Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

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Thor: Ragnarok (2017)

Por André Dick

O terceiro filme da Marvel/Disney este ano, depois de Guardiões da galáxia Vol. 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar, traz de volta o personagem Thor, o Deus do Trovão, tendo atrás das câmeras Taika Waititi. Se o humor e a ação funcionavam realmente nesses dois filmes, a expectativa era que funcionasse ainda mais no principal (pelo menos em termos de chamariz) deles. O diretor se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade. Em seguida, ele fez Hunt for the wilderpeople, conhecido no Brasil como A incrível aventura de Rick Baker ou Fuga para a liberdade. Se O que fazemos nas sombras tinha uma produção modesta, o segundo possuía uma fotografia extraordinária, com uma sucessão de gags interessante em meio a um drama familiar, influenciado por Wes Anderson, a mesma referência em Loucos por nada, filme de Waititi de uma década atrás.

Thor: Ragnarok, pelos prognósticos, se tornaria aquilo que impediram Homem-Formiga de ser: um filme autoral, por causa justamente de Waititi. Ele mostra Thor (Chris Hemsworth) precisando salvar Asgard de uma nova e terrível ameaça, Hela (Cate Blanchett). Ao lado do irmão, Loki (Tom Hiddleston), ele tem um breve encontro com outro personagem conhecido da Marvel, antes de se depararem com o pai, Odin (Anthony Hopkins). Thor vai parar no planeta de Sakaar, onde vira prisioneiro de Valquíria (Tessa Thompson), sempre uma dose etílica acima do esperado, que o entrega ao Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Esta parte do filme é a que melhor funciona, com Taika Waititi apresentando diálogos ágeis e situações cômicas no ponto exato, brincando com a cultura nórdica e a mitologia de Asgard (além da participação especialíssima, e engraçada, de um ator conhecido na reprodução de uma peça teatral), e tanto Hemsworth quanto Goldblum se destacam, além de Thompson valer cada cena em que aparece.
Em 2011, Thor teve uma transposição assinada por Kenneth Branagh, mais conhecido por suas adaptações para o cinema de obras de Shakespeare. Era este justamente o diferencial dessa produção: o herói dos quadrinhos tem, em grande parte, uma profusão de diálogos que lembram uma peça de teatro, mas sem cair no forçado ou pretensioso. Branagh mesclava a comédia com drama nos pontos certos, principalmente quando o herói cai numa cidade do deserto do Novo México, encontrando um grupo de cientistas, liderado por Jane Foster (Natalie Portman), ajudada por Darcy Lewis (Kat Dennings) e pelo Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), ausentes dessa continuação.

Havia sequências bastante divertidas, como a de Thor experimentando comida numa lanchonete ou as pessoas desconfiadas de seu figurino. A direção de arte de Bob Ringwood (o mesmo que fez os cenários de Batman – O retorno e Edward, mãos de tesoura, para Tim Burton) misturava o tom do deserto com a profusão de cores de Asgard, lembrando um pouco os anos 80, sobretudo na ponte multicolorida, com as galáxias ao fundo. Estranhamente, este filme de Branagh foi rechaçado em geral pelo público e recebido com certa indiferença pela crítica. Mais ainda: entende-se que ele não teria o bom humor agora utilizado.
Talvez porque Waititi esteja com mais nome do que Branagh se tenha criado o fato de que Thor: Ragnarok em algum momento está à altura de uma sátira à space opera como sua principal influência, Flash Gordon, dos anos 80, e que seu visual traga algo de espetacular. “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, um diálogo com a trilha do Queen para a obra de Mike Hodges, funciona, assim como as cores são fiéis aos quadrinhos, com o auxílio da fotografia de Javier Aguirresarobe. Porém, não há comparação no resultado. Mesmo o segundo filme, Thor – O mundo sombrio, possuía um design de produção mais interessante, assim como um humor bem explorado no seu ato final. Aqui, Waititi se concentra muito em objetos com superfície real e amontoados de coisas que lembram restos de sucata, por causa do planeta que serve de locação principal. Para quem fez filmes com direção de arte irretocável como Hunt for the wilderpeole e Loucos por nada, poderia ser melhor. O figurino se sente criativo, mas leve demais e com pouca diversidade, assim como as batalhas de naves se assemelham em demasia às do segundo filme para ter uma real distinção e todo o arsenal de raios de luz se sente um pouco exagerado, mesmo sendo esta a finalidade, quando, na verdade, o roteiro funciona melhor em sua simplicidade: um dos personagens se comparar a Tony Stark é uma boa referência ao restante do universo e não se sente ultrajante, e uma torcida desfilando pelas ruas de Sakaar com cartazes de um determinado super-herói é suficientemente criativo.

Além disso, Waititi interrompe dois atos de comédia leve e calibrada, sua especialidade, e repassa suas cargas para um filme previsível de ação (com montagem confusa), tentando dar dramaticidade para a qual não havia despertado anteriormente. É difícil, mesmo que seja esta a pretensão, adentrar no drama depois de dois atos dedicados, de forma promissora, a uma sucessão de sequências divertidas e diálogos com duplo sentido (e a verve de Hemsworth já foi provada nas refilmagens de Férias frustradas e Caça-fantasmas). A graça da narrativa era justamente desconsiderar a pompa shakesperiana oferecida por Branagh, mesmo com bom humor em determinados trechos, e fazer uma sátira espacial. O roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost insere o personagem de Bruce Banner (Mark Ruffalo) e, consequentemente, de Hulk de forma desajeitada. Funciona num primeiro momento, mas no final se sente vazio, como se fosse apenas um espaço para um personagem que não aparecia desde Os vingadores – Era de Ultron. Cate Blanchett tem um ótimo início e seu papel dá a entender que teremos uma vilã inesquecível, junto com o comandado Skurge (Karl Urban). No entanto, algo se perde, e as cenas de ambos se tornam muito distantes do restante da história. Thor: Ragnarok sofre um conflito inevitável, que leva a um impasse capaz de transformá-lo no que não era em seus dois primeiros atos, pela tentativa de Waititi em explorar novas nuances desse universo: uma obra até determinado ponto comum.

Thor: Ragnarok, EUA, 2017 Diretor: Taika Waititi Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Cristopher Yost Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Kevin Feige Duração: 130 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Caça-fantasmas (2016)

Por André Dick

Caça-fantasmas 18

Um dos filmes que mais dividiram o público e a crítica este ano foi sem dúvida a refilmagem (ou seria continuação?) de Os caça-fantasmas (1984) e Os caça-fantasmas 2  (1989), ambos de Ivan Reitman, aqui atuando como produtor. Caça-fantasmas (excluindo o artigo) aponta uma reunião da equipe de Missão madrinha de casamento: o diretor Paul Feig com Kristen Wiig e Melissa McCarthy, com o acréscimo de Leslie Jones e Katie McKinnon, ambas do Saturday Night Live (programa no qual surgiu Wiig) e Chris Hemsworth.
Lidar com adaptações de filmes dos anos 80 para os dias atuais é mexer com um nicho dedicado de fãs. Um exemplo é aquele que aconteceu com José Padilha, até hoje não perdoado pela sua refilmagem de RoboCop (aliás, de excelente qualidade). Entende-se por que esses filmes tem cultuadores e seguidores: eles ajudaram a lançar o universo da fantasia no cinema. Mas Os caça-fantasmas, como RoboCop, não são obras intocáveis e irretocáveis: eles possuem qualidades, assim como falhas que podem ser encobertas pela nostalgia.
E mesmo a continuação de Os caça-fantasmas havia sido recebida de maneira pouco entusiasmada cinco anos depois do primeiro, embora ainda tenha bons momentos e soluções inteligentes para a narrativa, e Evolução, também de Ivan Reitman, que tentara repetir seu sucesso e sua fórmula, foi um fracasso na carreira de David Duchovny e Julianne Moore. De qualquer modo, de forma previsível, antes do lançamento de Caça-fantasmas, já havia acusações ao fato de o grupo antigo constituído apenas por homens ser substituído por um de mulheres e se apontou que o filme seria feminista.

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Obviamente, se há feminismo em Caça-fantasmas é pelo fato de ser protagonizado por atrizes, de grande qualidade. Ou seja, os comentários misóginos injustificados antes do lançamento apenas mostram não entender que um filme se trata, antes de tudo, de arte. As pesquisadoras de física Erin Gilbert (Wiig) e Abby Yates (McCarthy) escreveram um livro sobre fantasmas. No entanto, Gilbert não deseja ser conhecida como tal e concorre a uma vaga de professora na Universidade de Columbia, onde é procurada por Ed Mulgrave (Ed Begley Jr.), responsável por uma antiga mansão, depois que um de seus guias (Zack Woods) é perseguido por uma aparição assustadora. Já Yates continua suas pesquisas, com a ajuda da engenheira Dra. Jillian Holtzmann (McKinnon). Diante de um caso em que é irrecusável acreditar na presença de um espectro, as duas voltam a ficar amigas e se unem para fundar um grupo de caça-fantasmas, tendo como recepcionista Kevin Beckman (Hemsworth). De homens preparados para enfrentar o sobrenatural, a presença masculina nesta nova versão é vista como despretensiosa e que apenas serve para as mulheres ficarem em constante provocação (no original, Annie Potts interpretava a sarcástica secretária).
No metrô da cidade, em uma referência ao segundo filme, mas também a Alucinações do passado e Ghost, a guichê Patty Tolan (Jones), determinado dia, vê um fantasma ameaçador e procura a ajuda do grupo. Claro que muitos não acreditam nas cientistas excêntricas, a começar pelo Dr. Martin Heiss (um ex-caça-fantasmas em participação discreta), e o prefeito Bradley (Andy Garcia) pretende evitar que a história se espalhe e não assuste a população, com a ajuda da assessora Jennifer Lynch (Cecily Strong, também do Saturday Night Live) e de dois agentes, Hawkins (Michael Kenneth Williams) e Rourke (Matt Walsh).  Tudo parece ser o plano de alguém desconhecido? Haverá uma nova versão para o personagem de Rick Moranis, do original? Um determinado fantasma glutão irá reaparecer?

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O roteiro de Feig em parceria com Katie Dippold, sua parceira também em As bem-armadas e A espiã que sabia de menos, não tem a naturalidade dos roteiros originais dos anos 80, mas nem por isso deixa de apresentar algumas gags muito boas, com destaques para uma no metrô e outra num show de rock. Sempre quando a ação se concentra em mostrar a ligação entre a equipe, o filme cresce, e Wiig (que certamente poderia ter colaborado no roteiro, área em que mostrou talento em Missão madrinha de casamento, pelo qual foi indicada ao Oscar) e McCarthy novamente formam uma boa dupla, com bons momentos especialmente para a primeira, uma atriz que consegue alternar drama e humor de maneira particular. Ainda assim, é McKinnon que realmente se destaca como a engenheira esquisita do grupo, com olhar esbugalhado e comportamento errático, assim como Hemsworth, como já havia mostrado na refilmagem de Férias frustradas, não tem receio de se expor ao ridículo. Ele é um humorista surpreendentemente versátil, e talvez se dê melhor neste gênero do que em seus filmes com Ron Howard, nos quais também se sai muito bem.
Esse elenco não empalidece em relação ao original, nos quais tínhamos Harold Ramis, Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson, além de Sigourney Weaver e Rick Moranis, em grande fase. E tinha como chamariz a canção-título, extremamente exitosa, composta por Ray Parker Jr., reaparecendo numa nova versão neste filme (embora nem precisasse). Se o mais novo é ligeiramente inferior é porque, de fato, não apresenta, como o primeiro, uma ideia original, baseada principalmente no sucesso, à época, dois anos antes, de Poltergeist e que anos depois inspiraria Os fantasmas se divertem, de Tim Burton, que aqui ganha uma homenagem mais ao final. Lembremos nisso do mais recente Star Wars e se perceberá que originalidade pode se converter em homenagem mesmo nas mãos de um grande diretor (Abrams).

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Tecnicamente, o novo Caça-fantasmas igualmente não fica a dever para o antigo, partindo da bela fotografia de Robert Yeoman (colaborador de Wes Anderson), que consegue tornar algumas cenas mais assustadoras do que no original, com jogo de sombras e luzes, com efeitos visuais de ponta (no original, Richard Edlund foi indicado ao Oscar pelo trabalho). Feig, como em A espiã que sabia de menos, mostra talento na mescla de gêneros e desta vez não deixa o ritmo diminuir depois de uma meia hora inicial especialmente bem trabalhada, mantendo-se mais perto do que apresenta em seu ágil Missão madrinha de casamento, particularmente uma das maiores comédias dos últimos dez anos.
Diante da bilheteria (faturamento até agora de 194 milhões de dólares para orçamento de 144), é difícil prever a continuação da franquia, o que se deve realmente ao hype contrário antes do lançamento. O que se vê é que o diretor e as atrizes respeitam o legado do original e em nenhum momento se colocam como substitutas definitivas de uma equipe clássica. Talvez onde o filme mais falhe seja quando tenta repetir detalhes do original, a partir do terceiro ato, em que os efeitos digitais se sobrepõem à química entre as atrizes e as piadas de grupo dão espaço a raios de luz e combate contra os fantasmas que podem tomar Nova York, assim como no original, e algumas participações especiais soem encaixadas demais na trama. Ou seja, quando realmente apresenta elementos novos, Caça-fantasmas é um alívio cômico bastante interessante: quando ingressa na tentativa de ser uma refilmagem, não tanto, ainda que seus confrontos entre humanos e fantasmas sejam em grande parte apresentados de maneira mais interessante do que nos originais.

Ghostbusters, EUA, 2016 Diretor: Paul Feig Elenco: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon, Leslie Jones, Chris Hemsworth, Charles Dance, Michael Kenneth Williams, Matt Walsh, Neil Casey, Cecily Strong, Karan Soni, Ed Begley Jr. Roteiro: Katie Dippold, Paul Feig Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Amy Pascal, Ivan Reitman Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Pascal Pictures / Sony Pictures Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

No coração do mar (2015)

Por André Dick

No coração do mar 18

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de Splash, Cocoon, Willow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da Vinci, O Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repete em No coração do mar, o filme sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.
Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti, Howard apresenta a história de Thomas Nickerson (Breendan Gleeson), casado com (Michelle Fairley) que recebe, num momento de depressão e financeiramente difícil, o escritor Herman Melville (Ben Wishaw, fazendo ecoar seu papel em Cloud Atlas) para contar a história do baleeiro Essex, que partiu em viagem nos anos 1850 da cidade de Nantucket. Ou seja, o filme não é uma adaptação direta de Moby Dick, livro de Melville que serviu de referência para outros inúmeros livros ou filmes sobre o confronto entre homens e animais (do mar ou da terra).

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Em torno de três décadas antes, Nickerson (agora Tom Holland) fazia parte desse baleeiro, sob o comando de George Pollard (Benjamin Walker, excelente), um capitão inexperiente que recebe o confronto direto de Owen Chase (Hemsworth), cujo melhor amigo, Matthew Joy (Cillian Murphy), se encontra a bordo, e muito mais tarimbado nas funções que precisa exercer em alto-mar. No entanto, eles precisam entrar em acordo para que o serviço seja bem feito e possam voltar com bastante especiaria de baleia para terra. Alguns meses mais tarde, eles percebem que quase não há baleias, indo parar no Equador, onde são alertados sobre uma determinada cachalote branca. Isso é o ponto de partida para a história de Melville, que já se tornou conhecida, por meio de seu capitão Ahab, que enfrenta a cachalote em alto-mar. Escusado será dizer que o barco Essex será perseguido como se houvesse um embate contra outro ser humano, plenamente consciente de que deve se vingar. Esse é o mote dessa grande história.
Por meio de uma fotografia excelente de Anthony Dod Mantle, já responsável pelas tomadas de corrida de Rush, que concede ao filme uma textura de filme antigo, mais propriamente dos anos 50. No coração do mar cresce ainda mais por causa de sua imponência na parte de efeitos especiais e efeitos sonoros. São notáveis as sequências de perseguição da baleia ao Essex, e este é construído de maneira verossímil. Há algumas alternativas previsíveis na narrativa de Howard, mas em nenhum momento o filme se apresenta como montado às pressas como costuma acontecer com grande parte dos blockbusters: ele tem uma grande proximidade com fatos que poderiam a princípio chocar não fossem símbolos exaustivos de como pode uma sobrevivência se antecipar à vida, assim como o referencial Invencível.

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Também é notável a reconstituição de época (junto com os figurinos), mesmo que em alguns momentos haja uma determinada aparência falsa no conjunto; no entanto, parece-me proposital, por Howard exatamente querer recuperar o clima de cinema antigo já constatado na fotografia de Dod Mantle. Não são raras as vezes em que imaginamos assistir a um filme clássico, cujo relevo lembra um álbum antigo. A obra de Howard se sente como um grande painel de época, variado e profuso – e determinadas sequências possuem uma beleza plástica poucas vezes vistas no cinema. Em alguns momentos, há diálogos com a maneira como Peter Jackson filmou as cenas em alto-mar no seu King Kong, em outros, como já apontado, Howard convoca elementos do documentário Leviathan, principalmente ao mostrar o voo de gaivotas, e há um eficiente uso das cores vermelhas (da violência contra a baleia) e verdes (do mar e dos olhos dos personagens e da própria cachalote). Howard sempre esteve muito interessado no tema da viagem e do confronto do homem com seus próprios limites, como em Apollo 13, Um sonho distante ou mesmo na fantasia Willow. Em Uma mente brilhante e A luta pela esperança, Russell Crowe representava homens lutando contra suas possibilidades e impossibilidades, e nesse sentido Owen Chase é um típico personagem de sua filmografia.

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Na verdade, se aqui Howard consegue extrair interpretações competentes do elenco, como de praxe, ele se esmera ainda mais em se aproximar de um lado mais grave: o ser humano em busca de uma temporada de caça acaba se voltando contra si próprio para sobrevivência. Howard consegue indicar esse desespero humano, sobretudo ao mostrar como os homens do baleeiro faziam para extrair as especiarias e depois o que devem fazer para se manterem vivos.
Hemsworth tem se mostrado um dos astros mais interessantes desde seu surgimento em Star Trek e Os vingadores. Em No coração do mar, mais uma vez ele revela uma emoção que consegue captar seu susto diante da situação de enfrentar um mistério da natureza querendo destruir a navegação da qual faz parte. Ele faz parte de um ótimo elenco de apoio, incluindo Whishaw, Gleeson e Cillian Murphy. Holland, o próximo Homem-Aranha, tem uma participação não exagerada e competente o suficiente para tornar seu personagem como a continuação de uma linhagem de baleeiros.

In the heart of the sea, EUA, 2015 Diretor: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Tom Holland, Cillian Murphy, Michelle Fairley Roteiro: Charles Leavitt Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Brian Grazer, Edward Zwick, Joe Roth, Paula Weinstein, Will Ward Duração: 121 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Cott Productions / Enelmar Productions, A.I.E. / Imagine Entertainment / Roth Films / Spring Creek Productions / Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 4 estrelas

Hacker (2015)

Por André Dick

Hacker.Resenha

Se por um lado o diretor Michael Mann às vezes é cultuado por filmes que não chegam a me surpreender, como Fogo contra fogo e Colateral, por outro ele é recebido de maneira negativa pelo público e pela crítica. É o exemplo de Hacker, um grande fracasso nos Estados Unidos e que não chegou a estrear no Brasil (evitando se juntar com os grandes lançamentos que aportam no país às quinta-feiras). Estou longe de ser defensor de Mann, mas realmente gostei muito de Miami Vice e, principalmente, Inimigos públicos, seus filmes anteriores, com uma atmosfera impressionante, entendendo-se de antemão que ele vem se apropriando de um determinado tipo de narrativa em que o roteiro não fica muito claro em termos de construção e os personagens são definidos com poucas linhas de diálogo. Mann, de certo modo, opta pelo movimento, em que os personagens embarcam sem uma linha prévia de comportamento. Ao final de algumas obras de Mann, não é raro termos pouca certeza das características emocionais dos personagens, principalmente em Miami Vice, quando todas as ações parecem se misturar com o movimento da investigação e não há parada a fim de que conheçamos cada um deles.
No início de Hacker, uma usina nuclear em Wan Chai, Hong Kong, teve suas bombas de refrigeração detonadas, depois de um superaquecimento, por um hacker.Um oficial militar, o capitão Chen Dawai (Leehom Wang), toma o caso e convoca sua irmã Chen Lien (Tang Wei), que trabalha como engenheira de rede. A eles se junta a agente do FBI Carol Barrett (Viola Davis) em Los Angeles, acompanhada por Henry Pollack (John Ortiz) e Mark Jessup (Holt McCallany). A ferramenta utilizada no ataque foi feita por Chen e seu colega de faculdade Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth), que se encontra na prisão. Dawai pede que o FBI consiga a liberação de Hathaway, a fim de que ele possa ajudar no caso.

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Daí em diante, o caso se expande para vários lugares: em Hong Kong, a equipe liderada por Carol e Chen tenta chegar a Kassar (Ritchie Coster), um paramilitar, no entanto tudo pode esconder novas armadilhas para que não seja identificada a origem do ataque. Esta sequência é, particularmente, a mais acertada do filme, colocando o espectador no centro da ação, e antecipa aquela um pouco anterior à finalização. Os superiores de Dawai, da China, não querem se colocar contra os Estados Unidos, a partir de determinado momento, pois surgem ordens de se deter Hathaway. Este acaba, com Dawai e Lien, fazendo planos de deixar Hong Kong, quando são atacados novamente por Kassar.
O roteiro é fácil de ser solucionado, mas realmente não é possível conectar este filme com uma recepção negativa. Se há um Wong Kar-Wai da espionagem, pode ser encontrado neste filme, em que Mann eleva o suspense, a ação e o gênero policial ao status de arte (independente do exagero disso). Mann se mostra cada vez mais claramente um artesão, com um senso de filmagem poucas vezes visto em outros nomes antes dele e de sua geração. Suas obras sempre foram visualmente belíssimas, como O último dos moicanos e Ali, porém em alguns aspectos essa maravilha de percepção não se fechava com a emoção do que mostrava; muitas vezes, os personagens de Mann são excessivamente vagos. E o roteiro às vezes se constitui num esboço em que as imagens vão acrescentado o verdadeiro significado. Este talvez seja uma das características de Hacker, com Hathaway, Chen e Dawai sendo quase símbolos: o assaltante a bancos, o agente e sua irmã como interesse amoroso.

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No entanto, quando se reclama de um roteiro depois de um filme como Mad Max: Estrada da Fúria, realmente é de desconectar os chips e bits: Hacker não se importa de forma exagerada com o roteiro porque é uma perseguição incessante. Ainda assim, em meio a essa perseguição, Mann consegue revelar a humanidade de seus personagens – muito por causa de Hemsworth e Wi Tang, além de mostrar novamente um grande talento em filmar tiroteios, empregando uma realidade nessas ações incomum a outras obras de Hollywood. Esses personagens são ajudados pelo elenco, claramente funcional dentro do que Mann pretende – e Viola Davis, mais uma vez, se mostra uma atriz à altura da empreitada.
Por trás desses personagens e dessa linha de ação envolvendo o universo do poder da informática sobre as transformações suscetíveis no mundo, o filme de Mann se mostra extremamente feliz em atenuar a violência do universo contemporâneo por uma beleza de visão que fixa a tranquilidade de paisagens orientais e as cores alternando entre o verde e o vermelho dos neons noturnos e das luzes piscando quando se vê as cidades de maneira tão ampla. Por outro lado, o filme também encadeia sequências de imagens que remetem a uma espécie de labirinto de concreto, principalmente nas sequências em que os federais estão atrás de Nicholas, e as ruas enevoadas de fumaça de comida de Hong Kong.

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Trata-se, sem dúvida, de uma visão autoral, e ela atinge também o personagem de Hathaway, que se situa entre a ilegalidade e a tentativa real de dar sustentação a um objetivo que é atingir um criminoso. No filme imediatamente anterior de Mann, Inimigos públicos, o vilão, feito por Johnny Deep, tinha uma presença maior (acompanhada de seu romance) do que o herói, feito por Christian Bale. Os personagens aqui podem ameaçar o mundo diante de uma tela de computador, no entanto Mann é um autor perspicaz o bastante para mostrar que não há ingenuidade e que as relações humanas, se não acertadas, podem desencadear uma cadeia de terrorismo inescapável, o que já se mostrava em Miami Vice com sua temática de tráfico de drogas. Hathaway inicia o filme lendo Foucault na cela em que se encontra e pode ser que o governo que o segue, assim como a operação para a qual presta o serviço, tanto sirva sua condição quanto o puna.
Hacker também apresenta elementos que lembram Boarding gate, um dos melhores filmes de Olivier Assayas (e paradoxalmente o mais criticado) e uma fotografia espetacular de Stuart Dryburgh. Cada enquadramento de Hacker é um quadro de cores. Que este filme apanhe pessoas dormindo, é algo a se lamentar, pois está distante da maior parte do cinema moderno e das estreias que chegam no país às quinta-feiras.

Blackhat, EUA, 2015 Direção: Michael Mann Elenco: Chris Hemsworth, Leehom Wang, Wei Tang, Viola Davis, John Ortiz, Ritchie Coster, Yorick van Wageningen, Holt McCallany Roteiro: Morgan Davis Foehl Fotografia: Stuart Dryburgh Trilha Sonora: Atticus Ross, Harry Gregson-Williams, Leopold Ross Produção: Jon Jashni, Michael Mann, Thomas Tull Duração: 133 min. Distribuidora: Universal Pictures mEstúdio: Forward Pass / Legendary Pictures

Cotação 5 estrelas

Vingadores – Era de Ultron (2015)

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Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

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Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

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Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

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Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

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Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Os vingadores (2012)

Por André Dick

Os vingadores.Filmes 3Embora Os vingadores seja uma criação de Stan Lee, nesta adaptação para o cinema Joss Whedon conseguiu confeccionar uma espécie de imaginário para o que se restringe, sob certo ponto de vista mais apressado, a um universo em que os super-heróis Thor, Capitão América, Hulk e Homem de Ferro pretendem salvar a Terra de terríveis ameaças. Em seus filmes isolados, Thor e Capitão América tinham certas qualidades – embora nunca totalmente viabilizadas, apesar de seus diretores Kenneth Branagh e Joe Johnston –, Hulk, nem tanto, enquanto Homem de Ferro certamente se destacava, pela interpretação de Robert Downey Jr. Foi preciso que Joss Whedon, um dos criadores de Buffy e um dos roteiristas de Toy Story, conseguisse dar uma unidade a eles. A dificuldade seria justamente esta: reunir tantas figuras no mesmo espaço e ainda dar uma certa importância determinada a cada uma (daqui em diante, spoilers).
Locki vem de novo do planeta Asgard, a fim de roubar o Tesseract, um aparelho capaz de colocar a Terra em polvorosa e permitir uma invasão alienígena. Diante de armamentos militares, Locki, já no início, interrompe qualquer chance de defesa, trazendo para o seu lado o cientista Erik Selvig (Stellan Skarsgård) e Clint Barton, o arqueiro (Jeremy Renner), e se movimenta sobre uma caminhonete para um deserto, perseguido pelo helicóptero de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Ele escapa. Para detê-lo, é preciso uma medida mais urgente: a convocação de heróis que possam eliminar qualquer ameaça à integridade das pessoas. Não só à integridade: Locki é interpretado com um misto de caricatura e ódio por Tom Hiddleston (ótimo ator, como comprova também em Amor profundo), cujo desejo é fazer os outros se ajoelharem diante dele, quase como o trio que persegue o homem de aço em Superman II.

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Há sequências não leves, mas a apresentação de cada personagem, ou a simples retomada de episódios anteriores de cada herói, traz humor, incluindo-se, aqui, a presença de Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson). Ela, depois de um encontro com gângsteres, no qual usa os pés da cadeira como arma de combate, precisa ir à Índia e convocar o Dr. Banner para a batalha e quando este se transforma, sabe-se, vira Hulk. Quando Locki é capturado, Thor surge no ar, mas logo entra em atrito com o Homem de Ferro. Brigando, caem em meio a árvores de uma montanha. Stark, o Homem de Ferro, lhe pergunta: “O que é isso? Shakespeare no parque?” (certamente Muito barulho por nada).
Todos são levados para um porta-aviões, também uma espécie de nave espacial, para onde se leva Locki quando ele é preso. O Homem de Ferro dá choques no braço de Dr. Banner com o intuito de ver a fera; quando se dão por conta, fazem parte do plano de Locki em destruí-los. Há um fã desses heróis, principalmente de Steve Rogers, o Capitão América, que trabalha para Nick Fury, Philip Coulson (Clark Gregg), que guarda as cartas de cada um como se quisesse reprisar a infância. “O uniforme não é antiquado?”, pergunta Steve sobre o uniforme do herói que encarna. “Talvez seja o que as pessoas esperam”, lhe responde Phillip. No entanto, Whedon, em meio aos subterfúgios do roteiro, consegue amplificar um cenário de guerra: o porta-aviões se transforma num palco para os confrontos desastrados dos heróis com Locki, ou entre eles mesmos, desentendendo-se. Não há nada tão espetacular assim no cinema recente e amplificado, sonoramente, em todos os níveis, ao som da trilha de Alan Silvestri, uma espécie de mistura entre seus trabalhos de De volta para o futuro e Forrest Gump. A destruição não chega a ser gratuita, mas é pomposa, e Whedon acelera os níveis de ação em cada herói que traz à cena para a grade de duelo e, em seguida, tenta guiá-los para um caminho mais afeito a defenderem em conjunto a Terra.

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Os vingadores se ressente de ser um filme bastante específico em suas partes: início (apresentação dos heróis), meio (todos no porta-avião) e fim (a ida para Nova York), mas há abrigado nessa estrutura previsível um filme bastante divertido e mais equilibrado do que aparenta. Há um uso frequente de CGI e montagem frenética, demorando a criar um corpo próprio, em razão de uma determinada direção de arte apressada e pela própria inclusão de vários heróis, com alguns personagens sendo relegados necessariamente a segundo plano (uma esposa de Stark, Gwyneth Palthrow, isolada do marido; um arqueiro na pele de um ator sem carisma, Renner), mas ainda assim formando uma coesão nos momentos de luta e enfrentamento. Há detalhes que impactam (a descida de Thor por força de Loki) e divertidíssimas (o expressivo e imprevisível Harry Dean Stanton tenta acordar Banner do meio de escombros, perguntando se ele tem algum tipo de problema), ao mesmo tempo em que o mote – uma invasão alienígena a partir dos arranha-céus de Nova York – é previsível, embora nem por isso menos espetacular, lembrando dragões gigantes de Chinatown planando sobre toda a cidade.
Whedon é um diretor com referências pop, mas que não consegue ainda não consegue elaborar a narrativa de forma mais expansiva, ainda preso a referências externas (dos outros filmes da série). É interessante que ele tenha dirigido recentemente sua pontaria para Spielberg e Lucas, falando de piadas autorreferentes de Indiana Jones e o templo da perdição e do final inconcluso de O império contra-ataca, quando ele deve sua formação a esses nomes. Mas isso possivelmente aconteceu pelas conferências de Spielberg e Lucas, este também, de forma indireta, dentro da Walt Disney, não reconhecendo uma nova geração, além do nome de J.J. Abrams. Whedon tem em seu currículo o roteiro de Toy Story e ajudou a criar a série Buffy, mas suas contribuições de roteiro para O segredo da cabana e Alien – A ressurreição (que ajudou a terminar com a primeira franquia) são bastante problemáticas, embora Muito barulho por nada seja uma curiosidade entre as adaptações de Shakespeare e sua ideia de lançar o filme In your eyes, do qual é autor do roteiro, também via internet certamente terá influência.

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Os vingadores confere por meio de sua trama, uma espécie de alma aos quadrinhos, ao contrário das maquetes militarizadas de Transformers, e uma espécie de reminiscência do que foi Superman um dia, não em sua versão de 2006, mas numa tentativa de volta aos tempos primordiais de tranquilidade, sem contar as rotações que devem ser feitas ao redor da Terra para que tudo volte a como era antes. Isso se deve ao elenco que faz os heróis. Robert Downey Jr., Mark Ruffalo e Chris Hemsworth são atores que conseguem expressar uma espécie de dramaticidade contida em meio a uma sucessão de explosões, enquanto Johansson, com sua limitação já conhecida (pelo menos antes de Ela), consegue, de determinado modo, mostrar uma espécie de mescla entre receio e bravura, quando precisa, afinal, se deparar com Hulk. Se Evans, na pele de Capitão América, consegue transparecer um homem dos anos 40 congelado para enfrentar os dias presentes, o melhor nome para reuni-los é, sem dúvida, Samuel L. Jackson, com sua presença cênica entre o trágico e o cômico, mas sem decepcionar o espectador.
Diante desses personagens, o filme de Whedon se constitui numa espécie de retomada de um instinto humano de sobrevivência e de crença na fantasia, como lembra Coulson em determinado momento. Parece ser, basicamente, em meio ao roteiro com poucos diálogos, uma síntese da hora final, com direito até à participação de Stan Lee, disfarçado em meio a pessoas, ou um refúgio para os heróis num lugar a ser reconstruído, para que, finalmente, os super-heróis possam se reunir numa taverna em que os donos recolhem os escombros da guerra.

The avengers, EUA, 2012 Diretor: Joss Whedon Elenco:Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Evans, Samuel L. Jackson, Jeremy Renner, Stellan Skarsgård, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Tom Hiddleston, Paul Bettany (voz), Amanda Righetti, Lou Ferrigno (voz), Clark Gregg, Jenny Agutter, Walter Perez, Alicia Sixtos, Evan Kole, Sean Meehan, Carmen Dee HarrisRoteiro: Joss Whedon Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora:Alan Silvestri  Produção:Kevin Feige Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

 

Rush – No limite da emoção (2013)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard sempre foi visto como um diretor sem marca autoral, ao qual estúdios recorrem quando querem alguma competência e o mínimo de riscos. Dos anos 80, quando dirigiu filmes que até hoje servem como referência do gênero fantasia (Splash, Cocoon e Willow) e uma bela comédia familiar (O tiro que não saiu pela culatra), ele passou os anos 90 com um interessante filme sobre a rotina dos bombeiros (Cortina de fogo) e a tentativa de fazer uma espécie de Rede de intrigas mais acessível (O jornal), até ter conseguido respeito com Apollo 13 e, já nos anos 2000, ganhar o Oscar por Uma mente brilhante. Embora não se saiba como ele fez projetos como O Código Da Vinci e O grinch, também realizou os subestimados A luta pela esperança e Frost/Nixon e, mais uma vez com roteiro de Peter Morgan, se recupera com seu novo filme, mostrando competência como diretor de atores. Dificilmente veremos más interpretações nos filmes de Howard, e não é diferente em Rush – No limite da emoção. Também dificilmente veremos uma montagem precária e um trabalho técnico sem cuidado. Embora pareça que o cinema tem mostrado um aperfeiçoamento nesse campo, não significa que se consiga mesclar a ele uma genuína emoção. Quando acerta, Howard consegue, e com aguçado senso de humor.
Rush inicia (daqui em diante, pequenos spoilers) mostrando o duelo entre Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) já nos bastidores da F3, em 1970, quando Hunt o prejudica para poder vencê-lo. Depois de se desentender com o pai, Lauda busca um patrocinador para que possa disputar a Fórmula 1 e mostra seu talento também como técnico, apontando mudanças no carro para que ele tenha mais velocidade na pista. Hunt, por sua vez, recebe o apoio do milionário Lord Hesketh (Christian McKay). Desajeitado com as mulheres, ao contrário de Hunt, Lauda conhece Marlene Knaus (Alexandra Maria Lara), enquanto seu rival se casa com Suzy Miller (Olivia Wilde), que chegará mais tarde a Hollywood. Howard vai mostrando essa passagem do tempo e esses relacionamentos de maneira interessante, sem sobrecarregar a montagem ou as etapas.

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Pelo contrário, Howard consegue criar um paralelo entre esses corredores, sem prejudicar um ou outro, nem tornar este vínculo criado pela rivalidade em algo exagerado. Com os diálogos de Peter Morgan, que ao mesmo tempo soam despretensiosos e ágeis, Rush se estrutura em sua montagem praticamente perfeita, sem sobras, sobretudo quando passa a mostrar as corridas do campeonato de 1976, quando Lauda e Hunt entraram em disputa direta pelo título, pois ambos possuíam carros sofisticados. São essas corridas, criando uma ligação direta com acontecimentos pessoais, que tornam Rush num filme cujo tema – o desafio à morte, a tentativa de superar as limitações como esportista – ressoa uma emoção baseada nas imagens e no embate entre figuras, não na tentativa de o diretor soar mais complexo à medida que a trama avança. Neste caso, a narrativa tem êxito quando trabalha os conflitos e o sentimento despertado pelo receio de não conseguir chegar ao objetivo final.
Com uma fotografia notável de Anthony Dod Mantle, captando bem a atmosfera dos anos 1970, das corridas, inclusive das arquibancadas dos autódromos, assim como o espaço apertado dos carros, a velocidade deles e a dimensão das pistas, Rush consegue atrair o olhar também para momentos mais sensíveis – sempre em vista de mostrar o olhar de cada figura para as situações, que demandam ou não perigo. Talvez em razão de uma narrativa com figuras tão fortes Howard e o roteirista Morgan tenham deixado um pouco de lado as figuras coadjuvantes, mas isso não chega a atrapalhar o andamento da história e a propriedade com que é contada. Nem mesmo as inevitáveis provocações, até certo ponto previsíveis, entre os dois, reduzindo muitas vezes Lauda e Hunt a polos opostos que se atraem para o embate: o inglês playboy que adora festas e o austríaco que precisa provar a si mesmo que pode dominar a F1 de forma definitiva.

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A fim de que Howard chegue aos seus objetivos, dependeria de seus dois atores, e a resposta é a mais positiva possível. Depois de fazer parte de uma histórias mais marcantes de Bastardos inglórios, Brühl se mostra um ator cada vez mais eficiente, em sua mescla entre humor e arrogância, e Hesworth se mostra aqui muito mais à vontade do que em Thor e outros blockbusters, com inegável talento para contrabalançar a pretensão com uma certa ingenuidade. Ambos conseguem transformar Rush numa das experiências mais interessantes do cinema em 2013, ajudados pela compactação entre a montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill e a trilha sonora de Hans Zimmer, não tão presente quanto na série Batman de Cristopher Nolan, mas ainda assim eficiente para colaborar nos momentos de suspense. Na categoria de filmes envolvendo o duelo entre dois esportistas, não lembro de tal envolvimento desde o fundamental e hoje quase esquecido vencedor do Oscar de 1981, Carruagens de fogo, antológico não apenas pela trilha de Vangelis, como também por ampliar toda a tradição que cerca o esporte. Em filmes dessa natureza, o esporte acaba sendo apenas um motivo para expressar outros temas, que acabam sobrecarregados exatamente pela emoção dele. Rush é certamente um dos mais exemplares.

Rush, EUA/ALE/Reino Unido, 2013 Direção: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Christian McKay, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara Roteiro: Peter Morgan Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Andrew Eaton, Brian Grazer, Brian Oliver, Eric Fellner, Ron Howard Duração: 123 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Revolution Films

Cotação 4 estrelas e meia

Thor – O mundo sombrio (2013)

Por André Dick

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Em 2011, foi dado início à franquia de Thor, depois de Hulk e Homem de ferro ganharem seus filmes, não sem críticas sobretudo à adaptação feita por Ang Lee, hoje visto como um cult. O Homem de ferro de Jon Favreau não antecipava o terceiro episódio este ano, com sua tentativa de transformar o herói e se destacava sobretudo pelo humor. Já Thor recebeu a direção do especialista em Shakespeare Kenneth Branagh, que, ao mesmo tempo, equilibrou o tom trágico, de traições entre irmãos e duelos entre esses e os pais, sem esquecer de uma boa dose de humor, trazendo batalhas para o deserto do Novo México, com a presença dos agentes da SHIELD. Críticas à parte, o primeiro Thor, com sua trilha melancólica de Patrick Doyle (modificada aqui para a de Brian Tylerk), era um bom início de franquia. No início deste segundo, depois da batalha de Nova York, os roteiristas tentam explicar por que o deus nórdico não pôde visitar Jane Forster (Natalie Portman), que continua atrás dele, com a ajuda da amiga Darcy Lewis (Kat Dennings), enquanto seu amigo, Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), está com a cabeça em polvorosa depois de Loki (Tom Hiddleston) tê-lo transformado em Os vingadores.
Thor está levando seu irmão de volta a Asgard, onde será decretada sua prisão pelo pai, Odin (Anthony Hopkins), depois dos acontecimentos em Nova York, mas sempre vigiando, com a ajuda de Heidall (Idris Elba), onde está Foster, enquanto enfrenta batalhas para manter a paz dos Nove Reinos – sobretudo quando precisa encontrar um monstro de pedra gigante em meio a um cenário de início de batalha de Gladiador (antes, o filme também reserva sua porção de O senhor dos anéis). Em Londres, Foster, com a amiga Darcy, descobre um lugar que pode dar passagem a um universo que desconhece. Entra em cena o vilão do filme, Malekith (Cristopher Eccleston), o líder dos elfos negros, que está atrás do Éter (uma espécie de Tesseract deste filme), uma substância capaz de trazer as trevas se cair em mãos erradas. Ao mesmo tempo, a mãe de Thor, Frigga (Rene Russo), tenta convencer Loki a se desculpar por seus erros, mas ele não parece estar muito interessado nisso, embora preocupado com a possível prisão eterna que terá de enfrentar.

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O novo diretor, Alan Taylor (da série Game of thrones), não consegue dar de início a mesma intensidade de Branagh aos personagens, e o filme tem um problema principalmente quando assistido em 3D: as cores ficam excessivamente monocromáticas, prejudicando muitas sequências (e o 3D pouco acrescenta). Com todas suas falhas como arquiteto visual, Branagh é especialista em tirar grandes interpretações. Neste novo Thor, este elemento parece se ausentar na retomada dos personagens, que parecem se reencontrar sem nenhuma vontade: o reencontro de Thor com Jane é, sem dúvida, um daqueles mais sem esperança que o cinema mostrou num filme de super-heróis, e mesmo o emblemático Hopkins parece não acreditar numa linha sequer do que o roteiro lhe reservou, apesar de empregar certa suntuosidade em suas caminhadas e no olhar. Chris Hemsworth, por sua vez, parece deslocado pela primeira vez no início do filme, enquanto Portman ainda não conseguiu reencontrar-se com a atriz de Cisne negro, também porque o roteiro não permite, mas se ela conseguiu contracenar com Hayden Christensen em algum ponto e saiu ilesa deve ser dado a ela algum crédito. O vilão, feito por um maquiado Eccleston, vai se tornando num de seus pontos mais fracos, pois sua motivação parece mal explicada, e nunca lhe é dada a participação necessária para impor alguma espécie de ameaça – talvez porque o grande vilão da franquia seja mesmo Loki.
No entanto, acompanhado de uma coleção de efeitos especiais e direção de arte bem elaborada (embora mais noturna do que a do primeiro), Thor – O mundo sombrio reserva dois atores que também se destacaram no primeiro filme: Tom Hiddleston e Stellan Skarsgård. Hiddleston conseguiu quase roubar Meia-noite em Paris com sua participação, em meio a um grande elenco, tornou interessante, ao lado de Rachel Weisz um filme que sem os dois seria difícil de ser assistido, Amor profundo, e participa do único hiato de Cavalo de guerra que vale a pena, enquanto Skarsgård, acostumando-se a trabalhar longe de Lars von Trier, é um ator cada vez mais versátil (já no primeiro filme, ele conseguia dar consistência a algumas passagens que um ator menos experiente não aproveitaria). As participações de ambos, com a subestimada Kat Dennings – humorista conhecida, depois de O virgem de 40 anos –, e o reencontro dos personagens com a tragédia familiar, no melhor estilo introduzido por Branagh, no primeiro filme, e com um bom número de cenas em que se vê que o próprio elenco não está levando o filme tão sério, inclusive o próprio herói, trazem Thor – O mundo sombrio de volta à cena, e, quando isso acontece, pode-se esquecer a decepção em que ele ingressava.

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Thor.O mundo sombrio.12

Quando Thor e Loki precisam tomar um rumo depois de um acontecimento familiar decisivo, o tom de conflitos ressurge, e Hemsworth e Hiddleston têm certamente uma maestria em contracenarem juntos e darem razão a boas sequências de ação e, por mais malucas as falas de Loki, elas soam verossímeis.
Nesse sentido, enquanto sua primeira metade certamente não lembra a espontaneidade do primeiro Thor, nem mesmo a agilidade narrativa que tinha na apresentação dos personagens, com a caminhada de homens vestidos de vikings num cenário de faroeste, sua segunda metade reserva excelentes momentos de ação e humor, além dessas atuações decisivas (mesmo Hopkins, em determinado momento, parece finalmente entrar no filme, mesmo que rapidamente, embora Rene Russo seja deslocada), e uma influência clara de Prometheus e o cult movie Krull, além de um bom par de cenas de ação fantásticas. O humor ressurge novamente nos conflitos de costumes entre a formalidade de Asgard e o relaxamento na Terra. Não há, claro, nenhuma grande elaboração no relacionamento entre Thor e Jane, nem a temática do conflito entre os irmãos e destes com o pai consegue atingir as mesmas notas atingidas por Branagh, mas, de certo modo, Thor O mundo sombrio consegue ser um filme que consegue lembrar uma agilidade narrativa e um certo humor mais saudável que existia nos filmes de ação das décadas passadas e que os filmes dos heróis da Marvel conseguem reviver. Em certos momentos, ele pareceu lembrar o humor involuntário de Indiana Jones e a última cruzada, em que Sean Connery e Harrison Ford estão se divertindo em cena, mais do que atuando. Num blockbuster que pretende faturar bilhões, e poderia dar privilégio às cenas de destruição, não deixa de ser uma qualidade e tanto.

Thor – The dark world, EUA, 2013 Diretor: Alan Taylor Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Christopher Eccleston, Idris Elba, Kat Dennings, Rene Russo, Stellan Skarsgård,  Zachary Levi, Chris O’Dowd Roteiro: Christopher Markus, Christopher Yost, Stephen McFeely Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 111 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Studios

Cotação 3 estrelas e meia

O segredo da cabana (2012)

Por André Dick

O segredo da cabana

Depois de tantas séries de terror, como Sexta-feira 13, Halloween e Pânico, não se pode dizer que o gênero não tem representantes. Com tantos caminhos já aproveitados, chega um momento em que a desculpa para situar personagens sendo colocados em situação delicada numa cabana de bosque (como em outra série, de Sam Raimi, Evil Dead), passa a ser baseada na metalinguagem e nas referências a todo o gênero, mais ainda do que vemos em Pânico. É o que acontece em O segredo da cabana, que, de certo modo, conseguiu o que poucos filmes do gênero conseguem: transformar-se numa espécie de cult, uma referência pop, desde o seu lançamento. Não faltam elementos para isso: o filme aproveita, por exemplo, a popularidade de Chris Hemsworth (que de Thor e Os vingadores, passando por Star Trek, a Branca de Neve e o caçador, passou a ser um ator onipresente em blockbusters) e o roteiro, em parceria com o diretor, de Joss Whedon, que se transformou numa referência de adaptações dos quadrinhos para as telas com Os vingadores, mas já havia mostrado seu trabalho de roteirista antes em alguns filmes, como Toy Story.
Whedon conhece cultura pop e seu Os vingadores consegue ser divertido na medida certa. Já no roteiro de O segredo da cabana, ele explora seu lado cinéfilo, compondo uma trama propositadamente repleta de clichês. Já começa em ritmo de saída para as férias de um grupo de jovens universitários – em clima de ida para a Califórnia –, Curt (Chris Hamsworth), Dana (Kristen Connolly, que está em um filme muito mais assustador, do ano passado, The bay), Marty (Fran Kranz), Jules (Anna Hutchison), e Holden (Jesse Williams), cada um visto como estereótipo. Depois de passarem por um posto de gasolina quase deserto, obviamente com um dono misterioso, eles chegam à cabana. Ela está no alto de uma montanha, afastada de tudo e todos.

O segredo da cabana.Imagem 2

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O que não se sabe é que ela está sendo vigiada por uma equipe, como se fosse o cenário para uma espécie de reality show, coordenado por uma dupla (Bradley Whitford e Richard Jenkins), que fazem apostas, por exemplo, para saber como será a ação de cada um. Claro que esses jovens vão ter um certo envolvimento, usar drogas e descer ao porão da cabana, e mesmo uma das jovens vai dialogar e fazer outras coisas com a cabeça de um lobo na parede como se ele fosse real. E, claro, o casal do filme vai se dirigir ao bosque para ter um momento de isolamento. No entanto, não se trata de colocar os personagens apenas em momentos previsíveis e constrangedores, e sim para ameaçá-los com zumbis e criaturas que não se sabe ao certo de onde vêm – a não ser pelo fato de que o chão pode guardar várias entradas e saídas.
Este Evil Dead que se transforma, a partir de tudo, em metalinguagem em ritmo de pavor nunca guarda, como outros filmes referenciais, uma claustrofobia simétrica. O que se vê em O segredo da cabana é mais uma brincadeira com repetições. Se estamos acostumados ao fato de que os personagens podem se sair de uma determinada situação porque, afinal, eles estão ainda dentro de um ambiente em que têm liberdade para tomarem decisão, em O segredo da cabana eles atuam apenas como fantoches de uma vontade tanto do diretor quanto do roteirista em brincar com seus destinos. Não se trata, nem um pouco, de algo diferente, apenas curioso. E a dupla de coordenadores da cabana, que ficam torcendo pelo topless de uma das jovens, parece atuar como produtores numa sessão-teste, para saber se aquilo trará contentamento a uma plateia, mesmo que aqui ainda invisível. Os personagens, ao contrário de filmes como Sexta-feira 13, nunca têm o mesmo tempo de espera para que possam tentar escapar do inevitável. É tudo excessivamente rápido e sem grandes detalhes ou desenvolvimento.

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Não que se esperasse exatamente isso. Não existe, entre as habilidades do diretor Drew Goddard, uma sutileza capaz de emular os pavores de um Poltergeist, por exemplo, no entanto ele se esmera em tornar o seu lado cinéfilo numa colcha de retalhos capaz de agradar, mesmo que com um impacto maléfico e desproposital em relação ao filme. É quando O segredo da cabana se torna uma espécie de Os caça-fantasmas misturado com O nevoeiro que as artimanhas do roteiro de Whedon saltam aos olhos e, sobretudo, ao nervosismo proporcionado pelas cenas.
Há muitos elementos desagradáveis, mas talvez sejam eles que escondam uma das poucas originalidades do filme, e percebe-se que, ao lado de seu lado apaixonado pelo cinema de gênero, temos, na verdade, uma espécie de comédia trash escondida. Na verdade, apresenta-se aqui de forma cômica o que víamos em outro roteiro, este lamentável, de Whedon, para Alien – A ressurreição (que encerrou a série antes da retomada em Prometheus). Há tantos exageros e tanta desproporção nas imagens que o espectador, inevitavelmente, tende a olhar tudo não apenas com desconfiança, mas com certo afastamento. Os minutos finais do filme são de um impacto um tanto assustador – assim como o desfecho para um dos personagens que tenta uma travessia desastrada – e é quando o diretor consegue, de fato, entrelaçar a ideia exibida no início, um tanto previsível, com uma espécie de mitologia – superficial, mas divertida –, trazendo, inclusive, à cena uma atriz em participação surpreendente. Mesmo assim, isso, diante do restante, parece apenas um verniz para esconder de fato o que O segredo da cabana mostra: que não é exatamente ao brincar com clichês do gênero que sua própria história deixará de ser um clichê e o filme se tornará, como desejavam diretor e roteirista, pelo menos numa referência.

The cabin in the woods, EUA, 2012 Diretor: Drew Goddard Elenco: Kristen Connolly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams, Richard Jenkins, Bradley Whitford, Brian White, Amy Acker, Tim De Zarn, Tom Lenk, Dan Payne, Jodelle Ferland Produção: Joss Whedon Roteiro: Joss Whedon, Drew Goddard Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: David Julyan Duração: 95 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: AFX Studios / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Mutant Enemy / United Artists

2  estrelas