Histórias assustadoras para contar no escuro (2019)

Por André Dick

Depois dos Oscars de melhor filme e direção por A forma da água, o cineasta Guillermo del Toro parece ter se afastado de seus projetos mais populares: ele apenas produziu a continuação de Círculo do fogo e não teve grande interesse em fazer um terceiro Hellboy, entregando o projeto a outro diretor e ator, o que o conduziu a um fracasso de bilheteria. Para aproveitar seu tempo após projetos mais ambiciosos, Del Toro parece ter se voltado aos tempos de juventude para fazer, com Patrick Melton e Marcus Dunstan, a história de Histórias assustadoras para contar no escuro, dando origem ao roteiro de Dan Hageman e Kevin Hageman, a partir de uma trilogia literária de Alvin Schwartz.
Há muitos elementos de Del Toro aqui – ampliados pelo fato de também ser um dos produtores –, não apenas a escrita simples sem ser simplista já explorada em seu trabalho em O hobbit, de Peter Jackson. O primeiro é mostrar a narrativa ambientada em 1968, numa pequena cidade, Mill Valley, na Pensilvânia. Uma turma de amigos, Stella (Zoe Margaret Colletti), escritora incipiente fascinada por terror, e seus amigos Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Austin Zajur) estão se divertindo no Halloween quando se metem numa confusão com Tommy Milner (Austin Abrams), típico valentão do colégio. Eles vão parar num drive-in, onde se escondem no carro de Ramón (Michael Garza).

O interessante é o filme que está sendo exibido: A noite dos mortos-vivos. Este detalhe é típico no trabalho de Del Toro. Dali, a história os conduz a uma casa mal assombrada da cidade, pertencente à família Bellows, uma das mais conhecidas na história da cidadezinha. Na casa, eles acabam encontrando um livro com histórias de horror escritas por Sarah Bellows, remetendo a narrativa a um espaço bastante explorado na carreira de Sam Raimi. Depois de se depararem com Tommy novamente, namorado de Ruth (Natalie Ganzhorn), a irmã de Chuck, a história é estendida a um universo misterioso e fantástico e que faz lembrar Creepshow, o grande filme de George Romero dos anos 80. O trabalho de fotografa de Roman Osin, iluminando os anos 60 com um sol alaranjado, aliado a um design de produção irretocável, insere o espectador nesse ambiente no qual Stella percebe que o livro de terror descoberto na casa passa a escrever por si histórias que vão acontecendo na realidade.

Essas histórias se sucedem como que episódicas, mas não separadas da narrativa principal, e, apesar dos lugares-comuns, suscitam um certo fascínio. A autoria de Del Toro é percebida no interesse pelo universo da casa mal-assombrada, que liga ao seu subestimado e excepcional A colina escarlate, com uma certa inspiração de H. P. Lovecraft. Os monstros e ameaças surgidos no caminho da turma – que suscita, claro, aproximações com Os Goonies e Super 8, além de Stranger Things – parecem ter toques de O labirinto do fauno e Hellboy, principalmente na maneira como algumas cenas são filmadas (a da cozinha, por exemplo) e uma certa atmosfera lúgubre em alguns momentos remete a Chronos, um dos primeiros trabalhos de Del Toro. Ele consegue lidar com os elementos de sobrenatural e violência muito mais do que Tempos obscuros, por exemplo, elaborado com características semelhantes e cujo desenvolvimento era excessivamente tortuoso, afastando-se também de brincadeiras como Goosebumps, ao qual é equiparado.

Do mesmo modo, como em A forma da água, a história cria um vínculo entre fantasia e a situação política dos Estados Unidos, com as eleições envolvendo Richard Nixon´e a Guerra do Vietnã. É a história fantasiosa sendo escrita no livro de Bellows e a história sendo escrita na realidade. Del Toro parece se perguntar qual é a mais assustadora. Ou seja, Histórias assustadoras para contar no escuro é assinado por André Øvredal, mas certamente poderia ter a assinatura de Del Toro, embora sua edição seja muito apressada e abrupta em alguns momentos, ao contrário de seu rebuscamento de A colina escarlate e A forma da água, ambos exemplos claros de seu crescimento como cineasta. Há momentos decisivamente assustadores, lembrando aqueles de O labirinto do fauno, e o principal se dá num banheiro de colégio, feito com destreza e noção de espaço, além do uso de efeitos visuais singulares e realistas. O melhor é o filme ter uma textura de filme de terror e de época, criando um diálogo vital para compreender os seus personagens.

Scary stories to tell in the dark, EUA, 2019 Diretor: André Øvredal Elenco: Zoe Colletti, Michael Garza, Gabriel Rush, Austin Zajur, Natalie Ganzhorn, Austin Abrams, Dean Norris, Gil Bellows, Lorraine Toussaint Roteiro: Dan Hageman e Kevin Hageman Fotografia: Roman Osin Trilha Sonora: Marco Beltrami e Anna Drubich Produção: Guillermo del Toro, Sean Daniel, Jason F. Brown, J. Miles Dale, Elizabeth Grave, Joshua Long, Roberto Grande Duração: 108 min. Estúdio: CBS Films, Entertainment One, 1212 Entertainment, Double Dare You Productions, Sean Daniel Company Distribuidora: Lionsgate

A lavanderia (2019)

Por André Dick

O cineasta Steven Soderbergh sempre teve um projeto cinematográfico voltado a mostrar o indivíduo tentando enfrentar um sistema oculto ou visível, de modo que sua obra pode ser vista como uma extensão das ideias que revelam os choques entre as pessoas à margem dele. De certo modo, isso constitui alguns de seus melhores projetos, a exemplo de Erin Brokovich. Ao mesmo tempo, ele busca rechaçar o sistema de tratamento psiquiátrico, em peças como Terapia de risco e Distúrbio, em meio à série buscando a diversão em assaltos de Onze homens e um segredo. Ainda ele vê certo atrativo em universos deteriorados, como em Contágio e Kafka.
Em A lavanderia, ele acompanha Ellen Martin (Meryl Streep), que está em férias com o marido Joseph David (James Cromwell) quando acontece algo terrível. Ela passa a buscar meios de como processar a vida sob outra condição, tendo de lidar com determinados seguros que a levam a uma teia muito delicada de corrupções e desvios ligados a um escritório de advocacia da Cidade do Panamá, dirigido por Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas).

Eles prestam serviços para os mais variados clientes – e não necessariamente honestos, incluindo bandidos declarados, como traficantes, e ditadores. Ellen está aos poucos consciente de que sua vida ao lado da filha, Melanie (Melissa Rauch) e dos netos é apenas um resquício de um grande conglomerado de interesses escusos.
Com um início satirizando a aurora da humanidade de Kubrick em 2001 (e o cineasta teve parte de seu patrimônio envolvido na mesma questão que apresenta o filme), Soderbergh está interessado em ligar esse mosaico da vida minúscula de Ellen com uma discussão relacionada a negócios. Neste ano, ele já havia oferecido uma visão contundente sobre o universo do basquete em High flying bird, mas é em A klavanderia que ele utiliza uma trama provocadora.

Baseado numa atuação concisa e excelente de Streep, são, no entanto, Oldman e Banderas que brilham em papéis evocando A grande jogada, de Adam McKay. Assinando com seu pseudônimo Peter Andrews, Soderbergh apresenta um trabalho de fotografia notável, parecendo ampliar sempre cada cenário com lentes luminosas (e ele sempre foi experimental, mesmo nos momentos mais fracos, a exemplo de Full frontal). As reuniões do Capitão Ethan Allen (Robert Patrick) e Matthew Quirk (David Schwimmer), sócios de uma balsa que causa o conflito do primeiro ato, num pub são especialmente agradáveis, apesar do assunto insensível, ligado a papéis não comprováveis da Shoreline Cruises, levando a um vigarista das Bahamas, Irvin Boncamper (Jeffrey Wright).
Soderbergh, baseado num roteiro de Scott Z. Burns, a partir de Based on Secrecy World: Inside the Panama Papers Investigation of Illicit Money Networks and the Global Elite, de Jake Bernstein, joga com os personagens em diferentes espaços e suas ações sendo colhidas numa cadeia, como ele se especializou em mostrar no ótimo Traffic. Há uma base numa história verdadeira, a dos Panama Papers, mas ele cresce exatamente em pontos rotineiros, quando mostra um ricaço, Charles (Nonso Anozie), que é pego numa situação delicada pela filha Simone (Jessica Allain) e precisa contorná-la tentando esconder da sua esposa Miranda (Nikki Amuka-Bird). Por trás, os acordos familiares e, do mesmo modo, o eco dos Panamá Papers. É interessante como Soderbergh, como em Logan Lucky, seu filme de assalto nos bastidores de uma corrida de automóveis mostra também dois homens reunidos num bar (Will Forte e Chris Parnell), em algo que lembra A mula, de Eastwood. Também temos em viagem ao Oriente o personagem Maywood (Matthias Schoenaerts), se envolvendo numa estranha situação com Gu Kailai (Rosalind Chao).

A lavanderia não é necessariamente um drama ou uma comédia, situando-se num meio-termo oportuno que conduz o risco de emprego de dinheiro em questões duvidosas. Embora toda a narrativa que envolve a personagem de Streep seja mais de um drama de Hollywood, interrompido apenas por uma cena em que ela imagina fazer algo, em outros momentos o filme parece uma sátira, que, embora lembre A grande aposta, não tem o encantamento de McKay pelas trapaças. Ou seja, Soderbergh lança um certo pesar mesmo quando parece brincar com as vítimas das enganações de Mossack e Fonseca – e ao filmá-los por meio de imagens emulando propagandas luminosas lança, na verdade, uma bruma de dúvida sobre seu comportamento. Nesse sentido, o filme de Soderbergh, apesar de nunca explorar com a devida ênfase seus personagens, é um estudo muito curioso sobre o universo dos negócios e o reflexo na vida de várias pessoas, mesmo que pareça episódico. É na sua aparente leveza que sua trama se fortalece de maneira substancial, definindo-se como um dos melhores momentos na trajetória de Soderbergh e do cinema deste ano.

The laundromat, EUA, 2019 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, Jeffrey Wright, Robert Patrick, Nonso Anozie, Melissa Rauch, Jessica Allain, Nikki Amuka-Bird, David Schwimmer, Sharon Stone Roteiro: Scott Z. Burns Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews) Trilha Sonora: David Holmes Produção: Scott Z. Burns, Lawrence Grey, Gregory Jacobs, Steven Soderbergh Michael Sugar Duração: 95 min. Estúdio: Anonymous Content, Grey Matter Productions, Topic Studios, Sugar23 Distribuidora: Netflix

El Camino – A Breaking bad movie (2019)

Por André Dick

Há uma tradição de séries tão bem-sucedidas que acabam virando filmes. Isso aconteceu, por exemplo, com  Twin Peaks e Arquivo X nos anos 90, utilizando os mesmos atores. Em outros casos, as séries são feitas numa década e transpostas para o cinema em outra, com elenco diferente, a exemplo de Sombras da noite, Os intocáveis, Miami Vice, Agente 86, As panteras e Anjos da lei. Outros filmes, por sua vez, dão origem a séries, no caso de Cobra Kai (estendendo o universo de Karatê Kid para a internet) e O cristal encantado, ou, no caso de Twin Peaks, voltam ao universo televisivo, todas, no entanto, com estilo cinematográfico. Não é, nesse sentido, inesperado que uma das séries mais festejadas dos últimos anos, Breaking bad, veiculada entre 2008 e 2012, ganhe um filme agora, sob a mesma direção do seu criador Vince Gilligan.

A história inicia com um flashback no qual Jesse Pinkman (Aaron Paul) e Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) discutem sobre sua saída dos negócios de Walter White (Bryan Cranston) e sobre  desejos futuros. Logo a história se transporta para o presente quando Jesse está fugindo da polícia a bordo do El Camino e vai parar na casa dos amigos Skinny Pete (Charles Baker) e Brandon “Texugo” Mayhew (Matt Jones). A partir daí, uma espécie de amizade enraizada e bem definida de Jesse com esses personagens, sobretudo com Skinny, o diretor desencadeia uma série de idas e vindas no tempo, primeiro com Jesse lembrando de Todd (Jesse Plemmons), supremacista branco que o prendeu e precisa de sua ajuda para se livrar de um problema em seu apartamento.
O diretor Vince Gilligan (produtor de Arquivo X) é um estilista notável, o que já se pronunciava na série. No filme, ele expande o estilo que influenciou Denis Villeneuve (Sicario) e Ridley Scott (O conselheiro do crime), focado em sua principais inspirações: os irmãos Coen de Onde os fracos não têm vez o David Lynch de Coração selvagem (levando-se em conta que há elementos de Twin Peaks – O retorno inspirados em Breaking bad) e o Tarantino de Kill Bill – Vol. 2. Sua maneira de filmar esse universo árido, com a ajuda da fotografia de Marshall Adams por meio da perspectiva de um homem acuado pelos erros do tempo, Jesse, é notável.

