Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

50 melhores filmes dos anos 90

Por André Dick

Abaixo, uma lista dos 50 melhores filmes dos anos 1990 segundo o Cinematographe. As listas completas dos melhores filmes de cada ano dessa década estão nesta página. E os cartazes dos 50 escolhidos nesta. Importante assinalar que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

Os imperdoáveis (1992)

Por André Dick

Clint Eastwood inicialmente ficou conhecido pelos filmes de Spaghetti western que fez com Sergio Leone, antes de encarnar o policial Dirty Harry. Em seguida, tornou-se diretor, com Josey Wales, o fora da lei e O cavaleiro solitário, dois faroestes mais climáticos do que aqueles co cinema clássico dos Estados Unidos. Ele também alternou outros gêneros (O destemido senhor da guerra, Cadillac cor-de-rosa, Bird) e no início dos anos 90 e causou sensação em Cannes, dirigindo e interpretando em Coração de caçador. Em seguida, fez Rookie, policial um tanto desastrado, antes de se deparar com o roteiro de David Webb Peoples, o mesmo que escreveu Blade Runner – O caçador de androides, ao lado de Hampton Fancher, que daria origem ao filme responsável por trazer uma reviravolta para sua carreira: Os imperdoáveis, vencedor de quatro Oscars, inclusive filme e direção. Esta guinada não se deu afastada de sua faceta mitológica. Por exemplo, dois anos anos, na terceira parte de De volta para o futuro, Marty McFly, em sua visita ao velho oeste, utilizava o nome Clint Eastwood para seus adversários.

Antecedido pelo humanista Dança com lobos, Os imperdoáveis, por sua vez, investe mais na qualidade de faroeste, embora tardio e um tanto arrependido. O roteiro de Peoples procura mostrar que não existiam justiceiros ou pistoleiros do bem, querendo acabar com o mal, e sim seres humanos. Nesse ponto, assemelha-se, em detalhes internos, ao grandioso O portal do paraíso, em sua tentativa de atenuar a mitologia dos caubóis.  Inclusive, sua trama se passa no mesmo estado do Wyoming, em 1880, ou seja, uma década antes dos acontecimentos do filme da obra-prima de Cimino.
Todos, aqui, de certo modo são habitantes de um universo no qual a pretensa justiça parece ser traduzida apenas por duelos, mas nem esses conseguem trazer uma revitalização para suas vidas. Bill Munny (Eastwood) já foi conhecido por dizimar vários bandidos e agora está melancólico: perdeu a esposa, tem dois filhos e uma criação de porcos para se manter. Certo dia, um jovem, Schofield Kid (Jaimz Woolvett), dizendo-se rápido no gatilho, o convida para matar dois vaqueiros, Quick Mike (David Mucci) e “Davey-Boy” Bunting (Rob Campbell), sendo que um deles desfigurou uma prostituta, Delilah Fitzgerald (Anna Levine), à ponta de faca.

A recompensa, oferecida pela líder de um grupo de prostitutas, Strawberry Alice (Frances Fisher), insatisfeita com o tratamento dado pelo xerife de Big Whiskey, Little Bill Daggett (Gene Hackman), o qual quis apenas uma quantia de dinheiro para o dono do saloon onde funciona o prostíbulo, é de mil dólares. Munny pede ajuda a um velho amigo, Ned Loogan (Morgan Freeman), e com Kid partem para fazer o serviço.
O xerife expulsa o primeiro que aparece em busca de dinheiro, English Bob (Richard Harris), a socos e pontapés, a fim de desencorajar outras pessoas a fazer o mesmo, pois na cidade apenas ele pode portar arma. Bob é acompanhado por um pobre escritor, WW Beauchamp (Saul Rubinek). Este acaba ficando para que Little Big possa, ele sim, ter sua biografia, para contar sobre como caça aqueles que chama de vagabundos. Apesar de pompa em contar suas histórias e convidar um prisioneiro a um duelo em que certamente sairá vencedor, mesmo porque há grades em sua frente, sua delegacia precisa de baldes para conter as goteiras.

Entre uma e outra história, ele joga a água fora do balde e o coloca de volta. No entanto, não se trata de um mero vilão. No momento-chave, quando ele acha ter de controlar a cidade, torna-se aquele que provocará todo um estrago. Enquanto isso não acontece, é Munny que se recolhe, ferido, no lodaçal em frente do saloon. Eastwood consegue mostrar, ao longo do filme, uma versão sombria daqueles filmes que fez com Sergio Leone, expandindo o universo para uma melancolia por vezes fria (os cenários são chuvosos, quando não com neve, e a lama é peça-chave para sintetizar também os personagens), mas nunca sem emoção. A edição de Os imperdoáveis tem um ritmo bastante particular: ao mesmo tempo que o filme parece mesmo lento e com cenas demarcadas, ele, por outro lado, flui e deixa sempre uma impressão de trazer sempre detalhes novos ao visualizá-lo novamente.

Se Clint Eastwood tem o seu melhor momento como ator – ele só conseguiria uma atuação do mesmo nível em Menina de ouro –, Hackman e Freeman não ficam para trás: são magníficos. Hackman finalmente encarna um vilão ameaçador, ao contrário de Lex Luthor, tendo vencido o Oscar de coadjuvante. A atriz Anna Levine, que faz a prostituta, também atua de maneira notável, sobretudo quando dialoga sobre o fato de, em razão das cicatrizes, acha não ser mais uma mulher bonita. É nesta sequência, alimentada pela anterior, que se desenha, no personagem de Munny, uma questão de sobrevivência e vingança.
Repleto de diálogos convincentes, ao longo de mais de duas horas, o filme atrai o espectador tanto pelo elenco quanto pela fotografia de Jack N. Green (habitual colaborador de Eastwood), focalizando um mundo que parece habitado por pessoas sem perspectiva, mas, no fundo, Os imperdoáveis é um drama sobre a amizade e a fidelidade, que resistem numa terra sem lei, e Munny reflete o tempo todo que viver ou morrer são estados de espírito. Sem fazer esforço acaba sendo um dos faroestes mais estupendos da história.

Unforgiven, EUA, 1992 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Levine, David Mucci, Rob Campbell Roteiro: David Webb Peoples Fotografia: Jack N. Green Trilha Sonora: Lennie Niehaus Produção: Clint Eastwood Duração: 135 min. Estúdio: Malpaso Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Entre facas e segredos (2019)

Por André Dick

O diretor Rian Johnson, antes de se tornar mais conhecido por Star Wars – Os últimos Jedi, foi sempre um admirador de histórias de investigação. Sua obra A ponta de um crime era uma espécie de noir adolescente, com Joseph Gordon-Levitt no papel de um jovem tentando desvendar um assassinato ligado a estudantes num colégio. Em 2012, ele fez Looper, desta vez brincando com a passagem do tempo, em que Levitt se tornava Bruce Willis, numa ficção científica também com elementos de mistério.
Agora, entre Facas e segredos, Johnson volta aos tempos de A ponta de um crime, com uma história sinuosa de enigmas. Tudo começa com a investigação feita pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) em relação ao suicídio de um romancista de livros de crime, Harlan Thrombey (Christopher Plummer). Ele apareceu morto na manhã seguinte de sua festa de 85 anos, encontrado pela empregada Fran (Edi Paterson). Blanc passa a investigar os componentes da família do escritor, todos hospedados em sua mansão: seu genro Richard (Don Johnson), casado com a filha Linda (Jamie Lee Curtis), pais de Megan (Katherine Langford), a ex-nora Joni (Toni Collette), além de Walt (Michael Shannon), com quem Harlan trabalhava na editora, casado com Donna (Riki Lindhome ) e pai de Jacob (Jaeden Martell). E há ainda Hugh (Chris Evans), também filho de Richard e Linda, e a enfermeira que cuidava do milionário, Marta Cabrera (Ana de Armas). Quase todos eles, de certa maneira, um pouco antes da morte, acabaram sendo desmascarados pelo escritor e, desse modo, podem ter culpa no cartório.

Ajudando o detetive Blanc estão o tenente Elliot (Lakeith Stanfield) e o policial Wagner (Noah Segan) – e os primeiros interrogatórios são cercados por uma aura de Agatha Christie, a referência principal de Johnson. Blanc é uma espécie de inspetor Hercule Poirot (vivido mais recentemente por Kenneth Branagh na versão de Assassinato no Expresso Oriente). Blanc não sabe por quem foi contratado para o caso. Isso acaba criando uma expectativa de que algo muito errado está acontecendo na mansão onde ocorreu a morte.
Johnson, de modo geral, tem um conhecimento respeitável do cinema. Seus filmes possuem um jogo de luzes e sombras, auxiliado pela fotografia de Steve Yedlin, e um design de produção interessante. Em certos momentos, a mansão lembra de Mistério em Gosford Park, de Robert Altman, e Os sete suspeitos, dos anos 80, um experimento também nos moldes de Agatha Christie, além de Vocês ainda não viram nada!, de Alain Resnais. Ele também sabe usar as digressões, estabelecendo pequenas pistas, quase invisíveis, para o espectador destrinchar o mistério.

No entanto, sua maior qualidade continua sendo a direção de atores. Todos no filme estão bem, desde o sempre ótimo Plummer – reprisando o seu papel de Todo o dinheiro do mundo, com um ar mais simpático, se isso pode ser dito diante do que ele acaba travando com a família –, passando por Johnson e Curtis, até Collette e Shannon, embora nem todos sejam exatamente desenvolvidos ou recebam muitos diálogos. Ainda assim, são Ana de Armas e Daniel Craig os destaques. Armas teve um papel de relevo em Blade Runner 2049 como a companhia virtual do personagem principal e aqui, como a enfermeira que toda a família gostaria de adotar, se mostra na medida exata, entre o conflito de ter ocasionado uma tragédia e sua condição quase de heroína. Já Craig que nos últimos anos praticamente se dedicou ao papel de James Bond se mostra muito à vontade, mesclando o papel que fazia em Millennium com seu humor britânico às vezes deslocado das situações.

A ligação de seu detetive com Marta é o que leva Entre facas e segredos à frente, junto com a sucessão de diálogos rápidos. Todas as figuras parecem ter torcido para o desaparecimento do escritor patriarca da família, porém é Blanc quem tentará desvendar por que eles se comportam desse modo. A maneira como o espectador vai conhecendo um a um é o grande atrativo para o estabelecimento dessa trama. Talvez, nisso, o único porém seja que Entre facas e segredos seja um grande parque de mistério metalinguístico, com os personagens agindo a todo momento como partes de um grande esquema, sem espaço para uma certa humanização. Johnson, como em A ponta de um crime, em nenhum momento deixa essa família suspirar, digamos, vida real: ela está a serviço de um tabuleiro. Talvez por isso o acréscimo de Chris Evans, ator normalmente associado ao Capitão América, seja tão relevante: ele consegue estabelecer uma dinâmica vibrante junto com Armas e Craig. Se os dois primeiros atos vão preparando a tensão para estabelecer a trama, o terceiro vai amarrando as pontas soltas de maneira verossímil, sem cair em elementos de farsa. Misturando elementos de humor, surpresa e tensão, Entre facas e segredos se mostra uma das diversões mais consistentes do ano,.

Knives out, EUA, 2019 Diretor Rian Johnson Elenco: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeith Stanfield, Katherine Langford, Jaeden Martell, Christopher Plummer Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: Nathan Johnson Produção: Ram Bergman, Rian Johnson Duração: 130 min, Estúdio: Media Rights Capital, T-Street Distribuidora: Lionsgate

História de um casamento (2019)

Por André Dick

Revelado no final dos anos 90, o diretor Noah Baumbach passou a se destacar quando coescreveu A vida marinha com Steve Zissou com Wes Anderson e fez A lula e a baleia, um drama sensível sobre uma família envolvida pela arte com um núcleo em processo de separação. Seus filmes posteriores, de certo modo, sempre desenvolveram essa ideia de família sendo investigada em seus pormenores, seja por meio de uma figura frustrada (Greenberg), ou uma jovem que gostaria de ser artista (Frances Ha), ou ainda casais que se sentem adolescentes numa época errada (Enquanto somos jovens). Baumbach, em 2017, fez um dos melhores filmes da década, Os Meyerowitz, demitido de Cannes por Pedro Almodóvar mesmo antes de sua estreia. Nele, o diretor concentrava os ganhos anteriores com uma história muito bem narrada sobre um pai de família dedicado à arte que se via numa situação difícil em meio aos filhos.

Agora, ele regressa com o que parece ser o destaque de sua carreira, devido ao hype desde o lançamento no Festival de Toronto: História de um casamento, nova parceria com a Netflix. Baumbach escolhe como cenário original a cidade de Nova York, como fez em seus filmes anteriores, desta vez mostrando um diretor de teatro, Charlie Barber (Adam Driver), casado com uma atriz, Nicole (Scarlett Johansson), a musa de suas peças. Ela teve um breve sucesso em Hollywood com um filme de adolescentes e, quando se mudou para Nova York, apaixonou-se pelo que viria a se tornar seu marido. Ambos têm um filho, Henry (Azhy Robertson), que passa a ser o ponto crítico de um divórcio. Para tratar dele, Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern), e Charlie, Bert Spitz (Alan Alda), depois de passar pelo escritório do desconfiado Ray Marotta (Ray Liotta). Enquanto Nora é rigorosa, Bert é mais pacífico.
Baumbach mostra que Nicole deseja se separar porque, principalmente, quer se dedicar a ser atriz de uma série de TV em Los Angeles. No início, como em sua filmografia, Baumbach apanha algumas influências básicas de Woody Allen, o que fez com que sua carreira fosse vista, de certo modo, como uma homenagem ao criador de Noivo neurótico, noiva nervosa. Em História de um casamento, ele sublinha Charlie como um artista egocêntrico, mas que deseja acompanhar o crescimento do filho. É interessante como Baumbach se dedica a mostrar esses personagens com nuances definidas. Charlie é um tanto manipulador, sendo amigo da mãe da esposa, Sandra (Julie Hagerty), e de sua irmã, Cassie (Merritt Wever), sem antes perguntar sobre como Nicole se sentiu nos episódios de TV que passou a gravar.

Ele é uma espécie de incógnita, que parece dedicado plenamente a seu filho, no entanto não vê o casamento como uma possibilidade de dialogar com sua carreira artística, não da maneira que gostaria. Aos poucos, no entanto, Baumbach vai se afastando dos maneirismos de Allen para ingressar num drama que faz lembrar, em seu estilo, fotografia e trilha sonora, o grande vencedor do Oscar de 1980, Kramer vs Kramer, sobre um pai (Dustin Hoffman) e uma mãe (Meryl Streep) disputando na justiça a guarda do filho.
História de um casamento, sob esse ponto de vista, não é original. Mas, em razão das atuações notáveis de Adam Driver e Scarlett Johansson, ambos nos melhores momentos de suas trajetórias, torna-se um estudo muito interessante como um divórcio pode mover personagens a mudar interiormente e deslocarem seus maiores objetivos para algo que pode ser mais sensível e atemporal, ligado aos filhos e a uma ideia de família, embora não seja exatamente aquela esperada. O personagem de Driver, nesse sentido, é significativo. Do mesmo modo, Baumbach vê a ação dos advogados como pessoas que interferem diretamente não apenas na privacidade, mas no rumo e na conveniência do que obriga cada um a se adaptar, e nesse sentido Dern, Liotta e Alda são bastante funcionais. Detalhes da vida íntima vêm à tona em troca de direitos e acusações são feitas no tribunal, enquanto existe um alívio nas conversas privadas. Há pelo menos uma cena de conflito entre os personagens de Driver e Johansson que estão entre algumas das melhores já feitas, não apenas porque a teatralidade funciona, como também, ao mesmo tempo, impulsionado pelas atuações, surge a autenticidade do sentimento exposto.

Chama a atenção, igualmente, como Baumbach entrelaça o cenário de ruas lotadas de Nova York e os preparativos da peça de Charlie para estrear na Broadway com as ruas cheias de palmeiras de Los Angeles e o apartamento a ser preenchido ainda por móveis, para evocar um estabelecimento provisório a fim de se lutar pela guarda do filho. Tudo guarda uma estética dos anos 70, impressão consolidada pela trilha sonora de Randy Newman e pela fotografia de Robbie Ryan, criando uma textura caseira e documental para cada cena, porém sem menosprezar o trabalho de luzes e sombras. Isso cria uma sensação extra de solidão dos personagens. No entanto, Baumbach não conduz tudo para um mero drama conjugal nem se apega àquilo que sustentava alguns de seus filmes, um humor patético, e sim para um teatro contundente sobre como o embate pode levar pessoas a se recolocarem no mundo, tentando descobrir o que as levou até determinado ponto e sem negar os sentimentos de afeto. Em alguns momentos, parece que História de um casamento está tratando de um divórcio. Na verdade, ele está tratando, de modo pouco usual e brilhante, da verdadeira conciliação.

Marriage story, EUA, 2019 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: David Heyman, Noah Baumbach Duração: 136 min. Estúdio: Heyday Films Distribuidora: Netflix

As golpistas (2019)

Por André Dick

Há alguns anos, Adam McKay apresentou uma visão interessante sobre a crise econômica que se abateu nos Estados Unidos em A grande aposta. Para isso, ele lidava com um panorama no qual tínhamos integrantes de Wall Street ligados ao caos financeiro ocorrido a partir de 2008. Alguns anos depois, McKay, junto com Ferrell e alguns outros nomes, produzem o que seria uma expansão de um determinado segmento daquele filme: a ligação, proposital ou não, entre strippers e executivos que passavam suas noites gastando dinheiro em boates.
Em As golpistas, a diretora Lorene Scafaria mostra uma jovem, Dorothy (Constance Wu), chamada por Destiny na noite, que começa a trabalhar no Moves, e se torna amiga de Ramona Vega (Jennifer Lopez), uma das principais dançarinas, ambas ganhando muito dinheiro. No entanto, Dorothy tem uma filha e acaba seguindo outro caminho, até que problemas financeiros a trazem novamente para Nova York, onde vai reencontrar a antiga amiga.

De certo modo, Scafaria mostra essas personagens femininas ligadas por uma necessidade de dinheiro mais do que, inicialmente, por uma amizade, embora Ramona se mostre como uma pessoa experiente e, na medida do possível, aja como uma espécie de figura materna. Novamente com problemas financeiros, Dorothy se depara com a antiga boate quase vazia e repleta de garotas russas, elas acredita que não vai conseguir retomar os antigos tempos e decide seguir um plano de Ramona: começar a enganar executivos durante a noite para extrair deles informações capazes de lhes render dinheiro. Tudo isso é parte de um relato a uma jornalista, Elizabeth (Julia Stiles), levando-se em conta que o filme se baseia na matéria “The Hustlers at Scores: The Ex-Strippers Who Stole From (Mostly) Rich Men and Gave to, Well, Themselves”, de Jessica Pressler.
Elas se juntam a Mercedes (Keke Palmer) e Annabelle (Lili Reinhart) e passam a circular na noite em busca de possíveis vítimas de seus golpes. As golpistas, de certo modo, é uma espécie de versão de As viúvas situada num universo que remete a Spring breakers. A maneira como Scafaria filma as ações tem uma influência clara de Terrence Malick,, principalmente do segmento de Cavaleiro de copas em que o roteirista do filme (Christian Bale) se envolve com uma stripper (Teresa Palmer), também no modo como a câmera transita pelos cenários vazios ou cheios.

A maneira como a riqueza é enfocada, justamente por meio de cenários grandiosos de casas ou pequenos, mostrando certa falência financeira, denota uma necessidade clara de se fazer um cinema calcado em ideias mais do que a princípio se anuncia. As golpistas, em seu ato inicial, parece uma sucessão de imagens adequadas a um videoclipe, com personagens entrando e saindo de cena sem a devida ênfase, com uma necessidade de destacar o visual, mas, aos poucos, ele começa a fazer sentido quando a personagem de Dorothy toma a dianteira – e a atuação de Cosntance Wu se mostra sólida. Lopez nunca teve muitas oportunidades em sua trajetória como atriz de demonstrar uma variação de sentimentos, e consegue, em As golpistas, fazê-lo. Vão anos desde a sua exposição excessiva em comédias românticas, que acabaram por impedi-la de se tornar uma atriz com tanto êxito como teve em sua trajetória musical.
Quando há uma transição do segundo para o terceiro ato, e Ramona se mostra uma personagem com mais nuances, a direção de Scafaria cresce e As golpistas se torna um retrato sobre um mundo feminino abandonado pelo masculino, mas que dele tenta se nutrir. Por que os executivos que levaram os Estados Unidos a um período tão conturbado da economia não são punidos?

Esse, curiosamente, é o dilema de Ramona exposto para Dorothy e no meio se situam as figuras de mães, avós e filhas. Tudo se compõe como um universo feminino que quer sobreviver sem a figura do homem, pois este se mostra distante ou não tem nenhuma segurança. O apartamento cheio de peles de animais para comemorar o Natal é apenas o ponto máximo desse desejo.
Curiosamente, As golpistas obtém certa influência não apenas de A grande aposta, em relação ao qual é levemente superior, mas também da Sofia Coppola de Bling Ring, com a obsessão das mulheres em conseguir comprar bens, roupas, joias, no que vai dialogar justamente com os homens dos quais tentam extrair dinheiro durante a noite. A diretora Scafaria, de certo modo, toma um caminho menos arriscado quando as cenas de dança parecem robotizadas, a fim de não tornar essa visão do submundo tão impactante ou explícita, evitando também incorrer em problemas de censura. Nisso, As golpistas perde um pouco do realismo, no entanto não sem retribuir em estilo: é difícil ver um filme tão bem fotografado (por Todd Banhazl), em detalhes e nuances capazes de sempre atrair a atenção do espectador, embora a história pareça até mesmo superficial ou linear, a partir do ponto de que se trata de uma narrativa baseada em depoimentos.

Hustlers, EUA, 2019 Diretora: Lorene Scafaria Elenco: Constance Wu, Jennifer Lopez, Julia Stiles, Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo, Cardi B. Roteiro: Lorene Scafaria Fotografia: Todd Banhazl Produção: Jessica Elbaum, Will Ferrell, Adam McKay, Elaine Goldsmith-Thomas, Jennifer Lopez Duração: 110 min. Estúdio: Gloria Sanchez Productions, Nuyorican Productions, Annapurna Pictures Distribuidora: STXfilms

O irlandês (2019)

Por André Dick

Aguardado por alguns anos e depois de vários contratempos para conseguir orçamento necessário (em torno de 160 milhões de dólares), O irlandês acabou se tornando um dos destaques da Netflix antes de ser lançado. Não apenas por ser de Martin Scorsese, mas também por sua ousadia em fazer o rejuvenescimento de atores com efeitos visuais que acabaram prolongando a pós-produção.
Lançado finalmente, estamos diante de uma história com 209 minutos, no melhor estilo dos clássicos da Nova Hollywood dos anos 1970. Scorsese marca seu retorno depois de seu experimental Silêncio, sobre a ida de jesuítas para o Oriente a seu espaço mais habitual: o que enfoca mafiosos, sejam declarados ou não. Para isso, ele acompanha, desde o início, a viagem de Frank Sheeran com Russell Bufalino (Joe Pesci), com suas respectivas esposas, Irene (Stephanie Kurtzuba) e Carrie (Kathrine Narducci). As lembranças começam quando eles param perto de um posto de gasolina. Sheeran recorda que ali ele conheceu, nos anos 50, o amigo quando teve problema em seu caminhão no tempo em que transportava carne. Nesses transportes, ele conhece Felix “Skinny Razor” DiTullio (Bobby Cannavale), com o qual passa a fazer combinações criminosas. Depois de um acerto com o advogado sindical Bill Buffalino (Ray Romano), Sheeran acaba finalmente sabendo quem é Russell, amigo de Angelo Bruno (Harvey Keitel). Ele passa a trabalhar para ele no universo de gângsters da Filadélfia, também integrando o sindicato dos caminhoneiros dos Estados Unidos. É então que ele conhece Jimmy Hoffa (Al Pacino), o grande líder da União dos Teamsters, mestre em longos discursos e promessas de união entre os integrantes da categoria, que se torna, junto com sua esposa Jo (Welker White) e o filho adotivo Chuckie O’Brien (Jesse Plemons), amigo de Sheeran e, mais do que próximo, parceiro de crime. Hoffa também cria um laço de afeto com Peggy (Lucy Gallina na infância e Anna Paquin na vida adulta), filha de Sheeran, e, em meio aos problemas do sindicato, quer deter o crescimento de Anthony “Tony Pro” Provenzano (Stpehen Graham).

Nos anos 90, Os bons companheiros focava uma máfia de origem pedestre. Isso porque podemos ver que O poderoso chefão, de Coppola, é mais sofisticado e seus mafiosos estão sempre um pouco afastados do cotidiano, mais próximos de uma tragédia grega, em que cada elemento familiar pode também representar uma traição e o pecado. Em Scorsese, por sua vez, os mafiosos até então apareciam à solta pela rua e arranjam brigas de bar com a mesma facilidade com que se barbeiam, além de ostentarem dinheiro, mesmo inconscientemente, ao invés de tentar escondê-lo em algum banco. Os companheiros de Scorsese são, em última instância, pop stars do crime, expondo-se em bares ou salões de jogo com suas amantes (e os personagens do cineasta nunca foram exatamente discretos; basta lembrar, por exemplo, o açougueiro feito por Day-Lewis em Gangues de Nova York). Em O irlandês, mesmo porque Hoffa é uma figura também política respeitada, os mafiosos se comportam de maneira obscura, e Sheeran ao longo da narrativa parece mais um vulto do que qualquer outro, com uma atuação contida, emocional e detalhada de De Niro, por trás de um CGI de rejuvenescimento adequado na maior parte do tempo, a não ser num breve momento em que aparece na Segunda Guerra Mundial.

Em Os bons companheiros, toda essa tentativa que Scorsese vinha tendo em sua carreira anterior, de mostrar o universo da máfia, mas já no início com Caminhos perigosos – a máfia no Little Italy – e Touro indomável (não por acaso com dois atores de Os bons companheiros), se encontra maximizada. Não por acaso, ele faria em meados dos anos 90 Cassino, com De Niro e Pesci também como mafiosos em Las Vegas.
O irlandês é uma mescla desses dois filmes com o humor impagável de O lobo de Wall Steet. O seu roteirista Steve Zaillian já havia escrito O gângster para Ridley Scott e aqui segue o caminho de subtramas acumuladas, a partir do livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, distribuindo gags funcionais ao logo de algumas cenas extremamente bem construídas, por meio dos diálogos e das atuações.
Scorsese, com um brilhantismo auxiliado pela montagem de Thelma Schoonmaker, em seu auge aqui, consegue delinear, neste caos narrativo e nesta desregularização dos valores – há valores aqui, mas mundanos – uma certa referência familiar e mesmo de saudosismo. Para os personagens, a família tem um significado intenso, mesmo que ele em determinados momentos não importe, pois os negócios e a influência vêm em primeiro lugar. Uma cobrança de Sheeran ao dono de uma mercearia sobre o tratamento dado à sua filha Peggy é exemplar nisso. De Niro empreende a mescla entre ser oculto e extremamente violento, embora Scorsese nunca esclareça muito bem seus objetivos, o que era tão forte com os personagens centrais de Os bons companheiros e O lobo de Wall Street.

Na verdade, todos agem em conjunto para manter exatamente este domínio sobre as coisas que podem perder o controle. Castas são colocadas em jogo, mas nunca totalmente, e, por baixo de uma camada de violência e mesmo de secura e tragédia, uma espécie de olhar para as coisas realmente importantes e mais permanentes, tanto para Frank quanto para Jimmy e Russell.
Que O irlandês seja um filme sobre a máfia e sobre os mafiosos, ninguém duvida, no entanto ele, antes disso, mostra a decadência de um personagem, atraído pelo status do desaparecimento, e depois sua tentativa, afinal, de viver aquilo que antes criticava. Nesse sentido, como Os bons companheiros e O lobo de Wall Street, também é uma crítica ferina a um certo modo de vida e uma constatação já tardia para Scorsese de que não vale a pena viajar para fora da cidade sem ter certeza se irá voltar. Mesmo os trechos passados na cadeia são cômicos, na tentativa tanto de torná-la uma extensão de uma sorveteria quanto de um bar. A questão é que Scorsese, em O irlandês, mesmo com o tom épico, nos designs de produção e figurinos valiosos, trata do pano de fundo político da década de 60 em alguns momentos, com Hoffa (interpretado nos anos 90 por Jack Nicholson) sendo perseguido pelo filho de Kennedy, Robert (Jack Huston), e testemunhando a invasão na Baía dos Porcos em Cuba, momento em que o filme dialoga diretamente com JFK – A pergunta que não quer calar, de Oliver Stone.

De Niro consegue oferecer seu elemento meio cômico e dramático típico, enquanto Pesci se mostra pela primeira vez comedido. Já Al Pacino parece fazer uma boa mescla entre o Big Boy Caprice de Dick Tracy e o tenente-coronel Frank Slade de Perfume de mulher. Por sua vez, os coadjuvantes, como Romano e Plemons, mereciam mais tempo de cena, principalmente pela duração de 3 horas e meia, no entanto é plausível que Scorsese se sinta mais confortável em centralizar a história do trio de amigos por interesse. Aliado à encenação irretocável em tribunais, evocando O poderoso chefão II, O irlandês adota uma dramaticidade baseada no biografismo e sem ceder a alguns exageros típicos dos filmes antigos do cineasta, em que a violência era quase fantasiosa de tão acentuada, e entre essas obras se inclui Os infiltrados. Se em meio a esse universo a figura da mulher se perde (e ela era presente em Os bons companheiros com Lorraine Bracco, em Cassino com Sharon Stone e em O lobo de Wall Street com Margot Robbie), é porque Scorsese parece estar tratando do auge e do aprisionamento da figura clássica e queda da figura masculina entre os anos 50 e início dos anos 80. Novos gângsters ainda viriam, no entanto Scorsese prefere mesclar uma espécie de sentimento religioso e de desapego às relações para mover sua obra em direção a uma coda melancólica e impecavelmente habitada nos longínquos anos 70. Tudo soa como um testamento do cineasta, desde a escolha dos atores que o acompanharam ao longo de sua carreira até os momentos mais próximos de um afeto já perdido, quando o olhar diante dos filhos em relação às ações de uma vida toda não se faz mais possível. Mesmo a narração de Sheeran soa desanimada, diante de um universo conturbado e impecavelmente bem desenhado.

The irishman, EUA, 2019 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Bobby Cannavale, Anna Paquin Ray Romano, Jesse Plemons, Stephanie Kurtzuba, Kathrine Narducci, Jack Huston Roteiro: Steven Zaillian Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Robbie Robertson Produção: Martin Scorsese, Robert De Niro, Jane Rosenthal, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler, Gerald Chamales, Gastón Pavlovich, Randall Emmett, Gabriele Israilovici Duração: 209 min. Estúdio: TriBeCa Productions, Sikelia Productions, Winkler Films Distribuidora: Netflix