Batman – O retorno (1992)

Por André Dick

Esta continuação fez maior sucesso do que o primeiro, de forma surpreendente, pois é um filme tematicamente mais ousado, embora perca levemente seu misto entre o lado cartunesco do Coringa de Jack Nicholson e a direção de arte intensamente soturna de Anton Furst (vencedora do Oscar). Tim Burton havia gostado muito do roteiro original de Daniel Waters, autor um ano antes do ambicioso Hudson Hawk, com Bruce Willis, que homenageia a época do expressionismo alemão, tanto nos cenários quanto na figura dos personagens (Max Schreck, o nome do vilão feito de maneira hábil por Christopher Walken, é o mesmo do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922) e ainda explica o surgimento de novos vilões: o Pinguim e a Mulher-Gato. Como trama, o roteiro de Waters não convence, mas quanto aos diálogos há um surpreendente jogo de questões explorando a dupla personalidade dos personagens centrais.
A história se passa durante o Natal, 33 anos depois que o casal Cobblepot (Paul Reubens e e Diane Salinger) jogou seu filho defeituoso nos esgotos de Gotham City, depois de um início que remete a O milagre de Anne Sullivan, dos anos 60. A cidade está assustada com o Homem Pinguim (Danny DeVito), que vive junto a pinguins no subsolo do zoológico municipal.

Ajudado por Max Schreck, ele volta à sociedade, com a vontade de se tornar um cidadão comum, mas sempre atormentado por ter sido abandonado pelos pais. Acaba se transformando em candidato a prefeito, tendo por trás a Red Triangle Gang, uma trupe de figuras saídas de algum circo desvirtuado, e desafia Batman (a persona heroica do milionário Bruce Wayne, interpretado por Michael Keaton) a enfrentá-lo. No entanto, sua obsessão pelo abandono o leva a planejar uma determinada captura, envolvendo também Charles “Chip” Shreck (Andrew Bryniarski).
Enquanto isso, surge a Mulher-Gato da pele da secretária de Schreck, Selina Kyle (Michelle Pfeiffer, que voltaria a trabalhar com o diretor em Sombras da noite), que mora num apartamento com inúmeros gatos, em meio a neons que servem como jogo de palavras, e se mantém informada dos negócios de seu chefe. Com problemas de relacionamento, ela se modifica completamente depois de um acontecimento e passa a namorar Bruce Wayne, sem nenhum deles saber quem é, na verdade, o outro. Este envolvimento dará origem a novos conflitos irremediáveis.

Se, de um lado, os personagens procuram conviver e Wayne continue a ver um pai em Alfred (Michael Gough), por outro, as explosões e os efeitos especiais se sucedem em ritmo vertiginoso, a violência é explícita (como a cena em que o vilão, uma espécie de Edward mãos de tesoura perverso, quase arranca o nariz de um publicitário, ou quando a Mulher-Gato rasga a pele de assaltantes) e batalhões de pinguins fazem um desempenho incrível numa produção sofisticada – sobretudo de excelentes cenários. Burton tinha em mente não repetir o primeiro Batman, e realmente o fez.
O visual de Bo Welch é brilhante, com referências a Nosferatu, O corcunda de Notre-Dame, A noiva de Frankenstein O patinho feio, enquanto a atmosfera é melancólica, lembrando, assim, o período vitoriano e expressionista, em diálogo com os personagens (o Pinguim e a Mulher-Gato são pessoas abandonadas, que querem enlouquecer a cidade; a sequência em que o vilão voa com seu guarda-chuva, enquanto Batman e a Mulher-Gato se enfrentam pelos telhados da cidade é uma das mais bem solucionadas dentro das pretensões do diretor). Nesse sentido, o estilo de Burton permanece intacto, com direito a outras cenas originais: a grandiosa invasão dos pinguins nas ruas de Gotham City, por exemplo; a explosão durante a festa de Schreck. Há uma prevalência de fantasia nas imagens aqui do que na trilogia de Nolan, fazendo persistir na memória muitas sequências interessantes. Com isso, a fotografia de Stefan Czapsky explora Gotham City como uma sucessão de ruelas abafadas por edifícios imensos, e as perspectivas de filmagem remetem ao expressionismo e a uma espécie de pesadelo kafkiano.

É um filme de ação, por vezes, pesado e triste e a direção de Burton é sempre melhor do que a narrativa (que em muitos momentos cansa, pois não dosa as peças direito), procurando a estranheza dos personagens e os problemas psicológicos de cada um, com referências à psicologia de Freud, Jung e Lacan, não necessariamente nessa ordem. Todos possuem não apenas uma face dupla, como um duplo comportamento, não interagindo de maneira previsível em meio aos diferentes rumos de narrativa. Talvez Kyle seja a melhor personagem, pois se confronta com uma vida tediosa e, depois da transformação, com a descoberta de uma sexualidade que, de forma completa, a torna rejeitada. Trata-se de um filme que antecipa elementos, por exemplo, empregados por Burton em A lenda do cavaleiro sem cabeça, com seu clima vitoriano e brumas de uma fábula. Não é um filme para crianças portanto, já que as atuações de Michelle e Danny DeVito às vezes assustam, sendo, no mesmo sentido, bastante eficazes, principalmente a dela. Mais espetacular, barulhento e “filme de autor” do que o primeiro, e ainda assim inferior, Batman – O retorno, mesmo assim, é visualmente uma das melhores produções de super-heróis já feitas, de profunda influência nas obras atuais do gênero e um símbolo de que um blockbuster pode flertar realmente com ideias originais e com a história do cinema.

Batman returns, EUA, 1992 Diretor: Tim Burton Elenco: Michael Keaton, Danny DeVito, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Michael Gough, Pat Hingle Michael Murphy Roteiro: Daniel Waters Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 126 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Warner Bros.

Mogli – O menino lobo (2016)

Por André Dick

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Depois de realizar os dois primeiros Homem de ferro, o diretor e ator Jon Favreau se viu num momento difícil ao ser contestado de forma vigorosa por seu trabalho em Cowboys e aliens, com Daniel Craig e Harrison Ford em boas atuações. Segundo ele, para fugir aos grandes estúdios e grandes projetos, ele fez Chef, em que atuou também como um cozinheiro que se vê às voltas com uma nova maneira de atrair seus clientes, depois de estar à frente de um restaurante.
No entanto, não levaram três anos para que Favreau se voltasse novamente a um grande projeto, ligado aos estúdios Disney: a refilmagem de Mogli – O menino lobo, cuja versão mais conhecida era a de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman e o último supervisionado por Walt Disney, antes de sua morte. Apesar de apreciar muitas animações, acredito que o desenho animado original é um dos melhores já feitos, uma mescla de humor e musical, cuja simpatia é destacada – e, ao assisti-lo pela primeira vez, com a minha esposa, que o tinha como referência de filmes na infância, já havia ficado admirado com a maneira que o diretor Reitherman conseguiu transformar a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal.
Ao contrário da versão de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de estarmos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim, As aventuras de Pi e Avatar. Embora não tenha assistido a e ele em 3D (optamos por uma versão em 2D, legendada), fica difícil negar o quanto Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme – mais real do que aquela que vi no trailer do próximo Tarzan. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta.

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A história segue inicialmente os mesmos passos da versão original: Mogli (Neel Sethi, único ator real) é um menino criado numa matilha de lobos, adotado por Raksha (Lupita Nyong’o) e Akela (Giancarlo Esposito).  Ele vive ao lado de seus irmãos lobos quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Edris Elba, com trabalho de voz temível). A partir daí, já se sabe o que acontecerá: Mogli terá a ajuda de Bagheera (Ben Kingsley, ótimo) – uma pantera que o salvou quando era criança – para chegar à aldeia onde vivem os humanos.
No entanto, há percalços pelo caminho, e a figura mais inusitada surge: o urso Baloo. É a interação entre o urso (cuja voz é de Bill Murray, num grande momento) e Mogli que rende os melhores momentos da versão dos anos 60 e desta: há uma união no sentido de que o menino lobo o ajudará a encontrar mel o suficiente para que possa hibernar com tranquilidade. Favreau lida com humor, assim como Reitherman, com essa situação inusitada e daí para a frente a obra se sucede numa sequência grande de ação, modificando alguns elementos do original – e falar aqui seria redundar em spoilers.
Alguns falam o quanto o original torna estereotipada a imagem da Índia no sentido cultural. Embora estivesse a 17 anos de Indiana Jones e o templo da perdição, o verdadeiro estereótipo dessa cultura (com o humor de Spielberg e Lucas), Mogli talvez não tivesse o intuito de defini-la, como este filme também não possui. Há um jogo de personagens universal aqui e Favreau lida mesmo com violência e um sentido de realidade que o de 67 não possui (pelo menos, nem todas as cenas são para crianças). É um traço do diretor, que em Cowboys e aliens afastou parte do público a que se destinava pelas cenas de violência (principalmente a inicial, quando o personagem de Craig é abordado por alguns forasteiros).

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Do mesmo modo, este Mogli trabalha num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, e nem mesmo a volta das canções “Wan’na Be Like You” e “The Bear Necessities” atenua este traço. Scarlett Johansson faz de forma destacada a voz de Kaa – e é um de seus melhores trabalhos, ao lado de Ela, em que também aparecia apenas por meio da voz –, com uma cena no mínimo assustadora. No entanto, talvez o destaque fique por conta de Cristopher Walken, como Louie. Interessante perceber como a maneira de olhar dos personagens de Murray e Walken se parece com a dos atores; percebe-se que Favreau lidou com ela na criação da imagem animada.
A questão mais intrigante desse universo (breve spoiler) é realmente a maneira como o menino se insere entre os animais e a questão da “flor vermelha”, que seria o fogo ameaçador para o tigre Shere Khan, que ficou cego de um olho por causa de uma tocha. Favreau parece imaginar esses personagens também como figuras solitárias de uma selva gigantesca e o menino como uma ameaça de que pode crescer e acabar com tudo por meio do fogo. (fim de spoiler) Não apenas há um diálogo interessante com o universo de Tarzan como se sente a ameaça desse universo em cada ponto. O filme inicia quase como uma sequência a uma das passagens do Apocalypto, de Mel Gibson, e em determinado momento evoca, de forma ainda mais curiosa, Apocalypse now.  O trabalho de imagens que lida com essa simbologia é destacado ainda mais em razão da fotografia de Bill Pope, cujo trabalho em Matrix, Homem-Aranha 2 e Scott Pilgrim contra o mundo mostra o mesmo vigor para cenas de ação e um poder quanto aos detalhes que poderiam passar despercebidos, dando real movimento às sequências nas quais Mogli parece correr um real risco. E Neel Sethi se mostra um ator versátil para levar a história adiante, embora eu considere que o humor de Mogli na versão de 67 era um destaque, assim como a mais próxima ligação entre Baloo e Bagheera, aqui deixada um pouco de lado.

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Mas o maior sentido do trabalho de fotografia se dá no sentido épico que Favreau empresta a esta adaptação: não são poucas as paisagens que são espetaculares e definitivamente reais, como na sequência em que Mogli precisa escapar de um determinado confronto e se vê no meio de um estouro de búfalos – é a cena talvez mais impressionante do filme por sua escala grandiosa, lembrando um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005). Há uma reverência de Favreau em relação à natureza, não apenas neste trecho como naqueles em que aparecem os elefantes – e a ligação que o menino lobo tem com todos, mesmo não sendo, de fato, um animal. Todos os temas universais envolvendo a família são ressaltados no roteiro, e mesmo a passagem do menino por uma espécie de paraíso (em que pode haver a serpente) antes de conhecer a dor real de um acontecimento ligado à sua origem, torna esta obra de Favreau em algo mais do que uma produção para agradar ao grande público. Ele abrange a integração do homem e natureza como raras vezes se revela num filme.

The jungle book, EUA, 2016 Diretor: Jon Favreau Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling, Brighton Rose Roteiro: Justin Marks Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: John Debney Produção: Jon Favreau e Brigham Taylor Distribuidora: Walt Disney Studios

Cotação 4 estrelas

Pulp Fiction – Tempo de violência (1994)

Por André Dick

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É  preciso ingressar no universo de Quentin Tarantino para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher do chefe, Mia (Uma Thurman), por uma noite. Tarantino leva o casal o casal para uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, também com sósias de James Dean e Marilyn Monroe, onde Vincent tenta demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake e comentar sobre o passado de outro capanga selecionado para cuidá-la. De acordo com o ambiente, a conversa desvia para o plano da atuação:  Mia participou de um piloto de série de TV, e Vincent, com suas pulp fictions de bolso, deseja participar desse universo paralelo. Trata-se de uma das sequências mais divertidas, com elementos de videoclipe, e referências a Os embalos de sábado à noite, ainda que vaga e estranha, pois não se sabe ao certo se termina em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.

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Em outra história, temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo, na II Guerra Mundial. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com uma taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gângsteres que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes (Amanda Plummer e Tim Roth) que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

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São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial de Andrzej Sekula (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem com precisão rítmica de Sally Menke, que participou dos filmes de Tarantino até Bastardos inglórios e veio a falecer em 2010 (e é justamente a montagem que veio a prejudicar longas sequências de Django livre). Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos. Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos com velocidade, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos, o que se revela também em suas trajetórias de vingança, Kill Bill, Bastardos inglórios e o recente Django livre. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme (com a colaboração de Menke) consegue sempre transformá-lo numa peça que vai tomando mais força. E impressiona como as atitudes dos personagens vão mudando conforme a necessidade, como o intervalo que se dedica a Butch e a Marcellus, com um ato derradeiro impressionante e que antecipa Kill Bill, ou quando percebemos que Vincent e Jules podem estar no passado de uma história que já teve seu final.
Neste filme, que melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude –, Tarantino também retoma atores improváveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes