Twin Peaks – Terceira temporada (O retorno) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre a temporada e o filme O iluminado

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Novo México, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), voltando apenas algumas vezes às florestas da pacata cidade na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série era Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passava mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks: houve episódios surpreendentes. O clima de Twin Peaks funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (no melhor momento de atuações do elenco), o 14, 16, 17 e 18. Ou seja, 14 episódios foram ótimos, uma média considerável em se tratando de uma temporada com 18.

De modo geral, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland), por meio de Cooper/Dougie Jones/Mr. C; analisou a terceira idade na vida de vários personagens; os efeitos do White Lodge e do Black Lodge; a relação entre sonho e realidade; e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos.
A trama principal pode ser resumida do seguinte modo: o agente Cooper (Kyle MacLachlan) sai do Black Lodge, depois de conversar com o Bombeiro (Carl Struycken), Laura Palmer (Sheryl Lee) e o Homem de um Braço Só (Al Strobel), passando pelo White Lodge, e toma o lugar de Dougie Jones, uma cópia que havia sido produzido pelo seu duplo do mal, Mr. C (também McLachlan), a fim de que este não voltasse para o Black Lodge. Enquanto isso, os antigos companheiros de Cooper, Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), ao lado de Thammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern), vão no encalço de respostas sobre isso, a partir da prisão de Mr. C em Dakota do Sul. Já os integrantes da delegacia de Twin Peaks, xerife Frank Truman (Robert Forster), Andy (Harry Goaz) e Bobby Briggs (Dana Ashbrook) também buscam pistas sobre algo estar faltando na investigação do assassinato de Laura Palmer depois que Hawk (Michael Horse) recebe um comunicado da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Tudo, mais tarde, envolve pistas deixadas pelo Major Briggs.

O agente Cooper, na pele de Dougie, é casado com Janey-E (Naomi Watts), pai de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e trabalha na agência de seguros de Bushnell Mullins (Don Murray) e algumas pessoas tendo o Mr. C por trás querem matá-lo. Outros, como os irmãos Mitchum, Bradley (James Belushi) e Rodney (Robert Knepper), sempre acompanhados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal), querem descobrir por que ele faturou tanto em seu cassino de Las Vegas. Já em Twin Peaks, temos o filho de Audrey Horne, Richard (Eamon Farren) cometendo maldades; os efeitos da solidão de Sarah Palmer (Grace Zabriskie); algumas passagens pelo Double R e pelo Greath Northern; e apresentações musicais de ponta na Roadhouse. No episódio 8, os motivos da criação do Black Lodge, por meio do White Lodge, numa sequência de imagens fascinantes. Junto a inúmeras qualidades pictóricas captadas pela fotografia de Peter Deming, de atuação e roteiro, Lynch talvez pudesse ter colocado mais trama em Twin Peaks e mais inter-ligações entre os personagens. Os cenários de Las Vegas ou na Dakota do Sul não possuem o mistério das paisagens da cidadezinha: não evocam estranheza e beleza, uma volta a um passado longínquo que a vida urbana não pode captar. Era disso que Cooper tratava em muitos momentos nas temporadas iniciais, de um universo onde a contagem de vidas era realmente vital. Lynch não proporcionou isso em grande parte da temporada, preferindo utilizar o estilo de seus filmes mais experimentais a partir dos anos 90 e sem apostar na atmosfera do original. Por um lado, foi um acerto, não se curvando à expectativa e apresentando um trabalho muitas vezes extraordinário; por outro, às vezes se excedeu na escolha. Alguns dos grandes episódios foram cercados por essa sensação de mistério, de lugares isolados, principalmente os episódios 8, 9, 14, 16, 17 e 18. O último, por exemplo, localizado entre Odessa, Texas, e uma deserta Twin Peaks possui um clima semiapocalíptico.

Para alguns, a explicação para isso era recorrer ao fato de que David Lynch é um artista que não deve explicações a ninguém e que nunca entrega o que o espectador espera ou presta fan service. Foi interessante acompanhar esta temporada por redes sociais – já que nos anos 90 não havia além de jornais e revistas para ver a reação à série – por uma espécie de culto interessante a teorias. Nesses termos, a temporada em si teve boas bases de fan service, principalmente para quem é admirador de Twin Peaks – Fire walk with me. O fato de o filme ter sido um apoio da série não impediu algumas indagações: uma delas foi a própria exclusão completa de Annie Blackburn (Heather Graham), fundamental para o fechamento da segunda temporada e do filme e que aqui retornou apenas na referência às páginas do diário de Laura Palmer. Outra foi a ausência de Chester Desmond (Chris Isaak). Pode-se ter uma explicação para essa volta constante de Lynch ao filme, principalmente do episódio 8 em diante, além da tentativa de salvar Laura Palmer (Sheryl Lee). O diretor gosta de voltar a temas que teriam sido questionados em sua carreira. Foi assim com Duna, ao qual se refere sempre como projeto em que foi prejudicado, mais especificamente por não ter podido participar da montagem final. Toda sua carreira tem referências constantes a Duna, e a própria nova temporada de Twin Peaks. O personagem central de Duna, Paul Atreides, recebia um anel do pai que remete ao da Caverna da Coruja; as atrizes de Cidade dos sonhos lidam com uma caixa misteriosa, como a Bene Gesserit de Duna; os módulos de som dos Fremen em Duna adiantam o mistério a partir da descoberta de uma orelha em Veludo azul. Também a fala do Homem de um Braço Só ao ver Cooper levantando da cama do hospital (“Você está acordado. Finalmente”) é uma referência direta ao “O adormecido deve despertar” de Paul Atreides, feito pelo mesmo MacLachlan, em Duna. E foi assim com Twin Peaks – Fire walk with me: Lynch quis testar, por meio da série, o quanto havia sentido naquilo que não viram sentido à época do lançamento, nas vaias em Cannes, no fracasso de bilheteria e crítica. É como se ele desse uma resposta e ele a ofereceu do melhor modo: a terceira temporada foi um espetáculo sensorial e ajudou a desfazer outra lenda: de que não explica nada. É verdade que há muitas perguntas como resposta às respostas, mas pode-se mencionar nesta temporada inúmeros diálogos desvendando os mistérios relacionados ao Major Briggs.

O que mais fez Lynch, com a colaboração fundamental de Mark Frost, foi estabelecer pontas de explicação sobre o Black Lodge, o White Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… Muito do mistério de Twin Peaks teve seu impacto aumentado, principalmente no antológico episódio 8. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário. E ainda com personagens enigmáticos: Freddie Sykes (Jake Wardle), o homem bêbado da delegacia (Jay Aaseng), Naido (Nae Yuuki) e o Bombeiro (Carl Struycken), além dos woodsmen no episódio 8.
Mais interessante é como Lynch e Mark Frost aproveitaram temas que teriam desvirtuado a segunda temporada. Esta, com todos seus problemas, tinha os competentes Harley Peyton e Robert Engels à frente de vários roteiros, com trabalhos algumas vezes superiores ao que Lynch e Frost, criadores da série, apresentaram nesta terceira, sobretudo a partir do momento em que os personagens precisavam ganhar desenvolvimento em inter-relações. E em termos de roteiro me refiro principalmente a diálogos, não em analogias ou imagens (nas quais Lynch se sobressai especialmente).

Robert Engels (que foi corroteirista do filme, ao lado de Lynch) assinou sozinho ou em parceria 10 episódios das duas primeiras temporadas, e Harley Peyton nada menos do que 13. Algumas simbologias referentes ao Major Briggs estão em episódios escritos por Engels e Peyton, mas, acima de tudo, assim como Frost (que participou do roteiro de 11 episódios), foram eles que desenharam esses personagens de Twin Peaks e também construíram o universo da cidade e dos personagens de Twin Peaks, sem o qual Lynch não teria conseguido trabalhar seus conceitos neste retorno. Em algumas resoluções desta temporada, o problema não foi a direção e sim o desenvolvimento de alguns personagens e a montagem de Duwayne Dunham, que colaborou com Lynch no piloto de Twin Peaks, em Veludo azul e Coração selvagem. A série original teve a montagem principalmente de um trio: Jonathan P. Shaw, Toni Morgan e Paul Trejo, que se revezou do início ao fim das temporadas, abrindo espaço apenas para Duwayne Dunham em dois episódios e Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, em um. Apesar do apoio de P. Shaw e Lynch na edição desta temporada, ela foi hesitante em certos momentos. Lynch compensou com a direção e o grande design de som: ao mesmo tempo que aprimorou elementos já mostrados em sua carreira, ele se mostrou aberto a algumas influências – mais especificamente Nicolas Winding Refn nas cenas iniciais passadas em Nova York e Terrence Malick, no episódio 8 e na entrada do corpo policial de Twin Peaks no bosque da cidade no episódio 14, com os raios de sol entre as árvores, uma conquista estilística de Emmanuel Lubezki.

A montagem era decisiva para o dinamismo de Twin Peaks (independente de lenta ou ágil). O retorno alternou ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem foi mais vagarosa, com cenas extensas e repletas de diálogos – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas foram curtas demais e outras longas demais. Em certos momentos, a montagem desta nova temporada era em certa medida confusa que surgiram teorias falando de uma não linearidade; veja-se, por exemplo, o agente Cooper jogando beisebol com o filho no episódio 12 e no episódio seguinte, o 13, aparecer na manhã seguinte ao jantar dos irmãos Mitchum, acontecido no 11. Ou Dougie se livrar do ataque de Ike (Christophe Zajac-Denek) no episódio 7 e os irmãos Mitchum verem a matéria de TV sobre ele apenas no episódio 11. O dinamismo do original era ajudado pela trilha de Angelo Badalamenti, que praticamente se ausentou aqui, voltando mais ao final, com grande empatia e se destacando no episódio 8. O design de som – feito por David Lynch – esteve em todos os episódios como o som principal, junto às apresentações de bandas e artistas solo, um acerto, por um lado (pela qualidade deles, a exemplo de Chromatics, Au Revoir Simone, Nine Inch Nails, Lissie e Eddie Vedder, que fizeram minhas apresentações favoritas), e prejudicial, por outro, em razão de costurar o final de muitos episódios de maneira previsível.
No entanto, tudo isso ganha algum sentido se concluirmos que “vivemos dentro de um sonho”, palavras que o agente Cooper fala na delegacia no episódio 17 do mesmo modo que Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. É a explicação para o limbo em que parece se encontrar Audrey Horne (Sherilyn Fenn), sempre em conversa com o marido Charlie (Clark Middleton) sobre o amante Billy (que acabamos não conhecendo ao fim da temporada). São situações que configuram um interesse incomum pelo surrealismo cotidiano. Este se mostrou especialmente presente nos episódios com passagens para universos paralelos (episódio 1, 2, 3, 8, 11, 14, 15, 17 e 18).

Esse surrealismo foi apoiado por personagens significativos: Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e William Hustings (Matthew Lillard), realmente vitais para a trama, em polos que se complementam, um com certa sensibilidade para uma ligação com universos paralelos e o outro, um diretor de escola confuso e envolvido numa busca arriscada pela Zona. Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) foi ótimo, funcionando muito bem em sua despedida em parceria com Gordon Cole (David Lynch), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern). Anthony Sinclair (Tom Sizemore) teve momentos – aquele em que ele vai conspirar contra Dougie aos irmãos Mitchum é excepcional (“Vocês têm um inimigo: Dougie Jones!”), assim como quando se esconde atrás da mesa quando surge o trenzinho dos mafiosos, suas assistentes e Dougie na agência de seguros. Bushnell Mullins (Don Murray) se inclui entre os grandes personagens da mitologia de Twin Peaks, com sua gentileza e decência, como diz Cooper ao acordar. Murray tem uma precisão cômica que tornou grandes as reuniões com Dougie ou sua ida à delegacia de Las Vegas para falar com os irmãos Fusco. Janey-E (Naomi Watts) destacou-se, particularmente o melhor personagem novo desta temporada, ao lado do filho Sonny Jim (Pierce Gagnon). Watts conseguiu desenhar uma personagem desapontada com o marido, mas amorosa e defensora do seu lar. A despedida dela de Cooper (ela já sabia que não se tratava de Dougie) no episódio 16 costurou toda uma simbologia para uma mulher de família que poderia ter sido a esposa de Cooper caso ele não fosse agente do FBI. A despedida dela comove porque ela queria ter aquela vida que já não Dougie e sim Cooper lhe prometia. Seu olhar triste é de alguém que estava gostando daquela vida, mas continuar nela seria tirar a vida que Cooper tinha antes de ocupar o lugar de Dougie.

Em Twin Peaks, Hawk (Michael Horse), Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) foram acertos. O arco desenhado pelo crescimento emocional de Bobby foi, sem dúvida, uma boa ponte com as temporadas anteriores, em companhia das mensagens misteriosas da Senhora do Tronco e a sabedoria de Hawk. Frank Truman (Robert Forster) tornou-se um substituto eficiente para Harry, nunca querendo substituir o êxito de Michael Ontkean. Não aproveitados o quanto se poderia, Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) se mostraram um alívio nostálgico, mas a ponta de Michael Cera como seu filho Wally Brando é antológica. Chad Broxford (John Pirruccello) atuou como um bom vilão policial. Personagens introduzidos sem força, como os irmãos Mitchum, adquiriram uma importância fundamental – e alguns dos melhores momentos foram deles na parte final, numa recuperação extraordinária para Knepper e Belushi. Mesmo os eventos do episódio 11 (que pareciam forçados à primeira vista) ganham numa reavaliação, sobretudo o jantar com Dougie, seguido por torta de cereja. Achei muito engraçados os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner) – principalmente na cena em que eles são informados de que Dougie seria o agente Cooper ou quando prendem Ike – e Hutch e Chantal tiveram sua inclusão explicada pelo excepcional episódio 16, com atuações magníficas de Leigh e Roth. Steven Burnett (Caleb Landry Jones) tem um potencial não aproveitado totalmente, caso não tenha uma nova temporada, assim como Richard Horne (Eamon Farren) foi um vilão à altura pelo pouco roteiro que recebeu. Outros personagens ao redor do Mr. C não tiveram o mesmo êxito: falo de Duncan Todd (Patrick Fischler). Algumas vezes, Lynch impediu o prosseguimento mais ágil da série com cenas em que eles apareciam. Particularmente, todos os episódios que se concentraram na tentativa de matar Dougie Jones foram menos exitosos, excluindo o 16. Fiquei bastante surpreso como Clark Middleton, como Charlie, o “marido” de Audrey; é um ótimo ator e trava um diálogo de quatro episódios com desenvoltura. Sherilyn Fenn fez novamente uma misteriosa Audrey Horne, desta vez perturbada e num mundo paralelo, sobretudo em sua apresentação na Roadhouse. Grace Zabriskie, como Sarah Palmer, roubou a cena nos episódios em que apareceu. E o agente Dave Mackley feito por Brent Briscoe foi um personagem discreto, mas eficiente.

E houve elementos que ficaram sem explicação, o que era de se esperar. Sem saber se a série terá uma quarta temporada, alguns personagens novos ou antigos, quando (re)apresentados, não adquiriram desenvolvimento. Isso funcionou muito bem em episódios iniciais, mas quando a série não mostrou o desenvolvimento deles é claro que houve certa decepção. Não tivemos clareza sobre a vida de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick); a ligação entre Shelly e Red (Balthazar Getty), que teve ótima apresentação no episódio 6 e depois fez apenas uma ponta no episódio 11; quem de fato é Diane (Laura Dern), pois nem no encerramento parece que tivemos respostas suficientes, principalmente quando ela enxerga um duplo no hotel de beira de estrada e não fala a respeito ao agente Cooper, antes de ele se transformar em Richard e ela em Linda, agindo, de certo modo, como a Diane fabricada por Mr. C, que não avisa sobre o ataque de um woodsman a Hustings. Também merecia elaboração o interesse de Richard Horne (Richard Beymer, mais uma vez fora de série, principalmente no quase monólogo do capítulo 12) por Beverly Page (Ashley Judd), assim como a relação entre Big Ed Hurley (Everety McGill) e Norma Jennings (Peggy Lipton), que se resolve em menos de cinco minutos depois de décadas. Imagino que muitos se cansaram com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) restrito apenas a algumas cenas de discurso no seu programa de internet, assim como Nadine (Wendy Robie) de espectadora dele. James Hurley (James Marshall) praticamente não teve participação, a não ser cantando “Just you” na Roadhouse e servindo de confidente para Freddie. Não ficou muito clara a relação entre Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt).
Todas essas são tramas mais lineares, que talvez não coubessem no conceito da temporada, mas poderiam ter sido exploradas em determinados momentos, ao invés de Lynch se concentrar principalmente no que fazia sua equipe de FBI ou certas cenas mais conceituais (um homem varrendo o chão da Roadhouse, estabelecendo ligação com um Renault mais velho falando de uma sujeira que não pode ser escondida; uma francesa demorando a sair do quarto de Gordon; o excesso de intervenções de Candie no episódio 10; Jerry Horne perdido no bosque por três capítulos; a bad trip na floresta do episódio 15; algumas conversas de personagens desconhecidos na Roadhouse…), entre outras.

E temos as questões suscitadas pelo episódio 8, com sua referência à origem de uma maldade. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. No episódio 17, o Bombeiro (Carel Struycken), que aparece no episódio 8, ressurge no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar, depois de ter encontrado Andy no episódio 14. Esses momentos possuem uma força visual poucas vezes vista, inclusive na trajetória de Lynch. Audrey, que terminou o episódio 16, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nos dois últimos. E qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?
Também houve o polêmico Dougie Jones. Nos primeiros episódios (até o sexto e um tanto no episódio 11), ele funcionou muito bem, com cenas verdadeiramente cômicas e no ponto exato, graças à atuação excepcional de MacLachlan, também com o assessor de Bushnell, Phil Bisby (Josh Fadem); nos demais pouco foi desenvolvido e terminou como um personagem que fica num meio-termo. Lynch poderia, ao contrário, ter mostrado mais a rotina de Dougie junto à família, já que o motivo era mostrar principalmente o homem médio dos Estados Unidos. Não tenho clareza sobre o motivo de Lynch ter preferido colocar o personagem no lugar do agente Cooper até o episódio 15, mas tenho algumas hipóteses além daquela de que quis substituí-lo por Gordon Cole: 1) O agente Cooper não teria a parceria de Harry S. Truman (Michael Ontkean), que não voltou para a série; ambos foram decisivos para o ritmo da série original; 2) Frost e Lynch não conseguiriam reproduzir o ritmo de diálogos de Cooper das duas primeiras temporadas pelo excesso de ideias conceituais e porque queriam uma trama vagarosa, uma oposição às características do personagem; 3) Muitos episódios funcionaram no plano conceitual e o agente Cooper sempre estabeleceu uma ponte desse plano com o plano material, pelo qual Lynch não estava tão interessado; 4) Lynch não queria fazer uma série exatamente bem-humorada, apesar de momentos indicando esse caminho, e o agente Cooper prejudicaria isso. Hoje, a hipótese principal, no entanto, foi que Lynch manteve o personagem escondido para que o espectador pudesse testemunhar uma volta impressionante no capítulo 16, já histórico. Não haveria com certeza a mesma emoção de Cooper dizendo “Eu sou o FBI” se ele tivesse voltado logo no início. Sem dúvida, mas ainda se sente um pouco incômoda sua quase não presença (ou não existência, como diz o Braço no início da temporada), principalmente com tanta participação de Mr. C, principalmente nos episódios 7, 13 e 15, alguns dos mais problemáticos em termos de ritmo (mesmo que com grande performance novamente de MacLachlan). Não foi uma temporada, por isso, sem falhas, mas é difícil não considerar que foram vários filmes espetaculares prejudicados por alguns vazios (particularmente, os capítulos 10, 11, 13 e 15 se sentiram menos à altura do restante).

E os dois episódios finais mostram que, mais do que o retorno de Cooper a Twin Peaks, o que importava a Lynch e a Frost era mostrar como uma possível existência de duplos pode transformar o universo complexo e a narrativa mais aos moldes de Império dos sonhos e A estrada perdida. Depois do episódio 17, em que a ação se desenvolve em combater Mr. C e tentar voltar no tempo para salvar Laura Palmer de seu destino, além de se saber sobre uma presença ameaçadora (Judy), no episódio 18 o Homem de um Braço Só (Al Strobel), como havia pedido Cooper no episódio 16, faz uma nova versão de Dougie Jones para Janey-E e Sonny Jim. Enquanto Dougie chega de volta à Lancelot Court falando “Casa!”, ao fim de tudo, o agente Cooper procura uma casa para Laura Palmer, mas ela não existe mais ou é indefinida. Tudo volta às palavras da Senhora do Tronco, de que “a morte não é o fim, mas uma mudança”: é justamente o que Lynch apresenta nesse clímax. A emoção de ver a linha de tempo sendo alterada é muito marcante, principalmente na figura de Jack Nance, um dos melhores amigos de Lynch, que regressa à cena como Pete Martell, inclusive numa caminhada inédita, não utilizada no piloto da série, depois de sair de casa. É como se Lynch também quisesse reviver esses amigos (não apenas Nance, Davis, David Bowie e Frank Silva faleceram, como do elenco desta temporada Catherine Coulson, a Senhora do Tronco, Miguel Ferrer e Will Frost, que faz uma ponta como Dr. Hayward). Isso me leva à figura de minha mãe, que era uma grande fã da série original e faleceu há quatro anos. Este Twin Peaks, de maneira inesperada, apresenta com seu final uma sensibilidade especial de Lynch em relação aos anos que se passaram: gostaríamos que a linha de tempo fosse muitas vezes mudada. O diretor, claramente, sabe disso: ele compreende exatamente a nostalgia do espectador e o sentimento de perda durante tantos anos. Lynch é generoso quando não se esperava tanto dele, fazendo seus personagens se comportarem como o próprio público.
No episódio 18, Lynch busca seus duplos no cinema, mas moldando os conceitos num simbolismo rico, daí particularmente ter me agradado em especial: o agente Cooper e Diane dirigem como o casal Lila Crane (Vera Miles) e Sam Loomis (John Gavin), que busca Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose. O interessante é que ele para de carro na beira da estrada e enxerga postes de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. Esta sequência dialoga com Intriga internacional, de Hitchcock, em que um agente de publicidade, Roger O. Thornhill (Cary Grant), era confundido com um agente secreto, George Kaplan (novamente os duplos), e em determinado momento se encontra numa estrada deserta, tendo de se esconder de um avião que quer matá-lo num milharal (garmonbozia?). No início deste episódio, o encontro de Cooper com Diane na saída do Black Lodge lembra um num bosque nas proximidades do Monte Rushmore do mesmo filme de Hitchcock, cuja título original é North by Northwest (lembrando que Twin Peaks fica no Northwest dos Estados Unidos), e Gordon Cole se refere ao Monte Rushmore no episódio 4 deste temporada, em diálogo com Albert.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Esta sequência também remete a Psicose, assim como o papel de parede da Loja de Conveniência do episódio 15 lembra a dos quartos do hotel de Norman Bates (que age como sua mãe).

Diane e Cooper fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para os anos 1950. No dia seguinte está num hotel da cidade, remetendo a Hitchcock e a A estrada perdida, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard. O quarto tem um papel de parede que remete ao formato que sai da chaleira de Phillip Jeffries e remete ao anel da Coruja (depois de selecionar essas imagens, vi que muitos no Twitter perceberam esse mesmo detalhe). Assim como dialoga com a tapeçaria onde brinca o menino Danny no Hotel Overlook de O iluminado (filme em que Kubrick teria se inspirado em Eraserhead, de Lynch).

Outro indício de que se trata de um universo em que Cooper não é mais exatamente o Cooper que conhecíamos é o número do quarto em que ele se hospeda, 7. Este número aparece em diferentes oportunidades sempre relacionada a duplos, sonhos ou universos paralelos: é o número do café de Tracey (Madeleine Zima) no primeiro episódio da terceira temporada; o número do quarto em que Mr. C encontra Chantal (Jennifer Jason Leigh); o número do andar em que Phillip Jeffries (David Bowie) chega para encontrar a equipe do FBI em Twin Peaks – Fire walk with me e o número que está no nome da Lucky 7 Insurance, a agência de seguros em que trabalha Dougie Jones.

Em sua busca (não se sabe ainda pelo quê) em Odessa (agora sabemos a cidade), no Texas, ele passa de carro por um trilho de trem (à frente do qual apareciam os Tremond/Chalfont no filme de 1992 para entregar o quadro de Laura e pelo qual passava o Homem de um Braço Só na perseguição ao carro onde estão Leland e Laura; destaca-se, ainda, que é num vagão de trem onde ocorre o assassinato de Laura).

Odessa está um universo paralelo: em frente à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca, há um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, quando Laura Palmer diz a Cooper: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, sugerindo uma ligação exatamente com o episódio 18. Dentro da cafeteria, há várias imagens de quadros com cavalos (estamos no Texas, mas aqui é simbólico).

Também há ao lado da porta de entrada da Cafeteria Judy uma guirlanda de rosas que remete a uma do quarto de Laura Palmer no filme de 92.

Do lado de fora da Cafeteria, temos, além dos postes de eletricidade, contêiners, que haviam também ao lado da casa com acesso à Zona, universo paralelo, no episódio 11. Tudo indica que há indícios do Black Lodge neste lugar.

Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Não parece coincidência que a atriz que faz a garçonete abordada pelos cowboys, Kristi, seja Francesca Eastwood, filha de Clint (conhecido por tantos filmes de faroeste). E a Odessa real, no Texas, tem como chamariz uma escultura chamada Jack Rabbit (como lembra o leitor do blog Alan nos comentários à crítica dos episódios 17 e 18), mesmo nome dado por Bobby Briggs ao lugar que serve de pista para chegar ao White Lodge no bosque de Twin Peaks. Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Perceba-se a semelhança do ator (infelizmente o nome dele não aparece nos créditos finais, isso se não for apenas um boneco, o que seria ainda mais proposital) com Jack Nicholson e como seu corpo parece congelado. Essa imagem remete ao final de O iluminado, de Stanley Kubrick. A roupa do morto também é parecida. Deve-se lembrar que naquele filme Jack Torrance era um duplo (ou reencarnação) de um zelador que havia matado a família anos antes no Hotel Overlook. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes. Repare-se, também, que na parede da casa há um pequeno cavalo branco.  Sabemos também que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa.

Também não se entende por que ela pergunta a ele se é agente no carro do mesmo modo (em olhar e voz) que ela pergunta se Leland, seu pai, estava em casa num determinado dia em que viu Bob, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores) e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Os faróis iluminando a estrada sintetizam a obra de Lynch e remetem à primeira perseguição a James Hurley e Donna Hayward no piloto da série e à estrada em que os woodsman aparecem assustando o casal de velhinhos no episódio 8, passado em 1956: “é passado ou futuro?”, mas também a filmes anteriores de Lynch, Coração selvagem, A estrada perdida e Veludo azul. Tudo se mescla, assim como o episódio 18 incorpora várias referências simbólicas e cinematográficas, sendo uma espécie de homenagem de Lynch a Hitchock e Kubrick principalmente. Se algumas vezes o retorno de Twin Peaks investiu em excesso de conceitos, Frost e Lynch o finalizam de maneira impressionante.

O episódio todo é construído por elementos simbólicos sobre a duplicidade tanto em Twin Peaks quanto no cinema e ambos sintetizam o universo da série por meio de detalhes que podem passar em branco. No plano narrativo, é como se Cooper e Laura tivessem uma simbiose, perdidos entre o passado e o futuro. Para Lynch, a casa de ambos é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Minha teoria é de que ela é realmente Laura Palmer, à medida que os pais de Carrie têm o mesmo nome: Leland e Sarah. Tanto que, quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo. No episódio 12, Sarah avisava na Loja de Conveniência: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy?) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. E Laura é, afinal, a escolhida: ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen. Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade. Não seria coincidência a passagem para a Loja de Conveniência também se dar no Greath Northern, em diálogo direto com o Bates Motel e o Overlook. São argumentos para uma possível quarta temporada, apenas uma entre inúmeras teorias, permitidas num universo de sonhos. Depois de toda uma temporada, finalmente chegamos a Twin Peaks.

Twin Peaks – The Return, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Richard Beymer, Chrysta Bell, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Eamon Farren, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, David Bowie, Wendy Robie, Russ Tamblyn, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Peggy Lipton, Catherine E. Coulson, Mädchen Amick, Josh Fadem, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Brent Briscoe, Balthazar Getty, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Patrick Fischler, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne, Michael Cera, Emily Stofle, Shane Lynch, Derek Mears, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Jane Adams, Charlotte Stewart, Ashley Judd, Larry Clarke, Frank Silva, Gary Hershberger, Joan Chen, Jack Nance, Don S. Davis, Eric Edelstein, David Koechner, Grant Goodeve, Eric Rondell, Sky Ferreira, Scott Coffey, David Duchovny, Richard Chamberlain, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, Francesca Eastwood, George Griffith, Carel Struycken, Nicole LaLiberte, Warren Frost, Adele René, Ernie Hudson, Walter Olkewicz, Nafessa Williams, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Brett Gelman, Grace Victoria Cox, Jane Levy, Madeline Zima, Phoebe Augustine, Bérénice Marlohe, Julee Cruise, Ben Rosenfield, Mary Reber, Cornelia Guest Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 1080 min. Distribuidora: Showtime

 

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Twin Peaks – Segunda temporada (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A segunda temporada de Twin Peaks inicia com um episódio excelente – dirigido por David Lynch –, no qual o agente Cooper (Kyle MacLachlan) é visitado por um senhor atendente do hotel, Senhor Droolcup (Hank Worden), e, em seguida, por um gigante (Carel Struycken), que lhe dá novas pistas, enquanto se encontra baleado no chão. Vários personagens procuram ainda se recuperar do que aconteceu ao final da primeira temporada: Shelley Johnson (Mädchen Amick) e seu marido Leo (Eric DaRe), Pete Martell (Jack Nance), Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) e Ronette Pulaski (Phoebe Augustine) são alguns que estão no hospital da cidade. Shelley passa a cuidar de Leo, junto com Bobby (Dana Ashbrook), enquanto Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) começa a trabalhar entregando almoços para Norma Jennings (Peggy Lipton), função de Laura Palmer antes de sua morte, e vai à casa dos Tremond: uma avó (Frances Bay) e seu neto, Pierre (Austin Jack Lynch, filho de David), peças-chaves do filme Twin Peaks – Fire walk with me e que são do Black Lodge. Ambos falam do amigo de Laura, Harold Smith (Lenny von Dohlen), que guarda seu diário secreto e mora na casa ao lado. Mais segredos se pronunciam quando o pai de Laura diz a Cooper e ao xerife conhecer o homem retratado por Philip Gerard (Al Strobel), chamado Bob; seria um antigo vizinho da praia aonde ia com a família, na infância, e o assustava jogando fósforos acesos nele. Mas não apenas com o caso de Laura Palmer Cooper está preocupado: ele teme pelo desaparecimento de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), embora tenha pistas de que possa estar no Jack Caolho’s.

O Great Northern se transforma numa espécie de Overlook de O iluminado (há, inclusive, uma arquitetura indígena e Ben Horne (Richard Beymer) encenando a Guerra Civil norte-americana, enquanto seu filho lança flechas contra imagens de búfalos), com fantasmas eventualmente andando pelo hotel, tentando ajudar Dale Cooper e nesse sentido a série deriva para o terror e suspense.
Só isso explica por que no episódio 15, ao mesmo tempo em que vemos Cooper, o xerife Truman (Michael Ontkean) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) na Roadhouse, ouvindo Julee Cruise contra uma cortina vermelha e sob uma luz em tom amarelo, descobrimos o assassino – numa das sequências mais violentas já filmadas para a TV. O mesmo gigante que ofereceu pistas a Cooper surge no palco e avisa: “está acontecendo de novo”. Essa revelação, segundo os planos originais de Lynch, não seria feita, pois ele gostaria de ter conservado o segredo, sem os espectadores saberem a identidade do assassino.
A partir dessa nova tragédia, a luta de Cooper e do xerife Truman (Michael Ontkean) é para descobrir qual espécie de mal ameaça Twin Peaks, fazendo-os se aproximar do Major Briggs (Don S. Davis) – pai de Bobby –, que diz haver na floresta da cidade um Black Lodge, com uma passagem para outra dimensão. As pistas do Major levam Cooper e o xerife à Caverna da Coruja, que ajuda a solucionar a ligação com esse universo paralelo à cidade. Neste ponto, a série se direciona a um contexto mais surreal, pois, ao mesmo tempo, chega à cidade Windom Earle (Kenneth Welsh), um ex-agente federal enlouquecido, querendo se vingar de Cooper.

As críticas a esta segunda temporada em relação à primeira aconteceram sobretudo porque David Lynch teria deixado muitos episódios nas mãos de outros roteiristas e diretores. É visível que seus substitutos tentaram desenvolver tramas paralelas – Nadine (Wendy Robie) se apaixonando por Mike Nelson (Gary Herschenberg), amigo de Bobby; o próprio James Hurley (James Marshall) indefinido entre se envolver com Donna e com uma mulher misteriosa, Evelyn Marsh (Annette McCarthy); negócios escusos de Benjamin Horne com um presidiário, Hank (Chris Mulkey), marido de Norma (Peggy Lipton); a paixão de Audrey Horne por um milionário que chega ao hotel, John Justice Wheeler (Billy Zane); o casamento do prefeito Dwayne Milford (John Boylan) com uma jovem, Lana (Robyn Lively); o triângulo entre Lucy (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e Dick Tremayne (Ian Buchanan), entre outras –, mas o fizeram com uma combinação entre drama, surrealismo e comédia. São essas tramas aparentemente deslocadas, criadas na maior parte por Robert Engels, Harley Peyton, Barry Pullman, Scott Frost e Tricia Brock que conseguem revitalizar o interesse pela trama depois da descoberta de quem assassinou Laura Palmer. Mais do que a primeira, a segunda temporada revela alguns lugares-comuns de uma pequena cidade, mas que adquirem grande significado. Tudo nos faz sentir ser mais uma investigação sobre o comportamento dos habitantes do que exatamente uma procura do FBI em desvendar um crime.

O clima também supera em muitos momentos os defeitos possíveis (a fotografia irretocável de Frank Byers, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete na qual os personagens se reúnem, e ajuda a desenhar boa parte da série. Temos, com esse clima, o desenvolvimento de novas tramas interessantes: a chegada de um novo agente federal, Denise Byrson (feito por David Duchovny, de Arquivo X); do chefe de Dale Cooper, Gordon Cole (em ótima participação do próprio David Lynch); a descoberta do xerife de que Josie (Joan Chen) tem segredos e que o marido dela, Andrew Packard (Dan O’Herlihy), não morreu como se imaginava; a investigação da chegada de drogas em Twin Peaks, fazendo com que Jean Renault (Michael Parks) aponte Cooper como o responsável pelo “pesadelo em que se transformou Twin Peaks”; o encontro do agente do FBI com uma nova atendente da lanchonete, Annie Blackburn (Heather Graham), irmã de Norma Jennings, por quem se apaixona e é peça-chave no final da série. Blackburn surge na série num momento em que Cooper precisa enfrentar seu passado, por meio da figura de Earle, e é uma personagem complexa. Ela estava num convento antes de sair e tentou cometer suicídio, sendo uma espécie de representação feminina do próprio agente Cooper, à procura da beleza novamente de Twin Peaks depois de passagens tão nebulosas, da paixão que teve pela esposa de Windom Earle e do pesadelo a que se referiu Renault. O interessante é que Annie adentra a série sendo enquadrada junto ao Major Briggs no Double R, como se a figura dela adiantasse o que acontecerá ao final. É Annie também que vai falar a Cooper que o desenho dele, baseado em alguns sinais, lembra o da Caverna da Coruja, que fica na cidade.

Os personagens visivelmente ganham intensidade de uma temporada para outra, como Albert Rosenfield, feito por Miguel Ferrer (um dos melhores da série, e talvez esquecido, em comparação com os demais), embora se perca um pouco o lado juvenil – com um interesse forçado entre Audrey e Bobby Briggs, por exemplo –, não diminuindo, porém, o impacto de vermos essa história contada em detalhes. Nisso tudo, a atuação do elenco, mesmo quando o roteiro não se mostra tão interessante, é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, James Marshall, Heather Graham, Billy Zane – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas ficaram marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).
As imagens dos semáforos, dos bosques da cidade e da coruja ameaçadora (e da Caverna da Coruja, que ajuda a criar mais elementos para a mitologia da série e se corresponde com o filme e a terceira temporada) intensificam a percepção de medo, assim como o destino de alguns personagens (como o de Leo).

Twin Peaks atravessa um terreno, da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acabou afastando muitos espectadores que não conseguiram à época do lançamento desses episódios associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não por acaso, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, embora o distúrbio seja de origem desconhecida (alguns personagens começam a sentir seus braços dormentes, o que se reproduzirá no filme, com Teresa Banks e Laura Palmer e na terceira temporada com Dougie Jones). Nesse sentido, esta segunda temporada ajuda a estabelecer a terceira, com seus temas misteriosos ligados ao Major Briggs, envolvido com o projeto “Rosa Azul”, do FBI: o White Lodge e o Black Lodge são temas suscitados no acampamento de Cooper com o Major, quando este desaparece, e por Hawk, ligando-os aos temas indígenas da cidade.

Quando Windom Earle (numa ótima atuação de Walsh) surge na perseguição a Cooper tudo parece uma desculpa exatamente para descobrir esses dois lugares que se encontram em Twin Peaks. “O amor e o medo abrem os portais”, diz Briggs em determinado momento, para Cooper entender que o amor abre o White Lodge e o medo o Black Lodge. Quando, em alucinação depois de capturado por Earle, ouve seu nome Garland, o Major Briggs se pergunta: “Judy Garland?”. Lembremos que Philip Jeffries falava em Judy em Twin Peaks – Fire walk with me e o duplo mal de Cooper quer saber quem é ela na terceira temporada. Ou seja, se alguns dos temas apresentados na segunda temporada pareciam deslocados e mesmo mal encaixados, se fazem mais fortes numa revisão. Nesse sentido, os temas que teriam desvirtuado Twin Peaks são exatamente os que mantêm o seu retorno. Do mesmo modo, embora David Lynch tenha dirigido os episódios 9, 10, 15 e 30 (alguns dos melhores das três temporadas), deve-se destacar as direções de Caleb Deschanel (conhecido diretor de fotografia, pai de Zoe), Diane Keaton, James Foley, Tim Hunter (diretor de Tex), Uli Endel (diretor alemão) e Lesli Linka Glatter (que seria reconhecida recentemente pela série Homeland), entre outros, em alguns deles. Esses diretores ajudam a dar uma ambientação clássica à série, mas, ao mesmo tempo, completamente nova, em meio a cenários campestres ou do Greath Northern, sugerindo uma espécie de viagem aos anos 50.

E deve-se dizer que o episódio final da série, dirigido por David Lynch, é, por mais estranho que pareça, o mais fiel ao que vimos antes. Há pelo menos em torno de 20 minutos com material completamente imprevisto para a televisão – quando Cooper entra na sala vermelha do Black Lodge, no Bosque Glastonbury (que Cooper liga ao Rei Arthur), da Floresta Ghostwood, em meio aos sicômoros, e tenta salvar Annie, precisando se deparar com o anão/Braço, com Laura, seu pai, Leland, Bob e seu outro eu. Essas imagens são excepcionalmente fotografadas por Frank Byers (num dos trabalhos mais exitosos da história da TV), e criam um laço direto com o filme de 1992, pois este poderia também ser parte do final daquele, e a terceira temporada. Este episódio final praticamente adianta a questão dos duplos que acompanhamos na terceira temporada, além do surrealismo muito mais explícito e bem dosado que caracterizaria também o retorno da série. Há um diálogo principalmente com o estilo de Coração selvagem, com o qual Lynch havia recebido a Palma de Ouro em Cannes um ano antes, mais exatamente nas sequências do protesto de Audrey no banco de Twin Peaks, contra Ghostwood, da reunião entre o Dr. Jacoby com Big Ed, Nadine e Mike, além do confronto de Dr. Hayward e Ben Horne. Também se destaca que As peças que faltam, extras de Twin Peaks – Fire walk with me, mostram o que acontece exatamente depois do final da segunda temporada, fazendo parte mais uma vez da mitologia que cerca esses personagens de uma série primorosa.

Twin Peaks – Season 2, EUA, 1991 Diretores: David Lynch, Graeme Clifford, Caleb Deschanel, Duwayne Dunham, Uli Edel, James Foley, Mark Frost, Lesli Linka Glatter, Stephen Gyllenhaal, Todd Holland, Tim Hunter, Diane Keaton, Tina Rathborne, Jonathan Sanger Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Miguel Ferrer, Warren Frost, Russ Tamblyn, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Catherine E. Coulson, Eric DaRe, Peggy Lipton, Don S. Davis, David Patrick Kelly, Russ Tamblyn, Victoria Catalin, Wendy Robie, Gary Hershberger, Michael J. Anderson, Frank Silva, Al Strobel, Heather Graham, Frances Bay, Austin Jack Lynch, Kenneth Walsh, Annette McCarthy, Chris Mulkey, Billy Zane, John Boylan, Robyn Lively, Ian Buchanan, Michael Parks, David Duchovny, Lenny von Dohlen, Hank Worden, Carel Struycken, Dan O’Herlihy Roteiro: David Lynch, Robert Engels, Mark Frost, Harley Peyton, Jerry Stahl, Barry Pullman, Scott Frost, Tricia Brock Fotografia: Frank Byers Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração (Temporadas 1 e 2): 1670 min.

Twin Peaks – Primeira temporada (1990)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A série Twin Peaks marcou época na televisão norte-americana. Quando exibida no Brasil, sofreu diversos cortes, tornando o que já era de entendimento complexo ainda mais difícil. Podendo se assistir novamente às duas primeiras temporadas, constatam-se os motivos de seu sucesso. Como trama policial e narrativa de suspense, não foi feito ainda nada parecido na TV. A história da jovem rainha da escola Laura Palmer, que aparece morta enrolada num plástico, na margem do rio de Twin Peaks, é um pretexto para descobrirmos, como em outras obras de David Lynch, o que acontece por trás de alguns habitantes de uma cidade do interior. A sequência de aviso da morte ao pai de Laura, Leland (Ray Wise), e à mãe, Sarah (Grace Zabriskie), é realizada em tom crescente e melancólico, em razão da música de Angelo Badalamenti, assim como o aviso dado pelo diretor da escola sobre o acontecimento, repercutindo entre os amigos de Laura. A partir daí, conhecemos Bobby Briggs (Dana Aschbrook), namorado de Laura, o motoqueiro James Hurley (James Marshall), amante dela, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), sua amiga, além de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), filha de Ben Horne (Richard Beymer), dono do hotel da cidade, o Great Northern, cujo irmão Jerry (David Patrick Kelly) é um parceiro de negócios.

Designado para a investigação, Dale Cooper (Kyle MacLachlan, em seu melhor papel), que parece voltar a uma cidade da infância, dos anos 50, mas onde não há mais inocência, ganha a parceria do xerife Harry S. Truman (Michael Ontkean). Cooper chega aos envolvidos com Laura Palmer com o objetivo de montar o quebra-cabeça, em meio a perguntas sobre os pinheiros que existem na rota para a cidade, explicações para o seu gravador (para a secretária Diane) e interesses por rosquinhas e café preto – que não atenuam o pesadelo do cenário, contrastando com a beleza da paisagem.
Toda essa teia de personagens tem várias extensões. A primeira temporada mostra, a partir disso, a perseguição aos principais suspeitos do assassinato de Laura, entre os quais estão também o caminhoneiro Leo Johnson (Eric DaRe), que bate na mulher, Shelly (Mädchen Amick), empregada na lanchonete de Twin Peaks, Double R, e amante de Bobby Briggs, e alguns desses personagens referidos. E seu piloto (tanto o feito para a TV quanto o feito para vídeo, um pouco mais extenso) tem uma condição de cinema como nada na TV, antes e depois. As cores e a atmosfera da cidade são trabalhadas em detalhes por Lynch: a perseguição a James Hurley e Donna Hayward, na estrada noturna, por exemplo, ajuda a determinar o clima de tensão da série.

O humor de Twin Peaks aparece sobretudo a partir da entrada em cena de Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), brigando com o Dr. Will Hayward (Warren Frost), legista local, e com uma presença maior de Ben Horne, embora nada sobrepuje o agente Cooper e o corpo policial da cidade, que rende boas cenas de humor, protagonizadas por Lucy Moran (Kimmy Robertson), Andy Brennan (Harry Goaz) e Hawk (Michael Horse). Há um misto de seriedade e ironia em cada personagem, o que não os torna pesados mesmo quando enveredam pelo drama intenso. Por outro lado, surge o desespero do pai de Laura, Leland, apenas consolado com a presença da sobrinha Maddy Ferguson (também interpretada por Sheryl Lee), igual a Laura Palmer, em versão morena (imaginamos aqui uma precursora das personagens de Patricia Arquette em A estrada perdida e das atrizes de Cidade dos sonhos).
No quarto episódio, depois de iniciar seu processo de investigação baseado em premissas do Tibete (o que vai ao encontro de David Lynch e sua meditação transcendental) e brincadeiras com a psicologia (na figura do Dr. Lawrence Jacoby, interpretado por Russ Tamblyn), Dale Cooper tem o sonho que mudará a série: numa sala vermelha, um anão (Michael J. Anderson) dança, fala frases ao contrário e Laura Palmer se aproxima, dando pistas para Cooper desvendar o crime.

A partir disso, o agente do FBI investe numa espécie de perseguição zen ao criminoso, costurando pistas por meio das mensagens cifradas do seu sonho, elemento típico em David Lynch – e a investigação vai parar em duas cabanas da floresta: numa delas, Cooper conhece a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson), que tem histórias sobre o que aconteceu na floresta na noite do assassinato; e em outra descobre o pássaro Waldo, que repete o nome de dois homens, até desembocar num cassino localizado no Canadá, Jack Caolho’s, administrado por uma mulher misteriosa, Blackie O’Reilly (Victoria Catalin).
O cenário a ser seguido, para Lynch, é o da floresta, e Twin Peaks está à margem dela. O mistério está localizado em figuras como a coruja (numa sequência, o rosto de Bob, o assassino, tem a imagem dela) e dos galhos das árvores que se balançam. Como diz Truman a Cooper numa reunião com um grupo que vigia a entrada de drogas em Twin Peaks, inclusive com James Hurley, há algo estranho nas árvores da cidade, uma força estranha e misteriosa. É para ela que Lynch, afinal, quer direcionar a série. E há os relacionamentos duplos, como o de Norma Jennings (Peggy Lipton), apaixonada por Big Ed Hurley (Everett McGill), dono de um posto de gasolina, casado com Nadine (Wendy Robie); a traição de Catherine Martell (Piper Laurie), casada com Pete (Jack Nance) e dona da serraria local, ao lado de Josie Packard (Joan Chen), e amante de Ben Horne. Leve-se em conta ainda que o xerife Truman é um namorado secreto de Josie. Enquanto a cidade se movimenta com uma economia baseada na serraria, tudo esconde um núcleo de traições e interesses escusos, além do tráfico de drogas, tendo à frente Leo Johnson, com Bobby Briggs e Mike (Gary Hershberger) como compradores.

O roteiro envolvendo Dale Cooper não lida apenas com a investigação sobre o assassinato de Laura Palmer, como sua amizade com Audrey Horne, que não se considerava amiga de Laura. É ela a personagem que o faz se aproximar da cidade e se torna uma espécie de investigadora do caso, ao tentar descobrir por que Laura trabalhou na seção de perfumes de uma das lojas de seu pai, Ben. Trata-se de uma cidade estranha com duas faces bastante distintas (uma diurna, outra noturna), na qual os pais da vítima, Leland e Sarah, parecem habitar uma espécie de universo paralelo: ela com visões assustadoras e ele dançando ou cantando músicas antigas, e na qual uma das principais referências é Phillip Gerard, o Homem de um Braço Só (Al Strobel), vendedor de sapatos e capaz de levar a polícia ao criminoso. No final desta primeira temporada, em que a tentativa de solucionar o crime é envolvida pelo clima dos anos 50 ou 60 que habita a cidade – e faz os jovens se reunirem com os pais à beira da lareira da sala, colocarem músicas para dançar no Double R, onde quase todos da cidade vão tomar café e comer tortas –, Cooper, ao atender a porta no hotel, é baleado. São oito episódios com condução perfeita: a direção segura, o elenco excelente e os elementos que compõem Twin Peaks (a direção de arte, a fotografia, a música) destacados como em poucas séries, mostrando por que ela se notabilizou tanto.

Twin Peaks, EUA, 1990 Diretores: David Lynch, Caleb Deschanel, Duwayne Dunham, Mark Frost, Lesli Linka Glatter, Tim Hunter, Tina Rathborne Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Miguel Ferrer, Warren Frost, Russ Tamblyn, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Catherine E. Coulson, Eric DaRe, Peggy Lipton, Don S. Davis, David Patrick Kelly, Russ Tamblyn, Victoria Catalin, Wendy Robie, Gary Hershberger, Michael J. Anderson, Frank Silva, Al Strobel Roteiro: David Lynch, Robert Engels, Mark Frost, Harley Peyton Fotografia: Ron García, Frank Byers Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg

Twin Peaks – O retorno (Episódio 15) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Não parece ser mais surpresa que o pressuposto básico desta terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) é dialogar com o filme de 1992, cujo subtítulo é Fire walk with me, e explorar o conceito do duplo, já utilizado por Lynch em Estrada perdida, Cidade dos sonhos, Império dos sonhos e nas primeiras temporadas de Twin Peaks por meio de Laura/Maddie e Bob/Leland, além de ver os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens. A cada episódio, Lynch vem lidando com esses temas numa linha tênue entre o surrealismo e o simbolismo, com uma profusão de diálogos conceituais e cenas com gênero indefinido. O episódio 14 marcou o lado mais potencial desta temporada: o mistério da série em diálogo com histórias surpreendentes.
Neste capítulo 15, tudo começa com Big Ed Hurley (Everett McGill) conversando com Nadine (Wendy Robie), com sua pá de ouro em punho e querendo libertar o marido (lá se vão 25 anos), antes de ir ao Double R se encontrar com Norma Jennings (Peggy Lipton), que parece dar as costas para Walter (Grant Goodeve), seu novo interesse amoroso. Esses momentos são condensados por Lynch para solucionar o que esses personagens já sentiam desde as primeiras temporadas. Norma apareceu esporadicamente desta temporada e Big Ed apenas no episódio 13. Lynch não se mostra muito interessado em retomar esses personagens, e a participação deles soa como um toque de nostalgia, apesar das ótimas atuações de McGill e Robie. Um acréscimo é o visual dessas cenas, com cores vibrantes.

Logo em seguida, acompanhamos o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) numa estrada deserta, com os faróis iluminando a noite, até chegar a uma Loja de Conveniência. Ele é recebido por um woodsman, que o conduz até o segundo andar, a partir de onde suas imagens desaparecem. Mr. C entra num espaço com papel de parede cheio de flores, que remete ao sonho de Laura Palmer no filme Twin Peaks – Fire walk with me com um woodsman utilizando um aparelho de eletricidade, que víamos no Hap’s Diner quando Chester Desmond e Sam Stanley investigavam a morte de Teresa Banks. Ele é conduzido pelo woodsman que matou Hustings até o quarto onde estaria Phillip Jeffries. Lá, numa atmosfera assustadora, ele pergunta sobre Judy, a respeito da qual falava Jeffries no filme. Quem lhe responde é um sino gigante (com a voz de  Nathan Frizzel), semelhante ao que aparece no White Lodge. Transportado para a cabine telefônica que fica em frente à Loja, Mr. C é abordado por Richard Horne (Eamon Farren), que fala ser ele o agente Cooper, conhecido de sua mãe, Audrey. Se o episódio tivesse esse clima e elaboração seria ótimo. A imagem da Loja de Conveniência se mescla com a do bosque de Twin Peaks, onde se encontram Steven Burnett (Caleb Landry Jones), marido de Becky (Amanda Seyfried), e Gersten Hayward (Alicia Witt), aparentemente afetados por uma bad trip. O bosque sinaliza que há algo errado acontecendo com os dois, mas esse era o arco desenhado para dois personagens que mal se apresentaram? O melhor a se dizer é que Caleb e Witt têm uma ótima atuação, lembrando o drama de Cobain em Últimos dias. Um homem vê os dois e avisa a Carl Rodd (Harry Dean Stanton) do parque de trailers. A partir daqui, o episódio vai se perdendo.
James Hurley (James Marshall) reencontra Renee (Jessica Szhor), sua pretensão amorosa e casada. Depois de 25 anos, ele não descobriu uma maneira mais discreta de participar de uma conversa. Parece uma sina de James: ele também era amante de Laura e depois de Evelyn Marsh, para quem consertava carros na segunda temporada. Desta vez, por causa disso, ele se envolve numa briga de bar na Roadhouse, sendo auxiliado pelo amigo Freddie Sykes (Jake Wardle), que, com seu punho de borracha, machuca quem tenta espancar James. Ambos são levados para a delegacia, onde se encontram Chad Broxford (John Pirruccello), um homem bêbado (Jay Aaseng) e a mulher sem olhos (Nae Yuuki)  do episódio anterior.

Duncan Todd (Patrick Fischler) é assassinado a sangue frio por Chantal (Jennifer Jason Leigh) em Las Vegas, antes de ela dividir hambúrgueres com seu parceiro Hutch (Tim Roth) numa van e observar que Marte pode ser visto no céu, acima de fios de eletricidade, um diálogo certamente com as referências espaciais do Major Briggs e com o tom desse episódio, bastante melancólico.
Já Dougie Jones (Kyle MacLachlan) recebe outro pedaço de bolo de Janey-E (Naomi Watts), mas o roteiro deles parece ter se esgotado praticamente desde o episódio 6, ou seja, há quase dez capítulos não há uma evolução coerente. Neste, a parte mais interessante é quando Dougie sintoniza Crepúsculo dos deuses na TV e vê a personagem central do filme, Norma Desmond (Gloria Swanson), falando do produtor de cinema Gordon Cole. Dougie associa o nome ao antigo colega e se aproxima de uma tomada com um garfo colocando-o nela, até que há um clarão, que remete sobretudo a Império dos sonhos.
Muito se vem debatendo sobre a volta ou não de agente Cooper, que ainda vaga no corpo de Dougie Jones, tentando acordar. Alguns indicam que isso seria exigir uma concessão de parte de David Lynch. Tenho ainda em mente que Lynch, como grande criador, quis substituir o agente Cooper por seu agente Cole. Faz parte dele como artista querer isso. Se deu certo? Em certos momentos – até o capítulo 6, principalmente –, muito: Dougie de fato funcionou e Cole teve tiradas ótimas, reiteradas por sua fabulosa aparição no episódio 14. Mas, aos poucos, Dougie foi sendo deixado de lado, aparecendo mais nos episódios 11 e 13 – com Cole bastante presente a maior parte do tempo.

Nos episódios 8 e 14, dois dos melhores desta temporada, não há nem sinal de Dougie, e a impressão que se tem é que Lynch não explorou esse duplo totalmente, com prejuízos também à ótima personagem de Janey-E, que sustentou algumas cenas bravamente por causa do talento insuspeito de Naomi Watts. Havia espaço para desenhar um homem médio dos Estados Unidos, mas ficou num meio-termo. E cada vez que Lynch mostra seu duplo mal faz o espectador lembrar da imagem desagradável de encerramento da segunda temporada, o que me parece um equívoco de Lynch: Cooper é a imagem do equilíbrio de Twin Peaks e vê-lo sem poder agir como tal, a exemplo do seu próprio duplo do mal, confere um estranho destaque a este em detrimento daquele. Como admirador da série, entendo ter sido uma escolha equivocada de Lynch.
Já na delegacia de Twin Peaks, Hawk (Michael Horse) conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson), que lhe diz que está morrendo. Trata-se da cena mais emocionante do episódio, e Hawk avisa Andy (Harry Goaz), o xerife Truman (Robert Forster) Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e Lucy (Kimmy Robertson) como se fosse a despedida da atriz.

O problema novamente é que, a três episódios agora do fim desta temporada ou de Twin Peaks, o personagem de Audrey Horne continua a sua conversa com Charlie (Clark Middleton), que iniciou no episódio 12, e Sarah Palmer voltou a descansar depois do momento de violência impactante do anterior. Muitas, muitas perguntas e se espera que haja, sim, uma quarta temporada caso não tenhamos o desenvolvimento adequado para as histórias se concretizarem nesta. Alguns dos grandes méritos são a fotografia de Peter Deming e a atuação de MacLachlan. Mas, em termos de roteiro (e aqui Mark Frost também é responsável) e montagem, este episódio novamente se mostra bastante falho. Impressiona a irregularidade de Lynch ao montar os episódios desta temporada, desde o décimo pelo menos, independente de ele tratar tudo como um filme só (do qual apenas as cenas musicais na Roadhouse já tirariam o ritmo). Se o anterior colocava a história para a frente, este novamente deixa quase tudo em círculos. A participação de alguns personagens (até mesmo Audrey Horne, tão esperada ao longo de vários capítulos) soa dispensável, pois não há acréscimos.
Tudo novamente é muito conceitual, mas sem a devida formulação. É preciso admitir que, mesmo com momentos excepcionais (e um marco, o episódio 8), esta temporada não está cumprindo sua expectativa inicial, e mesmo que encerre com três grandes partes ficará sempre a sensação de várias tramas deslocadas e sem o devido desenvolvimento. O mais estranho é que Lynch soube fazer peças excepcionais, mas em outras simplesmente não conseguiu mostrar seu melhor talento. Percebe-se que os melhores momentos de seu trabalho possuem cenas longas e substanciais, com diálogos bem feitos, o que se ausenta praticamente aqui, com uma miscelânea de acontecimentos com detalhes interessantes, mas no todo desconjuntado. Chega a ser estranho: parece que de semana a semana a série vai mudando, mas não é uma falta de rumo experimental e interessante, e sim apenas desencontrada. Neste episódio 15, especialmente, há muitos equívocos no desenvolvimento. Fica até difícil aceitar que tudo se trata da obra de um mesmo diretor (as duas primeiras temporadas, com vários diretores, se sentiam com mais unidade). Um mistério como o próprio universo de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 15, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Peggy Lipton, Naomi Watts, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Everett McGill, Tim Roth, Kimmy Robertson, Jennifer Jason Leigh, Wendy Robie, Grant Goodeve, Catherine E. Coulson, Nathan Frizzel, Jessica Szhor, Eamon Farron, Harry Dean Stanton, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Patrick Fischler, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Charlyne Yi Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 13) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Depois de rever o episódio 12, fiquei pensando no enfoque dado aos personagens na terceira temporada de Twin Peaks e concluí que a série está mais para História real, no sentido de que mostra como pessoas de terceira idade estão presentes na definição de rumos, o que não se mostra muito comum em filmes ou séries. Carl Rodd mostra isso exemplarmente, assim como Ben Horne e o xerife Truman, além de Hawk, Senhora do Tronco, Bushnell Mullins, Dr. Hayward, Dr. Jacoby e Sarah Palmer, para não falar de Gordon Cole. Quando Lynch fez Twin Peaks nos anos 90, ele tinha 45, 46 anos. Hoje ele tem 71 anos. Não há quase jovens (Becky, Steve, Richard Horne, algumas jovens na Roadhouse sem muita definição, quem mais?). A cena de Rodd ajudando Kriscol no episódio 12 é magnífica nesse sentido. Essa visão dos Estados Unidos à la História real é o que marca essa temporada.

Não parece ser em vão que ele coloca Margaret, a Senhor do Tronco, como aquela que antecipa determinados rumos da trama. E isso é bastante interessante se analisarmos as facetas de Lynch: Veludo azul, Coração selvagem e Twin Peaks – Fire walk with me podem ser vistos como suas realizações sobre a juventude norte-americana, envolta em mistérios e estradas sem rumo. Ele mantinha certos elementos em A estrada perdida, mas em Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, mesmo por causa de temas ligados a Hollywood, seu interesse era o cinema como metalinguagem. Exatamente em História real David Lynch antecipava um olhar sobre a terceira idade no cinema, só vista com a mesma propriedade por um outro artista norte-americano em Nebraska, pelas lentes de Alexander Payne.
Mas, como em outras oportunidades, em se tratando de David Lynch, qualquer teoria pode se desfazer com a exibição de um capítulo e, se tudo isso pode ser um ângulo para sua série, talvez ele não seja padronizado. No episódio 13 da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), o diretor introduz com uma ótima sequência em que os irmãos Rodney Mitchum (Robert Knepper) e Bradley (James Belushi) chegam, com Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier), Mandie (Andrea Leal) e Dougie Jones (Kyle MacLachlan), num trenzinho de carnaval, ao escritório de Bushnell Mullins (Don Murray), para desespero de Anthony Sinclair (Tom Sizemore). Esta é uma das cenas mais divertidas certamente da temporada, seguida por aquela em que Janey-E (Naomi Watts) recebe os presentes dados pelos irmãos Mitchum: equipamentos para ginástica direcionados a Sonny Jim (Pierce Gagnon) e um novo carro espetacular. Sem esforço, Dougie vai fazendo o bem do White Lodge às pessoas a seu redor. Interessante é Janey-E dizer que Sonny Jim, brincando no presente dado, está no “sétimo céu”, que significa o paraíso, num diálogo especialmente com a parte simbólica do episódio 8. E deve-se reparar na trilha sonora de fundo: uma versão de “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky, em forma de cantiga, como se delimitasse Dougie como o White Lodge.

A partir daí, Lynch novamente foca nas ações encadeadas pelo duplo mal de Cooper (MacLachlan). Ele vai até um galpão atrás de Ray Monroe (George Griffith), que atirou nele no oitavo episódio e está a serviço de Phillip Jeffries. O duplo mal arranja uma queda de braço com o líder dos traficantes, Rezo (Derek Mears). Olhando por um telão à chegada do duplo mal, Rezo lembra um gigante do White Lodge às avessas. Eis que surge Richard Horne (Eamon Farren). Esta cena introduz duas passagens ultraviolentas, em que o anel da Coruja, que simboliza a morte, leva o corpo de Ray para o Black Lodge. A necessidade de Lynch em estabelecer pontes com o filme Twin Peaks – Fire walk with me soa em determinados momentos fascinante e em outros apenas deslocada. Parece ser o caso aqui.
Por vezes, como admirador da série antiga, imagino se Lynch estava querendo mesmo voltar a este universo de modo decisivo. Os trechos que envolvem o duplo mal de Cooper e, depois, de Sinclair tentando envenenar Dougie, arrependendo-se antes de chegar às vias de fato, parecem pertencer a outro desejo de Lynch: de tornar tudo excessivamente lento – o que funcionou decisivamente quando havia mistério, até o capítulo 9, principalmente, e um tanto no 12 – para que nada se resolva. Esta trama envolvendo Dougie Jones, Anthony e Bushnell já se esgotou há pelo menos três episódios, mas Lynch insiste nela com grande dedicação, não impedindo que mesmo os recursos cômicos de Dougie e Janey-E se sintam nostálgicos dentro da própria série. Até os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), ao descobrirem que as digitais de Dougie apontam alguém que escapou da prisão em Dakota (seu duplo mal), fazem do papel com essa informação uma bolinha para atirar no lixo: seria um recado de Lynch ao espectador? Enquanto isso, Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh) saem da cena do crime do episódio anterior.

Mais estranho ainda é quando Lynch resolve se locomover para Twin Peaks, quando mostra Shelly (Mädchen Amick) conversando com sua filha Becky (Amanda Seyfried), à espera de Steve. Não há personagens desenvolvidos aqui: Becky já foi apresentada, mas o máximo que Lynch extrai da conversa é Shelly convidando a filha para uma torta de cereja, a mesma que alegra Dougie no café com Sinclair. É como se a torta de cereja simbolizasse o próprio White Lodge, um conceito interessante, no entanto aparentemente simples demais para o simbolismo detalhado de Lynch. São apenas acenos para a nostalgia: Lynch não está desenvolvendo nenhum acréscimo à história. Bobby Briggs (Dana Ashbrook) chega ao Double R para encontrar Norma (Peggy Lipton) e Big Ed Hurley (Everett McGill) e apenas sinaliza que o que já sabemos: o Major Briggs deixou pistas, segundo ele. Inacreditável, a uma altura dessas, é ver Norma se reunir com Walter (Grant Goodeve), que traz ideias para a franquia de lanchonetes dela. Há uma longa conversa expositiva sobre os ganhos e perdas de lucro naquela região. E, pelos olhares trocados com Norma, Big Ed continua apaixonado por ela.
Uma certa paciência vai sendo testada quando Nadine (Wendy Robie) se encontra com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn), que avista uma de suas pás de ouro na vitrine da loja dela (com cortinas silenciosas, como ela tanto gostava na primeira temporada) e, tudo indica, apresentando um flerte entre ambos (o que poderia ter acontecido no episódio anterior, quando praticamente se reprisou um programa de internet de Jacoby); quando Sarah Palmer (Grace Zabriskie) assiste a uma luta de boxe em preto e branco (seria com Bushnell Mullins?), com problemas na eletricidade da televisão (seriam os woodsmen?), enquanto Lynch comprova que ela ainda gosta de fumar muito e de infelizmente presenciar violência; e Audrey Horne (Sherilyn Fenn) ainda na mesma conversa com o marido, Charlie (Clark Middleton) do episódio anterior, afirmando, desta vez, que não se sente no lugar certo (uma possível sugestão ao espectador) e refere-se a Ghostwood, o projeto de seu pai Ben, contra o qual protestava quando ocorreu a explosão no banco no final da segunda temporada, fazendo com que ficasse em coma. Estaria Audrey num universo paralelo ou ainda no hospital, imaginando essa vida angustiante? Tantas referências a uma nostalgia sem desenvolvimento só poderiam se encerrar com um show de James Hurley (James Marshall) na Roadhouse, cantando a mesma música, “Just you”, que cantou na segunda temporada com Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) e a prima de Laura Palmer, Maddie (Shery Lee).

Lynch é um grande artista – isso é comprovado – e nesta temporada mostrou momentos que entraram para a história da televisão (nunca esqueçamos a parte 8), mas um episódio como este é um tanto inexplicável mesmo para quem aceitou a nova proposta da série. Lamenta-se que Lynch passe um capítulo inteiro apenas imbuído em repetir tramas que poderiam ter sido concluídas facilmente em episódios anteriores ou circunscrever diálogos repetidos o que o espectador já sabe. O que me parece, no entanto, e isso se localiza principalmente nos capítulos 7, 10, 11 e um tanto no 12 é que a montagem por vezes vagarosa (e bastante funcional na maior parte do tempo) começa a dar espaço excessivo para tramas que não se completam, vão se expandindo em excesso. O início delas foi instigante; sua resolução está sendo muito simplista. Muitos dos elementos funcionavam de maneira irretocável até a sexta  parte e depois se perderam um pouco. As pistas deixadas pelo major Briggs no capítulo 9 não foram concluídas e parece que serão apenas no final, o que não deixa de ser decepcionante. O espectador, de certo modo, se sente como Big Ed Hurley ao final deste episódio, esperando que algo aconteça. Para Lynch, praticamente não há história para acontecer exatamente na cidade de Twin Peaks, a não ser aquela que interliga as pistas de Briggs e os efeitos do duplo mal de Cooper. Tudo se sente motivo para uma nostalgia de que nada voltará, inclusive o agente Cooper, a não ser possivelmente num clímax (que se espera à altura de Lynch). Nesses momentos, a série funciona como parte de um universo abrangente de Lynch e Mark Frost (representado pela figura do major Briggs e dos agentes do FBI), mas não exatamente como uma continuação verdadeira das duas primeiras temporadas de Twin Peaks no sentido de desenvolvimento de personagens e tramas paralelas principalmente, habitando muito mais um espaço conceitual. É um paradoxo e acredito que Lynch queira desse modo, embora não acredite ter sido o melhor caminho.

Twin Peaks – Episode 13, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Grace Zabriskie, Pierce Gagnon, Peggy Lipton, Naomi Watts, Mädchen Amick, Amanda Seyfried, Dana Ashbrook, Robert Knepper, James Belushi, Everett McGill, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Tom Sizemore, Don Murray, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Wendy Robie, Russ Tamblyn, James Marshall, Derek Mears, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Clark Middleton, Grant Goodeve Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 11) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Fazendo uma retrospectiva dessa primeira metade da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), depois de assistir ao episódio 10, podia-se concluir que, ao mostrar Richard Horne em três episódios cometendo maldades e nenhuma vez sua mãe Audrey, ponto de equilíbrio da sua série antiga, David Lynch estava colocando em certo risco o restante de sua narrativa. Twin Peaks sempre tratou do amor e da bondade contra a maldade humana, mas esta nunca foi o foco central. Ao fazer isso no episódio 10, ele desequilibrava o jogo, tornando os personagens maus em centrais, quando o espectador deseja um meio-termo. Também podia-se concluir que novos personagens, como o de Becky, filha de Shelly, mereciam um desenvolvimento e que, apesar de ter funcionado em episódios anteriores, era possível se tornar desgastante se Ben Horne, Hawk, Truman, Andy e Lucy continuassem, em linhas gerais, sendo utilizados apenas como nostalgia da série antiga, precisando ganhar inter-relações mais práticas rapidamente, assim como Lynch concluir o seguinte: Gordon Cole não pode ser o agente Cooper desta temporada.

Lynch dedicou tempo a personagens mais fracos quando há outros ótimos: Dougie Jones/Agente Cooper, Janey-E, Bobby Briggs, Hustings. No episódio 10, o desenvolvimento dos irmãos Mitchum destoa da carreira de Lynch e não acrescenta à mitologia da série – pelo menos até o momento.  A trama envolvendo o duplo mal de Cooper querendo matar Dougie Jones também passou a correr o risco de se tornar vazia, tamanha a demora em resolvê-la desde o episódio 6, sobretudo. Os episódios restantes, é visível, não poderiam seguir a linha do décimo, principalmente em sua montagem fragmentada, sem tornar cada cena com a densidade vista nos episódios anteriores, mais lenta e reflexiva do que nas duas primeiras temporadas.
Voltando a rever a segunda temporada, impressionou-me o quanto Lynch consegue, dos episódios 9 ao 16, principalmente, direta ou indiretamente (pois ele não dirige todos), uma sequência de tramas que complementa perfeitamente a primeira, sem sobras. As cenas têm a extensão adequada e não parecem se apressar em alguns pontos e ficar lentas em outros. O destaque neste retorno de Twin Peaks é que alguns arcos narrativos demoram às vezes três ou quatro episódios para regressarem. Isoladamente, eles funcionam muitas vezes de maneira excelente – o sexto é talvez o melhor exemplo –, mas num todo esse estilo pode impedir a interação entre os personagens. É incomparável, nesse sentido, as duas primeiras temporadas com esta: David Lynch trabalha aqui mais com conceitos (a maior parte do tempo de maneira brilhante), e a ausência, até agora, de um núcleo jovem mostra também, sem nenhuma condenação ou preconceito, como o diretor não dá a mesma importância que dava a ele nos anos 90.

Lynch está mais preocupado muitas vezes em mostrar uma “era das trevas”, como se refere Janey-E no quinto episódio aos perseguidores do marido Dougie, a criação do Black Lodge, os mistérios da Zona onde estava o Major Briggs, o mundo dos gângsters de Las Vegas, do que exatamente cafés, tortas e rosquinhas (e, quando esses elementos aparecem, é apenas por nostalgia). Mesmo o bom humor muitas vezes é substituído pelo pesadelo: pode-se contar o número de minutos que Dougie Jones apareceu nos episódios 7, 8, 9 e 10. Isso é recompensador porque se trata de uma série absolutamente original ainda, no século 21, sem preocupação em agradar ao espectador, mas também pode levar este a ter nostalgia daquele universo misterioso erguido sobre pinheiros Douglas das temporadas originais. Não se engane: a essência de um mundo de mistério como havia nos anos 90 em Twin Peaks está aqui também, porém mais direcionada ao que David Lynch considera conceitual.
Nesse sentido, o episódio 11 se ressente dos mesmos problemas do anterior. Ele começa muito bem, com alguns garotos vendo a professora Miriam (Sarah Jean Long), que parecia estar morta, pedindo por socorro. Em seguida, Becky (Amanda Seyfried) liga para sua mãe Shelly (Mädchen Amick), a fim de que lhe empreste o carro para ir atrás de Steven Burnett (Caleb Landry Jones); ele a está traindo com Gersten Hayward (Alicia Witt, que aparecia criança na segunda temporada e fez a irmã de Paul Atreides em Duna), irmã de Donna. Shelly chega ao parque de trailers com o carro e a filha rouba o carro dela. Carl Rodd (Harry Dean Stanton) aparece para dar uma carona a Shelly de volta ao Double R. Ela vai se reunir com a filha novamente e o pai, Bobby Briggs (Dana Ashbrock), mais tarde, para tratar de um possível término de casamento dela. Esta bela sequência encerra com o encontro de Shelly e o novo namorado, o traficante Red (Balthazar Getty), e Bobby tendo de conversar com uma senhora depois de um menino disparar tiros sem querer no Double R. Bobby está vendo sua juventude se repetir tanto por meio de sua filha quanto por sua ex-esposa Shelly, afinal Red não passa de um novo Leo Johnson, mais poderoso, pelo que entendemos no sexto episódio. Pior ainda é ele ver uma estranha senhora buzinando no trânsito carregando alguém que parece ter engolido o mesmo inseto da menina dos anos 50 do oitavo episódio.

Enquanto isso, em Buckhorn, Gordon Cole (David Lynch), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), Diane (Laura Dern), Tammy Preston (Chysta Bell) e o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) vão até lugar onde William Hustings (Matthew Lillard) adentrou a Zona e encontrou o Major Briggs. Chegando ao local – Rua dos Sicômoros, o mesmo nome daquela onde Cooper tomou o lugar de Dougie Jones e as mesmas árvores que demarcam no bosque de Twin Peaks a entrada do Black Lodge –, Gordon e Albert veem um homem maltrapilho saindo de uma casa abandonada e encontram o corpo de Ruth Davenport, a bibliotecária amante de Hustings. Gordon se aproxima da casa e avista no céu uma passagem para uma dimensão paralela, numa das cenas mais interessantes dessa temporada. O mesmo homem maltrapilho – que se trata de um dos woodsmen, aqueles do oitavo episódio – entra no carro de Hustings e o mata. Diane tem um comportamento novamente estranho, tanto não se referindo a esse estranho homem que ela enxerga, como querendo ver sinais do braço de Ruth Davenport quando Albert mostra a foto que tirou.
Estranhezas à parte, o xerife Truman (Robert Forster) e Hawk (Michael Horse) conversam sobre as pistas deixadas pelo Major Briggs, quando recebem um telefonema da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Um mapa de origem indígena do território de Twin Peaks mostrado por Hawk oferece boas pistas para os símbolos do milho e do fogo.

É exatamente creme de milho que come Rodney Mitchum (Robert Knepper), à espera de um encontro com Dougie Jones, ao mesmo tempo que seu irmão Bradley (James Belushi) coloca cereal de caixa em seu pote de café da tarde. Esse encontro foi providenciado por Bushnell Mullins (Don Murray, menos inspirado do que regularmente) e vai terminar num restaurante, onde os Mitchum aproveitam uma torta de cereja – Dougie vai comer pedaços dela extasiado, lembrando do agente Cooper (mas isso estamos vendo desde o terceiro episódio…) –, observados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal). Tudo conforme o sonho de Bradley.
Este é mais um episódio cheio de alterações em seu contexto, com problemas de montagem e que sofre de falta de ritmo: enquanto o início é muito interessante, a parte final, com Dougie Jones, em seu momento menos inspirado até agora, faz uma referência divertida a Seven de David Fincher (mesmo porque a trama de Lynch sugere exatamente que aparecerá dentro da caixa aquilo que surge no filme de Fincher), mas transforma os sonhos inspirados e reflexivos de David Lynch em apenas uma apresentação de cartão postal, assim como as rosquinhas que Gordon e sua equipe comem na delegacia depois do terrível acontecimento com Hustings.

Os episódios 10 e 11 sofrem basicamente dos mesmos problemas: Lynch parece ter perdido o ritmo apresentado antes – com exceção do episódio 7, que já adiantava problemas acentuados  nesses, mas ainda era muito bem feito –, transformando a trama excessivamente circular, voltando aos mesmos pontos e acelerando demais onde não deveria e interrompendo cenas-chave para dar destaque a outras sem o mesmo interesse. Antes fosse o fato de não terem aparecido ainda personagens como Audrey Horne e Big Ed Hurley, ou tendo havido apenas uma aparição de James Hurley. O problema não é esse. O problema aqui passa a ser mais grave: Lynch ter dito que se tratava de um filme em 18 etapas requisitava mais enchimento de trama (que na maior parte dos episódios se sustenta até o momento em que cria interesse) e menos conceitos, pelo menos nesses dois últimos. Um exemplo é o roteiro entregue a Laura Dern, como Diane: ela parece apenas um motivo para Lynch incluí-la nas filmagens. O roteiro dos irmãos Mitchum também não é bom, mas Knepper e Belushi fazem o possível, embora principalmente o segundo soe deslocado e com um tom cômico acima do esperado. Eles certamente configuram alguns dos momentos menos inspirados da trajetória de Lynch, o que é uma pena. E, diante da importância recebida agora, fica estranho imaginar por que anteriormente eles só haviam aparecido quase de relance no quinto episódio. Faltam sete partes para se solucionar a trama e tudo parece indicar que teremos pouquíssima participação do verdadeiro agente Cooper nessa volta, caso não se confirme a quarta temporada. David Lynch, neste caso, pode ter escolhido um caminho mais original, mas não deixará de ter feito o espectador que aguardou a volta do personagem (sim, sabendo que não seria o mesmo que antes) por mais de 20 anos estranhamente nostálgico, voltando às duas primeiras temporadas para reencontrá-lo e com a estranha sensação de que Lynch quis ocupar seu lugar como Gordon Cole. Sim, Lynch é o artista completo, mas o agente Cooper é o guia dessa série.

Twin Peaks – Episode 11, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Horse, Chrysta Bell, David Lynch, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Brent Briscoe, Laura Dern, Balthazar Getty, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Caleb Landry Jones, Catherine E. Coulson, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, James Belushi, Alicia Witt, Robert Knepper, Harry Dean Stanton, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, Josh Fadem Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 7) (2017)

Por André Dick

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O sétimo episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix) marca o reencontro com alguns personagens de peças anteriores e a inclusão de novos. Se tudo começa com Jerry Horne (David Patrick Kelly) no bosque de Twin Peaks experimentando drogas enquanto fala ao telefone com o irmão Ben (Richard Beymer), no hotel, a história se transporta para a delegacia. Hawk (Michael Horse) conversa com o xerife Truman (Robert Forster) sobre os papéis que encontrou na porta do banheiro da delegacia. São páginas rasgadas do diário de Laura Palmer, que relatam um sonho que ela teve com Annie Blackburn (Heather Graham), a namorada de Cooper, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. Neste sonho, Annie avisa que Cooper está preso no Black Lodge e que é para Laura anotar isso em seu diário. O xerife, depois de conversar com seu irmão ao telefone, entra em contato com o Doutor Hayward (Warren Frost, falecido no início deste ano), um dos últimos a ter visto Cooper décadas atrás. Esse ingresso do Dr. Hayward traz uma aura de conversas sobre pescaria que remete às primeiras temporadas da série, contrastando com a tecnologia campestre do computador do xerife.

O corpo sem cabeça que se encontra na delegacia de Buckhorn, Dakota do Sul, é identificado como sendo do major Garland Briggs, depois que a tenente Knox (Adele René) conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams). Esta sequência lembra muito aquela dos agentes Stanley e Desmond no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No corredor em que ela liga para seu superior, Davis (Ernie Hudson), vemos passar o que se parece com o mendigo que se encontrava numa cela do segundo episódio. Há um momento de tensão e ameaça típico de Lynch que é cortado por Gordon Cole (David Lynch) assoviando com o retrato da bomba atômica ao fundo de sua sala (e repare-se que, antes, a câmera mostra outro quadro, com uma espiga de milho, remetendo ao “garmonbozia” do Black Lodge). Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) adentra a sala dizendo que tentou falar com Diane (Laura Dern), sem êxito: ambos, então, depois de um pedido engraçado de Albert, vão visitá-la, tentando convencê-la a interrogar o agente Cooper do mal, Mr. C., na prisão de Dakota do Sul. Seguem todos para Dakota junto com Tammy Preston (Chysta Bell).
Os desentendimentos de Diane com os ex-companheiros dão um indicativo que pode se confirmar ou não: Laura Dern será uma das personagens centrais dessa temporada. Apesar de apreciar Dern, suas cenas neste episódio são levemente inclinadas ao exagero, o que descaracteriza o surrealismo despropositado de muitas passagens. O figurino e a peruca, que envelhecem a atriz, não se sentem orgânicos nas cenas em que aparece, além de o roteiro aplicar a técnica do “F***” para tentar uma comicidade forçada, pouco utilizada por Lynch em sua carreira (perceba-se como ela surge bem no recente Wilson, ao lado de Woody Harrelson, ao natural). É Diane, no entanto, que parece prever o que o Cooper do mal (Kyle MacLachlan) pode fazer, tanto que, logo depois, ele consegue uma reunião com o diretor da prisão de Yankton, Warden Dwight Murphy (James Morrison), e parece saber segredos suficientes dele para conseguir uma liberdade incondicional para ele e o parceiro Ray Monroe (George Griffith). Esta sequência é bem feita, mas talvez muito direta para os simbolismos que Lynch costuma entregar, nunca tão evidenciados.

Lynch trafega entre esses espaços com naturalidade, porém o personagem do Cooper mal não parece o melhor indicativo para o que se pode extrair com esta nova temporada: sua presença já parece suficientemente aproveitada. Será uma presença ainda muito ativa?
Enquanto Andy (Harry Goaz) tenta descobrir, de maneira estranha, o que houve com o acidente no episódio anterior, Ben Horne flerta com sua secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório. Ele também recebe das mãos dela a chave que chegou do correio, do quarto em que Cooper estava hospedado vinte anos antes, enviada por Jade (Nafessa Williams), no quinto episódio. Nada mais interessante que a câmera se direcionar a uma das tapeçarias indígenas do Great Northern – simbolizando os enigmas da série e do bosque. E a eletricidade estaria avisando sobre a volta de Cooper?
Já a brava Janey-E Jones (Naomi Watts, em tempo exato de humor novamente) vai buscar o marido Dougie (também MacLachlan) no trabalho, quando ele é visitado por três detetives, T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), por causa do seu carro, que explodiu do outro lado da cidade. Ele também é ajudado pelo chefe Bushnell Mullins (Don Murray), depois de ignorar o colega Anthony Sinclair (Tom Sizemore), a quem acusou de mentiroso no capítulo 5.

Na saída do trabalho, ele precisa enfrentar Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), enquanto aparece a árvore do Black Lodge, o Braço, dizendo o que ele deve fazer. Essa cena mescla estranheza e surrealismo em doses desproporcionais, e o que mais a engrandece é Cooper/Dougie ouvindo as sirenes da polícia como se estivesse recordando do passado. Ainda assim, o que seria um humor calibrado acaba se perdendo um pouco.
Há uma cena executada de forma impecável no Roadhouse, quando um homem varre o salão por alguns minutos, juntando minuciosamente a sujeira deixada pelos clientes no chão, ao som de “Green Onions”, quando ao fundo o parente de Renault (feito pelo mesmo ator, Walter Olkewicz), atende ao telefone e fala sobre negócios ilegais – o que mostra novamente a podridão da pequena cidade embaixo da tentativa de limpá-la.
Neste universo, o duplo mal de Cooper é mais do que uma ameaça: ele é realmente algo a ser combatido. David Lynch até o momento expôs uma história muito bem trabalhada em partes e misteriosa até seu cerne: resta saber o que ele pretende daqui em diante, e até que ponto ele vai utilizar a figura do duplo mal de Cooper e, principalmente, de Diane, que se sente, pelo menos neste episódio, fora do tom. Lynch diz a ela: “O microfone e a cortina são seus”, antes de ela falar com o duplo mal de Cooper, numa cena que parece saída de Império dos sonhos, sobretudo na maneira como ela é enfocada. Esperamos que ele não esteja dizendo a Laura Dern que o espetáculo é dela, como pareceu nesses primeiros momentos.

Sabe-se que desde Veludo azul, passando por Coração selvagem, até Império dos sonhos, Dern é sua atriz favorita, mas desconfia-se o que ele está pretendendo destacar nela que destoe do restante da série. Além disso, os episódios anteriores continham longas sequências primorosas – neste, Lynch parece adotar uma narrativa mais entrecortada, que remete à série antiga, entretanto sem a mesma agilidade de ligação em alguns pontos. É a primeira vez na série que ele estabelece mais de duas passagens para os mesmos personagens, de forma mais definida, e talvez este episódio se sinta mais linear, o que não é a melhor qualidade. Ou seja, até então o diferencial era exatamente esse estilo mais vagaroso, o que muda aqui, e não se sabe ainda se é necessariamente de acordo com o que virá. Não é sem explicação que a melhor cena seja aquela do flerte de Ben Horne, com uma precisão de tempo e movimentos de câmera por parte de Lynch. Perceba-se também que Lynch, além de lidar com duplos, mostra vários irmãos (os Horne, os detetives, os Truman conversando ao telefone), como se a genealogia da série fosse se estendendo. Do mesmo modo, é interessante que o diretor consiga, nos próximos episódios, trazer de volta personagens que apareceram e sumiram, como James Hurley (que teve apenas uma breve aparição ao final do segundo), Bobby Briggs (que apareceu apenas no quarto) e Lucy (Kimmy Robertson), ausente nos dois últimos, para que não percamos de vista o que está ocorrendo a eles. Isso acontece aqui com Ben Horne, que não aparecia desde o primeiro episódio. Audrey, sua filha, desta vez é mencionada. Até agora, do elenco, MacLachlan e Naomi Watts são os dois destaques, seguidos pelo próprio David Lynch, e a fotografia de Peter Deming continua irretocável. Tudo faz parte da ideia de um filme dividido em 18 episódios, mas Lynch não deve destacar alguns do seu elenco para desviar o foco do que realmente nos interessa: os enigmas de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 7, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Ashley Judd, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Tom Sizemore, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Miguel Ferrer, David Lynch, Christophe Zajac-Denek, Warren Frost, Adele René, Brent Briscoe, Ernie Hudson, Jane Adams, Walter Olkewicz Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 6) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

No sexto episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix), David Lynch retoma a história mostrando Dougie Jones/Agente Cooper (Kyle MacLachlan) ainda observando a estátua do caubói na saída de seu trabalho, tentando identificar o que ela lhe lembra de outra vida, exatamente a de um agente do FBI. Abordado por um policial que pede para sair do lugar, acaba sendo levado para casa, onde reencontra sua esposa Janey-E Jones (Naomi Watts, novamente no tempo certo de humor). Ela pede que fale com seu filho, Sonny Jim (Pierce Gagnon) antes de este dormir, e Dougie mal consegue calcular os passos para subir até o segundo andar da casa. Comendo batata frita, é chamado de volta pela esposa para explicar algumas fotos que estavam dentro de um envelope entregue por baixo da porta de sua casa nas quais aparece ao lado de Jade (Nafessa Williams). Mais do que ver em Jade apenas quem lhe deu carona, Dougie Jones/Agente Cooper precisa fazer a tarefa de casa: analisar os arquivos passados por seu chefe da companhia de seguros, Lucky 7 Insurance, para identificar possíveis erros. Depois de visualizar no chão de sua casa o Homem de Um Braço Só (Al Strobel) dizendo que ele precisa despertar – uma alusão clara a Paul Atreides de Duna, também interpretado por MacLachlan – e não morrer, Dougie Jones/Cooper começa a ver pontos luminosos do que precisa marcar em seus arquivos, e interessante também é ele ver no 7 do nome da empresa a mesma curva do piso do Black Lodge.

Se a polícia recolhe os escombros do carro de Dougie Jones que explodiu do outro lado da cidade, de pessoas para quem ele deve, Lynch vai juntando outros: apresenta o novo traficante da cidade de Twin Peaks, Red (Balthazar Getty). Ele estava flertando com Shelly no Road House ao final do segundo episódio e agora mostra drogas a Richard Horne (Eamon Farren), parente dos Horne. Balthazar estrelou A cidade perdida, de Lynch, e a estranheza do ator se manifesta ainda em seu comportamento e o gesto de mágica com uma moeda, que lembra alguns dos momentos surrealistas de Cidade dos sonhos.
Situada entre a realidade e o surrealismo é a ida de Carl Rodd (Harry Dean Stanton) de van de seu Ice Trout Trailer Park em Deer Meadow, Oregon, para Twin Peaks. Lembre-se que esse parque de trailers é administrado por ele já na época em que o FBI vem investigar o assassinato de Teresa Banks em Twin Peaks – Fire walk with me. Na mesma ida, um amigo do local, Mickey (Jeremy Lindholm), ganha carona e fala da esposa Linda, que acabou de receber uma cadeira de rodas do governo. Seriam Linda e Richard (Horne) os nomes mencionados pelo gigante a Cooper no primeiro episódio desta terceira temporada? Em Twin Peaks, sentado num banco de parque, como Dorothy Vallens ao final de Veludo azul, Carl vê uma mãe (Lisa Coronado) brincando com seu filho (Hunter Sanchez), enquanto parece ficar mais calmo olhando a copa das árvores acima.

No entanto, no mesmo cruzamento em que o Homem de um Braço Só aborda Laura Palmer e seu pai, Leland, no filme realizado para o cinema, acontecerá a morte trágica dessa criança. Rodd corre para ver o que aconteceu e visualiza uma chama de fogo subindo ao céu, quando o espectador visualiza a placa de seu parque de trailers, que era mostrada em Twin Peaks – Fire walk with me com o som indígena feito pelo anão do Black Lodge. Lynch desenha essa metafísica de sensações por meio de imagens sensíveis e violentas, desde a beleza natural que Rodd presencia ao extremo oposto. Mais estranha ainda é a violência do motorista que atropela a criança. É como se tudo fosse interligado pela natureza e um sentimento que desequilibra isso remete à eletricidade que provém do Black Lodge. E perceba-se a falta de reação dos habitantes de Twin Peaks, como se não tivessem possibilidade de sequer amparar a mãe com seu filho, mostrando que a pequena cidade ainda vive sob um peso de ameaça inexplicável, mesmo com sua aparente tranquilidade.
Em algum lugar indeterminado, um rapaz quase anão, Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), recebe as fotos de Dougie Jones e da telefonista que aparece ao início do quinto episódio, Lorraine (Tammy Baird), e Lynch, de forma assustadora, já mostra a morte dela a facadas em seguida. E ainda temos Janey-E tentando fazer com que os perseguidores de Dougie Jones, Jimmy (Jeremy Davies) e Tommy (Ronnie Gene Blevins), deixem seu marido em paz, entregando um maço polpudo de dinheiro em troca.

Enquanto Hawk (Michael Horse), na delegacia, descobre algo na porta do banheiro, sob a preocupação de Chad Broxford (John Pirruccello), o xerife Truman (Robert Forster) volta a receber sua esposa, Doris (Candy Clark), revoltada com o não conserto do carro do pai. No Double R, a garçonete Heidi (Andrea Hays), das primeiras temporadas de Twin Peaks, com sua risada característica, atende uma professora, Miriam (Sarah Jean Long), antes de conversar com Shelly (Mädchen Amick).
No entanto, talvez a sequência mais enigmática seja a de Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), depois de passar por uma chuva pesada – bradando palavras contra Gene Kelly e Cantando na chuva –, entrando num bar, onde chama por uma mulher bebendo no balcão de costas: é Diane (Laura Dern), a secretária para quem Cooper fazia suas gravações. A entrada de Dern no elenco de Twin Peaks é uma nostalgia pura de Veludo azul – e Dern, com uma peruca platinada, lembra a musa de Lynch à época de Coração selvagem, Isabella Rossellini.
E o que esperar de Dougie Jones quando reencontra seu chefe depois de novamente experimentar um café no elevador na ida para seu trabalho, ajudado por Phil (o ótimo Josh Fadem)? Chamado a distância e assustado, em meio a um design da agência que remete a peças infantis, iguais a seus rascunhos, certamente, ele parece mais curioso com a imagem de seu chefe, Bushnell Mullins (Don Murray), como campeão de boxe quando mais jovem – o que remete ao agente Chester Desmond (Chris Isaak) vendo a imagem do xerife de Deer Meadow, Cable (Gary Bullock), dobrando um cabo de aço em Twin Peaks – Fire walk with me. Na hora do cumprimento, Lynch desliza sua nota cômica em um sentido mais surreal possível.

Lynch cada vez mais com a ajuda de uma fotografia belíssima de Peter Deming utiliza Kyle MacLachlan para extrair uma das atuações mais memoráveis que o espectador presencia nos últimos anos, mostrando o quanto este ator é subestimado, desde o início de sua trajetória, exatamente em Duna. Ele é impressionante na divisão entre Dougie e Agente Cooper, vivida a cada passo, literalmente, e cada gole de café. Tem a colaboração fundamental de coadjuvantes diretos, a exemplo de Watts e Murray, ou indiretos, como Dean Stanton numa participação extraordinária, com pausas no momento exato.
Em seu sexto episódio, David Lynch mostra mais uma vez que não está preocupado em contar uma história que se esclareça a cada sequência: este retorno precisa ser analisado em todos os pontos para ser essencialmente entendido. E mais: a cada episódio, expande a mitologia simbólica que era subentendida na série e explorada realmente no filme. No entanto, este episódio novamente se mantém com uma fascinação especial, com longas sequências, em que Lynch desenha um cinema de arte na televisão. É a verdadeira arthouse.

Twin Peaks – Episode 6, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Eamon Farren, Miguel Ferrer, David Lynch, Pierce Gagnon, Al Strobel, Harry Dean Stanton, Candy Clark, Balthazar Getty, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Tammy Baird, Don Murray, Josh Fadem, John Pirruccello, Hunter Sanchez, Lisa Coronado, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Jeremy Lindholm Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 5) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

O quinto episódio da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) amplia o que Lynch vinha mostrando no terceiro e quarto episódios, com a vinda do agente Cooper (Kyle MacLachlan) para a nossa dimensão na forma de Dougie Jones. Agora ficamos sabendo que ele trabalha numa agência de seguros, Lucky 7 Insurance, mas, ao ser deixado na frente do prédio onde ela fica pela esposa Janey-E (Naomi Watts), o que o guia até o escritório é o jovem Phil (Josh Fadem), carregando uma porção considerável de café para os funcionários. O agente Cooper na pele de Dougie está, claro, completamente desencontrado – e apesar de um parceiro seu, Anthony Sinclair (Tom Sizemore), dizer que o auxiliou na última escapada de casa (possivelmente com Jade, que vimos no terceiro episódio), ele não sabe o que ocorre, assim como desconhece que em outra parte da cidade seu antigo carro está sendo vigiado por duas gangues.
No entanto, é inevitável perceber a tristeza de seu olhar antes de sair de casa ao ver Sonny Jim (Pierce Gagnon), filho de Dougie e provisoriamente dele, Cooper, enquanto uma lágrima escorre do seu rosto, o que remete a alguns momentos do personagem de MacLachlan em Veludo azul. Imagens em David Lynch transcendem as analogias: são códigos e pistas, assim como as impressões que o Cooper/Dougie vai tendo quando visualiza uma estátua de um cowboy ou quando escuta a palavra “agente”. Para quem queria uma volta imediata do principal personagem da série, tudo parece estar sendo preparado para algo ainda mais surpreendente. É preciso reconhecer como admirador da série original: não imaginava os caminhos que estão sendo adotados por Lynch, e isso demonstra sua originalidade de maneira determinante.

O espectador continua recebendo as informações de Lynch aos poucos e, quando vemos um jovem, Steven Burnett (Caleb Landry Jones, do recente Corra!), procurando emprego em Twin Peaks, para ser repreendido por Mike Nelson (Gary Hershberger), o antigo amigo de Bobby Briggs, por causa de seu currículo, vamos saber cenas mais adiante que ele é namorado de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick). Ela ainda trabalha na lanchonete Double R, de Norma Jennings (Peggy Lipton).
Esta cena antecede uma na qual ambos experimentam drogas no carro, e a filha de Shelly é levada a uma viagem por meio da música que toca no carro, “I Love How You Love Me” (The Paris Sisters) – recordando alguns dos momentos mais trágicos de Twin Peaks – Fire walk with me e também a representação que, além da permanência dos personagens, alguns problemas se repetem. Na cidade, também acompanhamos o xerife Truman (Robert Forster) sendo visitado por sua esposa, Doris (Candy Clark), cobrando agilidade nos consertos caseiros, e a contínua busca de Hawk (Michael Horse) e Andy (Harry Goaz) daquilo que está faltando na investigação de Laura Palmer a fim de se encontrar Cooper. Mais ainda: na Roadhouse, temos a primeira aparição de Richard Horne (Eamon Farren), da família Horne, capaz de lembrar outros psicopatas da filmografia de Lynch, ameaçando uma garota, Charlotte (Grace Victoria Cox), e sua amiga (Jane Levy, a atriz sósia de Emma Stone). Ele entrega um dinheiro (possivelmente relacionado a drogas) a Chad Broxford (John Pirruccello), um dos policiais da cidade que se desentendia com Andy no quarto episódio – e cujo modus operandi cria um paralelo com um policial de Twin Peaks – Fire walk with me, responsável por vender drogas a Laura Palmer e Bobby Briggs. A cena tem um significado para o inveterado fumante Lynch: nunca peça cigarros a um desconhecido.

O episódio transita entre o desencontro de Dougie e o lado violento de peças como A estrada perdida. No cassino onde Dougie/Cooper embolsou 425 mil dólares, Lynch apresenta os irmãos Bradley (James Belushi) e Rodney Knepper (Robert Mitchum), que expulsam o Supervisor Burns (Brett Gelman) com uma dose de violência incontrolável – observados por meninas vestidas de pin-ups (cf. Cidade dos sonhos (ver última imagem acima) e Império dos sonhos), como se estivessem no Jack Caolho’s da antiga série. Vemos, nisso, uma analogia entre o cassino de Las Vegas e o cassino onde Cooper precisou buscar pistas para o assassino de Laura Palmer na série original. E, como nas demais sequências, são símbolos lançados por Lynch para atingir sua finalidade maior.
Novas pontes com a série original são traçadas: o psiquiatra Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) agora transmite um programa pela internet por meio do qual tenta vender as pás que pintava de ouro no terceiro episódio depois de bradar palavras sobre liberdade na América, enquanto é visto por Jerry Horne (David Patrick Kelly) e Nadine (Wendy Robbie). Nesta breve sequência, temos uma influência de outro diretor contemporâneo (no primeiro episódio, algumas tomadas lembravam de Nicolas Winding Refn): Wes Anderson (perceba os objetos utilizados por Dr. Jacoby). Mas temos, acima de tudo, o que está acontecendo com o lado mal de Cooper (também MacLachlan), preso numa cadeia de Dakota do Sul.

Ao se olhar no espelho, ele lembra a cena de encerramento da segunda temporada e, quando vai dar o telefonema permitido, acontece uma pane elétrica na cadeia – um elemento tipicamente lynchiano –, que remete imediatamente a Buenos Aires, onde estava Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. Em meio a isso, a agente Tammy Preston (Chysta Bell), assistente do agente Gordon Cole (David Lynch), descobre mais sobre as digitais da versão maléfica do agente Cooper. Além de tudo, o início e o final do episódio entrelaçam o assassinato de Ruth Davenport, a bibliotecária encontrada em seu apartamento no primeiro episódio. A legista Constance Talbot (Jane Adams) descobre no corpo encontrado no local (não pertencente a Ruth) o anel de casamento de Dougie Jones.
Este é um dos pontos de partida para o enigma em que vai se constituindo Twin Peaks a cada episódio, envolto por surrealismo e elementos típicos da antiga série sob um ponto de vista completamente novo e, ao mesmo tempo, classicamente lynchiano. Como nos primeiros episódios, os personagens vão sendo apresentados em ritmo totalmente diferente de uma série de TV e cada episódio não se apresenta por si só e sim como parte de um conjunto maior. É essencialmente uma mescla, acrescida de novos elementos, de todos os filmes feitos por Lynch, principalmente de Veludo azul em diante, mas neste episódio há essencialmente uma presença de elementos trabalhados em A estrada perdida, na apresentação dos carros vermelho e preto que vigiam o de Dougie, na violência dos irmãos Mitchum e nas cenas da cadeia, que remetem à troca de corpo do personagem, naquele filme, de Bill Pullman. Lynch também traz seu interesse em mostrar a violência ao corpo como a oposição imediata a uma possível atração entre personagens. Veja-se o relacionamento entre os colegas de Dougie Jones ou a maneira como Lynch revela o parente mais novo dos Horne, ou quando coloca pin-ups testemunhando um ato de violência. Como Dr. Jacoby, David Lynch busca elementos que possam desvendar a própria América. Vinte e cinco anos depois de ter encontrado a maioria desses personagens, o cineasta não é mais o mesmo e a sua série também não. Esta continua imprevisível.

Twin Peaks – Episode 5, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts Michael Horse, Harry Goaz, Nafessa Williams, Robert Forster, Chrysta Bell, Caleb Landry Jones, Gary Hershberger, Amanda Seyfried, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Eamon Farren, Grace Victoria Cox, Jane Levy, James Belushi, Robert Knepper, Brett Gelman, Russ Tamblyn, David Patrick Kelly, Wendy Robbie, Jane Adams, John Pirruccello, Pierce Gagnon, Josh Fadem Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – Piloto – Versão europeia (1990)

Por André Dick

Como trama policial e narrativa de suspense, não foi feito ainda nada parecido na TV como Twin Peaks. A história da jovem rainha da escola Laura Palmer (Sheryl Lee), que aparece morta enrolada num plástico, na margem do rio de Twin Peaks, é um pretexto para descobrirmos, como em outras obras de David Lynch, o que acontece por trás de alguns habitantes de uma cidade do interior. A sequência de aviso da morte ao pai de Laura, Leland (Ray Wise), e à mãe, Sarah (Grace Zabriskie), é realizada em tom crescente e melancólico, em razão da música de Angelo Badalamenti, assim como o aviso dado pelo diretor da escola sobre o acontecimento, repercutindo entre os amigos de Laura. A partir daí, conhecemos Bobby Briggs (Dana Aschbrook), namorado de Laura, o motoqueiro James Hurley (James Marshall), amante dela, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), sua amiga, além de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), filha de Ben Horne (Richard Beymer), dono do hotel da cidade, o Great Northern.

Designado para a investigação, o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan, em seu melhor papel) parece voltar a uma cidade da infância, dos anos 50, mas onde não há mais inocência, e ganha a parceria do xerife Truman (Michael Ontkean), o qual passa a apresentá-lo aos envolvidos com Laura Palmer. Cooper tenta desvendar o quebra-cabeças, em meio a perguntas sobre os pinheiros que existem na rota para a cidade, explicações para o seu gravador (para a secretária Diane) e interesse por rosquinhas e café preto – que não atenuam o pesadelo do cenário, contrastando com a beleza da paisagem.
Nisso tudo, a atuação do elenco é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick e James Marshall – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas que ficam marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).

Toda essa teia de personagens tem várias extensões. A primeira temporada mostra, a partir disso, a perseguição aos principais suspeitos do assassinato de Laura, entre os quais estão também o caminhoneiro Leo (Eric Da Re) e alguns desses personagens referidos. No entanto, particularmente seu piloto (tanto o feito para a TV quanto o feito para a Europa, um pouco mais extenso, com 19 minutos a mais) tem uma condição de cinema como nada na TV, antes e depois. As cores escuras da cidade são trabalhadas em detalhes por Lynch: a perseguição a James Hurley e Donna Hayward no episódio-piloto, por exemplo, ajuda a determinar o clima de tensão da série. Há um misto de seriedade e ironia em cada ação dos personagens, mas o humor é incorporado à ação de cada um, o que não torna nada pesado. Na versão europeia do piloto, vemos, por exemplo, uma sequência estranhíssima com Lucy Moran (Kimmy Robertson) e o policial Andy Brennan (Harry Goaz), que, ao longo da série, nunca seriam vistos em sua casa como aqui, assim como a presença de duas figuras-chave para a explicação da trama.

É interessante porque se trata do piloto, excepcional, acrescido de um tom surreal, matéria-prima do restante da série. É David Lynch em seu grande momento como diretor. De qualquer modo, é o clima (a fotografia de Ron García, que colaborou com Vittorio Storaro em O fundo do coração, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete em que os personagens se reúnem, que ajuda a constituir boa parte da série.
Twin Peaks atravessa um terreno da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acaba afastando muitos espectadores que não conseguem associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não é à toa que, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. De qualquer modo, o universo de Twin Peaks é muito mais sintético, voltado a uma única cidade e a inter-relação entre seus habitantes, dentro ou fora de uma investigação policial. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, mesmo que o distúrbio seja de origem desconhecida. Importante reconhecer como o piloto da série já anunciava tanto as características dos capítulos seguintes como ganha mais interesse ainda em razão do filme que se passa justamente antes dele, embora lançado depois.

Há muitos detalhes aqui que seriam reconhecidos no filme feito para o cinema Twin Peaks – Fire walk with me, remetendo a Ronette Pulaski (Phoebe Augustini), por exemplo, ao fato de Bobby Briggs ter se envolvido num problema, junto com Laura, e, principalmente, à relação conflituosa entre Laura, Donna e James Hurley e a Laura trabalhar entregando refeições no Double R. E a versão europeia do piloto traz as imagens do Black Lodge, o quarto vermelho, onde estão Cooper, Laura Palmer e o anão que dança ao som de Angelo Badalamenti deixando pistas (Lynch apreciou tanto essas cenas realizadas para a Europa que resolveu incluí-las no terceiro episódio da série). O filme para o cinema mostra onde tudo começou, com Teresa Banks numa cidade vizinha, e esta personagem também é lembrada aqui pelo agente Cooper. Daí o piloto de Twin Peaks ser praticamente uma continuação (em estilo cinematográfico) realmente de Twin Peaks – Fire walk with me. O mais interessante é que ele foi lançado no Miami Film Festival, em fevereiro de 1990, antes de estrear na BBC. Num momento em que se quer determinar que o “real cinema” só se vê nos cinemas, Twin Peaks é precursor e mostra que a qualidade vem em primeiro lugar.

Twin Peaks, EUA, 1990 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Russ Tamblyn, Eric Da Re, Kimmy Roberts, Harry Goaz, Peggy Lipton, Don S. Davis Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron García Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração: 113 min.