Sombras da noite (2012)

Por André Dick

Um dos melhores filmes de humor já feitos, Os fantasmas se divertem marca o talento inicial de Tim Burton, que antes havia feito apenas um desenho animado (Frankenweenie), cuja refilmagem em longa-metragem lançará este ano, e um filme infantojuvenil (As grandes aventuras de Pee-wee). Continua sendo seu filme mais autoral, com uma cenografia de quadrinhos, efeitos especiais e maquiagem estilizados. A sua história mostra o fantasma Beetlejuice (Michael Keaton, em seu melhor momento), que ajuda um casal de mortos (Alec Baldwin e Geena Davis) a tirar uma família intelectual, rica e chata, da casa onde moravam, na nova Inglaterra. Ou seja, mesmo mortos continuam a habitá-la. Nessa família intrusa, no entanto, há uma menina depressiva, que faz amizade com eles (Winona Ryder).
É quase um Os caça-fantasmas às avessas. O filme possui várias situações divertidas, com méritos para Keaton, que rouba a cena, e um ritmo de histórias em quadrinhos. A melhor piada talvez seja aquela em que a família e seus convidados são obrigados a dançar calipso. Talvez o roteiro seja superficial, assim como os atores parecem estar em outro filme que não numa comédia (como Davis e Baldwin), mas a direção de arte é impressionante, assim como o figurino de Aggie Rodgers e a trilha de Danny Elfman que dá o tom certo, fazendo dele um dos referenciais dos anos 80.
Tim Burton se depara justamente com Os fantasmas se divertem na comédia de humor negro Sombras da noite, que vem sendo recebida com frieza pelo público e por parte da crítica. A questão que muitas vezes se coloca é que Burton está repetindo demais a parceria com Johnny Depp, com quem já realizou alguns de seus melhores filmes, como, entre outros, Edward, mãos de tesoura (o mais lembrado), Ed Wood, A fantástica fábrica de chocolate, além do melhor, a meu ver: A lenda do cavaleiro sem cabeça (em que o estilo se Burton melhor se funde com a direção de arte de forma completa).
Mas é exatamente Sombras da noite o filme que melhor sintetiza seus elementos, que já víamos em Os fantasmas se divertem: o diretor mostra grande talento em fazer uma comédia que parece sisuda, até determinado momento, quando vemos, na verdade, que ele não está levando nada a sério (talvez a exceção seja Marte ataca!, em que o elenco e a história não parecem conectados). E há poucos atores como Depp, que sustentam um filme com seu talento pessoal. É o que ele faz em boa parte de Sombras da noite, no papel de Barnabas Collins, cuja família veio para da Inglaterra para o Maine, em 1752, onde se tornou a líder no mercado de pesca. Uma empregada, Angelique (Eva Green), é apaixonada por ele, mas seu amor, Josette (Bella Hethcote), acaba se suicidando, sob efeito de um festiço – esta cena é de impressionante resolução. No entanto, ele não sabe que a empregada é uma bruxa, que o transforma em vampiro.
Depois de ficar enterrado num caixão por quase durante 200 anos, uma equipe de construção acaba por desenterrá-lo, em 1972. A cena em que isso acontece é digna de Beetleejuice de Os fantasmas se divertem – e muito bem feita –, resultando, em seguida, na visão de Barnabas do M de McDonalds, cujo significado, para ele, é um só: de Mefistófeles. Logo, ele segue para a casa da família, que vive uma decadência: a matriarca, Elizabeth Collins Stoddard, é vivida por uma ótima (embora subaproveitada) Michelle Pfeiffer; Roger Collins (Johnny Lee Miller), os filhos, Carolyn Stoddard (Chloë Moretz) e David Collins (Gulliver McGrath), o caseiro bêbado, Willie Lomis (Jackie Earle Harley), além de uma psiquiatra da família (Helena Bonham Carter, em uma performance curta, mas marcante) e a nova babá, Victoria (também vivida por Bella Hethcote), que entendemos ser a reencarnação de Josette e tem um passado nebuloso. Barnabas pretende recuperar o império dos Collins – mesmo que a cidade ainda se chame Collinsport –, arruinado por Angelique, nem que para isso precise ingressar no tom dos anos 70 e tentar hipnotizar pescadores que trabalham para a inimiga, que se tornou a líder do mercado de pesca da região (como o feito por Cristopher Lee, em boa participação, num bar que mais parece uma taverna da Londres antiga). A sequência em que a casa está sendo revitalizada é um primor de direção – focalizando Barnabas dormindo em lugares diferentes.
Burton havia, nos últimos anos, feito alguns filmes que se destoavam de sua trajetória, como Peixe grande – embora bastante elogiado – e Alice no país das maravilhas, obras, no entanto, com méritos, sobretudo de direção de arte elaborada e personagens curiosos. Quando ele toma o rumo de filmar os personagens como se fossem integrantes de uma história em quadrinhos – mesmo sabendo que a origem de Sombras da noite é um seriado de televisão admirado por Burton e Depp, que durou entre 1966 e 1971, o qual não vi; no entanto, não é necessário conhecê-lo para se entender o filme –, mostra seu estilo, de um apuro visual e sonoro característico. A reconstituição que ele faz de 1972, quando se passa a história (com a trilha sonora de Black Sabbath, Alice Cooper, que participa do filme, e The Carpenters), com alguns elementos específicos (como o do abajur de lava que lembra um “sangue pulsante” para Barnabas; os discos de T-Rex; cartaz de Iggy Pop; músicas de The Moody Blues), e alguns hippies – no melhor estilo Forrest Gump – é muito bem feita.

