Missão: impossível – Efeito Fallout (2018)

Por André Dick

O primeiro Missão: impossível, ainda dos anos 90, mostrou a volta, na época, do diretor Brian De Palma, estruturado em momentos de suspense, depois do desapontamento financeiro de A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim. Nele, Ethan Hunt (Tom Cruise), um agente principal da IMF (Impossible Mission Force), é acusado de traição e precisa buscar uma lista oficial de espiões norte-americanos para a misteriosa Max (Vanessa Redgrave), a fim de provar sua inocência. Auxiliado por uma dupla (Ving Rhames e Jean Réno) e tendo em torno Claire (Emmanuelle Béart), o agente tenta chegar ao computador que contém a lista. Mesmo não apresentando muitos momentos de ação, a expectativa da história criada por De Palma vale a sessão, com uma passagem final memorável, em que a fotografia do colaborador habitual do diretor, Stephen H. Burum, era um trunfo. Se o segundo filme, dirigido por John Woo, tinha prevalência de estilo sobre substância, o terceiro, de J.J. Abrams elevou a série a um novo patamar, com o agente Hunt, dividido entre o trabalho e o casamento com Julia (Michelle Monagan). No entanto, ela não sabe de sua vida dupla, e ele parte em nova missão, para capturar Owen Davian (o ótimo Philip Seymour Hoffmann), que tem um objeto, o Pé de Coelho. O filme basicamente é sobre sua tentativa de reencontrar a namorada, mas Abrams concede ao personagem traços humanos.

No quarto filme, de Brad Bird, com o subtítulo Protocolo fantasma, além da curiosa presença de Léa Seydoux, as sequências de ação e a beleza das paisagens, na tempestade do deserto antológica, eram um acréscimo à competência narrativa, o que se repetiu na quinta parte, Nação secreta. O diretor desta, Christopher McQuarrie, volta em Missão: impossível – Efeito Fallout.
O filme dá prosseguimento ao que aconteceu no anterior. O que sobrou da organização de Solomon Lane (Sean Harris) se transformou num grupo terrorista. Ethan Hunt, em Belfast, precisa interromper a venda de plutônio para integrantes desse grupo, para outro cliente, John Lark. Ele recebe a ajuda novamente de Benjamin Dunn (Simon Pegg) e Luther Stickell (Ving Rhames). No entanto, acontece um imprevisto, que vai colocar Hunt em ação. Mesmo sob ordem de Alan Hunley (Alec Baldwin), ex-agente da CIA e secretário do IMF, para acompanhar Hunt, a agente Erica Sloane (Angela Bassett) escolhe o agente August Walker (Henry Cavill) e a primeira passagem é para a Cidade das Luzes, onde MvQuarrison filma cenas de ação antológicas, sob influência clara de John Wick 2 (a luta no banheiro entre os heróis e um personagem feito por Liang Yang) e do James Cameron de O exterminador do futuro 2, na perseguições de motos e carros. Lá, Hunt conhece a White Widow (Vanessa Kirby), enquanto tenta encontrar os integrantes ex-aliados de Lane, ao mesmo tempo que reencontra Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), ex-agente do MI6, que aparecia em Nação secreta.

Efeito Fallout tem, primeiramente, excelentes locações (toda a sequência que se passa em Paris), assim como acontecia no terceiro, passado em grande quantidade no Japão (onde Ethan tinha uma passagem que inspiraria Batman em seu segundo filme de Nolan). As peripécias do agente são obviamente difíceis de acreditar, mas Quarrie filma com tanta veracidade e com uma fotografia alternando ângulos que sabemos estar diante de uma obra de aventura incomum. Tudo soa espetacular, com efeitos especiais de ponta e design de produção detalhista (o clube noturno, por exemplo), auxiliado por uma montagem trepidante.
McQuarrie concentra uma carga mais humana no personagem de Hunt, ou seja, coloca medo e reflexão na maneira como ele age diante do perigo. Isso fazia falta sobretudo no segundo da série. No primeiro, De Palma fazia um filme de ação quase orquestrado – num meio caminho entre os policiais que fez (Os intocáveis) com o aspecto cult de Femme fatale. Por sua vez, Abrams fazia uma espécie de peça de espionagem em que, à medida que acelera, consegue estabelecer cada um dos componentes de interesse entre cada personagem – ou seja, parecia que estávamos em meio à ação e o personagem de Hunt tentava encontrar a sua amada para se reconectar a uma vida ilusória. As conversas de Luther com a personagem de Rebecca Ferguson são as que melhor retomam essa tentativa de experimentar uma vida cotidiana.

Se o quarto e o quinto filmes foram interessantes, no entanto concentrados na parte visual, é neste sexto que McQuarrie estabelece melhor ainda a peregrinação de Hunt com o peso de escolher entre a humanidade e os amigos, de forma destacada no primeiro ato. E, mesmo que Pegg e Rhames continuem boas presenças, trazendo doses bem-vindas de humor, é, de forma surpreendente, que Cavill, um ator normalmente restrito apenas ao personagem de Superman e poucas variações (no ótimo O agente da U.N.C.L.E.), se destaque. Por isso, talvez, ele se ressinta, em alguns momentos, de reviravoltas no ato final, quando tudo se estabelece de maneira mais direta e Tom Cruise continue se afastando de um roteiro em que atue menos fisicamente. Surge uma personagem surpresa de um dos filmes passados e, ao contrário de explorar a sua presença, McQuarrie prefere se concentrar apenas na ação, o que diminui uma certa conexão do público. De qualquer modo, blockbuster de grande qualidade, Efeito Fallout acaba concedendo mais responsabilidade para as próximas obras de 007, a única franquia que possui a mesma quantidade de cenas de ação em intensidade, em que o espectador não apenas testemunha a ação, como se corresponde com a corrente emocional dos personagens. Existe aqui uma narrativa funcional, sem desenvolvimentos desnecessários, parecendo-se muito com Operação Skyfall nesse aspecto, abrindo os personagens para uma continuação possivelmente ainda mais grandiosa e capaz de reunir elementos do passado de Hunt e o futuro da humanidade contra grupos ameaçadores.

Mission: Impossible – Fallout, EUA, 2018 Diretor: Christopher McQuarrie Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Sean Harris, Angela Bassett, Alec Baldwin Roteiro: Christopher McQuarrie Fotografia: Rob Hardy Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Tom Cruise, JJ Abrams, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger, Christopher McQuarrie, Jake Myers Duração: 147 min. Estúdio: Bad Robot, Skydance Media, Alibaba Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Por André Dick

A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado competência em Amnésia e em Insônia, mas passou a ser visto como cineasta mais popular por meio de Batman begins. Nele, o super-herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (Liam Neeson), que pretende dizimar a civilização decadente com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme.

Ela quer prender os integrantes do crime organizado de Gotham, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman) e a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard, em tom crescente e efetivo). Ou seja, Nolan tem uma clara opção em situar o personagem sob uma luz mais realista.

De qualquer modo, Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan desenha seus personagens de maneira equivalente com seus objetivos. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman, é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher. Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é cuidadosa em todos os seus quesitos.
O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação visual do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Numa nova sessão, de qualquer modo, é uma obra que se encontra cada vez mais contemporânea, além de influência direta na maioria dos filmes adaptados de quadrinhos. É visível a influência de Nolan do cineasta Michael Mann, principalmente aquele de Fogo contra fogo e Miami Vice, de alguns anos antes. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton, com acentos dramáticos funcionais. O não emprego de humor no personagem principal, um super-herói amargurado, talvez deixe a narrativa mais pesada, e isso se reproduz no clima proporcionado pela fotografia belíssima de Wally Pfister, diferenciando-se de suas versões anteriores, mesmo daquela de Burton. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação: os acontecimentos do início do século XXI estão subentendido pelo roteiro. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Heath Ledger, que recebeu um Oscar póstumo merecido de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos, tendo à frente Frank Miller, e decisivamente psicopata. O Coringa de Jack Nicholson no Batman de Burton era tão desequilibrado quanto, mas com nuances mais atenuadas e um humor corrosivo às vezes de tom infantojuvenil. Estamos diante de um vilão que coloca não apenas Batman em xeque, como todo o sistema (policial, jurídico) da cidade. Não se pode acreditar em mais ninguém; tudo está sob suspeita. A vida de Wayne se sente vazia, tanto quanto a de Dent em busca de correção.

Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador quase sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o a trilha sonora tensa de Howard e Zimmer quase não se ausenta, sendo interrompida apenas num ato final um pouco mais expositivo do que o restante.
Algumas das peças cinematográficas de Nolan têm mais de um final, e este tem pelo menos três, no entanto quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. Seu Batman é um super-herói endurecido pela realidade de Gotham, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries, sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa. Há nessas sequências, também, uma referência à tortura de terroristas, bem enfocada em A hora mais escura, alguns anos depois, por Kathryn Bigelow. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Porém, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. O dilema aqui ultrapassa a tendência romântica do super-herói e chega a um ponto em que não consegue mais controlar sua tendência de buscar a todo custo coibir que o crime tome conte de sua cidade.

Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que ateia fogo a uma pilha gigantesca de dinheiro, com o empenho apenas de destruir. Por exemplo, a cena do hospital é grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de uma ficção, e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado, como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros. São momentos em que o gênero de filme de super-heróis se mescla ao thriller urbano. Ao contrário de Batman begins, que preferia mostrar becos enfumaçados e muita chuva, O cavaleiro das trevas prefere a simetria de arranha-céus e esconderijos tecnológicos, além de uma noite asséptica, com grandes avenidas vazias.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred ou o cientista Lucius Fox. Há várias obras coladas nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que toma como fundo a transformação da sociedade, seja com sua horda de gângsteres terroristas, seja com um tom até mesmo otimista diante de tudo. Nolan também está interessado em Batman como alguém que vigia a todos por meio de celulares, antecipando uma era moderna, e constantemente perturbado por um passado que não consegue resolver. Talvez seja ainda aquele filme de super-heróis que conseguiu estabelecer um vínculo direto com a realidade e mesmo por isso fez tamanho sucesso. Seu roteiro responde por vários pontos, inclusive pelo talento de Nolan em transformar o que seria menos respeitoso em algo com certo tamanho irrestrito.

The dark knight, EUA/Reino Unido, 2008 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Nestor Carbonell, Melinda McGraw, William Fichtner, Nathan Gamble Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: James Newton Howard, Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas, Lorne Orleans Duração: 152 min. Estúdio: Legendary Pictures, Syncopy Films, DC Comics Estúdio: Warner Bros. Pictures

Ilha dos cachorros (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival de Berlim deste ano, Ilha dos cachorros, embora possa se parecer com O fantástico Sr. Raposo, tem muito mais de Moonrise Kingdom do que qualquer outra obra de Wes Anderson, assim como remete, em vários momentos, ao restante de sua filmografia, com um humor agridoce e afetivo. A maneira como a cultura japonesa é apresentada pode soar, em alguns momentos, provocadora, mas poucos criadores do Ocidente conseguiram mostrá-la com tantos detalhes nos últimos anos, principalmente no uso de ambientações típicas.
A história mostra a decisão do prefeito de Megasaki, Kobayashi (Kunichi Nomura), que decide mandar todos os cães de seu país, por motivos de saúde, para uma ilha erguida por detritos. Ele é representante de uma dinastia que lutou contra a presença de cachorros na sociedade, preferindo os gatos – e o início do filme poderia lembrar Kagemusha. O menino que apadrinha, Atari (Koyu Rankin), deseja rever seu cão Spots (Liev Schreiber), indo de avião resgatá-lo na ilha.

O filme se passa vinte anos no futuro, e Anderson, junto com a história elaborada em parceria com Roman Coppola, Jason Schwartzman (com os quais escreveu Viagem a Darjeeling) e Kunichi Nomura, mostra uma sensibilidade insuspeita quando Atari encontra um grupo de cães: Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum). Há também uma estudante, Tracy Walker (Greta Gerwig), que deseja salvar esses cães. E há ainda Nutmeg (Scarlett Johansson), que cria interesse imediato em Chief, e dois cães que parecem guias misteriosos, Jupiter (F. Murray Abraham) e Oracle (Tilda Swinton).
Anderson mostra os cães como em seu cartaz: constantemente olhando para a câmera, numa quebra da quarta parede, concedendo uma humanidade imprevista. Do mesmo modo, ele trabalha com os espaços da ilha quase do mesmo modo que faz em Moonrise Kingdom, ampliando o olhar para detalhes no horizonte e em certa melancolia. Ele lida com sentimentos dos seres humanos pelos animais, mas de modo introspectivo, bem diferente do grande sucesso comercial (e divertido) Pets e dos clássicos 101 dálmatas e Todos os cães merecem o céu. Isso não o afasta de algumas gags efetivas (“Parem de lamber suas feridas”, diz o líder, enquanto um dos parceiros exatamente as lambe).

Desde o início, Ilha dos cachorros se mostra um filme de Wes Anderson, principalmente pela movimentação de câmera. É estranho que os diálogos em japonês não sejam legendados, apenas traduzidos em conferências (com a voz de Frances McDormand), talvez para criar mais um desvio narrativo. O uso da trilha sonora de Alexandre Desplat, assim como de canções no estilo indie típicas na filmografia de Anderson (com exceção feita a seu filme anterior, O grande Hotel Budapeste), se mostra mais uma vez acertada.
Estruturado nesses elementos, Anderson expande seus temas já mostrados antes: a figura da família é essencial para entender Atari. Ele é um menino órfão, assim como o de Moonrise Kingdom, do mesmo modo que tem uma relação conflituosa com seu padrinho, a exemplo do que vemos em outros momentos da carreira de Wes Anderson. Atari não é expansivo como outras crianças da filmografia do cineasta: suas reações são mais distantes. Ao contrário de O fantástico Sr. Raposo, também há um certo afastamento dos que podem ser considerados humanos, baseado na figura de Kobayashi, inspirado no ator Toshiro Mifune, que apareceu em diversos filmes de Akira Kurosawa e aqui parece ecoar aquela atuação de O barba ruiva.

O uso das cores, assim como no stop-motion anterior de Anderson, O fantástico Sr. Raposo, é espetacular, realçando o cenário como poucos cineastas, mesmo orientais, conseguiriam. É uma qualidade conhecida do cineasta, porém poucas vezes depurada como neste trabalho exemplar. Premiado como melhor diretor em Berlim, Anderson parece mais interessado em deixar seus sentimentos mais contidos do que revelados, o que já mostrou ao longo de sua trajetória, nunca de modo tão presente quanto aqui. Ele parece, ao mesmo tempo intensificar sua assinatura e fazê-la menos particular, inclusive no tom baixo das músicas e na quase falta de transição clara entre as cenas. De qualquer modo, há sempre ainda, por baixo de tudo, o sentimento familiar de seus primeiros filmes, a começar por Os excêntricos Tenenbaums e Viagem a Darjeeling, na maneira como os cães interagem, a princípio desconfiados uns dos outros, em seguida unidos pelo mesmo objetivo. A construção de ideia de família transita entre o mundo humano e o animal, no entanto nunca de maneira tão óbvia quanto aparenta nesta obra de verdadeiro comunicado sobre o comportamento da natureza, solícito ou não, preparado para o embate contra o que pode prejudicá-la.

Isle of dogs, EUA, 2018 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Bob Balaban, Kunichi Nomura, Ken Watanabe, Greta Gerwig, Frances McDormand, Fisher Stevens, Nijiro Murakami, Harvey Keitel, Koyu Rankin, Liev Schreiber, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Akira Ito, Akira Takayama, F. Murray Abraham Roteiro: Wes Anderson História: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman, Kunichi Nomura Narração: Courtney B. Vance Fotografia: Tristan Oliver Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wes Anderson, Scott Rudin, Steven Rales, Jeremy Dawson Duração: 101 min. Estúdio: Indian Paintbrush, American Empirical Pictures Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Arábia (2017)

Por André Dick

O cinema brasileiro tem trabalhado com a jornada de personagens de um ambiente para o outro de maneira ampla. Em filmes dos mais diversos, a exemplo de Vidas secas, Bye Bye Brasil, A hora da estrela O homem que virou suco, entre outros, isso ficava claro. No clássico Central no Brasil, tínhamos uma história muito interessante sobre a viagem de uma senhora que escreve cartas e um menino em direção ao interior do país. No mais recente Casa Grande, a narrativa parece interessada em expor uma determinada situação de um jovem cercado por problemas correspondentes ao universo financeiro e traz à cena algumas discussões que hoje estão presentes na conversa de rotina à tela do cinema. Se em alguns momentos a conversa é excessivamente didática, está mais interessado no que o panorama brasileiro repercute em seus personagens, tomando o Rio de Janeiro como ponto de localização, sem deixar de estender relações com o restante do país.

O novo filme brasileiro mais comentado, Arábia, da dupla de diretores João Dumans e Affonso Uchoa, poderia cair no simplismo de apenas utilizar seus personagens e ambientações para discutir um desenhar um determinado contexto. Ele prefere mostrar a trajetória de Cristiano (Aristides de Souza), que saiu da cadeia e passa anos viajando, trocando de emprego. Esta é uma história universal, pois poderia se passar em qualquer parte do mundo, encontrada num caderno, cercado por frutas, símbolos da jornada, pelo jovem André (Murillo Caliari), que mora nas proximidades da fábrica de alumínio de Ouro Preto onde Cristiano, o qual conhece por meio de sua tia enfermeira Márcia (Gláucia Vandeveld), trabalhava. Arábia funciona porque, como poucas obras, mostra a solidão do ser humano, levado adiante por conta de suas necessidades e que nutre uma lembrança nostálgica de um passado que poderia ser diferente com um sentimento dosado de modo bastante particular, mesmo com estilo capaz de remeter a Kiarostami e Ceylan (na câmera posicionada ao longe da cena ou enquadrada dando destaque a cortinas ou corredores de fundo).

A situação do personagem central é notavelmente sensível, principalmente quando conhece a mulher de sua vida, Ana (Renata Cabral). A referência direta me parece ser um filme de 1976 chamado A queda, de Ruy Guerra, que mostra um ambiente de construção onde os personagens tentam rever uma injustiça com um de seus trabalhadores. Também lida com uma sensação de mobilidade contínua da vida urbana ou rural, a exemplo do excepcional São Paulo S/A. Não existe a sensação de que a obra mostra a viagem do personagem como uma perda de tempo, mas sim como um complemento necessário para a realização ou não de sua personalidade. Nisso, as cenas de beira de estrada remetem ao clássico O dragão da maldade contra o santo guerreiro, com o personagem andando à margem de rodovias tomadas por caminhões, carros, motos e ônibus, como se representasse um universo caótico, sempre em movimento, em contraposição às suas paradas para trabalho em locais afastados dessa miscelânea.
Os diretores não estão preocupados com cada lugar em que o personagem para, e sim com a amplitude de sua existência. Mais representativa pode ser a conversa sobre o peso das mercadorias (de cimento, comida para peixe etc.), acontecendo diante de uma câmera enquadrada de maneira simétrica e quase tediosa, por outro lado simbolizando essa caminhada. Do mesmo modo, a lenha no fogo do interior se transforme em chispas elétricas do alumínio na fábrica onde Cristiano vai trabalhar. E o parque de diversões onde ele se encontra com Ana tem o ânimo não encontrado em outros lugares; a disparidade do parque em relação ao mundo de Cristiano é igual à do bazar no conto “Araby” incluído por James Joyce em Os dublinenses, embora a Arábia seja sugerida numa piada durante uma conversa de trabalho.

As linguagens tendem a se misturar e há sempre uma cordialidade no ar entre os trabalhadores, nunca se sabendo onde o desejo de uma termina e o de outro começa, mesmo porque são aspirações gerais – e é isso o que acontece em Arábia. O rock de Raul Seixas e a música popular de se entrelaçam, em rodas de violão ou palcos de apresentação para ninguém. O conflito entre castas e crenças é sempre teórico; na prática, o filme mostra um universo híbrido, e as culturas e experiências diversas se imbricam, o que se mostra de maneira notável em Central do Brasil e volta a se manifestar de maneira exemplar nesta obra. O próprio personagem central é uma espécie de síntese disso, com seu sentimento permanente de estar à margem e não poder voltar à vida de antes. Já devidamente filtrado pelo ambiente das fábricas onde trabalha, ele irrompe, ao final, com um discurso poético que poderia fazer o prosaico que o rodeia ficar em segundo plano, constituindo um cinema de fluxo. Se os fragmentos do caderno lidos por André, mas que comparecem na narração em off de Cristiano, podem sintetizar o personagem, também ressoam o discurso de outros, e nisso se manifesta a solidariedade implícita da narrativa, junto com a atuação irretocável de Aristides de Souza. Com as imagens finais lembrando Red desert, de Antonioni, sendo o ambiente de fábrica de alumínio tão impactante como o de O homem elefante, de David Lynch. Arábia é o tipo de filme que recorda o quanto o cinema pode ser simples e complexo ao mesmo tempo.

Arábia, BRA, 2017 Diretores: João Dumans e Affonso Uchoa Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Gláucia Vandeveld, Renata Cabral, Renan Rovida Roteiro: João Dumans e Affonso Uchoa Fotografia: Leonardo Feliciano Trilha Sonora: Francisco César Produção: Vitor Graize Duração: 97 min. Distribuidora: Embaúba Filmes / Pique-Bandeira Filmes

Os embalos de sábado à noite continuam (1983)

Por André Dick

Quando a continuação de Os embalos de sábado à noite estreou em 1983, a surpresa não deve ter sido pequena. Depois de um filme que foi um marco cultural no final dos anos 70, reproduzindo a febre da discoteca, com a trilha marcante dos Bee Gees, possivelmente ninguém esperava que sua sequência fosse realizada por Sylvester Stallone. E mais: que John Travolta, no personagem de Tony Manero, reaparecesse como uma espécie de Rocky Balboa, dançando na Broadway, com músculos e elasticidade de um atleta olímpico.
A aproximação feita por Stallone de Manero com seu personagem icônico é visível, inclusive no figurino do personagem e esse detalhe não é desprezível para que se entenda a aversão ao filme: praticamente toda a crítica o considerou um fracasso, mesmo que, junto ao público, tenha feito boa bilheteria. Os embalos de sábado à noite continuam mostra Manero querendo seguir carreira de dançarino. Isso poderia ser forçado, não fosse ao mesmo tempo um risco. Lembremos que no primeiro filme ele trabalha vendendo tinta no Brooklyn, mas quando chega sábado vai para uma discoteca, o Clube 2001 Odyssey, onde é o destaque, cercado de luzes, também embaixo de seus pés, típicas dos anos 70. Ele tenta se vestir como Al Pacino e Sylvester Stallone, suas referências do universo ítalo-americano e está tentando sair do seu universo, do qual não gosta, para tentar entreter as pessoas e, sobretudo, entreter-se. Annette (Donna Pescow) tem interesse por ele, porém é ignorada. Sua paixão é Stephanie (Karen Lynn Gorney), que deseja sair do Brooklyn para Manhattan, onde estão as neuroses contemporâneas vistas por Allen.

Trata-se de uma nova saída para o cinema – a saída pelo prazer da música, no entanto não aquela depositada no cinema áureo de Hollywood, de musicais como A noviça rebelde, Amor, estranho amor e Um violinista no telhado, e sim pelo dia a dia de pessoas comuns. Nesse sentido, este belo filme de John Badham (que nos anos 80 faria o referencial Jogos de guerra) antecipa todo o movimento de videoclipes e da MTV, assim como obras no estilo de Nos tempos da brilhantina (também com Travolta), Fama, Flashdance, Footloose e Dirty Dancing, esses quatro representativos dos anos 1980, e mesmo bandas nova-iorquinas, a exemplo de Blondie, nos anos 70, e The Strokes, neste século (cujo clipe “Hard to explain” tem imagens que lembram as discotecas dos anos 70 de Os embalos).
O filme, com seus relacionamentos e as dúvidas amorosas de Tony Manero – que seria “revivido”, já numa fase mais madura, por Travolta em Pulp fiction, de Tarantino –, consegue ser atemporal: ou seja, os temas de que trata, que resultam na condução ou desaparecimento de uma amizade e no sentido de que a infância e a adolescência estão ficando para trás, conseguem avançar sobre o espectador.

Na passagem do Brooklyn para Manhattan, em que o sonho se transforma em competitividade no trabalho, Manero faz testes para shows, sem passar em nenhum, enquanto trabalha numa academia ensinando dança e à noite como garçom. Sua namorada, Jackie (Cynthia Rhodes), também dança e dá aulas no mesmo lugar, além de ser vocalista de uma banda underground. Stallone desenha uma atmosfera típica do início dos anos 80 e, sendo o filme do mesmo ano de Flashdance, é interessante como ambos se pareçam, tanto em ritmo, na trilha sonora contínua, quanto em desenvolvimento dos personagens. O roteiro original era de Norman Wexler, autor do primeiro, mas parece que Stallone praticamente o reescreveu, certamente diminuindo o número de diálogos e tornando a narrativa mais compacta. Este não é mais o filme dos anos 70, de John Badham, e sim um dos 80, feito por Stallone um ano depois de Rocky III, que se parece visualmente com a sequência de Os embalos. Stallone coloca a trilha sonora nas mãos dos Bee Gees e de seu irmão Frank, e o resultado é uma sucessão notável de hits oitentistas.

O comportamento de Tony em relação às mulheres não mudou muito. Ele continua buscando quem o rejeita, nesta sequência a dançarina Laura (Finola Hughes, a mais fraca do elenco). Por meio curiosamente da música antológica “Staying alive”, dos Bee Gees, marca do primeiro filme, Stallone coloca Manero em situações que lembram aquelas da superação de Rocky Balboa: ele caminhando num parque, observando uma estátua, ou na ponte que liga Nova York e Manhattan. Isso recupera os conflitos do personagem em relação a seu passado, numa visita à mãe Flo (Julie Bovasso), e, quando passa pela antiga 2001 Odyssey, vê que se transformou numa boate gay, o que mostra especificamente o contexto do início dos anos 80 em Nova York de maneira exemplar, já exposto em Parceiros da noite, com Al Pacino, outra referência do personagem Manero. É genuína a atuação de Rhodes, fazendo um bom dueto com Travolta, principalmente nas sequências mais dramáticas, contudo também nas de dança, muito bem efetuadas e com um design de produção atrativo, remetendo a All That Jazz, de Bob Fosse, realizado em 1979, com a fotografia de Nick McLean mostrando um bom panorama do palco e da movimentação dos dançarinos sob a carga de luzes e jogo cenográfico. Stallone oferece a ela um figurino rosa nos momentos mais delicados e um vermelho quando se mostra no trabalho, como dançarina ou cantora.

Há, inclusive, um conflito nos bastidores da peça da qual Manero vai participar que tem ecos precursores do Cisne negro de Arronofsy, de maneira mais ingênua, é certo, no entanto resolvida dentro da narrativa mais modesta e objetiva. Os embalos de sábado à noite continuam é uma das sequências mais esquecidas da história do cinema, mas Travolta talvez tenha uma atuação aqui melhor do que a do primeiro (pela qual foi indicado ao Oscar), aplicando muito bem sua raiva interna pelas situações em que se envolve por teimosia. E Stallone, na obra mais estranha à sua filmografia, apresenta uma agilidade cênica que ele aplicaria novamente em Rocky IV, alguns anos depois, com o ponto de superação como meta. Manero tinha Stallone como referência no primeiro filme; aqui, embora pareça se converter nele, pelo menos fisicamente, não deixa de ser um símbolo de uma era em que os artistas queriam conquistar o mundo por meio da Broadway, na mesma época em que Wall Street personificava o sonho americano. Temos um nervosismo na atuação de Travolta e uma melancolia no olhar de Rhodes que representa bem essa passagem dos anos 70 para os 80, num mundo caminhando progressivamente para o conhecimento de que a selva nova-iorquina deve ser vencida pela diversão.

Staying alive, EUA, 1983 Diretor: Sylvester Stallone Elenco: John Travolta, Cynthia Rhodes, Finola Hughes, Steve Inwood, Julie Bovasso Roteiro: Sylvester Stallone, Norman Wexler Fotografia: Nick McLean Trilha Sonora: Barry Gibb, Maurice Gibb, Robin Gibb Produção: Sylvester Stallone, Robert Stigwood Duração: 93 min. Estúdio: RSO Records Distribuidora: Paramount Pictures

Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Por André Dick

O universo estendido da Marvel já teve dois filmes este ano, Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita. A eles vem se juntar a sequência daquele que seria o mais despretensioso do conjunto, lançado em 2015. Todos sabem que a parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de obras com variados super-heróis: Thor, Homem de Ferro e Capitão América, entre outros. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias de X-Men e Deadpool. Homem-Formiga é um dos personagens mais improváveis desse universo. O primeiro tinha a colaboração no roteiro de Edgar Wright, o mesmo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, com Joe Cornish, que escreveram As aventuras de Tintim. Quem o substituiu na direção do filme antes de começarem as filmagens foi Peyton Reed, que regressa para a sequência. Ele tem uma obra muito curiosa sobre o amor com o estilo dos anos 50 (Abaixo o amor) e também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Desta vez, Homem-Formiga e a Vespa conta com um roteiro assinado a dez mãos por Chris McKenna e Erik Sommers (dupla de LEGO Batman – O filme), além de Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari. Scott Lang (Paul Rudd) teve problemas com a justiça depois de ajudar o Capitão América a enfrentar o Homem de Ferro em Guerra Civil e é vigiado pelo agente da SHIELD Jimmy Woo (Randall Park). Por isso, ele tenta conviver o máximo com sua  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), dentro de casa, em brincadeiras que remetem a Os Goonies, enquanto tem a ajuda da antiga mulher, Maggie (Judy Greer), casada com o policial Paxton (Bobby Cannavale).
Ele está afastado de Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) se transforma na super-heroína Vespa e estão atrás, no universo quântico descoberto por Lang no primeiro filme, de Janet (atriz em participação surpresa), mãe de Hope. No entanto, algo os aproxima novamente – e essa química entre eles reproduz boa parte daquele filme de 2015, com Douglas, Rudd e Lilly trocando farpas de modo engraçado. E novamente estão de volta o amigo Luis (Michael Peña), com os parceiros atrapalhados Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). A ameaça parece ser Ava Starr/Ghost (Hannah John-Kamen), acompanhada por Bill Foster (Laurence Fishburne), porém surge pelo caminho também Sonny Burch (Walter Goggins), um negociante do mercado subterrâneo de tecnologia.

Como no filme de 2015, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus ligeiros flashbacks, inspirados claramente nas ideias de Edgar Wright. Pelo universo tecnológico envolvido, novamente há as referências à SHIELD, mas esta sequência se mostra próxima de Homem-Aranha – De volta ao lar, com uma passagem de Lang por um colégio, que rende uma das cenas divertidas do filme. Tudo é ainda despretensioso, embora os personagens não sejam mais novidade. O que interessa é como Reed desenha esse super-herói: ele não tem as pretensões de outros, nem carrega uma tentativa de lado épico, apegando-se ao cotidiano, e isso o torna inegavelmente humano. Outra qualidade é a falta de ligação explícita com o universo expandido, que distrai em demasia a atenção do espectador para o próprio filme, às vezes incorrendo num didatismo desnecessário.
O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, e depois fez o professor de As vantagens de ser invisível, além de interpretar seu melhor papel, em Bem-vindo aos 40. Com sua mescla entre um humor agridoce e um sentimentalismo bem dosado, ele não tem tanta chance de mostrar sua empatia como no primeiro e quem conquista o espaço novamente é Peña, no papel do amigo atrapalhado, que tem um momento de interrogatório que remete a um dos meninos de Os Goonies, enquanto Douglas é competente e Lilly adorável no papel de elo romântico. Cannavale não tem a mesma participação convincente do primeiro filme, aparecendo um pouco deslocado, assim como Greer, mas Goggins compensa (era um destaque já em Os oito odiados, de Tarantino).

Igual ao primeiro, impressiona como Reed consegue aliar um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo dos insetos e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto, principalmente, desta vez, com casas e edifícios encolhendo, assim como carros de todos os tipos, em perseguições que remetem a Bullit dos anos 60, auxiliadas pela fotografia do sempre competente Dante Spinotti, mesmo que com um jogo de cores menos atrativo daquele do primeiro, mais lúdico. Nessa mesma linha, o design de produção não se mostra suficientemente criativo, levando em conta que Reed dirigiu o visualmente belíssimo Abaixo o amor, esquecido em categorias técnicas pelo Oscar em 2003. Os movimentos da Vespa são, de qualquer modo, captados com uma resolução notável, um verdadeiro feito na área, assim como o universo quântico possui uma esplendorosa concepção molecular, lembrando o momento da criação de A árvore da vida, de Malick. Novamente, e ainda mais que o primeiro, ele dialoga com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia o primeiro Homem-Formiga, tenha seus méritos – e Querida, estiquei o bebê. De qualquer modo, Homem-Formiga e a Vespa se ressente de um roteiro ágil como o do primeiro, capaz de entrelaçar as gags com a ação de maneira afetiva e impondo aqui o drama existencial de Ghost, que destoa um pouco do conjunto, embora seja bem trabalhado em alguns momentos, inclusive visualmente. Isso não o impede de ser novamente uma das obras exitosas do universo expandido da Marvel.

Ant-man and the wasp, EUA, 2018 Diretor: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Tip “T.I.” Harris, David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Laurence Fishburne Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari Trilha Sonora: Christophe Beck Fotografia: Dante Spinotti Produção: Kevin Feige, Stephen Broussard Duração: 118 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Pérolas no mar (2018)

Por André Dick

Lançado recentemente no Brasil por sua distribuidora Netflix, Pérolas no mar (um título menos interessante que o original Nós e eles) fez um grande sucesso de bilheteria, tendo chegado, até agora, a 209 milhões de dólares apenas na China, seu país de origem. Ele é dividido em capítulos, cada um representando um novo Ano Novo chinês. Começa em 2007, quando Jian Qing (Jing Boran) e Xiao Xiao (Zhou Dongyu) se encontram num trem que sai de Pequim para a cidade natal. Eles começam a estabelecer uma relação. Mais adiante, Jian passa a se apaixonar por Xiao, enquanto dividem um lugar apertado na cidade de Pequim, para onde voltam, a fim de trabalharem em diversos lugares, enquanto Qing desenvolve um video game.
Toda essa história transcorre em cores, porém se trata de um flashback do presente, dez anos depois, quando o casal se encontra depois de um voo cancelado em Pequim. Eles vão para um hotel e lembram do passado. Esta parte curiosamente é filmada em preto e branco.

À frente da direção de Pérolas no mar está a estreante Rene Liu, de Taiwan. Ela é conhecida por seu trabalho como atriz e cantora, e aqui se mostra uma diretora não promissora e sim com um olhar já firmado. São claras suas influências: ela mistura um pouco de Richard Linklater, principalmente Antes do amanhecer, o filme que deu início à trilogia em 1995, o esquecido, mas sensível, De repente é amor e os trabalhos de Jia Zhangke e Wong Kar-Wai. Ela, inclusive, utiliza o mesmo diretor de fotografia Mark Lee Ping Bin, colaborador de Hsiao-Hsien Hou (A assassina) e de Kar-Wai (Amor à flor da pele), referenciais no cinema oriental e que comparece com outro trabalho extraordinário, numa mescla de cores e movimentos de câmera que lembram Enter the void, de Noé, assim como por meio do preto e branco confere um sentimento de solidão inabalável, próximo daquele que vemos na Nova York de Manhattan.

No entanto, ao contrário dos peças orientais menos inclinadas ao sentimentalismo, Pérolas no mar é afetivamente pop, com o uso de algumas canções e uma emoção transparente que lembra muito o de filmes ocidentais. Liu desenvolve, principalmente nas duas primeiras partes, as melhores da obra, essa relação dos jovens de maneira sincera, em meio às dificuldades da vida e sonhos de se estabelecer. A cineasta tem um olhar muito afetuoso em relação aos personagens, tornando-os próximos do espectador. Enquanto o jovem procura desenvolver seu video game, que pode lhe trazer dinheiro, a companheira se envolve com homens de mais idade, a fim de conseguir uma tranquilidade financeira. As conversas que ambos têm sobre a possibilidade de conseguirem algo juntos são muito sensíveis e algumas bem-humoradas, flertando com a possibilidade de uma construção familiar (a cena em que Qing mostra o apartamento onde está pelo celular para a filha pequena é notável pela simplicidade eficaz). É como se eles representassem a modernidade, a tentativa de sair da casa dos pais, e conquistar uma nova vida, separando-se da tradição – e talvez por isso a obra tenha feito tanto sucesso. E, de certo modo, há ingredientes em sua estrutura de Pais e filhos, talvez o filme mais comercial de Hirokazu Koreeda (diretor que venceu o Festival de Cannes este ano).

A convivência entre os dois é profunda e ressoa de maneira verdadeira, no kitchenette em que vão morar, trazendo lembranças do cenário introspectivo de Felizes juntos, uma ótima realização de Kar-Wai dos anos 90. Faz lembrar diretamente também As montanhas se separam, de Jia Zhangke, que acompanha os efeitos de uma relação ao longo de várias décadas. Os jovens se mostram arrependidos, mas, ao mesmo tempo, conscientes de que a vida vai se movimentando independente da vontade deles ou de seus sonhos se realizarem ou serem interrompidos. É uma tradição do cinema oriental conseguir retratar de modo verdadeiro esse sentimento de casais, o que vemos, de forma metalinguística, por exemplo, na obra de Hong Sang-soo. Em grande parte de Pérolas no mar, esse sentimento é autêntico e há uma sobreposição de tempos na memória do espectador, mesmo quando cada época é bem definida pelo trabalho de fotografia, por mais que Liu se entregue, em sua parte final, a uma sucessão de lugares-comuns e mesmo a uma quebra de quarta parede que não acrescenta ao que o filme já apresenta por si só. Ou seja, o espectador parece levado a entender de maneira didática o que a narrativa em si já deixa bem entendido.

Nada desgasta a atuação de Tian Zhuangzhuang, como pai de Jing Qing, apesar de aparecer em breves cenas, com uma presença notável, fazendo com que a história adquira um sentido de circularidade bastante convincente. É ele que tece uma ligação entre o filho e sua amada, mesmo que de maneira aparentemente distante. O atrito que possui com o filho é apenas parte de um componente maior, de um mosaico que trata da própria tradição oriental. Como cozinheiro de seu restaurante, ele vai costurando essa aproximação por meio de cada ano novo. E a fotografia de Lee Bin traz algumas de suas sequências de maior fôlego nos passeios noturnos em cada ano novo: há uma exatamente em frente a fogos no artifício no horizonte que é irretocável. Esse clima da noite se contrapõe às sequências diurnas, criando um enlace interessante também neste sentido. Já o casal, feito por Jing Boran e Zhou Dongyu, é tão realista que se aproxima daquele de Ethan Hawke e Julie Delpy na trilogia de Linklater, no entanto mais simpático, pois suas conversas se situam numa linha de pensamento mais despretensiosa. Cada passeio que fazem evoca um relacionamento próximo do não fictício, quando, ao mesmo tempo, a fotografia nos lembra se tratar de um filme e da história também de cada espectador em busca de seu amor.

Hou lai de wo men, China, 2018 Diretora: Rene Liu Elenco: Jing Boran, Zhou Dongyu, Zhuangzhuang Tian, ​​Qu Zheming, Zhang Zixian Roteiro: An Wei, He Xinming, René Liu, Pan Yu, Yuan Yuan Fotografia: Mark Lee Ping Bing Trilha Sonora: George Chen Produção: Patricia Cheng, Dong Ping, Zhang Yibai, Zheng Zhihao Duração: 119 min. Distribuidora: Netflix

 

Os incríveis 2 (2018)

Por André Dick

Há três anos, Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível mostrava mais uma tentativa de Brad Bird em dirigir filmes com humanos. Precedido por desenhos animados importantes, como O gigante de ferroOs incríveis e Ratatouille, Bird estreou em Missão fantasma – Protocolo fantasma à frente de um elenco. Se o episódio que fez de Ethan Hunt não possui a mesma vibração da terceira parte, de J.J. Abrams, pode-se dizer que ele conseguiu acertar nas sequências de movimento incessante e Tomorrowland, apesar do fracasso financeiro, foi uma ficção científica diferenciada. Com grande divulgação da Walt Disney, aos poucos Tomorrowland foi sendo comparado a John Carter, principalmente pela bilheteria, que equivaleu, no momento, a pouco mais de seu orçamento e teria provocado, inclusive, o cancelamento das filmagens de um possível terceiro Tron. Com essa decepção em sua curta e relevante filmografia até agora, Bird voltou à area da animação, com a sequência Os incríveis 2.

Ele retoma a história dos integrantes da família Parr – Bob (Craig T. Nelson), Helen (Holly Hunter), Dash (Huck Milner), Violet (Sarah Vowell) e Jack-Jack (Eli Fucile) – que formam os super-heróis intitulados Incríveis. Durante uma ação contra um ato de vilania, o agente Rick Dicker (Jonathan Banks) avisa que o programa do qual fazem parte será desativado, o que força os super-heróis a terem de se manter secretos o tempo todo. A família em seguida é contatada por Winston Deavor (Bob Odenkirk), fã de super-heróis e dono da DEVTECH, assessorado pela irmã Evelyn (Catherine Keener). Helen é escolhida, com sua identidade Elastigirl, a ser a primeira a ser uma espécie de relações públicas da empresa, por ser mais delicada do que seu marido, Bob, conhecido também por seu temperamento. Weaver, por sua vez, deixa os incríveis morando numa mansão extraordinária, e Bob assume o papel de cuidar dos filhos enquanto a mulher vai combater o crime. Em meios às reviravoltas, também temos o personagem Lucius (Samuel L. Jackson).
Há uma questão preocupante: o bebê da família, Jack-Jack, começa a descobrir também seus poderes, e Bob o leva para Edna Mode (Brad Bird), a estilista de super-heróis que já aparecia na primeira parte. A primeira grande ação de Elastigirl é impedir ataque a um trem sofisticado, numa sequência que remete a Operação França, de William Friedkin, dos anos 70. Surge a verdadeira ameaça: um vilão, Screenslaver (Bill Wise), que hipnotiza as pessoas com telas de TV, celulares e óculos.

Os incríveis 2 tem todos os elementos já vistos no primeiro, de 2004, com um bom humor e ação mesclados e uma família disfuncional muito interessante. Não chego a ter nostalgia do primeiro (não está entre minhas animações preferidas), por isso não me parece tão destoante considerar este segundo mais bem resolvido. Ele ingressa na linha das continuações da Pixar com real qualidade, a exemplo dos subestimados Universidade Monstros e Carros 3. O primeiro tinha os dois primeiros terços bem resolvidos, mas caía um pouco no lugar-comum na última parte. Este, muito em razão de Jack-Jack, o bom humor se espalha em núcleos até a resolução de tudo, brincando com o próprio gênero de maneira bem-humorada. Bird sempre se mostrou um exímio diretor no sentido de utilizar esses elementos na pérola O gigante de ferro, que o levou à Disney, e mesmo em Tomorrowland, muito contestado, conseguia utilizá-los em boa proporção. Bird tem uma leveza para abordar temas que poderiam ser forçados: ele não abdica de uma visão moderna sobre os super-heróis, porém nunca a coloca com uma seriedade pré-programada.

O fato de Helen sair de casa, enquanto o marido tenta cuidar dos filhos, é uma abordagem certamente interessante, à medida que no ano passado Mulher-Maravilha recebeu tanto destaque. Elastigirl fornece, além disso, uma composição de imagens em ação bastante satisfatórias (da família, é certamente aquela com super-poderes mais interessantes). No entanto, Bird tem um verdadeiro encanto em homenagear antigos filmes em suas obras. Se O gigante de ferro possuía referências claras a E.T. – O extraterrestre e Tomorrowland dialogava com Os Goonies, Os incríveis 2, além de sua homenagem constante a 007, como o anterior, evoca Velocidade máxima 2 numa passagem surpreendente, além de desenhar uma aeronave como aquela de Interestelar, de Christopher Nolan. Também temos lembranças, em algum momento do vilão e de sua hipnose, do recente Thelma – uma tentativa sueca de fazer uma mulher com poderes paranormais (embora se lamente que uma animação utilize imagens que podem provocar problemas em quem possui fotossensibilidade, pois seria dispensável esse recurso para fazer a narrativa funcionar) – e de toda obra visual de Tim Burton, especialmente das propagandas do Coringa na televisão de Batman. E, assim como o primeiro, há homenagem constante à discussão do papel do super-herói na sociedade, como em Watchmen. Mesmo a figura de Helen é claramente inspirada visualmente na de Laurie Juspeczyk/Espectral II (vivida no cinema por Malin Åkerman), dos criadores Alan Moore e Dave Gibbons. Visualmente, Bird está entre os melhores diretores da atualidade: Os incríveis 2 mostra isso de maneira notável, com design de produção meticuloso e uma ambientação que leva o espectador a ingressar em cada cenário como se fosse verdadeiro. Seu senso de divertimento nunca se desequilibra e nunca torna os personagens em caricaturas, como poderia acontecer de modo indevido.

Incredibles 2, EUA, 2018 Diretor: Brad Bird Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Keener Roteiro: Brad Bird Fotografia: Mahyar Abousaeedi Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: John Walker, Nicole Paradis Grindle Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios