Ford vs Ferrari (2019)

Por André Dick

De forma inesperada, há poucos filmes de corrida no cinema, pelo menos marcantes. Nos anos 1960, tivemos o maior clássico do gênero, Grand Prix, vencedor de três Oscars, uma notável obra sobre uma temporada de F-1. Ainda nesta década, três peças com humor também usavam elementos de corrida: A corrida do século, obra-prima de Blake Edwards, Deu a louca no mundo e Se meu fusca falasse. Nos anos 90, a peça exemplar do gênero, embora não tão interessante, foi Dias de trovão, na primeira parceria de Tom Cruise e Nicole Kidman, além da presença de Robert Duvall. Em 2013, Ron Howard lançou seu Rush, que tratava da amizade dos pilotos Niki Lauda e Ethan Hunt. E não se pode esquecer da animada série Carros, principalmente do seu terceiro e subestimado episódio, o que melhor se enquadra nesse universo automobilístico, e de Speed Racer, das irmãs Wachowski, capturando um universo fantástico.

Em 1963, a Ford, sob o comando de a a Henry Ford II (Tracy Letts), incomodado com o fato de não ter conseguido comprar a Ferrari do experiente Enzo (Remo Girone), depois de ser aconselhado por Lea Iacocca (Jon Bernthal), deseja um carro capaz de disputar corridas com a companhia e por isso ele contrata Carroll Shelby (Matt Damon), um ex-piloto. Este, por sua vez, chama Ken Miles (Christian Bale), casado com Mollie (Caitriona Balfe)  e pai de Peter (Noah Jupe), um piloto e mecânico inglês para aperfeiçoar o modelo de carro para a Ford. Ambos testam o Ford GT40 Mk no Aeroporto Internacional de Los Angeles, rendendo algumas das sequências mais emocionantes. No entanto, evitando a figura de Miles, a Ford convoca outros pilotos para competirem no Le Mans de 1964. Em 1966, Leo Beebe (Josh Lucas) se torna o responsável pelo departamento de corrida e pretende seguir o programa novamente sem Miles. Porém, Shelby leva Heny II para um teste no carro que está sendo preparado.
Este é o mote principal para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características no seu estimado Logan que ele busca em Mad Max, com sua crueza na abordagem nas cenas de carro, que ele reapresenta aqui, com mais talento ainda. Ford vs Ferrari, como Rush e Grand Prix, apresenta sequências de corrida absolutamente fantásticas, com uma transição impecável e edição de Michael McCusker e Andrew Buckland no seu estado máximo de competência.

De qualquer modo, o padrão técnico não sera o mesmo não fosse uma conjunção da fotografia luminosa de Phedon Papamichael, colaborador habitual tanto de Mangold quanto de Alexander Payne – fazendo o filme todo parecer rodado durante uma manhã, exceção feita a algumas cenas – e da parceria entre os personagens de Bale e Damon. Se o segundo usa seu estilo habitual, Bale novamente consegue extrair emoção de um personagem a princípio previsível. Com uma boa interação com os personagens da mulher (Caitriona Balfe faz a voz de Tavra na ótima série O cristal encantado) e do filho (Jupe já mostrou talento em Suburbicon e Um lugar silencioso), ele explora um espaço capaz de tornar Ford vs Ferrari não numa obra sobre a indústria e sobre a competição e sim sobre o otimismo de superar o limite, sem que isso determina o caráter do indivíduo ou seus ganhos pessoais e sim a imaginação que pode determinar vitórias no futuro.
Mangold mostra mais uma vez seu talento incontestável para extrair ótimas atuações de seu elenco: Sylvester Stallone e Robert De Niro se destacaram especialmente em Cop Land – A cidade dos tiras; Angelina Jolie recebeu o Oscar de atriz coadjuvante por Garota, interrompida; Joaquin Phoenix e Resee Whiterspoon brilharam em Johnny & June (Reese recebeu o Oscar de melhor atriz por ele); Tom Cruise e Cameron Diaz estabeleceram ótima parceria em Encontro explosivo; e Hugh Jackman talvez tenha tido sua melhor atuação em Logan.

Bale é mais rápido do que todo o elenco e consegue extrair mais do que o bom roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller oferece, por sua agilidade em acrescentar camadas ao seu personagem onde elas, se o espectador prestar atenção, não existem. Ainda, recuperando a atmosfera do final dos anos 60, Mangold parece fazer uma espécie de Era uma vez em… Hollywood no universo das corridas de automóveis. Alguns momentos lembram o filme de Tarantino, talvez por se basearem em obras parecidas daquela época e são bastante nostálgicas, imprimindo certa ingenuidade no comportamento de alguns personagens. A diferença talvez seja que Ford vs Ferrari, muito por causa do vilão feito por Lucas (que reprisa seu papel em Hulk) se aproxima mais do conceito de blockbuster, usando alguns lugares-comuns para comover o espectador, o que não o afasta, de nenhum modo, do seu objetivo. Sua melhor qualidade é também o lugar-comum: os 152 minutos de filme passam voando.

Ford v Ferrari, EUA, 2019 Diretor: James Mangold Elenco: Matt Damon, Christian Bale, Caitriona Balfe, Noah Jupe, Josh Lucas, Tracy Letts, Remo Girone, Jon Bernthal Roteiro: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, Jason Keller Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Marco Beltrami e Buck Sanders Produção: Peter Chernin, Jenno Topping, James Mangold Duração: 152 min. Estúdio: Chernin Entertainment, TSG Entertainment, Turnpike Films Distribuidora: 20th Century Fox

Vice (2018)

Por André Dick

Em 2015, ao oferecer um movimento ininterrupto, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas, A grande aposta acabava apresentando uma dissolução interessante de gêneros. Além disso, tinha um elenco estelar em grande forma (Ryan Gosling, Brad Pitt, Christian Bale e Steve Carell, entre outros), apesar de alguns nomes não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro dos Estados Unidos em 2008 e suas consequências eram mais importantes para o espectador ter consciência sobre o tema. Seu diretor Adam McKay, mais conhecido por sua parceria com Will Ferrell em comédias, tornava esse assunto complexo e delicado numa bateria de imagens que pareciam mesclar ficção e documentário com a mesma intensidade, apoiado também em Margin Call, de alguns anos antes. Trata-se de um caminho muito difícil e que descontenta, de certo modo, ao público que aguarda mais “fatos reais” e aquele que aguarda mais “ficção”; é uma dosagem complicada para se atingir.

Em Vice, chamado antes da estreia de Backseat, o foco passa a ser a política norte-americana a partir principalmente de meados da década de 1960, com McKay lançando as luzes sobre a figura de Dick Cheney. Ele foi o vice-presidente dos Estados Unidos nas duas gestões de George W. Bush, e McKay quer mostrar seu início de trajetória no Wyoming, quando passou a namorar Lynne (Amy Adams). Depois de conhecer Donald Rumsfeld (Steve Carell), Cheney se incorporou aos republicanos. Como em A grande aposta, a grande virtude de Vice é sua montagem frenética, fazendo com que o espectador não perceba direito a passagem de tempo. No entanto, aqui, por mostrar uma figura política de destaque por várias décadas, parece que McKay procura abraçar mais do que pode.
Ao construir um panorama de Cheney nos bastidores, sua chegada à Casa Branca ainda na gestão de Nixon, depois sua importância nos bastidores nos governos de Reagan e Bush pai, por exemplo, McKay quer mostrar sua ação entre 2001 e 2009, quando esteve por trás da política de tortura contra presos em Guantánamo, principalmente terroristas. Porém, McKay se situa muito na superfície, mesmo que tenha propositadamente um sentido documental. Ou seja, o personagem de Cheney é visto com certo humor, apoiado na atuação de Christian Bale, com contundência, no entanto não são passados dados suficientes desta figura para que procuremos analisar as informações dispostas ou que alguns espectadores já tem previamente.

É curioso, nessa linha, que Cheney passe de uma espécie de ingênuo beberrão nos anos 60 para alguém capaz de influenciar e ditar estratégias para os presidentes. O problema de filmes que criticam uma determinada figura é saber exatamente como seguir esse rumo sem parecer exagerado. Vice não quer evitar o exagero, no entanto ele se apoia demasiadamente na ideia de que Cheney era apenas um desequilibrado: ele, ao fazer isso, evita analisar exatamente como foi proporcionado espaço a esse desequilíbrio e os motivos, mesmo que não explicáveis. Usando a voz que deu conhecimento a sua versão de Batman, Bale se esconde por trás de uma pesada maquiagem (aliás, impecável) e com maneirismos na maneira de falar, tentando copiar Cheney, que podem ser vistos como perfeitos, não incorressem não raramente num overacting bastante cansativo com o passar do tempo. Esse, contudo, não é o problema: Vice não consegue reunir as boas atuações de Adams e Carell, além de Rockwell, num conjunto que ressoe para o espectador. Eles oferecem bons momentos, mas estão ligeiramente dispersos na narrativa. Como não se trata exatamente de um documentário, não basta apresentar imagens soltas deles, como fazia Michael Moore em Fahrenheit 11/9, e sim buscar uma estrutura narrativa.

McKay poderia ter tornado Vice num grande filme, assim como a fotografia de Greig Frasier, de A hora mais escura, é notável, melhor característica da narrativa. Sua tentativa de expandir o estilo de Oliver Stone dos anos 90, mesclando imagens e sobrepondo estilos, além de trechos de telejornais (em que Naomi Watts é a apresentadora, numa participação que lembra a de Margot Robbie em A grande aposta), como víamos em obras como JFK, Um domingo qualquer e Reviravolta, além de Nixon, é claro e muitas vezes efetivo, fazendo de sua peça uma espécie de reunião de camadas sonoras e visuais. Imagine-se, portanto, o que Stone faria com esse material no melhor momento de sua trajetória. Também há uma certa influência na movimentação de câmera de David O. Russell, aquele especificamente de Trapaça. Ainda assim, quando ele precisa mostrar um certo aprofundamento na composição da narrativa, não consegue inserir do melhor modo a figura do personagem de Jesse Plemmons, por exemplo, e acaba por perder o fio da meada. Isso, no entanto, não tira de seu filme um certo atrativo de ambientação (poucas vezes a Casa Branca teve um design de produção tão realista no cinema), assim como ele mostra a política com um aspecto de noite contínua, em que personagens sobem e descem de helicópteros para decidir o que o povo deve, enfim, seguir. Talvez por lidar com temas polêmicas, McKay prefira brincar mais com uma cena de créditos antes do seu momento do que tratar de seus personagens, ainda vivos e que podem muito bem processá-lo por qualquer ideia mais densa, digamos assim. Nesse sentido, o diretor prefere planar sobre os assuntos, mantendo-se a distância, sobretudo quando adentra a Guerra do Iraque, e fazendo dessa o seu modo de criar um “ataque”. Na verdade, porém, McKay não ataca e se resguarda por trás de uma visão de que o establishment norte-americano está a serviço de pessoas incapazes para seus postos, contudo sem querer trabalhar exatamente os motivos, o que apontaria entender seu público (e este inclui mesmo aqueles que não concordam com sua visão sobre os fatos). Quando a resposta parece evidente, apenas parece: ele quer, antes de tudo, emular Stone e David O. Russell e ser indicado ao Oscar.

Vice, EUA, 2018 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Tyler Perry, Alison Pill, Lily Rabe, Jesse Plemons Roteiro: Adam McKay Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Kevin J. Messick, Will Ferrell, Adam McKay Duração: 132 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Gary Sanchez Productions Distribuidora: Annapurna Pictures

Mogli – Entre dois mundos (2018)

Por André Dick

Em 2016, a Walt Disney lançou o live-action de Mogli – O menino lobo, cuja adaptação para o cinema mais conhecida era a animação de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman. que transformou a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal. Foi a caixa mágica que se esperava: depois de se aproximar do 1 bilhão nas bilheterias, o estúdio planejou inúmeros live-actions para os próximos anos.
Ao contrário do filme de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de que estávamos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim e Avatar. Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta, tendo merecido o Oscar de efeitos visuais.

Era muito cedo para uma novo olhar sobre a história, mas aqui está ela: Mogli – Entre dois mundos foi produzido pela Warner Bros. Diante da versão da Disney e o risco de não conseguir uma boa bilheteria, quem o lança diretamente em streaming é a Netflix. O curioso é que ele foi rodado em 2015 e seu primeiro lançamento se daria exatamente no ano em que foi liberado o filme de Favreau, sendo adiado por motivos óbvios. Enquanto a obra da Warner começou a ser discutida em 2012 (tendo como possível diretor, entre outros, Iñárritu), o anúncio de que a Disney faria uma nova adaptação foi oficializado em 2013, então não se sabe o que, nos bastidores, uma influenciou a outra. Estamos diante, aqui, ao que parece, de um estúdio ter trabalhado mais rapidamente do que o outro para lançar antes.
A história mostra Mogli (Rohan Chand) sendo inicialmente salvo por Bagheera (Christian Bale) – uma pantera –, enquanto seus pais são mortos por uma fera, quando é levado a uma matilha de lobos, na qual é adotado por Nisha (Naomie Harris), Vihaan (Eddie Marsan) e o chefe Akela (Peter Mullan). Ele vive ao lado de seus irmãos lobos e do amigo Bhoot (Louis Ashbourne Serkis) quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Benedict Cumberbatch), auxiliado pela hiena Tabaqui (Tom Hollander). Já o urso Baloo (com voz do próprio Serkis) tem um papel diferente nesta versão: ele ensina a matilha em técnicas de caça e corrida pela floresta. Serkis, ao contrário de Favreau e Reitherman, não lida tanto com o humor.

Esta visão de Andy Serkis, conhecido principalmente pela desenvoltura como ator na captura de imagens de personagens como Gollum (O senhor dos anéis e O hobbit) e César (na recente trilogia do Planeta dos macacos), trabalha mais num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, como a cobra Kaa (Cate Blanchett). A adaptação de Serkis também remete a algumas passagens do Apocalypto, de Mel Gibson. A violência é acentuada: animais são devorados e os machucados do pequeno herói se mostram presentes durante toda a metragem.
A sequência em que o menino precisava escapar de um determinado confronto e se via no meio de um estouro de búfalos da obra de Favreau lembrava um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005), e Serkis, que trabalhou na versão de Peter Jackson dando movimentos ao gorila gigante, repete algumas linhas do cineasta que praticamente o consagrou, com o Gollum, também colocando o personagem perto de desfiladeiros. A hiena lembra exatamente o Gollum de O senhor dos anéis, enquanto a cena com os macacos (engraçados nas versões anteriores) evocam os Orcs, assim como os melhores momentos da versão de Serkis incluem os elefantes – e se destaca mais a violência contra esse animal, quando Mogli entra em contato com os humanos, principalmente John Lockwood (Matthew Rhys), ecoando Nas montanhas dos gorilas, dos anos 80. Por sua vez, Messua (Freida Pinto) representa a maternidade que Mogli não teve e os cantos dos indianos, assim como certo design de produção, remetem a Indiana Jones e o templo da perdição e a As aventuras de Pi.

Não se sabe se por causa da adaptação de Favreau Serkis divide a sua obra em dois atos: a primeira passada numa selva tão imaginária e espetacular quanto a da versão de 2016 e a outra passada numa tribo de indianos. E, nisso, é lamentável que o filme de Serkis, com efeitos visuais realmente excelentes e uma bela fotografia de Michael Seresin (da série Planeta dos macacos), acabe sendo tomado em pontos comparativos tão determinados com o de Favreau, mas a questão é que a Warner parece ter lamentavelmente se atrasado na confecção de sua ideia – e seria este o filme que se destacaria – e, mesmo talvez ela sendo original, aparenta ser uma cópia principalmente no plano visual, com exceção de certa temática sobre a identidade do personagem central mais adulta e cenas mais violentas. Isso a prejudica em parte, no entanto se o espectador der uma oportunidade para uma atuação muito boa de Rohan Chand, no papel central (melhor do que Neel Sethi, da obra da Disney) e para o trabalho de vozes acertado de todo o elenco, além da homenagem ao universo de Kipling, terá uma boa experiência.

Mowgli – Legend of the jungle, EUA/ING, 2018 Diretor: Andy Serkis Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Naomie Harris, Andy Serkis, Matthew Rhys, Freida Pinto, Rohan Chand Roteiro: Callie Kloves Fotografia: Michael Seresin Trilha Sonora: Nitin Sawhney Produção: Steve Kloves, Jonathan Cavendish, David Barron Duração: 104 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, The Imaginarium Distribuidora: Netflix

Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Por André Dick

A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado competência em Amnésia e em Insônia, mas passou a ser visto como cineasta mais popular por meio de Batman begins. Nele, o super-herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (Liam Neeson), que pretende dizimar a civilização decadente com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme.

Ela quer prender os integrantes do crime organizado de Gotham, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman) e a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard, em tom crescente e efetivo). Ou seja, Nolan tem uma clara opção em situar o personagem sob uma luz mais realista.

De qualquer modo, Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan desenha seus personagens de maneira equivalente com seus objetivos. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman, é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher. Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é cuidadosa em todos os seus quesitos.
O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação visual do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Numa nova sessão, de qualquer modo, é uma obra que se encontra cada vez mais contemporânea, além de influência direta na maioria dos filmes adaptados de quadrinhos. É visível a influência de Nolan do cineasta Michael Mann, principalmente aquele de Fogo contra fogo e Miami Vice, de alguns anos antes. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton, com acentos dramáticos funcionais. O não emprego de humor no personagem principal, um super-herói amargurado, talvez deixe a narrativa mais pesada, e isso se reproduz no clima proporcionado pela fotografia belíssima de Wally Pfister, diferenciando-se de suas versões anteriores, mesmo daquela de Burton. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação: os acontecimentos do início do século XXI estão subentendido pelo roteiro. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Heath Ledger, que recebeu um Oscar póstumo merecido de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos, tendo à frente Frank Miller, e decisivamente psicopata. O Coringa de Jack Nicholson no Batman de Burton era tão desequilibrado quanto, mas com nuances mais atenuadas e um humor corrosivo às vezes de tom infantojuvenil. Estamos diante de um vilão que coloca não apenas Batman em xeque, como todo o sistema (policial, jurídico) da cidade. Não se pode acreditar em mais ninguém; tudo está sob suspeita. A vida de Wayne se sente vazia, tanto quanto a de Dent em busca de correção.

Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador quase sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o a trilha sonora tensa de Howard e Zimmer quase não se ausenta, sendo interrompida apenas num ato final um pouco mais expositivo do que o restante.
Algumas das peças cinematográficas de Nolan têm mais de um final, e este tem pelo menos três, no entanto quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. Seu Batman é um super-herói endurecido pela realidade de Gotham, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries, sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa. Há nessas sequências, também, uma referência à tortura de terroristas, bem enfocada em A hora mais escura, alguns anos depois, por Kathryn Bigelow. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Porém, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. O dilema aqui ultrapassa a tendência romântica do super-herói e chega a um ponto em que não consegue mais controlar sua tendência de buscar a todo custo coibir que o crime tome conte de sua cidade.

Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que ateia fogo a uma pilha gigantesca de dinheiro, com o empenho apenas de destruir. Por exemplo, a cena do hospital é grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de uma ficção, e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado, como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros. São momentos em que o gênero de filme de super-heróis se mescla ao thriller urbano. Ao contrário de Batman begins, que preferia mostrar becos enfumaçados e muita chuva, O cavaleiro das trevas prefere a simetria de arranha-céus e esconderijos tecnológicos, além de uma noite asséptica, com grandes avenidas vazias.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred ou o cientista Lucius Fox. Há várias obras coladas nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que toma como fundo a transformação da sociedade, seja com sua horda de gângsteres terroristas, seja com um tom até mesmo otimista diante de tudo. Nolan também está interessado em Batman como alguém que vigia a todos por meio de celulares, antecipando uma era moderna, e constantemente perturbado por um passado que não consegue resolver. Talvez seja ainda aquele filme de super-heróis que conseguiu estabelecer um vínculo direto com a realidade e mesmo por isso fez tamanho sucesso. Seu roteiro responde por vários pontos, inclusive pelo talento de Nolan em transformar o que seria menos respeitoso em algo com certo tamanho irrestrito.

The dark knight, EUA/Reino Unido, 2008 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Nestor Carbonell, Melinda McGraw, William Fichtner, Nathan Gamble Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: James Newton Howard, Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas, Lorne Orleans Duração: 152 min. Estúdio: Legendary Pictures, Syncopy Films, DC Comics Estúdio: Warner Bros. Pictures

Cavaleiro de copas (2015)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil se separar quem é admirador de Terrence Malick e por isso gosta de seus filmes de quem se afasta totalmente deles para tentar examinar cada obra sua como uma peça única. Parece ser esta a questão: nenhum filme de Malick responde por si só. Ele é como se fosse uma nova peça que explicasse melhor escolhas dos filmes anteriores, sobretudo A árvore da vida e Amor pleno, com uma autoconsciência dispersa. Em Cavaleiro de copas, que foi, de forma surpreendente, lançado pela Netflix, sem passar pelos cinemas brasileiros (o que mostra o estado atual de coisas, em que comédias sem valor estreiam com divulgações especiais), ele mostra o universo de Hollywood por meio de um roteirista, Rick (Christian Bale), e utiliza a fotografia de Emmanuel Lubezki para um panorama detalhado e desesperançoso da cidade de Los Angeles. Onde Drive, de Refn, é fantasioso, apesar de violento, Cavaleiro de copas ingressa numa espécie de personagens sem um direcionamento claro, inclusive todos aqueles que se atravessam no caminho de Rick, como o pai, Joseph (Brian Dennehy), e o irmão, Barry (Wes Bentley).

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Esta parte dialoga muito com Amor pleno e a história pessoal de Malick, já exposta de maneira clara em A árvore da vida: sua culpa em relação à morte do irmão e o peso do pai sobre seus ombros. É a matiz dramática mais esclarecida de Cavaleiro de copas, enquanto a vida entre festas e caminhadas na praia de Rick não sossega nem com a presença de Helen (Freida Pinto), Della (Imogen Poots), Karen (Teresa Palmer), Nancy (Cate Blanchett) e Elizabeth (Natalie Portman). Que o elenco feminino é fantástico em termos de atuação, principalmente Blanchett e Teresa Palmer, não é novidade na trajetória de Malick, mas quem realmente oferece uma grande atuação, depois de anos, é Dennehy, como o pai do personagem principal, apesar de sua brevidade na narrativa.

Se havia algum filme anterior que encantava com o glamour de Hollywood, com exceção de Cidade dos sonhos, Cavaleiro de copas dispara na direção de que este universo está previamente condenado, pela figura de Rick e sua trajetória vaga e sem nenhuma possibilidade de encontro, pelo menos aparente. É notável como, por meio, novamente, de pensamentos soltos, e um fio de ligação muito tênue entre os personagens, que Malick mostre um personagem tão solitário e trágico como o de Rick, e Bale faz por merecer uma interpretação quase sem falas e ainda assim impressionante.

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O misto entre a infância – logo no início – e as tentativas de Rick em reencontrá-la, seja por meio de uma visita a um aquário gigantesco, seja pelos encontros conflituosos com o pai (no qual visualiza o temor de também ter um filho), se mostra principalmente por suas caminhadas pela praia, à noite ou de dia. Há um sentido cósmico e religioso como no personagem de Affleck em Amor pleno, entremeado aqui por cartas e símbolos do tarô (e lances de cultura oriental). De qualquer modo, Cavaleiro de copas se sente ainda com uma narrativa mais fina do que a de Amor pleno, no sentido de que deixa ao espectador amarrar totalmente as pontas, ao som de uma trilha perturbadora e bela de Hanan Townshend.

Nisso, há o visual situado entre um presente amargamente solitário e um futuro que aparenta calmaria no tamanho imponente das casas envidraçadas e nos enormes salões e casas pelas quais Rick passa (inclusive pela mansão de Tonio, o alter ego de Antonio Banderas). Este personagem pouco tem daqueles que Antonioni mostrava em seu cinema, ou de qualquer metalinguagem: ele é simplesmente um roteirista que não vê razão em nada ao redor, mas procura, de fato, descobrir algo que o faça emergir. Malick não está oferecendo nenhuma resposta quando mostra esse personagem entre paisagens urbanas e paisagens naturais, assim como num carro pela estrada ( e a direção de arte do habitual colaborador de Malick, Jack Fisk, é extraordinária).

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Há cenas absolutamente belas, como aquelas em que mostra Portman e Bale indo a uma galeria de arte e depois a uma plataforma marítima. Malick, por outro lado, joga essas belas imagens com uma sede de repetição constituindo a rotina exasperante de Rick, como se a novidade só pudesse ser oferecida por um terremoto assustador ou por idas a clubes noturnos de mulheres (em certos momentos, ele lembra o personagem de Sam Shepard em Estrela solitária, de Wim Wenders).

Malick, ao transformar seu filme num certo momento numa sessão de fotografias, faz uma crítica não apenas a seu universo como a sua obra, que precisa dessa beleza aparentemente atordoante para poder se representar, fora a rotina que carrega em cada palmo da história. Nessa rotina Malick, ingressa símbolos enigmáticos e divinos, também representados pela figura do Fr. Zeitlinger (Armin Mueller-Stahl).

A montagem elíptica e mais lenta do que a de Amor pleno, feita a oito mãos (A.J. Edwards, Keith Fraase, Geoffrey Richman e Mark Yoshikawa), concede à fotografia de Lubezki e ao roteiro de Malick uma espécie de segunda camada: as cenas de água, recorrentes, parecem contrastar com os edifícios e as estradas com o asfalto rachado pelo sol, assim como parecem indicar o nascimento dos personagens. Depois de receber os Oscars por Gravidade, Birdman e O regresso, Lubezki revela mais uma vez seu poder de visualizar o universo de maneira irretocável e criar quase um à parte, dentro do cotidiano a que estamos acostumados.

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É muito comum se dizer que não há nada verdadeiramente humano nos experimentos mais recentes de Malick, apenas uma sequência de imagens belas. Isso certamente não corresponde à verdade, e o que Cavaleiro de copas mais apresenta é certamente uma sensação vaga referente a todos os personagens assim como o cenário que os rodeia: tudo é tão imenso que parece impalpável e do mesmo jeito o espectador se sente em relação às suas ações, como se elas fizessem parte de uma rotina pré-programada e sem novidades. Desde o início, numa narração em voice over, o personagem busca o sentido da vida como, numa história infantil, um príncipe busca sua “pérola”. Esta pérola pode ser encontrada em vários rostos, mas Rick não parece querer permanecer com eles, assim como o personagem de Affleck no filme anterior.

Mas, ao contrário de A árvore da vida  e Amor pleno, este filme parece menos esperançoso no sentido de que Malick empresta a esta palavra principalmente desde Dias de paraíso, ou seja, ele concede uma determinada abertura ao final que parece manter certas dúvidas. Há um sentimento constante de perda e de isolamento em relação ao personagem de Rick e, se não soubesse que Malick é um cineasta que costuma se esconder de eventos, eu poderia imaginar que é um alter ego dele. Eis uma Hollywood com todos os brilhos e luz intensa do sol, mas, ao mesmo tempo, sem brilhos ou sol, pois a vemos apresentada pelos olhos de Rick. É um dos filmes definitivos sobre a cidade, sobre o que ela esconde (principalmente) ou revela, da maneira como apresenta seus espaços e estúdios a céu aberto, em meio a rochedos que poderiam capturar algo da velha Hollywood (do faroeste nostálgico) e, no entanto, só trazem um pouco mais de indefinição para o personagem central.

 

Knight of cups, EUA, 2016 Diretor: Terrence Malick Elenco: Christian Bale, Brian Dennehy, Wes Bentley, Cate Blanchett, Natalie Portman, Imogen Poots, Teresa Palmer, Isabel Lucas, Freida Pinto, Antonio Banderas, Nick Offerman, Jason Clarke, Joel Kinnaman, Kevin Corrigan, Cherry Jones, Armin Mueller-Stahl Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Hanan Townshend Produção: Nicolas Gonda, Sarah Green, Ken Kao Duração: 118 min. Distribuidora: Broad Green Pictures

 

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A grande aposta (2015)

Por André Dick

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Este novo filme de Adam McKay, diretor de O âncora, Ricky Bobby e Quase irmãos (todos com Will Ferrell) e também presente na direção e roteiros de Saturday Night Live, é baseado num livro escrito por Michael Lewis, sobre a crise financeira de 2007-2008, causada, como todos sabem, por uma bolha no mercado imobiliário. Em 2005, a possibilidade de isso acontecer, especificamente em 2007, é antevista por Michael Burry (Christian Bale). Ele configura esse mercado como completamente instável, baseado em empréstimos fora de qualquer padrão. Visto como uma pessoa antissocial (e assumindo-se como tal), ele vai a vários bancos para tirar lucro da ideia, apostando o dinheiro da empresa para ganhar em cima da esperada perda na área. Os bancos apostam que o mercado é seguro, e ele acaba sendo visto como um desequilibrado; riem dele pelas costas.
Num determinado local, quem ouve a história de suas peregrinações é Jared Vennett (Ryan Gosling), que logo nota que as previsões são verdadeiras, e se junta a Mark Baum (Steve Carell). Os dois descobrem que a possível quebra está ligada a CDOs, grupos de empréstimo. Baum trabalha com Porter Collins (Hamish Linklater), Danny Moses (Rafe Spall) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong), tentando ser convencida pela esposa, Cynthia (Marisa Tomei), a largar a profissão e o universo de Wall Street. A profissão de quem lida com o dinheiro é constantemente satirizada em A grande aposta e associada, como no filme de Scorsese, a strippers e boates onde ele é jogado pelos ares.

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Há também, na mesma escala, os investidores Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), sabendo das ideias de Burry por via indireta, que passam a trabalhar para o ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt). Todos esses personagens estão envolvidos com a mesma possibilidade, no entanto nunca são vistos juntos, ou seja, eles apenas anteveem o que irá acontecer sem terem certeza de que isso acontecerá – ao mesmo tempo em que têm essa certeza.
McKay trabalha com esse elenco de maneira muito competente, mas estranhamente desigual, sendo prejudicado pela montagem, que dá espaço maior a personagens não tão interessantes quanto os de Bale, Pitt, Rosling e Carell, os principais (e fiquei imaginando se tivessem conseguido encaixar aqui Jim Carrey em seus melhores momentos). Todos estão muito bem, especialmente Carell, na atuação dramática que poderia ter lhe rendido uma nova indicação ao Oscar e complementa, em outro plano, aquela excelente que teve em Amor a toda prova (em que também contracena com sua esposa aqui, Tomei). O personagem de Bale é fascinante, principalmente no início, quando lhe é dado um merecido espaço, com suas manias, fuga do stress por meio de uma bateria e a Síndrome de Asperger. McKay, ainda assim, se equivoca ao restringi-lo somente a um espaço, sendo como o homem que não vê os outros, mas sabe tudo o que irá acontecer aos outros. Falta, digamos, um ponto alto, capaz de atrair todos os personagens, mesmo separados, para o mesmo núcleo dramático.

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O roteiro é bastante complexo, principalmente para quem não sabe os detalhes da crise, ou seja, em certos momentos parece mais para o público norte-americano. No início, existe a impressão de que se trata mais de uma comédia satírica sobre o que aconteceu, porém, aos poucos, vai se anunciando mais um drama nas entrelinhas referentes aos personagens, sobretudo nas atuações de Pitt e Carell, às vezes oportunizando mesmo uma lição de moral, o que seria dispensável diante do que o filme nos mostra (e dificilmente A grande aposta pode ser visto como uma comédia, do modo como é vendido, não mais, por exemplo, do que um Cosmópolis, uma sátira ferina de Cronenberg tanto ao capitalismo exacerbado quanto aos ocupantes de Wall Street).
Há uma agilidade sensível na direção, ao mostrar personagens falando para a câmera. Isso às vezes funciona, outras não (passa a ser um recurso estranho quando ele se ausenta por muito tempo), no entanto a montagem vai selecionando muitas imagens para que o espectador nãos e distraia, mesmo que não entenda plenamente o contexto. Para isso, ele coloca Margot Robbie (curiosamente de O lobo de Wall Street) e Selena Gomez para dar explicações práticas das negociações em andamento, sobretudo, no segundo caso, quando há uma reunião em Las Vegas para discutir os rumos da economia. Há uma certa linguagem moderna que, por vezes, acaba se chocando com as reflexões do filme, mais exatamente do personagem de Carell, e isso cria um conflito claro na estrutura.

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Às vezes, ele lembra O lobo de Wall Street pela bateria de diálogos rápidos (Pitt tentou, lembremos, comprar os direitos e fazer esse filme), assim como uma excelente obra dos anos 90, chamado O sucesso a qualquer preço. E é interessante como todos os atores envolvidos no projeto já participaram de filmes com uma sátira ou crítica ao chamado capitalismo (mesmo Gosling fez Lost river, que trata também de pessoas sendo desalojadas e não deixa de ser uma metáfora da bolha financeira de 2008). Mas aqui não há o talento de Martin Scorsese quando, em O lobo de Wall Street, desmontou esse universo com o auxílio da atuação de DiCaprio. Havia mais foco na maneira como se dava esse olhar, e os personagens eram caricaturais, sem nenhum moralismo, quando aqui pelo menos o personagem de Pitt aparece para dizer palavras capazes de mostrar os verdadeiros erros. É interessante como McKay, um diretor de comédias, acaba levando mais a sério e querendo demonstrar com dados e definições de conceitos esse universo. Tudo é entregue para que o espectador possa selecionar as partes capazes de deixar o panorama mais claro; às vezes não fica, mas o elenco se esforça.
Mesmo com todas as falhas, ainda há mais virtudes em A grande aposta e uma real vida nas atuações, sem a neutralidade forçada e esforçada, por exemplo, de um Spotlight. Nisso, a fotografia de Barry Ackroyd, apesar de lembrar bastante a da série The Office (com Carell), e outras séries, diga-se de passagem, oferece um movimento ininterrupto e capta melhor os cenários, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas. A grande aposta acaba tendo como referência uma dissolução interessante de gêneros no fim das contas, além de contar com um elenco estelar em grande forma, apesar de alguns não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro e suas consequências até hoje, inclusive seu reaproveitamento sob outras formas, conta mais para o espectador ter consciência sobre o tema.

The big short, EUA, 2015 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Max Greenfield, John Magaro, Karen Gillan, Melissa Leo, Hamish Linklater, Billy Magnussen, Rafe Spall, Tracy Letts Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner Duração: 130 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Plan B Entertainment / Regency Enterprises

Cotação 3 estrelas e meia

 

Êxodo: deuses e reis (2014)

Por André Dick

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Desde Gladiador, Ridley Scott tem tentado repetir o sucesso com filmes relacionados à história da humanidade. Se no filme com Russell Crowe ele conseguia mesclar uma visão da Roma Antiga com o cinema de entretenimento de Hollywood, recebendo por ele o Oscar de melhor filme, no recente Êxodo: deuses e reis Scott tenta enfileirar as características já exibidas em Cruzada e Robin Hood. Do primeiro, há as cenas com visual magnífico incrustadas em algum ponto entre a Espanha e o Oriente Médio, e o segundo possuía a história mais densa sobre o ladrão da Floresta de Sherwood, embora não com a qualidade correspondente. Nos últimos anos, pelo menos desde o ótimo Falcão negro em perigo, Scott tem tentado produzir filmes com bastante desenvoltura e pouco espaçamento entre um e outro. Bastante criticado, Prometheus prometia trazer o cineasta a seus melhores anos, os que se situam entre Os duelistas e A lenda.
Scott nunca teve entre seus méritos o trabalho com o roteiro. Sua estreia em Os duelistas tem um visual magnífico, característico de sua obra, mas uma dificuldade de estabelecer conexões entre os personagens. O mesmo acontece em outras obras importantes suas, mas em Êxodo, pela preocupação em fazer o relato bíblico estabelecer uma ligação direta com o cinema de aventuras de Hollywood, parece que Scott não está preocupado exatamente com a história: surpreende que haja entre os roteiristas o talentoso Steven Zaillian (Tempo de despertar, A lista de Schindler e O homem que mudou o jogo). Talvez com preocupação de desagradar ao público mais religioso, Scott procura tornar seu filme muito mais propenso a não se envolver com nenhum dos lados retratados. Ou seja, Êxodo: deuses e reis lida com a narrativa bíblica de modo a não se incomodar ou ser incomodado – e, se há algumas liberdades maiores no que se refere ao Antigo Testamento, parece não ser exatamente a vontade de Scott em desafiar as versões oficiais, mas apenas para acomodar sua história a um amplo estado cinematográfico.

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É um filme ao mesmo tempo arrebatador – pela quantidade de belas imagens e um senso de design primoroso – e, pelos lapsos da história, com uma sucessão de diálogos não tão interessantes, problemático, na sua estrutura. A história inicia com uma batalha em que Moisés (Christian Bale) e Ramsés II (Joel Edgerton) terão, cada qual, um desfecho que interessa às profecias. O faraó Seti (John Turturro), pai de Ramsés II, confia mais em Moisés, no entanto o que acontece a partir daí é uma espécie de reprodução da história de Gladiador baseada nos relatos bíblicos. Moisés é enviado para Phitom, a fim de ter uma reunião com Hegep (Ben Mendelsohn), à frente dos escravos hebreus. A figura de Nun (Ben Kingsley) surge para tentar avisar Moisés sobre a profecia que o cerca, mas não consegue ser ouvido. Moisés se torna um exilado e, sem seguir nenhum preceito religioso, é procurado por Malak (Isaac Andrews), que configura a presença de Deus na história. Moisés acaba conhecendo seu amor, Zipporah (María Valverde), e recebe o chamado para defender os hebreus dos egípcios numa batalha que poderá ser épica. No entanto, são quase 130 minutos até a batalha, e Scott, além da tentativa de ser fiel ao relato bíblico, com ligeiras adaptações – e deve-se dizer que Aronofsky, em Noé, conseguia trabalhar melhor a passagem bíblica do dilúvio, com menos informações de que Scott dispõe em Êxodo – precisa fazer um filme de entretenimento.
Particularmente eficaz a atuação do elenco. Scott sempre foi um especialista em extrair boas interpretações, e Bale consegue demonstrar seu talento como em outras obras. Edgerton não tem exatamente uma sequência de diálogos, nem parece o mais adequado para o papel, mas tem certa presença de cena. E Mendelsohn é mais uma vez um vilão interessante, embora não traga exatamente nada de novo.  O restante do elenco, como o excelente Kingsley e Weaver, como a rainha Tuya, mãe de Ramsés II, aparecem desperdiçados e não ficam claras quais as intenções de Scott com os personagens suplementares. O que interessa a Scott, muito mais, é tornar a narrativa de Êxodo num conjunto de imagens espetaculares – e principalmente aquelas que lidam com Moisés em contato com as mensagens divinas, a primeira logo depois de subir uma montanha com as ovelhas, em que Scott o lança numa espécie de sono tenebroso, e a fotografia de Dariusz Wolski se encarrega de colocar Bale numa situação claustrofóbica.

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O que incomoda por vezes em Êxodo é o quanto não parece haver a conexão necessária entre alguns personagens, não apenas por causa do roteiro com lacunas, mas em razão da própria direção de Scott. Não saberia se uma versão estendida do filme – e há uma para Cruzada, do qual vi apenas o corte feito para os cinemas, irregular, considerada melhor – ajudaria a eliminar o incômodo da montagem ou das passagens mal esclarecidas. O filme, no entanto, tem alguns méritos bastante claros, além do design fundamentalmente interessante: quando são mostradas as dez pragas do Egito, Scott lida com um cinema não apenas calibrado em termos de efeitos especiais – todos, sem exceção, espetaculares –, mas impactante o suficiente para atrair a atenção do espectador. Do mesmo modo, quando Scott mostra inicialmente os personagens ou quando retrata os diálogos de Moisés com Malak, além daqueles em que revela os conflitos de Ramsés com sua cúpula política, há também bons momentos.
Scott parece reencontrar sua linha como artesão do cinema capaz de retratar cenários espetaculares, como aqueles que encontramos em suas ficções científicas (Blade Runner e Prometheus) ou em suas fantasias (A lenda). No entanto, em muitos momentos, ele opta por uma montagem que joga a narrativa para vários lados ao mesmo tempo. É uma maneira de contar que prefere muitas vezes os cortes e a ação, bastante evidentes quando se inicia a caçada aos hebreus, do que a contemplação. Nas cenas com as pragas que abatem o Egito, Scott consegue produzir sensações de espanto – como aquela que envolve os crocodilos – e coloca em prática seu talento para a reprodução de cenários históricos, como havia em 1492 – A conquista do paraíso, por exemplo, ou mesmo Cruzada, com fundo religioso. Mesmo A lenda era uma espécie de transposição para um universo fantástico do relato bíblico sobre Adão e Eva.

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Em determinados momentos, personagens desaparecem e reaparecem (a exemplo de Nun, Tuya e Josué, feito por Aaron Paul) sem motivação especial ou explicada, e as perseguições aos hebreus se sucedem com bastante barulho, numa certa desordem, mas Bale oferece ênfase à figura de Moisés quando é escolhido seu caminho, tentando reatar as pontas do roteiro proporcionado por oito mãos a Scott. E com Moisés há certamente as sequências que valem a pena, como todas em que encontra a figura de Deus em Malak, ou quando precisa enfrentar a própria humanidade para saber se deve escolher seu caminho longe da comunidade em que está estabelecido como pastor.
Se falta a síntese e a complexidade de embate que havia em Gladiador, além de personagens que não saiam de cena sem dizer exatamente a que vieram, Êxodo pelo menos se arrisca. O interessante é que possui problemas que um cineasta como Scott saberia resolver, mas aqui ele não parece estar à vontade para isso, possivelmente preocupado em descontentar correntes religiosas ou mesmo por problemas particulares (a perda de Tony, seu irmão, a quem o filme é emocionalmente dedicado). Ainda assim, Êxodo é o retrato de um cineasta que se propõe a fazer algo espetacular para ser visto – e a cena que evoca o Mar Vermelho é portentosa – e mostra uma preocupação de estabelecer eixos temporais dentro de seu cinema, desde a ficção científica, passando pelo mundo de fábulas, até retratos contemporâneos de qualidade, como Thelma & Louise, Falcão negro em perigo e Rede de mentiras. Só parece lhe faltar, em algumas obras, como as que tentam reproduzir Gladiador, o lado mais dramático que possa se encaixar com as imagens espetaculares ou a direção de arte.

Exodus: gods and kings, EUA/ESP/Reino Unido, 2014 Diretor: Ridley Scott Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Aaron Paul, Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Indira Varma, María Valverde, John Turturro, Golshifteh Farahani, Ben Mendelsohn Roteiro: Adam Cooper, Jeffrey Caine, Bill Collage, Steven Zaillian Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Alberto Iglesias Produção: Adam Somner, Mark Huffam, Michael Schaefer, Peter Chernin, Ridley Scott Duração: 149 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Babieka / Chernin Entertainment / Scott Free Productions

Trapaça (2013)

Por André Dick

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No ano passado, o diretor David O. Russell reuniu Bradley Cooper e Jennifer Lawrence em O lado bom da vida como isca para premiações, mesma tentativa feita dois anos antes em O vencedor, com Christian Bale e Amy Adams. Em seu novo filme, Trapaça (um título levemente deslocado para o setentista American Hustle), ele reúne os dois casais e procura novamente o reconhecimento principalmente da Academia de Hollywood, desta vez se inspirando, mais ainda do que em seus outros filmes, no Martin Scorsese de Os bons companheiros, a partir do uso da câmera hipnótica de Linus Sandgren. No entanto, não existe em Trapaça o objetivo de retratar a máfia ou fazer as reviravoltas dialogarem com Os infiltrados, a incursão de Scorsese que lhe deu, afinal, o Oscar, quando deveria ter recebido por outros filmes, também pelos recursos de flashbacks. Há mais uma tentativa de incorporar o imaginário dos anos 70 e brincar exatamente com os cenários e situações que podem surgir nele. Tudo isto fica demonstrado pelo próprio figurino e pelos penteados exagerados, partindo daquele exibido por Bradley Cooper, e do físico exibido por Christian Bale. Se formos assistir Trapaça como um retrato de época, talvez não sejamos tão efetivos quanto se ele for visto como uma comédia em que os personagens atuam como se estivessem entrando em cena e ficassem surpresos por isso: é um filme de performances, não exatamente de narrativa.
Bale e Amy Adams formam um casal, Irving Rosenfeld e Sydney Prosser, que se conhece numa festa cujo cenário evoca as vidraças e a piscina ao fundo de Boogie Nights e se juntam imediatamente para aplicar golpes. Prosser se apresenta às vítimas como uma aristocrata chamada Lady Edith Greensly, enquanto Irving segue o roteiro perfeito para limpar os bolsos do alvo. Irving é uma figura completamente deslocada do cenário, pois parece, ao mesmo tempo, ingênuo. Bale lhe oferece características de grande ator que é, tornando o que poderia ser apenas um tanto patético – pelo seu início, quando se prepara para entrar em cena – em uma figura humana, em meio aos diálogos acelerado de Russell, com receio de fazer qualquer interrupção e se perder o fio da meada.

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Enquanto Prosser tem um passado misterioso, Irving é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence) e pai de um menino. Descobertos por Richie DiMaso (Cooper), eles acabam servindo para o encontro com um político, Carmine Polito, dedicado à esposa Dolly (Elizabeth Röhm) e prefeito de Camden, em uma ponte com o mundo do crime, por meio de uma revitalização dos cassinos. O filme é levemente baseado numa operação montada pelo FBI em 1978, chamada Abscam, mas é visível que Russell espalha para todos os lados as suas improvisações, com a ajuda decisiva de seu elenco. Para isso, os personagens acabam se envolvendo com pseudoárabes e mafiosos dos Estados Unidos na história, enquanto tentam conseguir um dinheiro considerável para armar uma transação pouco real de negócios. Nesta relação, DiMaso acaba se apaixonando por Prosser e abre-se um triângulo amoroso que certamente resultará em uma complicação. Isso quando Rosalyn não surge, longe de sua cozinha, interessada em ingressar nas possíveis reviravoltas do caso. DiMaso, especialmente, tem um interesse em fazer sua carreira em cima de grandes casos, capazes de chamar a atenção da mídia.
Todos os personagens de Trapaça querem ter seu grande momento, seja para a mídia ou para encher os bolsos de dinheiro, mas há, acima de tudo, nesse final dos anos 70, adentrando quase nos anos 80, ainda um resquício de amizade e das relações que não devem terminar pelas tradições familiares (como quando Rosalyn diz a Irving que as mulheres de sua família não se separam). Há um falso glamour nos cenários e o penteado dos personagens sempre parece escondê-los de sua verdadeira personalidade: eles encenam tanto para o espectador quanto uns em relação aos outros. E, inevitavelmente, todos os rompantes possivelmente verdadeiros soam ligeiramente forçados – desde alguém saindo pela porta diante de uma decepção de amizade até quando o FBI pensa ter agido de maneira perfeita em determinada circunstância.
Russell nunca chegou a ser respeitado pela crítica e pelo público como o é pela Academia, mas não se pode dizer que seus filmes sejam dispensáveis; pelo contrário. Há neles uma espécie de movimentação que aprimora alguns lugares-comuns e visualiza sobretudo as comédias clássicas, com boa atmosfera, com a ajuda decisiva da fotografia, e um elenco dedicado. Dois dos maiores acertos de Russell, por exemplo, são Três reis e I heart Huckabees. Se os dois casais estavam ótimos nos filmes anteriores, em Trapaça, mostram a revelar boa parceria, com o acréscimo indispensável de Jeremy Renner e Louis C.K. Este, em particular, como Stoddard Thorsen, oferece algumas linhas de diálogo que sustentam a narrativa, e Renner também consegue compor um Polito interessante e volúvel aos momentos de amizade.

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Há pelo menos alguns grandes momentos em Trapaça no que corresponde a essa interação de elenco, e eles se dividem entre uma discoteca no estilo anos 70 (podendo surgir um Tony Manero) e um restaurante onde Rosalyn vai expor o estilo de suas unhas. São nesses pequenos detalhes, inacabados e imperfeitos, que Trapaça acaba desenhando o painel de uma época. E não sem a colaboração do elenco. De Bale e Cooper, pode-se falar que conseguem inovar dentro de seu repertório, sobretudo Bale, mas é Adams a responsável pela atuação mais efetiva do filme, tão bem a ponto de Trapaça perder um pouco seu vigor quando não está em cena. E Jennifer Lawrence consegue, depois de Inverno da alma e O lado bom da vida, entregar uma atuação finalmente livre de alguns maneirismos. Em Trapaça, ela, por meio do exagero, torna sua personagem humana, graças à decisão de Russell em mantê-la como uma peça-chave de acréscimo para outros momentos imprevisíveis. Sua presença em Trapaça consegue sintetizar essa ambientação setentista, ao mesmo tempo em que nos coloca uma máquina de recordações direcionada ao futuro. De modo que se ele tem pelo menos 20 minutos a mais de duração do que deveria deve-se valorizar aquilo que Russell conseguiu fazer com seu elenco, de forma mais bem solucionada do que em O lado bom da vida, uma história romântica, com méritos, vendida como drama capaz de modificar a vida do espectador e como peça cult. Talvez não tenha a agilidade do anterior, contudo não deixa de fazer Trapaça um filme bem mais do que interessante.

American Hustle, EUA, 2013 Direção: David O. Russell Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Michael Pena, Louis C.K., Jack Huston Roteiro: David O. Russell e Eric Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Richard Suckle, Megan Ellison Duração: 129 min. Distribuidora: Columbia

Cotação 3 estrelas e meia

O novo mundo (2005)

Por André Dick

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Excelente reconstituição de época e fotografia espetacular não salvaram o épico O último dos moicanos, de Michael Mann, baseado no romance clássico de James Fenimore Cooper. Faltou algum elemento para criar um interesse maior pela saga de um homem branco criado por moicanos (Day-Lewis, depois do Oscar por Meu pé esquerdo), na adaptação da história que se passa durante a Guerra dos Sete Anos, em que estiveram envolvidos ingleses, franceses e tribos de índios norte-americanos na América do Norte.
O personagem de Day-Lewis e dois moicanos ajudam duas inglesas (uma das quais Madeleine Stowe) e um soldado inglês a chegarem num forte em guerra com tropas francesas. Surge uma atração entre o moicano e a inglesa, mas logo eles são separados.
Percebe-se em todas as atuações a mão de um diretor que se tornaria talentoso. No entanto, Mann, recém-saído da série Miami vice, esquece de colocar conflitos em seu filme. Neste seu primeiro longa no cinema, seu interesse é pelo luxo da produção, revestida de detalhes (o filme ganhou Oscar de melhor som). É a partir deste filme, de qualquer modo, que Malick parece compor O novo mundo, com o mesmo interesse pelo refinamento da produção, mas uma aspiração mais social e histórica.

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Malick havia passado vários anos sem lançar um filme (oito, desde Além da linha vermelha), quando trouxe às telas este filme baseado numa história com elementos reais (daqui em diante, spoilers). Em 1607, o capitão inglês John Smith (Colin Farrell) chega à América aprisionado, acusado de tentar um motim, junto com a Expedição Jamestown, enviada da Inglaterra, mas logo em seguida é perdoado pelo comandante Christopher Newport (Cristopher Plummer), que volta para a Europa a fim de trazer mais alimentos. Na busca por comida e na exploração das matas, Smith é capturado por nativos, sendo levado ao chefe, Powhatan (August Schellenberg), que tem como braço direito Opechancanough (Wes Studi, de O último dos moicanos). Smith não apenas passará a viver entre eles, entre a liberdade e a prisão, como conhecerá Pocahontas (Q’orianka Kilcher), uma nativa, filha de Powhatan. No entanto, quando ele volta ao forte construído pelos brancos, ele saberá que esta tranquilidade está perto de se encerrar.
Trata-se de um filme que vem no mesmo fluxo de Além da linha vermelha, mas toma um rumo diferente. Em primeiro lugar, porque o diretor utiliza mais em pormenores os pensamentos soltos, divagantes – algo que funciona muito bem em outros filmes, sobretudo em A árvore da vida –, e filma detalhes da natureza à parte das cenas centrais (isso parece acontecer em A árvore da vida, mas a narrativa, tão criticada por alguns, é mais interessante).

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O novo mundo.Cena 8

A impressão é que Malick não efetua, aqui, como em Além da linha vermelha, cenas de ação intensas, preferindo centralizar seus olhos no drama romântico entre Smith e Pocahontas. Se o romance abre perspectivas, em razão de Q’orianka Kilcher, Colin Farrell está inexpressivo. Ele funciona mais quando o filme não depende dele (como quando fez o cantor country de Coração louco). Malick, claro, mostra sua obsessão pela influência da natureza na vida humana, mas aqui ele parece transcender. Há flashes do casal correndo entre árvores, entre o capim alto, à beira do rio, e pensamentos esparsos, como (de Pocahontas): “Quem é esse homem? Quem é esse Deus”? Alguns detalhes não ficam claros: a aproximação cultural de Pocahontas é imediata, inclusive com a língua, e em determinado momento ela precisa alimentar os poucos homens dele com uma caça, mesmo eles tendo armas para matar animais.
Ainda assim, Malick procura dar ao filme um estilo, ao mesmo tempo, íntimo e épico. A única cena de combate, no entanto, se inclina a flashes para o céu, para as árvores. Mesmo os cenários ao longo do filme são iguais, e a montagem, elíptica – dando poeticidade, mas também prejudicando algumas cenas de conflito (como a de Pocahontas com seu pai) ou a presença levemente deslocada de Cristopher Plummer –, faz com que nos mantenhamos à distância dos personagens (embora não pareça, há lacunas aqui que não existem, por exemplo, em A árvore da vidaAmor pleno). Farrell, com isso, não consegue dar vigor ou grandiosidade a seu personagem, parecendo, por um lado, muito triste em ter de esconder um amor tão grande – que, em determinado ângulo, não convence–, e, por outro, feliz em ter de deixá-lo para trás. É visível como sua atuação prejudica o filme quando Christian Bale entra em cena, como John Rolfe, quase ao final, mostrando como o filme seria caso ele fosse o capitão Smith.
No entanto, talvez o ator principal fosse mesmo um detalhe. Malick quer filmar as paisagens com o tom de nascimento e descoberta, ou de tristeza – o sol entre as árvores, como em A árvore da vida, dá às cenas um contexto (o que lá criava um complemento poético, pois é uma história livre, não histórica). Cada personagem simboliza o contato entre o velho e o novo mundo e cada relação pode nascer e vigorar como também voltar às cinzas. Malick tem um sentido muito apurado sobre o Éden que existe em cada um desses personagens, sempre ameaçado pela traição e pela violência. A mentira dos homens brancos passa a ser evidente e seu objetivo, cada vez mais claro. No entanto, Pocahontas acredita numa espécie de amor intocado pelo ser humano, que se mistura à natureza, às árvores, ao capim e aos rios. Ela não acredita que possa ser traída e este sentimento é permanente na filmografia de Malick (vejamos o recente Amor pleno), chegando sempre a um contato próximo com a ideia divina – para o velho mundo, em belíssimos vitrais; para Pocahontas, à beira do rio ou correndo por um campo esverdeado.

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O novo mundo.Filme 5A fotografia bastante elogiada de Emmanuel Lubezki (que deu ao filme sua única indicação ao Oscar) faz predominar as cores que remetem à terra (também dos figurinos), além dos tons de verde, claro e escuro. Para Malick, a aversão à natureza romântica, aqui, pode matar a humanidade. Quando ele deseja oferecer mais emoção ao filme, este está quase terminando – mas são antológicas as cenas feitas na Inglaterra (sobretudo quando um índio caminha num pátio inglês enorme, em meio a árvores podadas, simetricamente, como se fossem um contraponto ao ambiente de onde veio, mas, ao mesmo tempo, um complemento). Falta ao filme uma definição entre o histórico, a ação, o poético e o drama – o que faz de A árvore da vida um filme tão definitivo. Mas, ainda que O novo mundo não consiga alcançar o que poderia, ainda assim responde ao que nos apresenta. Tratando da estranheza e da descoberta de um novo mundo, além do choque que isto pode trazer, há nele, como nos outros filmes de Malick, um elemento enigmático que atrai o espectador e uma sensação de perda e reencontro que poucas obras simbolizam de maneira evidente. Toda a sequência final, com uma montagem fascinante de imagens da natureza, representando o encontro entre as águas do homem branco e dos nativos, assim como da natureza, é implacavelmente belo.

The new world, EUA, 2005 Diretor: Terrence Malick Elenco: Colin Farrell, Q’orianka Kilcher, Christopher Plummer, Christian Bale, August Schellenberg, Wes Studi, David Thewlis, Yorick van Wageningen, Raoul Trujillo, Ben Chaplin, John Savage, Brian Merrick Produção: Sarah Green Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: James Horner Duração: 135 min.  Distribuidora: Não definida Estúdio: New Line Cinema / Sunflower Productions / Sarah Green Film / First Foot Films / The Virginia Company LLC

Cotação 3 estrelas

 

Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (2012)

Por André Dick

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A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado certa competência em Amnésia e um policial fraco em Insônia. Depois dos dois Batman e do irregular (e, a meu ver, monótono) A origem, ele regressou com Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Mas seria interessante rever o que ele apresentou nos dois primeiros.
Em Batman begins, o herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (o antipático, por isso perfeito para o papel, Liam Neeson), que pretende limpar a terra de assaltantes com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (o ótimo Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman, sempre eficiente), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme. Ela quer prender os piores bandidos na cadeia, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy, extremamente estranho e adequado para o papel), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman), a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard) e o figurino original (bem mais criativo do que aqui, basicamente uma reprodução do dia a dia). Ou seja, Nolan tem uma dificuldade clara em situar o personagem num universo fantástico, preferindo colocá-los à luz natural. Mesmo a maneira como revela o surgimento do herói é menos fantasiosa.
De qualquer modo, este Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan, aqui, não é ainda tão maneirista. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman (o oposto de Michael Keaton, embora este tivesse qualidade, vencendo suas limitações), é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher (os filmes que dirigiu, Batman eternamente e Batman e Robin são os mais fracos das franquias). Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é extremamente cuidada.

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O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton. O não emprego de humor no personagem principal, um herói amargurado, talvez deixe o filme mais pesado. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Hutch Ledger, que recebeu um Oscar póstumo de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos (sobretudo de Frank Miller) e decisivamente psicopata (o de Jack Nicholson era um brincalhão perigoso).
Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador excessivamente sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o som não se ausenta por um minuto sequer – mas mesmo alguns trailers cansam.
Alguns de seus filmes têm o defeito de durarem uns 30 minutos a mais (como Insônia e A origem), e este tem pelo menos três finais, mas quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. De qualquer modo, não mais poético: o Batman, aqui, é um herói endurecido pela realidade, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries (sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa), o que reduz um tanto a complexidade do personagem. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Mas, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que coloca fogo em dinheiro, isto é, não tem nenhum senso de ganância material, apenas o empenho de destruir (por exemplo, na cena do hospital, grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de um filme) e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado – como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, sem nenhuma fantasia, mas querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred, mordomo de Bruce Wayne, ou o cientista Lucius Fox, feito por Morgan Freeman. Há vários filmes colados nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que deixa a desejar, de qualquer modo, no acabamento: há excessos neste filme, e no final tenta-se uma certa lição de moral que não condiz com o que aparece antes.

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No novo filme, Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, Nolan tinha A origem como imediatamente seu precursor, o que era preocupante. Não apenas porque se podia contaminar uma adaptação de um herói em quadrinhos com novas filosofias sobre o onirismo, excessivamente calculadas e com personagens pouco interessantes. Desde o início do terceiro Batman – cuja estreia teve, como se sabe, um acontecimento trágico –, parece que Nolan está interessado em deixar as tentativas de configurar uma realidade, como havia nos outros dois, para realmente uma narrativa configurada no fantástico, mesmo que, como nos demais, com cenários parecidos com a realidade, em certos momentos até terrivelmente parecidos. Em primeiro plano, o novo vilão, Bane (Tom Hardy), com sua voz ecoando como a de Darth Vader, também atrás de uma máscara, apesar de violento e chocar, não tem a mesma participação do Coringa e nem a mesma tentativa de realismo ou de psicopatia. É um vilão dentro dos moldes que já vimos, mas Nolan, claro, se preocupa em conceder uma violência extra a ele nos momentos em que aparece, desnecessária – e com um início que é um grande furo, apenas para justificar a situação. A cidade de Gotham City vive um momento de paz, oito anos depois da segunda parte. O Comissário Gordon (Oldman) está para ser demitido, como informa o vice-comissário Peter Foley (Matthew Modine),  não tem coragem de contar a verdade sobre Dent, e o milionário Bruce Wayne vive uma espécie de exílio em sua mansão, na companhia de Alfred (Michael Caine, excelente). Até o dia em que tem uma de suas joias roubadas por uma mulher que se disfaça de empregada, Selina Kyle (Anne Hathaway, tornando o filme mais leve), e depois de uma visita de um policial, John Blake (Joseph Gordon-Levitt, levemente deslocado), que morou num orfanato bancado pela família Wayne. Há muitas coisas implicadas desta vez. Wayne não quer mais enfrentar a realidade depois da morte da amada no filme anterior, até que descobre a vinda de Bane para Gotham City. Sua empresa está passando por problemas, e a ricaça Miranda Tate (Marion Cotillard) precisa assumir o cargo. Para isso, ela deve saber como funcionam algumas pesquisas das empresas Wayne que lidam com energia nuclear, a critério de Lucius Fox (novamente Morgan Freeman).

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Por não entender que o segundo da trilogia tenha sido o melhor, acredito que este Batman consiga traduzir, como o primeiro, uma relação do personagem com uma vertente mais humana, apesar de em certos momentos parecer um coadjuvante em sua própria história. Nolan, por meio da sua figura, e isso é acentuado neste, pretende, na verdade, lidar com a história de personagens como o Comissário Gordon, Blake e o mordomo Alfred (que tem pelo menos dois momentos antológicos, que se ligam, sobretudo, a Batman begins). Não consegue ser totalmente efetivo porque o roteiro, desde o primeiro filme, com suas referências a medo, destruição, máscaras, não revela o quanto haveria nos personagens para ser abordado e cai, às vezes, num plano de condescendência (como num momento em que Bruce Wayne precisa novamente enfrentar seus temores; sabemos, desde o primeiro, que ele não confia totalmente em si mesmo, mas nos perguntamos se haveria mais enfrentamento para os temores do que ele acaba tendo de fazer pela cidade de origem). Outro plano de abordagem parece o político: Bane quer liderar uma revolução às avessas em Gotham – ele começa atacando a Bolsa de Valores – e em certos momentos é questionada a diferença entre bandidos e policiais; até que ponto a mentira não é a maior destruição da sociedade; a riqueza é colocada em xeque, pois é preciso se revoltar. Parece falso considerar que Nolan coloca Batman como um mero playboy que deseja manter um status quo. Seria tornar o personagem fora ainda mais de seu contexto. Não se trata de uma discussão levantada também por Burton quando poderia – em comparar Bruce Wayne e Oswald Cobblepot, o personagem do Pinguim, abandonado pelos pais nos esgotos da cidade –, e portanto me parece um um tanto deslocada. Mas é uma leitura possível. Parece-me, de qualquer modo, que Nolan, como Cronenberg em Cosmópolis, está fazendo uma sátira a movimentos de libertação do povo – o que só pode ser feito pelo próprio povo, e não por tribunais livres colocados por uma espécie de guia. Mesmo no fato de, em determinado momento, ele dizer que a decisão do destino está nas mãos do povo, feito da forma mais pomposa possível num estádio de futebol. Neste ponto de vista, Batman apenas tenta oferecer outras opções, mas sem deixar de temer que, pela lenda deixada depois da morte de Harvey Dent, o povo o massacre em praça pública.

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Bane, em nenhum momento, soa um vilão real – como se refere acima, sua voz lembra a de Darth Vader (é difícil dizer o que o personagem realmente tem de interpretação de Tom Hardy). Ainda assim, os momentos em que ele precisa se confrontar com Batman são muito bem feitos (pela interpretação de Bale), como também as perseguições e os quarenta minutos finais (com efeitos realmente extraordinários, apesar de a trilha sonora abafar excessivamente os outros sons, fazendo com que seja uma espécie de trailer), com uma tensão que faz com que se destaquem diante do restante da série. Não tenho certeza, por outro lado, se a metragem longa (164 minutos), típica desde o sucesso de O senhor dos anéis, era necessária ou apenas para dar um sentido mais épico à finalização da trilogia. Se em certos momentos a montagem flui, há um ou outro momento, sobretudo naquele mais delicado pelo qual passa Wayne, que Nolan parece repetir demais a mesma situação (colocando, inclusive, um personagem para traduzir o que um outro fala para Wayne, sem este pedir). Em outras sequências, a montagem é ágil demais, quebrando uma cena que poderia ser interessante, mas acaba dando espaço a outra. A própria colocação de alguns personagens, como o de Miranda e o de Folley, soa, às vezes, um tanto dispersa e confusa, limitando-se a alguns diálogos sem força, o que é de se lamentar pela metragem.
Mas, de modo geral, isso não prejudica Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Há qualidades que o costuram como um filme de ação contida, mais do que o segundo filme, e sem o clima apocalíptico deste, apesar de várias cenas dizerem também o contrário – é impressionante a direção de arte do filme, muito superior às dos outros dois, além de mais diversificada, além da fotografia requintada de Wally Pfister (O homem que mudou o jogo), habitual colaborador de Nolan e muito talentoso, dando classes a imagens que poderiam ser rotineiras e mistura ruínas atrás do colégio de órfãos com arranha-céus gigantescos e iluminados, com a chegada do inverno e do calor que se anuncia.
A ligação da narrativa com o primeiro filme também dá uma sensação de fechamento de uma fase de Batman feita por Nolan (o que não havia na primeira quadrilogia, sobretudo pela troca de Burton para Schumacher). E não me parece que este se leve a sério demais – os outros também tinham um ar de cinema mais sóbrio e contido – ou que Batman é visto como algum personagem de proporções trágicas; pelo contrário, o que me parece é que, ao fim de tudo, Nolan só queria realmente mostrar uma humanidade que pode haver para um garoto órfão na persona de um herói.
Não parece ser uma obra-prima, mas tampouco deixa de ser, sobretudo como o primeiro, muito divertido, encerrando a trilogia de forma bastante satisfatória.

The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Liam Neeson, Tom Hardy, Cillian Murphy, Marion Cotillard Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 165 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: DC Entertainment / Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros.

Cotação 4 estrelas