Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Por André Dick

O universo estendido da Marvel já teve dois filmes este ano, Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita. A eles vem se juntar a sequência daquele que seria o mais despretensioso do conjunto, lançado em 2015. Todos sabem que a parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de obras com variados super-heróis: Thor, Homem de Ferro e Capitão América, entre outros. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias de X-Men e Deadpool. Homem-Formiga é um dos personagens mais improváveis desse universo. O primeiro tinha a colaboração no roteiro de Edgar Wright, o mesmo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, com Joe Cornish, que escreveram As aventuras de Tintim. Quem o substituiu na direção do filme antes de começarem as filmagens foi Peyton Reed, que regressa para a sequência. Ele tem uma obra muito curiosa sobre o amor com o estilo dos anos 50 (Abaixo o amor) e também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Desta vez, Homem-Formiga e a Vespa conta com um roteiro assinado a dez mãos por Chris McKenna e Erik Sommers (dupla de LEGO Batman – O filme), além de Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari. Scott Lang (Paul Rudd) teve problemas com a justiça depois de ajudar o Capitão América a enfrentar o Homem de Ferro em Guerra Civil e é vigiado pelo agente da SHIELD Jimmy Woo (Randall Park). Por isso, ele tenta conviver o máximo com sua  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), dentro de casa, em brincadeiras que remetem a Os Goonies, enquanto tem a ajuda da antiga mulher, Maggie (Judy Greer), casada com o policial Paxton (Bobby Cannavale).
Ele está afastado de Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) se transforma na super-heroína Vespa e estão atrás, no universo quântico descoberto por Lang no primeiro filme, de Janet (atriz em participação surpresa), mãe de Hope. No entanto, algo os aproxima novamente – e essa química entre eles reproduz boa parte daquele filme de 2015, com Douglas, Rudd e Lilly trocando farpas de modo engraçado. E novamente estão de volta o amigo Luis (Michael Peña), com os parceiros atrapalhados Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). A ameaça parece ser Ava Starr/Ghost (Hannah John-Kamen), acompanhada por Bill Foster (Laurence Fishburne), porém surge pelo caminho também Sonny Burch (Walter Goggins), um negociante do mercado subterrâneo de tecnologia.

Como no filme de 2015, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus ligeiros flashbacks, inspirados claramente nas ideias de Edgar Wright. Pelo universo tecnológico envolvido, novamente há as referências à SHIELD, mas esta sequência se mostra próxima de Homem-Aranha – De volta ao lar, com uma passagem de Lang por um colégio, que rende uma das cenas divertidas do filme. Tudo é ainda despretensioso, embora os personagens não sejam mais novidade. O que interessa é como Reed desenha esse super-herói: ele não tem as pretensões de outros, nem carrega uma tentativa de lado épico, apegando-se ao cotidiano, e isso o torna inegavelmente humano. Outra qualidade é a falta de ligação explícita com o universo expandido, que distrai em demasia a atenção do espectador para o próprio filme, às vezes incorrendo num didatismo desnecessário.
O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, e depois fez o professor de As vantagens de ser invisível, além de interpretar seu melhor papel, em Bem-vindo aos 40. Com sua mescla entre um humor agridoce e um sentimentalismo bem dosado, ele não tem tanta chance de mostrar sua empatia como no primeiro e quem conquista o espaço novamente é Peña, no papel do amigo atrapalhado, que tem um momento de interrogatório que remete a um dos meninos de Os Goonies, enquanto Douglas é competente e Lilly adorável no papel de elo romântico. Cannavale não tem a mesma participação convincente do primeiro filme, aparecendo um pouco deslocado, assim como Greer, mas Goggins compensa (era um destaque já em Os oito odiados, de Tarantino).

Igual ao primeiro, impressiona como Reed consegue aliar um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo dos insetos e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto, principalmente, desta vez, com casas e edifícios encolhendo, assim como carros de todos os tipos, em perseguições que remetem a Bullit dos anos 60, auxiliadas pela fotografia do sempre competente Dante Spinotti, mesmo que com um jogo de cores menos atrativo daquele do primeiro, mais lúdico. Nessa mesma linha, o design de produção não se mostra suficientemente criativo, levando em conta que Reed dirigiu o visualmente belíssimo Abaixo o amor, esquecido em categorias técnicas pelo Oscar em 2003. Os movimentos da Vespa são, de qualquer modo, captados com uma resolução notável, um verdadeiro feito na área, assim como o universo quântico possui uma esplendorosa concepção molecular, lembrando o momento da criação de A árvore da vida, de Malick. Novamente, e ainda mais que o primeiro, ele dialoga com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia o primeiro Homem-Formiga, tenha seus méritos – e Querida, estiquei o bebê. De qualquer modo, Homem-Formiga e a Vespa se ressente de um roteiro ágil como o do primeiro, capaz de entrelaçar as gags com a ação de maneira afetiva e impondo aqui o drama existencial de Ghost, que destoa um pouco do conjunto, embora seja bem trabalhado em alguns momentos, inclusive visualmente. Isso não o impede de ser novamente uma das obras exitosas do universo expandido da Marvel.

Ant-man and the wasp, EUA, 2018 Diretor: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Tip “T.I.” Harris, David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Laurence Fishburne Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari Trilha Sonora: Christophe Beck Fotografia: Dante Spinotti Produção: Kevin Feige, Stephen Broussard Duração: 118 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

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A melhor escolha (2017)

Por André Dick

Depois de Boyhood e Jovens, loucos e mais rebeldes!!, o imprevisível Richard Linklater volta seu olhar para a Guerra, seja a do passado, seja a do presente, em A melhor escolha. Para isso, adapta um romance de Darryl Ponicsan, com a ajuda do próprio autor, relatando a história de Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell), que primeiro vai ao encontro de um antigo amigo com quem serviu no Vietnã, Sal Nealon (Bryan Cranston), atualmente dono de um bar. Ambos viajam para encontrar outro companheiro, Richard Mueller (Laurence Fishburne), que se transformou num pastor. Num jantar na casa de Mueller, onde conhece a esposa dele, Ruth (Deanna Reed-Foster), Doc revela que precisará da ajuda emocional dos dois para que possa enterrar seu filho, que acabou de perder na Guerra do Iraque. Para isso, eles precisam ir para uma base aérea localizada em Dover. Doc pretende se insurgir contra a ideia de uma homenagem militar nos moldes padronizados antecipadamente.

Linklater utiliza um argumento bastante simples para mostrar a complexidade do sistema norte-americano, voltado a uma tradição de guerra, e seu filme é quase um complemento de A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, além de travar um diálogo com A última missão, de Hal Ashby, dos anos 70, adaptado de um livro também de Ponicsan e que serve como prelúdio desta história. Em 2017, o roteirista de Sniper americano, Jason Haal, também dirigiu o interessante Thank you for your service, ainda inédito no Brasil, com Miles Teller, sobre três jovens que regressam da Guerra do Iraque com traumas em suas vidas, e também esta obra pode dialogar com o de Linklater.
A melhor escolha cresce quando mostra Charlie Washington (J. Quinton Johnson), o amigo do filho de Doc, que está presente na chegada do corpo e tem revelações a fazer sobre o que teria acontecido, contra a vontade do tenente coronel Willits (o ótimo Yul Vazquez), mas ainda mais mostra seu êxito com a química entre Carell (ator múltiplo, capaz de na mesma temporada entregar essa atuação e a de A guerra dos sexos), Fishburne e Cranston, os três extraordinários, que valeriam o filme por si só. Interessante como Linklater mostra os militares norte-americanos, longe do bom humor com que normalmente revela em suas peças sobre a juventude. Também não há nenhum sinal de suas experimentações com o universo da animação ou alguma nostalgia romântica que vemos em sua trilogia com Hawke e Delpy. E, embora Boyhood tenha inclinações políticas bastante claras, elas eram sobrepujadas pela narrativa existencial. A interação entre esses personagens lembra os melhores momentos de qualquer obra de Linklater, seja em seu descompromisso, seja em seu rigor com um certo sentimento perdido no tempo.

O filme poderia muito bem ficar numa certa teatralidade, com um número considerável de diálogos, mas o elenco exerce um atrativo muito grande e consegue tornar os temas mais evocativos do que se imaginava. Os companheiros são diferentes e complementares: Doc é discreto, Sal é um falastrão e Richard não tem praticamente nenhuma característica de quando os conheceu. O passado aqui se repete em ações e sob um céu soturno, que abre, no entanto, espaço para uma amizade que foge aos limites de tempo. Há um aproveitamento de cenários internos como se vê em poucos filmes, assim como uma espécie de transição entre lugares diferentes que remete também ao modo como os personagens se sentem, um tanto desamparados, com o auxílio de Shane F. Kelly, habitual diretor de fotografia de Kelly.
Os conflitos no que se refere a questões cotidianas, sociais ou políticas se concentram na humanidade que muitas vezes passa sem que se note. Nesse sentido, A melhor escolha trabalha uma visão social sobre a sociedade dos Estados Unidos, em suas angústias e expectativas diante de uma tradição de guerra. Os personagens parecem resistir para passar esse bastão adiante, também por meio de seus filhos, e é quando o filme de Linklater talvez melhor se expresse em sua visão sobre a solidão de oportunidades para uma reconciliação. Possivelmente é o momento mais político do diretor ao lado de Nação fast food – A rede de corrupção, na qual mostrava como a indústria de carne se fazia no interior dos Estados Unidos. Essas duas obras dialogam não exatamente pelo tema e sim por seus personagens em busca de uma explicação para sua existência, o que traz sempre um material muito amplo no caso de um cineasta talentoso e que apenas nesta década entregou uma obra-prima como Boyhood. A melhor escolha foi um dos filmes mais subestimados da temporada do Oscar, um verdadeiro encontro entre amigos que precisam redescobrir seu rumo.

Last flag flying, EUA, 2017 Diretor: Richard Linklater Elenco: Steve Carell, Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Deanna Reed-Foster, J. Quinston Johnson,Yul Vazquez Roteiro: Richard Linklater e Darryl Ponicsan Fotografia: Shane F. Kelly Trilha Sonora: Graham Reynolds Produção: Ginger Sledge, John Sloss Duração: 124 min. Estúdio: Amazon Studios, Big Indie Pictures, Detour Filmproduction Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate

John Wick – Um novo dia para matar (2017)

Por André Dick

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Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. A crítica e o público o elegeram como um destaque, fazendo com que houvesse logo essa continuação. John Wick – Um novo dia para matar já começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história.
Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão e a ajuda de Aurelio (John Leguizamo), para arrumar seu carro, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro de Derek Kolstad tem a qualidade de apresentar os personagens com agilidade e, mesmo que não saibamos muito sobre eles, as principais características estão desenhadas e se pode focá-las com evidência.

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Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, onde o primeiro filme tinha cenas substanciais, lembra a Wick que ele não pode rejeitar o medalhão, pois senão estará colocando em risco sua figura no submundo. D’Antonio quer que Wick mate sua irmã Gianna (Claudia Gerini), em Roma, para que possa ingressar numa espécie de alto conselho da criminalidade. Ares (Ruby Rose) é uma guarda-costas de D’Antonio que segue o assassino profissional, e Cassian (Common) também segue em seu encalço, sem a princípio o espectador entender o motivo. Gianna é uma das personagens mais marcantes num filme de ação, apesar da breve presença, porque parece retratar todo o mistério desse submundo que persegue o personagem central, do qual ele não consegue se desvencilhar em nenhum momento, precisando estar sempre preparado para o combate. Gerini contribui com uma cena verdadeiramente impactante.
Desta vez, o diretor Chad Stahelski mostra um personagem envolvente e cenas de ação que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Wong Kar-Wai ou um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta (e Refn de certo modo já fez uma de forma mais simbólica, Apenas Deus perdoa, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons). E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick – Um novo dia para matar parece envolver mais bom humor embutido na tragédia.

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Desde o início, quando o personagem sai com seu carro capenga do confronto com os inimigos, isso fica bastante claro, mas se acentua ainda mais na ida para Roma, onde vira uma espécie de perseguido pelas ruas. Há algo de engraçado e trágico, ao mesmo tempo, na figura do personagem central, e Keanu Reeves consegue desenvolvê-lo com rara perspicácia. As cenas são coreografadas de maneira espetacular e talvez aqui estejam algumas das melhores cenas de embate filmadas neste século.
O primeiro filme ficou conhecido como aquele em que um homem se vingava daqueles que mataram seu cão, e aqui John Wick parece estar mais associado a uma espécie de linhagem da qual não consegue se livrar e, ao contrário do original, cada cena segue outra com grande naturalidade.
E, naturalmente, surge uma aproximação com James Bond num encontro num museu de Wick com D’Agostino, que remete a uma conversa entre o agente inglês e Q (Ben Widshaw) em 007 – Operação Skyfall. Com isso, há uma tentativa de tornar o personagem praticamente invencível, uma espécie de Matrix.

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Não são poucas vezes que se lembra da trilogia das hoje irmãs Wachowski, não apenas porque Reeves está à frente em cada cena, e sim porque o jogo que se desenha por trás de sua presença perturbadora é bastante focada numa mitologia, embora aqui, claro, mais real, em locações de Roma. Também há uma longa sequência numa estação de trem que recorda tanto elementos de Brian De Palma em O pagamento final e Um tiro na noite, como, exatamente, Neo em Matrix reloaded e Matrix revolutions, quando ficava preso entre mundos diferentes.
Nisso, há uma espécie de lembrança da saga O poderoso chefão, com seu punhado de personagens envolvidos em tragédias passadas em escadarias. É natural, ao longo da narrativa, o jogo de espelhos do filme, pelo visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que trabalhou para Del Toro no fantástico A colina escarlate), e pela maneira que o próprio personagem se vê, sempre preso dentro de si mesmo, do seu próprio labirinto. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Isso é um dos mistérios de John Wick e, pelo que se percebe, com sua recepção, dessa franquia.

John Wick – Chapter 2, EUA, 2017 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Common, Laurence Fishburne, Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, John Leguizamo, Ian McShane, Bridget Moynahan, Lance Reddick, Thomas Sadoski, David Patrick Kelly, Peter Stormare Roteiro: Derek Kolstad Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Joel J. Richard, Tyler Bates Produção: Basil Iwanyk Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / PalmStar Media / Thunder Road Pictures

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Batman vs Superman – A origem da justiça – Edição definitiva (2016)

Por André Dick

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Este texto apresenta descrições de algumas cenas incluídas

Passados alguns meses depois do lançamento no cinema, a versão estendida, anunciada desde antes da estreia, de Batman vs Superman – A origem da justiça começa a ganhar os primeiros espectadores. A Warner Bros sofreu críticas de quem queria assisti-la na tela grande, mesmo porque a versão original desagradou a muitos fãs e críticos. A metragem agora é de 182 minutos, enquanto a versão dos cinemas é de 151 minutos (Snyder já havia feito duas versões estendidas para Watchmen, sendo que a segunda tem 215 minutos). Batman vs Superman poderia ser um filme polarizador se não tivesse sido lançado numa época estranhamente desigual também no cinema, em que alguns filmes sem tanta qualidade adquirem status de clássicos instantâneos, enquanto outros, como ele, são considerados fracassos de realização.

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De fato, não criou uma polarização: enquanto há admiradores do filme, grande parte do público (pelo menos a maior parte de quem se manifesta) o rejeitou, embora a média do IMBb seja razoável: 7/10. Em termos de crítica, no Rotten Tomatoes, ele recebeu 27% de aprovação. Esta marca é um pouco superior à de Batman e Robin e Superman IV – dois filmes bastante fracos com esses super-heróis. No Letterboxd, impressiona a quantidade de cotações de meia estrela até duas estrelas, como se fosse um dos piores do ano, até antes da estreia da versão definitiva – e, desde então, a média passou para três a quatro estrelas. Antes mesmo de o filme não chegar à marca respeitável – embora inferior às expectativas – de 900 milhões de dólares nas bilheterias, houve pedidos pela saída de Zack Snyder dos projetos da DC Comics. A Warner subentende que, nos bastidores, haverá mudanças para A Liga da Justiça.
Mas Batman vs Superman é merecedor desse status de filme problemático? Merece que elogios a ele se tornem raros e quase proibitivos? Minha crítica feita à época do lançamento está aqui. Continuo, desde lá, achando que depende do ponto de vista – que, para mim, é claro e talvez não agrade. Se o espectador não está disposto a ver mudanças da linguagem dos quadrinhos para o cinema e escolhas artísticas de Snyder, ele passa a ser incômodo. Se ele não aceita o roteiro menos linear do filme, também. E, se não concordar que o universo de Snyder para esses personagens é realmente mais soturno, não haverá uma boa recepção. E é muito difícil imaginar se um espectador que desgostou do original irá aproveitar mais este. A questão é que Batman vs Superman não precisaria de uma versão estendida para ser de fato um grande filme, um dos melhores do ano. Mas, se esta versão já estava anunciada, o correto é realmente lançá-la e vê-la como a ultimate edition (no Brasil, edição definitiva).

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Muitos reclamaram de lacunas na trama de Batman vs Superman e que a versão estendida tenta resolvê-las. Não acredito que haja tantas lacunas, nem que houvesse a montagem caótica. Tenho em mente uma dúzia de filmes com montagem realmente confusa que foram ganhadores de prêmios importantes e elogiados por espectadores e público. Mas qualquer acréscimo a um grande filme é bem-vindo. Batman vs Superman dá destaque, principalmente, à narrativa de Lois Lane (Amy Adams) no país africano de Nairomi, que agora passa com mais agilidade – e estabelece uma relação clara com Lex Luthor (Jesse Eisenberg), além de enfocar um cenário de guerra que remete a A hora mais escura, com a presença destacada de um personagem chamado Jimmy Olsen (Michael Cassidy) e cenas de destruição de drones. São passagens que ajudam a aprofundar detalhes que desembocam na política, um dos temas da obra. Do mesmo modo, temos mais cenas de momentos de reflexão do Superman. Esta é uma reclamação comum: que o Superman (Henry Cavill) de Snyder não possui muitas falas. Pelo filme, percebe-se que não se sente nem humano nem alienígena; sente-se, de fato, deslocado. Há uma cena muito bem feita nesta versão estendida, quando ele sai do Capitólio com uma das vítimas da explosão e observa os feridos à sua volta. Ela revela o quanto Snyder não possui visão apenas para cenas de fantasia, como trabalha com o choque diante de uma realidade incontornável. Também vemos um prólogo ao encontro de Clark Kent com seu pai no alto de uma montanha.

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O vilão, Lex Luthor, recebe algumas cenas a mais, inclusive ao final, quando tem um encontro um pouco mais prolongado com Batman, e uma de suas subtramas se sente mais resolvida, embora no original não seja especialmente necessária, envolvendo a figura de uma mulher, Kahina Ziri (Wumni Nosaku), que recorre à senadora Finch (Holly Hunter). E também temos breves detalhes interessantes, como Alfred (Jeremy Irons) cortando lenha do lado de fora da mansão, numa contradição com o universo de tecnologia que habita.
De maneira geral, a versão estendida de Batman vs Superman se concentra mais na investigação inicial de Lois sobre o que aconteceu em Nairomi e também a de Clark Kent atrás de informações de Batman (Ben Affleck) – quando encontra um homem que lhe mostra uma raspadinha com o contorno do símbolo do morcego –, investigando um prisioneiro, Cesar Santos (Sebastian Sozzi), que foi marcado pelo símbolo do justiceiro de Gotham City na pele e isso significa morrer na prisão. Esses dois acréscimos tornam o filme mais interessante no sentido de que há uma explicação mais bem conduzida para Superman se contrapor a Batman, principalmente. Também há um acréscimo nas consequências da explosão do Capitólio, com a técnica de laboratório Jenet Klyburn (Jena Malone) trazendo uma explicação-chave. A versão estendida possui, como se previa, mais cenas de violência, alguns detalhes, como no assassinato dos pais de Wayne ou no confronto entre os super-heróis – nada, no entanto, que lembre a violência, por exemplo, de Watchmen. Snyder, ao final, reserva algumas cenas do luto público pela morte de Superman, assim como de seu funeral, criando uma atmosfera ainda mais melancólica, e assinalada com beleza.

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Esta versão se mostra ainda mais soturna e com temas raros para algo que as pessoas desejariam que fossem apenas de super-heróis. É ainda menos infantil, certamente desagradando a um público dessa idade. E, ao contrário da trilogia de Nolan, este Batman vs Superman se sente ainda mais num universo em que os super-heróis parecem não ter certeza para onde devem se dirigir. Isso parece o principal incômodo para certo público: Snyder realmente arriscou fazer um filme em que duas figuras que representam a salvação não parecem saber indicar um caminho. Bastante revelador quando, depois da morte de Superman, aparece uma capa de jornal sobre o assassinato de Kennedy, como se ele representasse um sinal de esperança. As ruas de Metrópolis estão vazias: todos lamentam a morte daquele que trazia segurança. É complexo e humano, muitas vezes, além de denso. A versão estendida, diga-se, melhora ainda mais um filme que já era excelente. Não é simplesmente para um público mais adulto, como já foi a trilogia de Nolan. Ao mesmo tempo que ele homenageia alguns quadrinhos, ele apresenta um traço novo. Poucas vezes se tem certeza de que uma obra foi injustiçada, e Batman vs Superman é um desses casos.

Batman v Superman – Dawn of justice – Ultimate Edition, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Jena Malone, Michael Cassidy, Wumni Nosaku, Sebastian Sozzi Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 182 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

 

Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

Por André Dick

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Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão de Bryan Singer em 2006, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tentava contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos. A primeira impressão visual indicava que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e O homem de aço possuía o trabalho de Amir Mokri, que criou uma amplitude especial para os cenários, destacando as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, com imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.
Havia por trás dessa nova visão do super-herói um diretor autoral. Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com uma das melhores obras já feitas a partir de quadrinhos, exatamente o original de Richard Donner.

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Anos antes ele já havia realizado Watchmen – O filme, uma espécie de prévia de seus projetos atuais, um passo à frente de 300. Snyder certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente quando tem liberdade. Essa característica voltaria no menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse. E regressa novamente neste Batman vs Superman – A origem da justiça.
Como na obra de 2013 e Watchmen, Snyder poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, mas escolhe um tom mais próximo da fantasia, auxiliado pelo design de produção irretocável e pela fotografia de Larry Fong, novamente com uma paleta de cores soturna, fazendo uma boa combinação com o primeiro filme, além de oferecer o tom granulado já existente em Super 8. Este Batman vs Superman é uma espécie de extensão dos toques sombrios de Watchmen com uma ação de incalculável poderio, tentando trazer o melhor de dois super-heróis que se tornam referência para contar o início da Liga da Justiça. São personagens de destaque que Frank Miller colocou em campos opostos num dos quadrinhos mais memoráveis já feitos. É costume se falar que este tipo de filme é para um público específico, assim como O senhor dos anéis e O hobbit são para admiradores das obras de J.R.R. Tolkien, mas, sob esse ponto de vista, pode-se perder algo que independe de se conhecer ou não os seus personagens.
Com um início bastante interessante, estabelecendo ligação com o primeiro O homem de aço, Snyder coloca Bruce Wayne correndo de caminhonete em meio à destruição nas ruas de Metrópolis. Ele logo se torna um potencial adversário para deter o que entende como ameaça de Superman de trazer uma batalha que não é da Terra para o planeta, ameaçando destruí-lo.

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Enquanto combate o crime em Gotham com requintes ainda não vistos nos filmes de Burton e Nolan, tornando-o tranquilo em se considerar um fora da lei, Superman é visto como um potencial risco para o governo, na figura da senadora Fich (Holly Hunter, muito bem), assim como instiga o jovem Lex Luthor (Jesse Eisenberg, melhor do que possa aparentar e construindo um vilão interessante) a querer combatê-lo. Snyder, no início, apresenta uma montagem muito rápida das cenas, conduzindo o espectador ao centro da ação, trazendo ainda o personagem Wallace Keefe (Scoot McNairy, ótimo), um ex-funcionário de Wayne.
Se, por um lado, Clark Kent tenta se manter no Daily Planet, sob a direção de Perry White (Laurence Fishburne), e namorar a colega de trabalho Lois Lane (Amy Adams), não sabe mais o que pode fazer para não ser visto como um chamado à destruição de Metrópolis. No que corresponde às relações, Wayne prefere as efêmeras, a não ser, ao que parece, quando se depara com uma misteriosa mulher, Diana Prince (Gal Gadot) – e Snyder coloca o encontro dos dois ao som da “Waltz nº 2”, de Dmitri Shostakovich, a mesma utilizada por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados. Como no filme de Kubrick, os personagens se disfarçam por trás das máscaras, e mesmo quando estão sem elas não se mostram como verdadeiramente são. Interessante também como Snyder consegue mesclar os sonhos de Bruce Wayne a seu comportamento: ele em nenhum momento se mostra como alguém com certeza do que pretende construir em Gotham City. São visões perturbadas, manifestando como o próprio personagem se sente, e a casa que dá para um lago cercado de sereno parece ser o contrário dele: não se pode enxergá-lo de fato. Trata-se de um dos acertos do roteiro de Goyer e Terrio (este o mesmo de Argo, mostrando a influência de Affleck sobre o projeto).

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A primeira hora de Batman vs Superman remete muito a Watchmen, em que havia a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia. O tom empregado é mais soturno do que na trilogia de Nolan, e dá espaço para Bruce Wayne ser um interessante contraste para a imagem de Batman. O mordomo Alfred (um ótimo Jeremy Irons) ajuda o patrão a desenvolver equipamentos de combate – conduzindo também à cena as características o personagem de Morgan Freeman na trilogia de Nolan – e lamenta a sua inclinação para a bebida. Ben Affleck, nesse sentido, compõe um super-herói menos esperançoso do que o de Bale, além de mais introspectivo. Nunca ficam muito claras suas intenções, e isso contribui para a sua dualidade. Surpreendentemente, Affleck consegue se apossar do personagem, oferecendo uma de suas melhores atuações. Além disso, a caverna onde esconde seus equipamentos dialoga com a de Nite Owl, de Watchmen, e mostra a capacidade de Snyder de lidar com um imaginário enriquecedor de adaptação dos quadrinhos.  No lado oposto, Cavill novamente entrega um Superman mais humano e suscetível ao que se espera dele.
É, aliás, surpreendente como Snyder coloca Batman como um personagem mais aliado ao fantástico do que o próprio Superman, que gostaria de ter uma vida sem incidentes e sem a consciência de ser um estrangeiro, como Clark Kent, mas precisa sempre retomar sua imagem de justiceiro da humanidade. Ambos, de qualquer modo, estão intrinsecamente ligados aos pais: Bruce teve a fatalidade de ter seus pais mortos na saída de um cinema (cena já mostrada no de Burton), e aqui o filme se chama Excalibur, como se Wayne se transformasse numa espécie de Rei Arthur, enquanto se visualiza um cartaz de A máscara do Zorro. Clark Kent, por sua vez, tem Jonathan Kent (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane), desde o primeiro, sob ameaça de Zod, a sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas. As armaduras escondem apenas a infância: a de Bruce numa mansão solitária e a de Clark numa fazenda que anoitece em meio às estrelas (numa das belas imagens que Snyder oferece aqui).

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Snyder desenha essa aproximação dos heróis de seus pais de maneira discreta e ainda assim enfática: estamos diante de dois heróis que lutam contra si mesmos para tentarem ser normais diante da incapacidade de atingir isso. E, embora esta obra pareça mais uma continuação de O homem de aço, sua narrativa pertence mais à figura do homem-morcego.
Não apenas por essa faceta simbólica, e sim por encadear uma sequência de cenas muito bem pensadas e arquitetadas, principalmente em sua meia hora final, Snyder se mostra mais uma vez um diretor capaz de mesclar ação e emoção. Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

Batman vs Superman – Dawn of justice, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 153 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

O homem de aço (2013)

Por André Dick

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A desilusão com o Superman de Bryan Singer em 2006 foi tão grande que a franquia acabou sendo deixada de lado pela Warner, até se encontrar uma possibilidade de retomá-la (imagina-se se teria sido melhor a versão planejada por Tim Burton, com Nicolas Cage, antes daquela de Singer). O grande problema parecia ser a comparação com a primeira série, cujos dois episódios, de Richard Donner e Richard Lester, eram referenciais para os filmes de super-heróis feitos a partir de então. Mas também porque Singer não conseguiu delinear um Superman para o público, preferindo situá-lo apenas como um indivíduo em busca da explicação para sua existência. Se a parte técnica do filme era respeitável, o mesmo não se podia dizer de sua falta de ação, a ponto de se desconfiar se era um filme de super-herói. Além disso, Kevin Spacey destoava como Lex Luthor, pelo menos quando comparado a Gene Hackman, e tanto Brandon Routh (Superman) quanto Kate Bosworth (Lois Lane) tinham dificuldade em trabalhar o roteiro. No início desta década, a Warner decidiu retomar a franquia, apagando o nome Superman e intitulando O homem de aço, desta vez a cargo de outro diretor, com novos roteiristas e atores.
Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão desanimada de Singer, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tenta contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos.
A primeira impressão é a visual, e parece que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e este possui o trabalho de Amir Mokri, mais conhecido por parcerias com o diretor Michael Bay, tornando a textura de algumas imagens parecida com a dos filmes Transformers. Quando acerta, e cria uma amplitude especial para os cenários, destacam-se as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, trazendo imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.

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Com essa escolha, ainda temos o design do filme. Desta vez, Krypton é uma mistura entre os ambientes de Matrix e, sobretudo, de H. R. Giger (da série Alien), e ainda da Terra média, o que acaba prejudicando a desvinculação do filme dessas referências claras e tirando do filme seu impacto inicial, a não ser em imagens excepcionais na água (remetendo novamente a A árvore da vida). Não se trata, nesse caso, de reproduzir os dois primeiros filmes do Superman, mas dar um visual menos denso e derivado ao filme (as cores do Superman, afinal, também são icônicas para uma certa pop art). De qualquer modo, pode-se imaginar essa escolha para que se deixasse o filme parecido com um ambiente da Roma Antiga, inclusive nos cortes de cabelo e do figurino, e no fato de que, aqui, o herói surge como um Messias que pode ameaçar os rumos de um ditador.
O filme (alguns spoilers a partir daqui) inicia da mesma maneira que o original, de 1978, com Jor-El (Russell Crowe, lembrando Gladiador) e sua mulher Lara (Ayelet Zurer), colocando Karl-El num berço em formato de espaçonave, antes da destruição de Krypton, e o envio para o espaço do General Zod (Michael Shannon). À medida que o berço espacial cai na Terra, já se mostra o personagem, chamado Clark Kent, adulto, viajando pelo país, trabalhando nos lugares mais inóspitos, enquanto cada ação recorda um momento da infância, com seus pais, Jonathan Kent (Kevin Costner) e Martha (Diane Lane) – certamente, os atores mais humanos do elenco, ao lado daqueles que fazem Clark quando criança, Cooper Timberline e Dylan Sprayberry (ambos ótimos). Numa estação do Ártico, ele vai conhecer Lois Lane (Amy Adams). Embora Znyder conte com a excelente montagem de David Brenner – e ela torna orgânica essa transição do presente para o passado, inovando em relação às versões anteriores –, ele não estabelece uma ligação mais clara entre os personagens. Num primeiro momento, torna-se difícil entender por que a aproximação de Clark e Lois não acontece de modo mais lento, pois era este detalhe que tornava o espectador suficientemente próximo deles do filme de 1978 – depois, percebe-se que o objetivo era centralizar especificamente na ação.

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Para um filme de 143 minutos, no entanto, falta uma transição entre as passagens: tudo soa um tanto abrupto (imagina-se, certamente, uma pilha de material na sala de edição). Também não há proximidade na apresentação dos componentes do Daily Planet, como o chefe de Lois, Perry White (o competente Laurence Fishburne); parece que Snyder tinha receio de repetir a lentidão de Singer e tentasse acelerar mesmo o que acaba não sendo, de fato, mostrado. E torna-se difícil aceitar por que o personagem central simplesmente parece reduzir sua primeira participação ao fato de querer ajudar o exército dos Estados Unidos, com um tom triunfalista, que, se o uniforme não esconde, pelo menos na série universal era atenuado por humor (em determinado momento, o Coronel Nathan Hardy (Cristopher Meloni), depois de ver o herói destruir quase toda Smalville durante um combate, lamenta por não ter visto que ele na verdade é um amigo, não um inimigo).
Não é uma característica de Snyder, responsável pelo cansativo 300 e pelo visualmente interessante Sucker Punch, além de ter adaptado Watchmen, o humor, assim como não é um elemento que o roteirista David S. Goyer e o coargumentista Cristopher Nolan (responsável pela trilogia Batman), também produtores, têm em mente ao criarem seus filmes. Nolan, especialmente, costuma apresentar diálogos em muitos momentos expositivos – mas aqui, especialmente, se percebe a falta do seu irmão, que ajudou a fazer os roteiros da trilogia de Batman. Apenas nos momentos em que Jonathan e Clark Kent estão em cena, ele consegue traduzir uma espécie de humanidade do personagem de Clark, assim como em certa mitologia do ser perseguido por reunir em si a genética de seus descendentes. Há algumas escolhas estruturais que lembram especialmente Batman begins. O personagem de Clark Kent, não por acaso, viaja pelo país, sofrendo, assim como Bruce Wayne em Batman begins, e não por acaso a mocinha parece deslocada – nunca foi o forte de Nolan a concepção de um idealismo romântico. Do mesmo modo, enquanto o Batman realista de Nolan agia sempre com a polícia e o Inspetor Gordon, aqui o Superman parece integrar o exército mesmo antes de revelar todos os seus poderes. O tom contra a destruição de Gotham City era o mote em Batman; aqui o tom é contra a destruição da Terra, de aceitar que os humanos merecem sobreviver. Mas fica faltando o elemento humano: a Terra é ameaçada, mas parece que a população não se refere ao herói, criando um afastamento decisivo. Assim como Star Trek e outras produções recentes, há uma cota de referências ao 11 de setembro, lembrando em outras partes (não foi, diga-se, uma boa lembrança) Independence day e Godzilla, de Roland Emmerich, em algumas cenas-chave, e, em seus melhores momentos, Guerra dos mundos. O melhor, nesse diálogo entre filmes, é que há uma série de referências a Contatos imediatos do terceiro grau, como a origem do Superman escondida embaixo de uma montanha do Ártico, quando ele volta à noite para ver sua mãe e entra pela porta a fim de ver a TV (como a do menino de Contatos imediatos), a aproximação da nave de Zod em meio a árvores, um retrato de Clark quando menino ao lado do pai e de uma montanha como aquela em que as espaçonaves descem no filme de Spielberg para encontrar o personagem de Richard Dreyfuss.

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Nesta ação ininterrupta – e aqui o tratamento é exatamente de Snyder, já que Nolan não segue uma linha frenética –, a atuação de Henry Cavill é interessante, sobretudo porque tenta outro caminho que não o de Reeve (seguido por Brandon Routh, de Superman – O retorno), e se Amy Adams não recebeu alguns diálogos a mais para justificar a ligação com o herói mostra-se novamente boa atriz. Na verdade, os dois têm um vínculo mais claro do que o casal de Superman – O retorno, mas Snyder tira a sutileza que poderia haver na sua proximidade, tornando a faceta mais romântica deste filme quase ausente.
Por outro lado, existe, pela primeira vez, uma visão mais física dos poderes do herói, como o voo, assim como a ligação com os quatro elementos da natureza. Da água, passando pelo fogo, até a terra e o ar, sobretudo numa sequência-chave, considerada por alguns absurda, mas adequada ao contexto do filme, de que o herói, mais do que de aço, é uma composição da força da natureza, O homem de aço apresenta uma simbologia. Os efeitos especiais são extraordinários, ainda que a maneira como alguns deles são apresentados traga a lembrança de atos terroristas, assim como em Homem de ferro 3 (não em Star Trek, cuja abordagem é mais discreta): parece que dentro da fantasia se quer tornar o ambiente pesado, extraindo a energia necessária para o envolvimento decisivo entre os personagens e, quando o herói fala em esperança para um grupo de militares, temos a impressão que ele está falando também como presidente dos Estados Unidos, o que soa irremediavelmente deslocado.
Há, com essa temática de fundo realista (o terrorismo), a presença de referências religiosas, e Snyder não é exatamente sutil ao abordá-las. Superman em vários momentos é comparado à figura de Jesus Cristo, inclusive no momento em que ele está na água com os braços abertos e de barba, ou quando diz que pode curar Lois Lane de um determinado ferimento, ou quando vai até uma igreja e um vitral da figura de Jesus é visto ao fundo, projetando-se ao lado dele. Mas nada, nesse sentido, se compara ao fato de que algumas vezes é referida sua idade: 33 anos. Isso acaba trazendo uma analogia ostensiva, que parece ser encaixada para tentar oferecer uma certa profundidade temática ao personagem de Jerry Siegel e Joe Schuster. Ela consegue ser melhor encaixada quando se visualiza seu nascimento, com a perseguição em seguida de uma espécie de cúpula rebelde que pretende tomar Krypton como a Roma Antiga, e sua infância, quando, num momento aterrorizante, se vê como Clark foi descobrindo, aos poucos, seus poderes.
Por toda a expectativa que criou, embora O homem do aço fique afastado das possibilidades que apresentava, como filme de ação funciona e diverte (mesmo com suas lacunas de roteiro), e nunca é entendiante (como alguns momentos de Homem de ferro 3), mantendo a ação pelas idas e vindas do tempo, trazendo alguns acréscimos à mitologia do Superman (destaque-se a trilha sonora de Hans Zimmer). A questão é que depois de toda a grandiosidade buscada aqui torna-se complicado trazer a série para um movimento não apenas de blockbuster com ação frenética, mas como estudo de um personagem de quadrinhos que fascina desde sua criação. Parece que realmente, depois das experiências com Singer e Snyder, que Superman, ao contrário da série Batman, que teve Tim Burton à frente de uma franquia e Nolan à frente de outra, não tem conseguido diretores autorais, com, entre qualidades e defeitos, uma visão mais sensível. Quando está em movimento, O homem de aço impressiona, mas quando precisa lidar com os personagens o fato é que deixa o espectador nostálgico.

Man of steel, EUA, 2013 Direção: Zack Snyder Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Russell Crowe, Michael Shannon, Kevin Costner, Diane Lane, Antje Traue, Ayelet Zurer, Cristopher Meloni, Laurence Fishburne, Cooper Timberline, Dylan Sprayberry Produção: Charles Roven, Christopher Nolan, Deborah Snyder, Emma Thomas Roteiro: David S. Goyer, Cristopher Nolan Fotografia: Amir Mokri Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 143 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / Legendary Pictures / Warner Bros. Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

Apocalypse now (1979)

Por André Dick

Apocalypse now 2

O cineasta Francis Ford Coppola foi sempre reconhecido, desde o início da saga de O poderoso chefão, como muito próximo da megalomania. Apesar disso, ele teve uma função de destaque ao ajudar novos talentos da Nova Hollywood, como George Lucas, com quem brigou e fez as pazes algumas vezes e que quase realizou Apocalypse now. Se hoje Coppola realiza produções mais discretas (como Tetro e Twixt), ficaram na memória dos produtores os riscos dos anos 80, com O fundo do coração e Cotton Club, e o grandioso Drácula de Bram Stoker, do início dos anos 90. Ainda assim, as filmagens de Apocalypse now, adaptação do livro de guerra “O coração das trevas”, de Joseph Conrad, que podiam aproximá-las de um retrato próximo do inferno, foram as mais conturbadas em muitos anos, e Cimino tentou copiá-las (com êxito) em O portal do paraíso.
Um ator principal substituído depois de cenas rodadas (Harvey Keitel por Martin Sheen, conhecido por Terra de ninguém, de Malick, e que sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens), no período mais chuvoso das Filipinas, a equipe atacada por doenças de todos os tipos, e Marlon Brando fazendo inúmeras exigências e cachê milionário para fazer quase uma participação (embora especial) são os principais elementos dessa produção que se atreveu a desafiar o próprio desastre anunciado pela Guerra do Vietnã, tornando-se, por si só, um desastre financeiro. Continua atual a saga do capitão Benjamin Willard (Sheen), convocado por superiores para tentar encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Brando), que abandonou o exército e se embrenhou nas matas do Camboja com uma espécie de seita a segui-lo como um messias. Homem exemplar do exército, a única razão para suas atitudes seria: a guerra o enlouqueceu.

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Imerso no álcool, o comandante fica impassível diante do pedido, mas segue com um grupo para ajudá-lo. Todos inexperientes e pouco adequados ao cenário da guerra, como um conhecido surfista, Lance (Sam Bottoms). Quando eles chegam a um campo de batalha, e Willard pergunta quem manda ali, sem que se saiba realmente, eles encontram o Tenente Coronel Bill Kilgore (um Robert Duvall antológico), que logo se encanta com a presença do conhecido surfista. Seu hobby é justamente surfar (ou tentar surfar) nas águas do Vietnã. Depois de um ataque orquestrado pela “Cavalgada das Valquírias” e cercado de bombas, ele diz: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”. Com um chapéu de caubói, não há mais índios para matar, e sim vietcongs.
Tudo em Apocalypse now é simbólico, mesmo quando o helicóptero desce num acampamento carregado de coelhinhas da Playboy, e imaginamos não muito diferente o set de filmagem de Coppola, com uma série de rebeldes típicos dos anos 70 (não apenas Brando, como também o “sem destino” Dennis Hopper e, claro, Coppola), sendo possível ver uma atmosfera de show de Jim Morrison no The Doors. Esta primeira parte de Apocalypse now, com seu ritmo entre o violento e o meditativo, é clássico, pois acompanhamos a emoção de Coppola ao adentrar na floresta, com as curvas sinuosas dos rios, as palmeiras e cabanas construídas milimetricamente para sequências de ação grandiosas e que mesmo hoje parecem superar muitos filmes de guerra (os helicópteros em cadeia e em fúria martelam os ouvidos). Ele realmente consegue examinar a guerra como um lugar da loucura forçada, sobretudo na figura de Bill Kilgore. À medida que a selva vai ficando densa, Coppola parece carregado, e carrega o espectador, para o próprio “coração das trevas”. “É o horror, é o horror”, vai repetir mais tarde o coronel Kurtz para um impassível Willard.

Apocalypse now

Apocalypse now, que dividiu o prêmio principal do Festival de Cannes com O tambor, é resultado de idiossincrasias misturadas com genialidade e, à medida que o espectador se torna mais familiarizado com o ambiente, é como se também não conseguisse sair dele. Ainda estamos longe dos humores de Forrest Gump correndo para salvar seus companheiros em meio a bombas de napalm, e a meditação constante de Willard vai se perdendo, como os vultos de seus companheiros, na própria loucura que gerou também a seita de Kurtz e os fez reféns de uma espécie de paraíso perdido em meio à mata. Coppola também evidencia seu cansaço, ao se entregar e entregar sua equipe à própria insegurança do cenário. “Por que Kurtz fez isso?”, vem sempre à mente de Willard, e para o espectador isso passa a exigir não apenas expectativa de um reencontro, inclusive também aversão a ele ter de existir, assim como da compreensão de que ele também, afinal, inserido no mesmo contexto, pode vir a ficar louco. Pois o Coronel Kurtz é Marlon Brando, um ator que um ano antes havia feito o pai de Superman e antes foi o Dom Corleone supremo. Ele é a própria metáfora de Coppola para a guerra do Vietnã: ele fala em ritmo trôpego, e não sabemos exatamente por que há tantas pessoas a segui-lo (Brando se negou a contracenar com Hopper, que faz um fotógrafo seguidor que nunca encontra o mestre, ou melhor, este anuncia o que o próprio ator acaba enfrentando no filme). Mas entendemos toda a atmosfera. Quando surge o território de Kurtz, detrás da neblina, o espectador parece chegar a um espaço habitado pelos povos indígenas, e o cheiro de napalm se mistura com outros.
Atrás das sombras, com a água gotejando da careca, Brando olha para Sheen como Coppola olha para o espectador: por trás de uma possível genialidade, há um vulto precário. Nesse sentido, Coppola metaforiza a guerra do Vietnã como o fracasso de um homem para enfrentar uma guerra e sua busca por aquilo que pode ser capaz de reverter sua expectativa diante do outro. O contraponto não podia ser mais exato do que Willard. Ele viaja para cumprir uma missão. Será que, de fato, ele conseguirá entender esse homem que acaba buscando no material de pesquisa que leva junto consigo? É possível manter uma esperança e uma fidelidade àquilo que se imagina conhecer?

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As respostas não estão dentro do filme, mas em sua moldura. Por mais que surjam novos fotógrafos, é importante lembrar que um dos trunfos de Apocalypse now, para que se conte esta história terrível da guerra, é o italiano Vittorio Storaro, vencedor do Oscar pelo trabalho. Imaginam-se as dificuldades pelas quais a equipe tenha passado, mas não interfere, em nenhum momento, no trabalho brilhante de Storaro, que consegue iluminar e encobrir as cenas com névoa e fumaça da maneira mais adequada – ele consegue destacar filmes como O céu que nos protege e Dick Tracy de forma iniguavável. A fotografia, nesse sentido, é um personagem tão forte quanto os que circulam no filme, sustentando, por exemplo, boa parte da atuação de Brando e mesmo de Sheen, um ator mais introspectivo (para não dizer exatamente limitado, pois deve ter sido uma dificuldade chegar ao fim das filmagens), e que, por isso, é filmado de maneira discreta. No entanto, o mérito dessa escolha é de Coppola, o qual consegue, em seu filme, antecipar o que Oliver Stone e Kubrick fariam tão bem, em Platoon e Nascido para matar, retratando o calor da selva como motivo para a loucura e a transgressão, embora não seja o motivo para que esta guerra seja enfrentada. Para Coppola, a guerra traz a síntese do povo que dela faz parte. É muito difícil, diante dessa verdade, não enlouquecer.

Apocalypse now, EUA, 1979 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Frederic Forrest, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Albert Hall, Harrison Ford, Dennis Hopper, Scott Glenn, Bo Byers, Linda Carpenter Produção: Francis Ford Coppola Roteiro: Francis Ford Coppola, John Milius, Michael Herr Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Carmine Coppola, Francis Ford Coppola Duração: 153 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes