Melhores de 2016 (diretores, atores, atrizes… e categorias técnicas)

Por André Dick

O Cinematographe apresenta, a seguir, listas dos cinco melhores nas categorias principais (diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original e roteiro adaptado) e técnicas (fotografia, trilha sonora, montagem, direção de arte, figurino, maquiagem, efeitos visuais e efeitos sonoros) de filmes exibidos no Brasil ao longo de 2016. Não há, nelas, ordem de preferência. O próximo post apresentará os melhores filmes do ano.

Melhor diretor

Alejandro G. Iñárritu (O regresso), Quentin Tarantino (Os oito odiados), Béla Tarr (O cavalo de Turim), Zack Snyder (Batman vs Superman – A origem da justiça), Joel e Ethan Coen (Ave, César!)

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Melhor ator

Steve Carell (A grande aposta), Jacob Tremblay (O quarto de Jack), Michael B. Jordan (Creed), Logan Lerman (Indignação), Hugh Grant (Florence – Quem é essa mulher?)

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Melhor atriz

Isabelle Huppert (Elle), Blake Lively (Águas rasas), Jennifer Lawrence (Joy – O segredo do sucesso), Saoirse Ronan (Brooklyn), Meryl Streep (Florence – Quem é essa mulher?)

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Melhor ator coadjuvante

Harvey Keitel (A juventude), Tom Hardy (O regresso), Bruce Dern (Os oito odiados), Sylvester Stallone (Creed), Michael Shannon (Animais noturnos)

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Melhor atriz coadjuvante

Jennifer Jason Leigh (Os oito odiados), Haley Bennett (A garota no trem), Kim Su-an (Invasão zumbi), Abbey Lee (Demônio de neon), Rachel Weisz (A luz entre oceanos)

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Melhor roteiro original

László Krasznahorkai e Béla Tarr (O cavalo de Turim), Shane Black e Anthony Bagarozzi (Dois caras legais), Paolo Sorrentino (A juventude), Quentin Tarantino (Os oito odiados), Richard Linklater (Jovens, loucos e mais rebeldes!!)

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Melhor roteiro adaptado

Tom Ford, baseado em romance de Austin Wright (Animais noturnos), David Birke, baseado em romance de Philippe Djian (Elle), Mark L. Smith e Alejandro G. Iñárritu, baseados em romance de Michael Punke (O regresso), Stephen Chin, Todd Phillips e Jason Smilovic, baseados em matéria de Guy Lawson (Cães de guerra), Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso, baseados em livro de Giambattista Basile (O conto dos contos)

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Melhor fotografia

Natasha Braier (Demônio de neon), Victorio Storaro (Café Society), Fred Kelemen (O cavalo de Turim), Emmanuel Lubezki (O regresso), Mark Ping Bin Lee (A assassina)

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Melhor trilha sonora

Hans Zimmer e Junkie XL (Batman vs Superman – A origem da justiça), Cliff Martinez (Demônio de neon), Ennio Morricone (Os oito odiados), Anne Dudley (Elle), James Newton Howard (Animais fantásticos e onde habitam)

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Melhor montagem

Job ter Burg (Elle), Stephen Mirrione (O regresso), Fred Raskin (Os oito odiados), Claudia Castello e Michael P. Shawver (Creed), Cristiano Travaglioli (A juventude)

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Melhor direção de arte

Elliott Hostetter, Austin Gorg (Demônio de neon), Dan Hennah, Alex Cameron, Todd Cherniawsky, Nick Gottschalk, Niall Moroney, Hannah Moseley, Richard Selway (Alice através do espelho), Ding-Yang Weng, Wen-Ying Huang (A assassina), Doug Chiang, Neil Lamont, Alex Baily, Alastair Bullock, Robert Cowper, Jordana Finkel, Lydia Fry, Ashley Lamont, Steven Lawrence, Oliver Roberts, Stuart Rose, Stephen Swain, Gary Tomkins, Helen Xenopoulos  (Rogue One – Uma história Star Wars), Dimitri Capuani, Marco Furbatto, Massimo Pauletto, Gianpaolo Rifino (O conto dos contos)

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Melhor figurino

Massimo Cantini Parrini (O conto dos contos), Colleen Atwood (Alice através do espelho), Eimer Ni Mhaoldomhnaig (Amor & amizade), Suzy Benzinger (Café Society), Wen-Ying Huang (A assassina)

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Melhor maquiagem

Star Trek – Sem fronteiras, Alice através do espelho, Esquadrão suicida, Florence – Quem é essa mulher?, Invasão zumbi

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Melhores efeitos visuais

Batman vs Superman – A origem da justiça, Mogli – O menino lobo, O bom gigante amigo, Animais fantásticos e onde habitamRogue One – Uma história Star Wars

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Melhores efeitos sonoros

Batman vs Superman – A origem da justiça, Animais fantásticos e onde habitam, 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi, Rogue One – Uma história Star WarsWarcraft – O primeiro encontro entre dois mundos

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Animais noturnos (2016)

Por André Dick

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O cineasta Tom Ford estreou em Direito de amar, em 2009, com uma atuação vigorosa de Colin Firth indicada ao Oscar antes do papel que lhe renderia de fato o prêmio, no ano seguinte, com O discurso do rei. Ligado ao universo da moda, cujos trabalhos incluem ser diretor criativo na Gucci e Yves Saint Laurent, Ford demonstrava talento numa trama minuciosa e uma bela fotografia em preto e branco. No seu segundo experimento, Animais noturnos, ele mostra Susan Morrow (Amy Adams), proprietária de uma galeria de arte, que recebe o manuscrito do livro Nocturnal animals, de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gylleenhaal). Seu casamento com Hutton Morrow (Armie Hammer) passa por um momento delicado, com infelidelidade da parte dele.
Susan inicia o livro e, a partir daí, vemos Ford alternar entre o que acontece nele e a realidade da personagem. No romance, Tony Hastings (Gyleenhaal) viaja com a esposa, Laura (Isla Fisher), e a filha, India (Ellie Bamber), por uma estrada do Texas, quando são abordados pelo carro de Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson), Lou (Karl Glusman, cada vez mais presente depois de sua boa participação em Love, de Gaspar Noé) e Turk (Robert Aramayo). O que acontecerá a eles será o mote da narrativa, principalmente para construir um elo entre o presente de Susan e o passado em que estava casada com o marido e teria um filho. No livro, chega-se ao ponto em que Tony precisa recorrer a um xerife, Bobby Andes (Michael Shannon, espetacular).

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Susan não consegue dormir – ela ganha o apelido de “animal noturno” por causa disso – e em sua galeria, também em razão da maquiagem que utiliza, parece mais uma espécie de vampira. Há claras referências aqui, nos cenários e comportamentos dos personagens, a filmes de David Lynch, especificamente A estrada perdida, Coração selvagem e Veludo azul. Onde Lynch é mais interessante – na maneira como consegue conciliar suas narrativas a um surrealismo quase natural -, Ford é mais comedido, embora às vezes imite até as roupas e maquiagens do filme de Lynch. Quando Laura Linney aparece como Anne Sutton, mãe de Susan, é claro que ela deve lembrar Diane Ladd em Coração selvagem, assim como Andrea Riseborough, no papel de Alessia Holt, casada com Carlos (Michael Sheen), evoca qualquer estranheza de Twin Peaks.
Animais noturnos tem um início um pouco desinteressante, na maneira que salta da vida de Susan para as páginas do livro, mas, à medida que a trama avança, o paralelo começa a ser construído de maneira eficiente, com atuações notáveis de todo elenco. Amy não chega a construir um personagem por completo, e ainda assim está excelente, assim como Taylor-Johnson surpreende e Gyleenhaal volte a mostrar por que se trata de um ator excepcional para papéis curiosos. Ford utiliza o subtexto – o romance – como uma forma eficiente de entender o casamento de Susan e Edward, o que se esclarece nas digressões, em que ela relembra como o conheceu e como eram os dois quando casados. Esses flashbacks se situam entre a atmosfera soturna a vida de Susan e o frio oposto ao calor do lugar onde Edward situa sua história: quando há uma determinada revelação, ele se encontra embaixo da chuva. A fotografia de Seamus McGarvey, habitual colaborador do diretor inglês Joe Wright, utiliza esse conflito de atmosferas para fazer brilhar sua iluminação, dialogando com outro sucesso deste ano, A qualquer custo, com Jeff Bridges (que será lançado em fevereiro).

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Nesse sentido, além de ser uma sátira ao papel da arte na vida do indivíduo – vejam-se, por exemplo, as esculturas da galeria de Susan, ou o vestuário de sua funcionária, Sage Ross (a sempre estranha Jena Malone), e mesmo o nome de uma amiga, que remete a um personagem clássico do terror, Samantha Van Helsing (Kristin Bauer van Straten) -, Animais noturnos é um exemplo de como mesclar ficção, realidade e cinema, além de homenagens ao cinema surrealista. O comportamento do xerife, muito por causa da atuação de Shannon, adquire um ar de impacto que falta ao início do filme, com a revelação de que ele está com uma doença e precisa lidar com os criminosos da maneira mais direta possível. E Shannon joga todas suas cenas com uma frieza que teria feito bem à composição de seu Zod em Homem de aço, uma mescla entre um personagem de Fargo e de um xerife de faroeste dos anos 50. Uma cena exemplar dessa situação surreal é quando ele encontra o criminoso Ray Marcus num momento que deveria ser privado – e Aaron Taylor-Johnson parece ser como uma escultura viva da galeria de Susan, tamanho o absurdo da situação em que se encontra. Formado em arquitetura, Tom Ford também sabe construir cenários que ele dispõe como peças de um grande tabuleiro, em que um vai se ligando ao outro de maneira ousada e inquestionavelmente interessante, transformando Animais noturnos nos símbolos que questiona a cada momento.

Nocturnal animals, EUA, 2016 Diretor: Tom Ford Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron-Taylor Johnson, Michael Shannon, Armie Hammer, Isla Fisher, Ellie Bamber, Andrea Riseborough, Michael Shannon, Karl Glusman, Robert Aramayo Roteiro: Tom Ford Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Abel Korzeniowski Produção: Robert Salerno, Tom Ford Duração: 115 min. Distribuidora: Universal Estúdio: Focus Features / Universal Pictures

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Invasão zumbi (2016)

Por André Dick

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O diretor Yeon Sang-ho certamente não tomou como base os filmes de zumbi mais conhecidos, aqueles de George Romero, Guerra Mundial Z ou Eu sou a lenda, ou séries, a exemplo de The walking dead, tampouco de comédias já referenciais (Zumbilândia, Todo mundo quase morto e Meu namorado é um zumbi), para compor essa espécie de panorama sobre a existência de um problema grave que surge a bordo de uma viagem de trem na Coreia do Sul. Esse filme tem como diferencial sua entre gêneros: ele parte de um drama familiar, passando por uma crítica à separação entre classes até atingir o que se poderia dizer de linha sobre o futuro da humanidade real. Trata-se não de uma novidade para um país que traz tantos dramas: sua novidade está no diferencial com que se propõe a apresentar esta narrativa.
O analista de negócios Seok-woo (Gong Yoo) pretende levar sua filha, Soo-an (Kim Su-an), de Seul para a cidade de Busan, onde deve deixá-la com sua ex-esposa. No início, já vemos o afastamento entre os dois, sobretudo pela preocupação de o pai em se dedicar aos negócios e não saber que comprou de presente para a filha no dia das crianças um jogo que ela já possui.

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No entanto, o embarque no trem pode ser, mais do que uma viagem, a descoberta, como Tom Cruise em Guerra dos mundos, da complexidade paternal. A menina, Soo-an, vê, por um relance, o homem da estação ser atacado – e o instante é mínimo de tensão – para logo alguns tripulantes serem acometidos por uma estranha pressa e letargia. O diretor realmente impressiona com as tomadas de zumbis, com sustos que ultrapassam de uma produção comum do gênero, e um senso de realidade dentro de uma situação inusitada que remete logo à passagem inicial, em que um caminhão atropela um cervo e este se levanta, com os olhos já modificados, ou àquele instante em que uma ambulância atravessa a cidade e o pai olha pensando no que pode estar acontecendo.
Não sem clichês, Invasão zumbi não deixa de ser uma grande surpresa em termos de efeitos especiais práticos e cenários desertos, assustando muito mais do que diretores que pretendem mostrar zumbis em polvorosa por um país inteiro, embora se localize em cenários restritos. O pai e a filha recebem a companhia de Sang-ha (Ma Dong-seok), pertencente à classe trabalhadora, e sua esposa grávida, Seong-kyeong (Jung Yu-mi), além de enfrentar um homem determinado, um negociador, Kim Yong-suk (Eui-sung) mais voraz do que Seok-woo. Há também um jovem jogador de beisebol Yong-guk (Kim Eui-sung), e sua namorada Jin-hee (Ahn So-hee). Invasão zumbi não possui exatamente pouco maniqueísmo em alguns comportamentos de personagens, nada que impeça exatamente sua fluidez, sendo preciso no número de diálogos.

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Invasão zumbi parece se nutrir mais de um subtexto cultural do que certamente da violência que emprega em cada quadro, a partir do momento em que cadáveres se mostram mais velozes e em perseguição aos ainda humanos. Este filme está falando de uma cultura em que o homem é predominante e o campo de guerra armado fica a cargo dele. Está falando do universo de negócios, não com muita sutileza. E está falando de companheirismo, paixão, reforçados por um momento conturbado, por meio da relação forçada entre Seok-woo e Sang-ha, por exemplo. As situações que envolvem o quarteto principal de personagens são filmadas com gravidade e perspicácia pelo diretor, evocando às vezes o caos popular de Império do sol, de Spielberg, sem darem espaço demais aos momentos menos nublados. Outra obra sul-coreana estreou no Brasil há alguns dias, O chamado, que tinha como princípio mostrar exatamente uma ameaça numa comunidade, e parece que ambos os filmes são originais, embora este mais ágil e eficiente, em razão da movimentação de câmera empregada pelo diretor e por Hyung-deok Lee, cuja combinação de cores nunca atenua um laranja semiapocalíptico. Ele possui um sentido de urgência que lembra Contágio, de Steven Soderbergh, com sua crueza na apresentação de um vírus devastador para a humanidade.
Não parece haver nada muito diferente em quase toda a narrativa em termos de temática, mas aqui a figura feminina simboliza de forma exclusiva e empática o futuro de uma nação. Não saberia dizer se os elementos mais emotivos tiram um pouco da densidade de Invasão zumbi, no entanto oferecem certamente mais contundência, e Gong Yoo quanto Kim Su-an obtêm atuações formidáveis num filme de ação e terror. É impactante a maneira como o diretor utiliza o espaço restrito dos vagões do trem para compor suspense, assim como mostra uma grande habilidade narrativa quando personagens precisam resgatar outros da fúria dos zumbis. Exibido no Festival de Cannes deste ano, Invasão zumbi se constrói de maneira rápida, tendo uma leve queda em sua segunda metade, aliviada pela recuperação mais ao final com uma reviravolta convincente.

부산행 , Coreia do Sul, 2016 Diretor: Yeon Sang-ho Elenco: Gong Yoo, Kim Su-an, Ma Dong-seok, Jung Yu-mi, Eui-sung, Kim Eui-sung, Ahn So-hee Roteiro: Sang-ho Yeon Fotografia: Hyung-deok Lee Duração: 118 min. Distribuidora: Paris Estúdio: Next Entertainment World, RedPeter Film

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Demônio de neon (2016)

Por André Dick

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O cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn pode ser visto como um dos mais polêmicos hoje em dia. Não que a sua trajetória se inscrevesse com essa qualidade em Drive, no qual Ryan Gosling era um dublê de cenas com carros em Hollywood, mas principalmente por causa da obra seguinte, Apenas Deus perdoa, com sua violência literal nas ruas de Bangkok. Este segue sua filmografia anterior a Drive, como em Bronson, filtrado por Laranja mecânica, porém, sobretudo, os filmes da saga “Pusher”, com uma violência ainda mais intensa. Drive, sob qualquer ponto de vista, ainda é um divisor de águas em sua carreira. Os sintetizadores de Cliff Martinez, emulando os anos 80, repercutiriam no filme seguinte, e agora em Demônio de neon, agora desprovidos de qualquer romantismo.
Não por acaso, o novo filme de Refn se situa entre o suspense e o terror. A sua principal influência é muito clara: Suspiria, a obra-prima de Dario Argento, nos anos 70. Se nesse terror uma estudante de dança chegava a uma academia alemã de influências sobrenaturais (que se tornaria mais real em Cisne negro), em Demônio de neon, Elle Fanning interpreta Jesse, uma menina de 16 anos que vem do interior, sem pais, para fazer carreira de modelo em Los Angeles. Ela primeiro faz uma sessão de fotos com o Dean (Karl Glusman, de Love), onde conhece a maquiadora Ruby (Jena Malone). Em seguida, ela apresenta o book a uma agência de modelos, tendo à frente Roberta Hoffman (Christina Hendricks).

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A maquiadora, numa festa, a apresenta a suas duas amigas, Sarah (Abbey Lee) e Gigi (Bella Heathcote). Claramente, Refn posiciona Jesse como uma espécie de Alice no país das perdições, com seu figurino de moça inocente e ingênua. Em seu encontro com Dean, numa colina de Los Angeles, à luz do luar, ela diz não ter outros atributos a não ser a beleza. E é essa lua que antecipa o verdadeiro horror de Demônio de neon. Hospedada num hotel, clara referência a Psicose, em seus letreiros, em que o gerente, Hank (Keanu Reeves), age de forma pouco convidativa a conversas e como um cafetão, Jesse é uma espécie de personagem de Naomi Watts em Cidade dos sonhos. Basta reparar na maneira como Refn retrata as cores de seu quarto. Ela pertence a um universo da fantasia. Nesse universo, oposto ao real, ela se sente em casa. No entanto, quando passa, a partir de um desfile para o designer de moda Robert Sarno (Alessandro Nivola), a ser uma das preferidas do mundo da moda, suas antigas conhecidas passam a vê-la ainda mais como uma ameaça. Elas não têm o que conversar entre si: enquanto as antigas modelos falam em plásticas e sexo, Jesse tenta emular uma vida que nunca teve.
Naturalmente, Demônio de neon tem um objetivo muito claro: ser uma crítica ao universo da moda. Parece fazê-lo de modo simples, quando na verdade percebe-se que Refn atinge seus detalhes e nuances de modo mais indireta. Os símbolos, como o da lua ou do gato selvagem, e mesmo de três triângulos em neon (que representam a passagem de Jesse para outro universo, como o cubo de Cidade dos sonhos), ou de Hank como uma representação do falo masculino, são uma síntese da personagem. Todos esses símbolos têm uma analogia com o sangue.

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O personagem Dean é uma espécie de príncipe encantado, a figura certamente mais despretensiosa do filme, aquele que traz flores à mocinha, enquanto os outros personagem observam Jesse como se ela fosse uma vítima a ser perseguida – e Refn constrói essa tensão por meio de olhares, sobretudo da personagem da maquiadora em relação a ela, por meio dos reflexos de espelhos. Ou vejamos a maneira como o fotógrafo Jack (Desmond Harrington, ótimo) a olha durante a sessão de fotos, em que a configuração visual remete a THX 1138, de George Lucas, e sua modelo se torna uma espécie de cerâmica viva. A obsessão pela juventude é tão perturbadora quanto em Fome de viver, dos anos 80, com David Bowie e Catherine Deneuve.
Refn tem um interesse em aproximar o universo da fotografia e da modo de um universo cadavérico. Para ele, as pessoas estão sempre fazendo poses, imóveis ou querendo ser invisíveis, como se fossem, como diz Gigi, em determinada altura, fantasmas. Gigi também pergunta a Jesse como é ser o sol num dia de inverno, e, ao final, sua metáfora parece justamente se mostrar ao contrário. E, mesmo Jesse sendo uma pessoa real, sua fachada sempre lembra uma fina camada de porcelana; é como se, de fato, fosse uma boneca humana. Refn a aproveita aqui, muitas vezes, como Coppola o faz em Virgínia. Na realidade, o fato de aparentar ser uma boneca humana, mesmo em seu gestual, faz desse um personagem mais complexo do que aparenta, e o fato de ser o oposto de mulheres que se consideram fantasmas não a torna menos do que um espectro.

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O que se pode dizer é que Demônio de neon atravessa uma linha que poucos filmes se arriscam a fazer. Não apenas o roteiro de Refn, em parceria com Mary Laws e Polly Stenham, é enigmático, como ingressa, em seus 20 minutos finais, em situações nas quais o cinema pouco pisou, sob uma perspectiva mesmo histórica. É quando Refn mais se mostra desagradável como em vários momentos de Apenas Deus perdoa e, justamente, consegue arrematar sua visão sobre o mundo da moda e do que se considera belo. Seu filme é construído com uma fotografia perfeccionista de Natasha Braier (The Rover), com cada tiro lembrando uma pintura, e ainda assim o que ele tem a trazer aqui é que, por baixo de toda a beleza, há doença e uma terrível desesperança. Nesse sentido, é mais melancólico do que Drive e Apenas Deus perdoa, que ainda lida com certos elementos românticos. Em Demônio de neon, é como se Refn admitisse que não há espaço para nenhuma idealização, representada por Jesse, principalmente num universo em que ela é uma estranha, mesmo parecendo ser bem recebida. É como se ela entrasse num bosque do qual não pode voltar justamente no momento em que se depara com os triângulos de neon. A passagem que eles oferecem revela não apenas o universo da moda em Los Angeles, como também o mistério pelo qual a personagem central é envolvida. Pode-se perceber que, assim como no clube noturno, na passarela, no estúdio de fotos e no quarto, Jesse se sente sempre sozinha, como se todos que estivessem à volta não existissem, ou quando espera numa cadeira para uma teste e suas colegas estão imóveis. A questão colocada implicitamente por Refn: ela existe de fato? Este universo existe? A maquiadora Ruby vive numa mansão vazia. O que faz ali, em que há uma piscina vazia?

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Como Jesse, Elle Fanning está excepcional, mostrando como a atriz de Super 8 e Um lugar qualquer realmente tinha um talento especial, mas é Malone, Lee e, principalmente, Heathcote que conseguem lidar com papéis difíceis. Karl Glusman é um ótimo ator aqui, também, assim como Keanu Reeves faz uma boa participação especial (lamentando-se que Hendricks tenha apenas uma cena).
Entende-se perfeitamente que o espectador não goste deste filme ou se sinta mesmo revoltado com suas premissas, mas é inegável que Refn consegue avançar num terreno que se mostrava inexplorado talvez desde David Lynch em Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer, também, como ele, vaiado em Cannes. No filme de Lynch, tão surrealista quanto este, a ameaça à personagem central se dava de maneira tão contundente que de uma série bem-humorada o espectador passava a um ambiente bem mais próximo do horror e do assustador. Esta parece ser a mesma trajetória visualizada por Jesse. De qualquer modo, Refn não esclarece direito quem seria essa personagem, assim como o motorista de Drive. Não há nela um sentido de humanidade exato. Ela está durante toda a história entre a realidade e o sonho, e sua realidade é permeada de comportamentos estranhos. Esta não é uma obra fácil; pelo contrário, é perturbadora, pois entrega algo totalmente diferente do que aparenta por suas imagens belíssimas.

The neon demon, DIN/EUA/FRA, 2016 Diretor: Nicolas Winding Refn Elenco: Elle Fanning, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Desmond Harrington, Jamie Clayton, Alessandro Nivola, Charles Baker Roteiro: Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham Fotografia: Natasha Braier Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: Lene Børglum, Nicolas Winding Refn, Sidonie Dumas, Vincent Maraval Duração: 118 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Bold Films / Space Rocket Nation / Vendian Entertainment

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Capitão Fantástico (2016)

Por André Dick

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O ator Viggo Mortensen já demonstrou sua versatilidade ao encarnar o herói Aragorn de O senhor dos anéis e papéis ultraviolentos em suas experiências com David Cronenberg, além de regressar à Argentina de origem no excepcional Jauja. Em Capitão Fantástico, segunda obra de Matt Ross, ele interpreta Ben Cash, que teve sua esposa Leslie (Trin Miller) internada por transtorno bipolar. Está sendo recebido com grande entusiasmo, inclusive com indicação ao Globo de Ouro de melhor ator em filmes de comédia, o que não acontecia talvez justamente desde Senhores do crime, de Cronenberg.
O casal já havia buscado as florestas, para fugir do modo de vida americano, segundo ele governado pelo capitalismo, instituindo o “dia de Noam Chomsky” e ensinando aos filhos todas as matérias, de modo que se tornem todos autodidatas, além de preparados fisicamente quase para minicompetições esportistas e caçarem para obter os próprios alimentos, ao mesmo tempo que se reúnem à noite ao redor de uma fogueira para cantar e falar de clássicos da literatura. Os filhos, com a situação da mãe, ficaram com Ben: Bodevan (George MacKay), Kielyr (Samantha Isler), Vespyr (Annalise Basso), Reillian (Nicholas Hamilton), Zaja (Shree Crooks) e Nai (Charlie Shotwell). É uma comunidade que poderia estar inserida perfeitamente em Hair, dos anos 70, e parte da linha narrativa é abordar que o homem é bom por natureza, na linha de Jean-Jacques Rousseau.

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Ele acaba encontrando a irmã de Leslie, Harper (Kathryn Hahn), casada com um desajeitado Dave (Steve Zahn), pais de dois filhos que não conhecem direito os estudos, quando fica sabendo de uma notícia delicada, à qual também se ligam Jack (Frank Langella) e Abigail (Ann Dowd), pais de sua esposa. Nos momentos mais acertados, o filme se sente um drama existencial sobre a vida e a morte autêntico; em outro, quando lança mão de nomes de nomes determinados, parece apenas atender a uma vontade de justificar que nada aqui realmente é autêntico. A ligação dele com os filhos, por exemplo, se sente apressada e remanejada para atender ao espectador e seus interesses de ver uma comédia com toques de drama. Sem dúvida, Ross pretende abordar uma temática mais séria em alguns momentos, contudo não sabe exatamente o tom que deveria adotar para atingir a seus objetivos. A abordagem de um policial no veículo em que transita a família representa bem essa indefinição, e Ross nunca se sente muito seguro na maneira de apresentar os diálogos.
Capitão Fantástico transita entre o indie conhecido, à la Pequena miss Sunshine, com toques aqui e ali, no visual, de Wes Anderson, principalmente de Os excêntricos Tenenbaums, e mesmo de Férias frustradas, na ligação do pai com o filho mais velho, que deseja ir para a faculdade, mas não sabe lidar com os interesses amorosos que surgem. São personagens deslocados que pretendem vivenciar experiências em comunidade, sem entenderem exatamente por que o pai precisa levá-los a uma vida longe do famigerado sistema que pode destruir o indivíduo na opinião dele. Nisso, o filme insiste em mostrá-los como parte de uma vida idílica, em que os problemas poderiam ser afastados por uma simples decisão familiar, quando isso não acontece normalmente.

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Se ele tem uma primeira metade muito bem definida, com o personagem central sendo realmente peculiar, aos poucos tudo vai se encaixando nos moldes de Hollywood, bastante previsível e mesmo frustrante, além da ingenuidade de parte de seu discurso não coincidir com o comportamento geral de alguns personagens. Falta uma certa acidez da segunda metade em diante que havia na primeira porque Ross não quer enfrentar justamente o “sistema” de filmes realizados para encantar o público com uma lição. Fica transparente que o roteiro ingressa num caminho que pretende apenas agradar ao espectador e despertá-lo para uma nobre lição, quando, na verdade, ele se sente melhor quando é descompromissado (a sequência em que a família veste um determinado figurino é exemplar no sentido do descompromisso que visa uma identificação forçada). Além disso, ele acaba buscando os mesmos rótulos que critica, fazendo da própria obra um manifesto daquilo que contesta. Este é o principal problema quando a proposta envolve ser atrevido: naturalmente, os personagens não são desse modo. De qualquer modo, classificar Capitão Fantástico dentro de um propósito que ele tenta delimitar não é interessante: este filme é, sobretudo, como lidar com o sentimento de autoengano. Até lá, ainda assim, pelo elenco, montagem, a linda fotografia de Stéphane Fontaine e certas sequências bem-humoradas, o filme vale a viagem. Afinal, ele trata em si de uma viagem interna e externa e, se o espectador ficar indiferente a certos problemas narrativos, pode se interessar além do esperado.

Captain Fantastic, EUA, 2016 Diretor: Matt Ross Elenco: Viggo Mortensen, Frank Langella, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Ann Dowd, Erin Moriarty, Missi Pyle, Kathryn Hahn, Steve Zahn Roteiro: Matt Ross Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Alex Somers Produção: Jamie Patricof, Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Shivani Rawat Duração: 118 min. Distribuidora: Universal Estúdio: Electric City Entertainment / ShivHans Pictures

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O que está por vir (2016)

Por André Dick

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No ano passado, a cineasta francesa Mia Hansen-Løve, que tem apenas 35 anos, lançou Eden, um filme sobre a cena musical dos anos 90 na França e recebeu muitas críticas negativas. Particularmente, era um dos melhores de 2015, uma obra-prima em termos de combinação entre som e imagens. Eis que estreia sua nova obra, O que está por vir, e os elogios a ela se sentem descompassados, inclusive tendo sido ela escolhida como melhor diretora no Festival de Berlim. Esses elogios, particularmente, deveriam ter sido feitos exatamente a Eden, mas, por uma dessas escolhas estranhas de quem recebe a obra, é este novo filme que recebe as láureas.
Isabelle Huppert interpreta Nathalie Chazeaux, uma professora de filosofia que se separa do marido, Heinz (André Marcon), enquanto tem grande admiração por um aluno, Fabien (Roman Kolinka). Ao mesmo tempo, além de ter um filho, Johann (Sola Forte), sua filha, Chloé (Sarah Le Picard), está grávida, e sua mãe,Yvette (Edith Scob, mais recentemente a chofer de Holy Motors), enfrenta problemas de saúde. Esses personagens estão cada vez se deparando mais com um momento crucial de definição, e o casal composto por Nathalie e Heinz certamente se mostra como parte de um caminho a ser seguido, não necessariamente pela vontade própria de cada um e sim pelo que é imposto de acordo com as situações que cada um vai vivenciando. O passeio inicial do filme pela praia de Saint-Malo mostra, na verdade, que esses personagens não possuem nenhuma ligação exata com a natureza; eles têm uma relação com o universo filosófico.

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Havia material suficiente aqui para uma boa obra, no entanto Hansen-Løve parece querer fazer mais um trabalho acadêmico aqui – em certos momentos, o filme se sente como um de fato, entregue pela metade. Cineastas franceses têm grandes obras filosóficas, mesmo quando não possuem esse objetivo definido, e poderíamos lembrar mesmo de Azul é a cor mais quente, que envolvia citações culturais sem parecer excessivo ou mesmo propositivo neste campo. Também há o delicado A bela Junie, de Cristophe Honoré, em que um jovem professor se apaixonava por uma aluna, com raros momentos vividos por um elenco de alto nível. Abbas Kiarostami fez o mesmo nos belíssimos Cópia fiel e Um alguém apaixonado, com traços de Eric Rohmer. Já havia alguns elementos disso em Eden, suplantados por uma emoção seca. Aqui, com citações seguidas a filósofos e ao mundo cultural, a exemplo de Jean-Jacques Rousseau, Fabien não foge ao retrato do jovem com aspirações culturais e seu discurso sempre soa já reprisado, lembrando bastante o superestimado Depois de maio, exatamente do marido de Hansen-Løve, Olivier Assayas, e um pouco do superestimado Os sonhadores. Kolinka não ajuda no propósito de transformar o personagem em algo mais interessante para o espectador. Não é uma característica da diretora trabalhar de maneira extensiva seus personagens, no entanto não havia ainda esta indecisão entre seguir um caminho interessante e outro um tanto deslocado. Os tempos vão se misturando de maneira fluida – o que não se transforma em natural é justamente o objetivo de cada personagem, à medida que tudo está a serviço apenas do discurso pessoal de Hansen-Løve e ele se mostra vago no sentido de não querer, em nenhum momento, deixar escapar um instante de emoção que pareça real. Para ela, o comedimento é impressionante.

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Os personagens da professora e do aluno ressoam um certo romantismo francês, que a diretora liga a protestos políticos, não sem uma certa crítica a este mesmo universo. No entanto, a diretora desta vez não consegue fazer esses personagens acessíveis, nem mesmo com a boa atuação de Huppert, e a narrativa se sente um tanto sem vigor, apenas para preencher lacunas inevitáveis. Imagine que se trata da mesma atriz que entregou uma atuação extraordinária em Elle, mas porque neste tinha de fato um roteiro elaborado. Em O que está por vir, o espectador entende que são pessoas presas a um universo teórico, sem uma vida realmente palpável – e, ao mostrar isso de maneira explícita, acaba se tornando igual ao modo de existir que critica. Não se sabe se ela deseja um romance com o aluno mais jovem, se deseja apenas superar a separação do marido ou se pretende entender a mãe que se encontra com problemas de saúde. Certamente, ela deseja tudo isso, mas não pode transparecer. Huppert tinha uma atuação brilhante em Elle porque lhe deram a oportunidade de revelar a si mesmo como atriz; aqui, a diretora apenas extrai uma versão competente daquele filme, correta e sem grande complexidade.
É interessante como a diretora conseguia trabalhar bem a trilha sonora em Eden, assim como a fotografia, e aqui não consegue acertar o tom, fazendo algo com objetivo de ser esmaecido e mais com tentativa de apresentar elementos da natureza. O que era uma real emoção contida anteriormente se apresenta aqui apenas como um grande estudo sobre personagens que não vivem fora do universo no qual se encontram e nem gostariam disso – mesmo que quisessem se deslocar para uma casa de campo. Talvez seja o impasse, no momento, da própria Hansen-Løve. Se era seu objetivo revelar o próprio impasse, atingiu por caminhos que não levaram a uma obra interessante.

L’avenir, ALE/FRA, 2016 Diretora: Mia Hansen-Løve Elenco: Isabelle Huppert, Roman Kolinka, Edith Scob, André Marcon, Sarah Le Picard, Guy-Patrick Sainderichin, Yves Heck, Rachel Arditi Roteiro: Mia Hansen-Løve Fotografia: Denis Lenoir Produção: Charles Gillibert Duração: 102 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: CG Cinéma

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Rogue One – Uma história Star Wars (2016)

Por André Dick

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No ano passado, todas as expectativas estavam voltadas para o fato de J.J. Abrams ter preparado o capítulo 7 da série Star Wars, intitulado O despertar da força, que alcançou grandes críticas e uma marca inacreditável nas bilheterias, de mais de 2 bilhões de dólares. Com vários méritos, no entanto, O despertar da força não se sentia plenamente um filme da saga: o estilo de Abrams, tentando reaproveitar de Lucas, fazia muitas vezes apenas uma reciclagem de antigas imagens e o estilo do diretor visivelmente não tinha liberdades. Para este ano, havia se anunciado um derivado da série, que deveria se passar entre A vingança dos Sith e Uma nova esperança, de 1977, no qual George Lucas mostrou seus personagens antológicos pela primeira vez. Mais uma chance para vender caixas de brinquedos para a Disney… Rogue One – Uma história Star Wars é dirigido por Gareth Edwards, cujo experimento anterior é o particularmente fraco Godzilla, um festival de destruições por onde o monstro icônico passa, e se sente, desde os trailers, como tal: mistura imagens que lembram os filmes da primeira trilogia com um elenco de qualidade. Não ajudou o fato de a primeira exibição junto a executivos ter recebido inúmeras críticas, convidando o diretor a refilmagens e a uma inclusão, talvez maior, de um personagem relevante para a saga.

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Nesta história, Jyn Erso é uma menina filha de Galen (Mads Mikkelsen), recrutado para trabalhar na construção de uma fortaleza espacial por Orson Krennic (Ben Mendelsohn). Ela fica órfã e passa a ser cuidada por Saw Gerrera (Forest Whitaker). Já adulta, ela se torna uma das componentes da Aliança Rebelde, integrando-se à equipe de Cassian Andor (Diego Luna) e seu androide K-2SO (Alan Tudyk). Enquanto isso, Galen manda uma mensagem à Aliança por meio de um piloto, Bodhi Rook (Riz Ahmed, colega de Gyllenhaal em O abutre). Numa das visitas a uma cidade, Jedha, eles conhecem Chirrut Îmwe (Donnie Yen), um guerreiro oriental orientado pela força – embora não especificamente um jedi – e o mercenário Baze Malbus (Jiang Wen). Ela acaba também se encontrando com o antigo mentor, Saw Gerrera, que possui uma mensagem de holograma que lhe interessa. Do lado do império, Grand Moff Tarkin (Peter Cushing, ressuscitado digitalmente de maneira espantosa) se reúne com Krennic, pondo sua gestão sobre a construção da fortaleza espacial em dúvida.
Quando se assiste a este tipo de filme, o certo é esperar no mínimo competência técnica. Como O despertar da força, Rogue One é espetacular em termos de efeitos visuais. Edwards, no entanto, ao contrário de Abrams, se aprimora ainda mais nos cenários e nas locações. A direção de arte é um espetáculo à parte. Há um senso de realismo e fantasia nela que não havia na obra de Abrams e era seu principal empecilho: em certos momentos, O despertar da força lembrava mais um parque temático do que propriamente um filme da saga Star Wars.

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Inevitável perceber que Edwards também tem uma noção muito maior no que se refere às transições de cena que tinham as peças originais de Star Wars: com a trilha retumbante de Michael Giacchino, mais efetiva do que a de John Williams em O despertar da força, a grandiosidade atinge o ápice durante as batalhas. Embora comece de maneira atropelada, encadeando sequências sem ligação visível entre si, a narrativa se recupera em seguida e não há quedas no ritmo nem a ligação entre os personagens soa forçada como acontecia em alguns momentos do capítulo de Abrams, sobretudo porque tinha de inserir Han Solo e a Princesa Leia em meio a um novo elenco. Edwards têm apenas a necessidade de expor uma missão e uma situação de guerra – mas o faz de modo extremamente notável. Desde referências ao filme A hora mais escura – o diretor de fotografia é o mesmo, Greig Fraser – até Apocalypse now, Rogue One tem ainda momentos que remetem ao grande A vingança dos Sith, de Lucas. Muitos momentos lembram principalmente de Guerra nas estrelas original, sobretudo na precariedade de alguns ambientes, sem o CGI normalmente utilizado, e isso leva o filme a uma nova escala. E Edwards tem um talento notável, não exibido a meu ver em Godzilla, para sequências de ação em que a grandiosidade se torna elemento normal, filmando naves como os Wachowski o fizeram em Matrix revolutions, de maneira mais aproximada e realista.

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Do mesmo modo, apesar de o roteiro de Rogue One não trazer novidades em termos de estrutura (ele é assinado curiosamente por dois diretores, Chris Weitz, de Um grande garoto e A bússola de ouro, e Tony Gilroy, de Duplicidade, Conduta de risco e O legado Bourne), eis a história da Disney que menos se parece com material da companhia. Se ele tivesse sido dirigido por Lars von Trier em sua estreia na ficção, não seríamos surpreendidos com tal grau de descompromisso com a bravura da saga que envolve a família Skywalker. Em Star Wars, sempre tivemos heróis quase imbatíveis; em Rogue One, os componentes da missão são figuras valentes, mas extremamente frágeis. Não vemos arroubos de heroísmo por parte de Jyn e Cassian, apenas a tentativa de completar a missão da melhor maneira. Isso é uma novidade para a mitologia Star Wars e não atenua quando Edwards leva tudo a um terceiro ato realmente espetacular, que rivaliza diretamente com O retorno de Jedi, numa mescla de cenas irreparáveis e extraordinárias. Que o mesmo diretor que fez Godzilla tenha feito este primor técnico e fantástico é uma surpresa – e nos perguntamos se Abrams não deveria ter estado aqui (spoiler até o fim do parágrafo), numa espécie de Melancolia situado no espaço sideral. Esta sequência que remete à obra de Von Trier é de uma beleza plástica memorável, unindo alegria e tristeza num laço inseparável, graças às atuações de Luna e Felicity.

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Nem mesmo a atuação de pouco vigor de Felicity Jones extrai a carga dramática que o filme possui, muito pela presença do ótimo Diego Luna, parceiro de García Bernal na pequena obra-prima … E sua mãe também, do mexicano Alfonso Cuarón. Donnie Yen e Ahmed estão ótimos, mesmo com pouco roteiro, e Mendelsohn, o que é de praxe em suas atuações (a exemplo de Reino animal), temível. Os personagens não atingem seu ápice porque exatamente são mensageiros na nova esperança – eles se concretizam por meio daqueles que ainda virão – e este é o lado mais emocionante de Rogue One, que parece simplesmente não ter sido dirigido para encantar as plateias encantadas pela saga e sim em conquistar um novo público (lamenta-se apenas que o final se sinta apressado e apenas uma ponte estabelecida com Uma nova esperança de maneira muito abrupta, tornando-se, aqui sim, mais para os fãs e conhecedores de Star Wars).
Havia uma grande obra nas mãos de Abrams no ano passado, mas quem a realiza é Edwards, este ano e contra todas as probabilidades. Rogue One não se sente apenas como um derivado: este é um legítimo filme Star Wars e que merecia carregar os créditos de história inicial, o que não acontece por ser exatamente apenas um capítulo à parte dos outros. Mas que capítulo! Não é simplesmente um fan service, apesar de remeter aos outros da saga, e sim uma obra de beleza plástica e conceitual que lembra o que George Lucas fez numa década conhecida hoje como “anos 80”, mas de maneira realmente contemporânea, mostrando uma missão em prol de um novo tempo a ser resgatado.

Rogue One – A Star Wars Story, EUA, 2016 Direção: Gareth Edwards Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Jiang Wen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Jimmy Smits Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Allison Shearmur, Kathleen Kennedy, Simon Emanuel Duração: 134 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Allison Shearmur Productions / Lucasfilm Ltd / Walt Disney Studios Motion Pictures USA

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Gênios do crime (2016)

Por André Dick 

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O diretor Jared Hess é mais conhecido por Napoleon Dynamite e Nacho Libre, este talvez o melhor filme de Jack Black. Com um humor sarcástico e bem mais inteligente do que aparenta, apesar de suas piadas típicas envolvendo clichês, Hess conseguiu reunir um ótimo elenco em Gênios do crime, praticamente as mesmas atrizes de Caça-fantasmas – com exceção de Melissa McCarthy –, ou seja, a trupe conhecida pelo Saturday Night Live, mais Zach Galifianakis, Owen Wilson e Jason Sudeikis, todos em bom momento (lembrando que o último também surgiu no Saturday). O mais difícil, hoje em dia, é justamente obter um elenco interessante, já que as comédias em média possuem características semelhantes. No entanto, trata-se ainda de um gênero bastante menosprezado e reduzido ao lugar-comum em que foram enquadrados, este ano, Rock em Cabul, com Bill Murray, Whiskey Tango Foxtrot (lançado no Brasil como Uma repórter em apuros, diretamente em vídeo) e Um holograma para o rei, com Tom Hanks, todos situados em países estrangeiros e recebidos como se fossem peças descartáveis.

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Em Gênios do crime, aconteceu o mesmo: por um lado, porque Hess não tem junto à crítica especializada uma recepção normalmente boa; por outro, esse elenco é tratado como algo raso, o que não é verdade. Galifianakis interpreta Dave Ghantt, que dirige carros-fortes para a Loomis Fargo, na Carolina do Norte, com Kelly Campbell (Kristen Wiig), por quem é apaixonado, mesmo sendo noivo de Jandice (Kate McKinnon).
Certo dia, Kelly é despedida do trabalho e um conhecido, Steve Chambers (Wilson), casado com Michelle (Mary Elizabeth Ellis), tem a ideia de roubar um carro-forte. Quem é lembrado para a empreitada? Dave Ghantt, que possui um sotaque como se tivesse saído de Fargo, dos irmãos Coen (e isso é apenas para delimitar que a possível falsidade disso, se vale para os Coen, vale para Hess). O primeiro encontro para combinar o plano de assalto é de uma precariedade risível, quando Ghantt invade um restaurante segurando duas rosas a serem entregues para Campbell e a conversa ingressa no universo de Pinóquio.
Esta história é baseada em fatos reais, acontecidos em 1997, mas é o que menos importa nessa sequência de gags de Hess, com seu estilo antigo (cores vibrantes) e situações lunáticas e despropositadas, principalmente quando há cenas passadas no México – em que Hess, assim como em Nacho Libre – pouco segue o politicamente correto.

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No entanto, Hess tem uma habilidade para, em meio ao absurdo, criar sentimento pelos personagens, no caso por Ghantt e Kelly, muito em razão das atuações realmente boas de Galifianakis (voltando aos melhores momentos de Se beber, não case e, apesar dos maneirismos, sem adotar o lado desagradável de Um parto de viagem) e Wiig, aqui tentando fazer uma femme fatale do cotidiano e com certa nobreza descompromissada, lembrando que Leslie Jones está impagável como uma agente federal, Scanlon. Hess tem características que lembram as dos irmãos Farrelly e aqui, principalmente, do subestimado Antes só do que mal casado.
Veja-se também o humor surreal de Hess, já exibido principalmente no quase esquecido Gentleman Broncos, em que um menino era sabotado por um escritor de sucesso e víamos o registro de sua história – com Sam Rockwell, que também aparece no filme anterior a este do diretor, Don Verdean. Neste humor, o elenco precisa se situar a um passo do absurdo, sem mergulhar totalmente nele para que a superfície da história continue plausível. Sudeikis é o ator com mais talento do elenco para apresentar um personagem que poderia ser uma sátira ao assassino de Onde os fracos não têm vez, interpretado por Javier Bardem, e ainda assim obtém um sentimento de humanidade estranho.

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Para captar esse universo, Hess conta com a direção de fotografia de Erik Wilson, que já apresentou ótimos trabalhos em O duplo, Tiranossauro e Submarino, todos de origem inglesa, mas que se situam entre o universo “real” e o universo “imaginário” de seus personagens. Em Gênios do crime, Ghantt, a partir de determinado momento, começa a usar disfarces que remetem ao humor clássico, quase teatral, como já acontecia em Nacho Libre na figura de Jack Black, um frade que pretende se tornar lutador para ajudar os órfãos da igreja onde vive. Se lá Black desempenhava um homem em busca do verdadeiro amor, não o é diferente com a figura de Galifianakis neste: todos os personagens de Hess, a começar por Napoleon Dynamite, buscam um amor que pode render uma transformação.
Sim, Gênios do crime foi um fracasso de bilheteria (custo de 25 milhões de dólares para arrecadação de 23) e crítica, o que leva a muitos espectadores a descartá-lo, não sem antes dar uma passada pelo Rotten Tomatoes para confirmar. Pode-se dizer que, apesar da pressa da história, ela realmente prende a atenção do espectador e lida com uma história situada entre o verossímil (afinal, é baseada em fatos reais) e o ridículo (típico da filmografia de Hess). Ao mesmo tempo que o elenco se envolve em trapalhadas baseadas num humor histriônico, há lances quase de real afeto, cercados de um ar de ingenuidade. Se você vai ver isso como um prazer culpado, eu vejo como uma comédia realmente de valor.

Masterminds, EUA, 2016 Diretor: Jared Hess Elenco: Zach Galifianakis, Kristen Wiig, Owen Wilson, Kate McKinnon, Jason Sudeikis, Leslie Jones Roteiro: Chris Bowman, Emily Spivey, Hubbel Palmer Fotografia: Erik Wilson Trilha Sonora: Geoff Zanelli Produção: Andrew Panay, John Goldwyn, Lorne Michaels Duração: 96 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Michaels-Goldwyn / Relativity Media

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Jovens, loucos e mais rebeldes!! (2016)

Por André Dick

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Houve uma dúvida quando o diretor Richard Linklater anunciou seu novo filme depois de Boyhood com uma temática calcada no seu clássico Jovens, loucos e rebeldes, dos anos 90, com Matthew McConaughey e Ben Affleck em início de carreira, que mostrava um jovem, Mitch Kramer (o ótimo Wiley Wiggins), ingressando na vida durante uma longa noite em que tentava encontrar seu grande amor. Parecia, sem dúvida, um regresso às raízes, mas talvez um passo atrás do que havia representado seu épico do cotidiano filmado em 12 anos e da trilogia que fez com Ethan Hawke e Julie Delpy sobre um casal que vai se conhecendo ao longo de diferentes anos. Mas, de certo modo, traz elementos já apresentados por Linklater mesmo em seus filmes menos expressivos (Escola do rock) ou subestimados (Fast food nation): um completo domínio sobre o fenômeno cotidiano das relações que podem se fortalecer, seja ao redor de um grupo composto pelo interesse musical ou por empuxes imigratórios para os Estados Unidos naquela que parece ainda a peça mais corrosiva sobre o universo ianque. Linklater sempre se destaca quando mostra núcleos, mais do que quando tenta experimentar na área de animações. Se poderia haver uma sequência para Boyhood (ainda não descartada pelo diretor), poderia ser exatamente esta obra.

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No que se adaptou para Jovens, loucos e mais rebeldes!! no Brasil, sem ser uma continuação direta, Linklater mostra um calouro de faculdade Jake (Blake Jenner), no Texas, em 1980, que se muda para uma casa onde ficará com seus futuros companheiros do time de beisebol: o companheiro de quarto Billy (Will Brittain), do interior texano, além de Finnegan (Glen Powell), Roper (Ryan Guzman), Dale (Quinton Johnson), e Plummer (Temple Baker). Esses personagens têm muito do personagem Randall “Pink” Floyd (Jason London), de Jovens, loucos e rebeldes, na sua indecisão de se tornar um jogador ou não. Desta vez, Linklater mostra essa parceria entre os potenciais jogadores de maneira calibrada, sem grande surpresa existencial para o que cada um pretende ser, e mesmo assim de forma elaborada. Eles estão ali simplesmente, para brincar ou não uns com os outros, para se fortalecer em cima de brigas forjadas, ataques à geladeira ou romances desacreditados. Em certos instantes, ele parece se fazer em cima de um roteiro livre, não fosse a arquitetura disfarçada pelo diretor nos momentos exatos.
Logo num passeio de carro pelo campus, Jake se encanta por uma jovem, Beverly (Zoey Deutch). Essa possibilidade de romance lembra muito o clima de Grease – Nos tempos da brilhantina, realçado pela fotografia excelente de Shane F. Kelly (um dos fotógrafos de Boyhood) e pelo design de produção e caracterização dos figurinos, características que diferenciam Linklater dos outros cineastas de sua geração, que parecem não ter a vivência necessária para reproduzi-los, o que se constata em outras obras suas dos anos 90, a exemplo de Slacker e SubUrbia. O romance de Linklater, nesse universo, vai além, contudo, da briga de gangues: esses são personagens que podem finalmente se encontrar e, quando se encontram, descobrir uma possibilidade de levar suas vidas adiante, nem que isso pertença apenas a uma fase.

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Numa reunião com o treinador, Gordon (Jonathan Breck), ainda são apresentados Brumley (Tanner Kalina), Jay (Juston Street) e Willoughby (Wyatt Russell), que parece saído diretamente de Woodstock. Nessa reunião, é determinado que eles não podem beber, usar drogas mais ilícitas nem levar mulheres ao lugar, o que não será seguido à risca. A casa vira um centro de diálogos das mais diversas espécies e troca de conhecimentos, LPs, vídeos de Além da imaginação e livros – e, em primeiro lugar, conversas que podem soar fúteis quando são parte da imaginação de Linklater e, sendo assim, muito boas. O fascinante uso do diretor de referências culturais sempre aumenta o interesse por seus filmes, não apenas na trilogia que fez com Hawke e Delpy (embora nela se exceda em alguns pontos), como também naqueles a princípio mais descompromissados e nos quais parece faltar justamente o que se consideraria uma cultura hermética.
A premissa do filme é muito simples, ao contrário da de Boyhood, mas o interessante é que a essência desse se mantém. Linklater novamente brinca com a cultura texana, de modo divertido e sem rótulos. A agilidade das relações é imensa, com uma espécie de visão iluminada do cotidiano, capturando uma atmosfera de mudança dos anos 70 para os 80, quase como se fosse uma continuação da série de TV Freaks and geeks (que, aliás, se inspirou muito nas obras iniciais de Linklater). Embora a trilha seja um tanto óbvia (devendo a Super 8), como é de praxe no cinema desse diretor, as atuações são ótimas, não apenas de Blake Jenner, como sobretudo de Glen Powell, bastante hilário em várias sequências, e Deutch, empregando uma graciosidade à sua personagem. Há, ao mesmo tempo, um uso de comédia sem ser forçado e de reflexão sem ser piegas nem dramática. Jovens, loucos e mais rebeldes!! é talvez o filme mais alto astral da década até agora, uma placa de otimismo em meio a tantas obras à procura apenas de melancolia. Quando tudo é uma contagem regressiva para o início das aulas, a alegria pode ser descobrir que justamente o início de tudo se deu muito antes e que fechar os olhos pode abarcar ainda mais vida do que novas lições.

Everybody wants some!!, EUA, 2016 Diretor: Richard Linklater Elenco: Blake Jenner, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Ryan Guzman, Austin Amelio, Glen Powell, Zoey Deutch, Jonathan Breck, Will Brittain, Dora Madison, Jay Niles, Temple Baker, J Quinton Johnson, Tanner Kalina, Forrest Vickery, Michael Monsour Roteiro: Richard Linklater Fotografia: Shane F. Kelly Produção: Ginger Sledge, Megan Ellison, Richard Linklater Duração: 117 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Annapurna Pictures / Detour Filmproduction / Paramount Pictures

cotacao-5-estrelas

 

A assassina (2015)

Por André Dick

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O diretor de Taiwan Hou Hsiao-Hsien, autor, por exemplo, de Flores de Shangai, é conhecido principalmente pelos espectadores que seguem obras mais à margem do cinema estrangeiro, não apenas pela composição de imagens, como também por sua tendência a quase não usar diálogos para compor uma narrativa. Neste filme pelo qual foi premiado como melhor diretor no Festival de Cannes em 2015, ele situa a história na China do século IX, contando a trajetória de Nie Yinniang (Qui Shu), sequestrada quando tinha apenas 10 anos de idade por Jiaxin (Fang-yi Sheu), uma freira. A partir daí, ela, por meio de vários treinamentos, se tornou uma assassina, preparada sobretudo para aniquilar homens corruptos ligados ao governo, o que acontece logo no início de maneira impactante. No entanto, em outra missão, sua vítima segura um bebê e ela desiste. Isso faz com que Jiaxin fique bastante irritada e que envie Yinniang a Weibo, a maior província, durante a queda da dinastia Tang, onde deverá matar Lord Tian Ji’an (Chen Chang), casado com uma Lady Tian (Yun Zhou), embora pareça passar mais tempo com uma concubina, Huji (Hsieh Hsin-Ying).

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Repare-se na maneira como Hsien evoca esse ambiente palaciano, em que as cortinas parecem afastar uns dos outros e mesmo assim estão próximos, e, apesar da quietude, tudo parece preocupante. O problema é que Tian é seu primo, a quem ela, antes de ser sequestrada, estava prometida, ou seja, com quem ia se casar, e que está em crise com um de seus ministros, Chiang Nu (Shao-Huai Chang). As danças e os tambores das festas anunciam um período especialmente complicado, em que o passado voltará à tona para um ajuste de contas necessário. Mescle isso com o fato de os pais de Yinniang, Nie Feng (Dahong Ni) e mãe (Mei Yong), terem optado por um determinado destino para a filha e se concentra o principal impasse dessa vida.
Com uma fotografia extraordinária de Mark Lee Ping Bing, parecendo filmar Barry Lindon num espaço oriental, fixando o olhar nos cenários irretocáveis, nas cortinas esvoaçantes e nos telhados do reino para onde vai, A assassina tem um lado pouco convidativo (a lentidão de sua trama) que é compensado pela atmosfera tremendamente imersiva. Quando assistimos ao filme, parece que estamos juntos com os personagens, seja num palácio à noite iluminado por homens carregados de tochas, seja numa cachoeira, seja em meio a uma floresta onde desencadeia uma luta sangrenta. Ele se enquadra no gênero wuxia (武侠), de origem chinesa, que mistura artes marciais e fantasia. O início em alto movimento e filmado em preto e branco é um prólogo para o que se segue e difícil imaginar uma sequência prévia ao final tão impactante.

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A história muitas vezes é confusa, antilinear e sem diálogos (uma complicação em Millennium Mambo, por exemplo), o que é comum nos filmes do diretor, e ainda assim trata-se de uma obra rara. Nie Yinniang, numa bela atuação de Shu Qui, é uma personagem fascinante mesmo que pouco se pronuncie porque ela parece se mesclar à natureza, como se fizesse parte iminentemente dela, do vento, das árvores, movendo-se de forma sorrateira: é ela que vai abalar Weibo e os homens que a perseguem não têm nenhuma capacidade de enfrentá-la. Hsiao-Hsien aplica uma espécie de subtexto a essa história simples quando ela precisa se recuperar num vilarejo, antes de tentar empreender a sua missão: ela conseguirá ou voltará a ser uma pessoa comum, sem ligação com a morte? Hsiao-Hsien basicamente mostra essa história de maneira que o espectador não tem afeto pelos personagens e sim pelos cenários, e isso não ocorre sem o pensamento fundamental de que apenas assim conseguimos entendê-los. Em muitos momentos, o filme lembra a obra grandiosa de Kar-Wai O grande mestre: se lá mostrava-se a figura de Ip Man, aqui a figura dessa assassina treinada não é menos evasiva do que se considera plena realidade para entendê-la. Há, como na peça de Kar-Wai, uma certa abstração, mas calcada num sentimento poético de que ela pode se manifestar em qualquer lugar. Mais do que com este filme de Kar-Wai o de Hsiao-Hsien recupera alguns instantes que remetem a Cinzas do passado, considerada a verdadeira estreia daquele diretor.

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Com um panorama bastante eficiente do mundo oriental na queda dessa dinastia Tang, A assassina se notabiliza por conseguir entrelaçar lacunas de narrativa com atores que parecem estar de acordo com cada posicionamento que vemos na tela. Vemos, de forma indireta, como funciona a estrutura de um clã familiar, assim como sua ligação com um passado nem tão distante. Há também elementos de Ran, de Kurosawa, na imobilidade da câmera dentro do palácio, como se ele representasse a própria falta de desejo de mudança e a manutenção das regras e composições seculares, e um pouco menos da arte saturada de Herói, de Zhang Yimou, excessivamente voltado às imagens internas, sem deixar escapar a beleza natural que Hsiao-Hsien adota. O espectador não deve esperar por sequências de lutas prolongadas ou mesmo focadas em detalhes, e sim por uma narrativa que baseia suas indagações nessa relação intrínseca com o mundo em movimento. Com isso, o figurino adquire uma imponência que leva a uma integração dos personagens com cada cenário, assim como um grupo de mulheres caminhando ou uma mulher cantando para o pássaro azul pode lembrar mais uma visualização de um tanka.

刺客聶隱娘, China/Taiwan/Hong Kong, 2015 Diretor: Hou Hsiao-Hsien Elenco: Qui Shu, Fang-yi Sheu, Chen Chang, Yun ZhouHsieh Hsin-Ying, Shao-Huai Chang, Dahong Ni, Mei Yong Fotografia: Mark Lee Ping Bing Trilha Sonora: Giong Lim Produção: Ching-Song Liao, Wen-Ying Huang Duração: 104 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Central Motion Pictures Corporation / China Dream Film Culture Industry / Media Asia Films / Sil-Metropole Organisation / SpotFilms / Zhejiang Huace Film

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