande atuação de Christina Hendricks, que fez Drive junto com Gosling, assim como a de Mendelsohn, seu parceiro em O lugar onde tudo termina.

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Nisso, pode haver também a leitura, menos instigante, de que Lago perdido representa a sociedade norte-americana em ruínas, sendo preferível a de que Gosling quis capturar um momento dela como se fosse uma espécie de trem fantasma do qual é preciso descer em algum momento – ou seja, é preciso se deslocar da fábula para a realidade. Desse modo, o roteiro de Gosling, mesmo que algumas vezes fique a dever no plano dos diálogos, e alguns lances de ingenuidade narrativa, consegue suscitar analogias muito interessantes, pois completamente afastadas do cinema comercial de Hollywood, sem a tentativa de ser uma exposição de galeria de arte vazia como, no ano passado, Sob a pele. Seria interessante que a versão completa exibida em Cannes (com 10 minutos a mais) fosse em algum momento liberada para que se tenha a noção mais exata dessa estreia de Gosling em termos de história; se a crítica às vezes pode ajudar na reconsideração de uma obra, ela também pode subtrair uma obra que poderia ser melhor aproveitada ainda de modo mais completo.
Ainda assim, Lago perdido é uma experiência que ressoa e compromete Gosling com um cinema que não pode lhe trazer uma recepção garantida da plateia: em seu curso, a sensação é de lidarmos com um cinema que não evoca o experimentalismo para se autocongratular, como é visto, e sim como uma maneira de expressão que instiga a conhecer seus diálogos. É uma maneira interessante de expor a criação de um novo diretor, assim como uma nova sensibilidade.

Lost river, EUA, 2014 Diretor: Ryan Gosling Elenco: Ben Mendelsohn, Christina Hendricks, Saoirse Ronan, Eva Mendes, Matt Smith, Iain De Caestecker, Demi Kazanis, Barbara Steele, Landyn Stewart, Reda Kateb Roteiro: Ryan Gosling Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Johnny Jewel Produção: Ryan Gosling, David Lancaster, Michel Litvak, Marc Platt, Adam Siegel, Jeffrey Stott Duração: 95 min. Distribuidora: Bold Films, Marc Platt Productions Phantasma Estúdio: Warner Bros

Cotação 4 estrelas

Êxodo: deuses e reis (2014)

Por André Dick

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Desde Gladiador, Ridley Scott tem tentado repetir o sucesso com filmes relacionados à história da humanidade. Se no filme com Russell Crowe ele conseguia mesclar uma visão da Roma Antiga com o cinema de entretenimento de Hollywood, recebendo por ele o Oscar de melhor filme, no recente Êxodo: deuses e reis Scott tenta enfileirar as características já exibidas em Cruzada e Robin Hood. Do primeiro, há as cenas com visual magnífico incrustadas em algum ponto entre a Espanha e o Oriente Médio, e o segundo possuía a história mais densa sobre o ladrão da Floresta de Sherwood, embora não com a qualidade correspondente. Nos últimos anos, pelo menos desde o ótimo Falcão negro em perigo, Scott tem tentado produzir filmes com bastante desenvoltura e pouco espaçamento entre um e outro. Bastante criticado, Prometheus prometia trazer o cineasta a seus melhores anos, os que se situam entre Os duelistas e A lenda.
Scott nunca teve entre seus méritos o trabalho com o roteiro. Sua estreia em Os duelistas tem um visual magnífico, característico de sua obra, mas uma dificuldade de estabelecer conexões entre os personagens. O mesmo acontece em outras obras importantes suas, mas em Êxodo, pela preocupação em fazer o relato bíblico estabelecer uma ligação direta com o cinema de aventuras de Hollywood, parece que Scott não está preocupado exatamente com a história: surpreende que haja entre os roteiristas o talentoso Steven Zaillian (Tempo de despertar, A lista de Schindler e O homem que mudou o jogo). Talvez com preocupação de desagradar ao público mais religioso, Scott procura tornar seu filme muito mais propenso a não se envolver com nenhum dos lados retratados. Ou seja, Êxodo: deuses e reis lida com a narrativa bíblica de modo a não se incomodar ou ser incomodado – e, se há algumas liberdades maiores no que se refere ao Antigo Testamento, parece não ser exatamente a vontade de Scott em desafiar as versões oficiais, mas apenas para acomodar sua história a um amplo estado cinematográfico.

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É um filme ao mesmo tempo arrebatador – pela quantidade de belas imagens e um senso de design primoroso – e, pelos lapsos da história, com uma sucessão de diálogos não tão interessantes, problemático, na sua estrutura. A história inicia com uma batalha em que Moisés (Christian Bale) e Ramsés II (Joel Edgerton) terão, cada qual, um desfecho que interessa às profecias. O faraó Seti (John Turturro), pai de Ramsés II, confia mais em Moisés, no entanto o que acontece a partir daí é uma espécie de reprodução da história de Gladiador baseada nos relatos bíblicos. Moisés é enviado para Phitom, a fim de ter uma reunião com Hegep (Ben Mendelsohn), à frente dos escravos hebreus. A figura de Nun (Ben Kingsley) surge para tentar avisar Moisés sobre a profecia que o cerca, mas não consegue ser ouvido. Moisés se torna um exilado e, sem seguir nenhum preceito religioso, é procurado por Malak (Isaac Andrews), que configura a presença de Deus na história. Moisés acaba conhecendo seu amor, Zipporah (María Valverde), e recebe o chamado para defender os hebreus dos egípcios numa batalha que poderá ser épica. No entanto, são quase 130 minutos até a batalha, e Scott, além da tentativa de ser fiel ao relato bíblico, com ligeiras adaptações – e deve-se dizer que Aronofsky, em Noé, conseguia trabalhar melhor a passagem bíblica do dilúvio, com menos informações de que Scott dispõe em Êxodo – precisa fazer um filme de entretenimento.
Particularmente eficaz a atuação do elenco. Scott sempre foi um especialista em extrair boas interpretações, e Bale consegue demonstrar seu talento como em outras obras. Edgerton não tem exatamente uma sequência de diálogos, nem parece o mais adequado para o papel, mas tem certa presença de cena. E Mendelsohn é mais uma vez um vilão interessante, embora não traga exatamente nada de novo.  O restante do elenco, como o excelente Kingsley e Weaver, como a rainha Tuya, mãe de Ramsés II, aparecem desperdiçados e não ficam claras quais as intenções de Scott com os personagens suplementares. O que interessa a Scott, muito mais, é tornar a narrativa de Êxodo num conjunto de imagens espetaculares – e principalmente aquelas que lidam com Moisés em contato com as mensagens divinas, a primeira logo depois de subir uma montanha com as ovelhas, em que Scott o lança numa espécie de sono tenebroso, e a fotografia de Dariusz Wolski se encarrega de colocar Bale numa situação claustrofóbica.

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O que incomoda por vezes em Êxodo é o quanto não parece haver a conexão necessária entre alguns personagens, não apenas por causa do roteiro com lacunas, mas em razão da própria direção de Scott. Não saberia se uma versão estendida do filme – e há uma para Cruzada, do qual vi apenas o corte feito para os cinemas, irregular, considerada melhor – ajudaria a eliminar o incômodo da montagem ou das passagens mal esclarecidas. O filme, no entanto, tem alguns méritos bastante claros, além do design fundamentalmente interessante: quando são mostradas as dez pragas do Egito, Scott lida com um cinema não apenas calibrado em termos de efeitos especiais – todos, sem exceção, espetaculares –, mas impactante o suficiente para atrair a atenção do espectador. Do mesmo modo, quando Scott mostra inicialmente os personagens ou quando retrata os diálogos de Moisés com Malak, além daqueles em que revela os conflitos de Ramsés com sua cúpula política, há também bons momentos.
Scott parece reencontrar sua linha como artesão do cinema capaz de retratar cenários espetaculares, como aqueles que encontramos em suas ficções científicas (Blade Runner e Prometheus) ou em suas fantasias (A lenda). No entanto, em muitos momentos, ele opta por uma montagem que joga a narrativa para vários lados ao mesmo tempo. É uma maneira de contar que prefere muitas vezes os cortes e a ação, bastante evidentes quando se inicia a caçada aos hebreus, do que a contemplação. Nas cenas com as pragas que abatem o Egito, Scott consegue produzir sensações de espanto – como aquela que envolve os crocodilos – e coloca em prática seu talento para a reprodução de cenários históricos, como havia em 1492 – A conquista do paraíso, por exemplo, ou mesmo Cruzada, com fundo religioso. Mesmo A lenda era uma espécie de transposição para um universo fantástico do relato bíblico sobre Adão e Eva.

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Em determinados momentos, personagens desaparecem e reaparecem (a exemplo de Nun, Tuya e Josué, feito por Aaron Paul) sem motivação especial ou explicada, e as perseguições aos hebreus se sucedem com bastante barulho, numa certa desordem, mas Bale oferece ênfase à figura de Moisés quando é escolhido seu caminho, tentando reatar as pontas do roteiro proporcionado por oito mãos a Scott. E com Moisés há certamente as sequências que valem a pena, como todas em que encontra a figura de Deus em Malak, ou quando precisa enfrentar a própria humanidade para saber se deve escolher seu caminho longe da comunidade em que está estabelecido como pastor.
Se falta a síntese e a complexidade de embate que havia em Gladiador, além de personagens que não saiam de cena sem dizer exatamente a que vieram, Êxodo pelo menos se arrisca. O interessante é que possui problemas que um cineasta como Scott saberia resolver, mas aqui ele não parece estar à vontade para isso, possivelmente preocupado em descontentar correntes religiosas ou mesmo por problemas particulares (a perda de Tony, seu irmão, a quem o filme é emocionalmente dedicado). Ainda assim, Êxodo é o retrato de um cineasta que se propõe a fazer algo espetacular para ser visto – e a cena que evoca o Mar Vermelho é portentosa – e mostra uma preocupação de estabelecer eixos temporais dentro de seu cinema, desde a ficção científica, passando pelo mundo de fábulas, até retratos contemporâneos de qualidade, como Thelma & Louise, Falcão negro em perigo e Rede de mentiras. Só parece lhe faltar, em algumas obras, como as que tentam reproduzir Gladiador, o lado mais dramático que possa se encaixar com as imagens espetaculares ou a direção de arte.

Exodus: gods and kings, EUA/ESP/Reino Unido, 2014 Diretor: Ridley Scott Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Aaron Paul, Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Indira Varma, María Valverde, John Turturro, Golshifteh Farahani, Ben Mendelsohn Roteiro: Adam Cooper, Jeffrey Caine, Bill Collage, Steven Zaillian Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Alberto Iglesias Produção: Adam Somner, Mark Huffam, Michael Schaefer, Peter Chernin, Ridley Scott Duração: 149 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Babieka / Chernin Entertainment / Scott Free Productions

O lugar onde tudo termina (2013)

Por André Dick

O lugar onde tudo termina

Quando acompanhamos Ryan Gosling se dirigindo a uma tenda de circo, sendo parado por algumas crianças em meio a um cenário de parque de diversões, para entrar num globo da morte, temos a sensação de estarmos vendo um instante de Drive, em que ele interpretava o misterioso motorista – principalmente pela câmera acompanhar sua visão. Aos poucos, no entanto, com o mesmo olhar melancólico e seu drama pessoal, Gosling anuncia que O lugar onde tudo termina é um drama que trata da paternidade como Drive não chegou a tratar, apesar de elementos da trama também o levarem a isso. Ele se chama Luke Glanton, trabalha como mociclista e descobre que teve um filho, com um antigo caso, Romina (Eva Mendes, num momento especialmente bom), que mora na cidade de Schenectady, Nova Iorque, embora ela já esteja envolvida com Kofi (Mahershala Ali). Sem a permissão de Romina, Luke insiste em reatar a ligação e fica na cidade, onde, com seu talento como motociclista, faz amizade com o dono de uma oficina, Robin (Ben Mendelsohn), que o aponta como um talento – depois de se conhecerem numa corrida involuntária num bosque das redondezas da pequena cidade. Luke é um indivíduo perfeitamente enquadrado na filmografia de Derek Cianfrance, que já havia dado a Gosling o papel de Namorados para sempre, com Michelle Williams. Mas é ainda mais: Gosling, o melhor ator de sua geração, ainda que ultimamente criticado por repetir papéis (e Caça aos gângsteres contribuiu para isso), consegue traduzir a tragédia desse personagem às voltas com a tentativa de, afinal, exercer a função de pai da família, mesmo que todas as coisas pareçam dizer o contrário. Para isso, está sempre na lanchonete de Romina tentando oferecer ajuda para o filho.

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Esta obra de Cianfrance não seria apenas interessante se assistida sem as informações que levam a desvendar suas surpresas, mas porque o drama de Luke é uma espécie de diálogo aberto com o drama do policial Avery Cross (Bradley Cooper), que acabou de ser pai e passa por um momento delicado no departamento de polícia da cidade, onde se vê às voltas com amizades não muito confiáveis (uma delas, Deluca, interpretada por Ray Liotta, especializando-se neste papel de ameaça), sob o olhar do promotor (Bruce Greenwood, sempre uma presença marcante) e do pai, Al (Harris Yulin), que trabalha como juiz e a quem recorre para decidir o que pretende fazer.
A maneira como Avery tem a desconfiança de sua mulher, Jennifer (Rose Byrne) corresponde àquela que Luke tem da mãe de seu filho. Mas os papéis dialogam porque o conflito é o mesmo, e Cianfrance consegue apresentá-lo com sutilezas de um diretor que vem se especializando em narrativas com personagens a princípio rotineiros, mas cujas implicações existenciais se tornam próximas de um gênero grandioso. Esses são personagens que vivem na mesma cidade, em situações diferentes, de criações diferentes, mas que se deparam, em algum momento, com o que pode transformar suas vidas. Suas decisões põem em risco não apenas a si mesmos, mas também suas famílias, e o dinheiro passa a significar não apenas uma sobrevivência, mas um sinal de que algo pode estar se complicando e às vezes é preciso dar o recuo necessário, para que não se chegue ao limite. E, em alguns momentos, eles se fecham e acrescentam uns aos outros sem que se perceba o movimento que foi feito para que isso aconteça.

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O lugar onde tudo termina, a partir de determinado momento, passa a tratar de questões que dizem respeito não apenas a seus personagens, como a todo um contexto de poder e castas mantendo sua posição, e isso não tem exatamente um traço que conduz à lição de moral, mas serve como uma observação do estado de coisas que envolve os personagens e uma permanência de questões ligadas à infância. Essas questões se ligam à paternidade, e envolvem dois jovens, AJ (Emory Cohen) e Jason (Dane DeHaan), que acabam se conhecendo na escola e logo ficam próximos, por meio do uso de drogas e, se participam da sequência menos surpreendente do filme, não deixem de explorar o potencial da narrativa e não tornam a duração (140 minutos) excessiva.
O roteiro, assinado por Cianfrance em parceria com Ben Coccio e Darius Marder, introduz algumas reviravoltas, mas é exatamente a direção, em combinação com a fotografia impecável de Sean Bobbitt, que coloca O lugar onde tudo termina como uma das produções mais sensíveis que o cinema norte-americano produziu recentemente. Nele, o cenário da cidade tem um papel fundamental. Cercada de bosques, com estradas que parecem se perder, sobretudo depois de algumas cenas de ação, ela guarda uma espécie de tranquilidade nervosa, por meio de seus personagens, e os neons das lanchonetes se misturam a uma trilha dos anos 80, sem fazer com que se volte a esta época. Há um incômodo nessa paisagem tranquila que parece chegar aos personagens, e tanto Luke quanto Romina tentando reatar o relacionamento ao mesmo tempo vivem nesse lugar sem poderem se distanciar, assim como parece provocar um tédio no grupo que tenta dominar o departamento de polícia. É também neste cenário que os pais tentarão dar uma dedicação a seus filhos, longe dos problemas que puderem existir, mas onde exatamente se confundirá o papel de cada um.
Cianfrance deposita sua principal expectativa na ligação interna entre esses personagens, fazendo com que o espectador veja o personagem de Gosling em cada um deles, mesmo quando não está presente em cena. Mas isso não diminui o impacto da atuação de todo o elenco, sem exceção, e Bradley Cooper se mostra aqui ainda mais adequado do que na sua jogada psiquiátrica de O lado bom da vida, além da dupla de jovens, Emory Cohen e Dane DeHaan, mostrar uma atuação irretocável. Mendes e Byrne, como as mulheres desamparadas neste universo em que os homens tentam dominar todas as funções, conseguem, cada uma, apresentar uma insegurança sensível, e apenas se lamenta que Byrne e Mendelsohn não apareçam tanto. Mas em O lugar onde tudo termina – e isso é difícil no cinema contemporâneo – os atores não tentam chamar atenção para sua presença. Quando os personagens crescem, é sempre em função da história e dos elementos que podem fazer para que ele se torne, mesmo com algumas repetições, num filme de absoluta beleza.

The place beyond the pines, EUA, 2013 Diretor: Derek Cianfrance Roteiro: Ben Coccio, Darius Marder, Derek Cianfrance Elenco: Ryan Gosling, Bradley Cooper, Bruce Greenwood, Eva Mendes, Ben Mendelsohn, Rose Byrne, Ray Liotta, Emory Cohen, Dane DeHaan Produção: Alex Orlovsky, Jamie Patricof, Lynette Howell, Sidney Kimmel Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Mike Patton Duração: 140 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Electric City Entertainment / Hunting Lane Films / Pines Productions / Sidney Kimmel Entertainment / Silverwood Films / Verisimilitude

Cotação 4 estrelas e meia

 

O homem da máfia (2012)

Por André Dick

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Quando Andrew Dominik filma uma rua dos Estados Unidos como se fosse o último pedaço da América, com sua desolação árida, lembrando um faroeste, já sabemos estar não de uma exata reprodução do seu filme anterior, O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, mas diante de uma obra que tentará transformar suas imagens numa alegoria sobre uma determinada situação dos personagens. Dois bandidos, Frankie (Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn), encontram Johnny “Squirrel” Amato (Vincent Curatola) para combinar um assalto a Markie Trattman (Ray Liotta), que tempos atrás havia sido esperto ao trapacear diversos envolvidos com jogos de carta noturnos. A cada cena, parece que Dominik quer reproduzir o que faz Scorsese em Os bons companheiros (também com Liotta). Além disso, temos trechos de debates da campanha à presidência dos Estados Unidos de 2008, entre Barack Obama e John McCain, e menções à política econômica de George Bush, naquele período retratado por O homem da máfia especialmente desoladora.
Um dos maiores incômodos ao se assistir O homem da máfia é este: o discurso, por um lado, de mafiosos com o mesmo ritmo de palavrões desgastados, e, por outro, a necessidade de deixar isso claro, pois sua analogia com a política é feita de maneira pouco sutil. Para Dominik, os mafiosos, pelo menos no período do filme, estão bastante interessados em política e na situação econômica. Eles podem estar num jogo de cartas noturno, mas seus ouvidos estão sintonizados nos discursos dos candidatos à presidência dos Estados Unidos.
Brad Pitt destoa como aquele que, segundo o título original, “mata suavemente”. Com uma linha de atuação já utilizada de maneira eficaz em O homem que mudou o jogo, ele interpreta Jackie Cogan, contratado por um advogado (Richard Jenkins) para, com o apoio de Mickey (James Gandolfini, de outra série de gângsteres, A família Soprano), tentar consertar as coisas. Sua composição às vezes flutua entre o bom humor de um sujeito pacato e de alguém que vai matar alguém até com certo semblante romântico, mas a necessidade de o diretor querer transformá-lo numa extensão de algum filme de Sam Peckinpah fica pelo caminho. Seu personagem não consegue ganhar vida, nem em suas conversas com o advogado, nem com Mickey. Pitt está visivelmente deslocado neste papel em que precisa exercer uma ambiguidade, entre o extremo da violência e a calmaria. É o personagem de Gandolfini, porém, o indício do que poderia ter sido O homem da máfia, com sua frustração pessoal em relação à amada e seu vício com a bebida.

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São homens desolados: Jackie é apenas um assassino e coloca os negócios sempre acima, a dupla que realiza o assalto vaga sem rumo, e todos os homens que os cercam se mostram interessados apenas em conseguir um espaço a mais para a venda de almas e a punição franca contra aqueles que traem o andamento das coisas, mesmo que fora da lei. O diretor Dominik, com apoio do fotógrafo Greig Fraser, filma tudo como se fosse não apenas uma continuação dos filmes de gângsteres mais conhecidos, como também um retrato da América, assim como Friedkin faz em Killer Joe. Inúmeros são os lugares com a bandeira dos Estados Unidos (e há sempre a ameaça de algum duelo). O grande problema é que a narrativa principal acaba sempre cedendo espaço a uma segunda narrativa, que se pretende implícita, mas se torna ostensiva ao longo da metragem, encobrindo a primeira.
A partir de determinado momento, o interesse pelos personagens vai diminuindo, pois, para o diretor, é mais interessante filmar a trajetória de balas em meio a gotas de chuva, ou mostrar a violência de uma surra, detalhando a mistura das gotas da chuva com o sangue, com a estética de um videoclipe.
Nenhum sinal das críticas de Cronenberg, em Cosmópolis, tanto ao capitalismo quanto aos integrantes de protestos contra Wall Street. Parece um tanto constrangedor Dominik considerar que os resultados da economia americana também afetam os mafiosos, como se esses dependessem do estado de um país (há mesmo um que viaja em classe econômica, pelo menos, ele espera, até a posse do novo presidente). Fica parecendo, nesse sentido, que O homem da máfia tem exatamente muito a dizer ou desvendar. Pelo contrário, no filme, os bandidos em uníssono fazem uma coisa só: fingem ser o que não são. Tudo no filme de Dominik, como a fala pausada de Pitt e o recorrente fuck you, man, é apenas pose.

Killing Them Softly, EUA, 2012 Diretor: Andrew Dominik Elenco: Brad Pitt, Ray Liotta, James Gandolfini, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Vincent Curatola, Richard Jenkins, Trevor Long, Sam Shepard Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Brad Pitt, Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz Roteiro: Andrew Dominik Fotografia: Greig Fraser Duração: 97 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Plan B Entertainment / 1984 Private Defense Contractors / Annapurna Pictures / Chockstone Pictures / Inferno Entertainment

2  estrelas