Melhores filmes de 2012

Por André Dick

A invenção de Hugo Cabret

O cinema em 2012 teve grandes momentos, independente do número de produções com qualidade. Se nos Estados Unidos já se comenta os lançamentos de favoritos para as indicações ao Oscar, e indicados ao Globo de Ouro, como A hora mais escura, Django livre, Lincoln, O mestre, O lado bom da vida, para uma análise do que se passou nos cinemas brasileiros em 2012, ainda tratamos de filmes indicados ao Oscar do ano passado – ou simplesmente esquecidos por ele, como Drive (indicado apenas à categoria de melhor edição de som).
O cult artístico é, sem dúvida, Holy Motors, filme francês, sem, contudo, o sucesso nas bilheterias de Os intocáveis. O blockbuster derradeiro é O hobbit, que vem sendo, de maneira quase unânime, nos Estados Unidos, visto com desconfiança, considerando-o longo demais.
Ano em que tivemos o encerramento de duas séries (a atual trilogia Batman e Crepúsculo), um filme divertido de heróis (Os vingadores), a reinvenção do agente 007 (Operação Skyfall), dois Spielberg (Cavalo de guerra e As aventuras de Tintim), dois Tim Burton (Sombras da noite e Frankenweenie), uma antecipação decepcionante da temporada do Oscar 2013 (Argo), outra interessante (As aventuras de Pi), um Woody Allen italiano (Para Roma com amor), duas cinebiografias (J. Edgar e Sete dias com Marilyn), um retrato do preconceito nos Estados Unidos nos anos 1960 (Histórias cruzadas), lembranças do cinema mudo e em preto e branco (O artista), fábula dos Irmãos Grimm (Branca de Neve e o caçador), um Fernando Meirelles irreconhecível (360), comédias sobre relações desgastadas (O exótico Hotel Marigold e Um divã para dois) e de política (O ditador). Destaque-se também 50%, com Joseph Gordon-Levitt (que participou também de Batman e Looper), que saiu, infelizmente, direto em DVD. Alguns filmes superestimados: Holy Motors, Shame, Precisamos falar sobre o Kevin, Argo, Deus da carnificina.
Filmes que hoje fariam um TOP 25: A separação (Asghar Farhadi), As vantagens de ser invisível (Stephen Chbosky), Um alguém apaixonado (Abbas Kiarostami), Caminho para o nada (Monte Hellman), Pina (Wim Wenders), Políssia (Maïwenn), No (Pablo Larraín), Sombras da noite (Tim Burton), 007 – Operação Skyfall (Sam Mendes), O artista (Michel Hazanavicius) (atualizado em 21 de janeiro de 2014).

Melhores filmes.2012.Cinematographe.TOP 25
Abaixo, uma seleção do que foi exibido de melhor na opinião de Cinematographe.

15. Batman – O cavaleiro das trevas ressurge

Batman 3.Filme

Um milionário amargurado em sua mansão, mantendo-se com a ajuda do mordomo, resolve voltar à ativa em sua persona de herói depois que uma empregada decide roubá-lo e um jovem policial o identifica como aquele que tentara salvar a cidade anos antes. Seu passado retorna na figura de Bane, e é preciso controlá-lo. Nesta aventura, Nolan sobrepuja o segundo filme, retomando um diálogo com o primeiro e, apesar das cenas evocarem a realidade, estamos certos de que aqui há mais fantasia e otimismo, além de um elenco em grande momento (não apenas Bale e Hathaway, mas principalmente Michael Caine e Gary Oldman). Leia mais.

14. As aventuras de Tintim

As aventuras de Tintim.Melhores

Para descobrir um mistério relacionado à maquete de um navio, o personagem de Hergé, acompanhado do seu cão Milu, vai parar num navio de verdade, e encontra o capitão Haddock, quase o tempo todo inconsciente. O humor acertado (algo raro em se tratando de Spielberg), com o batedor de carteiras e os detetives atrapalhados Dupond e Dupont, garante uma diversão ininterrrupta. Spielberg parece com saudades de Indiana Jones e de E.T., deixando para trás Cavalo de guerra. Seu Tintim é animação em grande estilo. Leia mais.

13. Jovens adultos

Jovens adultos

A atriz Charlize Theron finalmente encontra o papel de sua carreira em Mavis Gary, escritora de livros infantojuvenis que volta à cidade de onde saiu para tentar reconquistar o ex-namorado, ao mesmo tempo em que faz uma amizade – conturbada – com um rapaz do qual debochava em seus tempos de colégio. Não querendo reencontrar os pais, ela prefere ficar no hotel tomando Coca-Cola, enquanto espera o seu amor ressurgir. Segundo Jason Reitman, isso se torna mais difícil com os humores de Mavis. Uma espécie de drama agridoce, em que descobrimos, junto com a protagonista, a graça – ou não – de sua passagem por essa cidade. Leia mais.

12. Ted

Ted.Filme

Comédia mais divertida do ano, traz a história do ursinho falante que tenta ajudar aquele que o idealizou por meio de um pedido de natal. Grosseiro, mesmo que nunca desagradável, Seth MacFarlane faz com que até o Flash Gordon oitentista participe da festa em que o personagem-título, por medo de decepcioná-lo, resolve partir para os malfeitos. Não há maneira de não rir de determinadas situações, a não ser que não se goste da ideia mais absurda em muitos anos: o urso de pelúcia procurando emprego de terno e gravata e xingando o entrevistador. Leia mais.

11. As aventuras de Pi

As aventuras de Pi 4

Ang Lee adapta o romance de Yann Martel com uma sensibilidade que mescla filosofia e religião, com efeitos especiais espetaculares e a atuação notável de Suraj Sharma. A história do jovem que precisa competir com um tigre de Bengala por um bote em alto-mar, depois do naufrágio do cargueiro que levava sua família para o Canadá, é feito em escalas de realismo e dramaticidade. O espectador acompanha seu olhar durante todo o percurso, para compreender, enfim, as descobertas da infância. Leia mais.

10. Cosmópolis

Cosmópolis.Filme

O falatório ininterrupto deste David Cronenberg não impede de ser uma das obras mais divertidas do ano. Pattinson excelente, em duelo verbal com Binoche e outros, mostra uma corrosiva crítica não apenas ao capitalismo, mas a quem o contesta. Nos letreiros de Nova York, com suas frases marxistas, temos um pedaço da síntese de um universo contemporâneo, em que o anti-herói deseja comprar uma Capela para colocar dentro de sua sala. Não há espaço para o tempo; tudo se resume a nanossegundos e à tentativa de convencer o outro pela saturação de ideias. Leia mais.

9. Prometheus

Prometheus Ridley Scott

Depois de anos afastado da ficção científica, Ridley Scott, ultrapassando furos de roteiro e possíveis escolhas equivocadas no elenco, traz uma obra de porte considerável e desde já memorável. O que importa não é ser o início da série Alien, e sim como Scott pode se manter tanto tempo afastado do gênero que domina como poucos, em que consegue mesclar sua visão humana com a solidão do espaço sideral. A nave e David (Bowman) são os protótipos da invenção e das escolhas humanas, mas são muito mais sua tentativa de superação. Leia mais.

8. Na estrada

Na estrada.Filme 4

Envolvido com esta adaptação de Jack Kerouac desde a finalização de Diários de motocicleta, Walter Salles apresenta um filme desde já em parte injustiçado, mas que com o tempo será reconhecido. Trata-se de uma adaptação respeitável de um período em que determinados escritores tentaram transformar o movimento pela estrada em movimento literário, contudo sem conseguir escapar da melancolia. Não se espere simplesmente sexo, drogas e rock’n’roll; é sobre perdas e reencontro. Difícil outra interpretação este ano tão contundente quanto a de Garret Hedlund, o Dean Moriarty, Dean Moriarty, que possivelmente não estará entre os indicados ao Oscar. Uma verdadeira injustiça. E não, não é material para Tarantino. Leia mais.

7. Millennium – Os homens que não amavam as mulheres

Millennium.Melhores

Uma chamada “obra falha”, não fosse o diretor David Fincher, e sua vontade constante de surpreender o espectador, desta vez voltando ao gênero policial, em que o James Bond Daniel Craig não consegue efetivamente ser o herói. Rooney Mara é seu complemento para a busca de um caso que pode solucionar não apenas a vida de um ricaço, mas toda uma família, ainda presa a acontecimentos do passado. O clima gélido e os cenários distantes tornam esta uma das obras que mais conseguem aproximar o espectador dos personagens. Quando Fincher os mostra, estamos em meio à ação. Leia mais.

6. O homem que mudou o jogo

O homem que mudou o jogo 5

Para quem busca uma análise do beisebol, não é necessário filmes como esse. Para quem busca uma análise sobre a relação entre o ser humano (e as plateias) com o esporte, uma verdadeira descoberta. Brad Pitt e Jonah Hill são os primeiros a quebrar o muro de desconfiança para tentarem levar o time à vitória. Não estão atrás da vitória do time, e sim de entenderem por que, afinal, o vencedor se faz de jogos ganhos e falhas ultrapassadas, sem que se dê espaço para isso no dia a dia. Leia mais.

5. O hobbit – Uma jornada inesperada

O hobbit 6

Acusado de dividir o romance de Tolkien em três partes, como O senhor dos anéis, para faturar acima do que deveria, Peter Jackson oferece mais provas de que é um dos cineastas mais criativos a surgir nas últimas duas décadas, apresentando o início da peregrinação de Bilbo para ajudar um grupo de anões a recuperar sua casa. Entre cenas de ações movimentadas e divertidas, direção de arte impressionante e atuações memoráveis de Martin Freeman e Ian McKellen, o espectador volta a um universo do qual sentia falta, ainda mais ampliado e inesquecível. Leia mais.

4. Drive

Drive.Ryan Gosling 3

Uma coleção de imagens magnéticas, com trilha pulsante, temos aqui uma das melhores atuações de Ryan Gosling e a descoberta de um novo grande diretor. Sem ter o foco na ação, ou em corridas de carros, Refn filma o estranho motorista, e enigmático dublê, como uma síntese do cinema de Hollywood, por trás da máscara de látex. Sua vizinha e seu filho representam a família ideal e, acima de tudo, a chance de um recomeço. Drive parece saturar todos os seus elementos pop numa elétrica parte final, onde a previsibilidade de Hollywood se converte em sintetizadores. Leia mais.

3. A invenção de Hugo Cabret

A invenção de Hugo Cabret

Depois de anos entre obras não tão bem-sucedidas, Scorsese ingressa num terreno incomum para sua filmografia: o filme infantojuvenil. Ele não deseja ser Spielberg, apesar de o universo que retrata ser fantástico. Para Scorsese, o que importa é a história do cinema e como chegamos até ela, hoje em dia. O cinema seria a base de nossa infância, como a biblioteca na estação de trem. Já para Hugo Cabret, o cinema pode ser a maior aventura de todas, mas, principalmente, a razão para compreender quem não entende e redescobrir o seu pai. Scorsese é Hugo. Leia mais.

2. Os descendentes

Os descendentes.Filme

A dor é o mote de Alexander Payne em toda sua obra, e aqui não é diferente. O Matt King de George Clooney traz a versão mais humana do ator, o seu grande momento de interpretação, na tentativa de se conectar com suas filhas, que estão com sua mãe em coma. Lembrar-se do passado ou perdoar o presente, ao mesmo tempo em que se tenta vender um enorme terreno no Havaí, retrata a busca de Matt em busca de algo que precisa ser encontrado e explicado. As paisagens belas não atenuam o sofrimento, mas o importante é a conexão que falta para que se possa seguir em frente. Leia mais.

1. Moonrise Kingdom

Moonrise Kingdom.Cabana

O cineasta Wes Anderson consegue emplacar, nesta coleção de imagens que lembram um lugar remoto da infância, o seu estilo e o seu elenco em movimento de peça de teatro. O dilúvio de Benjamin Briet, com a trilha detalhista de Alexandre Desplat, faz despontar o que há ainda para ser lembrado de cada coleção de aventuras de Sam e Suzy, perseguidos (embora também esquecidos) pelos pais e por um grupo de escoteiros. Segundo Anderson, o compromisso começa por uma sucessão de cartas coloridas e pela vitrola em cima da areia, diante de uma enseada em meio à neblina. Uma obra inesquecível. Leia mais.

As aventuras de Pi (2012)

Por André Dick

As aventuras de Pi 5

Baseado num romance de Yann Martel (que, depois de ganhar o prêmio Prêmio Booker, confessou que havia se inspirado no livro Max e os felinos, do escritor brasileiro Moacyr Scliar), esta aventura dramática antecede a temporada dos bons filmes potencialmente favoritos a concorrer ao Oscar, depois do decepcionante Argo. O diretor chinês Ang Lee assumiu o filme depois de alguns cineastas serem cotados para o projeto, como M.Night Shyamalan e Jean-Pierre Jeunet, e imprimiu seu habitual talento para cenas de aventura dramática, o que já havia mostrado em O tigre e o dragão e em alguns momentos de Hulk (sua contestada adaptação, prejudicada pela atuação de Eric Bana e pelos efeitos especiais exagerados).
Ele inicia o filme com Piscine Molitor Patel (Irrfan Khan), batizado com este nome por causa de uma piscina de Paris que encantou seu pai (Adil Hussain), contando o motivo de seu nome ser assim e sobre sua vida até a adolescência em Pondicherry, na Índia, a um escritor que o procura em busca de uma história interessante, o próprio Martel (Rafe Spall, em papel que seria de Tobey Maguire). Parte de uma família que não aprecia a religião, Pi, como começa a ser chamado depois na escola – em razão de seu conhecimento matemático –, pelo contrário, quer aprender sobre todas as religiões: desde o hinduísmo, passando pelo islamismo até o cristianismo. Sua família também cuida de um zoológico, em que o maior atrativo é Richard Parker, um tigre de Bengala.
É Suraj Sharma que passa a interpretar Pi na adolescência, quando a família precisa ir para o Canadá, a fim de vender seu zoológico e recuperar dinheiro. Durante a viagem, no entanto, acontece um naufrágio, e esta é a sequência mais impressionante do filme, no duelo entre as ondas gigantes e o enorme cargueiro que transporta a sua família, e Pi precisa se refugiar num bote com uma hiena, uma zebra, um orangotango e o tigre de Bengala Richard Parker. O tigre, no entanto, quer devorá-lo, começando um duelo pela ocupação de espaço, fazendo com que Pi precise ficar em uma balsa ao lado do bote. Todo esse desenvolvimento é feito por Ang Lee da maneira mais detalhada, com Pi descobrindo, aos poucos, como se manter em alto-mar e como lidar com o tigre, com o qual passou um momento delicado na infância. Ainda mais: Ang Lee costura algumas das cenas mais belas do ano, em que o azul do céu se funde ao da água, e em que surgem os animais mais exóticos e espetaculares. Tudo, no entanto, parece mesclado com a fantasia, pois Pi deseja se ausentar também daquela condição terrível.

As aventuras de Pi

Se a primeira parte, com seu fundo religioso, parece um tanto esquemático demais, para dar entrada à segunda parte, em que as palavras se traduzem em imagens, As aventuras de Pi nunca desce a um fundo de fábula com uma lição de moral para encantar a plateia, como poderia. É verdade que Ang Lee parece um pouco desconfortável com o cenário da Índia – não o fotografa da maneira mais interessante, como o faz Madden em O exótico Hotel Marigold –, e com uma fotografia às vezes que esconde os grandes planos, contudo, quando chega em alto-mar, sua visão detalhista nos traz o filme especial que parecia escondido.
Com a fotografia de Claudio Miranda (o mesmo de O curioso caso de Benjamin Button) e os movimentos de câmera para mostrar o personagem à deriva, em sua luta pelo território com o tigre, As aventuras de Pi ingressa num terreno pouco vislumbrado no cinema: a ligação entre o sentido de uma aventura inesperada com uma busca por um Deus que seja comum para o universo que o personagem cultiva. Ang Lee consegue contrabalançar a relação entre a água e a carne. A família de Pi é vegetariana e ao chegarem ao navio logo se desentendem com o cozinheiro (Gérard Depardieu) e há um momento em que Pi é levado a beber água benta numa igreja – quando tem o primeiro contato com a figura de Jesus Cristo. Depois, ele diz à família que deseja ser batizado. A carne e a água simbolizam a humanidade e também a sobrevivência. E quando Pi precisa enfrentar os temores no mar que se defronta com a falta de comida e a necessidade de caçar peixes. Os animais, principalmente o tigre de Bengala, também precisa se alimentar – como reflete Pi, ele precisa, como era tratado no zoológico, de toneladas de carne. Depois da tormenta, Pi precisa colher água com os baldes, enquanto toma a água que cai do céu ao mesmo tempo. O tigre de Bengala precisa, em determinado momento, caçar, e o alimento pode ser, também, um convite a ficar ao relento. Este momento remete a quando Pi tentou, na infância, lhe dar um pedaço de carne com a mão, e o pai quer que os filhos vejam, para aprender, uma cabra sendo devorada pelo animal.
Tudo é feito de maneira muito discreta por Lee, um cineasta especializado em simbologias, lembrando tambem o belo O segredo de Brokeback Mountain. Ele é um cineasta que consegue lidar com personagens em situações isoladas e representar este isolamento da melhor forma. Mais do que a vida de Pi que somos atraídos a olhar, Lee tece uma ligação dele com os personagens humanos que nunca se confirma, nem mesmo em seu olhar adulto.

As aventuras de Pi 2

É assim que Lee condiciona a que olhemos sua relação com os animais da melhor forma possível, pois cada detalhe pelo qual passa ajuda a explicar melhor essa jornada que se faz no exterior, mas na verdade é interna. Como em O tigre e o dragão, Lee dispõe essas informações mais subjetivas de modo calibrado, sem cair num tom sentencioso. Se lá ele contava com um elenco excelente, aqui seu apoio é Suraj Sharma, o ator que interpreta Pi, estreante, mas de grande talento. Ele consegue passar as emoções, que poderiam ser inconstantes, na dose exata, empregando o mesmo ritmo do diretor, ou seja, sem fazer a narrativa se perder mesmo nos momentos de menos intensidade. Nos momentos derradeiros, sobretudo, ele consegue criar um paralelo de tudo o que aconteceu com seu destino – já na atuação de Khan, mais elogiado do que Sharma, embora não com o mesmo impacto.
Não existe aqui um experimentalismo vazio, ou seja, Lee basicamente exerce o experimentalismo de imagens com efeitos especiais notáveis (talvez só percam este ano para os de O hobbit), mas ainda assim o final consegue surpreender e deixar o espectador em suspenso, para que possa refletir o que passou. É possível se enganar, achando que o filme tenta convencer o espectador a ter uma determinada religiosidade. Parece que Lee transparece mais o ímpeto do ser humano em acreditar em algo, na própria fantasia que carrega e da qual pode se alimentar a fim de que não perca sua força. É disso que trata a terceira parte do filme. Ou seja, não é um jogo de Lee com uma espécie de densidade sem fundo nem solidez. Quando ele mostra as estrelas à noite, acima de Pi, rodando a câmera, ou mostra os peixes em círculos embaixo do bote, ele revela uma espécie de círculo completo, que se completa, com o olhar ao horizonte. Neste instante, as aventuras se transformam realmente na vida de Pi, como está no título original. E torna-se possível sentir cada momento do personagem, em toda sua amplitude.

The life of Pi, EUA, 2012 Diretor: Ang Lee Elenco: Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark Roteiro: David Magee, baseado na novela de Yann Martel Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Mychael Danna Duração: 129 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Rhythm and Hues

Cotação 4 estrelas

 

Jovens adultos (2011)

Por André Dick

Jovens adultos 5

A parceria de Jason Reitman com Diablo Cody iniciada em Juno – um filme que não corresponde à sua repecussão – ganhou um segundo capítulo neste filme menos comentado, que passou rapidamente por nossos cinemas, mas é dramaticamente (com elementos de humor) muito superior: Jovens adultos. Não era de se esperar muito de uma história relativamente limitada, sobre uma escritora de livros juvenis (que publica numa coleção), Mavis Gary (Charlize Theron). Quando passa por um período sem conseguir criar e de rotina de troca de homens em sua vida, ela recebe a mensagem de um ex-namorado, que acabou de ter uma filha. Morando em Minneapolis, ela decide voltar para Mercury, Minnesota, sua cidadezinha de origem, a fim de reencontrá-lo. O antigo namorado se chama Buddy Slade (Patrick Wilson) e, além de ser pai, está muito bem casado com Beth (Elizabeth Reaser). Por sua vez, Mavis anda com um cachorrinho em sua pequena bolsa e destrata a todos que encontra à sua frente, pois se considera, acima de tudo, uma escritora best-seller.
No entanto, na coleção em que ela escreve, seu nome aparece quase num rodapé e ela, na verdade, está querendo um acerto de contas com o seu passado. O que poderia ser uma trama juvenil ou simplesmente bem-humorada transforma-se num drama agridoce, por meio do talento de Reitman em lidar com personagens fora do contexto, o que já mostrou tanto em Juno, de forma menos exemplar, quanto no interessante Obrigado por fumar (em que imperava o politicamente incorreto) e no excelente Amor sem escalas, seu melhor filme ao lado deste até o momento. Reitman está interessado numa espécie de retrato do americano que pensa ter obtido um sucesso descomunal quando precisa voltar às suas raízes para entender que não atingiu exatamente o que queria.

Jovens adultos 2

Jovens adultos 4

É um movimento também trazido por Alexander Payne em filmes como Sideways. Neste, havia o escritor Miles Raymond (Paul Giamatti), que não conseguia publicar o que considerava sua obra joyciana e, não conseguindo, sai numa jornada por vinícolas com seu amigo que vai se casar. Ao contrário de Mavis, Miles era comedido de inseguro. O que não significa que Mavis também não o seja. Ao chegar na cidade, ela vai para um pub, onde encontra Matt Freehauf (Patton Oswalt), que foi agredido nos tempos de colégio porque ele seria gay – deixando-o com cicatrizes incuráveis e muletas. Sabendo do objetivo de Mavis de terminar com o casamento de Buddy, Matt se coloca como intermediário, mas apenas para mostrar seu entendimento da questão. Incapacitada de se resolver como adulta – a personagem central não consegue visitar os próprios pais na visita à cidadezinha –, ela encontra em Matt um diálogo baseado em bebidas e monstros pintados no quarto. É como se ele representasse o que ela não consegue ser: uma pessoa que conseguiu, enfim, se despir do posto de rainha da escola para, de fato, tornar-se um sucesso como autora – com o nome escondido – de livros infantojuvenis. Mas como se ela não consegue entender as mais simples relações?
Jovens adultos vai de encontros em bares a hotéis com garrafas de Coca-Cola jogadas no colchão, contudo é muito mais do que um pretenso aroma de cigarros ou cheiro de esmalte que a personagem usa a determinada altura, em determinados tons. Mavis, na verdade, parece ser o retrato da mulher que se aproxima dos 40 anos estando presa à juventude e às conquistas da escola, mas pode esconder mais do que isso. A personagem que Charlize interpreta com vigor – sendo seu melhor papel até hoje, pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz – tem uma instabilidade muito bem trabalhada ao longo do filme, desde o momento em que acorda (com o pijama da Hello Kitty), liga a TV, para se abastecer um pouco de cultura fútil, até o momento em que busca alguma comida fast food para ouvir possíveis conversas capazes de inspirá-la a escrever. Quando pretende reconquistar o namorado, passa por um salão de beleza, faz aplique nos cabelos e tenta recuperar o ar juvenil, entretanto apenas ela acredita que não está mais velha e estranha; para ela, todos os outros estão estendendo o tapete como se ela ainda fosse a rainha do colégio, e ainda a invejam por isso, já que conseguiu sair e fazer sucesso na cidade grande.

Jovens adultos 3

Não parece sem sentido que Reitman a coloque sempre num ponto de vista juvenil, como as fitas cassete que carrega, remetendo também a uma fuga para a adolescência eterna. Reitman consegue mesclar a faceta patética da sua personagem com uma espécie de ressentimento que ela deixa claro, como na apresentação da banda da mulher do antigo namorado,  a quem tenta convencer a beijá-la mais tarde, e na meia hora final, certamente num tour de fource de Charlize, capaz, ao mesmo tempo, de fazer o espectador rever o seu comportamento ao longo do filme e, mesmo diante de sua incapacidade para o enfrentamento, tentar vê-la numa condição melhor, o que não é, porém, o objetivo de Reitman, pois o filme está longe de ser previsível.
Não se trata de nenhum retrato superficial de uma determinada idade, mas um retrato bastante considerável da natureza de Mavis, capaz de se ampliar em boas doses de ironia e vontade de esquecer o que aconteceu. Estamos diante de vários temas, mas o mais subentendido é, sem dúvida, o alcoolismo, e a maneira como a personagem precisa enfrentá-lo para tentar entender a cidade de onde veio. Trata-se de uma personagem que adentra uma loja de roupas para bebê com a mesma falta de vigor com que ergue a garrafa de Coca-Cola quando acorda com os cabelos desgrenhados, mas, ao tentar mudar diante do espelho, imagina recuperar o que perdeu. Trata-se, portanto, de um papel que deve ser desempenhado de dentro para fora, e as expressões que Theron coleciona ao longo da narrativa, assim como sua inesperada amizade com Matt, cada um tentando recuar no tempo para tentar fazer com que caia no esquecimento, transformam o que poderia ser um roteiro superficial em algo mais humano e próximo do verdadeiro afeto.

Young Adult, EUA, 2011 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith, Charlize Theron Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 94 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Denver and Delilah Productions / Indian Paintbrush / Mandate Pictures / Mr. Mudd / Right of Way Films

Cotação 4 estrelas

 

Holy Motors (2012)

Por André Dick

Holy Motors

A obsessão de David Lynch, em Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, era definir Hollywood, mas ele sempre conseguiu resguardar seus personagens à margem de uma obsessão completa pela cinematografia, apesar de, algumas vezes, ser autorreferente. Lynch ganha um diálogo, agora, no cineasta Leos Carax, e Oscar  – nome simbólico (assim como a primeira palavra do título do filme) –, personagem central de Holy Motors, é uma espécie de parente de Nikki Grace (a excelente Laura Dern), de Império dos sonhos, e de Rita e Betty, de Cidade dos sonhos. A diferença é que Oscar representa muitos personagens, e não está, a princípio, dentro de um sonho, embora os lugares por onde ele passe lembrem um. Entretanto, não só Carax se beneficia de Lynch. O que seria a chegada do personagem de Val Kilmer à cidadezinha onde vai autografar seu livro e é envolvido por um mistério, em Twixt, o mais recente Coppola, senão uma reprodução da chegada de Sam Stanley e Chester Desmond a Deer Meadows em Twin Peaks – Fire walk with me? As semelhanças são claras – e Holy Motors, particularmente, fascina pelas imagens (uma fotografia primorosa e uma ambientação climática especial) e pela atuação irrepreensível de Denis Lavant do que pelo que tem a dizer, mesmo que seja uma síntese daquilo que, na França, Lacan legou para a psicologia (pela tríade Real-Simbólico-Imaginário) e Rimbaud (“Je est un autre”) para a poesia.
Desde o seu início, em que o próprio Carax atravessa um parede que lembra uma floresta, depois de abri-la com um dedo, para surgir num cinema, em que um cão caminha em meio ao corredor, com os espectadores congelados na tela ao som de gaivotas do mar, temos um ritmo que pende para o mistério e o enigma (imaginamos, em outro cenário, Nikki entrando num cinema ou chegando à porta dos coelhos em frente à televisão). Mais ainda quando somos apresentados a Oscar, um homem que viaja em sua limusine por Paris e se passa por vários personagens. Nesse sentido, ele é um ser múltiplo, interpretando, ao mesmo tempo, uma senhora que pede esmola na rua, um ninja para jogos eletrônicos, um mendigo – “Sr. Merde” – que devora flores no cemitério (na melhor sequência, ainda que grotesca), entre outros. Ele representa o indivíduo moderno e, dentro de sua limusine, se não é Packer de Pattinson em Cosmopolis, aproxima-se pela frieza e necessidade de ilusão, recebendo, ao longo do dia, dossiês referentes aos personagens que deve interpretar, sempre com a ajuda da motorista, Céline (Edith Scob). E a cada vez que ele volta para o carro e abre um novo dossiê há teclas de piano que remetem a De olhos bem fechados, de Kubrick, em que Cruise viaja pela noite para chegar a uma festa secreta numa mansão.

Holy Motors 6

Carax possui mais sentido para a imagem gráfica do que Cronenberg – os corpos repletos de luzes no escuro, servindo de modelos para a conversão virtual e simulando uma relação sexual, ganham intensidade na tela grande –, mas se Holy Motors tem uma especialidade é sua emulação de outros registros. Isto também se localiza na necessidade de que ele não tem onde ficar, precisa estar em movimento, pois é a obsessão de Carax. Contudo, se Lynch vê nisso uma necessidade crítica e mesmo emoção, sobretudo em Cidade dos sonhos, Carax vê com um potencial para imagens e movimentos que nunca se reencontram, depois de se dispersarem. Nesse sentido, o personagem não se conecta com nada: ele passa a ser apenas um símbolo de si mesmo, da interpretação e do diretor. Há momentos em que ele interpreta personagens – como o do mendigo e do tio que está morrendo –, entretanto logo existe uma quebra, tentando evidenciar que não devemos ir por aí, porque já não seria o cinema autorreferencial e não existiria a ideia de que ele é, afinal, um outro (e estranho), e assim deve permanecer. No entanto, não há em Holy Motors um mistério a ser solucionado, pois não se pode saber saber por que o personagem tem a missão de interpretar diferentes personagens, à medida que o filme pertence apenas ao diretor, ou seja, passa a ser uma ilusão que o espectador faça parte direta deste jogo. O espectador apenas parece fazer parte do jogo, mas não faz – e talvez seja o maior mistério do filme.
Seu interesse é colocar o cinema como representação da multiplicidade humana e ainda assim a impressão que temos é que ele se volta para si mesmo como ponto desse encontro. Paradoxalmente, o expressivo Lavant interpreta inúmeros personagens e, portanto, deveria lidar com inúmeros sentimentos, mas o que se sente, ao longo do filme, é que o cineasta não deseja articular nenhuma aproximação (não lembro, recentemente, de outro filme tão frio). Imagina-se Carax pensando: isso representa exatamente o ser humano. Pode ser aceitável, o que não significa que funcione em Holy Motors.
É suficiente, para Carax, o personagem dizer, quando perguntado por que continua a desempenhar este trabalho – de se passar por vários personagens, incomodado com o fato de que agora as câmeras são menores, o que pode ser um protesto do próprio Carax, que não queria rodar em digital, porém foi obrigado pelo estúdio –, que o importante é a “beleza do gesto”. Para o poeta inglês Hopkins, a “beleza é difícil”, e, excetuando raros momentos de fotografia e sonoplastia (o intervalo é especialmente divertido, com uma banda fabulosa), não conseguimos atingi-la em seu cerne na obra de Carax, pois ele usa as imagens e os personagens como artifícios para relatar sua visão do cinema, e não oferece ao espectador, na medida que deveria, o espaço para que tenhamos a nossa. Afinal, ele está falando de si próprio: ele é o homem do início do filme, que abre uma parede que lembra uma floresta com o dedo.
Cada fala de Holy Motors – e são poucas – parece ter o desejo de dizer tudo, porém, como Carax abrindo a parede, depende do espectador compartilhar ou não. Do quase silêncio se passa a a alguns diálogos mais extensos, e o filme não se molda a cada uma dessas sequências: é como se estivéssemos sendo colocados de frente a uma nova experiência a cada dez, quinze minutos. Isso poderia ser emocionante e surpreendente (e por tudo que se falava e se fala de Holy Motors eu também imaginava ser), no entanto, em Carax, reitera-se, é uma autorreferência ao que ele mesmo diz: estamos, a cada dez, quinze minutos, de volta à “beleza do gesto”. Ao mesmo tempo em que a maneira como são dispostos esses quadros episódicos não é inesperada, não vemos uma falta de linearidade; pelo contrário, a partir da segunda missão, já imaginamos que Oscar sempre estará em situações inusitadas, e isso, depois de meia hora, passa a não constituir surpresa e, particularmente, torna-se cansativo. Pelo simples fato de que estranho seria se o filme indicasse algo no início e fosse se transformando em outra ideia: o fato de Oscar viver vários personagens, em situações diferentes, não tira a impressão de que vemos, na verdade, a mesma experiência, apenas fragmentada em tons e modulações diferentes. Não esconde o fato de que vemos uma encenação humana de sua multiplicidade. No entanto, isso poderia ser mostrado de forma mais discreta e efetiva, não como um jogo do diretor consigo mesmo.

Holy Motors 2

Parece-me, também, que Holy Motors tinha o desejo de ser uma espécie de síntese dos tempos atuais, num diálogo, inclusive, com a situação da Europa: não me parece desproposital que alguns personagens de Oscar estejam lidando com pessoas à margem e com banqueiros. Mas, na mesma medida em que se cria um diálogo entre o pai e sua filha, ele incapaz de conviver com a mentira e a adolescência, temos de voltar à limusine e ao camarim do artista, pois, afinal, esta é a vida que ele (e, para Carax, todos nós) pretende levar adiante – assim, afinal, ao contrário da filha, ele não precisa conviver consigo mesmo.
Se em Império dos sonhos, tínhamos um perigo que parecia real – mesmo que fosse cinema dentro do cinema – para Nikki, e quando ela entrava num clube e surgia numa sala de cortinas vermelhas víamos o seu receio, em Oscar, tudo é uma ode à interpretação, como se o cinema fosse apenas uma peça complementar para a fantasia e para o sonho. Para ele, basta Oscar passar por momentos de perigo definitivo para sua vida e reaparecer para nos mostrar que aquilo tudo não passa de uma encenação ou de uma metáfora de que surgimos e desaparecemos em situações diferentes, de que queremos fazer desaparecer nossos “eus” ou ampliá-los.
Em meio ao que acontece, é preciso haver distração para Carax, e as inserções pop de Eva Mendes e Kylie Minogue apenas evidenciam a sua necessidade – também do filme – de “Visite o meu site”. Minogue tem o mesmo modus operandi de Oscar, todavia parece não tanto a cantora do Club Silencio de Cidade dos sonhos, e sim a personagem de outro filme (Hiroshima mon amour?). Em certo momento do filme, soa seu hit pegajoso “Can’t Get You Out of My Head”, na festa da jovem buscada pelo pai, assim como é o toque do celular dela, e nunca imaginaríamos Lynch colocando uma música de Chris Isaak ou David Bowie em Twin Peaks – Fire walk with me para anunciar a presença deles. Ainda: seu personagem aparece em frente à Ponte-Neuf (evocando o filme de Carax de 1991, com sua ex-musa Juliette Binoche). Eva Mendes, por sua vez, é uma figura meramente deslocada do filme porque ela anunciaria uma beleza rara de Hollywood (e o personagem do fotógrafo que a cerca, antes de haver uma reviravolta, é apenas uma sátira de Carax, mas que poderia valer também para o seu filme), e seu silêncio é incômodo, apesar de não esperarmos a conveniência nesta cena ou em outras.
Holy Motors tem o desejo de transcender uma espécie de espaço moderno – e ser pós-moderno. A pós-modernidade, como o personagem Oscar, é uma ilusão. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, na modernidade, já anunciava o registro visual de Holy Motors e tudo que se diz pós-moderno. Carax é complacente com a própria ideia de cinema: para ele, o cinema se realiza na sua autorreverenciação, erro em que não cai, por exemplo, o diretor de Drive, no qual o personagem central, por trás da máscara de látex, era vários personagens, sem conseguir assumir, de fato, quem era. Pode ser, mas um erro substancial é se achar que Holy Motors só será apreciado se o espectador for um iniciado em vanguardas de cinema e não se interessar pelo dito cinema comercial. Filmes como este fazem o espectador se sentir culpado por não gostar da proposta ou não querer vislumbrar algo que esteja além do apresentado. Chega-se, daí, à falsa ideia de que um filme, por ser experimental, é melhor do que um que não é. Trata-se de um posicionamento que Carax adoraria. No entanto, é um risco anunciar a “beleza do gesto” sem ter certeza de que irá entregá-la. Para haver essa beleza, é preciso, de fato, sentir o outro; particularmente, o diretor de Holy Motors só vê uma pessoa nos inúmeros espelhos que espalha durante o filme: a si próprio (por meio de Lavant).

Holy Motors, FRA/ALE, 2012 Diretor: Leos Carax Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue Produção: Martine Marignax, Albert Prévost, Maurice Tinchant Roteiro: Leos Carax Fotografia: Yves Cape, Caroline Champetier Duração: 115 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: arte France Cinéma / WDR / Arte / Pierre Grise Productions / Pandora Filmproduktion / Théo Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

J. Edgar (2011)

Por André Dick

J. EDGAR

O cineasta e ator Clint Eastwood não precisa provar mais nada depois de ter feito filmes como Os imperdoáveis, As pontes de Madison e Menina de ouro. No entanto, como um artista, ele continua arriscando e fazendo projetos como J. Edgar, em que Leonardo DiCaprio tenta se mostrar num momento capaz de lhe dar o Oscar. Indicado ao Globo de Ouro, mas não ao prêmio da Academia de Hollywood, permite-se afirmar que J. Edgar pode ser sintetizado – apesar de não só – a partir de sua interpretação, uma vez que ela marca presença em todas as sequências.
Nesse sentido, o filme ingressa em sua segunda (e surpreendente) limitação: a direção de Clint Eastwood, que opta por realizar um filme quase totalmente escuro, talvez para encobrir a maquiagem pouco convincente tanto em DiCaprio quanto em Naomi Watts, e ser autor de uma trilha sonora quase ausente. A tentativa de se contar a história de J. Edgar, desde que ingressou no FBI, escolhendo uma secretária, Helen Gandy (Naomi), que o acompanhará, e um braço direito, Clyde Tolson (Armie Hammer, que fez os gêmeos de A rede social e não desaponta), é interessante. Por meio do filme, são abordados tópicos de sua vida: a obsessão de Hoover em caçar comunistas e gângsteres (no que o filme é bem específico e interessante, pois oferece um panorama daquela época), sua tentativa de profissionalizar as investigações, o caso do sequestro do bebê Charles Lindbergh e sua ligação com a mãe (Judi Dench). Esta, em determinado momento, lhe diz: “Prefiro ter um filho morto a um filho homossexual”, quando Hoover diz que não gosta de “dançar com mulheres”. A relação conflituosa e a inaceitação materna poderiam servir de mote para Eastwood costurar uma relação complexa de Hoover tanto com sua mãe quanto com sua secretária e seu braço direito. Mas o roteiro acaba não permitindo isso aos personagens, talvez pela indisposição de Clint para situá-los melhor no espaço e no tempo, apesar da recriação de época apurada. Da maneira como a narrativa se sucede, eles parecem ter simplesmente passado pela vida de J. Edgar, sem, de fato, fazerem a diferença que as rugas oferecem ao rosto (quando há um conversa decisiva entre Hoover e Tolson, ela logo se perde, como se o assunto tivesse uma espécie de delimitação para abordagem; em outro momento, ele pede pela fidelidade de Helen, mas não sabemos ao certo por que esta o segue).
É, sem dúvida, difícil realizar um filme em que o personagem central é um perseguidor, com receio, ao mesmo tempo, de não ser aceito, mas isso pode ser feito em doses de interesse para o espectador, não do modo como Eastwood nos apresenta. Mesmo a aversão de Hoover por figuras históricas como Martin Luther King soa, de certo modo, apressada e sem o desgaste histórico. É preciso mostrar que Hoover estava descontente com King porque não compartilhava de suas ideias de democracia, e se coloca a sua vida pessoal não resolvida como uma espécie de compensação para explicar seus desvios políticos e éticos, soando, assim, como um preconceito. Ou seja, se Hoover agiu de maneira falha, é porque algo o perturbava. Para Clint, o que o perturbava era a inaceitação de sua mãe. Assim, seus verdadeiros sentimentos seriam encobertos por uma máscara pública, tornando a condição do personagem inacessível.

J. EDGAR

Trata-se, certamente, de um círculo, e Clint Eastwood, mesmo com toda sua fundamental experiência como cineasta, cai nele, aceitando um roteiro em que os motivos para os flashbacks são relacionados a relatos de Hoover para diferentes agentes que transcrevem sua biografia.
Também parece um tanto inadequada a tentativa de Eastwood de desvincular as tentativas de Hoover aparecer na mídia com sua própria vaidade pessoal. Ou seja, o filme dificilmente mostra – a não ser numa cena em que vai assistir a um filme no cinema, e vê, orgulhoso, que os agentes federais do FBI são retratados como heróis, em que ele encontra Shirley Temple na saída – seu envolvimento com a classe artística, e isto é vital para entender sua persona, que lidou com inúmeros documentos pessoais (em arquivos cobiçados na posse de Nixon). Pelo filme, J. Edgar era apenas um homem interessado em acabar com o comunismo, com os conflitos já mencionados, e em fazer fofocas de cartas particulares. Para alguém que chefiou o FBI durante tantos mandatos presidenciais e causou inúmeros constrangimentos, não parece plausível. Não fica claro o tamanho do seu perigo; pelo contrário, ele parece ter representado uma espécie de senso de equilíbrio dos governos nos quais trabalhou, apenas com uma vida pessoal conturbada e desconhecida.
Somando-se a isso, por exatamente forçar uma interpretação para a qual não estava preparado, DiCaprio, apesar de se esforçar visivelmente, sobretudo na tentativa de adaptar sua expressão à velhice, acaba transformando o filme numa espécie de biografia do chefe do FBI em ritmo melancólico de recordação, mas sem conseguir expandir exatamente essa melancolia. Em quase todas as sequências, os maneirismos são evidentes: o corpo levemente curvado (mas não, a meu ver, de forma crível), o olhar cabisbaixo na cadeira em frente à mesa, o olhar de desconfiança para a secretária quando ela acha exagerada alguma carta que ele pede para transcrever. Ou seja, olhando desde o início, com a maquiagem pesada da idade, não acreditei que DiCaprio possa ser J. Edgar Hoover, o homem que vasculhou a vida de inúmeras pessoas. O ator parece muito comedido para o papel e até neutro. Não atinge uma atuação como mostrada, por exemplo em Gilbert Grape e Prenda-me se for capaz, nem consegue atingir a entonação de voz para um senhor mais velho (o que seria realmente difícil, mas parte do desafio). Em apenas um momento, mais ao final, parece-me que ele realmente se emociona com uma determinada situação-chave e mostra todo o conflito existencial que acompanhava esse personagem, sem, no entanto, buscar uma ligação direta com as ações que tomava. Mas já é tarde. J. Edgar termina sem dizer direito a que veio. Como o próprio personagem enfocado, pelo menos na visão de Clint Eastwood.

J. Edgar, EUA, 2012 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Leonardo DiCaprio, Armie Harmer, Naomi Watts, Judi Dench Produção: Clint Eastwood Roteiro: Dustin Lance Black Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Clint Eastwood Duração: 137 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Imagine Entertainment

2  estrelas

As aventuras de Tintim (2011)

Por André Dick

As aventuras de Tintim 4

Tintim é um menino repórter com característica detetivesca, enquanto Indiana Jones era um arqueólogo. Foi justamente depois de Os caçadores da arca perdida que Spielberg tomou conhecimento do personagem de Hergé, ao qual compararam Indiana (em 1983, Spielberg iria conhecer Hergé durante as filmagens de Indiana Jones e o templo da perdição quando este veio a falecer). Spielberg, no entanto, havia prometido ao criador do Tintim que adaptaria as aventuras do personagem para o cinema. O resultado é surpreendente, com potencial para resultar em várias imitações e continuações (apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos). A animação é feita sobre atores reais, mas nem por isso deixa de ser animação: pelo contrário, parece ser uma animação ainda mais densa (não lembro de outro desenho que tenha tanta profundidade nas imagens, quanto aos detalhes e à ambientação). Não há como comparar Tintim com desenhos recentes e sem o mesmo toque de criatividade, apenas tentando ingressar no que a Pixar e a Disney entregaram em momentos altos.
Os caçadores, como se sabe, é a aventura que consagrou o arqueólogo Indiana Jones como o herói da década de 1980, uma espécie de 007 sem sustentação política que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula, ele vai em busca da arca perdida, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês Belocq, ele ainda arranja tempo para namorar a divertida heroína (Karen Allen, que regressaria em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), que reencontra num bar com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas. As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina e, por isso, apesar de parecer simples, é um personagem complexo. Ele e, claro, seus medos: de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda.

As aventuras de Tintim

As aventuras de Tintim 2

Tão bom ou melhor que os antigos seriados de TV, arrebatou cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de George Lucas e Phillip Kaufmann, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e músico (mais um trabalho irrepreensível de John Williams).
Tintim (Jamie Bell), que para Spielberg é um reingresso naquele universo de Os caçadores da arca perdida (e não tanto da série Indiana Jones subsequente), para descobrir um mistério relacionado à réplica em miniatura de um galeão, vai até um navio de verdade, com seu cão Milu, encontrando o capitão Haddock (com movimentos de Andy Serkis captados para a transformação em desenho), que passa quase o tempo todo sem sobriedade alguma. Além do seu humor, Haddock é a peça-chave para conectar o passado e o presente, histórias de piratas e tripulações, mas, sobretudo, de um mistério familiar. Depois, enfrentam o mar e o deserto, além do vilão Sackharine (Daniel Craig). A maneira como Spielberg lida com a amizade de Tintim e Haddock é, aliás, exemplar. Ambos os personagens mostram as aspirações deste universo entre o desconhecido e o real, e representam parte da trajetória de Spielberg: entre o menino curioso em descobrir detalhes que possam levá-lo a um tesouro (o que já vimos em Os Goonies) e um personagem como Haddock, que precisa encontrar seu passado e sua herança familiar para, enfim, conseguir mais clareza em sua trajetória, o que acontece numa fabulosa viagem pelo Saara, com uma ação inesgotável.
Enquanto os personagens centrais vão parar em lugares diferentes, uma dupla de detetives, Dupond e Dupont (Simon Pegg e Nick Frost), em Bruxelas, investiga quem pode ser um batedor de carteiras. Esta faceta de humor é dificilmente encontrada na trajetória de Spielberg (apenas quando o roteiro não costuma ser dele, como na série Indiana Jones ou em E.T. – O extraterrestre). Contudo, lá está Milu, um cãozinho com destreza capaz de dialogar com aquele que desconfia da presença do extraterrestre na casa de Elliott. E lá estão os vilões que não querem deixar o personagem sossegar e, muito mais, como a família Fratelli, em Os Goonies, não estão para brincadeira.

As aventuras de Tintim 5

Há, também, uma parte do filme passada no Marrocos que evoca a parte de Os caçadores passada no Egito, inclusive com a cenografia semelhante, captada pela fotografia notável do habitual colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, e a trilha de John Williams (que ressoa a de Prenda-me se for capaz).
Além do humor, seu excesso de ação garante boa diversão – é de se lembrar, também, a presença de Peter Jackson, de O senhor dos anéis, na produção. Alguns reclamam que o personagem principal não tem vida, ou não se tem nenhuma informação sobre sua família, ou o que a ação é absolutamente inverossímil, mas na verdade se esquece que estamos diante de uma fantasia, em que os personagens de Hergé ganham vida em estilo adequado e, embora não totalmente fiel (pois Spielberg também emprega suas características na montagem da narrativa), ainda assim adequado. Talvez nenhum outro cineasta conseguiria adaptar tal personagem como o faz Spielberg. Como Indiana Jones em 1981 – cujo lado familiar só viria mais à cena em Indiana Jones e a última cruzada.
Excetuando algumas sequências de maior violência para as crianças, este filme de Spielberg é um dos seus melhores nos últimos anos (talvez encontre correspondência apenas com suas peças dos anos 80, excetuando, recentemente, Prenda-me se for capaz). Além disso, para quem pode assisti-lo em 3D, pôde ver o quanto ele foi bem utilizado, ao contrário de em outros filmes, visando apenas o comércio. É impressionante como Spielberg consegue converter em espetáculo o que costuma ser apenas um acréscimo, e como consegue ser mais efetivo do que em Cavalo de guerra, com seu classicismo mal elaborado e mesmo, sem soar pejorativo, antiquado, e como lida melhor com a aventura do que em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Tintim representa o reencontro de Spielberg com a vertente que o tornou conhecido e reconhecido.

The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA/Nova Zelândia, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Craig, Simon Pegg, Jamie Bell, Andy Serkis, Cary Elwes Produção: Peter Jackson, Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 108 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / The Kennedy/Marshall Company / WingNut Films / Columbia Pictures / Paramount Pictures / Nickelodeon Movies / Hemisphere Media Capital

Cotação 4 estrelas

 

360 (2012)

Por André Dick

Filme 360º 2

O diretor Fernando Meirelles mostrou grande talento em Cidade de Deus, que o levou a uma carreira internacional e era, sem dúvida, um filme de muita qualidade. Nos dois filmes seguintes, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira, ele seguiu um caminho um pouco diferente, mas com resultados bastante satisfatórios (o filme baseado em Saramago fez o máximo com o material que tinha, de difícil adaptação, e o próprio escritor gostou do resultado). A nova empreitada de Meirelles, baseada em roteiro de Peter Morgan – autor inglês respeitado, responsável por A rainha, Frost/Nixon e Além da vida, por exemplo –, oferecia uma oportunidade para outro bom resultado. No entanto (e este “no entanto” pesa, em se tratando da qualidade do diretor), 360 raramente cumpre sua premissa: ser um filme sobre o cruzamento entre diversos personagens em países diferentes, nos moldes de Babel, e tratando dos relacionamentos de casais, nos moldes de Closer. Embora admirador de Babel, creio que Closer é um filme superestimado, sem fazer jus ao que apresenta. 360 também não consegue, como este, elaborar suficientemente a ligação entre os personagens, parecendo mais uma coleção de fragmentos do que uma narrativa.
Tudo tem início em Viena, em que Meirelles mostra uma moça eslovaca, Mirka (Lucia Siposova), indo tirar fotografias com um sujeito, Rocco (Johannes Krisch), que as coloca na internet, acompanhada pela irmã, Anna (Gabriela Marcinkova), que, pelo que entendemos, é protegida e poupada da falta de dinheiro. Já no início, ao despir a moça, Meirelles acaba fazendo a personagem nos entregar o mistério que poderia carregar. No dia seguinte, com as fotos na internet, ela é procurada por um homem, Mike Daly (Jude Law), pai de família, que acaba tendo de fugir do encontro por encontrar alguns conhecidos de negócios. Casado com Rose (Rachel Weisz, quase irreconhecível), ele está infeliz no casamento, assim como ela, em Londres, está envolvida com um fotógrafo brasileiro, Rui (Juliano Cazarré), personagem que não se desenvolve. Este acaba sendo abandonado pela namorada, Laura (Maria Flor), que no avião em que volta para o Brasil, conhece John (Anthony Hopkins). Ele procura sua filha desaparecida e ambos precisam passar um tempo em Denver, em razão da nevasca. Ao mesmo tempo, em Paris, conhecemos um homem argelino (Jamel Debbouze), apaixonado por uma colega de trabalho, casada no entanto com um russo. Para que a história dê 360º – sem voltar totalmente ao início –, Meirelles acompanha esses personagens.

Filme 360º

Se do drama de Mike com Rose ele pouco mostra – sendo constrangedoras as aparições de Law e Weisz, apenas estereótipos para uma lição de moral –, parece que a história preferida é a que envolve Laura, que num aeroporto acaba se interessando por um criminoso sexual do Colorado, Tyler (Ben Foster). O homem que conhece na viagem, John, acaba tendo um apego paterno por ela, em razão da filha desaparecida, e talvez seja a única trama que realmente traz algum peso substancial ao filme – sobretudo por causa de Anthony Hopkins e Ben Foster. Hopkins consegue mostrar uma atuação que num filme de maior resultado o credenciaria a uma disputa ao Oscar, principalmente por uma cena de reunião de AA.
Mas Meirelles abandona aqui o que tanto havia mostrado em seus filmes anteriores: o ritmo. Não há ritmo suficiente em 360 e cada drama parece, além de apartado um do outro, de tom morno.  Meirelles parece se concentrar demais nos atores (eficientes, mesmo aparecendo pouco), e esquece a linha da história, tentando disfarçar suas brechas com referências tecnológicas e várias ações dividindo, em alguns momentos, a tela, o que, no caso deste filme, acaba se transformando num recurso desgastado. Não parece apenas um problema de direção, nem de fotografia (um dos méritos do filme, trabalhando o jogo de luzes e identificando o filme como um de Meirelles, com suas tomadas focando edifícios e casas de fora para dentro), mas, substancialmente, de roteiro.
Um roteiro não precisa, claro, de muitos diálogos para funcionar, mas cada diálogo precisa ter uma intensidade crível. Por exemplo, o interesse de Laura pelo rapaz no aeroporto não convence, primeiro porque a atriz (Maria Flor), antes, não mostra o sofrimento para que se arrisque com uma pessoa desconhecida, segundo porque é difícil encontrar, nos diálogos, algo que faça com que nos interessemos especificamente pelos dramas de cada personagem. O mesmo acontece com toda a sequência final, em que os personagens parecem desprovidos de vida. E, no caso de 360, deveria haver mais simultaneidade, ou idas e vindas, como se esperaria do Meirelles que fez Cidade de Deus. Ou seja, cada trama, apesar de não começar e terminar no mesmo momento, não se expande, não cria conexões com as outras, além do fato de haver em comum a presença de algum personagem que desenhe tal relação. Nesse sentido, volta-se à ideia do ritmo, tão forte nos filmes anteriores de Meirelles, mesmo em seu semidesconhecido (e hilariante) Domésticas. Meirelles não costumava apresentar uma cena sem conflito, sem vida, com os personagens se comportando de maneira quase neutra. Por isso, é estranho que o diretor tenha dito que não investiria mais nesses moldes narrativos, pois Cidade de Deus e Domésticas acabam tendo essa particularidade.
Não diria ser uma influência excessivamente europeia – o filme, afinal, se passa, em sua maior parte, no continente –, mas de um cineasta que não apresenta a mesma busca existencial, por exemplo, de um Wim Wenders, cujo Até o fim do mundo, bastante criticado, é uma espécie de precursor de Babel. Meirelles parece, mesmo, em alguns momentos, cansado para realizar um filme mais denso, como se ele não estivesse mais com o mesmo ímpeto para criar um impacto, mesmo se o seu objetivo, aqui, fosse ser mais discreto. Se antes, em Cidade de Deus, ele foi acusado, injustamente, de criar um cinema que embelezava a miséria, em 360 ele emula uma espécie de cinema europeu de linha discreta, mas de pouca força. Diante do que havia por trás das câmeras e à frente, não é possível dizer que 360 cumpre o que prometia.

360, Reino Unido/AUS/FRA/BRA, 2012 Diretor: Fernando Meirelles Elenco: Rachel Weisz, Anthony Hopkins, Jude Law, Ben Foster, Mark Ivanir, Moritz Bleibtreu, Jamel Debbouze, Peter Morgan, Tereza Srbova, Katrina Vasilieva Produção: Andrew Eaton, Chris Hanley, Danny Krausz, David Linde, Emanuel Michael, Andy Stebbing Roteiro: Peter Morgan Fotografia: Adriano Goldman Duração: 115 min. Estúdio: Revolution Films / BBC Films / Dor Film Produktionsgesellschaft / Muse Productions / O2 Filmes / Gravity Entertainment / Unifilme

2  estrelas

Millennium – Os homens que não amavam as mulheres (2011)

Por André Dick

Millennium 4

Depois de realizar, em sequência, alguns dos melhores filmes dos últimos anos (Zodíaco, O curioso caso de Benjamin Button e A rede social), David Fincher mostra, em Millennium – Os homens que não amavam as mulheres, que continua em grande fase. Apesar de muitos terem dito que não havia necessidade desse filme, depois da versão sueca, e que Fincher não teria conseguido imprimir seu estilo nele, é necessário dizer que se trata de um dos melhores filmes de investigação realizados, mesmo em alguns momentos sendo excessivo (a longa-metragem é uma característica de Fincher, a julgar pelas quase três horas deste, de Zodíaco e Benjamin Button) e com inúmeras reviravoltas, o que, a certa altura, pode provocar cansaço. Trata-se de um cineasta que não consegue se conter na aspiração de desenvolver os personagens por um longo tempo, colocando-os em diversas situações. O subestimado, em muitas avaliações, Zodíaco, a meu ver, é uma obra-prima – supera Seven por toda sua complexidade e retrato de uma época, além de ter um elenco superior –, e Benjamin Button possui uma narrativa original com uma influência dramática que atrai o espectador, sendo um dos filmes mais melancólicos já feitos (pode ser uma manipulação, mas Fincher a faz com talento). Em A rede social, Fincher trazia um toque mais contemporâneo, no retrato do criador do Facebook e o início da empresa, com uma fotografia e trilha sonora que se correspondem diretamente com as de Millennium, a começar pela abertura, com imagens impressionantes que vão como que moldando o rosto da personagem central, e que, além disso, tem muitas sequências que ecoam o cenário apertado de O quarto do pânico (um dos filmes dele menos interessantes). Enquanto em Benjamin Button e A rede social, a violência havia se atenuado, em Millennium ela aparece em vários momentos. Porém, Fincher não trivializa essa violência, e sim a insere numa rede de complicação psicológica. Para ele, os personagens sempre são movidos por um passado nebuloso, que acarreta em problemas que não conseguem superar, irreversíveis. Desse modo, a violência deles é sempre inesperada, pois não se associam a algo que o espectador desconfia.

Millennium 3

O filme inicia mostrando um jornalista, Mikael Blomkvist (Daniel Craig, numa atuação mais contida, diferenciando dos momentos em que faz James Bond ou de Cowboys e aliens), que perde um processo para o empresário Hans-Erik Wennerström (Ulf Friberg), por tê-lo acusado, em matéria da revista Millennium, sobre fatos que não pode provar. Os segredos de sua vida, além disso, foram levantados por uma moça, Lisbeth (Rooney Mara, indicada com justiça ao Oscar de melhor atriz), sob a tutela do Estado desde os 12 anos e que, sem nenhum tipo de estudo, conseguiu se tornar numa investigadora perita. O jornalista é chamado por um ricaço, Henrik Vanger (Cristopher Plummer), de um clã que mora numa ilha, para, além de escrever uma biografia sobre ele, buscar a solução para o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet, desde 1966. Ele mora num vilarejo da Suécia, onde se passa o filme, quase sem contato com os familiares, sobretudo porque alguns deles são nazistas. A recompensa seria dar ao jornalista algumas informações sobre Wennerstrom na justiça. Depois de se instalar numa pequena casa à beira de um lago, onde tem como companhia apenas um gato, inicia o processo de entrevistas com familiares, tentando descobrir sobretudo o que aconteceu com Harriet – no momento em que o filme mais lembra Zodíaco, sobretudo no jogo entre o claro e o escuro de alguns ambientes, representando os próprios personagens. O contato de Mikael com a família de Henrik é, a princípio, calmo, mas logo se torna complicado e o jornalista percebe estar lidando com uma “família maluca”, com exceção do simpático Martin Vanger (Stellan Skarsgård), que mora numa casa com vidraças, quase exposta.
Esta trama vai correndo em paralelo com a que mostra Lisbeth Salander. Como ela está sob a guarda do Estado, tem um senhor como tutor, que acaba sofrendo um derrame. Dependente dele, em parte, logo começa a ser chantageada pelo psicólogo que faz seu perfil para que possa receber o dinheiro – inclusive para comida. O enfoque em Lisbeth é sempre misterioso. Com vários piercings e tatuagens – a garota com a tatuagem de dragão do título original –, ela atua como um hacker, invadindo os computadores das pessoas que pretende investigar. Quando Mikael está necessitando de uma assistente, ele chega até ela, e o primeiro encontro já é atípico, com ele convidando-a para um café da manhã depois de ela sair numa balada e amanhecer acordada ao lado de uma mulher. Lisbeth é um personagem situado entre a infância – está sempre com algum lanche para crianças por perto – e o mundo conturbado em que se inseriu desde cedo. Em nenhum momento, no entanto, ela é uma figura completamente autônoma ou responsável por tudo o que faz e, quando age violentamente, no filme, é para se vingar do que cometem com ela. Fincher, a julgar principalmente com Clube da luta (filme dele o qual aprecio menos), não poupa o espectador de cenas fortes, até repulsivas, mas ao mesmo tempo ele julga sempre como necessária esta etapa para mostrar o quanto a personagem consegue criar uma redoma ao redor de si e torna cada caso uma obsessão para substituir sua própria vida – tendo sobre cada caso um controle que não consegue ter normalmente nas relações sociais.

Millennium

Esta dualidade é muito bem conduzida por Fincher, especialista em desenvolver os personagens a distância e de forma íntima, mostrando suas falhas e ressalvas para continuar em determinada direção. São sempre personagens falíveis – o detetive do Zodíaco feito por Mark Ruffalo talvez seja o melhor exemplo –, de qualquer modo sempre bem delineados, a partir do ponto de vista de Fincher. Não é diferente em Millennium. Mesmo com uma trama que poderia ser considerada previsível, com elementos típicos de um policial em que se busca, a todo custo, o criminoso – e nessa empreitada se encontram provas em referências bíblicas e fotografias quase apagadas pelo tempo –, o filme jamais se parece com outros filmes, a começar pela fotografia mostrando as mudanças de tempo para a ilha onde se investiga toda a história (já começa no alto inverno, com o carro levando Mikael à mansão de Venger, e a câmera o acompanha num travelling opressor, que fazia parte, inclusive, do trailer) e o céu quase sempre nublado, com alguns poucos espaços para nuvens e para o azul, representando uma paisagem triste, europeia, mas que dificilmente é fotografada da mesma maneira como aqui por Fincher. Os personagens são como que a paisagem do filme: na maior parte do tempo, estão encobertos, reclusos. A amizade que Mikael faz com um gato que chega na casinha logo em sua chegada mostra tão bem essa condição: para Fincher, o ser humano precisa da companhia para não se confundir com a paisagem e mesmo desaparecer nela. Mikael e Lisbeth parecem entender isso; outros personagens, não. Neste fio é que Fincher anda, mostrando ser um dos cineastas mais talentosos dos últimos vinte anos, pelo menos.

The Girl With a Dragon Tattoo, EUA/SUE/Reino Unido/ALE, 2011 Diretor: David Fincher Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Robin Wright, Goran Visnjic, Embeth Davidtz, Joely Richardson, Joel Kinnaman, Elodie Yung, Julian Sands Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Søren Stærmose, Ole Søndberg Roteiro: Steven Zaillian Fotografia: Jeff Cronenweth Trilha Sonora: Trent Reznor, Atticus Ross Duração: 158 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Film Rites / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Scott Rudin Productions / Columbia Pictures / Yellow Bird Films

Cotação 4 estrelas e meia

O hobbit – Uma jornada inesperada (2012)

Por André Dick

O hobbit 10

Continuar uma saga cujo último episódio recebeu o Oscar de melhor filme (quando os outros foram também indicados ao prêmio) e cujo público cresceu muito uma década depois não é tarefa fácil. Por isso, certamente Peter Jackson deve ter ficado relutante antes de concordar com a nova empreitada. Depois da grandiosa versão de King Kong de 2005 e do mal recebido e irregular Um olhar do paraíso – que destoa de sua filmografia recente –, Jackson decidiu, quando Guillermo del Toro saiu da direção (ele ainda é um dos que assinam o roteiro), reassumir o olhar sobre a mitologia de J.R.R. Tolkien, voltando 60 antes do período em que se passa a primeira trilogia O senhor dos anéis. Incorrer no risco de George Lucas em Star Wars era fácil, ou seja, tentar mostrar uma espécie de outro universo com algumas referências do primeiro, saturando com uma tecnologia superior à de 10 anos atrás, mas, de modo impressionante, Jackson consegue contrabalançar os ganhos que trouxe ao cinema com outros novos, sem perder o essencial: a história de determinados personagens que se correspondem aos da primeira trilogia de modo decisivo.
A começar por Gandalf – o mago feito por Ian McKellen, que consegue transformar a mais simples fala em algo que merece realmente ser ouvido –, que procura o Condado 60 anos antes de pedir a Frodo que leve o anel do poder para a destruição, atrás de seu tio, Bilbo Bolseiro (feito com notável desenvoltura na juventude por Martin Freeman, tendo de concentrar a dedicação de Frodo e Sam a uma missão e o humor de Merry e Pepin, ou seja, ele, de fato, é “o hobbit” da jornada). Desta vez, Gandalf o procura para que ajude um grupo de 13 anões a recuperar sua montanha repleta de riquezas, Erebor, tomada pelo dragão Smaug. Esta história prévia é contada no início, e Jackson já diz novamente a que veio, com um trabalho de direção de arte e de efeitos especiais antológicos, sem nunca resvalar para o kitsch. Não que Bilbo concorde com o “convite” – pelo contrário, diz não estar interessado em aventuras e é para Gandalf procurar outro vilarejo.

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O primeiro contato de Bilbo com os anões se mostra, além de divertido, durante um jantar, válido para o que se vai contar a seguir, e chama a atenção para o seguinte fato: O hobbit tem suas particularidades, mas respeita totalmente a primeira trilogia, procurando recursos de imagens que não ignoram o universo já mostrado, procurando expandi-lo ainda mais. Não me parece, ao mesmo tempo, que Jackson tente aumentar a metragem do filme inventando sequências sem importância. Há algumas com menos intensidade (aquela em que aparecem os trolls e a de outro mago da floresta, Radagast, feito por Sylvester McCoy), entretanto, no geral, não prejudicam – parecem anunciar mais o que está porvir. De qualquer modo, cada detalhe de O hobbit parece encaixado de modo a sustentar uma ideia de trilogia, mesmo que não tenha sido a ideia original de Tolkien. Com respeito pelos personagens, Jackson recupera alguns decisivos que não estão no livro (e cuja presença surpreende, no bom sentido, o espectador), como se enlaçasse diferentes gerações no mesmo combate ao poder permanente, e expande a presença de outros, como Azog (Manu Bennett). Tanto é que, ao final, não se percebe a duração (de fato longa) do filme e sentimos falta de maior participação, por exemplo, de diálogos entre os anões (que no início rendem momentos divertidos).
Nesse sentido, depois de alguns problemas num bosque, os anões, Gandalf e Bilbo acabam tendo de ir para Valfenda – ponto de encontro, já em A sociedade do anel, para o início de uma jornada que pode colocar todos numa situação de risco. Há dúvidas em relação à presença de Bilbo, que pode atrapalhar na viagem, segundo o líder dos anões, Thorin (feito pelo excelente Richard Armitage, que consegue ser um bom contraponto com Aragorn), e Gandalf revela o motivo de sua escolha em determinado momento, na melhor interpretação de McKellen, o que não é pouco. Nesse sentido, o hobbit é um personagem mais isolado, ao contrário de Frodo, e, se o filme não é tão sombrio quanto a trilogia inicial – também porque não mostra os Cavaleiros Negros, que andavam em meio à floresta e assustavam, principalmente em sua passagem pelo vilarejo de Bri –, ou seja, se não guarda os mesmos horizontes escuros (ameaçados por Sauron), seu personagem central é mais solitário, apesar de ver nisso uma certa oportunidade para demonstrar seu ímpeto.

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As locações da Nova Zelândia fotografadas por Andrew Lesnie são esplêndidas, parecendo ainda mais ricas do que a trilogia inicial e o momento em que todos precisam ingressar numa caverna mostra o lado mais extraordinário da direção de Jackson. Ali Bilbo encontrará outra figura que ajuda a estabelecer uma ligação definitiva entre esta trilogia que se inicia e a que já se tornou antológica – além dos inevitáveis trolls, goblins e orcs, tornando o espaço bem mais selvagem e propício a destruições e a implicância entre os anões e os elfos (evidente na primeira trilogia, com Legolas e Gimli). Trata-se do diretor atual que melhor consegue filmar cenas de ação, entende o clima da série (particularmente, Del Toro, que dirigiu O labirinto do fauno e Hellboy II, não tem o mesmo talento) e, vendo o filme, podemos rever os três primeiros sob uma nova perspectiva. É destacado um embate que Jackson filma no alto de uma montanha (sobre o qual não se pode contar, para não se perder a surpresa), em que a direção se casa com a trilha sonora de Howard Shore – sempre pontuando a narrativa da melhor forma possível (nos momentos mais sentimentais). Ao contrário do que Lucas imaginou com a sua segunda trilogia, não são os efeitos especiais que o público quer ver, mas os personagens que podem habitar esse universo. E Jackson entende isso quando na hora final coloca Bilbo em várias situações de perigo e que podem levá-lo a perceber que realmente traria mais recordações uma aventura longe do Condado. Isso se deve à atuação de Martin Freeman, que faz um Bilbo juvenil mais simpático do que sua versão mais experiente, feito por Ian Holm. Desta maneira, Freeman prepara o espectador para as próximas duas partes, pois se não desse certo nesta primeira dificilmente o público suportaria acompanhá-lo. É Freeman, que em nenhum momento aparece na primeira trilogia, que atesta o quanto é interessante voltar a este universo, mesmo com a  falta de alguns personagens antológicos. Graças a ele, a obra de Jackson consegue ter uma densidade humana e épica, afinal, como diz Gandalf, os maiores feitos são realizados por aqueles que enfrentam a rotina. Entre o olhar pela janela e o fogo na lareira, Bilbo, em determinado momento, opta pela peregrinação em campos abertos e montanhas geladas.
O hobbit é um desses filmes que raramente acontecem. Uma mistura forte de apelo cultural e de fantasias mitológicas, que alimentam cada geração como um livro de histórias a serem reproduzidas. Como A sociedade do anel, há 11 anos. É comercial? Sim. É potencialmente lucrativo? Sim. Mas também é fantástico.

The Hobbit, EUA/Nova Zelândia, 2012 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Christopher Lee, Ian McKellen, Andy Serkis, Richard Armitage, Hugo Weaving, Iam Holm, Sylvester McCoy Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Carolynne Cunningham Roteiro: Peter Jackson, Philippa Boyens, Guillermo del Toro, Fran Walsh Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 169 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films / 3Foot7

Cotação 5 estrelas

O senhor dos anéis (2001, 2002, 2003)

Por André Dick

O senhor dos anéis.SérieA saga O senhor dos anéis, adaptada dos livros de J.R.R. Tolkien, teve uma transposição para o cinema à altura de seu desafio. Apesar de Peter Jackson não ter dado provas anteriores de que seria capaz de adaptar com tal força a trilogia (esteve à frente, por exemplo, de Os espíritos), é bem verdade que ele consegue um resultado superior ao que um diretor comum ou consagrado conseguiria. Ou seja, ele não era nem um cineasta do underground nem alguém incorporado a superproduções hollywoodianas. Talvez por tudo isso ele tenha criado um ritmo tão equilibrado para os três filmes, baseado em locações fantásticas da Nova Zelândia e um trabalho de adaptação e incorporação de cada personagem no imaginário de modo notável.
No primeiro, A sociedade do anel, ele apresenta os personagens, o surgimento do anel e o tom da série, passada na Terra-média. Gandalf (Ian McKellen) vai ao Condado dos hobbits para a festa de despedida de Bilbo (Ian Holm). Este tem um sobrinho, Frodo Bolseiro (Elijah Wood), amigo de Sam (Sean Astin). Gandalf acaba descobrindo que seu amigo carrega o anel do poder, ou seja, aquele que o possuir estará dominado pelas trevas e o desejo de poder. Ele pede que Frodo saia em jornada, com Sam – os quais, pelo caminho, encontram Pippin (Billy Boyd) e Merry (Dominic Monaghan) –, levando junto o anel, em direção ao vilarejo soturno de Bri, onde eles se encontram com Aragorn (Viggo Mortensen), que os ajuda a fugir de cavaleiros assustadores, em meio às árvores do Condado. Frodo entende, aos poucos, que sua missão não é tão simples quanto se imagina. Depois de um novo enfrentamento e serem salvos pela elfa Arwen (Liv Tyler), os hobbits vão para Valfenda, onde a sociedade do anel do subtítulo se reúne por meio da figura de Elrond (Hugo Weaving). Nela, há um elfo, Legolas (Orlando Bloom), um anão, Gimli (Rhyam-Davies), e Boromir (Sean Bean), que se integram à “sociedade do anel”, e o filme intensifica o poderio das imagens – constituindo o elo entre os três filmes. Eles precisam ajudar Frodo a chegar à Montanha da Perdição, em Mordor, onde o anel deverá ser destruído, em meio a provocações entre o anão e o elfo e o desequilíbrio de Boromir. Ao mesmo tempo, Gandalf precisa enfrentar Saruman (Cristopher Lee), que tem planos de seguir o Olho de Mordor, o qual deseja recuperar o anel. Saruman (Cristopher Lee) aprisiona Gandolf em Isengard, a princípio – depois de uma cena de embate em que os cajados representam a força de cada um –, mas logo é enfrentado.

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 3

O senhor dos anéis

Neste primeiro filme, além da apresentação dos personagens, há detalhes surpreendentes, sobretudo quando eles chegam às Minas de Moria. Deparando-se com um monstro submarinho com tentáculos, o grupo foge para dentro dessa caverna, sem saber que nela os espera algo pior e aterrorizador. Peter Jackson consegue emprestar a sequências magníficas um tom, ao mesmo tempo, de pesadelo e fantasia, sem nunca cair num excesso; pelo contrário, a cada desmoronamento de uma montanha ou a abertura de um chão repleto de escadarias, apesar de sua grandiosidade, é dado um aspecto fabular inesquecível e modificador também para a narrativa.
No segundo filme, As duas torres, Frodo e Sam, já separados do restante do grupo, continuam a ser seguidos por Gollum (numa atuação de Adam Serkins), dono anterior do anel, que não consegue ficar longe dele, ao qual chama de “precioso”. Ao mesmo tempo, vemos Aragorn, Gimli e Legolas atrás de Pippin e Merry, que foram levados por orcs. Sarumon quer destruir a Terra-média, no entanto sabemos que há as árvores da Floresta de Fangorn para impedi-lo. Nela, Merry e Pippin conhecem a Barbárvore, que pertence aos ents e é incitado a se revoltar contra Saruman, que está querendo destruir, por meio dos orcs, toda a vegetação para a construção de seu exército. No meio do caminho, Aragorn e seus amigos precisam salvar o Rei Theoden (Bernard Hill) de um feitiço de Saruman, preservado por Gríma Língua de Cobra (Brad Dourif), fazendo com que se desloquem todos para o Abismo de Helm. Ele é pai de Éowyn (Miranda Otto), que se apaixona por Aragorn. Porém, precisam enfrentar uma batalha imprevisível – com um desfecho impressionante. Há, como se vê, uma miscelânea de histórias, mas que Jackson consegue unificar com raro empenho, nunca permitindo que determinados personagens sumam de vista (mesmo que personagens como o de Galadriel, de Cate Blanchett, e de Elrond, de Weaving, sejam menos interessantes para o andamento).

O senhor dos anéis.As duas torres

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 2

Já Sam e Frodo, na continuação da viagem, precisam enfrentar Faramir (David Wenham), irmão de Boromir, interessado no destino do anel. Nessas sequências fantasiosas (em pântanos, sobrevoados pelos Cavaleiros Negros, e montanhas), vemos o maior potencial de O senhor dos anéis: o delírio de imagens, aliadas aos efeitos especiais, é forte o bastante para sustentar a atenção do espectador. A batalha do Abismo de Helm, por exemplo, apresenta-se antológica, fabulosa, sobretudo quando vemos a muralha desabar para a entrada assustadora dos orcs, debaixo da chuva, com os urros no meio da noite e luzes de tochas ao longe.
No terceiro filme, O retorno do rei, sabemos que Peter Jackson está desenhando um epílogo que deve estar de acordo com a série. Apresenta uma primeira hora um tanto devagar, com alguns traços românticos – entre Aragorn e a elfa –, para, então, ao mesmo tempo que acompanha a jornada de Frodo, Sam e Gollum, até a destruição do anel, vermos o que falta ainda ser resolvido, o que inclui uma batalha entre orcs e fantasmas, a loucura de Denethor (John Noble), pondo a Terra-média em risco, uma aranha gigante tentando enredar o personagem principal, a escalada na Montanha da Perdição passando em meio a tropas de orcs. Novamente, Jackson imprime uma montagem rápida, com talento especial para construir cenários fantásticos, e a verdade é que as versões estendidas – cada filme com vários minutos a mais, alguns se transformando em outros filmes, inclusive com peças mais bem-humoradas – são melhores do que as originais, o que impressiona, pois O senhor dos anéis, no original, já tem uma significativa extensão: mais de 9 horas no total. Peter Jackson tem uma tendência para a grandiosidade, o que ele viria a mostrar em King Kong, mas é ainda melhor quando se restringe a elementos básicos ao sucesso de um filme.

O senhor dos anéis 3

O senhor dos anéis.O retorno do rei

O cineasta é fiel às características de cada personagem, colocando Gollum como uma criatura de dupla face, assim como situando os dois lados da magia, nas figuras de Gandalf e Saruman. Gollum é apenas um ser levado pelos eventos e pela própria incapacidade de administrar o poder que o anel tem sobre ele, enquanto os dois magos são decisivos para a existência ou não da Terra-média. Por sua vez, Frodo é combativo e não se entrega ao objeto, mesmo que ele possa levá-lo a momentos de perigo, inclusive desconfiando de Sam. No entanto, é preciso, afinal, acreditar na amizade e não no anel. E assim o que poderia se transformar numa espécie de contemplação da fantasia forçada – vemos o elfo brigando sempre com o anão, para saber quem é o mais ágil; a amizade entre Frodo e Sam sem cair em pieguice; a alegria de Gandalf ao avistar os hobbits depois de muitas batalhas – transforma-se em referência.
O que torna O senhor dos anéis uma trilogia respeitável como a do primeiro Guerra nas estrelas é seu talento em humanizar personagens que poderiam ser vistos como estereótipos de um mundo mágico, imersos num cenário que poderia não parecer verdadeiro, contudo acontece o contrário, costurado pelos figurinos, uma fotografia sempre adequada e uma trilha musical esplêndida – como se Jackson tivesse visto, enfileirados, os clássicos de fantasia dos anos 80 e pretendido revitalizá-los com o olhar e a tecnologia contemporâneos. Jackson está interessado em ver o que há atrás dessas personagens, seus significados mais densos e suas preocupações com o que pode ser dito nas fábulas a serem contadas a partir de seus feitos (o que se corresponde com o próprio Tolkien). Por isso, vai apresentando e dando espaço um a um, aos poucos. Claro que as cenas de batalha são muitas e preenchem boa parte da trilogia, mas o aspecto humano nunca escapa às suas lentes, que procuram a dramaticidade mesmo nos momentos em que flechas e fogos disparam para todos os lados e espadas necessariamente se confrontam, em meio à violência da batalha. É claro, também, que sem o elenco de que dispunha não daria certo: McKellen faz um Gandalf antológico, assim como Morttensen um Aragorn sem exageros, apoiados nos momentos bem-humorados de Orlando Bloom e John Rhys-Davies e no cast juvenil dos hobbits (Sean Astin é um destaque, enquanto Elijah consegue mostrar um herói bastante pressionado pela situação, no tom certo), além das antológicas participações de Cristopher Lee e Bernard Hill. Se alguns do elenco não estão à altura (Hugo Leaving e Cate Blanchett), em momento algum prejudica.

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O retorno do rei.Série 2

Pois, se no início a vida dos hobbits é vista como tranquila, com tocas em meio a montanhas de verde e simpáticas a ponto de parecerem convidar a nossa visita, e os fogos de artifício se transformando em um dragão dão a medida exata dessa fantasia que se inicia, o mundo que se desvenda para os hobbits é muito mais perverso: depois de Valfenda, com suas belas paisagens, eles precisam enfrentar cavernas, vales imensos, sendo perseguidos por orcs, finalmente pântanos (com as imagens de almas), montanhas pouco convidativas e uma caverna habitada por uma aranha gigante. Todavia, esta jornada não é sem efeitos e sem recompensas: os hobbits sabem que estão crescendo em enfrentar tal caminho, e Jackson está interessado em mostrá-lo da maneira mais completa possível. O que poderia ser apenas uma saga para tentar vender mais livros se transforma numa antologia cinematográfica. Peter Jackson entrega uma trilogia clássica, como poucas que conhecemos.

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Tim Sanders, Barrie M. Osborne Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 178 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Two Towers, EUA/Nova Zelândia, 2002 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Brad Dourif, Miranda Otto, Bernard Hill Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Tim Sanders Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 179 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Dourif (versão extendida), Christopher Lee (versão extendida) Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 201 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas