Vingadores – Ultimato (2019)

Por André Dick

Em Vingadores – Guerra infinita, os  irmãos Joe e Anthony Russo não tinham tempo a perder: empregavam uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as suas consequências. Eles acreditavam oferecer um ar dramático e, apesar dos conflitos físicos, os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU, inclusive os anteriores de Joss Whedon, desapareciam.
Não havia a construção de um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, extraindo qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parecia ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredava por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, os Russo estavam interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo compartilhado da Marvel, uma falha de ignição notável, que sua bilheteria impressionante não conseguiu sobrepujar.

O que poderia acontecer em um ano, para a chegada de Vingadores – Ultimato? Primeiro, parece que os Russo fizeram concessões em Guerra infinita para realizarem este segundo com mais liberdade. Embora haja elementos do produtor Kevin Feige, ele não tem claramente a presença aqui como nos demais desse universo. Com exceção de alguns momentos de ação, da fantasia e do estilo narrativo em determinadas partes, é outro tipo de cinema. Apesar do tom de autoimportância, ele vai, aos poucos, se confirmando como plausível.
Ultimato tem um primeiro terço verdadeiramente dramático, com um cenário de terra arrasada literalmente, desde a primeira sequência com a família de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), notável na criação de um espaço de distância de tudo, apesar de elementos cômicos pontuais e cabíveis no contexto.

É o que a Marvel mais conseguiu fazer próximo da sua principal rival na área, mas com um sentido mais pop, embora não menos emocional. É delicado, simples e vai direto ao ponto, com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), James Rhodes (Don Cheadle), Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), Rocket (Bradley Cooper) e o Gavião Arqueiro, além de Carol Denvers (Brie Larson) e Nebula (Karen Gillan), querendo arranjar uma solução para conseguirem rever alguns companheiros desaparecidos (para quem não viu Guerra infinita, deixo em suspenso). Também temos Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e o melhor acréscimo: Scott Lang/Homem-Formiga (o sempre efetivo Paul Rudd). Todos querem enfrentar novamente o temível Thanos (Josh Brolin). Não sem antes os irmãos Russo conseguirem reproduzir uma série de sequências cômicas com Thor e Bruce Banner que não têm o absurdo de Thor: Ragnarok, mas resoluções por vezes notáveis (e os efeitos especiais de Banner são ótimos).

Desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, os Russo não conseguiam fazer interação entre personagens como. Se em Guerra infinita os super-heróis apareciam e desapareciam sem criar o devido impacto, em Ultimato eles são devidamente considerados. Não há mais lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros e mesmo durante as batalhas os encontros se dão com uma sensação de vínculo ou proximidade. Se Bruce Banner pouco aparecia no último, aqui ele finalmente ganha um sentido narrativo. O mesmo se diz de Capitão América e Homem de Ferro, em atuações ótimas de Chris Evans e Robert Downey Jr. São personagens que pouco tinham a fazer em termos realmente dramáticos em Guerra infinita. Sobretudo o Capitão América, por ser o personagem mais dirigido pelos Russo, ganha um tom de serenidade empregado por Evans capaz de se contrapor aos episódios iniciais de maneira muito interessante, no entanto, ainda assim, evocando principalmente a obra inicial de sua história, dirigida por Joe Johnston. Ele representa os personagens principais do filme de 2012, cujo arco é fechado nesta peça de maneira muito competente e que recebem o destaque merecido em relação aos que tiveram seus filmes feitos depois.

Ao longo da narrativa, há uma sensação de passagem de tempo, de melancolia, que inexiste em qualquer outro filme da Marvel, pois a companhia, muito por causa de seu produtor, costuma padronizar algumas tramas. Os Russo estão mais interessados em sensações que não têm obrigatoriamente vínculo com uma franquia ou com ultrapassar bilheterias: eles conseguem desenhar um arco amplo sobre o universo compartilhado sem caírem na previsibilidade, inclusive com momentos-chave envolvendo personagens até mortos, criando uma redoma de tempo que não pode mais ser recuperado. Nesse sentido, elogiar Ultimato pelos pressupostos com os quais eram tecidos os comentários sobre Guerra infinita é estranho: ambos são quase totalmente diferentes. Mesmo visualmente, o quarto episódio com todos os heróis da Marvel é mais discreto, sem tanto CGI, focado em paisagens terrestres isoladas, ou casas campestres, criando uma ilusão de mundo distanciado. Os movimentos de câmera são mais dosados, não há uma necessidade de soar frenético e cada comportamento dos personagens parece ter uma explicação dentro da trama, fazendo com que a duração de 3 horas seja fluida, sem interrupções ou desvios tortuosos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Avengers – Endgame, EUA, 2019 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Josh Brolin Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 181 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Ilha dos cachorros (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival de Berlim deste ano, Ilha dos cachorros, embora possa se parecer com O fantástico Sr. Raposo, tem muito mais de Moonrise Kingdom do que qualquer outra obra de Wes Anderson, assim como remete, em vários momentos, ao restante de sua filmografia, com um humor agridoce e afetivo. A maneira como a cultura japonesa é apresentada pode soar, em alguns momentos, provocadora, mas poucos criadores do Ocidente conseguiram mostrá-la com tantos detalhes nos últimos anos, principalmente no uso de ambientações típicas.
A história mostra a decisão do prefeito de Megasaki, Kobayashi (Kunichi Nomura), que decide mandar todos os cães de seu país, por motivos de saúde, para uma ilha erguida por detritos. Ele é representante de uma dinastia que lutou contra a presença de cachorros na sociedade, preferindo os gatos – e o início do filme poderia lembrar Kagemusha. O menino que apadrinha, Atari (Koyu Rankin), deseja rever seu cão Spots (Liev Schreiber), indo de avião resgatá-lo na ilha.

O filme se passa vinte anos no futuro, e Anderson, junto com a história elaborada em parceria com Roman Coppola, Jason Schwartzman (com os quais escreveu Viagem a Darjeeling) e Kunichi Nomura, mostra uma sensibilidade insuspeita quando Atari encontra um grupo de cães: Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum). Há também uma estudante, Tracy Walker (Greta Gerwig), que deseja salvar esses cães. E há ainda Nutmeg (Scarlett Johansson), que cria interesse imediato em Chief, e dois cães que parecem guias misteriosos, Jupiter (F. Murray Abraham) e Oracle (Tilda Swinton).
Anderson mostra os cães como em seu cartaz: constantemente olhando para a câmera, numa quebra da quarta parede, concedendo uma humanidade imprevista. Do mesmo modo, ele trabalha com os espaços da ilha quase do mesmo modo que faz em Moonrise Kingdom, ampliando o olhar para detalhes no horizonte e em certa melancolia. Ele lida com sentimentos dos seres humanos pelos animais, mas de modo introspectivo, bem diferente do grande sucesso comercial (e divertido) Pets e dos clássicos 101 dálmatas e Todos os cães merecem o céu. Isso não o afasta de algumas gags efetivas (“Parem de lamber suas feridas”, diz o líder, enquanto um dos parceiros exatamente as lambe).

Desde o início, Ilha dos cachorros se mostra um filme de Wes Anderson, principalmente pela movimentação de câmera. É estranho que os diálogos em japonês não sejam legendados, apenas traduzidos em conferências (com a voz de Frances McDormand), talvez para criar mais um desvio narrativo. O uso da trilha sonora de Alexandre Desplat, assim como de canções no estilo indie típicas na filmografia de Anderson (com exceção feita a seu filme anterior, O grande Hotel Budapeste), se mostra mais uma vez acertada.
Estruturado nesses elementos, Anderson expande seus temas já mostrados antes: a figura da família é essencial para entender Atari. Ele é um menino órfão, assim como o de Moonrise Kingdom, do mesmo modo que tem uma relação conflituosa com seu padrinho, a exemplo do que vemos em outros momentos da carreira de Wes Anderson. Atari não é expansivo como outras crianças da filmografia do cineasta: suas reações são mais distantes. Ao contrário de O fantástico Sr. Raposo, também há um certo afastamento dos que podem ser considerados humanos, baseado na figura de Kobayashi, inspirado no ator Toshiro Mifune, que apareceu em diversos filmes de Akira Kurosawa e aqui parece ecoar aquela atuação de O barba ruiva.

O uso das cores, assim como no stop-motion anterior de Anderson, O fantástico Sr. Raposo, é espetacular, realçando o cenário como poucos cineastas, mesmo orientais, conseguiriam. É uma qualidade conhecida do cineasta, porém poucas vezes depurada como neste trabalho exemplar. Premiado como melhor diretor em Berlim, Anderson parece mais interessado em deixar seus sentimentos mais contidos do que revelados, o que já mostrou ao longo de sua trajetória, nunca de modo tão presente quanto aqui. Ele parece, ao mesmo tempo intensificar sua assinatura e fazê-la menos particular, inclusive no tom baixo das músicas e na quase falta de transição clara entre as cenas. De qualquer modo, há sempre ainda, por baixo de tudo, o sentimento familiar de seus primeiros filmes, a começar por Os excêntricos Tenenbaums e Viagem a Darjeeling, na maneira como os cães interagem, a princípio desconfiados uns dos outros, em seguida unidos pelo mesmo objetivo. A construção de ideia de família transita entre o mundo humano e o animal, no entanto nunca de maneira tão óbvia quanto aparenta nesta obra de verdadeiro comunicado sobre o comportamento da natureza, solícito ou não, preparado para o embate contra o que pode prejudicá-la.

Isle of dogs, EUA, 2018 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Bob Balaban, Kunichi Nomura, Ken Watanabe, Greta Gerwig, Frances McDormand, Fisher Stevens, Nijiro Murakami, Harvey Keitel, Koyu Rankin, Liev Schreiber, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Akira Ito, Akira Takayama, F. Murray Abraham Roteiro: Wes Anderson História: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman, Kunichi Nomura Narração: Courtney B. Vance Fotografia: Tristan Oliver Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wes Anderson, Scott Rudin, Steven Rales, Jeremy Dawson Duração: 101 min. Estúdio: Indian Paintbrush, American Empirical Pictures Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

A vigilante do amanhã – Ghost in the shell (2017)

Por André Dick

O diretor Rupert Sanders estreou com um grande blockbuster há alguns anos, Branca de neve e o caçador, um dos mais interessantes do gênero de fantasia, mesmo com sua má recepção em geral, com Kristen Stewart e Charlize Theron vivendo um duelo transposto do conto de fadas. Sanders já demonstrava um talento interessante para a composição de imagens diferenciadas, em que o fantástico se mesclava com um tom que remetia aos filmes dos anos 80, a exemplo de A lenda e Labirinto, e Cruzada e Gladiador, de Ridley Scott, principalmente na grandiosidade de algumas cenas de batalha.
Em seu novo filme, A vigilante do amanhã – Ghost in the shell, ele procura outro universo, baseado no mangá criado por Masamune Shirow. Num futuro não muito distante do Japão, a Hanka Robotics desenvolve o projeto de um corpo que, ao invés de simplesmente ser uma inteligência artificial, carrega um cérebro humano. No caso, Mira Killian (Scarlett Johansson) é um jovem sobrevivente de um ataque em que seus pais morreram. A Dra. Ouelet (Juliette Binoche) é a sua idealizadora e Cutter (Peter Ferdinando), o responsável pela Hanka, decide usá-la para combater o terrorismo.

Killian, depois de certo tempo, se torna uma major no Setor 9, trabalhando com Batou (Pilou Asbæk) e Togusa (Chin Han) sob as ordens de Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano). Killian, no entanto, como RoboCop, vem tendo lembranças do seu passado e quer descobrir, afinal, sua origem. Esta é a busca de Batty em Blade Runner, e A vigilante do amanhã trabalha no mesmo universo cyberpunk, em que o corpo humano é confrontado com o tecnológico – e muitos detalhes remetem também à adaptação do conto de Phillip K. Dick Minority Report, feita por Spielberg. Depois de uma determinada missão, Killian se depara com uma figura desconhecida chamada Hideo Kuze (Michael Pitt). Kuze e Killian podem ter mais algo em comum do que o aparente universo que os afasta.
O filme de Sanders tem um design de produção notável, influenciado tanto por Blade Runner quanto pela Seul futurista de Cloud Atlas, das irmãs Wachowski e Tom Tkywer, e pelo Japão psicodélico de Enter the void, embora seus temas possam dialogar mais com Matrix, a ficção científica referencial do final dos anos 90, e RoboCop, de Paul Verhoeven. O design funciona em conjunto com a narrativa, que parece às vezes contemplativa, em termos de ação e de envolvimento emocional. A escolha de Scarlett Johansson foi muito criticada por ela não ser uma atriz oriental, mas deve-se dizer que a figura original tinha traços ocidentais, e a atriz tenta utilizar a falta de emoção da personagem como resultado apenas de sua configuração tecnológica.

O segmento de Cloud Atlas em que se mostra Sonmi-451, interpretada por Doona Bae, dialoga aberta com A vigilante do amanhã. Bae era uma atriz que conseguia imprimir certa emoção mesmo com poucos gestos, já que lá também era um experimento tecnológico que estava à frente de uma revolução. Por sua vez, Johansson nunca transparece grandes sentimentos em suas personagens (curiosamente, aquele filme em que mais transpareceu afeto foi Ela, em que fazia um dispositivo virtual romântico) e aqui ela consegue transparecer uma humanidade diferente da superfície gelada – melhor do que em Lucy e Sob a pele, no qual fazia uma alienígena. Fala-se que esta escalação é o que levou o filme a uma dificuldade clara de obter uma bilheteria condizente com seu orçamento. Não se trata disso, e sim do fato de que o roteiro tem um rumo filosófico, embora alguns personagens não tenham o desenvolvimento adequado, principalmente da personagem de Binoche, excepcional atriz francesa, tão subaproveitada quanto em Godzilla e fazendo uma parceria indireta com a Marion Cotillard de Assassin’s creed.
Se já existia uma animação clássica baseada nesse mangá, dos anos 90, A vigilante do amanhã se sente bem feito em suas sequências de ação, lembrando Assassin’s creed, mas se equivoca em alguns momentos em depositar suas chances numa possível continuação, sem desenvolver suficientemente a história.

Ainda, assim a importância que dá ao visual – plano em que a atuação de Johansson ganha uma nuance de destaque, pelos efeitos visuais incríveis – se vê expandida por esta busca da personagem por seu eu verdadeiro e, mesmo que a trama principal seja simples, o que se passa na tela não necessariamente fica esclarecido, deixando uma sensação de mistério interessante. Há cenas que dialogam com o segundo John Wick, deste ano, com sua profusão de neons, porém A vigilante do amanhã desenvolve imagens simbólicas, como a da casa oriental que a personagem vislumbra e pode remeter a algo mais íntimo, assim como o mergulho na água pode representar tanto adentrar na vida quanto na mente alheia ou na morte. E Keanu Reeves, sendo seu personagem quase uma máquina, parecia ter um sentimento de angústia permanente, o que não acontece com Johansson.
O roteiro de Ehren Kruger, William Wheeler e Jamie Moss se sente lento e, ao mesmo tempo, apressado, dando ao filme uma camada existencial interessante. Enquanto não vemos todos os personagens se desenvolvendo, percebemos que o diretor não está também interessado em cobrir a lacuna do problema com ação ruidosa, que excluiria da história seu diferencial. O que torna o espetáculo mais atrativo ainda é, além do design de produção e dos efeitos visuais, a fotografia de Jess Hall, que colaborou em Transcendence. Hall tem um olhar interessante para a composição de cores e os enquadramentos. Veja-se o olhar que ele lança para uma repartição de edifícios visitada por Killian, com o céu ao alto. Dentro do material e da narrativa em que seu trabalho é inserido, ele se sente bem o quanto poderia: A vigilante do amanhã é surpreendentemente profundo.

Ghost in the shell, EUA, 2017 Diretor: Rupert Sanders Elenco: Scarlett Johansson, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Pilou Asbæk, Chin Han, Juliette Binoche, Lasarus Ratuere, Danusia Samal, Yutaka Izumihara, Tawanda Manyimo, Peter Ferdinando, Pete Teo Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler, Ehren Kruger Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Lorne Balfe, Clint Mansell Produção: Avi Arad, Steven Paul, Michael Costigan Duração: 107 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, Arad Productions, Shanghai Film Group Corporation, Huahua Media Distribuidora: Paramount Pictures

Capitão América – Guerra Civil (2016)

Por André Dick

Capitão América 3

Se o primeiro filme da nova fase de Capitão América era dirigido pelo competente Joe Johnston, um especialista em obras de fantasia, com uma ótima ambientação e uma atuação excelente de Stanley Tucci, a sua continuação, Capitão América 2 – O soldado invernal, parecia indicar realmente uma narrativa diferenciada, com toques de thriller de espionagem e uma cena de luta coreografada num elevador. Chris Evans se tornou uma boa referência para o personagem depois do primeiro filme de Joe Johnston – em que o destaque era o início, mostrando o surgimento do personagem – e Scarlett Johansson novamente tinha boa presença.
Apesar de ótimas cenas de ação, há uma sensação incômoda de que o visual da segunda parte de Capitão América tende a lembrar mais a de um telefilme do que a imaginação do primeiro, claramente causado pela mudança de cenário; no entanto, ela é brusca e o design de produção não é atraente para os olhos, assim como a fotografia. Ao final, os efeitos especiais e as cenas de ação lembravam Os vingadores de forma demasiada para dar a sensação de que havia realmente algo original a ser visto nele – embora tivéssemos a atuação de Robert Redford e Samuel L. Jackson cumprindo bem o seu papel.

Capitão América 9

Capitão América 4

Capitão América 14

No entanto, o que realmente decepciona no segundo filme é a direção dos irmãos Joe e Anthony Russo, mais interessada em seguir o roteiro da Marvel do que investir naquele caminho que apresentam na primeira hora – quando há até um pouco de elementos autorais. Nesta terceira parte, Capitão América – Guerra Civil, novamente dirigida por eles, temos já desenhado o duelo – demarcado principalmente por certa cota da crítica – entre o que seria o estilo da Marvel e o da DC Comics. Mesmo com os três Homem de Ferro, os dois Hulk e Thor, é este o momento em que Batman enfrenta Superman no cinema e as comparações passam a ser do filme de Snyder com a obra dos irmãos Russo. E um fato notável: cada peça lançada de super-heróis da Marvel passa a ser a maior já feita no gênero, parecendo ignorar o que já fizeram cineastas como Tim Burton, Richard Donner, Richard Lester, Ang Lee, Edgar Wright, Jon Favreau, Kenneth Branagh, Sam Raimi, Cristopher Nolan e aquele ao qual foi entregue, inadvertidamente, a placa de prepotência desse universo: Zack Snyder. Não passa a ser desconhecimento, e sim uma consciente e infeliz falta de memória.
Nos dois primeiros Capitão América, faltava uma ligação mais interessante do personagem com os outros; ele se sentia sempre isolado, em conflito, mesmo como Steve Rogers, afora seu interessante contato com o criador feito por Stanley Tucci – e a série passa de uma quase fantasia do primeiro para um thriller no segundo. É um personagem sem o carisma dos outros, principalmente Stark, embora Evans faça o possível para tornar seus diálogos ágeis e seja, digamos, a parte mais melancólica do grupo, devido a ser alguém do passado vivendo numa época turbulenta.

Capitão América 15

Capitão América

Capitão América 6

Aqui os irmãos Russo colocam o personagem numa situação delicada: ele quer defender seu amigo de longa data, Bucky Barnes (Sebastian Stan), o soldado invernal, capturado e transformado pela Hydra em assassino, do que ele imagina ser uma conspiração. Para complicar, houve um problema num país no Quênia, África do Sul, provocado tanto pelo Capitão América quanto pelo Falcão (Anthony Mackie), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson).  Causam um certo alvoroço e o governo dos Estados Unidos, pela figura do secretário de Estado Thaddeus Ross (William Hurt), ex-general e inimigo de Hulk, deseja enquadrar os vingadores. A partir daí, o mote é a lembrança do que eles já fizeram nos filmes anteriores – sobretudo em Nova York e em Sarkovia. Stark se encontra num momento particularmente difícil e parece longe seu desafio às autoridades sobretudo de Homem do ferro 2, quando ele pretende privatizar a paz mundial. Aqui, ele parece mais preocupado em acertar um determinado acordo com a ONU e convencer o Capitão América – com quem se desentende desde o primeiro Os vingadores – que surge principalmente nas figuras de T’Chaka (John Kani) e seu filho T’Challa (Chadwick Boseman). Em meio a tudo, surge uma figura chamada Helmut Zemo (o talentoso Daniel Brühl, inevitavelmente desperdiçado).
Os irmãos Russo, como no segundo filme, apresentam uma primeira hora de grande qualidade, com uma colocação acertada dos personagens e uma trama misteriosa que está no nível dos bons thrillers. Eles sabem fazer cenas de contato físico aproximado, o que não é uma especialidade de Joss Whedon, mais interessado na grandiosidade dos cenários, principalmente nas batalhas finais dos dois Os vingadores. Os irmãos Russo também possuem um bom ouvido para o diálogo; ele não soa forçado, mesmo que as situações pareçam excessivamente implausíveis. Porém, eles não apresentam o que seria um diferencial no gênero da fantasia: a ambientação.

Capitão América 20

Capitão América 10

Capitão América 11

Tudo neste Capitão América, como no anterior, se passa em cenários duramente reais, sem um design de produção atraente. Por isso, a comparação deste estilo com o de Zack Snyder – o diretor que, junto a Nolan, projetou o visual dos filmes da DC Comics –, um criador com toque visual delirante, é improvável e deslocada. O que eles mostram aqui é uma deliberada ponte entre o humor e a ação, a especialidade de Joss Whedon, ou seja, não há evolução aqui como deseja parte da crítica e do público, aceitem ou não seus críticos, e um interesse em tratar da política e do modo como a segurança é vista – ou deve ser vista – em relação ao ser humano, embora esse tema não chegue a ser original.
Por estarem incumbidos de apresentar um filme com uma quantidade insuspeita de heróis – e talvez falar neles possa remeter a spoilers –, eles tentam facilitar as coisas assumindo tudo numa única sequência que surpreende pela coreografia impecável das lutas e por um efeito visual específico, mesmo que sem nenhum tom de ameaça (pelo contrário, os personagens parecem apenas se apresentar para o próximo episódio) e cujo cenário é absolutamente comum, sem nenhuma criatividade. Se é isso que certa crítica aponta como sendo o problema de Snyder (o CGI), pode-se dizer que estamos falando de outra coisa: a decisão da Marvel de fazer uma ambientação seca, sem, inclusive, o que víamos nos dois Thor, torna suas produções visualmente muito limitadas. Tanto que, quando em determinado momento (spoiler), surge uma prisão marítima espetacular, parece que o espectador adentra em outro filme (se fosse em Snyder, certamente a concepção da prisão seria excessivamente dark).

Capitão América 7

Capitão América 16

Capitão América 18

Em termos de simbologia, também não há qualquer semelhança dos irmãos Russo com Snyder. Capitão América é um personagem envolvido com corporações, mas sua dedicação à amizade coloca em xeque sua amizade exatamente com alguns companheiros de batalha. No entanto, enquanto Snyder aprofunda o fato de que os heróis não são assim porque querem, a alegria dos heróis da Marvel é justamente serem o que são. Não ver essas diferenças é uma desonestidade consciente, quando Capitão América, em seus melhores momentos, entrega um ritmo não no nível de Whedon ou mesmo do Homem-formiga – particularmente o maior acerto da companhia –, mas de um filme de ação muito bem feito. Ainda assim, faltam motivações claras por parte do vilão, além de ele se distanciar da narrativa com um tempo considerável para quase ser esquecido, e nenhum até agora conseguiu se equivaler ou superar o Loki de Tom Hiddleston – e William Hurt, com sua habitual competência, acaba assumindo às vezes o posto de forma involuntária. Isso é contrabalançado por Chris Evans e por um ótimo Robert Downey Jr., em participação superior às que apresenta no terceiro Homem de Ferro e no segundo Os vingadores – e o ator aparece no início do filme em versão jovem revolucionária, como se estivesse em De volta às aulas ou Mulher nota mil.
Embora Capitão América – Guerra Civil sobreviva muito bem às duas primeiras partes, sendo o melhor por diferença considerável, há alguns elementos que poderiam ser melhor trabalhados no sentido, principalmente, psicológico. A maneira como Stark se aprofunda em sua memória poderia ser melhor trabalhada, em relação como a maneira que o Capitão América tenta proteger um amigo por ser, na verdade, seu único elo vivo com o passado. Stark é o homem da modernidade e o Capitão América se conserva com certo classicismo. A Viúva Negra fica procurando por uma conciliação, mas é difícil quando os comportamentos são opostos. Isso não fica empregado do melhor modo pelos irmãos Russo, pela necessidade de incluir tantos super-heróis, embora eles consigam delinear as relações entre os personagens com desenvoltura, tudo acaba parecendo disperso, mesmo que em ritmo adequado (poucas vezes se repara na excessiva metragem) e com um final realmente surpreendente e que costura algumas tramas paralelas do melhor modo. No entanto, o que é um filme divertido não significa ser de fato superior aos outros, mesmo aos da Marvel, apenas para os que não viram (realmente) os de Whedon, Branagh, Ang Lee: como a presença de Stan Lee, as cartas estão sempre marcadas.

Captain America: War civil, EUA, 2016 Diretores: Anthony Russo, Joe Russo Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Daniel Brühl, Paul Rudd, William Hurt  Roteiro: Christopher Markus, Jack Kirby, Joe Simon, Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Kevin Feige Duração: 146 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Entertainment / Marvel Studios

Cotação 3 estrelas

 

Ave, César! (2016)

Por André Dick

Ave, César! 4

Se há uma característica própria dos irmãos Joel e Ethan Coen é a sua versatilidade, capaz de alternar filmes excepcionais com outros que parecem apenas brincar com determinados temas. O filme anterior a este Ave, César! foi o mais do que superestimado Inside Llewyn Davis, recebido pelo público e pela crítica de modo muito mais entusiasmado. Talvez porque Ave, César! seja quase inclassificável, uma espécie de mistura do que os irmãos já mostraram em Barton Fink e Um homem sério com novos acréscimos. O roteiro mostra o diretor do estúdio Capitol Pictures, Eddie Mannix (Josh Brolin, excelente), que, determinado dia, tem um de seus astros, Baird Whitlock (George Clooney, divertido mais uma vez sob a direção dos Coen, como em Queime depois de ler), sequestrado, logo quando está para terminar as filmagens de Hail, Caesar!, uma reconstituição da presença de Jesus Cristo na Roma Antiga.
Os motivos para os irmãos usarem essa simbologia religiosa já estava claro em Um homem sério, mas é aqui que se torna ainda mais interessante. A narrativa segue uma linha de liberdade, mostrando cenas de filmes diferentes sendo filmadas: DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) tem uma ligação suspeita com Mannix, enquanto Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) provoca a ira do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), e Burt Gurney (Channing Tatum) atua como marinheiro num musical que parece lembrar o Gene Kelly de Cantando na chuva. Mannix também precisa se desvencilhar de Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton), irmãs gêmeas e colunistas rivais.

Ave, César! 5

Ave, César! 9

Ave, César! 12

Além disso, ele precisa se encontrar com padres e pregadores para avaliar como seria o seu projeto sobre a vida de Cristo. Os irmãos Coen subvertem a situação mirando um certo humor de origem judaica, já vislumbrado no excelente Um homem sério, mas que aqui adquire outra carga: não por acaso, Mannix é um homem cheio de culpa e vai ao confessionário tentar se eximir de sua condição.
Passado nos anos 50 – um pouco depois do período que mostraram no noir O homem que não estava lá –, os irmãos Coen fazem uma homenagem ao cinema dessa época, enquanto satirizam tanto a indústria cinematográfica quanto as ideias comunistas que estavam se proliferando na capital do cinema. Alguns dos diálogos são extremamente saborosos, mantendo uma ideia de época e de contemporaneidade. Para os irmãos Coen, as ideias não somem, apenas mudam de forma, e não por acaso eles parecem homenagear aqui três cineastas: Billy Wilder (de Crepúsculo dos deuses), David Lynch (de Cidade dos sonhos) e Wim Wenders (Estrela solitária), principalmente na figura do astro que interpreta caubóis.
Essa metalinguagem sobre o universo do cinema é vinculada, na narrativa dos Coen, à questão da fé pessoal e no uso de pessoas para estruturar uma ideia de estúdio, cuja finalidade é ajudar a movimentar a indústria. No entanto, como bons roteiristas, os Coen nunca se negam a ver uma fresta de sátira nesse comportamento, não levando a sério nenhuma das questões, sem, contudo, desprezá-las. As figuras do caubói, a princípio ingênua, e do ator que interpreta César com um overacting terrível, ajudam a manter o filme dos Coen numa área de questionamento, assim como o comportamento de Mannix.

Ave, César! 3

Ave, César! 2

Ave, César!

A oposição entre a claridade e a escuridão se mostra não apenas no tempo em que se passa – durante um dia – como na narrativa dividida em atos de filmagens, que trazem uma atmosfera maravilhosa que se contrapõe à vida real. Enquanto transcorre o mccarthismo, os Coen não se incomodam em mostrar exatamente um grupo de roteiristas com uma ligação estabelecida imediatamente com Moscou – quase um lado subversivo do que mostraram no roteiro politicamente correto de Ponte dos espiões, mais próximo de Barton Fink. Em vez de tecerem observações filosóficas sobre o livro referencial sobre o capitalismo, eles preferem atuar numa frente que lembra mais a sátira de David Cronenberg ao sistema financeiro, em Cosmópolis. E, apesar de o filme nunca cair no ridículo, como Queime depois de ler, ele brinca com a espionagem de maneira corrosiva.
Impressiona como os diretores conseguem imprimir, por meio desses personagens às vezes sem uma ligação clara, uma notável agilidade à narrativa, junto com a ideia de que não sabemos quando estamos ou não encenando, ou a partir de que ponto não fazemos parte de uma obra maior. Ao mostrar astros agindo de maneira estranhamente ingênua em seus passos “reais”, há uma outra visão sobre o mundo que está sendo descortinado.
Com mais um trabalho de fotografia belíssimo de Roger Deakins, Ave, César! ainda apresenta uma das melhores reconstituições de época, sob o auxílio de Jess Gonchor, e um figurino belíssimo de Mary Zophres. E, ao contrário de algumas peças recentes dos diretores, principalmente o melancólico Inside Llewyn Davis, Ave, César! se alegra em mostrar peças de humor dentro de seu roteiro. Ele consegue captar, em várias camadas, a atmosfera de um período do melhor modo.

Ave, César! 15

Ave, César! 18

Ave, César! 14

Como nos demais trabalhos dos irmãos Coen, as atuações têm uma rara qualidade, não apenas de Brolin e Clooney, mas dos coajduvantes, como Johansson e Channing Tatum (praticamente numa participação especial), mas principalmente Alden Ehrenreich e Fiennes, num dueto memorável. Ainda assim, o maior êxito do filme parece ser o de sua montagem – feita pelos próprios diretores –, ao mesmo tempo aberta e cuidadosa, com os personagens entrando e saindo de cena sem cansar o espectador. Os personagens funcionam num plano simbólico, ao contrário daqueles de Inside Llewyn Davis,  e as imagens permitem uma leitura da história do cinema, independente do seu desenvolvimento. Por toda a narrativa se passar em basicamente num dia de filmagens, é possível ver os personagens e a história com a luminosidade da manhã. Tudo isso auxiliado por uma espécie de surrealismo da realidade, principalmente quando George Clooney vestido de César caminha por um corredor enquanto uma senhora usa um aspirador, ou quando o caubói grava uma de suas cenas montando um cavalo. Na verdade, ao contrário do que ele diz em outra produção para divulgar seu nome, nada é simples neste filme que entra facilmente na lista de obras-primas dos diretores.

Hail, Caesar!, EUA, 2016 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen Elenco:  Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Jonah Hill, Christopher Lambert, Frances McDormand Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Eric Fellner, Ethan Coen, Joel Coen, Tim Bevan Duração: 106 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Mike Zoss Productions / Working Title Films

Cotação 5 estrelas

 

Mogli – O menino lobo (2016)

Por André Dick

Mogli 1

Depois de realizar os dois primeiros Homem de ferro, o diretor e ator Jon Favreau se viu num momento difícil ao ser contestado de forma vigorosa por seu trabalho em Cowboys e aliens, com Daniel Craig e Harrison Ford em boas atuações. Segundo ele, para fugir aos grandes estúdios e grandes projetos, ele fez Chef, em que atuou também como um cozinheiro que se vê às voltas com uma nova maneira de atrair seus clientes, depois de estar à frente de um restaurante.
No entanto, não levaram três anos para que Favreau se voltasse novamente a um grande projeto, ligado aos estúdios Disney: a refilmagem de Mogli – O menino lobo, cuja versão mais conhecida era a de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman e o último supervisionado por Walt Disney, antes de sua morte. Apesar de apreciar muitas animações, acredito que o desenho animado original é um dos melhores já feitos, uma mescla de humor e musical, cuja simpatia é destacada – e, ao assisti-lo pela primeira vez, com a minha esposa, que o tinha como referência de filmes na infância, já havia ficado admirado com a maneira que o diretor Reitherman conseguiu transformar a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal.
Ao contrário da versão de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de estarmos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim, As aventuras de Pi e Avatar. Embora não tenha assistido a e ele em 3D (optamos por uma versão em 2D, legendada), fica difícil negar o quanto Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme – mais real do que aquela que vi no trailer do próximo Tarzan. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta.

Mogli 20

Mogli 16

Mogli 22

A história segue inicialmente os mesmos passos da versão original: Mogli (Neel Sethi, único ator real) é um menino criado numa matilha de lobos, adotado por Raksha (Lupita Nyong’o) e Akela (Giancarlo Esposito).  Ele vive ao lado de seus irmãos lobos quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Edris Elba, com trabalho de voz temível). A partir daí, já se sabe o que acontecerá: Mogli terá a ajuda de Bagheera (Ben Kingsley, ótimo) – uma pantera que o salvou quando era criança – para chegar à aldeia onde vivem os humanos.
No entanto, há percalços pelo caminho, e a figura mais inusitada surge: o urso Baloo. É a interação entre o urso (cuja voz é de Bill Murray, num grande momento) e Mogli que rende os melhores momentos da versão dos anos 60 e desta: há uma união no sentido de que o menino lobo o ajudará a encontrar mel o suficiente para que possa hibernar com tranquilidade. Favreau lida com humor, assim como Reitherman, com essa situação inusitada e daí para a frente a obra se sucede numa sequência grande de ação, modificando alguns elementos do original – e falar aqui seria redundar em spoilers.
Alguns falam o quanto o original torna estereotipada a imagem da Índia no sentido cultural. Embora estivesse a 17 anos de Indiana Jones e o templo da perdição, o verdadeiro estereótipo dessa cultura (com o humor de Spielberg e Lucas), Mogli talvez não tivesse o intuito de defini-la, como este filme também não possui. Há um jogo de personagens universal aqui e Favreau lida mesmo com violência e um sentido de realidade que o de 67 não possui (pelo menos, nem todas as cenas são para crianças). É um traço do diretor, que em Cowboys e aliens afastou parte do público a que se destinava pelas cenas de violência (principalmente a inicial, quando o personagem de Craig é abordado por alguns forasteiros).

Mogli 3

Mogli 23

Mogli 5

Do mesmo modo, este Mogli trabalha num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, e nem mesmo a volta das canções “Wan’na Be Like You” e “The Bear Necessities” atenua este traço. Scarlett Johansson faz de forma destacada a voz de Kaa – e é um de seus melhores trabalhos, ao lado de Ela, em que também aparecia apenas por meio da voz –, com uma cena no mínimo assustadora. No entanto, talvez o destaque fique por conta de Cristopher Walken, como Louie. Interessante perceber como a maneira de olhar dos personagens de Murray e Walken se parece com a dos atores; percebe-se que Favreau lidou com ela na criação da imagem animada.
A questão mais intrigante desse universo (breve spoiler) é realmente a maneira como o menino se insere entre os animais e a questão da “flor vermelha”, que seria o fogo ameaçador para o tigre Shere Khan, que ficou cego de um olho por causa de uma tocha. Favreau parece imaginar esses personagens também como figuras solitárias de uma selva gigantesca e o menino como uma ameaça de que pode crescer e acabar com tudo por meio do fogo. (fim de spoiler) Não apenas há um diálogo interessante com o universo de Tarzan como se sente a ameaça desse universo em cada ponto. O filme inicia quase como uma sequência a uma das passagens do Apocalypto, de Mel Gibson, e em determinado momento evoca, de forma ainda mais curiosa, Apocalypse now.  O trabalho de imagens que lida com essa simbologia é destacado ainda mais em razão da fotografia de Bill Pope, cujo trabalho em Matrix, Homem-Aranha 2 e Scott Pilgrim contra o mundo mostra o mesmo vigor para cenas de ação e um poder quanto aos detalhes que poderiam passar despercebidos, dando real movimento às sequências nas quais Mogli parece correr um real risco. E Neel Sethi se mostra um ator versátil para levar a história adiante, embora eu considere que o humor de Mogli na versão de 67 era um destaque, assim como a mais próxima ligação entre Baloo e Bagheera, aqui deixada um pouco de lado.

Mogli 15

Mogli 6

Mogli 9

Mas o maior sentido do trabalho de fotografia se dá no sentido épico que Favreau empresta a esta adaptação: não são poucas as paisagens que são espetaculares e definitivamente reais, como na sequência em que Mogli precisa escapar de um determinado confronto e se vê no meio de um estouro de búfalos – é a cena talvez mais impressionante do filme por sua escala grandiosa, lembrando um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005). Há uma reverência de Favreau em relação à natureza, não apenas neste trecho como naqueles em que aparecem os elefantes – e a ligação que o menino lobo tem com todos, mesmo não sendo, de fato, um animal. Todos os temas universais envolvendo a família são ressaltados no roteiro, e mesmo a passagem do menino por uma espécie de paraíso (em que pode haver a serpente) antes de conhecer a dor real de um acontecimento ligado à sua origem, torna esta obra de Favreau em algo mais do que uma produção para agradar ao grande público. Ele abrange a integração do homem e natureza como raras vezes se revela num filme.

The jungle book, EUA, 2016 Diretor: Jon Favreau Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling, Brighton Rose Roteiro: Justin Marks Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: John Debney Produção: Jon Favreau e Brigham Taylor Distribuidora: Walt Disney Studios

Cotação 4 estrelas

Dália negra (2006)

Por André Dick

Dália negra 20

O cineasta Brian De Palma sempre teve um atrativo pela adaptação de obras literárias, principalmente a partir de Carrie, a estranha, baseado em livro Stephen King, nos anos 70, e Pecados da guerra, baseado em romance de Daniel Lang. O melhor filme já feito sobre a estrutura socioeconômica dos Estados Unidos, A fogueira das vaidades, baseou-se, por sua vez, em Tom Wolfe. Nele, Quando Sherman McCoy (Tom Hanks) vai buscar sua amante Maria Ruskin (Melanie Griffith) no aeroporto, não desconfia que, na volta para casa, atropelará um homem, no Bronx, causado pela amante. O problema é que a notícia invade os jornais, colocando McCoy numa situação difícil. Ele não pode dizer que a culpada foi sua amante, caindo numa situação ainda mais grave. Procurado pela polícia, que desconfia dele, McCoy se rende à pressão da sociedade e dos jornais, confessando estar envolvido com o atropelamento, não revelando nada à esposa (Kim Catrall). Quem se aproveita do fato é o repórter Peter Fallow (Bruce Willis), com problemas etílicos, que enxerga nisso uma possibilidade de fama. Na história, ainda se envolve um candidato à prefeitura (F. Murray Abraham, divertido) e uma série de traidores, levando McCoy à desgraça e ruína, tanto na Bolsa de Valores, onde trabalha, quanto em casa. Só lhe resta uma saída: mentir. Este é o caminho que Brian De Palma toma para tornar verossímil e divertida uma história complicada, baseada no romance de Wolfe: um universo de traição. Para isso, compara a situação de McCoy a óperas burlescas, presente nas cenas que vai a julgamento. A fogueira é um dos grandes trabalhos de De Palma.

Dália negra 4

Dália negra 12

Dália negra 2

Levaram 16 anos, no entanto, para que De Palma filmasse sua principal adaptação, desta vez de um livro de James Elroy, cujo Los Angeles – Cidade proibida foi resultado de outro filme seu, uma década antes. Trata-se de um tema diferente daquele visto em A fogueira das vaidades, mas visualizando a fundo a sociedade norte-americana. Alguns filmes têm uma recepção oposta à sua qualidade: difícil uma obra como Dália negra ter sido recebida do modo como foi no mesmo ano em que Scorsese recebeu o Oscar por um de seus filmes menos interessantes, Os infiltrados. O seu parceiro de direção de arte Dante Ferretti é responsável pela reconstituição de época desta obra-prima esquecida de Brian De Palma, talvez um de seus filmes com menos maneirismos na movimentação de câmera, certamente pela presença de Vilmos Zsigmond, responsável pela única indicação ao Oscar do filme e pela fotografia de O portal do paraíso: seu trabalho em Dália negra não se mostra menos excepcional.
A sensação é de que o espectador é transportado para a época e lugar em que se passa a história: a Los Angeles de 1947. Com transições de cena que lembram exatamente as de filmes desse período, De Palma, no entanto, não é sobrepujado pela tentativa de fazer metalinguagem, apesar de suas referências ao cinema de todos os modos, na investigação que empreendem dois detetives, Dwight “Bucky” Bleichert (Josh Hartnett), um ex-boxeador, e Lee Blanchard (Aaron Eckhart), para o assassinato da atriz Elizabeth Short (Mia Kirshner), a quem a imprensa atribui o apelido que nomeia o filme, a “dália negra”. Nessa investigação, Bucky terá de lidar com Madeleine Linscott (Hilary Swank) e Kay Lake (Scarlett Johansson), mulher de Lee.

Dália negra 3

Dália negra 7

Dália negra

A trama é sinuosa, adotando uma carga de influência noir, e dialoga muito com Hammett, de Wim Wenders; De Palma, em meio a essas influências, não interrompe o fluxo da narrativa, conhecido inesperadamente por ser estático. Um cineasta que entregou nos anos 80 obras como Vestida para matar, Os intocáveis e Scarface, e nos anos 90 Síndrome de Caim e O pagamento final deve ser reconhecido como um daqueles que melhor sabe costurar a narrativa com a atmosfera. Em Dália negra, é principalmente esta combinação que leva o filme para frente.
Vejamos, por exemplo, a sequência em que Bucky, interessado em Madeleine, encontra os pais dela, Emmett (John Kavanagh) e Ramona (Fiona Shaw), para um jantar. E a investigação dele possui todos os elementos de um filme de De Palma: Elizabeth Short possuía uma vida secreta, inclusive relacionada ao cinema de Hollywood não tão reconhecido. Em termos de De Palma, possuir esses elementos similares também é perceber que Dália negra apresenta vários momentos de metalinguagem, embora, em relação ao restante de sua obra, relativamente contida. O principal diálogo parece ser com a obra daquele que o cineasta escolheu como principal precursor: Hitchcock. Mas aqui já é distante o tempo em que De Palma escolhe até os mesmos temas. Em Dália negra, é surpreendente como o diretor incorpora sua influência e joga, ao mesmo tempo, com todo o cinema dos anos 40 e 50, sem diluir, e sim entregando uma obra nova.
Seria compreensível que a parte mais sensível do filme fosse a atuação de Josh Hartnett, mas ele tem um desempenho muito convincente, assim como Eckhart. Ainda assim, as atuações femininas de Kirshner, Swank e, principalmente, Johansson (possivelmente em sua melhor atuação depois de Ela) transportam a obra ainda mais para a época considerada áurea de Hollywood. Há comentários satirizando a presença de Swank como femme fatale – ela aparece com o habitual talento no filme, e De Palma sempre foi conhecido por extrair grandes atuações de atrizes.

Dália negra 10

Dália negra 6

Dália negra 9

De resto, há algo estranho quando um filme como Dália negra ser recebido da maneira como foi, enquanto Sin City faz sucesso a ponto de virar uma série – embora tenham propostas diferentes, há uma condescendência com este universo quando tratado sob uma ótica mais pop quando De Palma adapta Elroy da melhor maneira: entregando uma atmosfera excepcional e uma narrativa intrincada, em que não se sabe ao certo o que ocorre.
Pelo seu resultado junto à crítica e nas bilheterias, Dália negra parece ter custado a De Palma um afastamento de Hollywood, pois depois dele o cineasta só fez Guerra sem cortes e Paixão. É um filme que merece ser descoberto, pois talvez tenha, depois de O pagamento final, o melhor momento do cineasta desde os notáveis anos 80. Mas, mesmo em relação a seu conhecido Os intocáveis, Dália negra se sente ainda mais deslocado, um cinema assumidamente nostálgico, por outro lado apresentando uma carga moderna e uma atmosfera noturna fascinante. E ele definitivamente não é o que falam.

Black dahlia, EUA, 2006 Diretor: Brian De Palma Elenco: Josh Hartnett, Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank, Mia Kirshner, Mike Starr, Fiona Shaw, Patrick Fischler, James Otis, John Kavanagh, Troy Evans, Anthony Russell, Pepe Serna, Angus MacInnes, Rachel Miner, Victor McGuire, Gregg Henry, Jemima Rooper, Rose McGowan, Richard Brake, William Finley Roteiro: Josh Friedman Fotografia: Vilmos Zsigmond Trilha Sonora: Mark Isham Produção: Art Linson, Moshe Diamant, Rudy Cohen Duração: 119 min. Distribuidora: Universal Pictures

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

Vingadores – Era de Ultron (2015)

Vingadores.Filme 32

Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

Vingadores.Filme 35

Vingadores.Filme 36

Vingadores.Filme 18

Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

Vingadores.Filme 17

Vingadores.Filme 21

Vingadores.Filme 22

Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

Vingadores.Filme 37

Vingadores.Filme 5

Vingadores.Filme 24

Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

Vingadores.Filme 27

Vingadores.Filme 2

Vingadores.Filme 23

Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Lucy (2014)

Por André Dick

Lucy.Filme 1

É cada vez mais difícil encontrar filmes que conseguem mesclar uma pretensa realidade com toques de ficção científica e extraordinário. Neste ano, tivemos Sob a pele, com Scarlett Johansson, ficção bastante elogiada e com cenários estranhos, ligados ao interior da Escócia, permeados por uma sensação solitária, de afastamento da Terra – e o visual nunca chegava a combinar diretamente com a narrativa. Tendo no elenco a mesma Scarlett, Luc Besson fez este Lucy. Bastante conhecido desde os anos 80, quando fez o cult movie Subway, com Cristophe Lambert (um dos produtores de Lucy) e Isabelle Adjani, Besson se consagrou principalmente no início dos anos 90, quando realizou O profissional, um belo thriller com Jean Reno, Gary Oldman (no papel de um vilão assustador) e a revelação Natalie Portman. Mas alguns anos ele já realizado um filme com nível parecido, Nikita, sobre uma agente assassina e com passado obscuro. Nesses filmes, Besson mudava totalmente seu estilo mais contemplativo de seus experimentos iniciais, o referido Subway e Imensidão azul. Ainda nesta década, em 1997, ele realizou a ficção científica mais cara já feita na Europa, O quinto elemento, protagonizado por Bruce Willis e Milla Jovovich, trazendo uma direção de arte bastante interessante. Ainda com Milla Jovovich, ele compôs o grandioso Joana D’Arc, mas algo em seu cinema havia se perdido, o que se constatou na primeira década deste século.
O ritmo angustiante de O profissional pode ser percebido na primeira meia hora de Lucy, quando a personagem-título é levada por um namorado recente, Richard (Pilou Asbæk), a entregar uma pasta num hotel direcionada a um determinado Sr. Jang (Choi Min-sik). Levando-se em conta que ela está em Taipé, Taiwan para estudar e seu novo namorado é um cowboy com certo ar psicodélico, isso não é um bom sinal. Em poucos minutos, o plano não tem o melhor resultado, e Lucy é conduzida a um mundo desconhecido, do qual não conseguirá libertar tão cedo, mesmo porque precisa carregar dentro de si alguns pacotes com uma fórmula experimental capaz de alterar não apenas o comportamento, como a força e a inteligência. Nessa primeira meia hora, bastante audaciosa no sentido do ritmo e da montagem, a presença de Lucy é alternada com um discurso do cientista e professor Samuel Norman (Morgan Freeman, depois de Transcendence sempre envolvido com inteligências fora do habitual), tratando da inteligência humana, além de se criar uma analogia entre a situação dela e a de animais na natureza.

Lucy.Filme 2

Lucy.Filme 4

Essas sequências têm uma beleza visual própria ao melhor cinema de Besson e parecem reservar algo grande. O que vem daí por diante, no entanto, muito possivelmente não compreenda as melhores características do cinema de Besson – aquelas dos anos 80 e 90 –, principalmente porque Scarlett Johansson, a princípio numa bela atuação, mostrando a angústia de se encontrar numa situação sem saída aparente, não consegue tornar o roteiro verossímil. Que Lucy tenha comparações com A árvore da vida e 2001 parece muito mais por brincadeira do que realmente ter algo para dizer de substancial. Avaliar que há um elemento divertido nessas comparações diz muito mais do roteiro problemático do que sua qualidade, tanto que Lucy, um sucesso de bilheteria incomum (mas não podemos esquecer que este ano Godzilla também o foi), foi recebido com certo ânimo não emprestado a filmes significativamente melhores. Há quem diga que se trata de uma “porcaria muito divertida”, seja lá o que isto quer dizer.
Em que pese a grandiosidade pretendida por Lucy, o filme vai se revelando, no seu encadeamento, numa enigmática decepção, pelos envolvidos e pelo inesperado caráter de obra realizada com certo descompromisso no mau sentido, uma espécie de filme B sem autoconsciência (e o diretor avaliar, numa entrevista, que mescla O profissional, A origem e 2001 não ajuda em sua simplicidade nem sugere que ele tenha consciência sobre o que filmou). Às vezes, a dúvida seria se a contagem colocada ao longo da história não deveria ser regressiva, simbolizando talvez o esgotamento da paciência do espectador diante da sucessão de acontecimentos imprevisíveis. Ou seja, Lucy reserva uma camada de leveza em sua temática – quando a personagem, por exemplo, precisa enfrentar seus poderes –, mas logo isso é esquecido no sentido de se buscar algo como o Neo de Matrix (e Besson utiliza a câmera tecnológica usada por David Fincher principalmente em Clube da lutaO quarto do pânico). Enquanto vemos a transformação de Lucy, vemos o filme se transformar também numa grande bagunça.

Lucy.Filme 5

Lucy.Filme 6

Besson possui características que apontam como um cineasta de linha de montagem, mas Nikita e O profissional eram filmes muito bem feitos e pensados, e se O quinto elemento não justificava sua ambição de ser uma ficção científica de ponta, pelo menos conduzia sua narrativa a momentos de diversão interessantes. Sua predileção por figuras femininas à frente de seu cinema sempre foi motivo para descobrirmos personalidades interessantes e complexas. No entanto, em Lucy, Besson não consegue, nesse meio tempo, costurar os personagens, todos desenvolvidos num plano superficial e também por causa da metragem reduzida. Veja-se, por exemplo, o policial Amr Waked (Pierre Del Rio), que surge em determinado momento e não estabelece nenhuma ligação entre o que vem antes e depois, a não ser para lembrar que Besson nasceu em Paris (sendo que é visto com muitas reservas na França por ter feito parte de sua carreira dentro da indústria de cinema dos Estados Unidos) e a recepção desconfiada do cientista à existência de Lucy, que nem Freeman, com sua habitual competência, consegue justificar o suficiente. Johansson mostra um potencial subaproveitado, como em Sob a pele, não conseguindo ainda alcançar com plenitude o desempenho que teve com a voz em Ela. A impressão é que Besson quis fazer uma narrativa extremamente sintética, aliviada por cenas de lutas e perseguições de carros, mas que não combina com sua tentativa de discussão científica e mesmo filosófica, relacionada a conceitos, que exigiriam maior atenção. Desse modo, mesmo trazendo belas imagens algumas vezes, o filme não consegue transpirar confiança no que está tentando elaborar. Diante de críticas a Transcendence, por exemplo, este ano, Lucy se descobre este sim como aquilo que, segundo certo consenso, Transcendence seria: uma história capaz de atrair o espectador, mas não tem o impacto necessário para fazê-lo confiar no que está vendo.

Lucy, EUA/FRA, 2014 Diretor: Luc Besson Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi Min-sik, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Pilou Asbæk Roteiro: Luc Besson Fotografia: Thierry Arbogast Trilha Sonora: Eric Serra Produção: Christophe Lambert, Luc Besson, Virginie Silla Duração: 89 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Universal Pictures

1 estrela e  meia