Pets – A vida secreta dos bichos (2016)

Por André Dick

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Sem o selo da Pixar ou da Disney, Pets – A vida secreta dos bichos conseguiu um grande feito: com orçamento de 75 milhões, ele arrecadou até agora 674 milhões de dólares. Dirigido por Chris Renaud (dos dois Meu malvado favorito e produtor executivo de Minions) e Yarrow Cheney, sua história é bastante simples: um cão terrier, Max (Louis CK) vive feliz com sua dona, Katie (Ellie Kemper), quando ela traz para casa outro cão, Duke (Eric Stonestreet), uma espécie de Chewbacca canino, pelo tamanho. No início, ele está preocupado e quer se livrar o quanto antes de seu novo companheiro, que logo ocupa sua cama. Max tem alguns vizinhos, entre os quais o gato gordo Chloe (Lake Bell), o pug Mel (Bobby Moynihan), Buddy (Hannibal Buress), um dachshund, e um canário (Tara Strong). Além disso, há Gidget (Jenny Slate), uma spitz, que decide ir atrás de Max com a ajuda de Tiberius (Albert Brooks), um falcão ameaçador, e do experiente basset Pops (Dana Carvey) quando ele desaparece e a história adquire um ritmo ininterrupto, tendo ainda como figura um coelho excêntrico, Snowball (Kevin Hart). Este coelho deseja liderar uma revolução dos animais contra a humanidade. Nesse sentido, de brincar com os humanos e com a vida “pessoal” dos animais, o roteiro de Cinco Paul, Ken Daurio e Brian Lynch é trabalhado.

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Se ele parece simples e as ideias adquirem um ar de sessão da tarde, Pets nunca deixa de ser interessante ao longo de sua curta-metragem (pouco mais de 80 minutos), com uma sucessão de gags, sobretudo na meia hora inicial, mostrando o comportamento dos animais quando seus donos saem (o que já aparecia no trailer irresistível do filme), assim como desenvoltura em sua ação. Recentemente, em se tratando de animais, tivemos o excelente Zootopia, a terceira parte interessantíssima de Kung-fu panda, a memorável refilmagem de Mogli – O menino lobo e também o quinto e não tão bem-sucedido A era do gelo: o Big Bang. Mais do que esses filmes, porém, o de Renaud e Cheney tem algo que se aproxima de experimentos antigos, como Aristogatas, 101 dálmatas, Bernardo e Bianca, A ratinha valente, Fievel – Um conto americano e Todos os cães merecem o céu, esses três últimos de Don Bluth, animador de grande destaque dos anos 80. Há também uma proximidade particular com o primeiro Rio, de Carlos Saldanha, que unia aves e cães pelas ruas da cidade brasileira.
O êxito do trabalho de voz, num elenco que inclui grandes astros, a começar por Louis C.K., fazendo uma boa performance como Max, e Jenny Slate (que já fez este ano a voz da vice-prefeita ovelha de Zootopia, com a mesma competência mostrada aqui), e vai até o quase esquecido Dana Carvey (de Quanto mais idiota melhor), culmina nas participações indispensáveis do engraçado Kevin Hart, como um vilão absurdo e imprevisível, e de Albert Brooks (antigo comediante, mais lembrado ultimamente por sua presença, por exemplo, como o vilão de Drive).

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Pets apenas aparentemente é um desenho sem créditos como de grande estúdio (uma vez que a Illumination Entertainment/Universal não é tão reconhecida por animações), pois, além do trabalho de vozes, possui um trabalho de cores muito vivo e detalhes técnicos irrepreensíveis, como a trilha sonora excepcional de Alexandre Desplat, o habitual colaborador de Wes Anderson e responsável por dezenas de trilhas de qualidade nos últimos anos, apresentando uma atmosfera de Nova York, em que se passa a história, e que por vezes remete a Woody Allen.
Nem só de leveza é feito o desenho, no entanto. Snowball, o coelho, leva Max e Duck a uma visita aos esgotos da cidade, em momentos nos quais Pets se sente quase um ambiente para as marionetes de Frank Oz em O cristal encantado, com um ar verdadeiro de ameaça, mesmo que a graça prevaleça. E pode-se ficar feliz que, mesmo não sendo da Pixar ou da Disney, este desenho tenha sido bem recebido, não apenas pela qualidade como por sua homenagem a Grease – Nos tempos da brilhantina, com “We Go Together”. E se sente uma real emoção em alguns dos momentos que tratam da amizade entre os humanos e animais e entre esses, a começar por Max e Duke, tanto em relação à dona quanto a um antigo dono do segundo. Se existe um problema nessa amizade é o pouco tempo que Renaud e Cheney se dispõem a apresentá-la, levando em conta possivelmente futuras sequências (que, pela bilheteria espetacular do filme, estão garantidas). Pela voz especialmente simpática de Louis CK, Max é ótimo.

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Ao mesmo tempo, há um delicado trabalho da imagem da cidade, não apenas de Nova York e Manhattan, como também de algo que remete a “Avenida Dropsie”, de Will Eisner, misturando, aqui, passado (a noite) e futurismo (o cenário diurno), utilizando muito bem a arquitetura dos prédios para dar mobilidade aos personagens e à ação, com uma certa lembrança nas imagens de Ninguém segura este bebê, comédia produzida por John Hughes nos anos 90, quando eles saltam de um prédio para o outro. Há uma real vontade de mostrar os parques, os barcos que partem para Manhattan e como os animais poderiam se inserir nesse cenário, assim como a solidão da metrópole, em que os humanos se ausentam durante o dia, para regressarem às suas casas apenas à noite – e o filme dificilmente os mostra. O engraçado justamente é que os animais parecem viver em torno deles quando possuem uma vida agitada por si própria. De maneira geral, Pets é uma animação descontraída e uma moderada surpresa, apesar de seu trailer ter sido muito efetivo para seu sucesso e reservar alguns de seus melhores momentos.

P.S.: Antes de Pets, há um curta-metragem, “Mower Minions”, de Bruno Chauffard e Glenn McCoy. Particularmente, não acrescenta muito e não apaga a decepção que já havia sido o longa-metragem deles.

Pets, EUA, 2016 Direção: Chris Renaud, Yarrow Cheney Elenco: Louis CK, Eric Stonestreet, Kevin Hart, Jenny Slate, Ellie Kemper, Albert Brooks, Lake Bell, Bobby Moynihan, Hannibal Buress, Dana Carvey, Albert Brooks, Bobby Moynihan Roteiro: Brian Lynch, Cinco Paul, Ken Daurio Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Christopher Meledandri, Janet Healy Duração: 87 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Illumination Entertainment / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

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Caça-fantasmas (2016)

Por André Dick

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Um dos filmes que mais dividiram o público e a crítica este ano foi sem dúvida a refilmagem (ou seria continuação?) de Os caça-fantasmas (1984) e Os caça-fantasmas 2  (1989), ambos de Ivan Reitman, aqui atuando como produtor. Caça-fantasmas (excluindo o artigo) aponta uma reunião da equipe de Missão madrinha de casamento: o diretor Paul Feig com Kristen Wiig e Melissa McCarthy, com o acréscimo de Leslie Jones e Katie McKinnon, ambas do Saturday Night Live (programa no qual surgiu Wiig) e Chris Hemsworth.
Lidar com adaptações de filmes dos anos 80 para os dias atuais é mexer com um nicho dedicado de fãs. Um exemplo é aquele que aconteceu com José Padilha, até hoje não perdoado pela sua refilmagem de RoboCop (aliás, de excelente qualidade). Entende-se por que esses filmes tem cultuadores e seguidores: eles ajudaram a lançar o universo da fantasia no cinema. Mas Os caça-fantasmas, como RoboCop, não são obras intocáveis e irretocáveis: eles possuem qualidades, assim como falhas que podem ser encobertas pela nostalgia.
E mesmo a continuação de Os caça-fantasmas havia sido recebida de maneira pouco entusiasmada cinco anos depois do primeiro, embora ainda tenha bons momentos e soluções inteligentes para a narrativa, e Evolução, também de Ivan Reitman, que tentara repetir seu sucesso e sua fórmula, foi um fracasso na carreira de David Duchovny e Julianne Moore. De qualquer modo, de forma previsível, antes do lançamento de Caça-fantasmas, já havia acusações ao fato de o grupo antigo constituído apenas por homens ser substituído por um de mulheres e se apontou que o filme seria feminista.

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Obviamente, se há feminismo em Caça-fantasmas é pelo fato de ser protagonizado por atrizes, de grande qualidade. Ou seja, os comentários misóginos injustificados antes do lançamento apenas mostram não entender que um filme se trata, antes de tudo, de arte. As pesquisadoras de física Erin Gilbert (Wiig) e Abby Yates (McCarthy) escreveram um livro sobre fantasmas. No entanto, Gilbert não deseja ser conhecida como tal e concorre a uma vaga de professora na Universidade de Columbia, onde é procurada por Ed Mulgrave (Ed Begley Jr.), responsável por uma antiga mansão, depois que um de seus guias (Zack Woods) é perseguido por uma aparição assustadora. Já Yates continua suas pesquisas, com a ajuda da engenheira Dra. Jillian Holtzmann (McKinnon). Diante de um caso em que é irrecusável acreditar na presença de um espectro, as duas voltam a ficar amigas e se unem para fundar um grupo de caça-fantasmas, tendo como recepcionista Kevin Beckman (Hemsworth). De homens preparados para enfrentar o sobrenatural, a presença masculina nesta nova versão é vista como despretensiosa e que apenas serve para as mulheres ficarem em constante provocação (no original, Annie Potts interpretava a sarcástica secretária).
No metrô da cidade, em uma referência ao segundo filme, mas também a Alucinações do passado e Ghost, a guichê Patty Tolan (Jones), determinado dia, vê um fantasma ameaçador e procura a ajuda do grupo. Claro que muitos não acreditam nas cientistas excêntricas, a começar pelo Dr. Martin Heiss (um ex-caça-fantasmas em participação discreta), e o prefeito Bradley (Andy Garcia) pretende evitar que a história se espalhe e não assuste a população, com a ajuda da assessora Jennifer Lynch (Cecily Strong, também do Saturday Night Live) e de dois agentes, Hawkins (Michael Kenneth Williams) e Rourke (Matt Walsh).  Tudo parece ser o plano de alguém desconhecido? Haverá uma nova versão para o personagem de Rick Moranis, do original? Um determinado fantasma glutão irá reaparecer?

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O roteiro de Feig em parceria com Katie Dippold, sua parceira também em As bem-armadas e A espiã que sabia de menos, não tem a naturalidade dos roteiros originais dos anos 80, mas nem por isso deixa de apresentar algumas gags muito boas, com destaques para uma no metrô e outra num show de rock. Sempre quando a ação se concentra em mostrar a ligação entre a equipe, o filme cresce, e Wiig (que certamente poderia ter colaborado no roteiro, área em que mostrou talento em Missão madrinha de casamento, pelo qual foi indicada ao Oscar) e McCarthy novamente formam uma boa dupla, com bons momentos especialmente para a primeira, uma atriz que consegue alternar drama e humor de maneira particular. Ainda assim, é McKinnon que realmente se destaca como a engenheira esquisita do grupo, com olhar esbugalhado e comportamento errático, assim como Hemsworth, como já havia mostrado na refilmagem de Férias frustradas, não tem receio de se expor ao ridículo. Ele é um humorista surpreendentemente versátil, e talvez se dê melhor neste gênero do que em seus filmes com Ron Howard, nos quais também se sai muito bem.
Esse elenco não empalidece em relação ao original, nos quais tínhamos Harold Ramis, Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson, além de Sigourney Weaver e Rick Moranis, em grande fase. E tinha como chamariz a canção-título, extremamente exitosa, composta por Ray Parker Jr., reaparecendo numa nova versão neste filme (embora nem precisasse). Se o mais novo é ligeiramente inferior é porque, de fato, não apresenta, como o primeiro, uma ideia original, baseada principalmente no sucesso, à época, dois anos antes, de Poltergeist e que anos depois inspiraria Os fantasmas se divertem, de Tim Burton, que aqui ganha uma homenagem mais ao final. Lembremos nisso do mais recente Star Wars e se perceberá que originalidade pode se converter em homenagem mesmo nas mãos de um grande diretor (Abrams).

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Tecnicamente, o novo Caça-fantasmas igualmente não fica a dever para o antigo, partindo da bela fotografia de Robert Yeoman (colaborador de Wes Anderson), que consegue tornar algumas cenas mais assustadoras do que no original, com jogo de sombras e luzes, com efeitos visuais de ponta (no original, Richard Edlund foi indicado ao Oscar pelo trabalho). Feig, como em A espiã que sabia de menos, mostra talento na mescla de gêneros e desta vez não deixa o ritmo diminuir depois de uma meia hora inicial especialmente bem trabalhada, mantendo-se mais perto do que apresenta em seu ágil Missão madrinha de casamento, particularmente uma das maiores comédias dos últimos dez anos.
Diante da bilheteria (faturamento até agora de 194 milhões de dólares para orçamento de 144), é difícil prever a continuação da franquia, o que se deve realmente ao hype contrário antes do lançamento. O que se vê é que o diretor e as atrizes respeitam o legado do original e em nenhum momento se colocam como substitutas definitivas de uma equipe clássica. Talvez onde o filme mais falhe seja quando tenta repetir detalhes do original, a partir do terceiro ato, em que os efeitos digitais se sobrepõem à química entre as atrizes e as piadas de grupo dão espaço a raios de luz e combate contra os fantasmas que podem tomar Nova York, assim como no original, e algumas participações especiais soem encaixadas demais na trama. Ou seja, quando realmente apresenta elementos novos, Caça-fantasmas é um alívio cômico bastante interessante: quando ingressa na tentativa de ser uma refilmagem, não tanto, ainda que seus confrontos entre humanos e fantasmas sejam em grande parte apresentados de maneira mais interessante do que nos originais.

Ghostbusters, EUA, 2016 Diretor: Paul Feig Elenco: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon, Leslie Jones, Chris Hemsworth, Charles Dance, Michael Kenneth Williams, Matt Walsh, Neil Casey, Cecily Strong, Karan Soni, Ed Begley Jr. Roteiro: Katie Dippold, Paul Feig Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Amy Pascal, Ivan Reitman Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Pascal Pictures / Sony Pictures Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

Quando as luzes se apagam (2016)

Por André Dick

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Foi James Wan, roteirista do primeiro Jogos mortais e produtor da série, além de diretor dos dois Invocação do mal, quem deu oportunidade, com um orçamento de 5 milhões de dólares, para que o diretor sueco David F. Sandberg adaptasse seu curta-metragem de 3 minutos Lights out, lançado em 2013, para um longa de 80 minutos. O resultado é Quando as luzes se apagam, que expande o conceito do curta, no qual um duplo susto era capaz de instigar o espectador a ver mais, mesmo que seja excessivamente rápido. De qualquer modo, como a adaptação do curta Pixels feita por Chris Columbus este filme se transformou num grande sucesso de bilheteria, atingindo até agora em torno de impressionantes 98 milhões de dólares.
O início é numa fábrica de manequins, na qual uma funcionária, Esther (Lotta Losten, que estrela o curta), é a primeira a ver o espectro ameaçador do filme. Em seguida, o roteirista Eric Heisserer trabalha a história de uma mãe, Sophie (Maria Bello), que, na incapacidade de criar seu filho, Martin (Gabriel Bateman), em razão de problemas de depressão, vê sua filha, Rebecca (Teresa Palmer), assumi-lo, sob observação da assistente social Emma (Andi Osho). O menino, afinal, está traumatizado com o comportamento estranho em sua casa, em que sombras parecem adquirir novas formas.

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Sophie também vê pessoas mortas e, quando acontece algo com o padrasto de Rebecca, Paul (Billy Burke), esta se vê na tarefa de reorganizar a família. O problema é existir (ou seria apenas um espectro?) Diana (Alicia Vela-Bailey), que pode ter uma ligação pouco esclarecida com Sophie. Rebecca tem como namorado Bret (Alexander DiPersia), e mora em cima de um estúdio de tatuagem, cujo neon fica piscando intermitentemente, mas sua relação com a mãe é conturbada e ela nunca tem certeza sobre se deve namorar ou não alguém.
Em primeiro lugar, Quando as luzes se apagam é, em parte previsível, no entanto o cuidado de produção, a partir da fotografia de Marc Spicer, destaca-se em meio às produções do gênero. Em razão do elenco, de Palmer (uma atriz cada vez melhor, já presente este ano em Cavaleiro de copas, de Malick) e Bello à frente, o filme tem uma consistência dramática a partir do ponto em que as coisas se complicam e as indagações aumentam. Tudo é muito ligeiro, bem editado e leva o espectador a prestar atenção sem exatamente elaborar sobre o que está acontecendo. A figura do espectro tem uma história que leva à compreensão do motivo pelo qual só aparece na escuridão.

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É muito interessante a maneira como Sandberg o retrata e a maneira como ele ilumina cada cômodo da casa em que aparece: primeiro, em meio a um vermelho, com clara influência do Argento de Suspiria e do Gaspar Noé de Enter the void, depois na escuridão e, finalmente, perto do desfecho, à luz de uma cor azul. Ele está na trama para que justamente seja estabelecida essa relação entre mãe e filha, que repercute na vida de Martin. Em vários filmes de terror, as crianças são ameaçadas, e aqui não é diferente. Por outro lado, parece haver aqui uma necessidade intensa de mostrar que a criança não se tornará a salvadora do espectro e sim representa aquela que precisa ser recuperada em detrimento de uma possibilidade de entender questões enigmáticas.
Quando as luzes se apagam algumas vezes pode se sentir como um episódio estendido da série Além da imaginação ou uma peça de Creepshow dos anos 80, mas se sustenta mais no seu diálogo visual e na temática de relacionamento familiar que ecoa em traços sobre a depressão. Esses traços dialogam não apenas com a fábrica de manequins em que se passa a primeira sequência da história (como se as pessoas fossem apenas moldes de outra, no caso de Sophie em relação ao espectro) como com as formas de luz que a obra vai apresentando: lâmpadas, velas, faróis de carro, neons, luzes da janela ou de abajures. Porém, sua principal essência está na maneira como trata da depressão. Em muitos filmes de terror e suspense, figuras assustadoras surgem da imaginação ou de presenças que já percorrem determinados ambientes (como no clássico Poltergeist).

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Em Quando as luzes se apagam, é como se o espectro mostrado fosse resultado de um processo de depressão e ficar na claridade fosse a única saída para não se deparar com ele. Sandberg trabalha essa premissa de maneira eficaz até determinado ponto, embora não a explore da maneira como poderia, optando por caminhos duvidosos de análise, e como permitiriam as atuações de Bello e Palmer. A ressalva maior é que o espectro nunca se torna tão ameaçador quanto de fato o do curta-metragem que inspirou o filme. Isso talvez se deva justamente a Sandberg querer equivaler sua presença a uma espécie de sombra que pode atormentar uma criança, efetivamente bem representada por Gabriel Bateman, ou seja, é notável como Quando as luzes se apagam é feito também para um público jovem, com a tentativa de agradá-lo. Ele tem alguns diálogos, a partir disso, com A visita, de M. Night Shyamalan, em que a infância é colocada à prova numa casa com indivíduos de comportamento assustador. Ao contrário de Shyamalan, Sandberg opta por um diálogo maior com o terror oriental, de produções como Pulse e Medo e tem uma sofisticação visual que poucas vezes se vê em diretores do gênero, mesmo em Wan. Ele trabalha também com uma certa ideia de união familiar, de processo de luto quando é impossível ignorá-lo, e do quanto se fortalece uma amizade entre irmãos quando é necessário dar uma resposta a ameaças incompreensíveis. Não por acaso, o roteiro é de Eric Heisserer, o mesmo da versão mais recente de A hora do pesadelo, que trabalha de maneira intensa o plano familiar, em relação aos originais dos anos 80 e 90. Se ele não consegue se sobrepor, algumas vezes, a suas limitações, é um projeto que cria interesse para o espectador.

Lights out, EUA, 2016 Diretor: David F. Sandberg Elenco: Teresa Palmer, Gabriel Bateman, Maria Bello, Alexander DiPersia, Alicia Vela-Bailey, Billy Burke, Andi Osho Roteiro: David F. Sandberg, Eric Heisserer Fotografia: Marc Spicer Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Eric Heisserer, James Wan, Lawrence Grey Duração: 82 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atomic Monster / Grey Matter Productions / New Line Cinema

Cotação 3 estrelas e meia

Esquadrão suicida (2016)

Por André Dick

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Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Esquadrão suicida se transformou na obra que poderia salvar a Warner/DC de novas críticas obtidas em larga escala por Batman vs Superman – o que, pela recepção em geral, acabou não acontecendo. O chamariz principal era a participação de Jared Leto, vencedor do Oscar de coadjuvante por Clube de compras Dallas, como Coringa, embora estejam no elenco nomes como Will Smith, Viola Davis e Margot Robbie.

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O roteiro de David Ayer, diretor de Corações de ferro, coloca Amanda Waller (Viola Davis) como aquela que irá reunir, com o apoio do presidente – isso em razão do destino de um dos personagens de Batman vs Superman –, uma equipe de criminosos: Pistoleiro (Will Smithy), o ex-gângster El Diabo (Jay Hernandez), o monstruoso Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), o mercenário Amarra (Adam Beach), e Arlequina (Margot Robbie), ex-psiquiatra do Asilo Arkham. Eles estão na penitenciária de Belle Reve, onde são reunidos por Rick Flag (Joel Kinnaman). Uma das figuras que Waller também seleciona é a Dra. June Moone (Cara Delevingne), que é possuída por uma bruxa, “Magia”, capaz de colocar Midway City em polvorosa com um grupo enorme de monstros. O grupo, Esquadrão Suicida, é vigiado por Katana (Karen Fukuhara), com uma espada, e, enquanto o Pistoleiro se lembra do passado com sua filha, sua real ponte com a humanidade, Arlequina só tem a se lamentar que não viu mais seu amado Coringa (Jared Leto) depois que foi presa. Curioso como um grupo de ameaças à sociedade acaba constituindo um filme, sinal de tempos em que Norman Bates é mostrado ainda adolescente ou Hannibal se transforma em peça-chave de uma série. No entanto, pode-se dizer que nenhum do Esquadrão suicida é tão ameaçador quanto foi Lex Luthor, interpretado por Jesse Eisenberg em Batman vs Superman.

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Ayer, que escreveu o roteiro de um dos melhores filmes policiais deste século, Dia de treinamento, com Ethan Hawke e Denzel Washington, imprime uma sequência caótica de imagens nos primeiros 40 minutos eletrizantes de Esquadrão suicida. Nessa introdução, há direito a chamadas de personagens que parecem dialogar com a pop art, entregando o mínimo de diálogos a cada um, mas com um sentido muito grande para a ação que remete a quadrinhos – e (spoiler) as participações de Batman são as melhores – e uma influência clara de Watchmen, de Snyder nas transições de cena e mesmo no uso de câmera lenta para dar dramaticidade, além de um uso impactante de flashbacks para demarcar a condição de cada um. E, mais do que a trilha pop que reúne, por exemplo, “Bohemian Rhapsody”, do Queen, mais tensa é a trilha de Steven Price, o mesmo de Gravidade.
Quando o grupo se reúne, Ayer parte para uma homenagem evidente a Fuga de Nova York, de John Carpenter, com o uso do cenário urbano de forma incontestavelmente bem situado e um sentido de ameaça à espreita com os monstros que devem ser combatidos pelo esquadrão. O interessante do roteiro de Ayer é que os personagens não se sentem obviamente fazendo um favor à humanidade, apenas a si mesmos, e nisso não perdem, de qualquer modo, a referência que os une, principalmente nos casos do Pistoleiro e de Arlequina. Tanto por causa da atuação de Smith quanto pela de Robbie – uma parceria já exitosa em Golpe duplo –, eles entregam o que há de melhor em Esquadrão suicida, junto com Viola Davis, com o talento habitual, e mesmo Kinnaman (o novo RoboCop).

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E a tão falada atuação de Leto é visivelmente prejudicada pela montagem. Sua presença em cena é quase divida em vinhetas, mas Leto não entrega um Coringa óbvio: com seu ar de gângster, correntes e tatuagens, ele é ameaçador dentro do tempo que lhe permitiram, afastando-se tanto de Jack Nicholson quanto de Heath Ledger (que praticamente eram os personagens principais dos filmes em que apareciam) e fazendo algo mais estilizado e influenciado pelos quadrinhos. Pelo desinteresse de Ayer em desenhar uma violência explícita, o Coringa se sente às vezes excessivamente contido e sem ser agraciado por falas bem-humoradas, certamente um equívoco do roteiro. Há uma cena num clube que ele posa de Scarface, servindo praticamente de cafetão de Arlequina. De qualquer modo, a cena que melhor o representa é quando salta num caldeirão das indústrias Acme (onde se dá sua criação no Batman de Tim Burton), junto com Arlequina e as cores de ambos, diluídas, vão se misturando – enquanto em outra cena, de helicóptero, ele também homenageia o Coringa de Nicholson. O que se pode dizer é que Cara Delevingne prejudica terrivelmente Magia, com sua falta de senso interpretativo, disfarçada em Cidades de papel pela atuação excelente de seu parceiro de cena.
Porém, há um certo desvio de Ayer no terceiro ato, um problema de vários filmes de super-heróis e, aqui, de anti-heróis: a violência é incessante e caótica, sem um direcionamento definido, e se perde a tensão que havia até a sequência anterior, que acontece num lugar mais calmo, mesmo que a qualidade da fotografia de Roman Vasyanov seja preservada e o design de produção continue elaborado.

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Não há nenhuma influência, como vem se considerando talvez por se tratar de personagens à margem da lei, de Guardiões da galáxia: tudo é muito soturno, como na maior parte das vezes acontece em filmes da DC Comics (é difícil saber em que momento pode ter havido alguma refilmagem, como se comentou depois do lançamento, pois o filme tem o mesmo tom desde o início), e o gráfico de algumas cenas é às vezes mesmo desagradável para crianças. Dos anti-heróis, o mais assustador é Crocodilo, no entanto é El Diablo que coloca uma horda de inimigos em estado de combustão impressionante, remetendo a David Cronenberg. A Arlequina serve como um alívio cômico, embora mais trágico – e sua prisão é uma referência a Hannibal Lecter de O silêncio dos inocentes –, enquanto o Pistoleiro é realmente aquele que tenta sobreviver no cárcere guardando uma ideia de família, sustentada pela atuação de Smith, melhor do que no recente Um homem entre gigantes, prestando no início uma breve homenagem ao papel que interpretou em Ali. É interessante como ele visualiza em Arlequina apenas uma vítima, tão solitária como a sua filha, embora escondida por uma máscara de resistência e entregue feliz à psicopatia de Coringa. Se Esquadrão suicida não se equivale ao acerto Batman vs Superman, também por seu objetivo ser outro, ele consegue, de maneira ágil, apresentar esses personagens sem recorrer a diluir a essência deles na tentativa de agradar de maneira fácil. Dentro do que se propõe, é convincente e vigoroso.

Suicide squad, EUA, 2016 Diretor: David Ayer Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ike Barinholtz, Cara Delevingne Roteiro: David Ayer Fotografia: Roman Vasyanov  Trilha Sonora: Steven Price Produção: Charles Roven, Richard Suckle Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / DC Entertainment / Lin Pictures

Cotação 4 estrelas

Um holograma para o rei (2016)

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Com direção de Tom Tykwer, o alemão que se lançou ao mercado internacional através do excelente Corra, Lola, corra e depois fez experimentos como Perfume e Trama internacional, além da obra-prima Cloud Atlas, ao lado das hoje irmãs Wachowski, o lançamento de Um holograma para o rei (que recebeu um título no mínimo excêntrico no Brasil, Negócio das Arábias, o qual deveria ser revisto para o mercado de home video) se faz em meio a outros que mostram o contato da cultura norte-americana com países do Oriente Médio, que até pouco tempo eram focados pelo cinema quase apenas em cenários de guerra. Ele se enquadra no mesmo gênero em que circulam Rock em Cabul e Whiskey Tango Foxtrot (este ainda inédito no Brasil), aqui tratando de um consultor, Adam Clay (Tom Hanks), que viaja para Arábia Saudita a fim de vender um sistema holográfico para um determinado rei, com pretensão de construir uma enorme cidade até 2025 ao redor de seu palácio interminável. Esta cidade é como se fosse também sua saída financeira e sua tentativa de viver um novo período de sua vida.

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Tendo contato problemático com a filha Kit (Tracy Fairaway) a distância, por meio do computador, Clay se separou da esposa – o início do filme tem “Once in a Lifetime”, dos Talking Heads enquanto o personagem caminha por um jardim esverdeado e sua família vai desaparecendo em explosões de fumaça, como se estivesse em uma propaganda nos moldes da pop art –, e está em Jeddah por justificar uma aproximação antiga com o sobrinho do rei. Com um problema de saúde em suas costas, Clay se desespera ao ver que sua equipe, formada por Brad (David Menkin), Cayley (Christy Meyer) e Rachel (Megan Maczko), não tem o suporte necessário (como wi-fi, alimentação e ar-condicionado) para fazer o empreendimento ir adiante e nunca consegue uma reunião com o rei, sempre em viagem. No entanto, ele tem contato com três figuras singulares: primeiro, Yousef (Alexander Black), o motorista que o leva de um lado para outro, às vezes colocando músicas que o desagradam; em segundo, a consultora dinamarquesa, Hanne (Sidse Babett Knudsen, de O duque de Burgundy), com algumas dicas para driblar o jet lag; e, finalmente, a médica Zahra (Sarita Choudhury), que o atende. Já seu pai, Ron (Tom Skerrit), é o retrato daquele que viu seu filho perder os negócios na empresa Schwinn em plena recessão dos Estados Unidos.

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Tykwer é um cineasta normalmente interessado pela velocidade do mundo contemporâneo – o que acontece literalmente em seu Corra, Lola, corra – e mais uma vez, por meio da montagem de Alexander Berner, o mesmo de Cloud Atlas, mostra uma estranheza nas transições do personagem de Hanks: os flashbacks que se espalham na narrativa principalmente na meia hora inicial são muito interessantes. Baseando-se numa atuação excepcional do ator americano, ele o coloca em situações dramáticas sobre a própria vida que levam sempre à consideração de que a viagem ao Oriente Médio é, afinal, uma viagem às verdadeiras origens sob o ângulo sentimental.
Desapegado do país de onde veio, sem ter ao certo para quem voltar, Clay reivindica uma nova descoberta para si mesmo num país estrangeiro. Tykwer tem como base o romance de David Edggers, ao qual ele incorpora seu estilo de cenas compactadas e que fluem com um grande ritmo e senso de espaço, não apenas quando mostra Clay em seu quarto de hotel, e sim quando o coloca inicialmente num cotidiano maçante, no qual não parece ter a tranquilidade necessária para fazer avançar seus objetivos. Esse cotidiano só é quebrado por uma festa numa determinada embaixada, em que se vê às voltas com uma situação inesperada, e por uma visita a um dos prédios da grande cidade em construção, onde ele passa de uma briga entre operários a uma sala perfeita em simetria e paisagem. Nesse sentido, parece que Clay está entre o que está sendo construído e o que ainda virá a ser. Uma viagem determinada que se encerra com uma ameaça ao ser confundido com alguém inapropriado é outro instante de movimento nesse universo desconhecido, numa das obras mais convincentes dos últimos anos sobre um homem se sentir deslocado e tentando se adaptar a uma situação.

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Notável como Tykwer conseguiu realizar um filme aparentemente simples, mas muito mais relacionado com Cloud Atlas do que as Wachowski em O destino de Júpiter. Ou seja, Um holograma para o rei tem uma base de movimento mais ligada à humanidade e humanização do que possa aparentar. As relações de Clay com o universo do Oriente Médio não se sentem corrosivas como em Rock em Cabul ou Whiskey Tango Foxtrot, e carregam um toque existencial a cada vez que Hanks consegue expor reais sentimentos com seu personagem, auxiliado por grandes coadjuvantes, a exemplo de Black e Sarita Choudhury. Das atuações que teve depois de Náufrago, foi com Tykwer, em Cloud Atlas e aqui, que ele conseguiu realmente desempenhar papéis com ressonância real, embora o investigador de Prenda-me se for capaz, de Spielberg, e o criador da Disney em Walt nos bastidores de Mary Poppins, também sejam interessantes. Há uma cena específica em que Tykwer precisa mostrar o rosto de Hanks voltado para baixo e o ator consegue demonstrar toda sua emoção junto com recursos de montagem que levam Um holograma para o rei a uma autodescoberta pessoal. Quando ele passa a notar as grandes questões que o levaram até ali, finalmente a história adquire sua grandeza. Em determinado momento, isso se torna ainda mais notável à medida que Tykwer parte de uma pintura, como Adam visualizava até então o mundo, para um mar de verdade. O contraste entre o deserto extenso e a água e os corais desenha não apenas uma ligação, mas um complemento capaz de transformar sua vida.

A hologram for the king, ALE/EUA/Reino Unido, 2016 Diretor: Tom Tykwer Elenco: Tom Hanks, Sarita Choudhury, Tom Skerritt, Dhaffer L’Abidine, Tracey Fairaway, David Menkin, Lewis Rainer, Khalid Laith Roteiro: Tom Tykwer Fotografia: Frank Griebe Trilha Sonora: Johnny Klimek, Tom Tykwer Produção: Arcadiy Golubovich, Gary Goetzman, Stefan Arndt, Tim O’Hair, Uwe Schott Duração: 98 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: 22h22 / Fábrica de Cine / Playtone / Primeridian Entertainment / X-Filme Creative Pool

Cotação 4 estrelas

A lenda de Tarzan (2016)

Por André Dick

A lenda de Tarzan.Filme 4A última adaptação do personagem de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, havia sido Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva, nos anos 80, com Cristopher Lambert no papel principal e grande êxito dramático e de recriação da atmosfera selvagem, com macacos criados por Rick Baker, mestre da maquiagem. Era inevitável que uma história mais moderna do personagem, em meio à tecnologia atual, se rendesse a muitas cenas de efeitos especiais. Desde os trailers, isso já era esperado em A lenda de Tarzan, nova empreitada do competente David Yates, responsável por quatro filmes da saga Harry Potter, inclusive o seu melhor (particularmente) As relíquias da morte – Parte 1, e de Animais fantásticos e onde habitam, que estreará no final do ano, baseado também em J.K. Rowling.
Tendo à frente do elenco Alexander Skarsgård (mais conhecido pela participação em Melancolia, de Von Trier) como o herói, Yates prefere partir de um conceito interessante: ele trata Greystoke como uma espécie de primeira parte dessa obra, recuperando flashbacks que lembram o filme de Hugh Hudson. Como explica o início do filme, o Congo foi dividido entre a Bélgica e o Reino Unido. Como a Bélgica está num estado de falência, seu rei, Leopoldo II, envia Léon Rom (Cristoph Waltz) para conseguir diamantes preciosos de Opar, e ele vai tocando a vegetação africana como quem está prestes a destruí-la de fato. A expedição dele é cercada pelo Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), numa sequência capaz de evocar o encontro da tripulação do barco petrolífero com a tribo indígena da Ilha da Caveira do King Kong de 1976, que lhe faz um determinado pedido para que não seja morto.

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Enquanto isso, Tarzan já está perfeitamente adaptado à sociedade, como Jack Clayton III, Lorde Greystoke, casado com Jane Porter (Margot Robbie), e recebe um convite do presidente do Congo para visitar o país, por meio do primeiro-ministro da Inglaterra (Jim Broadbent). George Washington Williams (Samuel L. Jackson), dos Estados Unidos, deseja que Greystoke aceite o convite porque acredita que os planos da Bélgica é escravizar o povo do Congo. No entanto, parece mais uma emboscada. Yates escolhe um tom quase descompromissado para seu filme, fazendo lembrar, sob um ângulo positivo, produções de uma certa infância já perdida no tempo e bastante nostálgica. Há, não raramente, uma sucessão de acontecimentos que parecem dar justificativa apenas para o próximo passo. Se Tarzan entra em conflito com Jane, pois não a quer na empreitada, logo o roteiro opta por mostrar esse ambiente como, ao mesmo tempo, acolhedor e ameçador. A chegada de Tarzan ao Congo é um sinal claro disso. Os flashbacks servem não apenas para contar o passado de Tarzan, como também o de Jane, quando foi ao Congo com o pai que ensinava inglês, e se no início parecem atrapalhar a narrativa, com o andamento servem quase como um complemento a Greystoke. A partir daí, Yates opta em fazer de Tarzan uma espécie de libertador do Congo, com todas as cenas de ação a que se tem direito.

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Em relação a Greystoke, este A lenda de Tarzan se sente um filme pleno de aventura, sem a mesma tentativa de estabelecer o personagem como uma figura antropológica. Ainda assim, é claro, por trás dos temas de escravidão, que se trata de um personagem que une o que se considera civilização e o primitivo, sem que se saiba onde um começa exatamente e onde outro termina. E Clayton, abalado por não poder ter tido ainda um filho com Jane, tem sua infância traumática recuperada – seu encontro com crianças se mostra não como um ensinamento de como viver na selva, mas sim um desejo de reencontrar a infância. Em paralelo, Jane ensina num museu sem deixar de sentir que o passado de outro lugar distante lhe interessa mais.
A primeira preocupação com esta releitura do personagem se concentra em sua naturalidade ou não. Perto de Greystoke, é visivelmente um filme moderno. No entanto, mesmo apurado tecnologicamente, ele consegue ser mais eficiente na reconstituição do que outros, e se há uma cena específica com elefantes que lembra Mogli – O menino lobo, grande sucesso de Favreau deste ano, ele consegue ser superior à reconstituição dos primatas do que os dois últimos Planeta dos macacos.
As belezas naturais se mostram ao longo da navegação do barco de Rom – que podem lembrar, em parte, Fitzcarraldo, em parte Aguirre, ambos de Werner Herzog, com um grande acerto na fotografia de Henry Graham. Em se tratando do elenco, se Skarsgård é levemente contido, funcionando nas cenas de ação e menos dramaticamente, Robbie consegue fazer uma Jane interessante, e Waltz se mostra mais uma vez um vilão capaz de sustentar a trama – e já é o terceiro seguido dele, antecipado pelo de Grandes olhos e 007 contra Spectre –, mas é Samuel L. Jackson que funciona de maneira decisiva, uma grande variação em seus papéis recentes, embora seu roteiro não seja muito expansivo.

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Yates utiliza esse elenco demarcando cenas de ação em acréscimo a flashbacks e nunca deixando o ritmo esmorecer. Ele tem um olhar para os detalhes e os conflitos nunca se sentem sem tensão, principalmente naqueles em que Tarzan enfrenta macacos ou quando há um determinado estouro de animais em direção a uma cidade. Se o filme não chega a ser um triunfo épico – e duvido que tenha sido sua pretensão –, ele possui uma contundência e leveza, ao mesmo tempo que expõe seus argumentos sobre a invasão do homem branco na selva. É, sem dúvida, uma história anticolonialista, assim como Greystoke mostrava a falência da aristocracia e uma necessidade de voltar ao habitat natural. Entende-se que às vezes A lenda de Tarzan possa ser visto como uma caricatura dessa tentativa de invasão e de exploração, jogando os temas um atrás do outro sem uma maior reflexão. Por outro lado, o que no início soa apenas como um jogo político para despertar uma conquista pode, ao final, tomar um nascimento verdadeiro. Num blockbuster comum, inevitavelmente poderia ser visto de maneira enviesada, porém no filme de Yates soa mais comovente.

The legend of Tarzan, EUA, 2016 Diretor: David Yates Elenco: Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou, Jim Broadbent Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Mario Grigorov Produção: Alan Riche, David Barron, David Yates, Jerry Weintraub, Mike Richardson Duração: 110 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dark Horse Entertainment / Jerry Weintraub Productions / Riche Productions / Village Roadshow Pictures

Cotação 3 estrelas e meia