No início, quando Barnabas chega à cidade nos anos 70, além do elemento de comédia de Depp, destacada pela música de Danny Elfman, temos o anúncio, num cinema, de Amargo pesadelo, de John Boorman, filme que mostra um grupo que pretende descer um rio é atormentado por pessoas sádicas, sofrendo bastante quando levados para o meio da floresta, e em outro momento Barnabas lê o romance Love Story, que havia se transformado em filme dois anos antes, inclusive indicado ao Oscar. Nada mais anos 70: entre a descoberta da violência do interior dos Estados Unidos e da guerra do Vietnã e do romance adaptado para Hollywood.
É evidente que Burton retrata também sua infância, talvez não estranha como a desta família, entretanto cercada por elementos parecidos (sobretudo musiciais e cinematográficos). Nesse sentido, talvez seja, mais do que Os fantasmas se divertem, seu filme mais autoral. Se é evidente que ele compôs o Batman soturno que hoje dá referência a Cristopher Nolan, Burton não está interessado em heróis, mas em personagens sacrificados, como o de Barnabas, o Willy Wonka, de A fantástica fábrica de chocolate, o Ichabod Crane, de A lenda do cavaleiro sem cabeça, e, claro, o principal de todos: o Edward, mãos de tesoura, além dos outros Bs (Batman e Beetlejuice). A cena em que Barnabas se transforma em vampiro é notável – com uma grande carga de expressionismo –, com sua tristeza sendo aprofundada pelas ondas do mar que batem nas rochas onde se encontra. Nenhum desses personagens têm uma família segura, embora o sonho, de qualquer modo, seja tê-la. Aqui, como em Peixe grande, a figura paterna se desenha como referência para o personagem: ela representa o sonho de Barnabas. No entanto, se é vista, por um lado, de maneira idealizada (o diálogo entre Barnabas e o pai de David, Roger, fala disso), por outro, é vista com desconfiança – pois, em Burton, os personagens muitas vezes têm comportamentos instáveis, desestruturando o andamento da narrativa. A incapacidade de estabelecer definitivamente a união da família de Barnabas já aparecia em Edward, mãos de tesoura, A fantástica fábrica de chocolate e Os fantasmas se divertem, mais próximo desta obra. Burton sabe que ela está lá, porém tem dificuldade de estabelecer relações – costumam ser peças soltas, agindo por conta própria – e não é diferente em Sombras da noite (com a certeza de Burton em haver uma continuação também, o que, dependendo da bilheteria até aqui, pode não acontecer).
Não sabemos até que ponto Barnabas é uma vítima ou se aproveita de ser uma para adotar seus métodos pouco ortodoxos. De qualquer modo, é evidente que sua relação com Angelique – nome obviamente satírico – é estranha e obsessiva. Lamenta-se que Eva Green não seja uma atriz à altura deste embate de interpretação com Depp. Enquanto este tem noção de que está numa comédia que não se leva a sério, mas é discreta em seus propósito, Eva extravasa e fica parecendo um personagem feminino excessivamente rebelde e caricato, a começar pelo figurino (propositadamente vermelho) e pelo comportamento. Enquanto Depp tem a medida exata de cada cena, ela não consegue fazer o mesmo – e, mesmo tendo uma ou outra sequência de qualidade, não consegue, ao final, ser efetiva, fazendo com que Sombras da noite se ressinta de uma vilã (embora certamente, reiteramos, Barnabas não seja um herói) mais consistente.
O diretor Tim Burton vem tentando, ao longo dos anos, recriar algumas das histórias mais interessantes, destinadas a grandes plateias, em Batman, Planeta dos macacos, A fantástica fábrica de chocolate e Alice no país das maravilhas, entretanto é num projeto como Sombras da noite que ele revela, como já referido, seus elementos autorais mais interessantes. Tornou-se raro um diretor que, dentro do seu campo de visão – que, não poderia deixar de ser diferente em seu caso, tem falhas –, consegue trazer sempre novidades e personagens interessantes. Sua recriação de Barnabas Collins entra para a antologia do cinema: uma espécie de Nosferatu que, se deparando com o mundo moderno, consegue extrair cada acorde de terror simplesmente deitando a cabeça sobre o piano. Burton sabe que, como Barnabas, havia uma transição de época nisso tudo, e não se voltaria tão cedo aos jantares em família, mesmo que estranhíssimos, e a uma dança na sala de jantar sob o olhar incomodado dos presentes. É nesta transição que Burton foca em seu Sombras da noite, um filme cujo acabamento (tanto na direção de arte quanto no figurino, ou seja, na criação de uma atmosfera própria) e participação de Depp – e, em certa medida, de Michelle Pfeiffer e Helena Bonham Carter – tornam uma diversão de sua maturidade, do momento em que é preciso olhar para trás e ver o que se realizou antes, num regresso às origens, típico do diretor.

Dark shadows, EUA, 2012 Diretor: Tim Burton Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Michelle Pfeiffer, Chloë Grace Moretz, Eva Green, Jonny Lee Miller, Gulliver McGrath, Jackie Earle Haley, Bella Heathcote, Christopher Lee Produção: Christi Dembrowski, Johnny Depp, David Kennedy, Graham King, Richard D. Zanuck Roteiro: Seth Grahame-Smith Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 113 min.  Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: GK Films / Infinitum Nihil / Warner Bros. Pictures / The Zanuck Company / Dan Curtis Productions / Tim Burton Productions

Cotação 3 estrelas e meia

 

Prometheus (2012)

Por André Dick

Durante alguns anos, depois do sucesso de público e crítica de Os duelistas, Alien e Blade Runner – o terceiro de forma tardia –, Ridley Scott tentou encontrar um novo rumo para sua carreira. Nos anos 80, depois de Blade Runner, realizou filmes que prometiam, mas acabavam se perdendo no visual de videoclipe, como A lenda (ainda assim, uma obra diferenciada), Perigo na noite e Chuva negra. Com a retomada do sucesso em Thelma & Louise – um filme superestimado, de qualquer forma –, engatou uma sequência de filmes recebidos com mais expectativa, mas igualmente não bons, como 1492 e Até o limite da honra, até chegar ao subestimado Gladiador, um dos melhores filmes já realizados sobre a Roma Antiga (que lhe deu o Oscar de melhor filme). Depois de fazer Falcão negro em perigo, com cenas de ação muito bem feitas,  Hannibal (a sequência desagradável de O silêncio dos inocentes), Os vigaristas (mistura entre drama e comédia com Nicolas Cage), encadeou uma espécie de remake de Gladiador, o grandioso Cruzada, e alguns filmes com Russell Crowe: Um bom ano, O gângster, Rede de mentiras e Robin Hood – dos quais os dois primeiros se destacam. Até chegar a este Prometheus, anunciado como um prólogo (ou, como se adotou falar, prequela) de Alien – O 8º passageiro. Este filme, apesar de revolucionário e ter influenciado dezenas de filmes em seguida, surgiu da impossibilidade do roteirista Dan O’Bannon terminar um roteiro para a versão cinematográfica de Duna (que seria também filmado por Ridley Scott e acabou sendo feito por David Lynch), e se consagrou pelo visual diferenciado, pela revelação de Sigourney Weaver e pela inusitada mistura entre ficção científica e terror. Fez tanto sucesso que deu origem a uma franquia – na qual o melhor, a meu ver, era Aliens – O resgate. O que fez Ridley Scott voltar-se a essa ideia novamente talvez tenha a ver com o fato de James Cameron ter feito o universo de Avatar – ter se apropriado de seu Alien original para fazer Aliens  e estar envolvido na origem desta obra.
O fato é que Prometheus é uma das melhores ficções científicas já feitas e se equivale não apenas ao Alien original – embora sua maneira de apresentar a história seja muito diferente –, como a Aliens – O resgate. Scott se recupera de forma notável de filmes anteriores, o que faz imaginar que ele é um diretor que renderia mais num universo fantástico do que num universo histórico (apesar de Gladiador). Ele não tem nenhuma preocupação de exatamente fazer a história se adaptar ao que vem depois, mas sua premissa é mais instigante (daqui em diante, podem haver spoilers indesejáveis). Um casal de pesquisadores, Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), descobre imagens parecidas em alguns lugares pelo mundo, em paredes e cavernas, que parecem indicar um convite de outra civilização, talvez a que traga nossa origem. No início, eles dormem, a bordo da Prometheus – que segue viagem para descobrir a origem dos sinais, e remete ao personagem mitológico que, por ter roubado o fogo dos deuses, foi condenado a um castigo eterno –, sob o comando ao mesmo tempo frio e passivo de Meredith Vickers (Charlize Theron, numa atuação mais consistente do que aquela que apresenta em Branca de Neve e o caçador), enquanto o androide David (Michael Fassbender, fazendo encaixar sua habitual frieza num trunfo de interpretação), que lembra imediatamente David Bowman, de 2001, vê os sonhos de Elizabeth, identificando sua religiosidade, mas tem o intuito de imitar os movimentos de Peter O’Toole, de Lawrence da Arábia, seja no modo de agir (inclusive suas falas), seja no corte de cabelo. Para seu antigo chefe, Peter Weyland (Guy Pearce, irreconhecível), dono da Companhia Weyland, que financia a viagem – rumo à descoberta de nossa criação, e daí a espaçonave não ser de guerrilha, e sim científica –, ele não tem alma, mas talvez a alma de Prometheus seja ele. É, afinal, o personagem que faz, de certo modo, com que tudo aconteça. A ironia e o sarcasmo de Charlie em relação a David é um primor de agressividade humana, tornando-a tão ligeira quanto um jogo de sinuca, ao que se responde com novas doses de vingança. O cientista quer, afinal, brincar de Deus, mas este, também por meio de David, criado pelos humanos (apesar do menosprezo de Charlie), não está satisfeito em querer retribuir.
O que impressiona, em Prometheus, é que situações já vistas em outros filmes da série – como os personagens entrarem em lugares inóspitos – adquirem uma nova dimensão, também apoiadas na direção de arte impressionante de Alex Cameron (baseando-se nos originais de H.R. Giger) e no realismo da espaçonave e dos figurinos (a recuperação dos tripulantes depois da viagem é a mais realista de todos os filmes da série). Ridley Scott parece voltar aos bons tempos de Blade Runner, e os cenários adquirem uma dimensão real. Scott está interessado em comparar os seres que habitam a espaçonave a compartimentos do qual podem ou não sair vivos e de sua religiosidade. Elizabeth carrega uma corrente com cruxifixo, e há uma questão pessoal que não se resolve com o cientificismo, mas ela acredita. Se isso seria demais óbvio a ser discutido, o importante é que não o foi – e, nesse sentido, o roteiro de  Damon Lindelof, um dos que criaram Lost (cuja primeira temporada é especialmente antológica), não é óbvio.

Se a tomada inicial lembra 2001 – Uma odisseia no espaço, seguida por uma cachoeira impressionante, que evoca A árvore da vida, de Terrence Malik, e a busca pela origem lembra aquela de Bowman atrás do monolito negro, Scott está interessado em focalizar o que pode gerar uma monstruosidade capaz de nos destruir. Se os humanos têm a ver com isso, por que não levá-los a uma lua distante (LV-223, um vizinho do LV-426, de Alien e Aliens – O resgate), a fim de que se justifiquem? O androide David é um parente próximo não apenas dos androides dos dois primeiros da série (Ian Holm e Lance Henriksen), mas de Roy Batty, feito por Rutger Hauer, em Blade Runner, à procura de uma explicação divina para a existência, ao mesmo tempo que parece se afastar dela ou mesmo colocá-la em dúvida. Será, afinal, que ele deseja conservar a vida eterna de seu pai? É este pai, o dono da corporação, que lembra Tyrell, o criador dos replicantes de Blade Runner. Pois os deuses – e os homens que se movem para descoberta –, aqui, são colocados em dúvida – mas aparecem a cada instante, na forma de conflitos e tentativa de persuadir o outro a caminhar rumo ao abismo. David é quem dá uma espécie de consistência existencial a Prometheus, e as partes de que participa são as melhores, seja no início, inspecionando os sonhos de Elizabeth, seja quando anda de bicicleta jogando basquete ou caminha de chinelo num ambiente asséptico – o que remete, novamente, ao David Bowman de 2001. Quando coloca um uniforme com capacete, logo é perguntado por que faz aquilo, já que é um androide. Ele responde que é porque foi feito para que não fosse diferenciado dos seres humanos. Ou seja, há uma espécie de consciência para David, disfarçada de desumanidade, e todas as suas ações são completamente mecânicas e calculadas. Ele se difere dos androides feitos por Holm e Henriksen nos dois primeiros filmes da série, pois se aproxima muito mais do homem – e se visualiza que aqueles foram criados como versões avançadas deste – em suas ações inexplicáveis e indefinidas mesmo por quem está, digamos, “acima” dele em hierarquia.
Quando ele infecta o marido de Elizabeth, Charlie, e este tem relações sexuais com ela, parece que sabe estar criando uma nova forma de vida – é isto que entendemos –, colocando-se numa posição de criador. Ainda mais porque deve saber – embora o filme não esclareça – que ela não pode engravidar e, se aparece esperando um ser, é porque há algo de estranho. Do mesmo modo, quando, na câmara da nave alienígena, diante de um holograma gigante, segura o globo terrestre, como se dependesse dele a sobrevivência da humanidade (um sonho que não seria dispensado pelo Roy Batty de Blade Runner). A personagem de Elizabeth, correspondente direta dessa insegurança de David, é bastante próxima da Ellen Ripley de Sigourney Weaver, embora considere que Noomi Rapace não tenha uma primeira hora de filme interessante, fazendo com que seu personagem cresça depois, como o de Sigourney, uma presença magnética desde o primeiro Alien. Mas é fato é que Elizabeth/Ellen tem um parentesco no sofrimento, o qual Scott pretende apresentar. A cena em que ela faz a própria cirurgia, além de impressionante, mostra o paradoxo entre tecnologia e humanidade, sobretudo quando ela sai pela espaçonave tateando as paredes, combalida e com sangue por todo o corpo, contrastando com a brancura e a limpidez do ambiente.
Há muitas cenas que não são esclarecidas porque o filme se presta a ser o primeiro novamente de uma série. Então, os chamados “engenheiros” do universo, com os quais se tenta contato, continuam misteriosos – ainda mais se levarmos em conta o início (numa das cenas mais bem feitas de Prometheus). Não sabemos o que seria, por exemplo, a gosma escura da câmara dos alienígenas. Seria um elemento de criação de novos seres ou o início da destruição e da punição – como cabia ao personagem grego mitológico que dá nome ao filme? Viajar para um lugar longínquo, em busca da explicação, não seria o contrário do encontro com a criação que imaginamos? Para Scott, esses pretensos deuses de Prometheus também querem punir a humanidade, mas não se sabe o motivo. E o personagem do androide, David, volta a colocar em dúvida qualquer resposta, pois não há dúvida de que ele não gostaria que existisse uma força superior, pois, antes de tudo, deseja participar da criação.
Embora não seja possível revelar todos os detalhes, mas o certo é que a ligação entre Elizabeth,  Charlie, David e a comandante da espaçonave com outro personagem – para o qual se guarda uma surpresa –  é muito interessante, colocando-se a questão, presente em todo o filme, de criador e criado, disponibilidade ou não para aceitar os passos de quem nos guia. Ou seja, alguns personagens se ressentem de seus criadores, outros não querem saber deles. Claro que Scott derrapa em alguns momentos, pois a trama está ligada consistentemente à ação, o que faz com que algumas partes destoem do restante, mas na maior parte do tempo mostra por que é um dos maiores cineastas da atualidade. Por isso, Prometheus é uma ficção científica de grande consistência, que merece ser vista com o melhor olhar possível. E não se deve esquecer que Blade Runner, em sua estreia, despertou mais aversão do que admiração – hoje, falarmos que ele é um clássico parece simples – e Prometheus, mesmo com falhas no roteiro (permitidas em uma ficção científica), se alça a um patamar de filme a ser ainda explorado e reconhecido.

Prometheus, EUA, 2012 Diretor: Ridley Scott Elenco: Charlize Theron, Michael Fassbender, Noomi Rapace, Patrick Wilson, Idris Elba, Guy Pearce, Rafe Spall, Logan Marshall-Green, Kate Dickie, Sean Harris, Emun Elliott, Vladimir “Furdo” Furdik Roteiro: John Spaihts e Damon Lindelof Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott, Tony Scott Fotografia: Dariusz Wolski Trilha sonora: Marc Streitenfeld Duração: 126 min. Estúdio: Dune Entertainment / Scott Free Productions / Brandywine Productions Estúdio: Fox Film.

Cotação 4 estrelas e meia

 

Branca de Neve e o caçador (2012)

Por André Dick

Este filme baseado no conhecido conto de fadas dos irmãos Grimm tem o mérito de não ser desigual, ou seja, a narrativa nunca se desloca para um lugar não esperado. Daí, em parte, o filme ser interessante e previsível. Desde crianças, sabemos o que cerca a história de Branca de Neve: a bruxa má, a maçã envenenada, um caçador e os sete anões. O diretor estreante Ruppert Sanders se apega a essa estrutura clássica, mas lança contra a visão idílica dos estúdios Disney um contexto medieval bastante pesado – e em muitos momentos soturno. Ou seja, os personagens do mal querem provar que realmente são do mal (a começar pela bruxa, interpretada por Charlize Theron, e seu irmão, feito pelo ótimo Sam Spruell), indo contra a vida a princípio cômoda de Branca de Neve (Kristen Stewart, em bom momento, como aquele que vimos em Na natureza selvagem e The runaways), filha do rei que será deposto exatamente pela bruxa.
O início, com uma cena de batalha que emula a primeira de Gladiador, tem um ritmo bastante rápido – e o filme tem uma agilidade notável até em torno de 30 minutos, quando a personagem chega à Floresta Negra, onde quase ninguém entra. Neste momento, Sanders adota uma opulência visual que remete aos melhores momentos de O senhor dos anéis – série a que o filme deve bastante, em seu visual e mesmo tentativas de humor – e Willow – filme semiesquecido com produção de George Lucas. Daí, quando o caçador vem a mando da bruxa tentar prendê-la, o filme se alça a uma tentativa de criar um enlace entre os dois, no que o diretor é bem-sucedido em parte: o caçador, feito por Chris Hemsworth (que faz o Thor), tem um contraponto mais leve nessa fantasia, mas não combina com a Branca de Neve cândida, que esteve durante boa parte da vida presa numa torre. Tirando esse detalhe, o filme encadeia boas sequências que resultam no encontro com os oito anões (a princípio), entre os quais está Bob Hoskins (em bom momento), quando todos vão para um ambiente que mescla O senhor dos anéis e mesmo Labirinto (o filme pop para crianças dos anos 80, com David Bowie) e Alice no país das maravilhas (afinal, Burton é um mestre na direção de arte). Sanders presta reverência a esses contos de fadas, e é o único momento em que o filme caminha para um ar meio inocente e ingênuo. Claro que a bruxa má quer acabar com esse esteio de filme, e Charlize está preocupada em mostrar que é uma atriz que mereceu o Oscar (por Monster). Mas ela está exagerada e caricata – quase fazendo o filme se perder completamente nos momentos em que está em cena. Suas caretas de desprezo e de contrariedade não chegam a colaborar no andamento da narrativa. E um par menos pretensioso – Kristen e Chris Hemsworth –, além dos atores que fazem os anões, consegue manter o ritmo que ia se perdendo, pois não quer afirmar sua presença.
Boa parte do êxito de Branca de Neve e o caçador reside neste contraponto e na belíssima fotografia de Greig Fraser – emulando a todo instante O senhor dos anéis, porém com cenas de batalha eficazmente detalhadas (sem mostrar, por outro lado, muita violência), que devem, como já se disse, a Gladiador – e mesmo a Cruzada e Robin Hood, todos filmes de Ridley Scott (mais lentos do que este, embora com imagens parecidas, sobretudo em certa fotografia de florestas e praias). Para um diretor estreante e para uma história que não renderia um filme tão efetivamente bem conduzido, Branca de Neve e o caçador fica na linha de boas obras de fantasia já feitas – o que é um mérito para uma produção que poderia não ser levada a sério.

Snow White and the Huntsman, EUA, 2012 Diretor: Rupert Sanders Elenco: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Ian McShane, Toby Jones, Nick Frost, Ray Winstone, Sam Claflin, Sam Spruell, Bob Hoskins, Eddie Marsann, Lily Cole Produção: Sam Mercer, Palak Patel, Joe Roth Roteiro: Hossein Amini, Evan Daugherty Fotografia: Greig Fraser Duração: 129 min.  Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Roth Films / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

Série Alien (1979, 1986, 1992, 1997)

Por André Dick

Dirigido por Ridley Scott – que vinha de Os duelistas (1977) – Alien – o 8º passageiro marcou o final dos anos 1970 como uma das ficções científicas mais originais até então feitas, com elementos de terror e visual, em parte, de videoclipe, pois o diretor combina com este universo. Nesse sentido, o filme tem excelentes achados, a revelação de Sigourney Weaver, como Ellen Ripley, o desenho de produção raríssimo (de H.R. Giger) e bons efeitos especiais, que ganharam o Oscar. O problema, em certa parte, está no roteiro (não que o das continuações seja excelente, mas aqui parece haver uma previsibilidade): todos os personagens parecem morrer facilmente demais, por causa de uma criatura que fica grudada no capacete de um dos tripulantes de um cargueiro de  minério espacial, depois de ele descer num planeta estranho. Seu sucesso se deve a cenas de terror (como o monstro saindo da pessoa que torna hospedeira) e ao monstro, que realmente assusta.  Além disso, o elenco coadjuvante (com John Hurt, Ian Holm e Harry Dean Stanton) é de muita qualidade. Em Prometheus, a ser lançado ainda este mês, apesar de isso não ser exposto de maneira excessiva, Scott faz um prólogo dessa história.
Ficção científica de James Cameron com mais sustos do que sua primeira parte, Aliens – O resgate traz de volta Ripley, que passa mais de meio século no espaço sideral, navegando, e é recolhida e tratada, inclusive para seus pesadelos com o alienígena que matou todos os tripulantes de sua espaçonave. No entanto, o planeta de origem da criatura, nesse meio tempo entre o primeiro e o segundo filme, foi colonizado e teve seu sinal interrompido. É motivo, então, para ela voltar lá com vários fuzileiros navais, a fim de ver o que aconteceu com os moradores, e para James Cameron revelar todo seu talento com efeitos especiais e direção de arte elaborada e assustadora (o que vemos em Avatar, por exemplo), construída nos estúdios Pinewood, da Inglaterra. Ripley perdeu sua filha e encontra numa das sobreviventes do planeta, Newt (Carrie Henn) uma filha adotiva. Isso até o momento em que precisar enfrentar a mãe de todos os aliens que infestaram a estação do planeta. Os fuzileiros são caricatos (há uma durona, por exemplo, e um valente que, no primeiro ataque dos monstros, quer fugir), sempre coordenados por um burocrata, no entanto isso não incomoda, pois Cameron quer mostrar mesmo o estilo grosseiro e cômico deles. Um deles é valente, mas depois do ataque dos aliens se torna medroso (Bill Paxton), fazendo um contraponto com o general de Avatar. Na verdade, Cameron enfoca o sentido materno de Ripley, que não aparecia no primeiro, pois não sabíamos que ela já tinha uma filha. E a maneira como ele entrelaça a perda com o encontro de Newt é muito bem delineado. Por muitos considerado melhor do que original, parece-me que é um filme mais completo, no sentido de que cria uma atmosfera de maior suspense ainda – levando em conta que já não temos a surpresa do original. Como diversão, Aliens – O resgate é uma das maiores da década de 1980.
Por sua vez, Alien 3 é dirigido pelo talentoso estreante David Fincher (que faria depois, entre outros, Seven, O curioso caso de Benjamin Button e A rede social), que havia feito até então clipes de Madonna, Billy Idol, entre outros. Ele pode ter salvo uma ficção científica com muitos problemas de produção (estouro de orçamento, abandono de dois diretores – Vincent Ward e Renny Harlin –, muitos roteiros, reclamações de Sigourney, que não queria voltar à série). No papel da tenente Ellen Ripley, Sigourney transforma-se, aqui, numa espécie de fuzileira naval, de cabeça raspada, roupa maltrapilha e cara cheia de machucados. Ela volta a enfrentar um alien, muito mais veloz, num planeta-prisão, habitado por homens que seguem uma religião medieval e foram aprisionados ali por serem loucos ou psicopatas. O diretor soube criar uma atmosfera vazia e com clima claustrofóbico, tal como o primeiro da trilogia, mas com o suspense do segundo. Para isso, contou com a colaboração do desenhista de produção Norman Reynolds e do criador dos aliens, o suíço H.R. Giger. A ação parece se localizar justamente na Idade Média, mesmo sabendo que estamos no futuro. O fator que diferencia este Alien dos outros é a temática existencial, assinada por Vincent Ward (diretor de Navigator). Os personagens nunca agem de maneira previsível, principalmente, sobretudo os de Dance (o médico) e Dutton (o braço direito do líder da religião) e, claro, de Sigourney, emprestando um lado verossímil a um personagem que combate um monstro quase sem armas – ao contrário do segundo filme, ou seja, aproximando-se mais do original. Tem muita ação, muitos movimentos de câmera (para mostrar as perseguições), excelente maquiagem, uma boa dose de humor e apenas um problema: a curta duração. Considerado inferior aos demais, me parece quase tão bom quanto o segundo.

No entanto, a continuação da série foi muito fraca: Alien – A ressurreição. Além de trazer de volta a tenente Ellen Ripley, interpretada por Sigourney Weaver, os produtores da Fox chamaram o francês  Jean-Pierre Jeunet para o cargo de diretor do novo Alien.
Se ele era elogiado por Delicatessen e Ladrão de sonhos, requintes de apuro visual – exigência para ser diretor da série, a julgar por Scott, Cameron e Fincher –, e viria a dirigir a obra-prima O fabuloso destino de Amélie Poulain, em sua estreia de Hollywood não se deu bem. Quase nada se salva. Fora os efeitos especiais, mais profissionais, e dos cenários fantásticos, superiores a qualquer ficção científica atual, Alien – a ressurreição é totalmente dispensável. A história é apenas motivo para mostrar um festival de mortes e violência com bastante exagero. Carrega demais na atmosfera, um híbrido entre gosma e pesadelo, exibindo monstros estraçalhando humanos – o que se via apenas de forma discreta, sobretudo no terceiro e, infelizmente, não o último capítulo –, seres mutantes (que rende uma das cenas mais asquerosas do filme), uma nova rainha alien, que dá a luz a um rebento demoníaco, além de uma porção de cenas sem nenhuma importância.
A partida da história já é absurda: os cientistas do filme anterior conseguem clonar a tenente Ripley, conseguindo extrair dela a mesma rainha alien, para reprodução. Enquanto a clone tem uma força incomum, proporcional ao do alien, os monstros da nova ninhada se rebelam contra os cientistas que os pesquisam numa nave, onde também se encontra um grupo de mercenários especiais, cujo destino é a morte e onde se inclui uma moça que esconde um segredo (Winona Ryder, em mau momento).
É triste assistir a um péssimo desfecho da série, com Sigourney totalmente sem roteiro e a vontade fracassada do diretor Jeunet em fazer o público se divertir com um número impressionante de mortos – o que é uma pena, pois a fotografia, os efeitos especiais e os cenários do novo filme são irrepreensíveis, assim como os outros filmes de Jeunet. Veremos se Prometheus irá recuperar a qualidade da trilogia inicial.

Alien, EUA, 1979 Diretor: Ridley Scott Elenco: Tom Skerritt, Sigourney Weaver, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm, Yaphet Kotto, Bolaji Badejo, Helen Horton Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Roteiro: Dan O’Bannon Fotografia: Derek Vanlint Trilha Sonora: Jerry Goldsmith, Lionel Newman Duração: 124 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 3 estrelas e meia

Aliens, EUA/Reino Unido, 1986 Diretor: James Cameron Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Paul Reiser, Lance Henriksen, Bill Paxton, William Hope, Jenette Goldstein, Al Matthews. Produção: Gale Anne Hurd Roteiro: James Cameron, David Giler, Walter Hill, Dan O’Bannon, Ronald Shusett Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: James Horner Duração: 137 min. (Versão estendida: 154 min). Distribuidora: Não definida Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation / Brandywine Productions / SLM Production Group

Cotação 4 estrelas e meia

Alien 3, EUA/Inglaterra, 1992 Diretor: David Fincher Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Brian Glover, Ralph Brown, Danny Webb, Christopher John Fields. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Roteiro: Vincent Ward, David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson Fotografia: Alex Thomson Trilha Sonora: Elliot Goldenthal Duração: 114 min. (Versão estendida: 135 min.) Distribuidora: Não definida Estúdio: Brandywine Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 4 estrelas

Alien: resurrection, EUA, 1997 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman, Gary Dourdan, Michael Wincott Produção: Bill Badalato, Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: John Frizzell Duração: 109 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Brandywine Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

1 estrela e  meia