Virgínia (2011)

Por André Dick

Twixt.Filme 5

Poucos nomes ficaram tão marcados por sua trajetória nos anos 1970 quanto Francis Ford Coppola. Se cineastas como Steven Spielberg, Terrence Malick e Martin Scorsese conseguiram se destacar nas décadas seguintes, Coppola teve certa dificuldade, mesmo com seus ótimos filmes dos anos 80 (O fundo do coração, Vidas sem rumo) e dos anos 90 (Drácula de Bram Stoker, a terceira parte subestimada de O poderoso chefão), de fugir do conceito de criador que nunca conseguirá repetir os dois O poderoso chefão e Apocalypse now. Chegando ao início do novo século e visto quase como um cineasta em fase emérita, Coppola fez Velha juventude e Tetro antes do que se considera um dos seus piores filmes, Virgínia (no original, Twixt), com exceção da Cahiers du Cinéma, que o colocou como terceiro melhor filme de 2012, atrás de Holy Motors e Cosmópolis.
Chegar a Virgínia com este conceito de “um dos piores filmes” de Coppola pode ajudar a distanciá-lo ainda mais de seus filmes dos anos 70. No entanto, não garante que aqui o olhar poderá ser melhor, a quem se habituou a considerar apenas o Coppola mais clássico. É difícil acompanhar uma narração inicial um tanto forçada de Tom Waits e Val Kilmer como o escritor, Hall Baltimore, que chega a uma cidade do interior, Swann Valley, para lançar seu novo livro de bruxas. Numa cidade em que a livraria se mistura com uma loja de materiais, ele se depara com um interessado por sua obra, o xerife Bobby LaGrange (Bruce Dern), que o leva à delegacia para ver um corpo morto com uma estaca, de uma série de crimes que ronda o lugar. O xerife perguntar se ele não aceita escrever um livro em parceria com ele.

Twixt

Twixt.Filme 3

Twixt.Filme 4

Há inúmeros filmes, atualmente, em que os problemas são vistos com menos interesse porque tratariam de uma metalinguagem. Em Virgínia, aos poucos, desde a narração inicial, passando pelos personagens, pela ligação conturbada de Val com a esposa, Denise (Joanna Whalley) – e os dois foram realmente casados, depois de se conhecerem nas filmagens de Willow –, discussões com o xerife e encontros noturnos com uma menina misteriosa, V. (Elle Fanning, da mesma época de Super 8, cujos créditos poderiam ter sido filmados por este Coppola) e o escritor Edgar Allan Poe (Ben Chaplin), que esteve durante uma época na cidade, a metalinguagem vai ficando cada vez mais presente. Quando notamos, Coppola não apenas realiza um filme com elementos autobiográficos, de entendimento da paternidade, como consegue apresentar uma homenagem aos filmes e livros de terror, mesclando realidade e onirismo com uma apenas aparente previsibilidade.
Coppola sabe, como poucos diretores, construir uma atmosfera própria, e Virgínia consegue trazer uma das mais fortes dos últimos anos – independente do baixo orçamento que ele teve, impedindo sua melhor distribuição (ele foi lançado em Blu-ray há poucos meses nos Estados Unidos).
Enquanto a chegada de Hall Baltimore a Swann Valley tem elementos da chegada de Chester Desmond e Sam Stanley em Twin Peaks – Fire walk with me, homenageado no filme de Coppola a partir do título, os cenários que aparecem daí por diante, com a fotografia rara de Mihai Malaimare (responsável pelo trabalho de O mestre, de Paul Thomas Anderson, e dos filmes mais recentes de Coppola), remetem à cidade de David Lynch: na delegacia, há cabeças de cervos nas paredes; as ruas são quase vazias; há uma biblioteca com uma janela para a igreja local; uma senhora dorme e não pode ser acordada (Eraserhead); e um hotel desperta dos sonhos com uma coleção de cortinas vermelhas. Mas não se trata de uma diluição: Virgínia tem uma atmosfera também particular, lembrando uma espécie de conto que leva a alguns lugares terrivelmente diferentes, uma espécie de Drácula de Bram Stoker em escala menos épica, além de um grupo de jovens à beira de um lago, remetendo a O selvagem da motocicleta. Numa cena em que é mostrada a engrenagem de relógios, há um diálogo indireto, ao mesmo tempo, com A invenção de Hugo Cabret, de Scorsese (os filmes tiveram seu lançamento quase na mesma época).

Twixt.Filme 2

Twixt.Filme 12

Twixt.Filme 7

A explicação de Virgínia parece estar no comportamento do escritor. Ele pretende sustentar sua carreira com histórias de bruxarias, mas resolve, por sugestão do xerife, se voltar para o universo dos vampiros e logo ingressa numa história que pode salvar sua carreira. De nada adianta, a princípio, ele sentar em frente à sua máquina: ele não consegue fugir a uma escrita literária, em que descreve um lago com sereno. Pressionado pelo editor, Sam Malkin (David Paymer), Coppola, daí por diante, brinca com sua própria condição, com o universo do escritor e a cidade onde se encontra. Se o escritor não poderá ser Edgar Allan Poe e Walt Whitman, nem produzir as Folhas de relva, ele procura por outras formas de imaginar uma eternidade. Não existe, em Virgínia, nenhum grande momento, e a linha da narrativa transcorre de maneira um pouco tortuosa, sendo este seu grande problema. Por outro lado, um de seus méritos, com isso, é não soar pretensioso, deixando o elenco à vontade para oferecer grandes atuações: Kilmer desempenha bem o tédio de Hall, porém é Fanning que se destaca e Bruce Dern (atualmente em destaque, em razão de Nebraska) está perfeito como o xerife inconveniente, assim como Ben Chaplin entrega um Poe melancólico. Embora em algum ponto os diálogos não consigam entrelaçar da melhor maneira esses personagens, e a edição misture estados diferentes de consciência, Virgínia ainda tem pontos muito interessantes.
Ao contrário dos colegas da Nova Hollywood, Coppola tem certa dificuldade de ser aceito em filmes que aparentam ser menores, pela pouca repercussão e críticas duras. Virgínia é a visão contemporânea de Coppola, que se arrisca a abandonar a grandiosidade de projetos que levaram sua Zoetrope à complicação financeira dos anos 80, como O fundo do coração e Cotton Club, mas é também a de um realizador que filma digitalmente um dos filmes mais bem fotografados dos últimos anos. As imagens de Virgínia gravam na memória como se fossem imagens de um livro distante, mas familiar, com uma espécie de relevo. É o bastante para torná-lo um filme a ser descoberto.

Twixt, EUA, 2011 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: Val Kilmer, Bruce Dern, Elle Fanning, Joanne Whalley,  Ben Chaplin, David Paymer, Alden Ehrenreich, Anthony Fusco, Bruce A. Miroglio, Don Novello, Lucas Rice Jordan, Ryan Simpkins Roteiro: Francis Ford Coppola Fotografia: Mihai Malaimare Jr. Trilha Sonora: Dan Deacon, Osvaldo Golijov Produção: Francis Ford Coppola Duração: 84 min. Estúdio: American Zoetrope

Cotação 3 estrelas e meia

Anúncios

Indicados ao Oscar 2014

Por André Dick

Indicados ao Oscar.Melhor filme.2014

Melhor filme

12 anos de escravidão
Gravidade
Trapaça
Capitão Phillips
Clube de compras Dallas
Ela
Nebraska
Philomena
O lobo de Wall Street

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood escolheu alguns dos filmes que já vinham sendo escolhidos em outras premiações. Não há surpresas para as inclusões de 12 anos de escravidão, Gravidade, Trapaça, Ela e Nebraska, de Alexander Payne. Além, é claro, do polêmico Martin Scorsese e seu O lobo de Wall Street (que, seguindo o script, da Academia tem menos chances por todas reclamações que vem suscitando). A Academia se equivocou ao incluir Capitão Phillips e excluir Rush – No limite da emoção. Apesar da admiração por Voo United 93, Paul Greengrass foi se tornando apenas um autor restrito a uma situação em alta voltagem. O filme com Tom Hanks não têm cadência: ele é contado como uma espécie de documentário, mas, afora a presença de Hanks e de Barkhad Abdi, não há emoção além daquela empregada pela montagem – e um filme que pretende manter 100% de tensão acaba por vê-la diluída.
Clube de compras Dallas não deixa de ser uma surpresa – na categoria de filmes independentes –, assim como Philomena, embora estivessem cotados. Surpreende a ausência de Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, diretores que se fizeram favoritos da Academia nos últimos anos, mas lembrado apenas em categorias técnicas. O prêmio também se ressente de lembranças para Fruitvale Station – A última parada e Short Term 12. Pelo menos, Spring breakers – Garotas perigosas, surpreendentemente prestigiado pela crítica estrangeira, não foi lembrado.

12 anos de escravidão 5Parece que a disputa ficará entre Trapaça e 12 anos de escravidão, indicados nas categorias de montagem e roteiro, e Gravidade, por sua direção e várias categorias técnicas, uma vez que O lobo de Wall Street não foi indicado a nenhuma delas (sua ausência em fotografia e montagem é, particularmente, sentida). Clube de compras Dallas e Capitão Phillips, também indicados nas categorias de montagem e roteiro, seriam surpresas.
Ano passado, lamentei a não inclusão de Moonrise Kingdom, O mestre, O hobbit – uma jornada inesperada e Cloud Atlas. Neste ano, lamento a não inclusão de Azul é a cor mais quente, Amor pleno e O grande mestre, que poderiam disputar os prêmios principais (sendo que Azul… não pôde ser indicado em razão de sua data de lançamento não conferir com a de avaliação da Academia para filme estrangeiro), embora não fossem cotados. A ausência de Amor pleno na categoria de melhor fotografia parece se dever também ao fato de a Academia não querer indicar duas vezes Emmanuel Lubezki (lembrado por Gravidade). No entanto, ter entre os indicados filmes como Ela, 12 anos de escravidão, O lobo de Wall Street e Gravidade, além de Trapaça e Clube de compras Dallas, já mostra como o ano de 2013 trouxe filmes de qualidade – e os acertos do Oscar, seguindo as demais premiações. E uma questão: por que não fechar a lista sempre em 10 filmes?

Gravidade 3

Melhor diretor

Alfonso Cuarón, por Gravidade
Martin Scorsese, por O lobo de Wall Street
Steve McQueen, por 12 anos de escravidão
Alexander Payne, por Nebraska
David O. Russell, por Trapaça

Todos são nomes esperados, cada qual com seu estilo próprio (ou não). A direção de Cuarón em Gravidade é mais técnica, no entanto não pode ser subestimada: ele consegue equilibrar com o aspecto emocional da atuação de Bullock. Aprecio o normalmente criticado Alexander Payne de longa data, porém não pude ainda ver Nebraska. David O. Russell em Trapaça não deve ser ignorado, apesar de ainda ter problemas no que se refere à montagem de um filme. De qualquer modo, ele mostra um tato para a comédia ligeira mais do que em O lado bom da vida. Mas é Steve McQueen a surpresa: 12 anos de escravidão é um filme muito superior ao que mostrou antes, sobretudo o superestimado Shame. A direção de Scorsese em O lobo de Wall Street, misturando humor às cenas mais delicadas, é perfeita, e ele não merece ter ganho o Oscar por um de seus filmes menores, Os infiltrados. Apesar de apreciar 12 anos de escravidão e Gravidade, considero que Scorsese joga sua carreira em risco quando não precisava mais – e seu filme é uma sátira brilhante. Se indicado, de qualquer modo, eu escolheria Spike Jonze. Sua direção em Ela é de uma sensibilidade única.

Clube de Compradores Dallas

Melhor ator

Christian Bale, por Trapaça
Bruce Dern, por Nebraska
Leonardo DiCaprio, por O lobo de Wall Street
Chiwetel Ejiofor, por 12 anos de escravidão
Matthew McConaughey, por Clube de compras Dallas

A indicação para Chiwetel Ejiofor por 12 anos de escravidão era esperada. Tem grande atuação, por vezes apenas com a força do olhar. Matthew McConaughey tem tido boa recepção, por seus papéis em Killer Joe e Amor bandido, mas é como o portador de HIV em Clube de compras Dallas que ele se destaca e ganhou o Globo de Ouro. Seu papel é bastante difícil e o retrato que ele oferece da Aids mais realista ainda do que o de Filadélfia. Ainda não vi Bruce Dern em Nebraska. Ele ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes e é uma indicação tardia, assim como DiCaprio em O lobo de Wall Street, que está extraordinário. Christian Bale está excelente em Trapaça, assim como Bradley Cooper, e merece a indicação.
Robert Redford voltou a se destacar em Até o fim, entretanto, apesar da competência com que foi filmado, é difícil se envolver emocionalmente com a narrativa. Redford apresenta uma atuação minimalista e contida, no entanto diante da situação em que se encontra talvez fosse preciso algo mais. Mais conhecido por suas participações em Thor e Círculo de fogo, Idris Elba interpreta Mandela no novo filme Mandela – Long walk to freedom e vinha colhendo bons elogios. Lembro de Oscar Isaac em Drive, e a crítica diz que em Inside Llewyn Davis ele tem a liderança, mas foi esquecido. Por Ela Joaquin Phoenix possivelmente tivesse mais chance do que teve ano passado por O mestre, quando competia com Daniel Day-Lewis. Neste ano, seria difícil optar entre DiCaprio e ele – no pequeno espaço que a Academia reserva para atuações com uma faceta cômica, embora as duas também sejam dramáticas – e sua presença toma mais conjunto com a voz de Scarlett Johansson.
Mads Mikkelsen poderia ter sido indicado por A caça, assim como Ethan Hawke (lembrado em roteiro adaptado) por Antes da meia-noite. No entanto, este ano ele fez outros dois filmes, e bastante contestados (Uma noite de crime e Resgate em alta velocidade), o que diminuiu seu potencial de indicação. Miles Teller também está excelente em The spectacular now. E dizer que Tom Hanks não atuava há anos é um ligeiro esquecimento grave do que fez (e foi menosprezado em grande parte) em Cloud Atlas. Este ano ele apareceu apenas em filmes mais clássicos, como Walt nos bastidores de Mary Poppins. Fala-se que a campanha dele em Hollywood para premiações por Capitão Phillips foi grande – no entanto, acho, pelo filme equivocado.

Blue Jasmine.10

Melhor atriz

Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Sandra Bullock, por Gravidade
Judi Dench, por Philomena
Amy Adams, por Trapaça
Meryl Streep, por Álbum de família

A atriz Cate Blanchett é considerada favorita por Blue Jasmine. Das atuações que vi até agora de filmes referentes a 2013, nenhuma merecia mais do que a de Adèle Exarchopoulos, de Azul é a cor mais quente. Tende-se a considerar que a atriz é quase estreante, contudo supera Blanchett. Sandra Bullock também apresenta uma atuação irrepreensível em Gravidade. Judi Dench foi esquecida como coadjuvante no ano passado por 007 – Operação Skyfall e marca presença este ano por Philomena. Emma Thompson ressurgiu no Globo de Ouro depois de ter estado em várias indicações nos anos 90, em filmes de James Ivory, e foi esquecida desta vez por Walt nos bastidores de Mary Poppins. Kate Winslet era uma das possíveis candidatas por Refém da paixão. Amy Adams está perfeita em Trapaça: merece a indicação, embora não seja desta vez, pelo que os prognósticos indicam, que vá ser a vencedora (depois de ser indicada várias vezes a atriz coadjuvante). Julie Delpy está ótima em Antes da meia-noite, e poderia ser incluída. Greta Gerwig faz de forma convincente a atrapalhada personagem-título de Frances Ha, e, num filme de estudo de personagem, lamenta-se que não seja ela a indicada em vez de Blanchett, mesmo porque o filme de Baumbach é superior. Brie Larson também foi uma ótima surpresa em Short Term 12. Meryl Streep por Álbum de família seria previsível – e foi indicada.

O lobo de Wall Street 10

Melhor ator coadjuvante

Barkhad Abdi, por Capitão Phillips
Bradley Cooper, por Trapaça
Michael Fassbender, por 12 anos de escravidão
Jared Leto, por Clube de compras Dallas
Jonah Hill, por O lobo de Wall Street

Barkhad Abdi está excelente em Capitão Phillips, melhor do que Hanks. Ainda assim, é difícil determinar se o seu papel comporta uma premiação. Acho fabulosas as atuações de Daniel Brühl em Rush, que foi esquecido, e Michael Fassbender, normalmente contestado, em 12 anos de escravidão. Mesmo Bradley Cooper em Trapaça está melhor do que em O lado bom da vida, embora ele também pudesse ser indicado por O lugar onde tudo termina. Eles está quase no nível do ator principal, Bale. Jared Leto, vocalista da banda 30 Second to Mars, já recebeu o Globo de Ouro por Clube de compras Dallas, em que mostra uma atuação de destaque, mas não acredito que a melhor entre os indicados (o filme é realmente de McConaughey). Gosto de Jonah Hill em O lobo de Wall Street, melhor ainda do que já se mostrou em Cyrus e O homem que mudou o jogo. Ele é a escada perfeita para DiCaprio se destacar, e sua indicação por si já é um prêmio. Se a Academia desse mais destaque ao gênero de ficção científica, um indicado dessa categoria deveria ser Benedict Cumberbatch, por Além da escuridão – Star Trek. Tye Scheridan também está excelente em Amor bandido. E Jake Gyllenhaal tem interpretação diferenciada em Os suspeitos.

12 anos de escravidão 4

Melhor atriz coadjuvante

Sally Hawkins, por Blue Jasmine
Jennifer Lawrence, por Trapaça
Lupita Nyong’o, por 12 anos de escravidão
Julia Roberts, por Álbum de família
June Squibb, por Nebraska

Uma categoria de surpresas. Sally Hawkins está bem em Blue Jasmine, em que o roteiro de Woody Allen não ajuda. Julia Roberts habitualmente é boa atriz, e subestimada – em Álbum de família não é diferente. Não vi June Squibb em Nebraska. Os destaques são Jennifer Lawrence em Trapaça e Lupita Nyongo’o em 12 anos de escravidão. Lawrence ganhou um Oscar injustamente por O lado bom da vida (quando havia Emmanuele Riva por Amor e Jessica Chastain em A hora mais escura), mas ela brilha como coadjuvante em Trapaça. No entanto, Lupita Nyong’o está extraordinária em 12 anos de escravidão. Difícil escolha. Esquecidas foram Léa Seydox por Azul é a cor mais quente e Annika Wedderkopp por A caça, além de Scarlett Johansson por Ela (sua atuação por meio da voz é antológica). Oprah Winfrey era cotada por O mordomo da Casa Branca, e ela chega a ter alguns momentos. De qualquer maneira, o roteiro do filme não a ajuda, embora Lee Daniels tenha seus méritos de reconstituição de época (fotografia e direção de arte bem cuidadas). E Octavia Spencer, que recebeu o Oscar por Histórias cruzadas, poderia ter sido lembrada por Fruitvale Station – A última parada, assim como Kristin Scott Thomas por Apenas Deus perdoa e Shailene Woodley por The spectacular now.

Her 3

Melhor roteiro original

Eric Warren Singer e David O. Russell, por Trapaça
Woody Allen, por Blue Jasmine
Craig Borten e Melisa Wallack, por Clube de compras Dallas
Spike Jonze, por Ela
Bob Nelson, por Nebraska

Categoria de fortes concorrentes. Spike Jonze já mostra talento não reconhecido pela Academia desde Quero ser John Malkovich. Seu Adaptação foi injustiçado em 2002, mas Ela parece ser sua consagração e o roteiro, situado entre a realidade e o fantástico, é difícil, apesar de sua aparência modesta. Os filmes de Alexander Payne sempre são candidatos fortes: ele recebeu o Oscar de roteiro adaptado por Sideways e Os descendentes. Por Nebraska, Bob Nelson pode surpreender. O de Trapaça não chega a ser um dos pontos fortes do filme: seu elenco é o destaque. Seria precipitado, entretanto, dizer que O. Russell não sabe escrever diálogos com bom timing. O roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack para Clube de compras Dallas é uma surpresa, entrelaçando a vida pessoal com as discussões sobre os remédios a serem adotados para combater a Aids de modo efetivo. E o roteiro de Woody Allen para Blue Jasmine é um dos menos expressivos de sua trajetória. Derek Cianfrance, por exemplo, merecia uma indicação por O lugar onde tudo termina. Também indicaria o roteiro de Claire Denis e Jean-Paul Fargeau para Bastardos e o de Wong Kar-wai, Zou Jingzhi e Xu Haofeng para O grande mestre.

O lobo de Wall Street 17

Melhor roteiro adaptado

Billy Ray, por Capitão Phillips
Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke, por Antes da meia-noite
Steve Coogan e Jeff Pope, por Philomena
John Ridley, por 12 anos de escravidão
Terence Winter, por O lobo de Wall Street

Dos indicados, o roteiro de John Ridley em 12 anos de escravidão é, em termos de montagem, irretocável. Aprecio muito os diálogos de Antes da meia-noite, mas a indicação parece mais uma homenagem ao diretor e ao par central (como foi em Antes do pôr do sol), e não considero roteiro adaptado porque tem como base personagens de filmes anteriores. Não vi Philomena, e Capitão Phillips não tem um grande roteiro. O trabalho de Winter em O lobo de Wall Street é também de grande qualidade, mostrando seu talento já mostrado na série Os sopranos. Uma ausência, neste e em outras categorias, é a de Abdellatif Kechiche, pela adaptação do roteiro de Azul é a cor mais quente.

A caça.Melhores do ano

Melhor filme estrangeiro

Alabama Monroe (Bélgica)
A grande beleza (Itália)
A caça (Dinamarca)
A imagem que falta (Camboja)
Omar (Palestina)

O francês Azul é a cor mais quente em condições normais seria indicado. O som ao redor foi o grande esquecido: vem logo atrás do filme de Kechiche. Ainda assim, A caça não deve ser menosprezado, pela grande atuação de Mads Mikkelsen. A grande beleza tem grande marketing em torno e seus atrativos com as paisagens de Roma como pano de fundo. Mas é difícil compará-lo tanto com A caça quanto com O grande mestre, de Wong Kar-Wai por exemplo, que estava entre os pré-indicados a filme estrangeiro lembrado nas categorias de melhor fotografia e figurino, embora não tenha visto a montagem feita por Harvey Weinstein feita para o filme nos Estados Unidos. Especialista em Oscar, Weinstein possivelmente foi o responsável por excluir o filme dos indicados justamente por essa montagem não oficial, em que subtrai mais de 20 minutos. Afinal, os integrantes da Academia podem ter se perguntado qual versão estariam indicando. A versão original de O grande mestre é imperdível. Não vi ainda os demais filmes, inclusive o comentado Alabama Monroe.

Meu malvado favorito 2

Melhor longa de animação

Os Croods
Ernest & Celestine
Frozen: Uma aventura congelante
Meu malvado favorito 2
Vidas ao vento

Dos indicados, vi apenas Meu malvado favorito 2. Vidas ao vento está sendo considerado um novo A viagem de Chihiro, e Frozen vem tendo elogios. Mas esta categoria, com o passar dos anos, vem se revelando, ao que parece, apenas uma obrigatoriedade da Academia para prestigiar o gênero.

Melhor documentário em longa-metragem

O ato de matar
Cutie and the Boxer
Guerras sujas
The Square
A um passo do estrelato

O ato de matar

Melhor documentário em curta-metragem

CaveDigger
Facing Hear
Karama Has no Walls
The lady in Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall

Melhor animação em curta-metragem

Feral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room on the Broom

Melhor curta-metragem

Aquel No Era Yo (That Wasn’t Me)
Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
The Voorman Problem

Categorias técnicas

Nebraska

Melhor fotografia

O grande mestre
Gravidade
Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum
Nebraska
Os suspeitos

Melhor figurino

O Grande Gatsby
Trapaça

O grande mestre
The invisible woman
12 anos de escravidão

Capitão Phillips

Melhor montagem

Trapaça
Capitão Phillips
Clube de compras Dallas
Gravidade
12 anos de escravidão

Melhor maquiagem e cabelo

Clube de compras Dallas
Vovô sem-vergonha
O cavaleiro solitário

Melhor trilha sonora

A menina que roubava livros
Gravidade
Ela
Philomena
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor canção original

“The Moon Song” (Ela)
“Ordinary Love” (Mandela – Long walk to Freedom)
“Alone Yet Not Alone” (Alone Yet Not Alone)
“Happy” (Meu malvado favorito 2)
“Let it Go” (Frozen – Uma aventura congelante)

Trapaça.Filme

Melhor design de produção

Trapaça
Gravidade
O Grande Gatsby
Ela
12 anos de escravidão

Melhor edição de som

Até o fim
Capitão Phillips
Gravidade
O hobbit – A desolação de Smaug
O grande herói

Star Trek.Melhores do ano

Melhor mixagem de som

Capitão Phillips
Gravidade
O hobbit – A desolação de Smaug
Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum
O grande herói

Melhores efeitos visuais

Gravidade
O hobbit – A desolação de Smaug
Homem de ferro 3
O cavaleiro solitário
Além da escuridão – Star Trek

As categorias técnicas mostram a força de Gravidade, com todas as indicações merecidas. 12 anos de escravidão também tem seus requisitos técnicos principais reconhecidos: figurino, design de produção e montagem. No entanto, o maior blockbuster de 2013 receber apenas uma indicação em efeitos visuais, no caso de Além da escuridão – Star Trek, é estranho. O mesmo em relação a ausência de Círculo de fogo em categorias técnicas, como efeitos visuais, efeitos sonoros e mixagem de som, sobretudo pelas indicações para O cavaleiro solitário. A ausência de Hans Zimmer, responsável pelas belas trilhas de 12 anos de escravidão e Rush, para a entrada novamente de John Williams, por A menina que roubava livros, chama a atenção. Merecidamente, O grande Gatsby foi lembrado nas categorias de figurino e direção de arte. A Academia nunca havia deixado de nomear os filmes de Peter Jackson adaptados de Tolkien para o Oscar de design de produção: o segundo O hobbit carrega no CGI e por isso, ao que parece, não foi indicado. Os efeitos visuais, que trazem a criação fantástica de Smaug, no entanto foram lembrados. Em melhor fotografia, interessante a inclusão de Roger Deakins por Os suspeitos e de Bruno Delbonnel, responsável por trabalhos como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Sombras da noite, por Inside Llewyn Davis, dois filmes esquecidos em categorias consideradas mais importantes. No entanto, ressente-se a ausência de Sean Bobbitt por 12 anos de escravidão e de Larry Smith, que foi habitual colaborador de Stanley Kubrick, por Apenas Deus perdoa – o grande destaque do filme de Refn. Inexplicável a ausência de O lobo de Wall Street nas categorias de melhor montagem e fotografia, além de design de produção, superior, por exemplo, ao de Trapaça. E merecida a lembrança de O grande mestre, embora também pudesse ser indicado nas categorias de design de produção e trilha sonora.
A cerimônia de entrega do prêmio será no dia 2 de março.

O lobo de Wall Street (2013)

Por André Dick

O lobo de Wall Street 22

O início de O lobo de Wall Street consegue defini-lo quase por completo. Há uma sucessão de imagens do milionário Jordan Belfort, feito por Leonardo DiCaprio, saindo de casa e jogando uma taça no gramado de seu pátio, indo para o emprego com uma mulher em posição indiscreta e finalmente sua chegada ao escritório, onde as drogas são usadas na mesma proporção com que se utiliza o telefone para negociar. Para quem viu no ano passado o filme Sem dor, sem ganho, de Michael Bay, não há novidades. Mas Martin Scorsese é um dos maiores diretores da história, criador de um estilo próprio e capaz de dominar os mais variados gêneros, como pôde ser visto em A invenção de Hugo Cabret, no qual realmente saiu de sua zona de conforto. Ele consegue encontrar uma síntese dos mais variados desequilíbrios do indivíduo, seja em O touro indomávelOs bons companheirosCassino ou em Depois de horas, o filme que é, em sua essência, a peça-chave para entender O lobo de Wall Street. Um dos mais subestimados da trajetória do diretor, e pequeno em termos de orçamento, surgido logo depois da recepção fracassada à sua obra-prima O rei da comédiaDepois de horas mostrava movimentos de câmera constantes, que se expandiram em Os bons companheiros e Os infiltrados. O cenário do escritório também é o mesmo. São quase 30 anos de distância, mas há diferenças: antes Scorsese empregava um humor nas entrelinhas, agora ele é cáustico.
Ao mostrar a chegada de um jovem Jordan Belfort à Bolsa de Wall Street em meados dos anos 80, quando conheceu Mark Hanna (Matthew McConaughey), com o intuito de enriquecer e fazer uma família com Teresa Petrillo (Cristin Milioti), Scorsese parece ingressar numa época de ingenuidade, porém já ameaçada pela escala crescente do uso de drogas. Depois da criação de sua empresa, Stratton Oakmont, composta por um grupo de enganadores, e tendo como braço direito Donnie Azoff (Jonah Hill), por meio da figura de Belfort, Scorsese aproveita alguns elementos já extraídos por Spielberg de DiCaprio em Prenda-me se for capaz. Mas consegue, de certo modo, ainda mais.

O lobo de Wall Street 5

O lobo de Wall Street 12

O essencial em O lobo de Wall Street é como Scorsese, um diretor essencial de atores, capaz de tirar as melhores atuações de De Niro, consegue obter de DiCaprio uma atuação superior àquelas apresentadas em O grande Gatsby e Django livre. Embora a cada movimento de câmera e a cada grito ou distorção grave, DiCaprio parece incorrer numa vontade de ser premiado, ele tem uma desenvoltura notável, mesmo quando encadeia uma espécie de ego trip. O roteiro tenta criar uma série de episódios em que Belfort tem o ponto de destaque, também quando contracena com outros personagens, como a sequência na qual encontra o agente do FBI Patrick Denham (um Kyle Chandler irônico). Na maior parte do tempo, a sátira nada discreta de Scorsese coloca os atores em uma posição de chamarem a atenção para si próprios (Matthew McConaughey mexendo as mãos e batendo no peito numa reunião como DiCaprio, e ainda assim divertido; os dentes postiços de Jonah Hill), mas eles nunca soam simples estereótipos, embora também, em parte, o sejam. O ponto principal é o de Belfort. Em meio às tentações pela trapaça financeira, ele tem um certo idealismo romântico embaixo da depravação e uma certa reserva em explicar para seu pai, “Mad” Max Belfort (um Rob Reiner, o diretor de Conta comigo e Questão de honra, não menos do que excepcional), os seus negócios. Ou seja, DiCaprio não esvazia Belfort a ponto de torná-lo uma simples caricatura. Sua relação com a primeira mulher e com aquela que o conquista de forma nem tão definitiva, Naomi LaPaglia (Margot Robbie, uma revelação), tem uma velocidade destemperada e, em meio a conflitos exagerados, verdadeiramente mordaz. O grupo escalado por Belfort para a Stratton Oakmont também é uma reunião de estereótipos, assim como o banqueiro Jean-Jacques Saurel (Jean Dujardin), mas em algum ponto isso realmente funciona.

O lobo de Wall Street 18

O lobo de Wall Street 11

De todos os filmes de Scorsese, O lobo de Wall Street parece o filme mais acelerado em todos os sentidos – e quem ingressa na proposta dificilmente sentirá as três horas de duração. É como se ele tivesse assistido vários filmes que satirizam a sociedade nos últimos anos, também em razão de seus filmes, resolvesse tornar a crítica hiperbólica para a plateia. Ele é obviamente um diretor com talento gráfico para as cenas e nada do que se assiste é improvisado, embora às vezes pareça. Também a montagem de Thelma Schoonmaker é a de uma especialista em dar a ideia de que algo está acontecendo, mesmo quando não está, e isso marca presença algumas vezes em O lobo de Wall Street. Por exemplo, o Donnie de Jonah Hill puxa brigas porque em algum momento Scorsese considerou que ele fosse um novo Joe Pesci, principalmente o de Os bons companheiros. Mas muitas delas são genuinamente engraçadas, e há pelo menos três sequências notavelmente cômicas, com uma agilidade própria dos melhores momentos de Depois de horas, e a última hora particularmente devastadora (a cena do iate é antológica, pelo ritmo que Scorsese emprega, quando não se sabe se estamos vendo um drama ou uma comédia, e o emprego impagável da canção “Gloria”, juntando-se a uma trilha bem selecionada), além de alguns achados da narração (quando Belfort compara um determinado personagem a Mozart ou já no início quando não se revela um guia confiável, por mudar a cor de seu carro).
A sensação é que Scorsese queria realmente contemporâneo e moderno – em Cabo do medo, ele reinventa o suspense nos anos 90, por exemplo – e torna os travellings numa técnica para mostrar a vida apressada e superficial. Em sua carreira, isso às vezes não deu certo, mas em O lobo de Wall Street preenche todos os requisitos. Em grande parte, a necessidade de Scorsese querer soar contemporâneo o deixa quase sempre próximo dos personagens, buscando algum resquício de humanidade em meio à amoralidade. O melhor de Bling Ring, outra sátira recente, embora pouco engraçada, é uma possível amizade entre a líder das contravenções e o rapaz recém-chegado ao colégio, que Sofia Coppola, mesmo com seu sentimento solitário a respeito dos jovens, não soube identificar. Temerários, de alguns anos para cá, os filmes que congelam imagens de pessoas em festas, seja estourando champanhes, usando drogas ou mostrando mulheres nuas – parecem o mesmo filme, e sem a dose exata de elaboração (todos, em algum ponto, também devem ao Scarface de De Palma). Não é porque são usados esses elementos que o filme se torna provocador, mas surpreende-se que Scorsese siga esse caminho, desta vez em uma festa ininterrupta de três horas, focando uma fúria emocional contra a ganância financeira que mescla Cosmópolis, Gremlins II e o trabalho do grupo Monty Python.

O lobo de Wall Street 20

O lobo de Wall Street 15O escritório de Jordan Belfort traz algumas sequências de humor inabalável feitas por DiCaprio e Jonah Hill, pois tudo, antes de mais nada, é de um exagero interminável: em determinado momento, um dos vendedores da equipe de Belfort segura uma cobra em volta do pescoço, falando ao telefone, em meio a uma bagunça desproporcional. Em outro momento, entra uma banda lembrando o grupo de mulheres ao redor da mesa de reunião de Cidadão Kane. Mas Scorsese não homenageia essas figuras: ele as leva ao ponto máximo da sátira, esvaziando qualquer normalidade em suas ações, e nos dá a oportunidade de rir delas, que parecem existir apenas para rir de quem está do outro lado do telefone. Embora não seja uma vingança completa, O lobo de Wall Street não deixa de fazer um estrago.
Para Scorsese, não há nada em O lobo de Wall Street que não esteja preconcebido pela própria mitologia acerca do universo de Wall Street. Todos lá invocam uma certa sátira – e Scorsese, como David Cronenberg em Cosmópolis, é corrosivo na medida certa. Para ele, o que deve se sobrepor é o deboche, simples e direto. Isso pode ser, além de grande cinema – nem todos o receberam assim –, o primeiro real acerto na parceria do diretor com DiCaprio. Na verdade, seus encontros nunca haviam dado realmente certo, sempre cercados por uma necessidade de provarem a si mesmos que podem conquistar o mundo. Quase como Jordan Belfort. E aqui estamos: O lobo de Wall Street, embora não possa ser enquadrado num gênero definido, é também, por causa dos dois, uma das melhores tragicomédias dos últimos tempos.

The Wolf of Wall Street, EUA, 2013 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Cristin Milioti, Jean Dujardin, Margot Robbie, Justin Wheelon, Kenneth Choi, Kyle Chandler, P.J. Byrne, Rob Reiner, Jake Hoffman, Jon Favreau, Spike Jonze Roteiro: Terence Winter, baseado em livro de Jordan Belfort Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Emma Tillinger Koskoff, Joey McFarland, Leonardo DiCaprio, Martin Scorsese, Riza Aziz Duração: 179 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Appian Way / EMJAG Productions / Red Granite Pictures / Sikelia Productions

Cotação 5 estrelas

Trapaça (2013)

Por André Dick

Trapaça 3

No ano passado, o diretor David O. Russell reuniu Bradley Cooper e Jennifer Lawrence em O lado bom da vida como isca para premiações, mesma tentativa feita dois anos antes em O vencedor, com Christian Bale e Amy Adams. Em seu novo filme, Trapaça (um título levemente deslocado para o setentista American Hustle), ele reúne os dois casais e procura novamente o reconhecimento principalmente da Academia de Hollywood, desta vez se inspirando, mais ainda do que em seus outros filmes, no Martin Scorsese de Os bons companheiros, a partir do uso da câmera hipnótica de Linus Sandgren. No entanto, não existe em Trapaça o objetivo de retratar a máfia ou fazer as reviravoltas dialogarem com Os infiltrados, a incursão de Scorsese que lhe deu, afinal, o Oscar, quando deveria ter recebido por outros filmes, também pelos recursos de flashbacks. Há mais uma tentativa de incorporar o imaginário dos anos 70 e brincar exatamente com os cenários e situações que podem surgir nele. Tudo isto fica demonstrado pelo próprio figurino e pelos penteados exagerados, partindo daquele exibido por Bradley Cooper, e do físico exibido por Christian Bale. Se formos assistir Trapaça como um retrato de época, talvez não sejamos tão efetivos quanto se ele for visto como uma comédia em que os personagens atuam como se estivessem entrando em cena e ficassem surpresos por isso: é um filme de performances, não exatamente de narrativa.
Bale e Amy Adams formam um casal, Irving Rosenfeld e Sydney Prosser, que se conhece numa festa cujo cenário evoca as vidraças e a piscina ao fundo de Boogie Nights e se juntam imediatamente para aplicar golpes. Prosser se apresenta às vítimas como uma aristocrata chamada Lady Edith Greensly, enquanto Irving segue o roteiro perfeito para limpar os bolsos do alvo. Irving é uma figura completamente deslocada do cenário, pois parece, ao mesmo tempo, ingênuo. Bale lhe oferece características de grande ator que é, tornando o que poderia ser apenas um tanto patético – pelo seu início, quando se prepara para entrar em cena – em uma figura humana, em meio aos diálogos acelerado de Russell, com receio de fazer qualquer interrupção e se perder o fio da meada.

Trapaça

Trapaça 7

Enquanto Prosser tem um passado misterioso, Irving é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence) e pai de um menino. Descobertos por Richie DiMaso (Cooper), eles acabam servindo para o encontro com um político, Carmine Polito, dedicado à esposa Dolly (Elizabeth Röhm) e prefeito de Camden, em uma ponte com o mundo do crime, por meio de uma revitalização dos cassinos. O filme é levemente baseado numa operação montada pelo FBI em 1978, chamada Abscam, mas é visível que Russell espalha para todos os lados as suas improvisações, com a ajuda decisiva de seu elenco. Para isso, os personagens acabam se envolvendo com pseudoárabes e mafiosos dos Estados Unidos na história, enquanto tentam conseguir um dinheiro considerável para armar uma transação pouco real de negócios. Nesta relação, DiMaso acaba se apaixonando por Prosser e abre-se um triângulo amoroso que certamente resultará em uma complicação. Isso quando Rosalyn não surge, longe de sua cozinha, interessada em ingressar nas possíveis reviravoltas do caso. DiMaso, especialmente, tem um interesse em fazer sua carreira em cima de grandes casos, capazes de chamar a atenção da mídia.
Todos os personagens de Trapaça querem ter seu grande momento, seja para a mídia ou para encher os bolsos de dinheiro, mas há, acima de tudo, nesse final dos anos 70, adentrando quase nos anos 80, ainda um resquício de amizade e das relações que não devem terminar pelas tradições familiares (como quando Rosalyn diz a Irving que as mulheres de sua família não se separam). Há um falso glamour nos cenários e o penteado dos personagens sempre parece escondê-los de sua verdadeira personalidade: eles encenam tanto para o espectador quanto uns em relação aos outros. E, inevitavelmente, todos os rompantes possivelmente verdadeiros soam ligeiramente forçados – desde alguém saindo pela porta diante de uma decepção de amizade até quando o FBI pensa ter agido de maneira perfeita em determinada circunstância.
Russell nunca chegou a ser respeitado pela crítica e pelo público como o é pela Academia, mas não se pode dizer que seus filmes sejam dispensáveis; pelo contrário. Há neles uma espécie de movimentação que aprimora alguns lugares-comuns e visualiza sobretudo as comédias clássicas, com boa atmosfera, com a ajuda decisiva da fotografia, e um elenco dedicado. Dois dos maiores acertos de Russell, por exemplo, são Três reis e I heart Huckabees. Se os dois casais estavam ótimos nos filmes anteriores, em Trapaça, mostram a revelar boa parceria, com o acréscimo indispensável de Jeremy Renner e Louis C.K. Este, em particular, como Stoddard Thorsen, oferece algumas linhas de diálogo que sustentam a narrativa, e Renner também consegue compor um Polito interessante e volúvel aos momentos de amizade.

Trapaça 9

Trapaça 4

Há pelo menos alguns grandes momentos em Trapaça no que corresponde a essa interação de elenco, e eles se dividem entre uma discoteca no estilo anos 70 (podendo surgir um Tony Manero) e um restaurante onde Rosalyn vai expor o estilo de suas unhas. São nesses pequenos detalhes, inacabados e imperfeitos, que Trapaça acaba desenhando o painel de uma época. E não sem a colaboração do elenco. De Bale e Cooper, pode-se falar que conseguem inovar dentro de seu repertório, sobretudo Bale, mas é Adams a responsável pela atuação mais efetiva do filme, tão bem a ponto de Trapaça perder um pouco seu vigor quando não está em cena. E Jennifer Lawrence consegue, depois de Inverno da alma e O lado bom da vida, entregar uma atuação finalmente livre de alguns maneirismos. Em Trapaça, ela, por meio do exagero, torna sua personagem humana, graças à decisão de Russell em mantê-la como uma peça-chave de acréscimo para outros momentos imprevisíveis. Sua presença em Trapaça consegue sintetizar essa ambientação setentista, ao mesmo tempo em que nos coloca uma máquina de recordações direcionada ao futuro. De modo que se ele tem pelo menos 20 minutos a mais de duração do que deveria deve-se valorizar aquilo que Russell conseguiu fazer com seu elenco, de forma mais bem solucionada do que em O lado bom da vida, uma história romântica, com méritos, vendida como drama capaz de modificar a vida do espectador e como peça cult. Talvez não tenha a agilidade do anterior, contudo não deixa de fazer Trapaça um filme bem mais do que interessante.

American Hustle, EUA, 2013 Direção: David O. Russell Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Michael Pena, Louis C.K., Jack Huston Roteiro: David O. Russell e Eric Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Richard Suckle, Megan Ellison Duração: 129 min. Distribuidora: Columbia

Cotação 3 estrelas e meia