Hacker (2015)

Por André Dick

Hacker.Resenha

Se por um lado o diretor Michael Mann às vezes é cultuado por filmes que não chegam a me surpreender, como Fogo contra fogo e Colateral, por outro ele é recebido de maneira negativa pelo público e pela crítica. É o exemplo de Hacker, um grande fracasso nos Estados Unidos e que não chegou a estrear no Brasil (evitando se juntar com os grandes lançamentos que aportam no país às quinta-feiras). Estou longe de ser defensor de Mann, mas realmente gostei muito de Miami Vice e, principalmente, Inimigos públicos, seus filmes anteriores, com uma atmosfera impressionante, entendendo-se de antemão que ele vem se apropriando de um determinado tipo de narrativa em que o roteiro não fica muito claro em termos de construção e os personagens são definidos com poucas linhas de diálogo. Mann, de certo modo, opta pelo movimento, em que os personagens embarcam sem uma linha prévia de comportamento. Ao final de algumas obras de Mann, não é raro termos pouca certeza das características emocionais dos personagens, principalmente em Miami Vice, quando todas as ações parecem se misturar com o movimento da investigação e não há parada a fim de que conheçamos cada um deles.
No início de Hacker, uma usina nuclear em Wan Chai, Hong Kong, teve suas bombas de refrigeração detonadas, depois de um superaquecimento, por um hacker.Um oficial militar, o capitão Chen Dawai (Leehom Wang), toma o caso e convoca sua irmã Chen Lien (Tang Wei), que trabalha como engenheira de rede. A eles se junta a agente do FBI Carol Barrett (Viola Davis) em Los Angeles, acompanhada por Henry Pollack (John Ortiz) e Mark Jessup (Holt McCallany). A ferramenta utilizada no ataque foi feita por Chen e seu colega de faculdade Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth), que se encontra na prisão. Dawai pede que o FBI consiga a liberação de Hathaway, a fim de que ele possa ajudar no caso.

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Daí em diante, o caso se expande para vários lugares: em Hong Kong, a equipe liderada por Carol e Chen tenta chegar a Kassar (Ritchie Coster), um paramilitar, no entanto tudo pode esconder novas armadilhas para que não seja identificada a origem do ataque. Esta sequência é, particularmente, a mais acertada do filme, colocando o espectador no centro da ação, e antecipa aquela um pouco anterior à finalização. Os superiores de Dawai, da China, não querem se colocar contra os Estados Unidos, a partir de determinado momento, pois surgem ordens de se deter Hathaway. Este acaba, com Dawai e Lien, fazendo planos de deixar Hong Kong, quando são atacados novamente por Kassar.
O roteiro é fácil de ser solucionado, mas realmente não é possível conectar este filme com uma recepção negativa. Se há um Wong Kar-Wai da espionagem, pode ser encontrado neste filme, em que Mann eleva o suspense, a ação e o gênero policial ao status de arte (independente do exagero disso). Mann se mostra cada vez mais claramente um artesão, com um senso de filmagem poucas vezes visto em outros nomes antes dele e de sua geração. Suas obras sempre foram visualmente belíssimas, como O último dos moicanos e Ali, porém em alguns aspectos essa maravilha de percepção não se fechava com a emoção do que mostrava; muitas vezes, os personagens de Mann são excessivamente vagos. E o roteiro às vezes se constitui num esboço em que as imagens vão acrescentado o verdadeiro significado. Este talvez seja uma das características de Hacker, com Hathaway, Chen e Dawai sendo quase símbolos: o assaltante a bancos, o agente e sua irmã como interesse amoroso.

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No entanto, quando se reclama de um roteiro depois de um filme como Mad Max: Estrada da Fúria, realmente é de desconectar os chips e bits: Hacker não se importa de forma exagerada com o roteiro porque é uma perseguição incessante. Ainda assim, em meio a essa perseguição, Mann consegue revelar a humanidade de seus personagens – muito por causa de Hemsworth e Wi Tang, além de mostrar novamente um grande talento em filmar tiroteios, empregando uma realidade nessas ações incomum a outras obras de Hollywood. Esses personagens são ajudados pelo elenco, claramente funcional dentro do que Mann pretende – e Viola Davis, mais uma vez, se mostra uma atriz à altura da empreitada.
Por trás desses personagens e dessa linha de ação envolvendo o universo do poder da informática sobre as transformações suscetíveis no mundo, o filme de Mann se mostra extremamente feliz em atenuar a violência do universo contemporâneo por uma beleza de visão que fixa a tranquilidade de paisagens orientais e as cores alternando entre o verde e o vermelho dos neons noturnos e das luzes piscando quando se vê as cidades de maneira tão ampla. Por outro lado, o filme também encadeia sequências de imagens que remetem a uma espécie de labirinto de concreto, principalmente nas sequências em que os federais estão atrás de Nicholas, e as ruas enevoadas de fumaça de comida de Hong Kong.

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Trata-se, sem dúvida, de uma visão autoral, e ela atinge também o personagem de Hathaway, que se situa entre a ilegalidade e a tentativa real de dar sustentação a um objetivo que é atingir um criminoso. No filme imediatamente anterior de Mann, Inimigos públicos, o vilão, feito por Johnny Deep, tinha uma presença maior (acompanhada de seu romance) do que o herói, feito por Christian Bale. Os personagens aqui podem ameaçar o mundo diante de uma tela de computador, no entanto Mann é um autor perspicaz o bastante para mostrar que não há ingenuidade e que as relações humanas, se não acertadas, podem desencadear uma cadeia de terrorismo inescapável, o que já se mostrava em Miami Vice com sua temática de tráfico de drogas. Hathaway inicia o filme lendo Foucault na cela em que se encontra e pode ser que o governo que o segue, assim como a operação para a qual presta o serviço, tanto sirva sua condição quanto o puna.
Hacker também apresenta elementos que lembram Boarding gate, um dos melhores filmes de Olivier Assayas (e paradoxalmente o mais criticado) e uma fotografia espetacular de Stuart Dryburgh. Cada enquadramento de Hacker é um quadro de cores. Que este filme apanhe pessoas dormindo, é algo a se lamentar, pois está distante da maior parte do cinema moderno e das estreias que chegam no país às quinta-feiras.

Blackhat, EUA, 2015 Direção: Michael Mann Elenco: Chris Hemsworth, Leehom Wang, Wei Tang, Viola Davis, John Ortiz, Ritchie Coster, Yorick van Wageningen, Holt McCallany Roteiro: Morgan Davis Foehl Fotografia: Stuart Dryburgh Trilha Sonora: Atticus Ross, Harry Gregson-Williams, Leopold Ross Produção: Jon Jashni, Michael Mann, Thomas Tull Duração: 133 min. Distribuidora: Universal Pictures mEstúdio: Forward Pass / Legendary Pictures

Cotação 5 estrelas

Quarteto fantástico (2015)

Por André Dick

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Se este ano a Marvel já lançou dois filmes de heróis muito interessantes, Vingadores – Era de Ultron e Homem-Formiga, talvez aquele que mais despertasse curiosidade seria a nova tentativa de trabalhar com Quarteto fantástico. Não deixa de ser uma grande dificuldade o filme ter estreado no mesmo ano de duas das melhores produções já efetuadas pela Marvel, principalmente aquela que revela o Homem-Formiga. Já havia sido feita uma adaptação com esses personagens em 2005, com Jessica Biel e Chris Evans, e em 2007 uma sequência, no entanto ambas redundaram numa grande decepção. Este novo Quarteto fantástico ainda conta com alguns nomes em ascensão, como os de Miles Teller, de Whiplash e O maravilhoso agora, Michael B. Jordan, de Fruitvale Station, acompanhados de Jamie Bell, já conhecido desde Billy Elliott, e Kate Mara.
A história se inicia com Reed Richards (Owen Judge) e Ben Grimm (Evan Hannemann) ainda crianças, quando se conhecem no colégio. Eles passam a fazer uma experiência no porão da casa de Ben, onde funciona um ferro-velho, com um teletransportador. O resultado é um estouro e as luzes da cidade se apagando. Isto, no entanto, é o ponto de surgimento de uma parceria que chegará à feira de ciências do colégio, quando os amigos, já crescidos (e interpretados por Miles Teller e Jamie Bell, respectivamente), são visitados por Franklin Storm (Reg E. Cathey), da Fundação Baxter, que cuida de jovens gênios, e sua filha adotiva Sue (Kate Mara). A eles se juntam Victor von Doom (Toby Kebbell), um técnico brilhante de computação, e Johnny Storm (Michael B. Jordan), filho de Franklin – todos agora em busca da passagem para outra dimensão.

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O experimento, segundo Dr. Allen (Tim Blake Nelson), será usado para enviar um grupo da Nasa para a dimensão paralela, a que se dá o nome de Planeta Zero – sem a presença dos jovens que a desenvolveram, o que cria um desapontamento. A partir daí, o grupo procura um meio de superar este afastamento da possibilidade de fazer a jornada – o que poderá resultar em algo que definirá suas vidas e suas formas humanas para sempre, e para quem acompanha o Quarteto Fantástico sabe que essas formas podem tanto remeter ao fogo e à terra quanto à elasticidade e à invisibilidade.
Todos os elementos de Quarteto fantástico indicariam uma narrativa apegada aos filmes de herói, e isso naturalmente acontece com a tentativa de aproximação dos personagens. Porém, e já anunciavam as declarações do diretor Josh Trank, a Fox não se interessou por sua versão original e decidiu fazer uma montagem sem sua autorização. Além disso, Trank teria tido dificuldades em finalizar o filme, ou seja, é difícil lidar com uma obra que poderia ser muito melhor e se mostra com dificuldades por claros problemas de filmagem.
O que o espectador vê parece apenas parte de um roteiro maior: as histórias algumas vezes não se estendem o necessário, prejudicando o inter-relacionamento entre os personagens, e a agilidade da montagem lembra mais a de um trailer. Ainda assim, Quarteto fantástico não é tão decepcionante quanto o foi Godzilla no ano passado ou Jurassic World este ano. Alguns efeitos de Quarteto fantástico parecem inacabados, não tendo passado suficientemente pela pós-produção, no entanto há a preservação de um design de produção por vezes notável e uma trilha sonora muito boa de Beltrami e Phillip Glass.

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E Josh Trank tem uma visão bastante inspirada em outros filmes, principalmente Super 8 (a amizade de Reed e Ben no colégio), A mosca, de David Cronenberg (a concepção da máquina que transporta os personagens), assim como Hulk (a solidão de Grimm a partir de determinado momento), O homem sem sombra, de Paul Verhoeven (quando mostra os personagens presos à cama depois de se transformarem), Fogo no céu (o desespero de Reed diante de sua condição, observado por cientistas ameaçadores), com lembranças ainda de Prometheus e O planeta dos macacos. Trata-se de um diretor com conhecimento da história dos filmes de ficção científica. Ele consegue oferecer a esses personagens um lado mais soturno, principalmente quando Grimm passa a ser explorado pelo exército em áreas de guerra. Não há diversão em ser herói a princípio, e nisso reside o principal afastamento de Quarteto fantástico do seu público-alvo. Particularmente, apesar das versões anteriores, é a primeira vez que olhei com curiosidade para a história do quarteto.
Trank sintetiza a narrativa por meio de uma escuridão em que os personagens pouco se revelam – para todos eles, ingressar na Fundação Baxter pode ter tirado a juventude que pareciam percorrer por meio de certa ingenuidade. Em termos de elenco, é interessante como Teller consegue dar uma boa caracterização a seu personagem, enquanto Mara opta pela gravidade e B. Jordan por certa desconcentração. Rejuvenescer o elenco é uma boa saída para ligar esses jovens a um ambiente de computação desenfreada e a pesquisas científicas que misturam melhorias para o planeta ou administração de um poderio militar.

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Pelo potencial de direção, roteiro e elenco em Quarteto fantástico haveria mais história a ser explorada, como a de Reed, que a partir de determinado momento precisa ver seu amigo transformado num monstro de pedras e a cobrança por tê-lo abandonado quando havia prometido salvá-lo – e há em algumas tomadas do filme de Trank um clima de pesadelo inabitual para este tipo de produção. Mas essa sequência já faz parte de um momento em que a trama é, em parte, desmantelada por uma explicação de passagem no tempo, talvez necessária para impedir novas indagações, sem impedir, ainda assim, que o espectador acompanhe a história até o final. E, ao mesmo tempo que o drama da família Storm também poderia ser melhor desenvolvido, parece que este primeiro episódio da nova franquia ainda tem espaço para um clímax que lembra outros filmes da Marvel. Quarteto fantástico parece estar muito longe de ser um grande filme, mas, dentro de suas limitações, consegue apontar um reinício para esses personagens com propriedades realmente interessantes.

Fantastic Four, EUA, 2015 Direção: Josh Trank Elenco: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Joshua Montes, Dan Castellaneta, Owen Judge, Kylen Davis, Evan Hannemann, Chet Hanks, Mary-Pat Green, Tim Heidecker, Mary Rachel Dudley  Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater, Josh Trank Fotografia: Matthew Jensen Trilha Sonora: Marco Beltrami, Philip Glass Produção: Gregory Goodman, Hutch Parker, Matthew Vaughn, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Genre Films / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

Sob o mesmo céu (2015)

Por André Dick

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Quando o diretor atinge o estágio de possuir um público particular, talvez seja o momento em que comecem os problemas. No caso de Cameron Crowe, diretor de filmes como Vida de solteiro, Quase famosos, Jerry Maguire e Tudo acontece em Elizabethtown, banhados pela cultura pop e, principalmente, por trilhas sonoras elaboradas, o problema é sair um pouco desta rota. Se ele conseguiu adotar momentos diferentes em obras como Vanilla Sky – principalmente por sua visão perturbadora do amor dividido entre dois caminhos – e Compramos um zoológico – com sua visão familiar mesclada à preservação de um habitat para animais –, pode-se dizer que Sob o mesmo céu inaugura uma nova etapa na carreira de Crowe. Não que ele não tenha algumas das características próprias do diretor: lá estão a trilha sonora com vários hits, o romantismo e a busca de um homem pelo amor.
Temos a história de Brian Gilcrest (Bradley Cooper), que, depois de uma passagem pelo Oriente Médio, volta ao Havaí, na época do Natal, onde se encontra imediatamente com sua antiga namorada, Tracy Woodside (Rachel McAdams), a quem abandonou, agora mãe de dois filhos e casada com rei Woody (John Krasinski). Ele passa a ser acompanhado por uma militar, piloto de caças, chamada Allison Ng (Emma Stone), que se encanta em lhe dar “alohas” quentes, como ela mesmo se refere. O objetivo de Brian é ter de tratar com os nativos do local, principalmente com o líder Bumpy (Dennis “Bumpy” Kanahele), a fim de receber permissão para colocar sobre o céu do Havaí um satélite, planejado pelo milionário Carson Welch (Bill Murray), o homem mais rico da América. No meio de tudo isso, ainda aparecem o General Dixon (Alec Baldwin) e o Coronel ‘Fingers’ Lacy (Danny McBride).

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Sob o mesmo céu tem recebido críticas tenebrosas desde seu lançamento – e isso é realmente uma grande vergonha. A sensação é de que Crowe apresentaria todos os problemas do cinema contemporâneo em sua obra. Não apenas o filme traz atuações excepcionais de todo o elenco (com destaque para as de Emma Stone e Bradley Cooper), como possui alguns diálogos plenamente espirituosos, também para tratar das influências do Havaí em sua narrativa. O filme tem uma divisão clara entre o mundo projetado e moderno, sobretudo pela presença de satélites e referências a viagens espaciais, por meio da figura do filho de Tracy, Mitchell (Jaeden Lieberher), e o mundo natural, com a crença em lendas do espaço havaiano – aqui, uma breve influência de A última onda, de Peter Weir –, além da cultura da dança, representada pela filha, também de Tracy, Grace (Danielle Rose Russell), e da música, cantada em rodas.
No início desta década, Alexander Payne havia trazido às telas uma visão muito interessante sobre uma família havaiana no excelente Os descendentes. Por sua vez, Sob o mesmo céu traz um clima de que os personagens se alimentam, para suas vidas, desse ambiente – esclarecido principalmente quando Brian e Allison se encontram com Bumpy. Nisso, há uma abordagem sobre as pessoas nascidas no Havaí ou não – Allison se diz ¼ havaiana, Brian tenta se aproveitar que nasceu no arquipélago para convencer Bumpy a respeito do satélite – , e se sentir ou não norte-americano ou parte do mundo contemporâneo diante das lendas locais. Para Brian, tudo se resume a trocar favores; para Allison, não.

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Embora seja uma referência talvez distante, há semelhanças entre detalhes de Sob o mesmo céu com Síndromes e um século, sobretudo na maneira como Crowe preferiu captar seu filme, com cenários bastante simples, por meio das lentes de Eric Gautier (Na estrada), mostrando um senso autoral do ambiente em que a história se insere bastante eficiente, revelando os parques e lugares de dança havaiana. Isso sem comentar em seu tratamento surrealista de determinadas ocasiões, quando Carson encontra Brian e Allison numa festa na qual a música de fundo é Tears for Fears, que diz que todos querem governar o mundo, e as atuações de Murray e Stone se destacam pela despretensão e um certo improviso, também presente em outras cenas. As críticas dirigidas a Sob o mesmo céu parecem endereçadas a essas características, acompanhadas de  uma certa quebra ao cinema linear a que estamos acostumados.
Ao contrário dos filmes anteriores de Crowe, principalmente Compramos um zoológico, não há uma reiteração do que a história se propõe; é mais fácil perceber, em Sob o mesmo céu, uma opção pela sugestão e por comportamentos estranhos e, algumas vezes, inexplicáveis. Ainda assim, esse caminho não se sente deslocado, mas parte de uma narrativa que se permite a discutir questões românticas e familiares sob o ponto de vista de condução do mundo, ou seja, procurando descobrir para onde ele segue. Perceba-se, por exemplo, a relação de Woody com sua família e com a chegada de Brian ao lar onde encontra sua ex-namorada, o que rende algumas das melhores sequências da história, principalmente diálogos nos quais as palavras faltam e o espectador tem acesso ao que eles queriam dizer por legendas (um diálogo criativo com Noivo neurótico, noiva nervosa).

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Um dos maiores equívocos é aproximar este Sob o mesmo céu de Elizabethtown, uma das obras mais falhas de Crowe, também pela ineficiência de Orlando Bloom e Kirsten Durnst, o que não ocorre aqui. Ainda: Sob o mesmo céu não se apoia numa simpatia exagerada de Crowe, em que os personagens ficam sorrindo de maneira forçada. Mesmo em suas obras mais acertadas, como Quase famosos e Jerry Maguire, fazia-se presente um sentimento em parte pouco natural. Isso não acontece em Sob o mesmo céu: todos os personagens soam, ao mesmo tempo que cotidianos, bastante humanos. Há realmente um grande sentimento na maneira como Crowe os revela, assim como suas ações no espaço do Havaí. O principal é, sem dúvida, Brian, com sua tentativa de não soar como alguém inconfiável; o segundo é Allison, em sua tentativa de conviver com as mudanças que podem ser trazidas ao arquipélago. Não parece haver dúvida, depois disso, que se trata do melhor casal escolhido pelo diretor desde aquele composto por Tom Cruise e Renee Zellweger em Jerry Maguire. Crowe, desta vez, se não adota mudanças no entrelaçamento amoroso entre os personagens, evita a todo instante colocar tudo seguido por uma obviedade romântica: a simplicidade está em todo canto, mas não o tratamento. Daí a aversão de fãs fiéis ao novo Crowe: ele simplesmente não utiliza a maior parte de seus maneirismos em Sob o mesmo céu. Ele visivelmente está procurando por algo novo, influenciado por certo cinema oriental e europeu, além de deixar indefinido o gênero. Veja-se, sob esse ponto de vista, sua cena final, um verdadeiro primor não apenas na trajetória de Crowe, como do cinema norte-americano, pouco afeito a algumas discrições emotivas. Se Crowe tivesse incluído “Hawaii Aloha”, dos Strokes, em sua extensa trilha sonora, a alegria estaria completa.

Aloha, EUA, 2015 Diretor: Cameron Crowe Elenco: Bradley Cooper, Emma Stone, Bill Murray, Rachel McAdams, Alec Baldwin, Danny McBride, John Krasinski, Bill Camp, Dennis Bumpy Kanahele, Jaeden Lieberher, Danielle Rose Russell, Ivana Milicevic Roteiro: Cameron Crowe Fotografia: Éric Gautier Trilha Sonora: Jon Thor Birgisson Produção: Cameron Crowe, Scott Rudin Duração: 105 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Columbia Pictures / LStar Capital / Regency Enterprises / Scott Rudin Productions / Sony Pictures Entertainment / Vinyl Films

Cotação 4 estrelas e meia

Palo Alto (2013)

Por André Dick

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A realização de filmes baseados no universo jovem teve um decréscimo muito grande depois de John Hughes, nos anos 80, ocasionando apenas alguns títulos esparsos, embora a visualização sobre esse mundo não tenha sido interrompida em produções de Hollywood feitas apenas como passagem para mostrar confusões em festas de universidade. Não surpreende, portanto, que um filme como Palo Alto, com sua temática discreta, não tenha conseguido obter um lançamento nos cinemas brasileiros, saindo diretamente em home video.
Baseado num livro de contos do ator James Franco, que interpreta um professor de educação física, Palo Alto traz possivelmente o retrato mais sugestivo e entre o otimismo e o pessimismo da juventude depois de Paranoid park – e avaliar que se trata apenas de cenário específico, da cidade de Palo Alto, ou restringir a classes, não parece o mais adequado. Embora haja elementos de imagens que já vimos em Bling Ring e antes em As vantagens de ser invisível, Gia consegue, com a colaboração de um elenco jovem de grande qualidade, obter notas ao mesmo tempo de esperança e tristes, na medida em que a trama cresce. April (Emma Roberts), integrante do time de futebol de sua escola, gosta de Teddy (Jack Kilmer, filho de Val, que faz uma pequena participação como padastro de April), mas vive uma admiração especial pelo professor Sr. B (Franco), envolvendo-se em uma questão delicada quando aceita cuidar do filho dele como babá.

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Mergulhado numa espécie de vazio existencial, Teddy se envolve em problemas, também com a ajuda do amigo Fred (Nat Wolff), que normalmente se mostra agressivo por motivos desconhecidos e passa a sair com Emily (Zoe Levin). Basicamente, são essas histórias que sustentam a narrativa, principalmente a partir de uma festa, quando Teddy e April saem pela noite procurando desenhar gravuras em árvores e Emily tentará envolver todos com sua necessidade de afeto um tanto impensado.
Embora, como em Paranoid park, nada pareça acontecer de relevante, Gia dispõe nas entrelinhas um retrato do jovem e seu apego tanto à infância quanto ao fato de estar em um processo de análise diante dos acontecimentos. Esta estreia de Gia Coppola parece ser aquilo que a sua tia Sofia buscou, sem o mesmo êxito, a meu ver, em Bling Ring e As virgens suicidas. Isso porque Sofia está mais interessado, às vezes, em compor suas figuras como representações de algo que deseja dizer nas entrelinhas, enquanto Gia busca um caminho de conflitos iminentes. Neste caminho, destacam-se tanto April quanto Teddy, não apenas porque seus personagens obtêm algo além da superfície, mas porque Emma Roberts e Jack Kilmer se revelam intérpretes excelentes, assim como Nat Wolff (que se tornaria conhecido por A culpa é das estrelas e Cidades de papel) e Levin. Em 2013, Roberts já havia participado do risivelmente contestado Vida de adulto, um retrato bem-humorado dessa mesma juventude focada no filme de Gia, e ela consegue, em ambos os filmes, contrastar a passagem da adolescência para uma vida com compromissos mais estabelecidos.

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Por mais que pareça, não há, nessa leva recente de filmes, nenhum que lembre exatamente Palo Alto. Mesmo que haja uma influência na cenografia e na fotografia do cinema considerado indie e, consequentemente, de Sofia Coppola, uma referência, o filme de Gia navega muito mais num terreno de tristeza juvenil sem o alívio da estranheza ou do onirismo que há, por exemplo, que há em As virgens suicidas ou em Bling Ring. Também não há a exploração do universo juvenil com o intuito de apenas impactar como Harmony Korine, um estilo que dialoga com uma certa atmosfera de impacto premeditado, na tentativa de levar o espectador a um universo em que se sintará inadaptado por antecipação.
No mesmo caminho, seguem os momentos em que Teddy precisa prestar serviços comunitários, que revelam, além de tudo, esse caminho não para uma mudança, mas para a avaliação do que parece mais certo diante das advertências do universo adulto. Seu gosto pelas artes, principalmente pelo desenho, se contrapõe, de certo modo, no entanto, ao mesmo tempo, é um complemento de um universo com franca dificuldade de crescer para fora de seus perímetros. Não apenas a biblioteca representa isso, como também os quartos de April e Emily. Os personagens de Palo Alto se mostram sempre indefinidos entre seguir o vazio já programado em suas vidas ou modificar tudo num lance de simplesmente fugir ao descartável. Notório como Gia consegue, principalmente por meio dessas relações entre Teddy e April e entre Fred e Emily, definir uma passagem para o universo de afastamento, sem abrir uma condescendência capaz de apagar esses personagens em prol de alguma mensagem em tom edificante. Ao contrário do que aparenta, Palo Alto se mostra um filme muito mais complexo e talvez isso explique por que arrecadou menos de 1 milhão de dólares (o seu custo). Todos os temas que ele revela por trás da ideia de um filme sobre a adolescência são mais difíceis de lidar do que Hollywood insiste em dizer.

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Franco também se revela uma presença interessante, ainda sob o impacto de sua participação em Spring breakers, sob uma direção talentosa de Gia, que se apoia na fotografia de Autumn Durald para capturar cenários que servem de diálogo com os personagens, como os playgrounds quase vazios, assim como um sereno noturno e o amarelo das tardes e manhãs desse lugar na Califórnia. Gia desenha um ambiente de contrastes: os personagens se situam entre o dia e a noite, numa espécie de representação daquilo que atravessam, de suas próprias inseguranças. Trata-se, possivelmente, do projeto mais acertado de James Franco, ator que costuma considerar os riscos de sua carreira – em projetos como Sprink breakers ou É o fim – mais importantes do que aquelas obras nas quais pode mostrar realmente seu talento. Em certos momentos, o estilo de fotografia lembra o de Temporário 12, mas há em Palo Alto uma sensação mais definida de melancolia e ela acompanha o espectador à medida que vai descobrindo os personagens. Os Coppola têm se especializado em fazer o retrato de uma juventude (Francis em Vidas sem rumo e O selvagem da motocicleta; Sofia nos filmes mencionados; Roman em CQ) e pode-se dizer que, com virtudes e falhas, são obras referenciais para o gênero, ao qual Palo Alto, o mais melancólico de todos, se junta com bastante merecimento.

Palo Alto, EUA, 2013 Diretora: Gia Coppola Elenco: Jack Kilmer, Nat Wolff, Emma Roberts, Olivia Crocicchia, James Franco, Val Kilmer, Zoe Levin Roteiro: Gia Coppola Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Devonté Hynes, Robert Schwartzman Produção:  Vince Jolivette, Miles Levy Duração: 100 min. Distribuidora: Tribeca Film

Cotação 5 estrelas

Watchmen – O filme (2009)

Por André Dick

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Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com um dos melhores filmes já feitos a partir de quadrinhos, o original de Richard Donner. Anos antes ele já havia feito este Watchmen – O filme, uma espécie de prévia para o diretor de seus projetos futuros. Considerando a versão com seu corte (215 minutos, sendo que o original tinha 162), é difícil imaginar outro épico com super-heróis. Adaptado da novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen é um exemplo de obra que cresce com seu material de origem. Para isso, era importante contar com Snyder, um cineasta que certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente nesse filme (não em O homem de aço, em parte uma decepção por não utilizar o talento demonstrado aqui). Essa característica, ainda assim, voltaria em sua peça seguinte, o menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse.

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Os heróis de Watchmen são Edward Morgan Blake/Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Walter Kovacs/Rorschach (Jackie Earle Haley), Laurie Jupiter/Spectre Silk (Malin Akerman), Daniel Dreiberg/Nite Owl (Patrick Wilson), Adrian Veidt/Ozymandias (Matthew Goode) e Jon Osterman/Dr. Manhattan (Billy Crudup). Eles se encontram fora de ação desde que Richard Nixon (Robert Wisden), na Casa Branca ainda em 1985, em meio à Guerra Fria e visto como uma referência por ter conseguido vencer no Vietnã, proibiu heróis mascarados, e se reúnem novamente para investigar o assassinato de um deles, o Comediante. Isso é motivo inicialmente para Snyder empregar, mais do que em 300, um estilo bastante específico, uma espécie de mistura entre filmes de heróis e suspense noir. Os ambientes e a atmosfera histórica, de lugar sem tempo definido, são fascinantes e carregam Watchmen para um outro nível. É interessante como Snyder apresenta os personagens de maneira lenta, recorrendo a flashbacks, e não incorre num caminho afetado por maneirismos, sem excesso de jogos de câmera, por exemplo, em sequências de ação, conservando tudo na dose certa. Não chegam a ser recordações didáticas e sim com o intuito de acrescentar mais densidade a cada figura.
E o elenco é realmente excelente: Wilson é uma surpresa como Nite Owl, assim como Akerman, depois de exibir bons elementos de comediante em Antes só do que mal casado (um dos filmes mais menosprezados dos Irmãos Farrelly), apresenta uma Spectre Silke com traços de dificuldade com a mãe (Carla Gugino), integrante do grupo Minutemen, de quem herdou o título de heroína, e em sua relação com Dr. Manhattan, que teria ajudado Nixon a vencer a guerra do Vietnã. Akerman é o personagem que une todos os heróis e está, ao contrário de algumas críticas à sua atuação, excelente. Temos, ainda, Matthew Goode, numa de suas atuações mais equilibradas, como Ozymandias, que se tornou um multibilionário graças à sua inteligência, e tem uma parceria com Dr. Manhattan.

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Watchmen é, claramente, uma crítica ao governo Nixon e de como um resultado diferente da Guerra do Vietnã não necessariamente acabaria com a Guerra Fria e a a ameaça nuclear, motivo pelo qual o governo depende do Dr. Manhattan, resultado de experimentos secretos. Os Estados Unidos mostrados pelo filme parecem viver numa permanente Segunda Guerra Mundial ou Guerra do Vietnã, sempre amedrontado. Nixon, em seu terceiro mandato, corresponde à ligação entre a década de 70 e os anos 80 de Ronald Reagan.
Do mesmo modo, a liberdade sexual dos anos 60 em Watchmen é conduzida a uma repressão não apenas das ligações afetivas como também da figura dos heróis. Escusado será entender que a sequência do zepelim parece ser a antítese dessa repressão, pairando sobre o céu de Nova York, e numa grande visualização de Snyder, assim como a passagem por Marte. Spectre Silke é o principal elo de ligação entre os heróis e esse intervalo histórico de certa repressão, pois não é dado aos heróis o espaço para imaginá-la que não livre do contexto de culpa e pecado. Por isso, ao mesmo tempo, tanto Dr. Manhattan quanto Nite Owl soam, de certo modo, deslocados e um pouco trágicos ao não conseguirem confessar seu amor. E, se Rorschach vai se escondendo por trás de luzes e sombras (dialogando tanto com The Blank, vilão mascarado de Dick Tracy, quanto com Darkman), o Comediante pode oferecer uma vida pregressa de crimes inclusive de guerra, vistos antes apenas em filmes de Oliver Stone ou Michael Cimino.
Esses caminhos, no entanto, não seriam os mesmos não fosse a qualidade com que Snyder os emprega. Isso talvez seja aquilo que mais chame a atenção nesta adaptação: apesar de ser fiel ao material original, em nenhum momento ele se coloca apenas como uma extensão direta do trabalho original, como vemos em 300, adaptação dos HQs de Frank Miller; em Watchmen o diretor de fato se coloca como um observador tanto da figura mítica do herói quanto do lugar em que ele pretende se inserir.

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Ele também poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, também adaptado dos quadrinhos de Miller, mas escolhe um tom mais próximo do cinema dos anos 40 ou 50, auxiliado pelo design de produção irretocável e a fotografia de Larry Fong (Super 8), sobretudo quando mostra a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia, assim como a nave de Nite Owl lembre mais um zepelim em tamanho menor noturno e o homem da banca de jornais relembre sempre as notícias diárias envolvendo os acontecimentos referentes a esses heróis. Do mesmo modo, os Tales of the Black Freighter/Contos do cargueiro negro (incluídos na versão estendida) lembram os quadrinhos dessas décadas. A impressão é que Snyder tem muito interesse em conservar essa análise à margem do filme mais do que propriamente a ação dos filmes de super-heróis, que acontecem em momentos pontuais e talvez sem a força conhecida em outras produções do gênero. Mesmo o final, sob este ponto de vista, pode ser fraco e por vezes ineficaz. No entanto, ao contrário do que realizou para O homem de aço, isso realmente parece não importar ao cineasta em Watchmen, uma referência do gênero.

Watchmen, EUA, 2009 Diretor: Zack Snyder Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Billy Crudup, Carla Gugino, Robert Wisden Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Deborah Snyder, Lawrence Gordon, Lloyd Levin Duração: 163 min. (versão original); 215 min. (versão estendida) Estúdio: Lawrence Gordon Productions

Cotação 4 estrelas e meia

Divertida mente (2015)

Por André Dick

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A nova animação da Pixar Divertida mente tem uma das premissas mais originais já vistas, capaz de agradar a todas as idades. Vemos, desde o nascimento de Riley Andersen (Kaitlyn Dias), as suas emoções representadas por personagens em sua mente. Elas são a Alegria (Amy Poehler), a Tristeza (Phyllis Smith), o Medo (Bill Hader), a Raiva (Lewis Black) e o Nojinho (Mindy Kaling). Esses sentimentos são responsáveis também por suas memórias, que habitam esferas coloridas, como se fossem bolas de gude agrupadas dentro de sua mente, rolando como as de boliche. Ao chegar aos 11 anos de idade, os pais de Riley (Diane Lane e Kyle MacLachlan) se mudam com ela de Minnesota para San Francisco. Insegura e nem um pouco confortável em seu novo ambiente, Riley acaba chorando diante dos novos colegas de aula, o que afeta as emoções em sua mente, colocando em risco sua personalidade, sua maneira de agir, à medida que Tristeza e Alegria dão espaço apenas ao Medo, à Raiva e ao Nojinho, e são eles que passam a dizer como Riley deve se comportar. Esse processo é visualizado em pouco mais de 30 minutos, e neles é possível dizer que os diretores Pete Docter, também responsável por Up e Monstros S/A, além de autor da história de Wall-E e roteirista de Toy Story, e Ronaldo del Carmen mostram uma sensibilidade única, capaz de aliar a narração de A árvore da vida (quando um dos filhos de Brad Pitt e Jessica Chastain está crescendo) com a melancolia de um filme como Ponyo, de Miyazaki. Lá estão todos os sentimentos e conflitos da infância, capazes de dar alívio ou tormento ao próprio comportamento.

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A Pixar tem histórico do que se consideram desenhos inteligentes: Divertida mente entra, para a recepção, no mesmo grupo de Wall-E, Toy Story, Os incríveis, Up etc. Enquanto particularmente não sejam as obras-primas anunciadas, há, sem dúvida, um elemento melancólico nessas histórias, que adaptam um pouco de Miyazaki para o padrão de animações dos Estados Unidos. Dessas animações, especialmente Procurando Nemo e Ratatouille puxam o carro, e mesmo o quase esquecido Universidade monstos. Divertida mente se encaixa num grupo de acertos relativos da Pixar.
Isso porque o diretor não consegue aliar a vida de Riley com as emoções que habitam sua mente, fazendo com que essas ganhem um papel maior. A partir desse momento, não há o mesmo conflito de Riley com quem a cerca ou mesmo com seus pais, fazendo a história, no início ágil, andar em círculos ou, literalmente, dentro de um mesmo sonho. Quando se nota que os roteiristas utilizam a ideia apenas para empregar os mesmos movimentos vistos em animações mais superficiais, percebe-se a qualidade diminuir e as caracterizações dos personagens, apesar de originais, tornam-se frágeis. Em meio a essas caracterizações, o filme cresce e se acentua como conceito quando a Alegria e a Tristeza se deparam com em Bing Bong (Richard Kind), um amigo imaginário de infância de Riley; é ele que costura a ligação sentimental existente no início do filme com o próprio espectador. Mas, enquanto a Alegria é extremamente animadora, a Tristeza, com sua baixa autoestima, se sente incomodamente repetitiva. E nisso, enquanto a trilha de Michael Giacchino é esplêndida, as imagens de Divertida mente não são criativas quanto o tema poderia deixar subentender.

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Filmes como Divertida mente parecem trazer algo substancialmente especial, o que os torna, sem dúvida, importantes. Ainda assim, é de se questionar se o que mais tem Divertida mente não seria exatamente a caracterização de rótulos; como o filme compõe o ser humano como uma série de pensamentos mecanizados, de acordo com seus sentimentos, despertados por personagens dentro da mente, parece, a partir de determinado momento, não existir um roteiro independente do conceito, apenas um motivo para exibir uma possível inteligência artística dos roteiristas (quando se mostra o campo abstrato do cérebro, por exemplo). Se por um lado isso parece fascinante, e os diretores conseguem suscitar a emoção do espectador em diversos momentos, por outro, Divertida mente acaba ficando nos mesmos temas já abordados em outras animações, e de maneira tão previsível quanto: a presença da família e a amizade como ilhas dentro da mente e que se elas estão bem tudo está em paz. É preciso correr contra o tempo para Riley voltar ao normal – e essa ação repete a mesma linearidade de outras narrativas desgastadas.
Talvez ele esteja dizendo para o espectador como é fácil manipular cada uma de suas sensações, de alegria, tristeza e raiva. Embora isso não seja necessariamente importante nem para o público infantil nem para o adulto, ele imagina o comportamento como algo em suma previsível, ao separar os sentimentos como rótulos, como se a tristeza, por exemplo, estivesse ligada apenas a situações desgostosas e a alegria apenas a situações sem conflito, quando o ser humano é mais complexo. Não que Divertida mente não tenha outras singularidades: quando as ilhas de segurança de Riley desabam há uma estranha sensação de vazio, apresentando de maneira impactante os conflitos internos dela e dialogando diretamente com a arquitetura do planeta Krypton do Superman de 1978.

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É claro que o desenho evita essas nuances, no entanto, ao criar camadas de referências artísticas e psicológicas (quando os personagens tentam modificar um sonho de Riley ou tentam acordá-la), Divertida mente se põe como um acesso das crianças ao seu pensamento. Ele realmente acredita que a mente se movimenta por referências extremas, e isso cria uma pré-programação para cada um ser entendido em seu comportamento. O grande feito de Pete Docter é ter selecionado um grande elenco para dar voz a esses personagens. Amy Poehler, como a Alegria, é o ponto que anima o filme e o leva para frente, enquanto Bill Hader (do Saturday Night Live e de Superbad) sabe como fazer a faceta do Medo. Já Diane Lane e Kyle MacLachlan (o agente Cooper de Twin Peaks) oferecem vozes agradáveis aos pais de Riley. E Doctor consegue acertar ao transformar Alegria numa espécie de Sininho de Peter Pan, com sua cor amarela, e Tristeza num tom azul.
Ainda assim, uma ideia extraordinária – e não se tem dúvida de que o início anuncia isso –, que poderia avançar em vários anos da vida de Riley, se o roteiro não quisesse, enfim, oferecer uma lição de moral para crianças, acaba se restringindo a ser um passatempo e uma análise terapêutica de uma determinada situação desse personagem quando poderia abarcar sensações diversas. No final, a impressão é que o diretor está diante de um painel, lidando com os sentimentos também do espectador. Quando se percebe a manipulação, talvez Divertida mente, mesmo tocando o espectador em alguns instantes com emoção verdadeira, não tenha tanto a dizer quanto imagina.

Inside out, EUA, 2015 Diretor: Pete Docter, Ronaldo Del Carmen Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Mindy Kaling, Lewis Black, Bill Hader, Kyle MacLachlan, Diane Lane, Richard Kind, Kaitlyn Dias Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve, Pete Docter Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Jonas Rivera Duração: 102 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas