Vingadores – Ultimato (2019)

Por André Dick

Em Vingadores – Guerra infinita, os  irmãos Joe e Anthony Russo não tinham tempo a perder: empregavam uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as suas consequências. Eles acreditavam oferecer um ar dramático e, apesar dos conflitos físicos, os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU, inclusive os anteriores de Joss Whedon, desapareciam.
Não havia a construção de um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, extraindo qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parecia ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredava por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, os Russo estavam interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo compartilhado da Marvel, uma falha de ignição notável, que sua bilheteria impressionante não conseguiu sobrepujar.

O que poderia acontecer em um ano, para a chegada de Vingadores – Ultimato? Primeiro, parece que os Russo fizeram concessões em Guerra infinita para realizarem este segundo com mais liberdade. Embora haja elementos do produtor Kevin Feige, ele não tem claramente a presença aqui como nos demais desse universo. Com exceção de alguns momentos de ação, da fantasia e do estilo narrativo em determinadas partes, é outro tipo de cinema. Apesar do tom de autoimportância, ele vai, aos poucos, se confirmando como plausível.
Ultimato tem um primeiro terço verdadeiramente dramático, com um cenário de terra arrasada literalmente, desde a primeira sequência com a família de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), notável na criação de um espaço de distância de tudo, apesar de elementos cômicos pontuais e cabíveis no contexto.

É o que a Marvel mais conseguiu fazer próximo da sua principal rival na área, mas com um sentido mais pop, embora não menos emocional. É delicado, simples e vai direto ao ponto, com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), James Rhodes (Don Cheadle), Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), Rocket (Bradley Cooper) e o Gavião Arqueiro, além de Carol Denvers (Brie Larson) e Nebula (Karen Gillan), querendo arranjar uma solução para conseguirem rever alguns companheiros desaparecidos (para quem não viu Guerra infinita, deixo em suspenso). Também temos Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e o melhor acréscimo: Scott Lang/Homem-Formiga (o sempre efetivo Paul Rudd). Todos querem enfrentar novamente o temível Thanos (Josh Brolin). Não sem antes os irmãos Russo conseguirem reproduzir uma série de sequências cômicas com Thor e Bruce Banner que não têm o absurdo de Thor: Ragnarok, mas resoluções por vezes notáveis (e os efeitos especiais de Banner são ótimos).

Desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, os Russo não conseguiam fazer interação entre personagens como. Se em Guerra infinita os super-heróis apareciam e desapareciam sem criar o devido impacto, em Ultimato eles são devidamente considerados. Não há mais lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros e mesmo durante as batalhas os encontros se dão com uma sensação de vínculo ou proximidade. Se Bruce Banner pouco aparecia no último, aqui ele finalmente ganha um sentido narrativo. O mesmo se diz de Capitão América e Homem de Ferro, em atuações ótimas de Chris Evans e Robert Downey Jr. São personagens que pouco tinham a fazer em termos realmente dramáticos em Guerra infinita. Sobretudo o Capitão América, por ser o personagem mais dirigido pelos Russo, ganha um tom de serenidade empregado por Evans capaz de se contrapor aos episódios iniciais de maneira muito interessante, no entanto, ainda assim, evocando principalmente a obra inicial de sua história, dirigida por Joe Johnston. Ele representa os personagens principais do filme de 2012, cujo arco é fechado nesta peça de maneira muito competente e que recebem o destaque merecido em relação aos que tiveram seus filmes feitos depois.

Ao longo da narrativa, há uma sensação de passagem de tempo, de melancolia, que inexiste em qualquer outro filme da Marvel, pois a companhia, muito por causa de seu produtor, costuma padronizar algumas tramas. Os Russo estão mais interessados em sensações que não têm obrigatoriamente vínculo com uma franquia ou com ultrapassar bilheterias: eles conseguem desenhar um arco amplo sobre o universo compartilhado sem caírem na previsibilidade, inclusive com momentos-chave envolvendo personagens até mortos, criando uma redoma de tempo que não pode mais ser recuperado. Nesse sentido, elogiar Ultimato pelos pressupostos com os quais eram tecidos os comentários sobre Guerra infinita é estranho: ambos são quase totalmente diferentes. Mesmo visualmente, o quarto episódio com todos os heróis da Marvel é mais discreto, sem tanto CGI, focado em paisagens terrestres isoladas, ou casas campestres, criando uma ilusão de mundo distanciado. Os movimentos de câmera são mais dosados, não há uma necessidade de soar frenético e cada comportamento dos personagens parece ter uma explicação dentro da trama, fazendo com que a duração de 3 horas seja fluida, sem interrupções ou desvios tortuosos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Avengers – Endgame, EUA, 2019 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Josh Brolin Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 181 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Sicario – Dia do soldado (2018)

Por André Dick

É no mínimo surpreendente que Sicario – Terra de ninguém, um dos melhores filmes sobre tráfico de drogas, dirigido por Denis Villeneuve, tenha recebido uma continuação tão interessante pelas mãos do italiano Stefano Sollima. Isso talvez se deva ao fato de Taylor Sheridan, roteirista do primeiro, regressar aqui, para mostrar a trajetória novamente de Alejandro Gillick (Benicio del Toro) e Matt Graver (Josh Brolin), do Departamento de Justiça.
Se o primeiro barrava os limites entre o certo e o errado, entre a ética do Estado ou seu rompimento, para evocar indagações internas na agente do FBI Kate Macer, interpretada por Emily Blunt, isso, de certo modo, ganha um grande potencial, até maior, em Sicario – Dia do soldado, com uma configuração notável dos problemas no México. Sheridan, mais uma vez, depois dos trabalhos exibidos em A qualquer custo (pelo qual foi indicado ao Oscar) e Terra selvagem (o qual escreveu e dirigiu), mostra seu interesse por personagens vivendo uma experiência à parte do mundo conturbado, em lugares afastados, no entanto sempre afetados pela realidade mais explosiva. Toda a sua narrativa poderia ser equiparada, como A qualquer custo, com um faroeste contemporâneo, no qual os mocinhos e bandidos não são bem definidos, os cavalos são helicópteros ou caminhonetes e as regras da lei são constantemente quebradas para que se imponha o mínimo de ordem.

Graver é chamado novamente à ação depois de um atentado terrorista num supermercado de Kansas City, pelo secretário de Defesa dos EUA, James Riley (Matthew Modine). Supervisionado por Cynthia Foards (Catherine Keener), Graver, depois de uma passagem pela Somália (em cenas que lembram A hora mais escura), tenta colocar traficantes de drogas uns contra os outros dentro do México. Ele pede a participação do antigo companheiro no sequestro de Isabel Reyes (Isabela Moner), filha adolescente de 16 anos de um dos mais poderosos líderes de um cartel de drogas mexicano, mas dando a entender que são os rivais dele que o realizam – quando o espectador sabe se tratar de agentes ligados ao governo, com ou sem lei. A maneira como Sollima grava essas sequências, nas quais a verdade existe para o espectador, não para Isabel, numa espécie de metalinguagem bem-sucedida (tudo é uma grande encenação), se faz fidedigna do talento de Villeneuve em compor um clima de tensão, localizável anteriormente em Incêndios, tanto dentro de pavilhões militares quando em estradas em meio ao deserto. Esta característica se revela nos momentos de emboscada, que Sollima roda com uma urgência incomum no cinema norte-americano sem se expor a lugares-comuns excessivos.

Esta continuação de Sicario guarda em parentesco com o primeiro, além da fotografia extraordinária de Dariusz Wolski (utilizando suas lentes já testadas nesse cenário com O conselheiro do crime, de Ridley Scott, uma influência clara para o original de Villeneuve), a sua maneira discreta de tratar de temas familiares, como se mostra no comportamento de Gillick, em mais uma atuação irrepreensível de Del Toro. Sua amizade com Isabel é parecida com aquela que tinha com a agente feita por Blunt no primeiro e os maneirismos do ator mexicano nunca perdem para sua convicção em interpretá-los. Ao recordar novamente de sua filha, impossível não registrar o domínio da figura da mulher num ambiente petrificado.
Muitos apontam este filme como uma sequência desnecessária, contudo é possível ver os personagens sendo explorados de uma maneira interessante. Pode-se ver certa influência de Traffic, de Soderbergh, e de Heli, à medida que a trama cria raízes no México. No original de Villeneuve, quase tudo se concentrava em Macer e em seus amigos, a exemplo de  Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), ficando para os personagens aqui enfocados apenas um mistério. Eles surgiam sempre à espreita, sem terem muito o que dizer; aqui, eles dizem, porém quando não se expressam é que seus sentimentos vêm mais à flor da pele. O destino de Gillick é um ponto realmente bem trabalhado, além de ressoar para além das imagens.

Sollima oferece a eles mais diálogos e transparência, ao mesmo tempo que os conserva à distância do espectador. É como se ele tivesse conseguido acertar naquilo que Ridley Scott não conseguiu, em Hannibal, continuação de O silêncio dos inocentes. Utiliza a ação como um soco, não deixando de lado a violência, mas sem utilizá-la com exagero. Tanto a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir lembra a composição de Jóhann Jóhannsson (infelizmente falecido) quanto a fotografia de Wolski repete tons daquela de Deakins. Em termos narrativos, é claramente diferente do primeiro (mais lento e com transições discretas, uma especialidade de Villeneuve), com uma linearidade mais ligada a um cinema de ação, sem nunca deixar de ser igualmente interessante. Talvez sua recepção menos entusiasmada tenha se dado em razão de uma certa visão política que seria prejudicial ao país focado. Isso, porém, não se expande na abordagem de Sollima: ele apenas confere problemas que estão localizados nesse combate entre personagens ligados aos Estados Unidos e seus vizinhos, sem querer indicar nenhuma solução.

Sicario – Day of soldado, EUA, 2018 Diretor: Stefano Sollima Elenco: Benicio del Toro, Josh Brolin, Isabela Moner, Jeffrey Donovan, Manuel Garcia-Rulfo, Catherine Keener Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Hildur Guðnadóttir Produção: Basil Iwanyk, Edward L. McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 122 min. Estúdio: Black Label Media, Thunder Road Pictures Distribuidora: Columbia Pictures, Lionsgate

Deadpool 2 (2018)

Por André Dick

O grande filme de super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passou de Lanterna Verde a um herói mais cômico. A continuação começou a ser planejada logo em seguida, devido ao grande sucesso de bilheteria. E o diretor do original, Tim Miller, nesse meio tempo acabou se desentendendo com Reynolds e deu lugar a David Leitch. Ele teria pretendido fazer um filme como o primeiro, simples em termos de orçamento, indo contra a vontade do ator. Leitch dirigiu anteriormente duas peças de ação destacáveis, John Wick e Atômica. Ambos têm, além de uma ação dosada, um visual muito interessante, sobretudo o segundo.

Reynolds volta a fazer aqui um bom super-herói. Mais à vontade com a carregada maquiagem que exibe quando não está com a máscara, quando aparece como Wade Wilson, ele vem conseguindo se destacar até dramaticamente, em À procura, e parece ter entendido ainda melhor o timing do humor. As grandes qualidades de Deadpool 2 se devem, como no primeiro, à sua presença. Ele já começa em grande movimento, com o herói tendo de se enfrentar bandidos. Em seguida, ele reencontra a namorada Vanessa (Morena Baccarin), e logo adiante seu melhor amigo, Weasel (T.J. Miller), que trabalha num pub.
Se o primeiro filme tinha um bom ritmo até o fim de sua primeira metade, Deadpool 2, pela utilização de cenários variados e exatamente mais grandiosidade (que teria causado o desentendimento entre Reynols e o diretor do original), é uma obra de ação que retoma elementos de um humor despretensioso, apesar de sua variedade infinita de referências ao universo cultural (particularmente engraçada a analogia entre Frozen e Yentl, filme dos anos 80 com Barbra Streisand, e a lembrança de Instinto selvagem), além de voltar a mostrar o super-herói como uma peça menos importante do universo X-Men, na mansão Xavier, levando novamente à quebra da quarta parede, em gags que funcionam em boa parte. Para que Wade possa descobrir um lado que desconhecia (o de querer uma família), ele conhece o jovem mutante Russell Collins (Julian Dennison, outra vez mostrando o talento que exibiu em A incrível aventura de Rick Baker), revoltado com o diretor (Eddie Marsan, em breve participação, mas convincente) do orfanato onde vive.

Domino, alter ego de Neena Thurman (Zazie Beetz), é a personagem que surge para acompanhar Deadpool no terceiro ato inevitavelmente voltado a cenas de ação, ainda assim melhor dosado do que aquele do primeiro filme. O interessante é que o roteiro dos mesmos autores do original, apesar de previsível, principalmente depois da entrada do vilão Cable (Josh Brolin, muito bem em uma persona maquiada, mas sem digitalização), se mostra muito superior ao primeiro, em que havia um salto do primeiro para o segundo ato sem o preparo necessário.
O filme já inicia com uma referência a uma determinada influência que Deadpool teve no universo da Marvel. Estão de volta Colossus (Stefan Kapicic) e o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller buscava contato com o humor violento de Kick-Ass, mas Leitch, por ter mais apuro visual, consegue concentrar a violência sob um ponto de vista menos impactante e verdadeiramentes engraçado. Uma passagem em que Deadpool tenta guiar uma equipe é uma das mais cômicas do cinema recente. As sequências de ação têm ritmo próprio, porém não se apresentam de maneira a investir num exagero desproporcional; privilegiam a técnica e o embate corpo a corpo, uma especialidade do diretor já demonstrada principalmente numa longa sequência de luta de Charlize Theron em Atômica. O diretor de fotografia Jonathan Sela, o mesmo desse filme anterior de Leitch, desenha uma movimentação interessante com a câmera.

No primeiro, a impressão é que a aparente crítica corrosiva apenas procurava encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo elementos parecidos o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. Aqui o filme brinca exatamente em cima da própria metalinguagem: “segue uma cena de efeitos especiais”. É simples e funcional, e o personagem funciona sem a autoimportância de ser aquele que critica a indústria sob um ponto de vista bem-humorado: ele já explicita que faz parte dessa mesma indústria e suas gags são bem mais discretas e verdadeiramente sarcásticas. Deadpool 2, como o anterior, ainda deve bastante ao que Homem-formiga fez com precisão e agilidade, mas tem personagens à altura de seus objetivos. Se o primeiro arrecadou um valor extraordinário nas bilheterias, talvez este segundo não chegue ao mesmo. Com quase o dobro de custo do original, visto plenamente na tela, de qualquer modo, há algo decisivamente substancial nesta peça, uma espécie de visão familiar buscada pelo super-herói em diferentes passagens, até quando está tentando ser engraçado.

Deadpool 2, EUA, 2018 Diretor: David Leitch Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Jack Kesy Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, Ryan Reynolds Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds, Lauren Shuler Donner Duração: 119 min. Estúdio: Marvel Entertainment, Kinberg Genre, The Donners’ Company Distribuidora: 20th Century Fox

Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Ave, César! (2016)

Por André Dick

Ave, César! 4

Se há uma característica própria dos irmãos Joel e Ethan Coen é a sua versatilidade, capaz de alternar filmes excepcionais com outros que parecem apenas brincar com determinados temas. O filme anterior a este Ave, César! foi o mais do que superestimado Inside Llewyn Davis, recebido pelo público e pela crítica de modo muito mais entusiasmado. Talvez porque Ave, César! seja quase inclassificável, uma espécie de mistura do que os irmãos já mostraram em Barton Fink e Um homem sério com novos acréscimos. O roteiro mostra o diretor do estúdio Capitol Pictures, Eddie Mannix (Josh Brolin, excelente), que, determinado dia, tem um de seus astros, Baird Whitlock (George Clooney, divertido mais uma vez sob a direção dos Coen, como em Queime depois de ler), sequestrado, logo quando está para terminar as filmagens de Hail, Caesar!, uma reconstituição da presença de Jesus Cristo na Roma Antiga.
Os motivos para os irmãos usarem essa simbologia religiosa já estava claro em Um homem sério, mas é aqui que se torna ainda mais interessante. A narrativa segue uma linha de liberdade, mostrando cenas de filmes diferentes sendo filmadas: DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) tem uma ligação suspeita com Mannix, enquanto Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) provoca a ira do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), e Burt Gurney (Channing Tatum) atua como marinheiro num musical que parece lembrar o Gene Kelly de Cantando na chuva. Mannix também precisa se desvencilhar de Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton), irmãs gêmeas e colunistas rivais.

Ave, César! 5

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Além disso, ele precisa se encontrar com padres e pregadores para avaliar como seria o seu projeto sobre a vida de Cristo. Os irmãos Coen subvertem a situação mirando um certo humor de origem judaica, já vislumbrado no excelente Um homem sério, mas que aqui adquire outra carga: não por acaso, Mannix é um homem cheio de culpa e vai ao confessionário tentar se eximir de sua condição.
Passado nos anos 50 – um pouco depois do período que mostraram no noir O homem que não estava lá –, os irmãos Coen fazem uma homenagem ao cinema dessa época, enquanto satirizam tanto a indústria cinematográfica quanto as ideias comunistas que estavam se proliferando na capital do cinema. Alguns dos diálogos são extremamente saborosos, mantendo uma ideia de época e de contemporaneidade. Para os irmãos Coen, as ideias não somem, apenas mudam de forma, e não por acaso eles parecem homenagear aqui três cineastas: Billy Wilder (de Crepúsculo dos deuses), David Lynch (de Cidade dos sonhos) e Wim Wenders (Estrela solitária), principalmente na figura do astro que interpreta caubóis.
Essa metalinguagem sobre o universo do cinema é vinculada, na narrativa dos Coen, à questão da fé pessoal e no uso de pessoas para estruturar uma ideia de estúdio, cuja finalidade é ajudar a movimentar a indústria. No entanto, como bons roteiristas, os Coen nunca se negam a ver uma fresta de sátira nesse comportamento, não levando a sério nenhuma das questões, sem, contudo, desprezá-las. As figuras do caubói, a princípio ingênua, e do ator que interpreta César com um overacting terrível, ajudam a manter o filme dos Coen numa área de questionamento, assim como o comportamento de Mannix.

Ave, César! 3

Ave, César! 2

Ave, César!

A oposição entre a claridade e a escuridão se mostra não apenas no tempo em que se passa – durante um dia – como na narrativa dividida em atos de filmagens, que trazem uma atmosfera maravilhosa que se contrapõe à vida real. Enquanto transcorre o mccarthismo, os Coen não se incomodam em mostrar exatamente um grupo de roteiristas com uma ligação estabelecida imediatamente com Moscou – quase um lado subversivo do que mostraram no roteiro politicamente correto de Ponte dos espiões, mais próximo de Barton Fink. Em vez de tecerem observações filosóficas sobre o livro referencial sobre o capitalismo, eles preferem atuar numa frente que lembra mais a sátira de David Cronenberg ao sistema financeiro, em Cosmópolis. E, apesar de o filme nunca cair no ridículo, como Queime depois de ler, ele brinca com a espionagem de maneira corrosiva.
Impressiona como os diretores conseguem imprimir, por meio desses personagens às vezes sem uma ligação clara, uma notável agilidade à narrativa, junto com a ideia de que não sabemos quando estamos ou não encenando, ou a partir de que ponto não fazemos parte de uma obra maior. Ao mostrar astros agindo de maneira estranhamente ingênua em seus passos “reais”, há uma outra visão sobre o mundo que está sendo descortinado.
Com mais um trabalho de fotografia belíssimo de Roger Deakins, Ave, César! ainda apresenta uma das melhores reconstituições de época, sob o auxílio de Jess Gonchor, e um figurino belíssimo de Mary Zophres. E, ao contrário de algumas peças recentes dos diretores, principalmente o melancólico Inside Llewyn Davis, Ave, César! se alegra em mostrar peças de humor dentro de seu roteiro. Ele consegue captar, em várias camadas, a atmosfera de um período do melhor modo.

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Como nos demais trabalhos dos irmãos Coen, as atuações têm uma rara qualidade, não apenas de Brolin e Clooney, mas dos coajduvantes, como Johansson e Channing Tatum (praticamente numa participação especial), mas principalmente Alden Ehrenreich e Fiennes, num dueto memorável. Ainda assim, o maior êxito do filme parece ser o de sua montagem – feita pelos próprios diretores –, ao mesmo tempo aberta e cuidadosa, com os personagens entrando e saindo de cena sem cansar o espectador. Os personagens funcionam num plano simbólico, ao contrário daqueles de Inside Llewyn Davis,  e as imagens permitem uma leitura da história do cinema, independente do seu desenvolvimento. Por toda a narrativa se passar em basicamente num dia de filmagens, é possível ver os personagens e a história com a luminosidade da manhã. Tudo isso auxiliado por uma espécie de surrealismo da realidade, principalmente quando George Clooney vestido de César caminha por um corredor enquanto uma senhora usa um aspirador, ou quando o caubói grava uma de suas cenas montando um cavalo. Na verdade, ao contrário do que ele diz em outra produção para divulgar seu nome, nada é simples neste filme que entra facilmente na lista de obras-primas dos diretores.

Hail, Caesar!, EUA, 2016 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen Elenco:  Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Jonah Hill, Christopher Lambert, Frances McDormand Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Eric Fellner, Ethan Coen, Joel Coen, Tim Bevan Duração: 106 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Mike Zoss Productions / Working Title Films

Cotação 5 estrelas

 

Sicario – Terra de ninguém (2015)

Por André Dick

Sicario.Filme 2

Foi a partir de Os suspeitos, em 2013, que o diretor Denis Villeneuve, nascido no Canadá, se firmou, pelo menos junto ao público, como um dos cineastas a serem acompanhados no cinema moderno. Particularmente, O homem duplicado, baseado no romance de José Saramago, seu filme seguinte, parece uma obra ainda melhor realizada tecnicamente, com uma temática de busca pela personalidade, ou antipersonalidade. Mas é em Polytecnique, já filmado com uma excelência técnica apesar do baixo orçamento, qualidade que se repetia em Incêndios, mas neste sem o mesmo impacto, que Villeneuve vai buscar um diálogo para a personagem central de Sicario – Terra de ninguém, a agente do FBI Kate Macer, que trabalha no combate às drogas.
Depois de uma operação no Arizona em que ela é exposta a uma realidade mais chocante do que imaginava, ela é recomendada por seu chefe, Dave Jennings (Victor Garber), a se apresentar a Matt Graver (Josh Brolin), de uma divisão especial da CIA sob comando do governo, a fim de fazer parte de um grupo que irá combater o cartel de drogas no México, junto com o amigo Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), com a ajuda também de Alejandro Gillick (Benicio Del Toro). Como a personagem central de Polytecnique, Kate não consegue se encaixar com tranquilidade num universo predominantemente masculino e ameaçador.

Sicario.Filme 1

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Ela é convocada para a missão de encontrar traficantes, sem ao certo nunca saber o que de fato está realizando, mesmo que a pressuposta figura a ser combatida seja a do chefe de cartel Manuel Díaz (Bernardo P. Saracino). Seu ingresso na missão se deve a uma crença de que indo à origem do tráfico de drogas para os Estados Unidos pode estar modificando não apenas o direcionamento das vítimas que ele causa, como também pode estabilizar a vida como agente.
Auxiliado por uma fotografia habitualmente notável de Roger Deakins, seu habitual colaborador, Villeneuve tenta fazer uma mistura de Heli, Traffic, Onde os fracos não têm vezes e A hora mais escura. Principalmente o menosprezado (e ótimo) Heli serve de inspiração para muitos momentos de Sicario, inclusive na fotografia febril de Deakins, como se escolhesse sempre a luz natural do sol, sem intermediações, simbolizando o mormaço. Quando Villeneuve mostra a chegada em caminhonetes da equipe de Matt, Alejandro e Kate ao México, mais especificamente na cidade de Juárez, essa influência é perceptível, não apenas pelas imagens que lembram um documentário, como também por uma exposição assustadora de vítimas do tráfico de drogas. Se Escalante, no entanto, foi criticado em Heli pela violência mais crua, Villeneuve prefere atenuar as imagens com uma espécie de estilo que evoca um thriller. Ou seja, é como se Kate estivesse chegando a uma base militar de A hora mais escura – e há uma profusão de imagens que recorrem ao filme de Bigelow, principalmente aquelas que mostram prisioneiros por trás das grades. Não que já não houvesse elementos que poderiam dialogar com Bigelow em Incêndios, mas a pressão de Villeneuve tem forte influência do cinema daquela diretora.

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Em igual escala, a personagem Kate tem um diálogo com a detetive interpretada por Jessica Chastain no sentido de que não é possível saber da sua vida pessoal; ela é uma personagem que tem como limite a própria situação em que está inserida. Mesmo que os personagens sejam misteriosos, ainda melhores são as atuações de Blunt, Brolin e Del Toro, todos igualmente muito bem, assim comol Kaluuya, na persona de Reggie, amigo de Kate. Del Toro, de todos, é o mais atento ao que se pode chamar de configuração real de um personagem, com uma presença hipnótica em cena – como em 21 gramas e O lobisomem, ele atua muitas vezes apenas com o olhar –, embora Blunt consiga extrair muito de um papel bastante reduzido em termos de diálogo, entregando a melhor atuação desde Meu amor de verão, há mais de uma década atrás, quando ainda filmava mais na Europa. Brolin, por sua vez, mostra mais uma vez que se trata de um dos coadjuvantes mais centrais dos últimos anos, principalmente neste e em Vício inerente.
Impressiona como Villenuve tem uma variação no estilo, pois Sicario se sente completamente diferente de seus outros filmes no tom visual e em seu roteiro, além do uso de uma música atmosférica de Johan Jóhannsson, dialogando com o peso das imagens, principalmente aquelas em que as locações são vistas do alto (num diálogo com Amor sem escalas). Villeneuve tenta sempre contrapor os personagens isolados a cenários semi-habitados ou que parecem (apenas parecem) abandonados, a exemplo de uma rodoviária noturna, quando também dialoga com Traffic, de Soderbergh.
O roteirista Taylor Sheridan tem certa dificuldade de explorar os caracteres dos personagens, por outro lado o que seu roteiro não entrega Villeneuve e Deakins transformam em sugestão visual – e muito forte, a começar por uma passagem pela fronteira dos Estados Unidos com o México, cercada por uma tensão desenfreada. E mantém-se a essência: este é um dos melhores filmes sobre o tema de combate às drogas.

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Há uma dualidade nunca resolvida por Villeneuve e os personagens não sabem exatamente se são bons, ou se apenas sua finalidade – a eliminação do tráfico – é boa, com métodos falhos. Sicario se fixa sempre nos procedimentos a serem adotados, e eles podem reservar uma indefinição quanto à finalidade, o que fica subentendido pelo próprio título, que pode tanto remeter ao uso de armas escondidas quanto, etimologicamente, ao estado em que os personagens estão mergulhados desde o início e à finalidade com que alguns deles podem atuar neste cenário desolador. Habitualmente, os personagens principais dos filmes de Villeneuve são solitários, e Kate é um exemplo bastante propício para estender esse argumento – como também a mãe de Incêndios.
Para ela, qualquer fuga às tarefas de agente podem representar um perigo, como se ela não estivesse preparada para a realidade. O relacionamento de amizade que estabelece com Alejandro parece mais ligado a uma insegurança familiar e Villeneuve é muito efetivo ao despertá-la na narrativa de Sheridan. Ainda assim, é notável como o cineasta consegue criar uma cena de tensão num determinado local capaz de evocar a transição e a pulsação nervosa de James Cameron com a câmera em Aliens. Villeneuve utiliza o cenário para mostrar como a personagem não pode se libertar da verdadeira natureza própria. Ora, o filme não trata de uma mulher oprimida ou não – trata-se de alguém que quer seguir as leis num universo onde não há leis. Na visão de Villeneuve, a guerra a ser mostrada e combatida em Sicario está mais próximo do que se imagina, evidentemente mais ainda para a diplomacia dos Estados Unidos que parece despreocupada com o que acontece a seu lado. Sicario se concentra em determinadas ações e, ao mesmo tempo que mostra uma possível realidade, lança o espectador numa tentativa de refletir longe do cenário apresentado sem, no entanto, oferecer qualquer alívio completo. Mesmo com percalços no roteiro, é cinema de alta qualidade.

Sicario, EUA, 2015 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Jon Bernthal, Jeffrey Donovan, Victor Garber, Raoul Trujillo, Maximiliano Hernández, Daniel Kaluuya Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Basil Iwanyk, Edward McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 121 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Thunder Road Pictures

Cotação 4 estrelas

 

Vício inerente (2014)

Por André Dick

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Vício inerente parecia ser, pelo trailer, o filme mais acessível de Paul Thomas Anderson, sucedendo sua obra-prima O mestre. É possível entender que a adaptação feita pelo diretor do romance de Thomas Pynchon, lançado em 2009, procura, como o livro, fazer uma homenagem às investigações policiais dos anos 50 no cenário dos anos 70. O diretor já revisitou essa época em Boogie Nights, mas Vício inerente oferece um passeio muito mais hermético, por se basear numa escrita com várias referências explícitas ou não e uma linguagem entre o pop – no caso de Vício inerente, dessa linguagem que faz referência principalmente à geração hippie – e o que é considerado cult, os romances de detetive (e suas descrições detalhadas parecem homenagear tanto autores do gênero policial quanto os beats). Há uma diversidade de personagens na prosa de Pynchon, um entra e sai deles, nem sempre esclarecidos, diálogos que acontecem como se estivéssemos escutando os personagens de perto e uma ambientação concentrada.
Anderson respeita o romance que lhe serve de inspiração na mesma medida que lança seu olhar próprio: os zooms lentos sobre cada personagem em algumas situações, além de remeterem a Altman, mais claramente, possuem a técnica de exatamente diminuir a velocidade da prosa de Pynchon. Desse modo, o que Anderson faz não é exatamente fácil: ele retira todo o movimento dito moderno de Pynchon e coloca suas figuras, com jeito de estarem nas praias californianas, situadas entre tramas estranhas e distantes da realidade. Há um choque – e nisso se concentra a especialidade de Vício inerente. Sem deixar de ser fiel ao livro, o filme de Anderson é outra energia, como diria seu personagem principal, o detetive e hippie juramentado Doc Sportello.

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Doc mora em Gordita Beach, uma praia fictícia em Los Angeles, e é procurado por uma antiga namorada, Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston), para encontrar o amante dela, Mickey Wolfmann (Eric Roberts), um ricaço do meio imobiliário e ligado a uma organização misteriosa chamada Golden Fang. A trama labiríntica que parte daí e evoca tanto o lado solar quanto a escuridão da noite, além de uma porção de nomes, desde o delegado da polícia de Los Angeles Bigfoot Bjornsen (Josh Brolin), além de alguns ativistas, é típica do gênero e fascinante para quem se interessa. Ao mesmo tempo em que precisa encontrar Wolfmann, Doc é procurado por Hope (Jena Malone) para encontrar seu marido, também desaparecido, Coy (Owen Wilson), um saxofonista. Para o caso de Wolfmann, recebe a ajuda de Sauncho Smilax (Benicio del Toro), levando-o ao veleiro Golden Fang, enquanto tem encontros futivos com Penny Kimball (Reese Witherspoon) e interrogatórios no mínimo estranhos com Tariq Khalil ( Michael Kenneth Williams), integrante dos Panteras Negras, o Dr. Rudy Blatnoyd (Martin Short), a prostituta Jade (Hong Chau) e a esposa de Wolfmann, Sloane (Serena Scott Thomas), precisando usar seu caderninho para entender o que seria ou não resultado de uma paranoia ou alucinação pessoal. Em determinados momentos, a elaboração nas tramas lembra também a de Dália negra, obra injustamente esquecida de Brian De Palma, adaptada de Elroy, por sua profusão de caminhos e interligações, com a narração de Sortilège (Joanna Newsom, cantora e compositora), que tenta esclarecer alguns detalhes, para descontrair a história.
Embora seja vendido como uma comédia, e tenha realmente momentos de humor, Vício inerente é um filme que joga com elementos policiais clássicos com a mesma competência de Hammett, dos anos 80, dirigido por Wim Wenders, e, apesar de parecer, ele pouco tem relação com O grande Lebowski, dos irmãos Coen. Nesse sentido, ele possui tanto humor quanto Sangue negro, ao se mostrar os conflitos entre o desbravador de poços de petróleo e o pastor da localidade onde concentra sua empresa, e O mestre, quando este mostra o líder de uma seita que precisa de um homem para lidar com ações menos reflexivas, como encostar algum detrator de suas ideias contra a parede.

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Por meio dos personagens, Anderson sempre procura encontrar o lado tanto ensolarado quanto nebuloso de uma América prometida nos livros de história. E, ao contrário de Magnólia, ainda o mais visto de Anderson, não existe aqui nenhum apelo ao pop ou ao movimento: a maneira como Vício inerente foi filmado é aparentemente simples, modesta, sem os travellings a que Anderson se acostumou no início de carreira e usou sobretudo em Embriagado de amor, e isso pode ser percebido também na direção de arte e nos figurinos, que apenas complementam os personagens e nunca são um elemento à parte no cenário. Ele se parece visualmente com Boogie Nights, principalmente ao apresentar o interior dos lugares, sem nenhum exagero ou cores excessivas, ou seja, é realmente o filme em que Anderson se distancia de qualquer apoio que não seja a história e o elenco.
Filmado com um rigor descompromissado, Vício inerente é apenas aparentemente um filme ingênuo ou que apena sublinha a quantidade de drogas na cultura dos anos 70; vê-lo como uma história sobre pessoas que se utilizam de misturas ilícitas não desenvolve sua riqueza e imaginar que sua trama confusa é fruto apenas de estados alterados no mínimo equivocado (este não é um segundo Medo e delírio, também com Del Toro, em que Johnny Deep fazia um jornalista mergulhado no uso de substâncias proibidas). Isso pode ser sentido não apenas no encadeamento inicial, quando há um longo diálogo entre Doc Sportello e Shasta, até o início de suas investigações, que o levam até a gangue que pode ajudar a esclarecer onde afinal está Mickey Wolfmann. Anderson em nenhum momento, como um grande diretor, esclarece por que a história vai tendo algumas rupturas, quando, visualmente, tudo transcorre de maneira fluida e interligada. Nesse sentido, o filme só se mostra de fato confuso quando se deixa de imaginar que Anderson e, antes dele, Pynchon, queria fazer uma homenagem referencial à cultura do cinema noir, no qual as luzes e sombras desempenham papel fundamental.
Em Vício inerente, Anderson torna esse jogo de luzes e sombras com cores distintas não apenas no início, certamente aquele momento que mais se mostra fiel ao livro e determina todo o ritmo, como também no momento em que vai a uma mansão onde pode encontrar um determinado personagem. Se a delegacia é um lugar sempre iluminado, os seus personagens nunca o são: tanto Bigfoot quanto os integrantes do departamento são confusos. Bigfoot é claramente uma visão da era Nixon, da tentativa de obter um controle sobre sua própria imagem – e ele se decepciona ao perceber que não lhe dão o espaço que considera merecer. E Doc Sportello está longe de ser uma caricatura de hippie como costuma ser descrito: Phoenix lança sobre o personagem quase uma consternação melancólica, de não entender o que se passa à sua volta não exatamente em termos de efeitos psicodélicos, mas morais: Sportello está perdido nessa mudança brusca de comportamentos e conspirações por todos os lados, a começar pela do seu próprio governo.

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Anderson continua sendo um diretor fenomenal de atores, extraindo grandes atuações de Phoenix (que passa de Amantes para O mestre e Ela com a naturalidade de ser o melhor atuação da sua geração) e Brolin, mas também do elenco coadjuvante, com rápidas (e essenciais) participações de Waterston, Wisterphoon, Short e Del Toro. Além disso, Anderson homenageia também o estilo de filmagem de Robert Altman, com propriedade: há sequências memoráveis e uma ambientação impecável, levando o espectador a cada lugar enfocado. Se Altman havia tentado (particularmente sem conseguir) em Um perigoso adeus exatamente essa busca por uma revitalização do cinema que mostra investigadores envolvidos em tramas nebulosas, Anderson consegue efetuar uma modernização dessas ideias, assim como se mostrava em A ponta de um crime, em que Gordon-Lewitt interpreta um estudante de colégio em meio a uma narrativa misteriosa. Apesar da longa duração (148 minutos) e da dificuldade de acompanhar os acontecimentos – misturados à psicodelia pessoal de “Doc” Sportello –, o filme de Anderson, em meio à sua lentidão, na correspondência nunca confirmada entre diálogos e fatos, nunca é menos do que original, por aliar narrativa e atores de um modo inusitado e mesmo impressionante quando se sabe o quanto Hollywood se afasta deste tipo de tratamento narrativo.
Como pano de fundo, com esse retrato da geração hippie – o delegado feito por Brolin como o aparente extremo contrário de “Doc” –, existe ainda o surgimento de ativistas na aurora dos anos 70, a paranoia com uma possível invasão russa por meio de ideias desconexas, os cabelos ao vento das mulheres na praia, as ondas e um espaço para se avistar o horizonte entre duas casas (numa imagem recorrente da obra anterior de Anderson, O mestre).  Não apenas um retrato de época e uma brincadeira com gêneros, Vício inerente mostra toda a melancolia que existe na passagem de gerações e nos movimentos culturais, quando o personagem precisa olhar para o retrovisor, mas seguir em frente. Essa escolha está presente também na maneira como Robert Elswit trabalhou com as locações do filme: dificilmente vemos o brilho de fundo dos cenários porque a câmera está concentrada nos personagens e no que eles têm dizer e, quando há um brilho, é apenas relance de um sol. E essa é a ruptura clara entre gerações, que Doc Sportello consegue sintetizar de maneira clara, mesmo com sua aparente confusão. Com todo o seu descompromisso, Vício inerente é fascinante.

Inherent vice, EUA, 2014 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Joaquin Phoenix, Katherine Waterston, Josh Brolin, Owen Wilson, Benicio del Toro, Reese Witherspoon, Maya Rudolph, Eric Roberts, Michael Kenneth Williams, Joanna Newsom, Martin Short, Martin Donovan, Jena Malone, Sasha Pieterse, Hong Chau, Peter McRobbie, Keith Jardine Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Jonny Greenwood Produção: Daniel Lupi, JoAnne Sellar, Paul Thomas Anderson Duração: 148 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Warner Bros.

Cotação 5 estrelas

Guardiões da galáxia (2014)

Por André Dick

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O universo da Marvel apresentou, nos últimos anos, uma seleção de filmes de grande bilheteria, com super-heróis firmados nos quadrinhos por Stan Lee. Neste ano, depois de Capitão América e Homem-Aranha, tivemos uma adaptação de quadrinhos não tão conhecidos: aqueles de Guardiões da galáxia. Já com certo estilo garantido e um público fiel, esse tipo de adaptação costuma ser recebida com desconfiança pela crítica, mas, se apresentar elementos novos em relação aos anteriores, logo é acolhida. Não parece ter sido diferente com o filme de James Gunn, antes responsável pelo roteiro das adaptações de Scooby-Doo para o cinema. Os elementos diferentes em relação aos anteriores se baseia na sucessão de gags que esses personagens trazem.
No início, logo na chegada a um planeta estranho, atrás de um objeto, o orbe, o anti-herói, Peter Quill (Chris Pratt), abduzido quando criança depois de um momento definidor de sua vida, precisa enfrentar uma trupe. Mas, antes, ele adentra as ruínas de uma construção no planeta Morag, aos passos de “Come And Get Your Love”, como se fosse uma espécie de Moonwalker, apanhando um rato como microfone. Estes créditos iniciais são hilários e antecipam o que Guardiões da galáxia mais tem de especial: um humor involuntário que remete aos melhores momentos de certo cinema descompromissado dos anos 80. Logo com o orbe, Quill vai parar no negócio de um contrabandista, sendo esperado à porta por Gamora (Zoe Saldana), filha adotiva de Thanos (Josh Brolin), aliado a Ronan (Lee Pace). Daí a se deparar com Rockett (voz de Bradley Cooper) e Groot (voz de Vin Diesel) – um “ent” minúsculo –, é questão de uma dezena de minutos. Todos já estão numa prisão, onde conhecem Drax (Dave Bautista), de onde tentarão escapar – e neste ponto já estão no encalço para recuperar o orbe.

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Pode-se perceber por poucas cenas iniciais o que Guardiões das galáxias tem de melhor: as referências, no espaço, à Terra, e elas acontecem com Peter, abduzido quando criança mas teve tempo, pelo menos, de assistir a um dos musicais preferidos dos anos 80. Gunn tem, entre seus filmes, evidentemente uma referência clara, que é o Flash Gordon do início dos anos 80, embora com cenários mais baseados no CGI. Isto é explicado não apenas pela trilha sonora – conduzida pelo DJ Quill – como pelos vilões ameaçadores e, de certo modo, bastante caricatos. A questão é que o motivo para o enredo – o orbe que todos tentam possuir – é muito parecido com o Tesseract de Os vingadores, evidentemente pela mesma origem, mas isso inclui um sentido de comparação capaz de empobrecer o filme de Gunn em termos de motivação. Trata-se de uma justificativa do roteiro para reunir todos esses personagens em torno de uma necessidade de variação, mas não se sustenta ao longo da narrativa.
Os guardiões são figuras interessantes, a exemplo de Rocket, mas são baseados numa corrente de humor que não se mantém o tempo todo, sobretudo quando se pega como parâmetro a meia hora inicial, com uma dose equivalente de humor no espaço que não se vê desde os desentendimentos de Han Solo e Chewbacca com os problemas mecânicos da Millenium Falcon. De qualquer modo, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação (Uma aventura LEGO também possuía essa característica), mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, num possível plano de fuga. Sempre que há uma queda no ritmo, Gunn aproveita para lançar mão de seu repertório musical setentista, no qual se encaixa até mesmo a contagiante “Cherry Bomb”, das Runaways, numa profusão setentista espaço sideral afora. Certamente, Rocket, o guaxinim, é a melhor figura, ao lado de Groot, fruto de experimentos científicos – fazendo com que, em determinado momento, se rebele num planeta cujas sacadas parecem remeter às tribos de Ewoks de Endor. Com voz de Bradley Cooper – particularmente não parece dele –, Rocket é o melhor personagem de Guardiões da galáxia, mesmo que sem sua voz humana seja produto apenas de efeitos especiais competentes. No entanto, mais do que a relação entre Peter e Gamora, é a amizade entre Rockett e Quill que dá o mote emocional do filme. E não se pode negar que o elenco tem outros bons nomes, como Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que conseguem boas participações.

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Gunn é um diretor competente para desenvolver ambientes e ele disfarça bem o orçamento não tão milionário quanto o de outros filmes da Marvel com uma boa concepção de cores e de cenários, trazendo uma mistura entre o verde e o rosa para a composição do filme – em razão principalmente da tonalidade de pele de Gamora. A direção de Guardiões da galáxia, até determinado ponto, é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana. De qualquer modo, ele não tem o mesmo sucesso nas transições da narrativa: apesar de o ritmo ser ágil nos atos que enlaçam o filme, não há uma continuidade clara em determinados momentos e, com metragem razoável (certamente suas duas horas deveriam ter sido encurtadas), ele se sente estranhamente confuso nas cenas de ação, influenciadas diretamente pela segunda trilogia de Star Wars, e mesmo o duelo entre Gamora e Nebula (Karen Gillan), que poderia lidar com uma questão familiar mais sólida, assim como os atritos entre Quill e seu antigo chefe,  Yondu (Michael Rooker), se mantêm com algum interesse, mas menos do que aquele que serve para novos duelos. Há as mesmas características da segunda trilogia de Star Wars, uma certa profusão de CGI e falta de naturalidade nas ações e uma competência técnica que acaba extraindo a emoção. Algumas vezes, nessas cenas, os personagens não são  bem visualizados e não sabemos muito bem o que está acontecendo, não simplesmente por causa da ação desenfreada e sim por uma dificuldade nos cortes para cada passagem. E entre os vilões, por mais que sejam bons atores (Brolin), falta um roteiro mais interessante, o que certamente possui, por exemplo, Tom Hiddleston como Loki. No entanto, Guardiões da galáxia continua seguindo a linha de humor existente no início do filme e tenta equilibrar Runaways e Marvin Gaye – a trupe de Quill é um convite a uma sessão não apenas de efeitos especiais, mas sonora.

Guardians of the galaxy, EUA, 2014 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, Josh Brolin Roteiro: Chris McCoy, Nicole Perlman Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 121 min. Distribuidora: Hughes Winborne / Walt Disney Pictures Estúdio: Craig Wood / Marvel Enterprises / Marvel Studios

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Os Goonies (1985)

Por André Dick

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Durante a década de 1980 – mais especificamente entre 1984 e 1985 –, Steven Spielberg, além de ter realizado filmes antológicos, produziu peças únicas. São filmes que remetem aos recentes Super 8 e Cowboys e aliens, mas com um fôlego mais remanescente. Apesar de ter produzido outros sucessos naquela década, como Poltergeist (1982), Fievel (1986), Uma cilada para Roger Rabbit (1988) e Querida, encolhi as crianças (1989), foi nesses anos que Spielberg compôs, e que faria acréscimo a E.T., uma espécie de imaginário da infância e da adolescência, referenciado em cidadezinhas dos Estados Unidos ou em microcosmos de um detetive antológico.
Em 1984, ele produziu Gremlins, por exemplo, em que se mostra uma cidadezinha do interior sendo invadida por monstrinhos. Em 1985, por sua vez, em O enigma da pirâmide, o diretor Barry Levinson (Rain man), juntou-se com Spielberg para fazer uma adaptação juvenil das histórias de Sherlock Holmes e seu fiel companheiros das histórias de Conan Doyle, Watson, na qual se revela como eles se conheceram num colégio de Londres e como se deu seu primeiro caso, envolvendo casos estranhos, relacionados com um dardo venenoso que leva as vítimas a terem alucinações, e reunidos numa diversão que, à época, não teve grande público, mas acabou se tornando cultuada, também em razão de sua qualidade visual e de trama bem construída.
Entre a cidadezinha escondida de Gremlins (mas não devemos esquecer aquela em que mora Marty McFly em De volta para o futuro) e o lado detetivesco de Sherlock Holmes (mas também das histórias de capa e espada de Errol Flynn), tivemos finalmente Os Goonies, com roteiro do mesmo Chris Columbus de Gremlins e O enigma da pirâmide, pode ser vista a marca do produtor Steven Spielberg: elenco, roteiro e fotografia. Ainda tem como diretor Richard Dooner, capaz de fazer quase sempre diversões inteligentes (como Superman, Ladyhawke e a série Máquina mortífera). Com muita ação, elenco de crianças, canção marcante dos anos 80 (a cargo de Cindy Lauper) e uma história de mapa do tesouro, remetendo à infância, Os Goonies pode ser facilmente confundido como uma espécie de montanha russa, que hoje poderia vender muitos bonecos. No entanto, a nostalgia dele é mais intrínseca.

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Depois de uma abertura dinâmica, em que os personagens são apresentados ao mesmo tempo em que acontece a perseguição da polícia a um mafioso que está fugindo da cadeia com a ajuda da mãe e do irmão, chegamos à casa de Mikey (Sean Astin), um garoto asmático, irmão de Brandon (Josh Brolin), que não conseguiu tirar sua carteira de motorista. No sótão de sua casa, Mikey encontra um mapa de tesouro, com inscrições em espanhol, do pirata Willy Caolho, junto com sua turma: há um minigênio, Dado (Quan), um gordinho, Bolão (Cohen), e um mentiroso compulsivo, Bocão (Feldman). Eles vivem nas Docas Goon, de Astoria, e, como suas famílias serão em breve despejadas de casa por não pagarem os impostos, eles resolvem procurar o tesouro. Em sua jornada, eles encontram duas meninas, Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton), que entram sem querer na busca e enfrentam uma família de criminosos, justamente aquela que estava sendo perseguida nos primeiros minutos, os Fratelli (tendo a excelente Anne Ramsey como mãe e líder e os filhos interpretados por Robert Davi e Joe Pantoliano). Eles escondem, no porão de uma restaurante abandonado à beira da praia, além de uma máquina para falsificação de dinheiro, um irmão que tentam ignorar, Sloth (John Matuszak), alimentado com pratos de comida indesejáveis. Para essa casa, o grupo de jovens se dirige, sem saber, claro, que ela esconde também uma passagem para o tesouro que procuram, com catacumbas cheias de morcegos e passagens imprevisíveis. Os Fratelli acabam aprisionando Bolão e, depois de um interrogatório, conseguem obter a informação de que é procurado um tesouro.
No entanto, essa jornada também reúne outros componentes: um é, claramente, a despedida da infância, no interesse de Mike por Andy, pretendida pelo irmão, e de Bocão por Stef (este mais subentendido), e as confusões entre os personagens no que dizem respeito a abandonar o local de origem e à despedida da bomba de ar. Não há dúvida de que Donner sucumbe, em muitos momentos, a uma espécie de Indiana Jones e o templo da perdição mais infantojuvenil (mesmo pela presença de Dado, o Short Round) e com picos de 007, pela bugiganga de invenções que carrega. Ainda assim, onde inicia o exagero, ele consegue logo encadear uma diversão, como naquele momento em que eles passam por baixo de um banheiro do clube pertencente às famílias ricas da cidade – as quais também querem despejá-los –, representadas por Troy (Steve Antin), e seu pai, Elgin Perkins (Curtin Hanson), ou embaixo de uma fonte dos desejos, em que as moedas são vistas como moeda de troca para que as casas dos pais não sejam vendidas e, irremediavelmente, ninguém se mude e a infância possa ganhar mais um tempo adiante. Os Fratelli, em determinado momento, passam a se encarregar da parte ao mesmo tempo assustadora. É evidente que em muitos momentos a vilania deles é exagerada, parecendo uma condescendência com o universo infantojuvenil, e que alguns personagens soam um tanto esquemáticos em algumas situações.

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De qualquer modo, Os Goonies consegue estabelecer um padrão de qualidade principalmente porque nenhum dos personagens chega a ser estereótipo. Donner sabe delinear cada um com determinada personalidade e sempre estamos diante de crianças, e não de miniadultos repetitivos, mesmo que cercados de pais um tanto desligados, e a peregrinação de Bocão com a mãe de Mikey (Mary Ellen Trainor) no início do filme, com a empregada que fala apenas espanhol (Lupe Ontiveros), é um exemplo, como caberia bem igualmente num filme de John Hughes.
Também por causa do elenco. Destaque-se que, além de atores conhecidos nos anos 80, como Feldman e Ke Quan, Os Goonies apresentou nomes que acabaram se mantendo, como os de Sean Astin (que faria Sam, em O senhor dos anéis), Brolin (de inúmeros filmes, a exemplo de Onde os fracos não têm vez e Wall Street – O dinheiro nunca dorme) e Plimpton (que estrela a série de TV Raising Hope).
Nesse sentido, como poucos filmes, Os Goonies tem o intuito de retratar uma determinada geração, como Spielberg tinha a sua. Lá estão as nostalgias dos filmes de piratas, monstros e a ação como em uma parque assustador, com catacumbas se abrindo e as crianças fugindo para um lugar onde os pais não representam a referência imediata, e sim a fantasia. É difícil negar o interesse que Os Goonies desperta sobretudo a partir dessas nostalgias, com sua vista para o mar num dia de inverno, árvores se agitando, bicicletas em curvas sinuosas de uma estrada à beira de uma baía, o acolhimento num esconderijo que pode causar também outros direcionamentos para a jornada, os sustos e os enfrentamentos com quem deseja, de algum modo, interromper a infância em curso. Há algo nele que é substancialmente ingênuo e essencial para a compreensão das próprias histórias, reais ou inventadas.
Daí, para Spielberg, e esses filmes esclarecem bem, as aventuras maiores estão concentradas em personagens que moram em cidades distantes ou para as quais ainda não há espaço – como as descobertas detetivescas de Sherlock Holmes. Depois delas, é certo que se abriu um nicho para novas produções, mas dificilmente com a mesma autencidade.

The Goonies, EUA, 1985 Diretor: Richard Donner Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Mary Ellen Trainor, Lupe Ontiveros Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner Roteiro: Chris Columbus Fotografia: Nick McLean Trilha Sonora: Dave Grusin Duração: 115 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / Amblin Entertainment

Cotação 5 estrelas