No entanto, sua efetividade não seria a mesma sem a atuação de Aaron Paul, verdadeiramente extraordinário na sua volta ao papel. O roteiro é encadeado por uma série de blocos muito bem definidos, que não tornam a narrativa rígida, pelo contrário extremamente fluida e necessária ao compor seus diálogos. Uma ida de Jesse ao apartamento de Todd é impecável na sua construção de suspense, assim como o encontro dele com Neil Kandy (Scott MacArthur), e seu parceiro de trabalho Casey (Scott Sheperd), numa reminiscência do primeiro episódio de Twin Peaks – O retorno, em que dois policiais se veem à volta com uma moradora de condomínio confusa. A pressão aumenta quando ele se encontra com Ed (Robert Forster), numa outra sequência de grande desenvolvimento em termos de diálogo e imprevisto.
Fala-se que Gilligan considera o filme pode não tão interessante para quem não acompanhou a série. É possível dizer que, exceto alguns detalhes (acompanhei a série de modo excessivamente fragmentado para me considerar conhecedor), ele se mantém perfeitamente como uma obra à parte. Não tem, por exemplo, a mesma ligação de Twin Peaks com a série ou os filmes do Arquivo X com o universo que os precedeu.

Não apenas Paul tem uma ótima atuação, como também MacArthur, Sheperd e Robert Forster, infelizmente no seu papel derradeiro. Todos desempenham seus personagens de maneira destacada num universo caracterizado pela solidão e por uma certa falta de esperança, na maneira como Gilligan amplia o campo de visão de cada cenário, deixando seus personagens minúsculos diante da natureza.
Como a série, porém ainda com mais apuro, isto se parece com um faroeste contemporâneo, igual a alguns dos melhores momentos da obra dos irmãos Coen, e há uma determinada solução que aponta para esse caminho. Jesse é um homem que vem de um quase desaparecimento para uma tentativa de desaparecer totalmente do Novo México e do rastro da polícia e do passado que o envolveu numa série de castigos. Gilligan exerce essa visão de maneira visualmente atrativa, parecendo coloca-lo em cenários abandonados e nunca mais visitados. Mesmo uma conversa ao telefone com seus pais é cercada de ilusões sobre o que poderia ter sido, não tivesse acontecido exatamente o contrário. Desse modo, o filme El Camino – A Breaking bad movie é uma das grandes surpresas desta temporada do Oscar que se aproxima, com grande efeito em quem viu ou não a série. Um exemplo de como lidar com um personagem principalmente em diferentes linguagens, muitas vezes inseparáveis.

El Camino – A Breaking bad movie, EUA, 2019 Diretor: Vince Gilligan Elenco: Aaron Paul, Jonathan Banks, Bryan Cranston, Robert Forster, Charles Baker, Matt Jones, Jesse Plemmons, Scott MacArthur, Scott Sheperd Roteiro: Vince Gilligan Fotografia: Marshall Adams Trilha Sonora: Dave Porter Produção: Mark Johnson, Melissa Bernstein, Charles Newirth, Vince Gilligan, Aaron Paul Duração: 122 min. Estúdio: Sony Pictures Television, Gran Vía Productions, High Bridge Productions Distribuidora: Netflix

 

10 possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme em 2020

Por André Dick

Neste artigo, seleciono alguns possíveis indicados ao Oscar de melhor filme em 2020. Em 2019, acertei 4 candidatos da lista principal e 2 da repescagem. Apresento 10 possíveis nomeados, o que não acontece, no entanto, desde 2012, costumando ficar entre 8 ou 9. Esta lista sai antes de premiações importantes (Independent Spirit Awards, BAFTA, Globo de Ouro, principalmente), ou seja, depois das indicações delas e seus vencedores, as coisas se aclaram um pouco mais. As probabilidades se baseiam em recepção crítica (dos que estrearam até agora; alguns podem ainda ser mal recepcionados) e temas tratados, que agradam mais ou menos à Academia, além dos gêneros de filmes. Alguns deles, como Adoráveis mulheres e 1917, ainda não estrearam e, dependendo das críticas, podem sair da disputa (como aconteceu com A lei da noite em 2017 ou Pequena grande vida em 2018). Também acredito que História de um casamento teria mais chances de figurar entre os candidatos se O irlandês não fosse a obra preferida com distribuição da Netflix (e tenho dúvidas se a Academia emplacaria dois filmes da empresa de streaming). Por isso, coloco também cinco filmes numa repescagem e outros possíveis indicados (esses às vezes guardam surpresas, capazes de se fortalecer na temporada de premiações). Assinalo que A hidden life, de Terrence Malick, corre à margem (o trabalho do diretor é ignorado pela Academia desde A árvore da vida), porém, dependendo de sua recepção em dezembro, pode repetir o que aconteceu, por exemplo, com Trama fantasma. Leve-se em conta que no ano passado ninguém esperava, nessa época, que Bohemian Rhapsody fosse indicado a melhor filme e recebesse 4 Oscars.

Era uma vez em Hollywood

Quentin Tarantino teve alguns filmes indicados ao Oscar principal (Pulp Fiction, Bastardos inglórios e Django livre). Este Era uma vez em Hollywood parece ser o próximo, principalmente por seu elenco (Brad Pitt especialmente a coadjuvante), e parte técnica de grande potencial. No entanto, Os oito odiados foi ignorado, e era uma obra-prima. Seu diferencial para atrair é a homenagem de Tarantino à Hollywood do final dos anos 60, por meio de um ator que está sendo esquecido e tem sua última oportunidade no universo cinematográfico, feito com grande talento por Leonardo DiCaprio.

Adoráveis mulheres

Após o sucesso de crítica de Lady Bird e ser indicada a direção e filme, Greta Gerwig traz em seu segundo projeto um grande elenco: além de sua atriz favorita, Saoirse Ronan, Timothée Chalamet, Meryl Streep, Florence Pugh, Laura Dern e Emma Watson. A história, adaptada por Gerwig e Sarah Polley de um romance de Louisa May Alcott, mostra irmãs na Nova Inglaterra em 1860, durante a Guerra Civil Americana. Com trilha sonora de Alexandre Desplat, o trailer antecipa uma mescla entre O estranho que nós amamos e Maria Antonieta, ambos de Sofia Coppola.

O irlandês

Com seus 210 minutos, O irlandês dificilmente ficará de fora dos indicados, embora o filme anterior de Scorsese, Silêncio, tenha sido nomeado apenas para melhor fotografia. O irlandês, porém, parece ser uma síntese da trajetória do diretor, mesclando desde os tempos de Touro indomável e Os bons companheiros (na parceria de De Niro e Joe Pesci) até O lobo de Wall Street. Ele conta a história de Frank Sheeran (Robert De Niro), que trabalha para a máfia e é veterano da Segunda Guerra Mundial. A trama acompanha seu envolvimento com o sumiço do líder trabalhista Jimmy Hoffa (Al Pacino). Lembremos que já há um filme especificamente sobre Hoffa, de 1992, interpretado por Jack Nicholson. Uma das expectativas é quanto ao rejuvenescimento de atores como De Niro, Pesci e Pacino, num trabalho ousado da equipe de Scorsese.

Coringa

Premiado de forma surpreendente com o Leão de Ouro em Veneza, Coringa é o segundo filme consecutivo de adaptação de quadrinhos, depois de Pantera Negra, a ter reais chances de indicações ao Oscar nas categorias principais. Além de Joaquin Phoenix no papel central, de Arthur Fleck, temos ainda Robert De Niro como coadjuvante e a fotografia de Lawrence Sher. O diretor Todd Phillips foi deixado de lado pelo Oscar por Se beber, não case! depois de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme com a comédia. Coringa pode ser sua chance de chegar ao prêmio.

Ford vs Ferrari

Com direção de James Mangold (Logan), Ford vs Ferrari talvez seja uma mescla entre Rush e o clássico Grand Prix, indicado ao Oscar de melhor filme em 1967. O filme traz a história de um designer de carros, Carroll Shelby (Matt Damon), e do motorista de carro de corrida Ken Miles (Christian Bale), que estiveram à frente de uma equipe que ajudou a Ford a construir um carro capaz de competir com a Ferrari. Já presente no Oscar com Johnny & June e Os indomáveis e indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado por Logan, Mangold costuma ter boa recepção na Academia.

A beautiful day in the neighborhood

Diretora de Poderia me perdoar?, que rendeu uma indicação ao Oscar para Melissa McCarthy, além de para ator coadjuvante e roteiro adaptado, Marielle Heller traz a história de um jornalista da Esquire, Lloyd Vogel (Matthew Rhys), que precisa fazer uma matéria sobre o apresentador de televisão infantil Fred Rogers (Tom Hanks) e muda sua percepção sobre a vida. Hanks é preterido pela Academia desde Náufrago (não tendo sido indicado por ótimas atuações em Prenda-me se for capaz, Cloud Atlas e Sully), mas o filme tem elementos que costumam agradar à Academia.

Jojo Rabbit

Quem viu o trailer deste filme certamente percebeu a inspiração do vencedor do Festival de Toronto, quase uma garantia de ser indicado ao Oscar mais almejado: a filmografia de Wes Anderson, mais exatamente sua obra Moonrise Kingdom. O diretor Taika Waititi, de Thor: Ragnarok e A incrível aventura de Rick Baker, reúne um grande elenco numa espécie de sátira da Segunda Guerra Mundial e a Adolf Hitler (que ele mesmo interpreta). O menino JoJo (Roman Griffin) descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) esconde uma menina judia em sua casa, o que vai de encontro aos ensinamentos que recebeu do nazismo. Parece evidente também a influência de O ditador e A vida é bela nessa trama.

Luta por justiça

Em nova obra de Destin Daniel Cretton, que fez O castelo de vidro e Temporário 12, o advogado Bryan Stevenson (Micheal B. Jordan) se desloca para o Alabama, a fim de defender os injustamente condenados, começando por Walter McMillian (Jamie Foxx), no corredor da morte, preso injustamente pela morte de uma mulher. Cretton não tem até agora sido lembrado pela Academia, no entanto costuma apresentar excelente trabalho de direção de atores e histórias profundamente humanas. No elenco ainda está Brie Larson, atriz preferida do cineasta, que esteve em seus dois filmes.

1917

Sob a direção de Sam Mendes, que se dedicou à série 007 nesta década, 1917 tem como cenário a Primeira Guerra Mundial, no ano do título, no norte da França, acompanhando dois jovens soldados ingleses, Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman), que recebem a missão de levar uma mensagem passando por linhas inimigas. Com fotografia de Roger Deakins, a inspiração é claramente Dunkirk, de Nolan, de 2017. Mendes já venceu o Oscar por Beleza americana, e 1917 tem grande chance como filme de guerra, gênero apreciado pela Academia, contando ainda no elenco com Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Mark Strong.

The farewell

Com um pôster muito parecido com o de Flores de aço, de 1989, The Farewell tem na direção  Lulu Wang. Mostra a história de uma família, na qual o personagem central é o aspirante a escritor chinês-americano Billi (Awkwafina), que se reúne ao saber que a avó, chamada Nai Nai (Zhao Shuzhen), está prestes a morrer. Muito elogiado no circuito de festivais, tem mais chances do que aparenta

Repescagem

Parasita

Vencedor do Festival de Cannes em 2019, este é facilmente o melhor filme de Bong Joon-ho desde Memórias de um assassino. É um tanto insano, sem gênero definido, parece não dizer nada, mas sabe trabalhar seus temas. Joon-ho aprendeu com os erros de Okja e soube deixar as metáforas mais implícitas ao invés de tentar explicá-las para o espectador. Para isso, o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo assegura os movimentos de câmera para fazer o espectador se inserir dentro dos ambientes. É uma espécie de jornada por uma sociedade em construção ou desconstruída, nunca previsível. Joon-ho pode repetir o fato de um diretor estrangeiro ser indicado, como Michael Haneke por Amor, em 2013, e Pawel Pawlikowski por Guerra fria, em 2019.

História de um casamento

Outro projeto do diretor Noah Baumbach na Netflix, depois de Os Meyerowitz, mostra o divórcio entre o diretor de teatro Charlie (Adam Driver) e uma atriz (Scarlett Johansson). Bem recebido no Festival de Toronto, parece seguir a linha temática dos anos 70, de obras como Kramer vs Kramer, nos moldes do que Baumbach aprecia em sua filmografia, a exemplo de Frances Ha, Enquanto somos jovensGreenberg. O elenco tem ainda Laura Dern e Alan Alda.

Entre facas e segredos

Logo depois de Star Wars – Os últimos Jedi, Rian Johnson emprega uma trama nos moldes de Agatha Christie, com um detetive tendo de investigar um assassinato com um grande número de suspeitos. Parece retomar elementos de A ponta de um crime, um de seus melhores filmes. O elenco é de destaque: Daniel Craig, Chris Evans, Don Johnson, Toni Collette, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon e LaKeith Stanfield.

Ad Astra – Rumo às estrelas

O filme de James Gray tinha todas as chances claras… não tivesse sido, como O primeiro homem, no ano passado, uma decepção nas bilheterias. Uma bela ficção científica, sua parte técnica e a atuação de Brad Pitt podem ajudá-lo a se credenciar. Além disso, pode repetir a influência que tem o gênero nos últimos anos, visto Gravidade e Perdido em Marte.

As golpistas

Este parece ser o filme independente com possibilidades de ser lembrado pelo Oscar. Dirigido por Lorene Scafaria, com base num artigo de 2015 da revista New York, “The Hustlers at Scores”, de Jessica Pressler, a trama segue um grupo de strippers na cidade de Nova York que passam a roubar dinheiro, envolvidas com acionistas de Wall Street. No elenco, estão Constance Wu, Jennifer Lopez, Julia Stiles, Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo e Cardi B. Um detalhe importante: Lopez produz o filme com Jessica Elbaum, Will Ferrell e Adam McKay, esses dois indicados por A grande aposta e Vice.

Outros possíveis indicados

A lavanderia (Steven Soderbergh), O relatório (Scott Z. Burns), Waves (Trey Edward Shults), The aeronauts (Tom Harper), Meu nome é Dolemite (Craig Brewer), Cats (Tom Hooper), Dowton Abbey – O filme (Michael Engler), The last black man in San Francisco (Joe Talbot), Clemency (Chinonye Chukwu), O escândalo (Jay Roach), Judy (Rupert Goold), Dois papas (Fernando Meirelles), Dark waters (Todd Haynes), Harriet (Kasi Lemmons), Star Wars – A ascensão Skywalker (JJ Abrams), A grande mentira (Bill Condon), The personal history of David Copperfield (Armando Iannucci), A hidden life (Terrence Malick)

Forrest Gump – O contador de histórias (1994)

Por André Dick

Se há uma obra-prima do diretor Robert Zemeckis, não é De volta para o futuro, Uma cilada para Roger Rabbit ou Contato, e sim esta peça vencedora do Oscar em 1994, mais lembrada por ter derrotado Pulp Fiction, de Tarantino, e Um sonho de liberdade, o que não deixa de ser uma injustiça, pois apresenta muitos méritos. Forrest Gump é o melhor filme de Spielberg não feito por Spielberg; é dirigido por um de seus “alunos” (Zemeckis escreveu o roteiro de 1941), acertado em todos os níveis de emoção, tanto pela atuação de Tom Hanks quanto pela trilha sonora vitoriosa de Alan Silvestri.
A história conta os passos de Forrest Gump (Michael Conner Humphreys quando criança e Tom Hanks quando adulto), um rapaz com QI abaixo da média, que vive com sua mãe (Sally Field) numa fazenda de Savannah, na Georgia. Sua melhor amiga é Jenny Curran (Hanna R. Hall na infância e Robin Wright quando adulta) e ambos estão interligados ao longo de vários períodos da história dos Estados Unidos.

Desde criança, quando tem problemas para se locomover, Forrest enfrenta colegas que não gostam dele, mas consegue chegar ao time de futebol norte-americano na universidade depois que, de forma espetacular, se torna um corredor. Vai para a guerra do Vietnã, onde se torna o melhor amigo de Bubba (Mykelti Williamson) e tem como tenente Dan Taylor (Gary Sinise). Essas cenas são muito bem feitas, com efeitos visuais notáveis, além da fotografia de Don Burgess, lembrando mesmo Apocalypse now em determinado momento, embora veja a guerra com um olhar corrosivo, sobretudo o exército (Zemeckis brinca especialmente com Nascido para matar, de Kubrick). No entanto, o espectador fica sempre desconfiado se o que está assistindo parte da imaginação do personagem central, quando se esclarece que ele é de fato imprevisível.

O diretor Robert Zemeckis foca, com poesia, o salto de um ser humano da infância para a maturidade, quando esta parece nunca chegar. Forrest não é um simples sujeito que não percebe a importância dos fatos. Para Zemeckis, a simplicidade e o olhar sobre pequenas coisas exemplificam determinada maturidade. Sua relação com a mãe é primordial – numa grande atuação de Sally Field. Não é à toa, Forrest vira, por força do destino, uma estrela do futebol americano, herói do Vietnã, campeão de pingue-pongue, exímio pescador de camarões e uma figura idolatrada. Forrest não vê importância nisso tudo, ficando feliz em assistir ao programa Vila Sésamo. Zemeckis reverte a expectativa do personagem diante da história sempre com sua visão particular de mundo, e a história maior é sempre colocada em segundo plano. Isso oferece ao personagem uma sensação não de completude e sim de certa melancolia, de deslocamento no tempo e no espaço, criando nele uma nostalgia estranha. Ele é como se fosse um referencial histórico que não pertencesse a essa história, ou, inserido nela, nunca soubesse exatamente sua dimensão. O que poderia soar ofensivo se torna extraordinariamente sagaz: Zemeckis está mostrando que a história parte da imaginação de cada um em primeiro lugar.

De maneira ágil, o diretor joga com a realidade em muitos planos: normalmente, o que é imaginado por Forrest se aproxima de uma idealização (quando ele acredita no fato de Jenny ter se transformado numa cantora, por exemplo), no entanto é justamente essa idealização que o faz ver exatamente as grandes coisas. E, talvez em razão disso, o filme é desapreciado por alguns críticos dedicados à “arthouse”. Forrest Gump lida com humor e emoção com certos caminhos, principalmente quando envolve figuras políticas (Nixon, Kennedy) ou culturais (John Lennon, Elvis Presley). O roteiro de Eric Roth, baseado em novela de Winston Groom, estabelece uma circularidade envolvente, vinculando infância e vida adulta de maneira competente. Determinados cenários conferem esse sentimento (as casas de infância de Forrest e Jenny), parecendo sempre trazê-los de volta a um sentimento mais antigo e emotivo. É como se as lembranças estivessem sempre com esses personagens, estabelecendo uma ligação que foge ao lugar onde estão. Nesse sentido, não apenas Hanks oferece um desempenho definitivo, como Wright e Sinise são grandes em seus papéis. Este é um filme de coração, capaz de fazer lembrar de nossos pais e da casa da infância como poucos que foram feitos. Pode ser sentimental e mesmo manipulador, no entanto foi realizado com perspicácia e olhar amplo para o cinema como expressão de vida.

Forrest Gump, EUA, 1994 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelti Williamson, Sally Field Roteiro: Eric Roth Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Wendy Finerman, Steve Tisch, Steve Starkey Duração: 142 min. Estúdio: Wendy Finerman Productions Distribuidora: Paramount Pictures

Projeto Gemini (2019)

Por André Dick

Projeto Gemini é uma espécie de mistura entre thriller e ficção científica na qual Will Smith interpreta Henry Brogan, um experiente assassino do governo dos Estados Unidos, que precisa matar um homem identificado como terrorista num trem bala. Essa cena inicial é tão parecida com aquela que introduz Floyd Lawton, o Pistoleiro, em Esquadrão suicida, também interpretado por Smith, que se pode lembrar que Ang Lee trabalhou no gênero de adaptações de quadrinhos com Hulk. Trata-se da sequência mais tensa do filme, com uma agilidade de enquadramento e de disposição dos elementos em cena.pela fotografia de Dion Beebe, responsável pelos trabalhos de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi e No limite do amanhã, duas peças de ação compacta.

E este é o ponto de partida de uma obra que vai levar Brogan a conhecer Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead), que trabalha alugando barcos, antes de saber que a pessoa que ele matou era inocente. Ele se torna um alvo pelo ocorrido, inclusive de Clay Varris (Clive Owen), responsável por uma unidade secreta de biotecnologia que atende pelo nome Gemini. O nome, propriamente, é um aviso: há uma figura gêmea na história, a partir do DNA. Para ajudá-los, aparece Baron (Benedict Wong).
Lee sempre foi um exímio diretor de cenas de ação, como vemos em O tigre e o dragão e, mais recentemente, no ótimo e menosprezado A longa caminhada de Billy Lynn. Também é um diretor que concentra talento para interações dramáticas, desde Tempestade no gelo, passando por O segredo de Brokeback Mountain, até As aventuras de Pi. Lee se destacou no campo da fantasia justamente com Pi e depois disso quis jogar com o 3D em Billy Lynn e a movimentação maior de 120 quadros por segundo, o que se repete aqui (mas em raríssimos cinemas mesmo nos Estados Unidos; no Brasil pode-se encontrar versões com até 60 quadros por segundo).

Nada disso indica que o roteiro, inexplicavelmente rodando em Hollywood desde o final dos anos 90, deveria ser colocado em segundo plano, pois ainda estamos tratando de um filme e não de um experimento puramente técnico – e mesmo este não se dá pela velocidade da imagem e sim pelo talento do diretor de fotografia em reunião com o diretor, ou seja, se um filme precisa de uma determinada composição para ser bom ele, definitivamente, não é. Não se está aqui menosprezando a técnica e sim a sua aceitação como ponto primordial para que outros elementos de uma obra não sejam desenvolvidos. Se muitos viram em Gravidade apenas um experimento de efeitos visuais, talvez não foram receptivos à ideia de que a história mostra, de maneira enfática, a aceitação de uma mulher no espaço sobre as perdas em sua vida e o possível reencontro com uma nova oportunidade. Em Projeto Gemini, Lee pode estar ecoando ainda certos temas de seu filme anterior, sobre um jovem soldado, mostrando que a guerra humana se reciclasse sem interrupção, inclusive em seres humanos completamente idênticos. Há algumas mudanças de cenário próprias de uma obra que pretende inaugurar uma franquia, porém sem o devido interesse estético, mesmo com as boas locações. Em meio a isso, o interesse em contar uma história de maneira autoral parece menos interessante a Lee.

Assinado por David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, este é o elemento mais complicado de Propjeto Gemini. Se Smith até consegue transparecer um certo conflito no papel central, finalizando seu bom ano iniciado pela atuação como Gênio em Aladdin, mas a boa atriz Mary Elizabeth Winstead se mostra um pouco deslocada e a figura mais jovem de Brogan – um Will Smith rejuvenescido por computador e com uma certa ênfase em maneirismos que poderia lembrar Zoolander (o melhor rejuvenescimento do cinema ainda é o de Robert Downey Jr. em Capitão América – Guerra civil, e que O irlandês traga boas novas) – não tem muito a fazer, além de o vilão ser esquecível. Falta um tratamento dramático, mesmo inserido na ação, capaz de oferecer a Smith a oportunidade de entregar uma atuação como a de Beleza oculta. A tentativa de desenvolver um romance entre Henry e Danny se sente, a partir de determinado momento, apenas para preenchimento de diálogos soltos. No entanto, Lee é um hábil diretor de imagens requintadas, e Projeto Gemini se sente o tempo todo um thriller elegante, com certas cenas de ação que remetem a Matrix reloaded, no entanto que no fim das contas são boas e efetivas embora sem o mesmo realismo do mais recente Missão: impossível, por exemplo. Do mesmo modo, há algumas boas ideias sobre clonagem de humanos, ainda que sem o desenvolvimento necessário para que o roteiro se desprenda da ideia de ser mais uma obra de ação contemporânea sem uma proposta exatamente nova.

Gemini man, EUA, 2019 Diretor: Ang Lee Elenco:  Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Jerry Bruckheimer, David Ellison, Dana Goldberg, Don Grangerim Squyres Duração: 117 min. Estúdio: Skydance Media, Jerry Bruckheimer Films, Fosun Pictures, Alibaba Pictures
Distribuidora: Paramount Pictures

Coringa (2019)

Por André Dick

Há uma década, Todd Phillips realizou uma das comédias mais interessantes do cinema deste século, Se beber, não case!, muitas vezes subestimada, que ganhou duas sequências, a terceira parte com menos qualidade, igual à outra empreitada de sua autoria, Um parto de viagem. Em 2016, ele lançou Cães de guerra, uma espécie de sátira à política da era George W. Bush, com dois amigos lucrando com a venda de armas para territórios em combate. Sem exatamente ser associado a temas sérios, Phillips tinha como projeto antigo fazer uma adaptação da origem do Coringa para o cinema. Ela se tornou real com a atuação de Joaquin Phoenix, um dos atores mais brilhantes de sua geração, que apenas nesta década atuou em obras notáveis como O mestre, Ela, Vício inerente e Você nunca esteve realmente aqui.

Com um roteiro apresentando elementos de dois filmes de Scorsese – O rei da comédia e Taxi Driver –, Coringa mostra Arthur Fleck (Phoenix), que trabalha como palhaço nas ruas de Gotham City, em 1981, e em casa cuida de sua mãe Penny (Frances Conroy). A cidade está passando por um momento conturbado, com muitos desempregados e lixo nas ruas, atraindo, inclusive, uma invasão de ratos. Arthur sofre de problemas neurológicos, um deles rir compulsivamente quando em estado de ansiedade. Ele tem uma boa relação com a mãe, com quem costuma assistir ao programa de Murray Franklin (Robert De Niro), um talk show, no entanto precisa tomar muitos medicamentos, para que suas crises não piorem. Também tem interesse por uma vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), que encontra certo dia no elevador, com a sua filha – numa cena capaz de transferir o espectador para algo de Drive. Todos os problemas de Fleck são acentuados pelo fato de não ser bem aceito em seu ambiente de trabalho, apesar do apoio de Gary (Leigh Gill) e da “amizade” de Randall (Glenn Fleshler), e os rumos da política na cidade, com a candidatura de Thomas Wayne (Brett Cullen).

Phillips costura os rumos da vida de Fleck, que, em meio a tudo, sonha em fazer um show de comédia stand-up , com uma visão sombria sobre o comportamento humano. Seu roteiro, apesar de tomar como referência as obras de Scorsese, como já fazia em Cães de guerra – com seus elementos visuais e narrativos de O lobo de Wall Street –, vai muito além e considerá-lo um simples apêndice dessas obras mostra um desentendimento da proposta de Phillips: não estamos diante de um taxista que detesta o cheiro das ruas nem de um stalker em busca da amizade de seu comediante favorito. Sem se basear exatamente no cânone de histórias em quadrinhos do Coringa, o diretor desenha uma figura da qual o espectador se aproxima aos poucos como de um personagem a ser estudado. É exposta a relação dos cenários nos quais Fleck perambula com seu comportamento, e a maneira como ele projeta a realidade se confronta com sua visão sobre construção familiar, a partir da figura emblemática da mãe, feita com sensibilidade por Conroy, e, fantasiosamente, de Murray, em bela atuação de De Niro. A maneira como ela espera dele um comportamento feliz e como ele visualiza o apresentador Murray Franklin como uma espécie de pai artístico é entrelaçada com outra subtrama definidora de que aqui está uma adaptação dos quadrinhos realmente psicológica, escolhida como melhor filme no Festival de Veneza.

Phoenix, com uma atuação extraordinária, vai modulando nuances e mudando seus trejeitos a cada vez que vai descobrindo mais sobre si mesmo (e se autodescobrir, em seu  caso, não é exatamente um mérito) e Phillips não o visualiza, embora pareça, como uma vítima da sociedade, e sim como o resultado de escolhas passadas feitas por outras pessoas, traduzidas no que ele tenta ser e não consegue, pois os limites entre o certo e o errado já se perderam em sua mente e não são simples ou firmados.
Com uma trilha sonora incessante de Hildur Guðnadóttir, retratando o descompasso do personagem central, e uma fotografia exímia de Lawrence Sher, com o qual Phillips habitualmente trabalha e que se inspira na de Emmanuel Lubezki de Birdman, em alguns momentos, Coringa revela um universo no qual a piada feita em cadernos borrados de pensamentos nunca consegue realmente se manifestar – apenas uma risada compulsiva. Fleck é uma espécie de travessia da tentativa de se adaptar e o resultado da inadaptação, e os passos dados por Phoenix na construção de seu personagem são marcantes porque se situam num espaço em que a clareza não se manifesta nunca. Isso porque não sabemos o que nele é humano e desumano, pois ambas as facetas algumas vezes parecem existir nele em diferentes etapas da narrativa e Gotham City e seus habitantes são a projeção de como ele se sente em relação às pessoas.

Por isso, a tentativa de se aproximar amorosamente da vizinha Sophie se mostra tão dolorosa e Phillips consegue extrair uma sensação de solidão inabalável do apartamento em que Fleck vive com sua mãe, com uma densidade singular. São raríssimas as obras capazes de lidar com temas delicados de maneira tão ampla e, principalmente, acompanhar a progressão de um indivíduo em suas complicações antissociais. Se este é visto como uma saída para a sociedade em ruínas? Só o espectador mais desavisado entenderia assim. Coringa provoca o espectador a pensar sobre o que constitui um indivíduo, no caso de Fleck os problemas neurológicos e o que isso é usado em nome de um combate ao sistema – Phillips não está interessado nisso em nenhum momento, como se predispõe a dizer, uma vez que ele enxerga o sistema como parte da própria desculpa para um ser humano com elementos psicóticos se manifestar. Kubrick já usou esses temas em Laranja mecânica, mas Phillips faz em seu filme mais do que uma releitura: ele faz uma leitura da sociedade contemporânea por meio da entrada de um homem na insanidade completa. Desde o início, o filme não está tentando ser bem-humorado; ele pesa. Não serve para indicar exemplos, a não ser de como o cinema pode fazer um registro de impacto quando conta uma história com maestria.

Joker, EUA, 2019 Diretor: Todd Phillips Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Douglas Hodge Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver Fotografia: Lawrence Sher Trilha Sonora: Hildur Guðnadótti Produção: Todd Phillips, Bradley Cooper, Emma Tillinger Koskoff Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, Village Roadshow Pictures, Bron Creative, Joint Effort Distribuidora: Warner Bros. Pictures

O rei da comédia (1983)

Por André Dick

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A parceria entre Martin Scorsese e Robert De Niro rendeu alguns dos melhores filmes que ambos já fizeram: embora Touro indomável seja ainda o mais respeitado e elogiado, e Taxi Driver tenha o status mais forte de cult, não se pode menosprezar a importância de Os bons companheiros e Cabo do medo, e um pouco menos Cassino. Há também aquelas parcerias mais desconhecidas (New York, New York). No entanto, pode-se dizer que a mais subestimada é justamente aquela que apresenta o melhor momento dos dois em toda a sua trajetória: O rei da comédia é uma obra-prima quase esquecida em meio a todo esse punhado de grandes filmes. É curioso que, depois dele. Scorsese ficou alguns anos atrás de financiamento para seus projetos seguintes em razão do seu fracasso nas bilheterias. Mais ainda é imaginar que Scorsese ganhou o Oscar tão perseguido em sua carreira com o bem menos interessante Os infiltrados, da fase cansativa com DiCaprio (com a exceção de Gangues de Nova York).
Possivelmente também, em nenhum outro filme Scorsese conseguiu utilizar o nervosismo de uma trama com a humanidade correspondente do personagem principal, Rupert Pupkin (De Niro), um aspirante a estrela de comédia, que determinado dia consegue entrar no carro de Jerry Langford (Jerry Lewis), um famoso apresentador de TV, para tentar convencê-lo a lhe dar uma chance. Langford lhe promete um encontro, como uma espécie de despiste, enquanto Pupkin imagina que realmente ele conseguirá um espaço em seu programa. Interessado por Rita (Diahnne Abbott), que trabalha num bar, ele imagina a sua vida transformada com o acontecimento de se apresentar na TV. Pupkin passa a procurar Langford, em seu escritório, todos os dias, a fim de tentar revelar o seu trabalho. Primeiro, tenta encontrá-lo como uma extensão do primeiro encontro; depois, quando pedem que prepare uma fita com sua apresentação, tenta se mostrar feliz.

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A sala de recepção do programa é um primor visual, com um ambiente asséptico e um tanto futurista, áspero em se tratando de um ambiente onde trabalha um comediante, com a atendente por trás de um vidro que parece mais uma cabine de espaçonave, escondendo uma sucessão de escritórios organizados o suficiente para manter um programa que pode trazer, inclusive, bom humor. Pupkin é insistente. Volta ao lugar todos os dias e tenta se livrar da parceria com Marsha (Sandra Bernhard), que também se mostra excessivamente presa à figura de Langford. Uma assistente de produção, Cathy (muito bem interpretada por Shelley Hack) tenta se livrar da sua presença. Na verdade, ele quer mostrar o quanto consegue, por meio de suas piadas, relatar a sua história e seu cotidiano. No entanto, o seu cotidiano também se mistura com a fantasia, e se destaca aquela cena em que ele contracena com os cartazes de Langford e Liza Minnelli.
O rei da comédia é um filme de roteiro e montagem, da parceira habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, sempre se mostrando eficiente nos cortes de cena e no crescente. Não apenas em razão do personagem de Pupkin, mas também em razão de Langford, a trama não se mostra aberta a um stand-up, com piadas. No entanto, há uma ironia cáustica em cada comportamento de Pupkin, e, depois de um início em que Scorsese tenta equilibrar esse humor negro com um lado mais cômico (sem se perder como em comédias de humor negro em que o personagem central persegue alguém, e lembro especificamente daquele The cable guy, com Jim Carrey), ele vai, aos poucos, colocando na superfície do filme uma segunda camada de existência e tragédia. Embora Scorsese tenha um especial talento para desenvolver personagens com problemas psicológicos – e De Niro encarnou vários nesses filmes que fez em parceria com o diretor –, talvez ele nunca tenha conseguido, como aqui, desenvolver poucos personagens em poucas situações de maneira tão convincente.

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Isso se deve ao trio principal, De Niro, Lewis e Bernhard. Especialmente De Niro consegue uma atuação que deixa mesmo o seu Jake La Motta, de Touro indomável, em segundo plano, com uma dosagem equilibrada entre a comédia e a excentricidade do personagem, compondo um Pupkin antológico, com seu figurino colorido (sobretudo a cor dos sapatos e da gravata contrastando com o terno); a ele dá respaldo o mau humor do cotidiano de Pupkin diante da situação inusitada de ser perseguido. Durante boa parte do filme, não vemos Langford, já que ele tenta escapar do fã, porém isso só desenha ainda mais o distanciamento desejado por Scorsese entre o universo televisivo e sua contrapartida do lado do espectador. Por sua vez, Bernhard é um misto entre espanto, obsessão e oportunismo, e pertence a ele a sequência, mais ao final, mais inusitada, embora eu prefira ainda o clímax.
Scorsese consegue fazer com que Pupkin seja uma espécie de contador de histórias impulsivo, como é o próprio diretor, entretanto isso em nenhum momento faz com que o espectador se afaste de sua condição, por repulsa ou algo parecido. Se no início há um sentimento de paranoia no ar – e a paranoia é o elemento-chave de Travis Bickle, de Taxi Driver, sendo De Niro apto para dar este movimento –, com elementos que remetem mesmo a Psicose, no seu restante O rei da comédia vai colhendo algumas características de um drama agridoce, contido em seu olhar, mas ainda assim original ao extremo no tratamento que dá ao show business e à visão que se tem da comédia. Claramente, estamos diante de um personagem que vive isolado e se alimenta da imagem de pessoas que riem congeladas no corredor de sua mente. Langford, com sua mesa vazia e o telefone inconveniente tocando, não deixa de ser seu mais claro contraponto. É de se imaginar por que esse roteiro de Paul D. Zimmerman atraiu tanto Scorsese, e pode-se imaginar que foi justamente na fase do diretor em que as dificuldades não foram atenuadas por Touro indomável, e tentar sorrir em cima das dificuldades ainda era um caminho, numa época em que ainda estava tentando se situar num mercado em que seus companheiros Spielberg e George Lucas praticamente lideravam. Para Pupkin, como para Scorsese, o sucesso não é mais do que um prato que se come frio.

The king of comedy, EUA, 1983 Direção: Martin Scorsese Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard, Shelley Hack, Bill Minkin, Cathy Scorsese, Ed Herlihy, Tony Randall Roteiro: Martin Scorsese, Paul D. Zimmerman  Fotografia: Fred Schuler Trilha Sonora: Robbie Robertson Produção: Arnon Milchan Duração: 101 min. Estúdio: Embassy Pictures / Twentieth Century Fox Film Corporation

Melhores filmes de 2017

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2017. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Não se costuma incluir obras que são consideradas séries, mas abriu-se uma exceção para Twin Peaks – O retorno, uma vez que se trata, na minha opinião, de um filme dividido em 18 episódios e dirigido por um dos maiores cineastas da história. Ele foi exibido como tal no Museu de Arte Moderna em Nova York no fim de 2017, assim como em outros lugares do mundo. Este foi um ano especialmente difícil para se escolher a ordem. Qualquer um dos quatro primeiros colocados poderia ser o melhor filme desse ano. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. The Square – A arte da discórdia (Ruben Östlund) 24. Alien: Covenant (Ridley Scott) 23. Graduation (Cristian Mungiu) 22. O sacrifício do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos) 21. O filme da minha vida (Selton Mello) 20. Planeta dos macacos – A guerra (Matt Reeves) 19. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola) 18. A cura (Gore Verbinski) 17. mãe! (Darren Aronofksy) 16. Em ritmo de fuga (Edgar Wright) 15. Columbus (Kogonada) 14. Sombras da vida (David Lowery) 13. A forma da água (Guillermo del Toro) 12. Lágrimas sobre o Mississipi (Dee Rees) 11. Todo o dinheiro do mundo (Ridley Scott)