A bruxa (2015)

Por André Dick

A bruxa

Um dos gêneros mais menosprezados pela crítica é o de terror, pelo menos em termos gerais. Tudo o que pertence a esse gênero costuma se transformar em cult, quase nunca apreciado no tempo em que é lançado, mas apenas por admiradores futuros. Não por acaso, a cada ano, surge um filme modelo para o gênero, e o deste ano se configurou como sendo A bruxa, desde seu lançamento no Festival de Sundance, referência para se descobrir produções independentes. Baseado em lendas, o filme inicia com uma família sendo empurrada para fora de uma comunidade, nos moldes de A fita branca e de A vila, referências claras para narrativa. De imediato, percebe-se a tentativa de o diretor Robert Eggers em mostrar como uma família pode habitar sozinha num espaço – afinal estamos em 1630, na Nova Inglaterra – e que isso pode não ser exatamente o melhor caminho. A família é constituída pelo pai William (Ralph Ineson), pela mãe Katherine (Kate Dickie), pela filha Thomasin (Anya Taylor-Joy), pelo filho Caleb (Harvey Scrimshaw), pelos gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson), além do recém-nascido Samuel. Os nomes dos filhos obviamente deixam claro o que pretende o diretor.
Certo dia (possível spoiler), quando já estão habitando longe da comunidade e a plantação de milho não consegue mais proporcionar a comida necessária – fazendo com que o pai precise caçar, o que não é seu forte –, diante de uma ameaçadora floresta, Thomasin brinca com o nenê, e de repente ele desaparece. Essa figura do bebê que desaparece é significativa para uma família que baseia todos seus preceitos na religião. A menina, Thomasin, obviamente se desespera, rezando a Deus e pedindo que o bebê volte em segurança. Nesse meio tempo, seu irmão Caleb entra em conflito com o que seria um pecado. No entanto, para uma família que precisou sair de sua comunidade por obter regras muito rígidas em relação à fé, essas crianças não estão seguindo à risca o que determinam, e o pai parece emitir discursos que se empilham com a lenha ao lado da casa.

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Acredito que o principal incômodo despertado por A bruxa talvez não seja nem o fato de ser superestimado – rendendo algumas críticas que parecem falar de um filme com intuito complexo e histórico, acima do que pretende com seu enredo – ou de que não se enquadraria exatamente no gênero de terror, sendo mais um drama com toques de suspense. Seu principal incômodo é a maneira como o diretor Eggers, que faz a sua estreia, precisa esclarecer, de modo que não restem dúvidas, a sua simbologia em relação a esta família. O pai, William, lembra a figura de Jesus Cristo, principalmente à noite quando todos estão ao redor da mesa à espera da ceia. Para o diretor, a religião, de modo geral, nutre-se de um discurso que volta contra as próprias pessoas e segui-la seria negar a própria natureza. Não há, nisso, personagens com características distintas e sim símbolos que percorrem a trama de ponto a ponto sem exatamente fazerem algo que não seja o esperado. O pai, nesse sentido, é aquele que não pretende ver seus filhos distanciados da religião, e Thomasin aparenta ser uma ameaça porque faz exigências que não caberiam ali, inclusive parecendo provocar, com seu corpo, o irmão. O comportamento dos gêmeos também não é o mais normal, sobretudo quando dizem conversar com uma cabra preta chamada Black Phillip, que foge de forma insistente do estábulo. A cabra tem chifres, diz o diretor, e ela se assemelha a uma figura que pode ser ameaçadora para essa família religiosa. A família tem um cão, e logo ele resolve correr pela floresta sem olhar para o dono, que segue desesperado atrás.
As cenas da floresta se mostram assustadoras, mas só no momento em que se esquece em que este tipo de filme tem inspiração em projetos como A bruxa de Blair; Eggers na verdade parece querer apenas emular um tom clássico para a mesma tentativa de trazer sustos ao espectador. E com isso oferece a culpa proporcionada pelo desejo e pelas sensações corporais, que parecem não ter a devida autossuficiência se comparadas com o discurso. Com isso, mesmo as boas atuações, como a de Anya Taylor-Joy, acabam perdendo espaço para o excesso discursivo de Eggers, esclarecido nas atuações francamente exageradas de Ralph Ineson e Kate Dickie.

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Não estaria sendo claro se dissesse que a atmosfera de A bruxa é muito bem estabelecida, com ótima fotografia de Jarin Blaschke e um design de produção cuidadoso. Porém, isso não parece ser o bastante para trazer substância a uma história que deixa sempre o espectador esperando pela próxima simbologia, e não pela próxima sequência. O diretor, com isso, ao invés de transformar seu filme em algo complexo, o neutraliza e o encaminha para o mesmo caminho de outros filmes de suspense, com pouca diversidade de situações, tornando tudo muito específico ao seu universo, sem deixar o espectador interessado em desvendar outros temas correlacionados ao roteiro. Os animais que aparecem como ameaçadores nesse universo – a cabra e o coelho – se mostram peças-chave para a construção de certo suspense, no entanto, não chega a haver um crescente necessário para que sejam significativos para a compreensão do espectador, apenas como um elo para aquilo que se considere subversivo. É aqui que A bruxa acaba não anunciando nenhuma novidade: embora suas imagens sejam elaboradas com certa simetria, existe algo de muito previsível no comportamento de cada personagem; cada um deles, desse modo, não está a serviço da história, e sim apenas do diretor. Não há diálogos que não sejam expositivos em excesso, quase desconfiando do espectador de que ele possa não interpretar alguma mensagem subliminar que apareça neles. E, mesmo que o final seja possivelmente seu momento mais assustador, configurando uma mescla entre realismo e fantástico, A bruxa acaba tendo seu tema esgotado por sua própria pretensão de soar diferente.

The witch, EUA/CAN/Reino Unido, 2015 Diretor: Robert Eggers Elenco: Anya Taylor-Joy, Bathsheba Garnett, Ellie Grainger, Harvey Scrimshaw, Julian Richings, Kate Dickie, Lucas Dawson, Ralph Ineson, Sarah Stephens, Wahab Chaudhry Roteiro: Robert Eggers Fotografia: Jarin Blaschke Trilha Sonora: Mark Korven Produção: Daniel Bekerman, Jay Van Hoy, Jodi Redmond, Lars Knudsen, Rodrigo Teixeira Duração: 92 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Code Red Productions / Maiden Voyage Pictures / Mott Street Pictures / Parts and Labor / Pulse Films / Rooks Nest Entertainment / RT Features / Scythia Films / Special Projects

Cotação 2 estrelas

 

Ave, César! (2016)

Por André Dick

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Se há uma característica própria dos irmãos Joel e Ethan Coen é a sua versatilidade, capaz de alternar filmes excepcionais com outros que parecem apenas brincar com determinados temas. O filme anterior a este Ave, César! foi o mais do que superestimado Inside Llewyn Davis, recebido pelo público e pela crítica de modo muito mais entusiasmado. Talvez porque Ave, César! seja quase inclassificável, uma espécie de mistura do que os irmãos já mostraram em Barton Fink e Um homem sério com novos acréscimos. O roteiro mostra o diretor do estúdio Capitol Pictures, Eddie Mannix (Josh Brolin, excelente), que, determinado dia, tem um de seus astros, Baird Whitlock (George Clooney, divertido mais uma vez sob a direção dos Coen, como em Queime depois de ler), sequestrado, logo quando está para terminar as filmagens de Hail, Caesar!, uma reconstituição da presença de Jesus Cristo na Roma Antiga.
Os motivos para os irmãos usarem essa simbologia religiosa já estava claro em Um homem sério, mas é aqui que se torna ainda mais interessante. A narrativa segue uma linha de liberdade, mostrando cenas de filmes diferentes sendo filmadas: DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) tem uma ligação suspeita com Mannix, enquanto Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) provoca a ira do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), e Burt Gurney (Channing Tatum) atua como marinheiro num musical que parece lembrar o Gene Kelly de Cantando na chuva. Mannix também precisa se desvencilhar de Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton), irmãs gêmeas e colunistas rivais.

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Além disso, ele precisa se encontrar com padres e pregadores para avaliar como seria o seu projeto sobre a vida de Cristo. Os irmãos Coen subvertem a situação mirando um certo humor de origem judaica, já vislumbrado no excelente Um homem sério, mas que aqui adquire outra carga: não por acaso, Mannix é um homem cheio de culpa e vai ao confessionário tentar se eximir de sua condição.
Passado nos anos 50 – um pouco depois do período que mostraram no noir O homem que não estava lá –, os irmãos Coen fazem uma homenagem ao cinema dessa época, enquanto satirizam tanto a indústria cinematográfica quanto as ideias comunistas que estavam se proliferando na capital do cinema. Alguns dos diálogos são extremamente saborosos, mantendo uma ideia de época e de contemporaneidade. Para os irmãos Coen, as ideias não somem, apenas mudam de forma, e não por acaso eles parecem homenagear aqui três cineastas: Billy Wilder (de Crepúsculo dos deuses), David Lynch (de Cidade dos sonhos) e Wim Wenders (Estrela solitária), principalmente na figura do astro que interpreta caubóis.
Essa metalinguagem sobre o universo do cinema é vinculada, na narrativa dos Coen, à questão da fé pessoal e no uso de pessoas para estruturar uma ideia de estúdio, cuja finalidade é ajudar a movimentar a indústria. No entanto, como bons roteiristas, os Coen nunca se negam a ver uma fresta de sátira nesse comportamento, não levando a sério nenhuma das questões, sem, contudo, desprezá-las. As figuras do caubói, a princípio ingênua, e do ator que interpreta César com um overacting terrível, ajudam a manter o filme dos Coen numa área de questionamento, assim como o comportamento de Mannix.

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A oposição entre a claridade e a escuridão se mostra não apenas no tempo em que se passa – durante um dia – como na narrativa dividida em atos de filmagens, que trazem uma atmosfera maravilhosa que se contrapõe à vida real. Enquanto transcorre o mccarthismo, os Coen não se incomodam em mostrar exatamente um grupo de roteiristas com uma ligação estabelecida imediatamente com Moscou – quase um lado subversivo do que mostraram no roteiro politicamente correto de Ponte dos espiões, mais próximo de Barton Fink. Em vez de tecerem observações filosóficas sobre o livro referencial sobre o capitalismo, eles preferem atuar numa frente que lembra mais a sátira de David Cronenberg ao sistema financeiro, em Cosmópolis. E, apesar de o filme nunca cair no ridículo, como Queime depois de ler, ele brinca com a espionagem de maneira corrosiva.
Impressiona como os diretores conseguem imprimir, por meio desses personagens às vezes sem uma ligação clara, uma notável agilidade à narrativa, junto com a ideia de que não sabemos quando estamos ou não encenando, ou a partir de que ponto não fazemos parte de uma obra maior. Ao mostrar astros agindo de maneira estranhamente ingênua em seus passos “reais”, há uma outra visão sobre o mundo que está sendo descortinado.
Com mais um trabalho de fotografia belíssimo de Roger Deakins, Ave, César! ainda apresenta uma das melhores reconstituições de época, sob o auxílio de Jess Gonchor, e um figurino belíssimo de Mary Zophres. E, ao contrário de algumas peças recentes dos diretores, principalmente o melancólico Inside Llewyn Davis, Ave, César! se alegra em mostrar peças de humor dentro de seu roteiro. Ele consegue captar, em várias camadas, a atmosfera de um período do melhor modo.

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Como nos demais trabalhos dos irmãos Coen, as atuações têm uma rara qualidade, não apenas de Brolin e Clooney, mas dos coajduvantes, como Johansson e Channing Tatum (praticamente numa participação especial), mas principalmente Alden Ehrenreich e Fiennes, num dueto memorável. Ainda assim, o maior êxito do filme parece ser o de sua montagem – feita pelos próprios diretores –, ao mesmo tempo aberta e cuidadosa, com os personagens entrando e saindo de cena sem cansar o espectador. Os personagens funcionam num plano simbólico, ao contrário daqueles de Inside Llewyn Davis,  e as imagens permitem uma leitura da história do cinema, independente do seu desenvolvimento. Por toda a narrativa se passar em basicamente num dia de filmagens, é possível ver os personagens e a história com a luminosidade da manhã. Tudo isso auxiliado por uma espécie de surrealismo da realidade, principalmente quando George Clooney vestido de César caminha por um corredor enquanto uma senhora usa um aspirador, ou quando o caubói grava uma de suas cenas montando um cavalo. Na verdade, ao contrário do que ele diz em outra produção para divulgar seu nome, nada é simples neste filme que entra facilmente na lista de obras-primas dos diretores.

Hail, Caesar!, EUA, 2016 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen Elenco:  Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Jonah Hill, Christopher Lambert, Frances McDormand Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Eric Fellner, Ethan Coen, Joel Coen, Tim Bevan Duração: 106 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Mike Zoss Productions / Working Title Films

Cotação 5 estrelas

 

Mogli – O menino lobo (2016)

Por André Dick

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Depois de realizar os dois primeiros Homem de ferro, o diretor e ator Jon Favreau se viu num momento difícil ao ser contestado de forma vigorosa por seu trabalho em Cowboys e aliens, com Daniel Craig e Harrison Ford em boas atuações. Segundo ele, para fugir aos grandes estúdios e grandes projetos, ele fez Chef, em que atuou também como um cozinheiro que se vê às voltas com uma nova maneira de atrair seus clientes, depois de estar à frente de um restaurante.
No entanto, não levaram três anos para que Favreau se voltasse novamente a um grande projeto, ligado aos estúdios Disney: a refilmagem de Mogli – O menino lobo, cuja versão mais conhecida era a de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman e o último supervisionado por Walt Disney, antes de sua morte. Apesar de apreciar muitas animações, acredito que o desenho animado original é um dos melhores já feitos, uma mescla de humor e musical, cuja simpatia é destacada – e, ao assisti-lo pela primeira vez, com a minha esposa, que o tinha como referência de filmes na infância, já havia ficado admirado com a maneira que o diretor Reitherman conseguiu transformar a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal.
Ao contrário da versão de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de estarmos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim, As aventuras de Pi e Avatar. Embora não tenha assistido a e ele em 3D (optamos por uma versão em 2D, legendada), fica difícil negar o quanto Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme – mais real do que aquela que vi no trailer do próximo Tarzan. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta.

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A história segue inicialmente os mesmos passos da versão original: Mogli (Neel Sethi, único ator real) é um menino criado numa matilha de lobos, adotado por Raksha (Lupita Nyong’o) e Akela (Giancarlo Esposito).  Ele vive ao lado de seus irmãos lobos quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Edris Elba, com trabalho de voz temível). A partir daí, já se sabe o que acontecerá: Mogli terá a ajuda de Bagheera (Ben Kingsley, ótimo) – uma pantera que o salvou quando era criança – para chegar à aldeia onde vivem os humanos.
No entanto, há percalços pelo caminho, e a figura mais inusitada surge: o urso Baloo. É a interação entre o urso (cuja voz é de Bill Murray, num grande momento) e Mogli que rende os melhores momentos da versão dos anos 60 e desta: há uma união no sentido de que o menino lobo o ajudará a encontrar mel o suficiente para que possa hibernar com tranquilidade. Favreau lida com humor, assim como Reitherman, com essa situação inusitada e daí para a frente a obra se sucede numa sequência grande de ação, modificando alguns elementos do original – e falar aqui seria redundar em spoilers.
Alguns falam o quanto o original torna estereotipada a imagem da Índia no sentido cultural. Embora estivesse a 17 anos de Indiana Jones e o templo da perdição, o verdadeiro estereótipo dessa cultura (com o humor de Spielberg e Lucas), Mogli talvez não tivesse o intuito de defini-la, como este filme também não possui. Há um jogo de personagens universal aqui e Favreau lida mesmo com violência e um sentido de realidade que o de 67 não possui (pelo menos, nem todas as cenas são para crianças). É um traço do diretor, que em Cowboys e aliens afastou parte do público a que se destinava pelas cenas de violência (principalmente a inicial, quando o personagem de Craig é abordado por alguns forasteiros).

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Do mesmo modo, este Mogli trabalha num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, e nem mesmo a volta das canções “Wan’na Be Like You” e “The Bear Necessities” atenua este traço. Scarlett Johansson faz de forma destacada a voz de Kaa – e é um de seus melhores trabalhos, ao lado de Ela, em que também aparecia apenas por meio da voz –, com uma cena no mínimo assustadora. No entanto, talvez o destaque fique por conta de Cristopher Walken, como Louie. Interessante perceber como a maneira de olhar dos personagens de Murray e Walken se parece com a dos atores; percebe-se que Favreau lidou com ela na criação da imagem animada.
A questão mais intrigante desse universo (breve spoiler) é realmente a maneira como o menino se insere entre os animais e a questão da “flor vermelha”, que seria o fogo ameaçador para o tigre Shere Khan, que ficou cego de um olho por causa de uma tocha. Favreau parece imaginar esses personagens também como figuras solitárias de uma selva gigantesca e o menino como uma ameaça de que pode crescer e acabar com tudo por meio do fogo. (fim de spoiler) Não apenas há um diálogo interessante com o universo de Tarzan como se sente a ameaça desse universo em cada ponto. O filme inicia quase como uma sequência a uma das passagens do Apocalypto, de Mel Gibson, e em determinado momento evoca, de forma ainda mais curiosa, Apocalypse now.  O trabalho de imagens que lida com essa simbologia é destacado ainda mais em razão da fotografia de Bill Pope, cujo trabalho em Matrix, Homem-Aranha 2 e Scott Pilgrim contra o mundo mostra o mesmo vigor para cenas de ação e um poder quanto aos detalhes que poderiam passar despercebidos, dando real movimento às sequências nas quais Mogli parece correr um real risco. E Neel Sethi se mostra um ator versátil para levar a história adiante, embora eu considere que o humor de Mogli na versão de 67 era um destaque, assim como a mais próxima ligação entre Baloo e Bagheera, aqui deixada um pouco de lado.

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Mas o maior sentido do trabalho de fotografia se dá no sentido épico que Favreau empresta a esta adaptação: não são poucas as paisagens que são espetaculares e definitivamente reais, como na sequência em que Mogli precisa escapar de um determinado confronto e se vê no meio de um estouro de búfalos – é a cena talvez mais impressionante do filme por sua escala grandiosa, lembrando um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005). Há uma reverência de Favreau em relação à natureza, não apenas neste trecho como naqueles em que aparecem os elefantes – e a ligação que o menino lobo tem com todos, mesmo não sendo, de fato, um animal. Todos os temas universais envolvendo a família são ressaltados no roteiro, e mesmo a passagem do menino por uma espécie de paraíso (em que pode haver a serpente) antes de conhecer a dor real de um acontecimento ligado à sua origem, torna esta obra de Favreau em algo mais do que uma produção para agradar ao grande público. Ele abrange a integração do homem e natureza como raras vezes se revela num filme.

The jungle book, EUA, 2016 Diretor: Jon Favreau Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling, Brighton Rose Roteiro: Justin Marks Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: John Debney Produção: Jon Favreau e Brigham Taylor Distribuidora: Walt Disney Studios

Cotação 4 estrelas