Twin Peaks – Terceira temporada (O retorno) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre a temporada e o filme O iluminado

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Novo México, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), voltando apenas algumas vezes às florestas da pacata cidade na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série era Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passava mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks: houve episódios surpreendentes. O clima de Twin Peaks funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (no melhor momento de atuações do elenco), o 14, 16, 17 e 18. Ou seja, 14 episódios foram ótimos, uma média considerável em se tratando de uma temporada com 18.

De modo geral, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland), por meio de Cooper/Dougie Jones/Mr. C; analisou a terceira idade na vida de vários personagens; os efeitos do White Lodge e do Black Lodge; a relação entre sonho e realidade; e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos.
A trama principal pode ser resumida do seguinte modo: o agente Cooper (Kyle MacLachlan) sai do Black Lodge, depois de conversar com o Bombeiro (Carl Struycken), Laura Palmer (Sheryl Lee) e o Homem de um Braço Só (Al Strobel), passando pelo White Lodge, e toma o lugar de Dougie Jones, uma cópia que havia sido produzido pelo seu duplo do mal, Mr. C (também McLachlan), a fim de que este não voltasse para o Black Lodge. Enquanto isso, os antigos companheiros de Cooper, Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), ao lado de Thammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern), vão no encalço de respostas sobre isso, a partir da prisão de Mr. C em Dakota do Sul. Já os integrantes da delegacia de Twin Peaks, xerife Frank Truman (Robert Forster), Andy (Harry Goaz) e Bobby Briggs (Dana Ashbrook) também buscam pistas sobre algo estar faltando na investigação do assassinato de Laura Palmer depois que Hawk (Michael Horse) recebe um comunicado da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Tudo, mais tarde, envolve pistas deixadas pelo Major Briggs.

O agente Cooper, na pele de Dougie, é casado com Janey-E (Naomi Watts), pai de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e trabalha na agência de seguros de Bushnell Mullins (Don Murray) e algumas pessoas tendo o Mr. C por trás querem matá-lo. Outros, como os irmãos Mitchum, Bradley (James Belushi) e Rodney (Robert Knepper), sempre acompanhados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal), querem descobrir por que ele faturou tanto em seu cassino de Las Vegas. Já em Twin Peaks, temos o filho de Audrey Horne, Richard (Eamon Farren) cometendo maldades; os efeitos da solidão de Sarah Palmer (Grace Zabriskie); algumas passagens pelo Double R e pelo Greath Northern; e apresentações musicais de ponta na Roadhouse. No episódio 8, os motivos da criação do Black Lodge, por meio do White Lodge, numa sequência de imagens fascinantes. Junto a inúmeras qualidades pictóricas captadas pela fotografia de Peter Deming, de atuação e roteiro, Lynch talvez pudesse ter colocado mais trama em Twin Peaks e mais inter-ligações entre os personagens. Os cenários de Las Vegas ou na Dakota do Sul não possuem o mistério das paisagens da cidadezinha: não evocam estranheza e beleza, uma volta a um passado longínquo que a vida urbana não pode captar. Era disso que Cooper tratava em muitos momentos nas temporadas iniciais, de um universo onde a contagem de vidas era realmente vital. Lynch não proporcionou isso em grande parte da temporada, preferindo utilizar o estilo de seus filmes mais experimentais a partir dos anos 90 e sem apostar na atmosfera do original. Por um lado, foi um acerto, não se curvando à expectativa e apresentando um trabalho muitas vezes extraordinário; por outro, às vezes se excedeu na escolha. Alguns dos grandes episódios foram cercados por essa sensação de mistério, de lugares isolados, principalmente os episódios 8, 9, 14, 16, 17 e 18. O último, por exemplo, localizado entre Odessa, Texas, e uma deserta Twin Peaks possui um clima semiapocalíptico.

Para alguns, a explicação para isso era recorrer ao fato de que David Lynch é um artista que não deve explicações a ninguém e que nunca entrega o que o espectador espera ou presta fan service. Foi interessante acompanhar esta temporada por redes sociais – já que nos anos 90 não havia além de jornais e revistas para ver a reação à série – por uma espécie de culto interessante a teorias. Nesses termos, a temporada em si teve boas bases de fan service, principalmente para quem é admirador de Twin Peaks – Fire walk with me. O fato de o filme ter sido um apoio da série não impediu algumas indagações: uma delas foi a própria exclusão completa de Annie Blackburn (Heather Graham), fundamental para o fechamento da segunda temporada e do filme e que aqui retornou apenas na referência às páginas do diário de Laura Palmer. Outra foi a ausência de Chester Desmond (Chris Isaak). Pode-se ter uma explicação para essa volta constante de Lynch ao filme, principalmente do episódio 8 em diante, além da tentativa de salvar Laura Palmer (Sheryl Lee). O diretor gosta de voltar a temas que teriam sido questionados em sua carreira. Foi assim com Duna, ao qual se refere sempre como projeto em que foi prejudicado, mais especificamente por não ter podido participar da montagem final. Toda sua carreira tem referências constantes a Duna, e a própria nova temporada de Twin Peaks. O personagem central de Duna, Paul Atreides, recebia um anel do pai que remete ao da Caverna da Coruja; as atrizes de Cidade dos sonhos lidam com uma caixa misteriosa, como a Bene Gesserit de Duna; os módulos de som dos Fremen em Duna adiantam o mistério a partir da descoberta de uma orelha em Veludo azul. Também a fala do Homem de um Braço Só ao ver Cooper levantando da cama do hospital (“Você está acordado. Finalmente”) é uma referência direta ao “O adormecido deve despertar” de Paul Atreides, feito pelo mesmo MacLachlan, em Duna. E foi assim com Twin Peaks – Fire walk with me: Lynch quis testar, por meio da série, o quanto havia sentido naquilo que não viram sentido à época do lançamento, nas vaias em Cannes, no fracasso de bilheteria e crítica. É como se ele desse uma resposta e ele a ofereceu do melhor modo: a terceira temporada foi um espetáculo sensorial e ajudou a desfazer outra lenda: de que não explica nada. É verdade que há muitas perguntas como resposta às respostas, mas pode-se mencionar nesta temporada inúmeros diálogos desvendando os mistérios relacionados ao Major Briggs.

O que mais fez Lynch, com a colaboração fundamental de Mark Frost, foi estabelecer pontas de explicação sobre o Black Lodge, o White Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… Muito do mistério de Twin Peaks teve seu impacto aumentado, principalmente no antológico episódio 8. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário. E ainda com personagens enigmáticos: Freddie Sykes (Jake Wardle), o homem bêbado da delegacia (Jay Aaseng), Naido (Nae Yuuki) e o Bombeiro (Carl Struycken), além dos woodsmen no episódio 8.
Mais interessante é como Lynch e Mark Frost aproveitaram temas que teriam desvirtuado a segunda temporada. Esta, com todos seus problemas, tinha os competentes Harley Peyton e Robert Engels à frente de vários roteiros, com trabalhos algumas vezes superiores ao que Lynch e Frost, criadores da série, apresentaram nesta terceira, sobretudo a partir do momento em que os personagens precisavam ganhar desenvolvimento em inter-relações. E em termos de roteiro me refiro principalmente a diálogos, não em analogias ou imagens (nas quais Lynch se sobressai especialmente).

Robert Engels (que foi corroteirista do filme, ao lado de Lynch) assinou sozinho ou em parceria 10 episódios das duas primeiras temporadas, e Harley Peyton nada menos do que 13. Algumas simbologias referentes ao Major Briggs estão em episódios escritos por Engels e Peyton, mas, acima de tudo, assim como Frost (que participou do roteiro de 11 episódios), foram eles que desenharam esses personagens de Twin Peaks e também construíram o universo da cidade e dos personagens de Twin Peaks, sem o qual Lynch não teria conseguido trabalhar seus conceitos neste retorno. Em algumas resoluções desta temporada, o problema não foi a direção e sim o desenvolvimento de alguns personagens e a montagem de Duwayne Dunham, que colaborou com Lynch no piloto de Twin Peaks, em Veludo azul e Coração selvagem. A série original teve a montagem principalmente de um trio: Jonathan P. Shaw, Toni Morgan e Paul Trejo, que se revezou do início ao fim das temporadas, abrindo espaço apenas para Duwayne Dunham em dois episódios e Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, em um. Apesar do apoio de P. Shaw e Lynch na edição desta temporada, ela foi hesitante em certos momentos. Lynch compensou com a direção e o grande design de som: ao mesmo tempo que aprimorou elementos já mostrados em sua carreira, ele se mostrou aberto a algumas influências – mais especificamente Nicolas Winding Refn nas cenas iniciais passadas em Nova York e Terrence Malick, no episódio 8 e na entrada do corpo policial de Twin Peaks no bosque da cidade no episódio 14, com os raios de sol entre as árvores, uma conquista estilística de Emmanuel Lubezki.

A montagem era decisiva para o dinamismo de Twin Peaks (independente de lenta ou ágil). O retorno alternou ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem foi mais vagarosa, com cenas extensas e repletas de diálogos – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas foram curtas demais e outras longas demais. Em certos momentos, a montagem desta nova temporada era em certa medida confusa que surgiram teorias falando de uma não linearidade; veja-se, por exemplo, o agente Cooper jogando beisebol com o filho no episódio 12 e no episódio seguinte, o 13, aparecer na manhã seguinte ao jantar dos irmãos Mitchum, acontecido no 11. Ou Dougie se livrar do ataque de Ike (Christophe Zajac-Denek) no episódio 7 e os irmãos Mitchum verem a matéria de TV sobre ele apenas no episódio 11. O dinamismo do original era ajudado pela trilha de Angelo Badalamenti, que praticamente se ausentou aqui, voltando mais ao final, com grande empatia e se destacando no episódio 8. O design de som – feito por David Lynch – esteve em todos os episódios como o som principal, junto às apresentações de bandas e artistas solo, um acerto, por um lado (pela qualidade deles, a exemplo de Chromatics, Au Revoir Simone, Nine Inch Nails, Lissie e Eddie Vedder, que fizeram minhas apresentações favoritas), e prejudicial, por outro, em razão de costurar o final de muitos episódios de maneira previsível.
No entanto, tudo isso ganha algum sentido se concluirmos que “vivemos dentro de um sonho”, palavras que o agente Cooper fala na delegacia no episódio 17 do mesmo modo que Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. É a explicação para o limbo em que parece se encontrar Audrey Horne (Sherilyn Fenn), sempre em conversa com o marido Charlie (Clark Middleton) sobre o amante Billy (que acabamos não conhecendo ao fim da temporada). São situações que configuram um interesse incomum pelo surrealismo cotidiano. Este se mostrou especialmente presente nos episódios com passagens para universos paralelos (episódio 1, 2, 3, 8, 11, 14, 15, 17 e 18).

Esse surrealismo foi apoiado por personagens significativos: Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e William Hustings (Matthew Lillard), realmente vitais para a trama, em polos que se complementam, um com certa sensibilidade para uma ligação com universos paralelos e o outro, um diretor de escola confuso e envolvido numa busca arriscada pela Zona. Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) foi ótimo, funcionando muito bem em sua despedida em parceria com Gordon Cole (David Lynch), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern). Anthony Sinclair (Tom Sizemore) teve momentos – aquele em que ele vai conspirar contra Dougie aos irmãos Mitchum é excepcional (“Vocês têm um inimigo: Dougie Jones!”), assim como quando se esconde atrás da mesa quando surge o trenzinho dos mafiosos, suas assistentes e Dougie na agência de seguros. Bushnell Mullins (Don Murray) se inclui entre os grandes personagens da mitologia de Twin Peaks, com sua gentileza e decência, como diz Cooper ao acordar. Murray tem uma precisão cômica que tornou grandes as reuniões com Dougie ou sua ida à delegacia de Las Vegas para falar com os irmãos Fusco. Janey-E (Naomi Watts) destacou-se, particularmente o melhor personagem novo desta temporada, ao lado do filho Sonny Jim (Pierce Gagnon). Watts conseguiu desenhar uma personagem desapontada com o marido, mas amorosa e defensora do seu lar. A despedida dela de Cooper (ela já sabia que não se tratava de Dougie) no episódio 16 costurou toda uma simbologia para uma mulher de família que poderia ter sido a esposa de Cooper caso ele não fosse agente do FBI. A despedida dela comove porque ela queria ter aquela vida que já não Dougie e sim Cooper lhe prometia. Seu olhar triste é de alguém que estava gostando daquela vida, mas continuar nela seria tirar a vida que Cooper tinha antes de ocupar o lugar de Dougie.

Em Twin Peaks, Hawk (Michael Horse), Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) foram acertos. O arco desenhado pelo crescimento emocional de Bobby foi, sem dúvida, uma boa ponte com as temporadas anteriores, em companhia das mensagens misteriosas da Senhora do Tronco e a sabedoria de Hawk. Frank Truman (Robert Forster) tornou-se um substituto eficiente para Harry, nunca querendo substituir o êxito de Michael Ontkean. Não aproveitados o quanto se poderia, Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) se mostraram um alívio nostálgico, mas a ponta de Michael Cera como seu filho Wally Brando é antológica. Chad Broxford (John Pirruccello) atuou como um bom vilão policial. Personagens introduzidos sem força, como os irmãos Mitchum, adquiriram uma importância fundamental – e alguns dos melhores momentos foram deles na parte final, numa recuperação extraordinária para Knepper e Belushi. Mesmo os eventos do episódio 11 (que pareciam forçados à primeira vista) ganham numa reavaliação, sobretudo o jantar com Dougie, seguido por torta de cereja. Achei muito engraçados os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner) – principalmente na cena em que eles são informados de que Dougie seria o agente Cooper ou quando prendem Ike – e Hutch e Chantal tiveram sua inclusão explicada pelo excepcional episódio 16, com atuações magníficas de Leigh e Roth. Steven Burnett (Caleb Landry Jones) tem um potencial não aproveitado totalmente, caso não tenha uma nova temporada, assim como Richard Horne (Eamon Farren) foi um vilão à altura pelo pouco roteiro que recebeu. Outros personagens ao redor do Mr. C não tiveram o mesmo êxito: falo de Duncan Todd (Patrick Fischler). Algumas vezes, Lynch impediu o prosseguimento mais ágil da série com cenas em que eles apareciam. Particularmente, todos os episódios que se concentraram na tentativa de matar Dougie Jones foram menos exitosos, excluindo o 16. Fiquei bastante surpreso como Clark Middleton, como Charlie, o “marido” de Audrey; é um ótimo ator e trava um diálogo de quatro episódios com desenvoltura. Sherilyn Fenn fez novamente uma misteriosa Audrey Horne, desta vez perturbada e num mundo paralelo, sobretudo em sua apresentação na Roadhouse. Grace Zabriskie, como Sarah Palmer, roubou a cena nos episódios em que apareceu. E o agente Dave Mackley feito por Brent Briscoe foi um personagem discreto, mas eficiente.

E houve elementos que ficaram sem explicação, o que era de se esperar. Sem saber se a série terá uma quarta temporada, alguns personagens novos ou antigos, quando (re)apresentados, não adquiriram desenvolvimento. Isso funcionou muito bem em episódios iniciais, mas quando a série não mostrou o desenvolvimento deles é claro que houve certa decepção. Não tivemos clareza sobre a vida de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick); a ligação entre Shelly e Red (Balthazar Getty), que teve ótima apresentação no episódio 6 e depois fez apenas uma ponta no episódio 11; quem de fato é Diane (Laura Dern), pois nem no encerramento parece que tivemos respostas suficientes, principalmente quando ela enxerga um duplo no hotel de beira de estrada e não fala a respeito ao agente Cooper, antes de ele se transformar em Richard e ela em Linda, agindo, de certo modo, como a Diane fabricada por Mr. C, que não avisa sobre o ataque de um woodsman a Hustings. Também merecia elaboração o interesse de Richard Horne (Richard Beymer, mais uma vez fora de série, principalmente no quase monólogo do capítulo 12) por Beverly Page (Ashley Judd), assim como a relação entre Big Ed Hurley (Everety McGill) e Norma Jennings (Peggy Lipton), que se resolve em menos de cinco minutos depois de décadas. Imagino que muitos se cansaram com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) restrito apenas a algumas cenas de discurso no seu programa de internet, assim como Nadine (Wendy Robie) de espectadora dele. James Hurley (James Marshall) praticamente não teve participação, a não ser cantando “Just you” na Roadhouse e servindo de confidente para Freddie. Não ficou muito clara a relação entre Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt).
Todas essas são tramas mais lineares, que talvez não coubessem no conceito da temporada, mas poderiam ter sido exploradas em determinados momentos, ao invés de Lynch se concentrar principalmente no que fazia sua equipe de FBI ou certas cenas mais conceituais (um homem varrendo o chão da Roadhouse, estabelecendo ligação com um Renault mais velho falando de uma sujeira que não pode ser escondida; uma francesa demorando a sair do quarto de Gordon; o excesso de intervenções de Candie no episódio 10; Jerry Horne perdido no bosque por três capítulos; a bad trip na floresta do episódio 15; algumas conversas de personagens desconhecidos na Roadhouse…), entre outras.

E temos as questões suscitadas pelo episódio 8, com sua referência à origem de uma maldade. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. No episódio 17, o Bombeiro (Carel Struycken), que aparece no episódio 8, ressurge no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar, depois de ter encontrado Andy no episódio 14. Esses momentos possuem uma força visual poucas vezes vista, inclusive na trajetória de Lynch. Audrey, que terminou o episódio 16, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nos dois últimos. E qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?
Também houve o polêmico Dougie Jones. Nos primeiros episódios (até o sexto e um tanto no episódio 11), ele funcionou muito bem, com cenas verdadeiramente cômicas e no ponto exato, graças à atuação excepcional de MacLachlan, também com o assessor de Bushnell, Phil Bisby (Josh Fadem); nos demais pouco foi desenvolvido e terminou como um personagem que fica num meio-termo. Lynch poderia, ao contrário, ter mostrado mais a rotina de Dougie junto à família, já que o motivo era mostrar principalmente o homem médio dos Estados Unidos. Não tenho clareza sobre o motivo de Lynch ter preferido colocar o personagem no lugar do agente Cooper até o episódio 15, mas tenho algumas hipóteses além daquela de que quis substituí-lo por Gordon Cole: 1) O agente Cooper não teria a parceria de Harry S. Truman (Michael Ontkean), que não voltou para a série; ambos foram decisivos para o ritmo da série original; 2) Frost e Lynch não conseguiriam reproduzir o ritmo de diálogos de Cooper das duas primeiras temporadas pelo excesso de ideias conceituais e porque queriam uma trama vagarosa, uma oposição às características do personagem; 3) Muitos episódios funcionaram no plano conceitual e o agente Cooper sempre estabeleceu uma ponte desse plano com o plano material, pelo qual Lynch não estava tão interessado; 4) Lynch não queria fazer uma série exatamente bem-humorada, apesar de momentos indicando esse caminho, e o agente Cooper prejudicaria isso. Hoje, a hipótese principal, no entanto, foi que Lynch manteve o personagem escondido para que o espectador pudesse testemunhar uma volta impressionante no capítulo 16, já histórico. Não haveria com certeza a mesma emoção de Cooper dizendo “Eu sou o FBI” se ele tivesse voltado logo no início. Sem dúvida, mas ainda se sente um pouco incômoda sua quase não presença (ou não existência, como diz o Braço no início da temporada), principalmente com tanta participação de Mr. C, principalmente nos episódios 7, 13 e 15, alguns dos mais problemáticos em termos de ritmo (mesmo que com grande performance novamente de MacLachlan). Não foi uma temporada, por isso, sem falhas, mas é difícil não considerar que foram vários filmes espetaculares prejudicados por alguns vazios (particularmente, os capítulos 10, 11, 13 e 15 se sentiram menos à altura do restante).

E os dois episódios finais mostram que, mais do que o retorno de Cooper a Twin Peaks, o que importava a Lynch e a Frost era mostrar como uma possível existência de duplos pode transformar o universo complexo e a narrativa mais aos moldes de Império dos sonhos e A estrada perdida. Depois do episódio 17, em que a ação se desenvolve em combater Mr. C e tentar voltar no tempo para salvar Laura Palmer de seu destino, além de se saber sobre uma presença ameaçadora (Judy), no episódio 18 o Homem de um Braço Só (Al Strobel), como havia pedido Cooper no episódio 16, faz uma nova versão de Dougie Jones para Janey-E e Sonny Jim. Enquanto Dougie chega de volta à Lancelot Court falando “Casa!”, ao fim de tudo, o agente Cooper procura uma casa para Laura Palmer, mas ela não existe mais ou é indefinida. Tudo volta às palavras da Senhora do Tronco, de que “a morte não é o fim, mas uma mudança”: é justamente o que Lynch apresenta nesse clímax. A emoção de ver a linha de tempo sendo alterada é muito marcante, principalmente na figura de Jack Nance, um dos melhores amigos de Lynch, que regressa à cena como Pete Martell, inclusive numa caminhada inédita, não utilizada no piloto da série, depois de sair de casa. É como se Lynch também quisesse reviver esses amigos (não apenas Nance, Davis, David Bowie e Frank Silva faleceram, como do elenco desta temporada Catherine Coulson, a Senhora do Tronco, Miguel Ferrer e Will Frost, que faz uma ponta como Dr. Hayward). Isso me leva à figura de minha mãe, que era uma grande fã da série original e faleceu há quatro anos. Este Twin Peaks, de maneira inesperada, apresenta com seu final uma sensibilidade especial de Lynch em relação aos anos que se passaram: gostaríamos que a linha de tempo fosse muitas vezes mudada. O diretor, claramente, sabe disso: ele compreende exatamente a nostalgia do espectador e o sentimento de perda durante tantos anos. Lynch é generoso quando não se esperava tanto dele, fazendo seus personagens se comportarem como o próprio público.
No episódio 18, Lynch busca seus duplos no cinema, mas moldando os conceitos num simbolismo rico, daí particularmente ter me agradado em especial: o agente Cooper e Diane dirigem como o casal Lila Crane (Vera Miles) e Sam Loomis (John Gavin), que busca Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose. O interessante é que ele para de carro na beira da estrada e enxerga postes de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. Esta sequência dialoga com Intriga internacional, de Hitchcock, em que um agente de publicidade, Roger O. Thornhill (Cary Grant), era confundido com um agente secreto, George Kaplan (novamente os duplos), e em determinado momento se encontra numa estrada deserta, tendo de se esconder de um avião que quer matá-lo num milharal (garmonbozia?). No início deste episódio, o encontro de Cooper com Diane na saída do Black Lodge lembra um num bosque nas proximidades do Monte Rushmore do mesmo filme de Hitchcock, cuja título original é North by Northwest (lembrando que Twin Peaks fica no Northwest dos Estados Unidos), e Gordon Cole se refere ao Monte Rushmore no episódio 4 deste temporada, em diálogo com Albert.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Esta sequência também remete a Psicose, assim como o papel de parede da Loja de Conveniência do episódio 15 lembra a dos quartos do hotel de Norman Bates (que age como sua mãe).

Diane e Cooper fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para os anos 1950. No dia seguinte está num hotel da cidade, remetendo a Hitchcock e a A estrada perdida, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard. O quarto tem um papel de parede que remete ao formato que sai da chaleira de Phillip Jeffries e remete ao anel da Coruja (depois de selecionar essas imagens, vi que muitos no Twitter perceberam esse mesmo detalhe). Assim como dialoga com a tapeçaria onde brinca o menino Danny no Hotel Overlook de O iluminado (filme em que Kubrick teria se inspirado em Eraserhead, de Lynch).

Outro indício de que se trata de um universo em que Cooper não é mais exatamente o Cooper que conhecíamos é o número do quarto em que ele se hospeda, 7. Este número aparece em diferentes oportunidades sempre relacionada a duplos, sonhos ou universos paralelos: é o número do café de Tracey (Madeleine Zima) no primeiro episódio da terceira temporada; o número do quarto em que Mr. C encontra Chantal (Jennifer Jason Leigh); o número do andar em que Phillip Jeffries (David Bowie) chega para encontrar a equipe do FBI em Twin Peaks – Fire walk with me e o número que está no nome da Lucky 7 Insurance, a agência de seguros em que trabalha Dougie Jones.

Em sua busca (não se sabe ainda pelo quê) em Odessa (agora sabemos a cidade), no Texas, ele passa de carro por um trilho de trem (à frente do qual apareciam os Tremond/Chalfont no filme de 1992 para entregar o quadro de Laura e pelo qual passava o Homem de um Braço Só na perseguição ao carro onde estão Leland e Laura; destaca-se, ainda, que é num vagão de trem onde ocorre o assassinato de Laura).

Odessa está um universo paralelo: em frente à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca, há um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, quando Laura Palmer diz a Cooper: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, sugerindo uma ligação exatamente com o episódio 18. Dentro da cafeteria, há várias imagens de quadros com cavalos (estamos no Texas, mas aqui é simbólico).

Também há ao lado da porta de entrada da Cafeteria Judy uma guirlanda de rosas que remete a uma do quarto de Laura Palmer no filme de 92.

Do lado de fora da Cafeteria, temos, além dos postes de eletricidade, contêiners, que haviam também ao lado da casa com acesso à Zona, universo paralelo, no episódio 11. Tudo indica que há indícios do Black Lodge neste lugar.

Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Não parece coincidência que a atriz que faz a garçonete abordada pelos cowboys, Kristi, seja Francesca Eastwood, filha de Clint (conhecido por tantos filmes de faroeste). E a Odessa real, no Texas, tem como chamariz uma escultura chamada Jack Rabbit (como lembra o leitor do blog Alan nos comentários à crítica dos episódios 17 e 18), mesmo nome dado por Bobby Briggs ao lugar que serve de pista para chegar ao White Lodge no bosque de Twin Peaks. Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Perceba-se a semelhança do ator (infelizmente o nome dele não aparece nos créditos finais, isso se não for apenas um boneco, o que seria ainda mais proposital) com Jack Nicholson e como seu corpo parece congelado. Essa imagem remete ao final de O iluminado, de Stanley Kubrick. A roupa do morto também é parecida. Deve-se lembrar que naquele filme Jack Torrance era um duplo (ou reencarnação) de um zelador que havia matado a família anos antes no Hotel Overlook. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes. Repare-se, também, que na parede da casa há um pequeno cavalo branco.  Sabemos também que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa.

Também não se entende por que ela pergunta a ele se é agente no carro do mesmo modo (em olhar e voz) que ela pergunta se Leland, seu pai, estava em casa num determinado dia em que viu Bob, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores) e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Os faróis iluminando a estrada sintetizam a obra de Lynch e remetem à primeira perseguição a James Hurley e Donna Hayward no piloto da série e à estrada em que os woodsman aparecem assustando o casal de velhinhos no episódio 8, passado em 1956: “é passado ou futuro?”, mas também a filmes anteriores de Lynch, Coração selvagem, A estrada perdida e Veludo azul. Tudo se mescla, assim como o episódio 18 incorpora várias referências simbólicas e cinematográficas, sendo uma espécie de homenagem de Lynch a Hitchock e Kubrick principalmente. Se algumas vezes o retorno de Twin Peaks investiu em excesso de conceitos, Frost e Lynch o finalizam de maneira impressionante.

O episódio todo é construído por elementos simbólicos sobre a duplicidade tanto em Twin Peaks quanto no cinema e ambos sintetizam o universo da série por meio de detalhes que podem passar em branco. No plano narrativo, é como se Cooper e Laura tivessem uma simbiose, perdidos entre o passado e o futuro. Para Lynch, a casa de ambos é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Minha teoria é de que ela é realmente Laura Palmer, à medida que os pais de Carrie têm o mesmo nome: Leland e Sarah. Tanto que, quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo. No episódio 12, Sarah avisava na Loja de Conveniência: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy?) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. E Laura é, afinal, a escolhida: ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen. Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade. Não seria coincidência a passagem para a Loja de Conveniência também se dar no Greath Northern, em diálogo direto com o Bates Motel e o Overlook. São argumentos para uma possível quarta temporada, apenas uma entre inúmeras teorias, permitidas num universo de sonhos. Depois de toda uma temporada, finalmente chegamos a Twin Peaks.

Twin Peaks – The Return, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Richard Beymer, Chrysta Bell, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Eamon Farren, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, David Bowie, Wendy Robie, Russ Tamblyn, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Peggy Lipton, Catherine E. Coulson, Mädchen Amick, Josh Fadem, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Brent Briscoe, Balthazar Getty, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Patrick Fischler, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne, Michael Cera, Emily Stofle, Shane Lynch, Derek Mears, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Jane Adams, Charlotte Stewart, Ashley Judd, Larry Clarke, Frank Silva, Gary Hershberger, Joan Chen, Jack Nance, Don S. Davis, Eric Edelstein, David Koechner, Grant Goodeve, Eric Rondell, Sky Ferreira, Scott Coffey, David Duchovny, Richard Chamberlain, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, Francesca Eastwood, George Griffith, Carel Struycken, Nicole LaLiberte, Warren Frost, Adele René, Ernie Hudson, Walter Olkewicz, Nafessa Williams, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Brett Gelman, Grace Victoria Cox, Jane Levy, Madeline Zima, Phoebe Augustine, Bérénice Marlohe, Julee Cruise, Ben Rosenfield, Mary Reber, Cornelia Guest Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 1080 min. Distribuidora: Showtime

 

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Twin Peaks – O retorno (Episódio 16) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), White e Black Lodges, voltando apenas algumas vezes à pequena cidade em meio às florestas na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série é Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passa mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
Aos poucos, pode-se concluir que Lynch esteve decidido a não oferecer em quase momento algum a atmosfera de Twin Peaks que reconhecíamos, não apenas pelos cenários mais urbanos, como também pela quase ausência da trilha sonora de Angelo Badalamenti, tão marcante. À medida que a série foi avançando, ela jamais foi do agente Cooper, vagando pelo corpo de Dougie Jones; era de David Lynch apenas, como diretor, inclusive com seu agente Gordon Cole, apostando principalmente na estranheza.
A questão é que Twin Peaks nunca foi apenas estranheza nem diferença: ela sempre desconstruiu tudo a partir exatamente de uma imagem da vida padrão e clássica do interior dos Estados Unidos, iluminada por toques de surrealismo lynchiano e pela fotografia de Frank Byers. Esse era seu elemento diferenciador. Na nova temporada, Lynch se dedica especialmente à estranheza e a compor e explicar teorias por meio de seu estilo único, o que faz, muitas vezes, com notável êxito. Alguns desses temas mencionados remetem a Twin Peaks, sem dúvida, mas eram tratados de maneira subentendida nas primeiras temporadas, por meio do desenvolvimento dos personagens. Voltar à cidade que o espectador admirou, junto com seu personagem central, não era o foco: o Double R, o Greath Northern e a delegacia de Twin Peaks foram, de certo modo, reduzidos a cenários de nostalgia. Os bosques só eram vistos praticamente em tomadas aéreas (belíssimas, por sinal).

É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks, que houve episódios surpreendentes. O clima funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (nas melhores atuações em conjunto) e o 14.
A partir principalmente do episódio 10, Lynch alternou bons ou ótimos momentos com alguns irregulares. Não é o caso desde episódio 16. Este é um exemplo do que Lynch poderia ter feito toda a temporada. E, perto do final, Lynch traz de volta o personagem que sempre tornou a série Twin Peaks conhecida, independente de todo o seu universo riquíssimo: o agente Cooper. Afinal, em certo momento pensou-se que ele nunca voltaria a aparecer – se desconsiderarmos que nos 3 primeiros episódios desta temporada ele vaga pelo White e Black Lodges –, escondido no corpo de Dougie Jones. Foi extraordinário. Sim, muitos estavam acompanhando a temporada também para rever o personagem. Neste episódio, ele aparece hospitalizado depois do choque no episódio anterior. Cuidado por Janey-E (Naomi Watts), seu filho Sonny Jim (Pierce Gagnon) e Bushnell Mullins (Don Murray), ele recebe ainda em coma a visita dos irmãos Mitchum, Rodney (Robert Knepper) e Bradley (James Belushi), carregando flores, e de suas assistentes, Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal).  É um momento divertido e remete aos melhores momentos da atmosfera de Twin Peaks: humor e drama juntos. Depois de Bushnell ouvir o mesmo som de eletricidade que Benjamin Horne ouvia com sua secretária no Greath Northern e Gordon Cole estar em meio às máquinas do escritório do FBI no hotel, o agente Cooper finalmente acorda, recebendo um conselho do Homem de Um Braço Só (Al Strobel), além do anel da Coruja (possivelmente para tentar colocar no Mr. C, que tenta evitar sua volta ao Black Lodge). Depois de dizer que está 100%, alerta a um surpreso Bushnell quando este lembra que agentes do FBI estão atrás dele: “Eu sou o FBI”.

O início do episódio, no entanto, é puro Black Lodge. O duplo mal de Cooper, Mr. C (Kyle MacLachlan), anda por uma estrada noturna, nos moldes dos filmes de Lynch, e leva Richard Horne (Eamon Farren) a um determinado lugar para simplesmente conduzi-lo a um monte de pedra onde recebe uma corrente elétrica. Surge, ao longe, correndo nada menos que seu tio Jerry (David Patrick Kelly). Richard é um bom exemplo de como Lynch tratou alguns personagens esta temporada: depois de aparecer em relances durante alguns episódios, ele é morto – de maneira impactante – sem ter uma cena em conjunto com sua mãe, Audrey. De qualquer modo, Richard foi apenas um conceito de Lynch, não um personagem. E, apesar da grande atuação de Farren, uma boa revelação, nunca lhe foi entregue um roteiro à altura nem inter-ligações suficientes para agregar à mitologia da série.
Ao mesmo tempo, Mr. C contacta Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh) que estão em frente à porta de Dougie Jones em Las Vegas. Veem os irmãos Mitchum chegarem, para abastecer a casa dos Jones com alimentos, e carros do FBI à procura dele. No entanto, quando um homem (Jonny Coyne) os aborda para que tirem sua van da entrada de sua casa, Chantal acelera contra o carro dele. O problema é que o sujeito está mais armado que ambos e os aniquila com uma chuva de balas. Trata-se de um dos momentos mais impactantes da temporada de Twin Peaks, uma aula de direção de David Lynch, e lembra muito o estilo de Tarantino. Não por acaso, os dois atores, Roth e Leigh, participaram de Os oito odiados, e Lynch faz o mesmo que Tarantino aqui: numa manhã ensolarada, de assuntos banais sobre salgadinhos entre Hutch e Chantal, surge o inesperado para dois matadores. Em um bairro pacífico, temos quase a taverna de Bastardos inglórios. E, ao verem o tiroteio, os irmãos Mitchum comentam como as pessoas estão nervosas hoje em dia.

Depois de sair do hospital, o agente Cooper acelera seu carro, para felicidade de Janey-E e Sonny-Jim que finalmente o veem falar depois de semanas, mas, principalmente, volta o tema central de Angelo Badalamenti para a série, mostrando que ela não é a mesma sem Cooper. A maneira como Lynch filma essa sequência traduz uma emoção para os espectadores recolhida desde os anos 90. Eles vão para o cassino dos irmãos Mitchum, onde o agente Cooper se despede de ambos, dizendo que vai voltar, no mesmo espaço entre as máquinas de jogos na qual sua trajetória neste retorno iniciou. As palavras do personagem aos dois remetem às melhores falas das duas primeiras temporadas, com sentimento, mas sem maniqueísmo. Nesta sequência, está impressa a sensibilidade de Lynch, que faltou em alguns instantes mais ásperos da retomada desse universo, prejudicados por uma montagem irregular. Além disso, dá oportunidade a MacLachlan e Watts de mostrarem atuações irretocáveis, assim como Gagnon tem uma boa participação. Cooper pede que os irmãos Mitchum o auxiliem a voar para Twin Peaks, onde deve ir até a delegacia.
Enquanto isso, Diane (Laura Dern) recebe uma mensagem de que deve matar seus companheiros de FBI. Num elevador com fundo vermelho – como se viesse do Black Lodge –, e com a mesma música de fundo que introduz Mr. C no início desta temporada, ela vai até o quarto onde estão Gordon Cole (David Lynch), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) e Thammy Preston (Chrysta Bell) e conta que quando recebeu a visita de Cooper anos antes – já o duplo mal – aconteceu um incidente terrível, que a fez não ser mais ela. E, quando ela tenta disparar neles, Thammy e Albert atiram de volta. Diane desaparece no ar, como Laura Palmer no segundo episódio, indo para o Black Lodge. Diante do Homem de Um Braço Só, ela vai sumindo como Dougie Jones, não sem antes sublinhar para ele: “Fuck you”. Ela se transforma na mesma esfera de metal em que Dougie havia se transformado no terceiro episódio. Onde estaria a Diane verdadeira?

O espectador então é transportado para a Roadhouse, onde se apresenta Edward Louis Severson, mais conhecido como Eddie Vedder (numa grande performance, cantando “Out of sand”), quando Audrey Horne (Sherilyn Fenn) e seu marido Charlie (Cark Middleton) chegam ao local. Depois do show de Vedder, o apresentador anuncia a dança de Audrey. Todos da Roadhouse se afastam para abrir a pista a Audrey, que dança a mesma música de Badalamenti do episódio em que encontra Donna Hayward no Double R e é a participação mais antológica da personagem. No entanto, surge um homem puxando briga no bar – o sonho se converte em pesadelo – e vemos Audrey se olhando num espelho, sem maquiagem, como se acordasse. Será do coma? Tudo seria um sonho?
Este episódio 16 é um verdadeiro exemplo do que Lynch é capaz de fazer em termos de mescla entre drama, comédia, ação e mistério, com uma sequência irretocável de cenas, sem nenhum desequilíbrio. Ao contrário do episódio anterior, em que a história ficava em círculos, aqui ele consegue, mesmo em cenas vagarosas, dar uma solução adequada ao contexto dos personagens. Toda a tensão que cercava a tentativa de matar Dougie é solucionada de maneira ágil, o que se esperava há alguns episódios. Além disso, o simples regresso da trilha sonora de Badalamenti acentua a atmosfera de Twin Peaks, sem praticamente ter cenas passadas na cidade. É um grande momento, também, para o elenco: pela primeira vez, há um elo verdadeiro dos irmãos Mitchum com a narrativa, assim como a rápida conversa entre Cooper e Bushnell mostra o humor e afeto do agente do FBI desaparecido há 25 anos. É como se finalmente a série tivesse tido uma continuidade em relação ao último episódio da segunda temporada. Twin Peaks, como o agente Cooper, renasce novamente, depois de alguns impasses, antecipando os aguardados dois capítulos finais, que serão exibidos na próxima semana. E, assim se espera, antecipando uma quarta temporada.

Twin Peaks – Episode 16, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Pierce Gagnon, Naomi Watts, Robert Knepper, James Belushi, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Eamon Farren, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 15) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Não parece ser mais surpresa que o pressuposto básico desta terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) é dialogar com o filme de 1992, cujo subtítulo é Fire walk with me, e explorar o conceito do duplo, já utilizado por Lynch em Estrada perdida, Cidade dos sonhos, Império dos sonhos e nas primeiras temporadas de Twin Peaks por meio de Laura/Maddie e Bob/Leland, além de ver os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens. A cada episódio, Lynch vem lidando com esses temas numa linha tênue entre o surrealismo e o simbolismo, com uma profusão de diálogos conceituais e cenas com gênero indefinido. O episódio 14 marcou o lado mais potencial desta temporada: o mistério da série em diálogo com histórias surpreendentes.
Neste capítulo 15, tudo começa com Big Ed Hurley (Everett McGill) conversando com Nadine (Wendy Robie), com sua pá de ouro em punho e querendo libertar o marido (lá se vão 25 anos), antes de ir ao Double R se encontrar com Norma Jennings (Peggy Lipton), que parece dar as costas para Walter (Grant Goodeve), seu novo interesse amoroso. Esses momentos são condensados por Lynch para solucionar o que esses personagens já sentiam desde as primeiras temporadas. Norma apareceu esporadicamente desta temporada e Big Ed apenas no episódio 13. Lynch não se mostra muito interessado em retomar esses personagens, e a participação deles soa como um toque de nostalgia, apesar das ótimas atuações de McGill e Robie. Um acréscimo é o visual dessas cenas, com cores vibrantes.

Logo em seguida, acompanhamos o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) numa estrada deserta, com os faróis iluminando a noite, até chegar a uma Loja de Conveniência. Ele é recebido por um woodsman, que o conduz até o segundo andar, a partir de onde suas imagens desaparecem. Mr. C entra num espaço com papel de parede cheio de flores, que remete ao sonho de Laura Palmer no filme Twin Peaks – Fire walk with me com um woodsman utilizando um aparelho de eletricidade, que víamos no Hap’s Diner quando Chester Desmond e Sam Stanley investigavam a morte de Teresa Banks. Ele é conduzido pelo woodsman que matou Hustings até o quarto onde estaria Phillip Jeffries. Lá, numa atmosfera assustadora, ele pergunta sobre Judy, a respeito da qual falava Jeffries no filme. Quem lhe responde é um sino gigante (com a voz de  Nathan Frizzel), semelhante ao que aparece no White Lodge. Transportado para a cabine telefônica que fica em frente à Loja, Mr. C é abordado por Richard Horne (Eamon Farren), que fala ser ele o agente Cooper, conhecido de sua mãe, Audrey. Se o episódio tivesse esse clima e elaboração seria ótimo. A imagem da Loja de Conveniência se mescla com a do bosque de Twin Peaks, onde se encontram Steven Burnett (Caleb Landry Jones), marido de Becky (Amanda Seyfried), e Gersten Hayward (Alicia Witt), aparentemente afetados por uma bad trip. O bosque sinaliza que há algo errado acontecendo com os dois, mas esse era o arco desenhado para dois personagens que mal se apresentaram? O melhor a se dizer é que Caleb e Witt têm uma ótima atuação, lembrando o drama de Cobain em Últimos dias. Um homem vê os dois e avisa a Carl Rodd (Harry Dean Stanton) do parque de trailers. A partir daqui, o episódio vai se perdendo.
James Hurley (James Marshall) reencontra Renee (Jessica Szhor), sua pretensão amorosa e casada. Depois de 25 anos, ele não descobriu uma maneira mais discreta de participar de uma conversa. Parece uma sina de James: ele também era amante de Laura e depois de Evelyn Marsh, para quem consertava carros na segunda temporada. Desta vez, por causa disso, ele se envolve numa briga de bar na Roadhouse, sendo auxiliado pelo amigo Freddie Sykes (Jake Wardle), que, com seu punho de borracha, machuca quem tenta espancar James. Ambos são levados para a delegacia, onde se encontram Chad Broxford (John Pirruccello), um homem bêbado (Jay Aaseng) e a mulher sem olhos (Nae Yuuki)  do episódio anterior.

Duncan Todd (Patrick Fischler) é assassinado a sangue frio por Chantal (Jennifer Jason Leigh) em Las Vegas, antes de ela dividir hambúrgueres com seu parceiro Hutch (Tim Roth) numa van e observar que Marte pode ser visto no céu, acima de fios de eletricidade, um diálogo certamente com as referências espaciais do Major Briggs e com o tom desse episódio, bastante melancólico.
Já Dougie Jones (Kyle MacLachlan) recebe outro pedaço de bolo de Janey-E (Naomi Watts), mas o roteiro deles parece ter se esgotado praticamente desde o episódio 6, ou seja, há quase dez capítulos não há uma evolução coerente. Neste, a parte mais interessante é quando Dougie sintoniza Crepúsculo dos deuses na TV e vê a personagem central do filme, Norma Desmond (Gloria Swanson), falando do produtor de cinema Gordon Cole. Dougie associa o nome ao antigo colega e se aproxima de uma tomada com um garfo colocando-o nela, até que há um clarão, que remete sobretudo a Império dos sonhos.
Muito se vem debatendo sobre a volta ou não de agente Cooper, que ainda vaga no corpo de Dougie Jones, tentando acordar. Alguns indicam que isso seria exigir uma concessão de parte de David Lynch. Tenho ainda em mente que Lynch, como grande criador, quis substituir o agente Cooper por seu agente Cole. Faz parte dele como artista querer isso. Se deu certo? Em certos momentos – até o capítulo 6, principalmente –, muito: Dougie de fato funcionou e Cole teve tiradas ótimas, reiteradas por sua fabulosa aparição no episódio 14. Mas, aos poucos, Dougie foi sendo deixado de lado, aparecendo mais nos episódios 11 e 13 – com Cole bastante presente a maior parte do tempo.

Nos episódios 8 e 14, dois dos melhores desta temporada, não há nem sinal de Dougie, e a impressão que se tem é que Lynch não explorou esse duplo totalmente, com prejuízos também à ótima personagem de Janey-E, que sustentou algumas cenas bravamente por causa do talento insuspeito de Naomi Watts. Havia espaço para desenhar um homem médio dos Estados Unidos, mas ficou num meio-termo. E cada vez que Lynch mostra seu duplo mal faz o espectador lembrar da imagem desagradável de encerramento da segunda temporada, o que me parece um equívoco de Lynch: Cooper é a imagem do equilíbrio de Twin Peaks e vê-lo sem poder agir como tal, a exemplo do seu próprio duplo do mal, confere um estranho destaque a este em detrimento daquele. Como admirador da série, entendo ter sido uma escolha equivocada de Lynch.
Já na delegacia de Twin Peaks, Hawk (Michael Horse) conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson), que lhe diz que está morrendo. Trata-se da cena mais emocionante do episódio, e Hawk avisa Andy (Harry Goaz), o xerife Truman (Robert Forster) Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e Lucy (Kimmy Robertson) como se fosse a despedida da atriz.

O problema novamente é que, a três episódios agora do fim desta temporada ou de Twin Peaks, o personagem de Audrey Horne continua a sua conversa com Charlie (Clark Middleton), que iniciou no episódio 12, e Sarah Palmer voltou a descansar depois do momento de violência impactante do anterior. Muitas, muitas perguntas e se espera que haja, sim, uma quarta temporada caso não tenhamos o desenvolvimento adequado para as histórias se concretizarem nesta. Alguns dos grandes méritos são a fotografia de Peter Deming e a atuação de MacLachlan. Mas, em termos de roteiro (e aqui Mark Frost também é responsável) e montagem, este episódio novamente se mostra bastante falho. Impressiona a irregularidade de Lynch ao montar os episódios desta temporada, desde o décimo pelo menos, independente de ele tratar tudo como um filme só (do qual apenas as cenas musicais na Roadhouse já tirariam o ritmo). Se o anterior colocava a história para a frente, este novamente deixa quase tudo em círculos. A participação de alguns personagens (até mesmo Audrey Horne, tão esperada ao longo de vários capítulos) soa dispensável, pois não há acréscimos.
Tudo novamente é muito conceitual, mas sem a devida formulação. É preciso admitir que, mesmo com momentos excepcionais (e um marco, o episódio 8), esta temporada não está cumprindo sua expectativa inicial, e mesmo que encerre com três grandes partes ficará sempre a sensação de várias tramas deslocadas e sem o devido desenvolvimento. O mais estranho é que Lynch soube fazer peças excepcionais, mas em outras simplesmente não conseguiu mostrar seu melhor talento. Percebe-se que os melhores momentos de seu trabalho possuem cenas longas e substanciais, com diálogos bem feitos, o que se ausenta praticamente aqui, com uma miscelânea de acontecimentos com detalhes interessantes, mas no todo desconjuntado. Chega a ser estranho: parece que de semana a semana a série vai mudando, mas não é uma falta de rumo experimental e interessante, e sim apenas desencontrada. Neste episódio 15, especialmente, há muitos equívocos no desenvolvimento. Fica até difícil aceitar que tudo se trata da obra de um mesmo diretor (as duas primeiras temporadas, com vários diretores, se sentiam com mais unidade). Um mistério como o próprio universo de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 15, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Peggy Lipton, Naomi Watts, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Everett McGill, Tim Roth, Kimmy Robertson, Jennifer Jason Leigh, Wendy Robie, Grant Goodeve, Catherine E. Coulson, Nathan Frizzel, Jessica Szhor, Eamon Farron, Harry Dean Stanton, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Patrick Fischler, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Charlyne Yi Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 13) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Depois de rever o episódio 12, fiquei pensando no enfoque dado aos personagens na terceira temporada de Twin Peaks e concluí que a série está mais para História real, no sentido de que mostra como pessoas de terceira idade estão presentes na definição de rumos, o que não se mostra muito comum em filmes ou séries. Carl Rodd mostra isso exemplarmente, assim como Ben Horne e o xerife Truman, além de Hawk, Senhora do Tronco, Bushnell Mullins, Dr. Hayward, Dr. Jacoby e Sarah Palmer, para não falar de Gordon Cole. Quando Lynch fez Twin Peaks nos anos 90, ele tinha 45, 46 anos. Hoje ele tem 71 anos. Não há quase jovens (Becky, Steve, Richard Horne, algumas jovens na Roadhouse sem muita definição, quem mais?). A cena de Rodd ajudando Kriscol no episódio 12 é magnífica nesse sentido. Essa visão dos Estados Unidos à la História real é o que marca essa temporada.

Não parece ser em vão que ele coloca Margaret, a Senhor do Tronco, como aquela que antecipa determinados rumos da trama. E isso é bastante interessante se analisarmos as facetas de Lynch: Veludo azul, Coração selvagem e Twin Peaks – Fire walk with me podem ser vistos como suas realizações sobre a juventude norte-americana, envolta em mistérios e estradas sem rumo. Ele mantinha certos elementos em A estrada perdida, mas em Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, mesmo por causa de temas ligados a Hollywood, seu interesse era o cinema como metalinguagem. Exatamente em História real David Lynch antecipava um olhar sobre a terceira idade no cinema, só vista com a mesma propriedade por um outro artista norte-americano em Nebraska, pelas lentes de Alexander Payne.
Mas, como em outras oportunidades, em se tratando de David Lynch, qualquer teoria pode se desfazer com a exibição de um capítulo e, se tudo isso pode ser um ângulo para sua série, talvez ele não seja padronizado. No episódio 13 da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), o diretor introduz com uma ótima sequência em que os irmãos Rodney Mitchum (Robert Knepper) e Bradley (James Belushi) chegam, com Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier), Mandie (Andrea Leal) e Dougie Jones (Kyle MacLachlan), num trenzinho de carnaval, ao escritório de Bushnell Mullins (Don Murray), para desespero de Anthony Sinclair (Tom Sizemore). Esta é uma das cenas mais divertidas certamente da temporada, seguida por aquela em que Janey-E (Naomi Watts) recebe os presentes dados pelos irmãos Mitchum: equipamentos para ginástica direcionados a Sonny Jim (Pierce Gagnon) e um novo carro espetacular. Sem esforço, Dougie vai fazendo o bem do White Lodge às pessoas a seu redor. Interessante é Janey-E dizer que Sonny Jim, brincando no presente dado, está no “sétimo céu”, que significa o paraíso, num diálogo especialmente com a parte simbólica do episódio 8. E deve-se reparar na trilha sonora de fundo: uma versão de “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, em forma de cantiga, como se delimitasse Dougie como o White Lodge.

A partir daí, Lynch novamente foca nas ações encadeadas pelo duplo mal de Cooper (MacLachlan). Ele vai até um galpão atrás de Ray Monroe (George Griffith), que atirou nele no oitavo episódio e está a serviço de Phillip Jeffries. O duplo mal arranja uma queda de braço com o líder dos traficantes, Rezo (Derek Mears). Olhando por um telão à chegada do duplo mal, Rezo lembra um gigante do White Lodge às avessas. Eis que surge Richard Horne (Eamon Farren). Esta cena introduz duas passagens ultraviolentas, em que o anel da Coruja, que simboliza a morte, leva o corpo de Ray para o Black Lodge. A necessidade de Lynch em estabelecer pontes com o filme Twin Peaks – Fire walk with me soa em determinados momentos fascinante e em outros apenas deslocada. Parece ser o caso aqui.
Por vezes, como admirador da série antiga, imagino se Lynch estava querendo mesmo voltar a este universo de modo decisivo. Os trechos que envolvem o duplo mal de Cooper e, depois, de Sinclair tentando envenenar Dougie, arrependendo-se antes de chegar às vias de fato, parecem pertencer a outro desejo de Lynch: de tornar tudo excessivamente lento – o que funcionou decisivamente quando havia mistério, até o capítulo 9, principalmente, e um tanto no 12 – para que nada se resolva. Esta trama envolvendo Dougie Jones, Anthony e Bushnell já se esgotou há pelo menos três episódios, mas Lynch insiste nela com grande dedicação, não impedindo que mesmo os recursos cômicos de Dougie e Janey-E se sintam nostálgicos dentro da própria série. Até os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), ao descobrirem que as digitais de Dougie apontam alguém que escapou da prisão em Dakota (seu duplo mal), fazem do papel com essa informação uma bolinha para atirar no lixo: seria um recado de Lynch ao espectador? Enquanto isso, Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh) saem da cena do crime do episódio anterior.

Mais estranho ainda é quando Lynch resolve se locomover para Twin Peaks, quando mostra Shelly (Mädchen Amick) conversando com sua filha Becky (Amanda Seyfried), à espera de Steve. Não há personagens desenvolvidos aqui: Becky já foi apresentada, mas o máximo que Lynch extrai da conversa é Shelly convidando a filha para uma torta de cereja, a mesma que alegra Dougie no café com Sinclair. É como se a torta de cereja simbolizasse o próprio White Lodge, um conceito interessante, no entanto aparentemente simples demais para o simbolismo detalhado de Lynch. São apenas acenos para a nostalgia: Lynch não está desenvolvendo nenhum acréscimo à história. Bobby Briggs (Dana Ashbrook) chega ao Double R para encontrar Norma (Peggy Lipton) e Big Ed Hurley (Everett McGill) e apenas sinaliza que o que já sabemos: o Major Briggs deixou pistas, segundo ele. Inacreditável, a uma altura dessas, é ver Norma se reunir com Walter (Grant Goodeve), que traz ideias para a franquia de lanchonetes dela. Há uma longa conversa expositiva sobre os ganhos e perdas de lucro naquela região. E, pelos olhares trocados com Norma, Big Ed continua apaixonado por ela.
Uma certa paciência vai sendo testada quando Nadine (Wendy Robie) se encontra com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn), que avista uma de suas pás de ouro na vitrine da loja dela (com cortinas silenciosas, como ela tanto gostava na primeira temporada) e, tudo indica, apresentando um flerte entre ambos (o que poderia ter acontecido no episódio anterior, quando praticamente se reprisou um programa de internet de Jacoby); quando Sarah Palmer (Grace Zabriskie) assiste a uma luta de boxe em preto e branco (seria com Bushnell Mullins?), com problemas na eletricidade da televisão (seriam os woodsmen?), enquanto Lynch comprova que ela ainda gosta de fumar muito e de infelizmente presenciar violência; e Audrey Horne (Sherilyn Fenn) ainda na mesma conversa com o marido, Charlie (Clark Middleton) do episódio anterior, afirmando, desta vez, que não se sente no lugar certo (uma possível sugestão ao espectador) e refere-se a Ghostwood, o projeto de seu pai Ben, contra o qual protestava quando ocorreu a explosão no banco no final da segunda temporada, fazendo com que ficasse em coma. Estaria Audrey num universo paralelo ou ainda no hospital, imaginando essa vida angustiante? Tantas referências a uma nostalgia sem desenvolvimento só poderiam se encerrar com um show de James Hurley (James Marshall) na Roadhouse, cantando a mesma música, “Just you”, que cantou na segunda temporada com Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) e a prima de Laura Palmer, Maddie (Shery Lee).

Lynch é um grande artista – isso é comprovado – e nesta temporada mostrou momentos que entraram para a história da televisão (nunca esqueçamos a parte 8), mas um episódio como este é um tanto inexplicável mesmo para quem aceitou a nova proposta da série. Lamenta-se que Lynch passe um capítulo inteiro apenas imbuído em repetir tramas que poderiam ter sido concluídas facilmente em episódios anteriores ou circunscrever diálogos repetidos o que o espectador já sabe. O que me parece, no entanto, e isso se localiza principalmente nos capítulos 7, 10, 11 e um tanto no 12 é que a montagem por vezes vagarosa (e bastante funcional na maior parte do tempo) começa a dar espaço excessivo para tramas que não se completam, vão se expandindo em excesso. O início delas foi instigante; sua resolução está sendo muito simplista. Muitos dos elementos funcionavam de maneira irretocável até a sexta  parte e depois se perderam um pouco. As pistas deixadas pelo major Briggs no capítulo 9 não foram concluídas e parece que serão apenas no final, o que não deixa de ser decepcionante. O espectador, de certo modo, se sente como Big Ed Hurley ao final deste episódio, esperando que algo aconteça. Para Lynch, praticamente não há história para acontecer exatamente na cidade de Twin Peaks, a não ser aquela que interliga as pistas de Briggs e os efeitos do duplo mal de Cooper. Tudo se sente motivo para uma nostalgia de que nada voltará, inclusive o agente Cooper, a não ser possivelmente num clímax (que se espera à altura de Lynch). Nesses momentos, a série funciona como parte de um universo abrangente de Lynch e Mark Frost (representado pela figura do major Briggs e dos agentes do FBI), mas não exatamente como uma continuação verdadeira das duas primeiras temporadas de Twin Peaks no sentido de desenvolvimento de personagens e tramas paralelas principalmente, habitando muito mais um espaço conceitual. É um paradoxo e acredito que Lynch queira desse modo, embora não acredite ter sido o melhor caminho.

Twin Peaks – Episode 13, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Grace Zabriskie, Pierce Gagnon, Peggy Lipton, Naomi Watts, Mädchen Amick, Amanda Seyfried, Dana Ashbrook, Robert Knepper, James Belushi, Everett McGill, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Tom Sizemore, Don Murray, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Wendy Robie, Russ Tamblyn, James Marshall, Derek Mears, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Clark Middleton, Grant Goodeve Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 12) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Ao rever o episódio 11 durante a semana, refleti melhor sobre a sequência final, em que Dougie Jones está no restaurante com os irmãos Mitchum e a senhora que ele ajuda num cassino de Las Vegas se aproxima para agradecê-lo, falando que ela recuperou sua vida. A interpretação de MacLachlan neste momento é muito sensível, mas, ainda aguardando a volta do agente Cooper, parecia um excesso de David Lynch em mostrar o personagem tentando lembrar de onde lembrava da torta de cereja que lhe era servida. No entanto, revendo os irmãos Mitchum, pode-se dizer que não apenas eles não possuem o peso dado inicialmente, no sentido da violência, como Lynch os visualiza como duas figuras que desejam realmente estabelecer amizade com aquele visto até então como um inimigo. Quando um deles relembra dos tempos de orfanato, esses personagens adquirem uma certa despretensão ligada à máfia dos irmãos Horne nas duas primeiras temporadas. Nesse sentido, a atuação de James Belushi adquire outro contorno e o olhar vago e melancólico de Dougie Jones parece relembrar de que Twin Peaks, 25 anos depois, não é a mesma – e Lynch nem quer assim. Mais: Lynch aponta que uma mera torta de cereja pode amenizar ligações com o Black Lodge. Não deixa de ser uma volta à essência de Twin Peaks: o amor e a amizade combatem sucessivamente o mal, e esta sequência, encerrada com um número ao piano, sintetiza bem isso.

O episódio 12 da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) inicia com Tammy Preston (Chrysta Bell) sendo convidada por Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) a fazer parte da equipe de investigação do FBI da “Rosa Azul”, ou seja, a respeito de acontecimentos sobrenaturais. Este é um tema já tratado no filme para o cinema e no quarto episódio desta temporada (mais aqui). De forma sugestiva, o convite é feito numa sala com uma cortina vermelha ao fundo. Quem chega em seguida é Diane (Laura Dern), sendo convidada a integrar a equipe e respondendo “Let’s rock”. Lembre-se que esta é uma fala do Anão/Braço (Michael Anderson) no sonho do terceiro episódio da segunda temporada, antes de Laura Palmer aparecer para o agente Cooper oferecendo pistas para o caso, e também uma frase escrita no para-brisa de um carro do parque de trailers de Carl Rodd quando o agente Cooper vai investigar o desaparecimento do agente Chester Desmond (Chris Isaak) em Deer Medow em Twin Peaks – Fire walk with me (ver terceira imagem acima). Chester também é mencionado como parte da equipe em que o único não desaparecido é Albert e da qual Philip Jeffries (David Bowie) era o líder. Interessante como David Lynch vai transformando cada vez mais o filme na principal referência para esta temporada. As discussões sobre o milho e o fogo (que parece uma eletricidade moderna) do episódio anterior por Hawk apontam exatamente para um confronto do bem com o Black Lodge.

Lynch corta para Jerry Horne (David Patrick Kelly) finalmente abandonando o bosque, numa corrida talvez esperançosa rumo a algum sentido, enquanto o xerife Truman (Robert Forster) vai fazer uma visita a Benjamin Horne (Richard Beymer), contando que seu neto Richard foi o responsável pelo atropelamento e morte do menino (no sexto episódio) e agrediu a principal testemunha, Miriam (Sarah Jean Long), internada no hospital de Twin Peaks, em imagens que remetem às duas primeiras temporadas. Ben se responsabiliza em pagar os custos do atendimento e entrega a chave do quarto do agente Cooper, enviada por Jade no quinto episódio, para o xerife levá-la ao seu irmão. Mais ainda: como na segunda temporada, em que o personagem busca sair do seu mundo, Ben volta à infância, lembrando o presente de bicicleta do pai, numa atuação magnífica de Beymer. Logo surge Beverly Page (Ashley Judd), lamentando pelo ocorrido.
Também é magnífica a atuação de Grace Zabriskie como Sarah Palmer, em visita ao supermercado e se descontrolando no caixa ao ver sendo vendida carne de peru seca. É importante dizer que não se sabe o que realmente a atormenta (será por que o lugar lhe lembra uma loja de conveniência?), mas Laura Palmer, antes de morrer, se comparava justamente a esse animal para James Hurley, numa das frases enigmáticas do filme. O policial Hawk (Michael Horse) vai fazer uma visita a Sarah, vendo se ela está bem, e surge a imagem do temível ventilador da casa dos Palmer – o aviso das aparições de Bob. Hawk pergunta se há alguém na casa. Deixa-se subentendido que Sarah também guarda segredos como seu falecido marido.

Dougie Jones (Kyle MacLachlan) é mostrado de relance jogando beisebol com seu filho Sonny Jim (Pierce Gagnon), ou melhor, olhando a bola ser jogada. Já Carl Rodd (Harry Dean Stanton), no parque de trailers, pede para que um dos moradores, Kriscol (Bill O’Dell), não doe mais sangue para o hospital e perdoa sua dívida adiantada. A cena é simples, mas muito singela, lembrando uma atmosfera de bondade que há em Twin Peaks contra o Black Lodge.
Lynch, no entanto, impede que Dougie apareça mais e se tenha continuidade com os irmãos Mitchum, destacados nos dois capítulos anteriores. Novamente, como Cole, ele participa de uma sequência um tanto estendida, em que está no seu quarto de hotel com uma francesa (Berenice Marlohe, que aparece no recente De canção em canção, de Malick) e Albert chega, pedindo para que ela saia. A cena ser estendida não prejudica o episódio, e sim outros personagens que mereciam mais participação. Sente-se novamente uma autoindulgência de Lynch com seu personagem e, ao mesmo tempo, uma atenção para Albert que a série felizmente comemora desde o primeiro episódio (numa despedida de Miguel Ferrer).
A parte na qual Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh) matam o diretor do presídio Warren Murphy (James Morrison) onde estava o duplo mal de Cooper não acrescenta à trama, embora seja muito bem filmada, e poderia muito bem aparecer em algum diálogo expositivo. Do mesmo modo, fica um pouco difícil entender por que Lynch continua a mostrar o Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) sendo assistido por Nadine (Wendy Robie) do mesmo modo que em outros episódios. Dá a impressão de ter filmado uma longa sequência para espalhá-la em diferentes episódios, o que causa certo incômodo, além de repetir tons no discurso de Jacoby. Em caminho parecido, segue a participação de Diane, em contatos enigmáticos com o duplo mal de Cooper e indo atrás das coordenadas fotografadas por Albert no braço de Ruth Davenport no episódio anterior.

Eis que talvez na sequência mais esperada depois do início da série surge Audrey Horne (Sherilyn Fenn), cobrando do marido Charlie (Clark Middleton), um advogado, uma atitude sobre o desaparecimento de um determinado Billy. Trata-se de uma das sequências mais longas até agora da temporada e justifica cada segundo, pela atuação excepcional de Fenn acompanhada por um ótimo Middleton. Pode-se perceber o quanto a atriz, como Dana Ashbrook, no papel de Bobby Briggs, estava realmente decidida a mostrar um trabalho de destaque. Ao final, Trick (Scott Coffey, diretor de Vida de adulto e intérprete de um dos coelhos em Império dos sonhos) encontra duas amigas, Natalie (Ana de la Reguera) e Abbie (Elizabeth Anweis), na Roadhouse, ambas tratando de um triângulo amoroso que o espectador desconhece, como desconhece os rumos desta trama imprevista. O episódio 12, de modo geral, tem os problemas dos dois anteriores, mas traz atuações substancialmente potentes, a exemplo daquelas de Fenn, Beymer, Middleton, Dean Stanton e Zabriskie, constituindo um episódio interessante e importante para a série. Apesar de quase não acrescentar novas informações, os vínculos entre os personagens mostrados funcionam, assim como a trilha sonora de Badalamenti e a fotografia de Deming. Lamenta-se apenas, novamente, que não se dê o devido destaque a Dougie Jones e sua esposa Janey-E (Naomi Watts). Tudo se encaminha – e nessa altura já se aceita – que o agente Cooper voltará em poucos episódios. Esperemos que a Showtime aposte numa quarta temporada, mesmo para justificar novos personagens e outros antigos que pouco apareceram até agora.

Twin Peaks – Episode 12, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Michael Horse, Clark Middleton, Grace Zabriskie, Chrysta Bell, David Lynch, Miguel Ferrer, Laura Dern, Harry Dean Stanton, Robert Forster, Ashley Judd, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Sarah Jean Long, Pierce Gagnon, Scott Coffey, Ana de la Reguera, Elizabeth Anweis, Berenice Marlohe, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, James Morrison, Wendy Robie, Russ Tamblyn Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 9) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Depois do revolucionário oitavo episódio da série Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch volta, digamos assim, à narrativa mais estruturada que marcava os episódios iniciais. Não era possível imaginar que o mesmo tom experimental se mantivesse, embora não saibamos o que Lynch prepara para os próximos, talvez mesmo uma retomada. Desta vez, acompanhamos o Mr. C (Kyle MacLachlan), o duplo mal de Cooper, voltando da sua noite complicada por um tiro e pelos woodsmen para encontrar dois funcionários seus numa fazenda, Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh). Ele liga para outro funcionário, Duncan Todd (Patrick Fischler), situado num cassino em Las Vegas, como já vimos em episódios anteriores, certamente cobrando pela morte não consumada de Dougie. Por sua vez, Hutch tenta agradar a Mr. C. cobrando de Chantal um tratamento mais íntimo. Enquanto isso, Gordon Cole (David Lynch) pede para o piloto do avião levar sua equipe, Diane (Laura Dern), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), para Buckhorn.

Eles ficam sabendo que encontraram o corpo do Major Briggs por meio da tenente Knox (Adele René). Coisas estranhas no ar. Em Las Vegas, os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), interrogam o chefe de Dougie Jones, Bushnell Mullins (Don Murray). Incomodado com a falta de reação dos detetives às suas dúvidas, Bushnell parece preparar seus punhos de tempos de boxeador. Dougie/Cooper (MacLachlan) e Janey-E (Naomi Watts) estão na sala de espera. “Será que é bom interrogá-lo?”, pergunta um dos irmãos. “É como falar com um cachorro”, responde D. Fusco. Bem, o espectador sabe que Dougie é mais divertido do que todos que tentam fazer rir nesta temporada. Eles descobrem quem tentou matar Dougie: foi Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), antigo conhecido. Os policiais conseguem localizar o quase anão. Já Dougie/Cooper observa a sala de espera da delegacia e nota que a haste que sustenta a bandeira dos Estados Unidos lembra uma haste que há no Black Lodge, assim como associa o vermelho do sapato de uma mulher que passa ali com as cortinas do lugar onde ficou preso 25 anos e olha fixamente para duas tomadas, talvez lembrando por onde passou até voltar.
Chegando a Buckhorn, a equipe de Gordon conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams) e ficam sabendo que encontraram o anel de Dougie Jones dentro do corpo do Major Briggs. Tammy Preston vai interrogar William Hastings (Matthew Lillard), o diretor da escola. Ele manteria um blog com a ajuda da bibliotecária que teria assassinado, Ruth Davenport – tema do primeiro e segundo episódios principalmente. Neste blog, ele trata de um universo alternativo, onde teria encontrado o Major Briggs. Esse universo possivelmente tem relação com o Black Lodge, apresentado desde a origem por Lynch no oitavo episódio. Mais do que em outros momentos desta temporada, este é um momento que dialoga com Arquivo X, sabendo-se que esta série foi influenciada por Twin Peaks. A atmosfera na sala de interrogatório é apresentada de modo irretocável por Lynch.

Em Twin Peaks, Bobby Briggs (Dana Ashbrook), o xerife Truman (Robert Forster) e Hawk (Michael Horse) vão à casa da mãe de Bobby, Betty (Charlotte Stewart). Ela relata que o Major havia lhe avisado que eles a procurariam para tratar do agente Cooper, antes de morrer. Ele teria deixado um objeto escondido numa cadeira. As palavras que Betty diz ao filho lembram as do major no primeiro episódio da segunda temporada, quando ele se encontra com Bobby no Double R. Indo à delegacia, descobrem que dentro do objeto há dois pedaços de papel com pistas para saber onde estaria o agente Cooper. Trata-se da indicação de um lugar apelidado quando criança por Bobby de Palácio de Jack Rabbit. A maneira como essa informação é descoberta lida com o som, tão presente de forma temática na obra de Lynch, desde os módulos usados pelos Fremen em Duna até a orelha encontrada em Veludo azul e que levava à descoberta de um universo subterrâneo na pequena cidade do personagem central.
Se Lucy (Kimmy Robertson) e Andy (Harry Goaz) discutem sobre a cor do sofá que pretendem comprar para sua casa e Chad Broxford (John Pirruccello) usa a sala de reuniões para almoçar e é repreendido, respondendo não saber o motivo, pois todos vivem comendo donuts ali, Jerry Horne (David Patrick Kelly) continua em viagem com psicotrópicos no bosque de Twin Peaks, tentando analisar sua perna, e seu irmão Ben (Richard Beymer) continua flertando com a secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram novamente identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório, agora muito parecido com o do objeto deixado pelo Major Briggs. Não parece haver dúvida de que o som está anunciando a volta de Cooper.

David Lynch insere, em meio a isso, duas passagens estranhíssimas: Johnny Horne (Eric Rondell), filho de Benjamin, correndo por uma casa até bater com a cabeça numa parede e, principalmente, duas jovens conversando na Roadhouse e uma delas (a cantora Sky Ferreira, surpreendentemente bem, parecendo uma junkie) com uma certa alergia inconveniente numa das axilas. Lembremos que no piloto da primeira temporada Johnny ficava batendo com a cabeça (sempre coberta por um cocar indígena) em sua casinha de madeira para brincar, pois Laura Palmer, que havia sido assassinada e era sua professora, não estava com ele.
Lynch retoma neste episódio a trama que se estende desde o primeiro, com a prisão de Hustings e a descoberta do corpo de Briggs. Ele extrai uma performance brilhante de Lillard como Hustings, mas aqui sobretudo confere grandes falas a Albert. Num dos momentos mais interessantes do episódio, quase caseiro, Gordon e Tammy vão fazer companhia a Diane, que está fumando, e ela compartilha o cigarro com o antigo chefe, que parou de fumar. É uma cena lenta, mas compensa pela intimidade entre Lynch e Dern, aqui mais comedida em relação ao episódio 7, no qual surgiu com mais destaque. Este episódio, assim como o primeiro, o quarto e quinto lidam mais com investigações por meio de interrogatórios, fazendo lembrar a segunda temporada da série, com um certo tom mais soturno, embora muitas vezes bem-humorado.

Para quem esperava mais explicações sobre os acontecimentos do episódio 8, esta nova etapa da série pode decepcionar, mas Lynch consegue extrair muito de pequenas situações, concretizando melhor o tom cômico de Diane nas suas passagens, assim como a estranheza dos irmãos Fusco na investigação sobre Dougie Jones/Cooper. Lamenta-se, porém, a pouca presença de Dougie e Janey-E, sempre propensos a bons momentos de comicidade. A maior presença de Bobby Briggs, assim como o ressurgimento de sua mãe, por outro lado, é uma bela retomada das primeiras temporadas de Twin Peaks (Dana Ashbrook está muito bem), embora ainda não tenhamos nenhum sinal de Audrey Horne. Onde ela estaria? Esperamos que David Lynch nos traga de volta uma das melhores personagens da série, o quanto antes. O que temos, ainda bem, é o prosseguimento de uma série que se mostra a cada episódio excelente, com ou sem surrealismo e a fotografia notável de Peter Deming, jogando com as luzes e sombras, de maneira muito sutil. Percebe-se que Lynch, pela maneira como apresenta a história, parece confiar numa quarta temporada: determinados personagens têm surgido e desaparecem com a clara proposta de que suas histórias serão desenvolvidas em novos episódios desta ou de uma próxima temporada. O Showtime, levando em conta a recepção da série, não pensará duas vezes.

Twin Peaks – Episode 9, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Patrick Fischler, David Lynch, Laura Dern, Chrysta Bell, Miguel Ferrer, Adele René, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Naomi Watts, Christophe Zajac-Denek, Brent Briscoe, Jane Adams, Matthew Lillard, Dana Ashbrook, Robert Forster, Michael Horse, Kimmy Robertson, Harry Goaz, John Pirruccello, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Ashley Judd, Eric Rondell, Sky Ferreira Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Os oito odiados (2015)

Por André Dick

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Depois de Django livre, Tarantino volta ao gênero do faroeste em que desenhava um panorama da escravidão nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que oferecia uma vingança a seu personagem principal, interpretado por Jamie Foxx. Em Os oito odiados, novamente com uma fotografia excepcional de seu habitual parceiro, Robert Richardson, Tarantino volta a mostrar não exatamente surpresas na estrutura do roteiro (dividido em capítulos como os seus melhores filmes, a começar por Bastardos inglórios), mas na maneira de captar a ação. É como se ele tivesse vendo a estrutura de alguns filmes europeus (vide O gebo e a sombra), com uma caracterização quase teatral. Enquanto Django livre era um faroeste inteligente e plástico, sua sustentação se dava principalmente pelas cenas de tiroteio com a característica mais pop de Tarantino.
Em Os oito odiados, John Ruth (Kurt Russell) leva uma prisioneira algemada a seu braço, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), numa diligência conduzida por OB Jackson (James Parks), quando se depara com a figura do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e, em seguida, com aquele que se diz novo xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins). Numa nevasca complicada, eles acabam parando na hospedaria acolhedora de Minnie, antes de onde deveriam ficar, exatamente a cidade de Mannix. Na hospedaria, encontram o General Sandy Smithers (Bruce Dern), Oswaldo Mobray (Tim Roth, pouco mais de vinte anos depois de fazer o assaltante nervoso de Pulp Fiction), Bob (Demian Bichir) e Joe Gage (Michael Madsen).

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Interessante como cada personagem parece ter uma característica que parece defini-lo, a começar com Mannix, visto como um covarde por John Ruth e Major Marquis. Oswaldo Mobray é uma espécie de inglês elegante apegado às vítimas que ainda fará, Bob se mostra como o mexicano solícito, Joe Gage (talvez uma brincadeira com John Cage, o músico de vanguarda) como aquele interessado em visitar a sua mãe e escrever em seu diário, e o General Sandy Smithers não pretende sair de seu silêncio numa poltrona acomodada longe da porta.
Todos esses personagens ganham um espaço e a demora que leva para cada um entrar ou sair do estabelecimento de Minnie concedem suspense para a narrativa, justificando a montagem de Fred Raskin, colaborador de Tarantino desde Django livre e substituto de Sally Menken, a montadora dos clássicos do diretor. Há uma base nítida não apenas em filmes europeus (o já citado O gebo e a sombra e O cavalo de Turim); Tarantino leva para o cinema a mesma peça que encenou inicialmente quando ainda decidia se faria o filme ou não. A colocação de estacas pelos personagens para encontrar o banheiro na nevasca é um exemplo claro de que se dá importância aqui a uma lentidão que não havia na narrativa apressada de Django livre. Ou quando Ruth adentra a hospedaria e procura por comida ou café, sem considerar quem se encontra no lugar.
Ao mesmo tempo, o design de produção deste filme parece mais rico e dialogar mais com o Velho Oeste do que o de Django livre. Todos os detalhes (da paisagem invernal à concepção rústica da hospedaria) recebem um cuidado por parte de Tarantino, inclusive alguns que não são comuns em sua trajetória. Outro exemplo: a trilha sonora de Ennio Morricone (cujas notas lembram aquelas de Os intocáveis) supera a escolha de canções dos últimos filmes de Tarantino que mais usavam esse elemento (Kill Bill – Vol 1 e Django livre). Ou seja, nesses filmes, em algum momento, o diretor parecia não mesclar música e imagens, senão simplesmente colocar a imagem como pano de fundo para a música que transcorria – a longa cavalgada de Django até a fazenda do vilão feito por DiCaprio é um exemplo clássico dessa tendência de Tarantino.

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Além disso, a trilha de Morricone parece soar estranha no conjunto, pois lembra mais os acordes empregados num filme de terror ou de suspense, mais especificamente com outro filme em que homens ficam presos num lugar, numa determinada estação do Ártico, em O enigma de outro mundo. Tarantino imagina, mais do que John Carpenter, de qualquer modo um Sam Peckinpah. Ao contrário de discussões sobre quem pode carregar um alien, há referências à escravidão, à aversão aos mexicanos, ao racismo, à rivalidade entre o sul e o norte dos Estados Unidos e nenhum dos personagens se coloca como isento de culpa.
Em termos plásticos, mesmo pela fotografia cuidadosa de Richardson, não se pode deixar de ver algumas semelhanças do filme, como O regresso, diante da obra O portal do paraíso, de Cimino, sobretudo porque a ação se passa no Wyoming, e com a obra estrelada por Warren Beatty nos anos 70, Quando os homens são homens, tanto pelas paisagens gélidas quanto pelo inesperado comportamento dos personagens. Esta plasticidade, no entanto, só é realmente destacada por causa do elenco, sobretudo Samuel L. Jackson, que consegue suas melhores atuações justamente com Tarantino. Assim como em Pulp Ficition, ele é aquele que tece o elo entre os personagens, entre a justificativa de vingança e a necessidade de estabelecer acordos, entre a intranquilidade e o sossego diante das piores situações. É um personagem bastante ambíguo, como todos os outros, ao qual Tarantino dá especial atenção porque sabe que sua obra depende dele para render.
E Tarantino sempre cresce, com seus personagens, em lugares delimitados, e por isso suas obras Kill Bill – Vol. 1 e Django livre se sentem um pouco mais dispersas exceto nas sequências de confrontos pessoais.

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Assim, ele parece conduzir melhor seus filmes quando coloca os personagens em situações no limite em lugares demarcados. A interação do personagem de Jackson com os demais é sustentada pelo confronto de olhares, uma especialidade do ator e também de seu companheiro de cena, Bruce Dern, logo depois de Nebraska e numa situação mais delicada, enquanto Russell e Jason Leigh compõem uma dupla inquieta e implacável – e quando surge um momento de alívio, e é dada à personagem dela o direito de cantar uma música, Tarantino lembra de que seu filme trata de outro tema. A aparenta passividade dos personagens contrasta com a violência que carregam, principalmente de Ruth e sua prisioneira. O sangue, no filme, respinga sobre o gelo e não há fogo que possa aquecer esses personagens, em razão da frieza que carregam. Nesse sentido, Tarantino compõe um faroeste que tem as características do gênero apenas em sua superfície – quando esconde, mais ao chão, sua verdadeira subversão e seus diálogos que rumam a uma situação indefinida.
Daí, talvez, ser Os oito odiados o filme mais violento de Tarantino, com cenas realmente de desviar o olhar, numa espécie de diálogo com o mais recente Refn, de Drive e Apenas Deus perdoa. E talvez por isso ele coloque em cena imagens religiosas que possam tentar salvar esse universo e os homens e mulheres que habitam esse universo – sendo a mulher o símbolo da solidão e uma espécie de figura associada às bruxas, como era vista em uma determinada época. A violência contra a mulher em Os oito odiados é perturbadora, mais do que em qualquer obra de Tarantino, mas cria uma correspondência com a imagem de Jesus Cristo crucificado logo no início do filme, quando surge, ao fundo, a diligência que dá início à história. E a narrativa centra também suas expectativas em discussões políticas, sobre a Guerra Civil dos EUA e sobre uma determinada carta de Abraham Lincoln a um de seus personagens, podendo ser verdadeira ou não. O encontro entre esses personagens não é motivo apenas para uma sequência ininterrupta de diálogos, alguns deles extensos, e num contato direto com outras obras de Tarantino, e sim com uma teatralidade conduzida com esmero impressionante. A maneira como o cineasta leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória de Tarantino e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

The hateful eight, EUA, 2015 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern, Michael Madsen, James Parks Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Ennio Morricone Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher Duração: 182 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Columbia Pictures / The Weinstein Company

Cotação 5 estrelas

Estrela solitária (2005)

Por André Dick

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Uma das obras-primas dos anos 80, Paris, Texas trazia uma parceria de Wim Wenders com o ator e dramaturgo Sam Shepard e uma narrativa sobre um homem preso ao passado (Harry Dean Stanton) caminhando por paisagens desertas e trilhos de trem, afastado da esposa e do filho. O filme recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, para o qual os mesmos Wenders e Shepard voltaram pouco mais de vinte anos depois, em 2005, com Estrela solitária, desta vez sem a mesma recepção e visto de maneira duvidosa como mais um filme de Wenders que não se alça aos grandes momentos dos anos 70 e 80 (nos anos 90, ainda faria o ótimo, embora esquecido, Além do fim do mundo). Wenders é um dos grandes autores do cinema alemão e universal, e nos anos 80 ficou conhecida sua imersão na cultura dos Estados Unidos, principalmente por Hammett e, em seguida, por Paris, Texas. Ele já trazia, no entanto, esta influência em O amigo americano, dos anos 70, com Dennis Hopper no papel de um gângster que lida com pinturas.
Em Estrela solitária, Sam Shepard faz Howard Spence, um ator de faroestes, que decide largar as filmagens de uma nova produção, em Moab, Utah, para ir ao encontro sua mãe (Eva Marie Saint), em Elko, Nevada. Tentando fugir de uma vida agitada, Spence tenta se abrigar novamente em sua casa de infância, mas reage a qualquer intrusão alheia com o nervosismo de alguém que não sustenta mais a posição de ser um astro do cinema. A partir de um álbum de recortes da mãe, ele lembra de seus problemas e num instante já se encontra num cassino – onde a principal inspiração parece ser O fundo do coração, de Coppola. A mãe lhe conta que ele possivelmente tem um filho, de um antigo caso, o que o faz viajar para Butte, Montana, mesmo lugar onde fez um filme duas décadas antes, em que era Jesse James.

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No seu encalço segue um detetive, Sutter (Tim Roth), contratado pelos produtores do filme, como se estivesse não apenas do fora da lei de Hollywood como de um mito que já não se leva a sério – mesmo com um cavalo. Esta história já se viu outras vezes, mas com o visual de Estrela solitária possivelmente não. Wenders, influenciado mais uma vez pelo pintor Edward Hopper, assim como em Paris, Texas, mostra esta busca de Howard com cores vivas e que se correspondem também com O fundo do coração, numa espécie de descoberta da América contemporânea. O diretor de fotografia Franz Lustig faz um trabalho realmente memorável, assim como o design de produção trabalha com os objetos em cena e detalhes como se fossem elementos de uma pintura de Hopper. Quando Spence chega a Butte, os enquadramentos são registros vivos de pinturas de Hopper e, ao mesmo tempo em que isso soa orgânico, numa cidade com ruas vazias e bares em que há uma nova geração de artistas tentando fazer carreira, simbolizada por Earl (Gabriel Mann), também há salas de ginástica e vidraças anunciando computadores, como se o passado fosse afetado permanentemente pelo lugar contemporâneo. Talvez Wenders nunca tenha feito um filme tão aparentemente ligado às coisas concretas tão abstrato: o comportamento dos personagens não é explicado logicamente de forma completa, assim como as personagens de Doreen (Lange) e Sky (Polley), uma menina com blusa vermelha que carrega a urna azul com as cinzas da mãe e tenta estabelecer um contato com Spence, ou Âmbar (Fairuza Balk). Todos esses personagens, de algum modo, podem ser associados a móveis e objetos jogados por uma janela e que não soam incômodos numa rua em que não passa nenhum carro.

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Embora eu não entenda a separação que se faz do cinema de Wenders dos anos 80 deste do novo milênio – as características básicas são as mesmas –, entendo que este filme não tem a carga emocional de Paris, Texas, cuja história original era de Shepard. No entanto, trata-se de uma obra bastante envolvente, não apenas pela presença de Shepard, como pelas atuações expressivas de Jessica Lange e Sarah Polley, como a jovem Sky (e realmente todos os ângulos usados por Wenders para filmá-la lembram uma espécie de luz), que busca dialogar com Spence. Trata-se de uma obra mais próxima de um O estado das coisas, que também mostrava problemas durante uma filmagem, optando, porém, em mostrar a vida de um homem que se cansou de ser astro, e ainda assim não deixa de vivenciar experiências de um cowboy contemporâneo amargurado. O personagem de Shepard não deixa de lembrar também aquele feito por Dennis Hopper em O amigo americano, assim como as cores do filme: embora pareça se tratar de um homem buscando uma casa depois de velho, ele também representa uma despedida simbólica do símbolo heroico dos Estados Unidos. Esse heroísmo não é de todo descartado, pois, em meio às perdas e à aceitação dela, Spencer de certo modo desperta um otimismo imprevisto. Por isso, a atuação de Shepard é tão contida e, finalmente, tão animadora: ele é um mito que descobre sua realidade e isso pode dizer muito dos momentos em que voltará a conhecer sua casa. O ritmo é bastante lento, com sensações dos personagens descritas mais por imagens do que por palavras – e este continua sendo outro diferencial do cinema de Wim Wenders, que alguns anos depois faria a pintura em movimento intitulada Pina. Se o espectador está de acordo com a proposta, Estrela solitária é um grande momento do cineasta.

Don’t come knocking, ALE/FRA/EUA, 2005 Diretor: Wim Wenders Elenco: Sam Shepard,  Jessica Lange, Sarah Polley, Eva Marie Saint, Fairuza Balk, Gabriel Mann, Tim Roth Roteiro: Sam Shepard, Wim Wenders Fotografia: Franz Lustig Trilha Sonora: Joe Sublett, T-Bone Burnett Produção: In-Ah Lee, Karsten Brünig, Peter Schwartzkopff Duração: 122 min. Distribuidora: Sony Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

Pulp Fiction – Tempo de violência (1994)

Por André Dick

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É  preciso ingressar no universo de Quentin Tarantino para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher do chefe, Mia (Uma Thurman), por uma noite. Tarantino leva o casal o casal para uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, também com sósias de James Dean e Marilyn Monroe, onde Vincent tenta demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake e comentar sobre o passado de outro capanga selecionado para cuidá-la. De acordo com o ambiente, a conversa desvia para o plano da atuação:  Mia participou de um piloto de série de TV, e Vincent, com suas pulp fictions de bolso, deseja participar desse universo paralelo. Trata-se de uma das sequências mais divertidas, com elementos de videoclipe, e referências a Os embalos de sábado à noite, ainda que vaga e estranha, pois não se sabe ao certo se termina em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.

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Em outra história, temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo, na II Guerra Mundial. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com uma taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gângsteres que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes (Amanda Plummer e Tim Roth) que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

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São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial de Andrzej Sekula (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem com precisão rítmica de Sally Menke, que participou dos filmes de Tarantino até Bastardos inglórios e veio a falecer em 2010 (e é justamente a montagem que veio a prejudicar longas sequências de Django livre). Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos. Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos com velocidade, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos, o que se revela também em suas trajetórias de vingança, Kill Bill, Bastardos inglórios e o recente Django livre. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme (com a colaboração de Menke) consegue sempre transformá-lo numa peça que vai tomando mais força. E impressiona como as atitudes dos personagens vão mudando conforme a necessidade, como o intervalo que se dedica a Butch e a Marcellus, com um ato derradeiro impressionante e que antecipa Kill Bill, ou quando percebemos que Vincent e Jules podem estar no passado de uma história que já teve seu final.
Neste filme, que melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude –, Tarantino também retoma atores improváveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes