Poltergeist – O fenômeno (2015)

Por André Dick

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Numa época em que as continuações ou refilmagens dão o tom dos lançamentos no cinema, como Mad Max e Jurassic world, o terror Poltergeist – O fenômeno parece o menos atrativo. Não apenas porque o clássico original se mantém mais pela excelência e nostalgia do que pelo conhecimento de um novo público, à medida que suas duas continuações não foram bem-sucedidas, como pelo fato de não haver uma ligação direta, nos atores e na produção, ao original. A versão de 1982 é dirigida oficialmente por Tobe Hooper, de O massacre da serra elétrica, no entanto quem costuma ser visto como seu principal realizador é Steven Spielberg, autor do roteiro e responsável pela produção. Neste remake, quem substitui Spielberg na produção é Sam Raimi, de A morte do demônio e responsável pela primeira franquia de Homem-aranha.
A história se mantém a mesma. Baseada especificamente em O iluminado e O exorcista, mostra a chegada de uma família a uma nova casa. Os pais são Eric Bowen (Sam Rockwell), à procura de um emprego, e Amy (Rosemarie DeWitt), que deseja ser escritora. Seus filhos são Griffin (Kyle Catlett), Madison (Kennedi Clements) e Kendra (Saxon Sharbino). Enquanto a irmã mais velha, Kendra, gosta de assistir a um programa de paranormalidade, apresentado por Carrigan Burke (Jared Harris, o terrível vilão do segundo Sherlock Holmes), Griffin tem receio desde quando se perdeu, certo dia no shopping, e Madison vem se comportando de maneira estranha, sobretudo quando diante de um armário. O primeiro Poltergeist (particularmente, um dos filmes mais assustadores já feitos) era excelente na modelação de uma atmosfera, com a hora inicial muito bem trabalhada. Esta refilmagem, de certo modo, apaga parte desta construção e vai direto aos sustos. No entanto, mais interessante é se exigir desenvolvimento aqui e vibrar com a perseguição ininterrupta de Mad Max pelo deserto ou com os dinossauros previsíveis de Jurassic World.

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É difícil, no gênero de terror e suspense, definir o que garante a qualidade: em termos de sustos, esta refilmagem é bastante convincente. O quarto de Griffin, o armário de Madison – tudo é composto de maneira crível. Talvez não fique tão clara a paranormalidade de Madison, e quando a ameaça vem da televisão. Não apenas, de qualquer modo, o novo Poltergeist se mostra um filme interessante. Se a ação parece acontecer rapidamente demais (o que não deixa de ser um mérito, num período em que se contam os minutos para que um filme termine), tudo não acontece sem um cuidado no design da casa e da fotografia excelente de Javier Aguirresarobe. Seu trabalho em Os outros e A hora do espanto (além de trabalhar com Woody Allen) confirma como consegue captar sustos na movimentação de câmera e na mudança brusca de uma cena para outra.
É certo que o diretor Gil Kenan, do desenho animado muito interessante A casa monstro, não lida bem com a recepção dos pais diante do fato de que os filhos estão sendo ameaçados por fantasmas que saem da televisão. Ou seja, a atuação de Rockwell e DeWitt não se aproximam daquelas de JoBeth Williams e Craig T. Nelson. Ainda assim, Kenan emprega uma tensão  permanente e conta com Kyle Catlett, que no ano passado fez o personagem T.S. Spivet no sensível Uma viagem extraordinária e mostra aqui novamente seu talento. Levando em conta que Poltergeist é encenado praticamente dentro da casa (há apenas uma sequência de um jantar externo), fica fácil entender por que este filme soe sintético, também no desenvolvimento dos personagens e mesmo assim efetivo. Enquanto esta refilmagem não inova muito nas situações, ela reproduz cenas do original talvez de maneira mais apertada e assustadora, sobretudo uma que envolve uma árvore e, definitivamente, aquelas que se passam num armário, remetendo quase às paisagens infernais descritas por Dante, com uma concepção visual impressionante. E há duas sequências (com o drone e a furadeira) que lidam com uma montagem bastante eficiente, conduzindo o espectador para o espaço reduzido da casa.

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Perdi o número de vezes que vi o original e, sabendo o que aconteceria aqui na maior parte do tempo, ainda conseguiu ser assustador. Kenan também possui um olhar muito bom para capturar o cenário dos subúrbios, que desde Meus vizinhos são um terror talvez estejam sumidos. Há uma luminosidade nas ruas que dialoga com Amor pleno, de Malick, assim como um cuidado em reproduzir, por meio da fotografia, os espíritos se manifestando pela energia elétrica. Em alguns momentos, Aguirresarobe confere um trabalho tão específico de cores no quadro que este Poltergeist se sente ainda melhor filmado do que o original no sentido técnico (independente da diferença de anos e de utilização de efeitos especiais). Há um uso muito bom da televisão e dos aparelhos para criar suspense e os cenários de fundo parecem sempre guardar uma ameaça desconhecida, embora não se compare, entre as peças recentes do gênero, a Corrente do mal. Se a filha considera que um celular é item obrigatório, seus pais pouco querem conversar com os filhos ou ouvi-los. Neste Poltergeist, todos estão atentos apenas para o movimento: o diálogo com pessoas ao redor está sensivelmente diminuído. Se a crítica no original era de Spielberg à televisão, aqui a crítica se volta contra essa dispersão – e talvez por isso o final se sinta de tão pouca intensidade.
O que parece ainda afastar esta refilmagem do filme de Tobe Hooper é sua temática de fundo: enquanto no original tínhamos dois pais com problemas de relação com os filhos, e ainda assim interessados numa convivência, parece aqui que temos apenas dois pais ligeiramente desligados das questões mais urgentes, afetados pela crise dos Estados Unidos e sendo obrigados a morar no subúrbio por falta de opção. Rockwell é um ótimo ator para compor este tipo de atitude. A descrença dele no que está acontecendo é a mesma que ele lança sobre o preço oferecido pela casa em que sua família vai morar – ele está, digamos, em outra, praticamente durante toda a história, pouco ligando para o que acontece à sua volta; no momento em que ele precisa vir à tona, Rockwell se estabelece.
Ou seja, do mesmo modo que é possível entender que os admiradores do original considerem essa refilmagem desnecessária – em muitos pontos ela é –, é possível que quem conhece ou desconhece o filme de 1982 não se sinta tão desapontado e sinta que Kenan pretendeu aqui realmente fazer um filme visualmente cuidado, mesmo que visivelmente com um acabamento diferente do anterior: este Poltergeist é um filme ágil e brusco; ainda assim, é cinema de qualidade.

Poltergeist, EUA, 2015 Diretor: Gil Kenan Elenco: Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Kennedi Clements, Kyle Catlett, Saxon Sharbino, Jane Adams, Jared Harris Roteiro: David Lindsay-Abaire Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Marc Streitenfeld Produção: Nathan Kahane, Robert G. Tapert, Roy Lee, Sam Raimi Duração: 94 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Ghost House Pictures / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Vertigo Entertainment

Cotação 4 estrelas

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Jauja (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, tem sido raro encontrar filmes com uma atmosfera capaz de dialogar com as atuações, procurando mais características desapegadas de uma narrativa linear do que uma necessidade de estabelecer um contato estreito com o público. Muitas vezes, é preciso selecionar essas obras, que costumam passar quase escondidas pelas salas de cinema. Não necessariamente são boas, como podem provar muitas peças de arthouse que se apegam a uma proteção do cinema meramente intelectual e dificilmente conseguem dizer algo mais do que estão expondo.
Dirigido pelo argentino Lisandro Alonso, Jauja, muito em razão da fotografia de Timo Salminen, parece, mais do que cinema, uma coleção de pinturas. Lançado no Festival de Cannes em 2014, na mostra “Um certo olhar”, na qual também foi exibido Lost river, o filme fascinante de Ryan Gosling. Os enquadramentos são exatos e o trabalho de cores esplendoroso, dialogando com o El Topo de Jodorowsky, destacando cada elemento na tela, para mostrar a trajetória do capitão e engenheiro Gunnar Dinesen, da Dinamarca, pela Patagônia, em 1882, incorporado ao exército argentino na busca pela ocupação antecipada de novo espaço e perseguição aos nativos (embora o filme não se concentre nisso). Ele está atrás de sua filha desaparecida, Dinesen Ingeborg (Viilbjork Mallin Agge), de 15 anos de idade, que fugiu com um dos soldados do acampamento, Corto (Misael Saavedra).

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Depois disso, ele sai pelo pampa tentando encontrá-la – e nisso reside a história do filme. Se no clássico El Topo, Jodorowsky fazia uma contra-homenagem ao faroeste, não é diferente com Lisandro Alonso: ele mostra o verde do pampa, o céu azul e as águas do oceano como se fossem um lugar paradisíaco, no entanto desgastado pelo afastamento da filha. A princípio, só vemos calmaria, nenhuma presença ríspida de conflito. E Jauja, do título, se refere não a uma cidade real, e sim a uma espécie de paraíso mítico, uma espécie de Éden prometido para um europeu; o interesse do personagem parece estar focado na dominação desse espaço.
Também há uma impressionante qualidade no modo como Lisandro filma as imagens de dia e à noite, no acampamento, com o vento batendo nas barracas, com uma força muito grande, mas sempre atraindo o espectador e combina as cores dos uniformes com os elementos da natureza (o vermelho da calça de um soldado contrasta com as rochas cinzas; o uniforme de Dinesen e o vestido de sua filha dialogam com o azul celeste do céu). Há uma profusão de rimas visuais, numa narrativa em que o engenheiro olha o horizonte com uma luneta, enquanto um soldado tenta imaginar algo com parte do corpo submerso na água. Há certamente influência de O atalho, de Kelly Richardt, e diálogo com Slow West (apesar de serem do mesmo ano), o faroeste recente com Michael Fassbender com suas paisagens transpondo o espaço do Velho Oeste norte-americano. A obra de Lisandro foi rodada em película de 35mm na proporção 4:3, tendo seus cantos da tela arredondados, como antigamente; a impressão que temos é a de folhearmos um álbum com fotografias antigas. Como Slow West, o espectador se depara uma atmosfera não dos faroestes de Clint Eastwood, mas de Dead man, de Jim Jarmusch, uma espécie de coda do Velho Oeste.

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Ainda assim, Jauja não se sente como um filme de arthouse ou baseado apenas em sua beleza fotográfica: Lisandro Alonso consegue transformar Dinesen em uma figura notavelmente humana, no apelo e busca pelo paradeiro da filha num lugar inóspito. Sob certo ponto de vista, Jauja parece recordar uma espécie de análise do colonialismo muito em voga no plano teórico e esquecido na prática; suas paisagens e seus personagens estão adequados a esta visão, sendo quase uma versão de cinema mudo para a poesia empregada por Malick em forma de imagens em O novo mundo: aqui a descoberta de um novo continente não traz reflexões e sim uma procura quase esvaziada, e ela se mantém ao longo de toda a história, como se esses personagens estivessem deslocados no tempo e no espaço, vivendo à parte, a sós consigo mesmos. E quando precisam utilizar sua arma é como se fosse um duelo mais com sua angústia e natureza do que contra outro homem.
Não apenas Dinesen é um personagem interessante em sua busca como Viggo Mortensen, também um dos produtores e autor da trilha sonora, oferece uma atuação gratificante, revelando mais uma vez, depois dos experimentos com Cronenberg, ser um ator aberto a riscos – e mostrando sua fidelidade à Argentina, onde de fato passou sua infância. A maneira como ele se mostra ao longo da narrativa, sem nenhum traço de astro de Hollywood, oferece um plano consistente do qual Jauja parte para se transformar não apenas em cinema reflexivo, mas também capaz de colocar o espectador inserido em seu roteiro. E é ele, afinal, quem fornece a porção trágica e humana deste filme sintético, mas sujeito a inúmeras interpretações, sobretudo em razão de sua meia hora final enigmática.

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Todos os simbolismos parecem acertados, como a analogia entre os rochedos e o mar, a vegetação e o céu, lembrando, a partir de determinado momento, um pouco Walkabout, de Nicolas Roeg, desta vez com a presença do europeu na América Latina. Na parte final, o diálogo parece extensivo com Tarkovsky, no plano do cinema, e com a literatura de Borges, e novamente a fotografia de Salminen registra uma época sem tempo definido, como a própria sensação que traz o filme ao longo de sua narrativa. Capaz, como o cinema de Tarkovsky, tanto de encantar quando provocar bocejos no espectador mais desavisado, Jauja é capaz, a seu fim, de remeter a outra obra-prima, Piquenique na montanha misteriosa, de Peter Weir: nesse espaço, a natureza parece finalmente confrontar Dinesen e sua saída, distanciando-se da loucura de perder a filha, pode ser a observação das estrelas. Alonso filma essas cenas, em que Dinesen adentra uma gruta também, de maneira sensível e repleta de significados. Para o espectador, a impressão é que o personagem encontra esse lugar mítico – Jauja – quando, enfim, se encontra consigo mesmo.

Jauja, Argentina/Dinamarca/França/México,Estados Unidos/Holanda/Brasil, 2014 Diretor: Lisandro Alonso Elenco: Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Nørby, Mariano Arce, Viilbjørk Malling Agger, Misael Saavedra, Adrián Fondari Roteiro: Fabian Casas, Lisandro Alonso Fotografia: Timo Salminen Trilha Sonora: Viggo Mortensen Produção: Andy Kleinman, Helle Ulsteen, Ilse Hughan, Jaime Romandía, Sylvie Pialat, Viggo Mortensen Duração: 109 min.Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Bananeira Filmes

Cotação 4 estrelas e meia

 

Jurassic World – O mundo dos dinossauros (2015)

Por André Dick

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Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu o Oscar de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.
Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora o maior filme com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Já fazem 14 anos desde este último experimento, e desde lá os dinossauros parecem um tanto adormecidos nas grandes telas.

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A expectativa é de que Jurassic World – O mundo dos dinossauros, a nova continuação, não mais dirigida por Spielberg (que apenas produz) e sim por Colin Trevorrow, fosse trazer uma certa magia poucas vezes reencontrada. Deve-se lembrar que Spielberg, afastado dos blockbusters, conseguiu transformar Jurassic World na maior bilheteria de abertura da história. Esta grandeza é acompanhada novamente pelas criaturas. Lá estão elas novamente, junto com um novo casal – embora sempre em briga – formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) . Ela é uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, enquanto ele treina investiga o comportamento dos velociraptors. Em torno deles, a pesquisa do geneticista Dr. Henry Wu (B.D. Wong) produziu o Indominus rex, um híbrido de vários dinossauros, mas que lembra substancialmente um Tiranossaurus Rex. O objetivo: atrair mais pessoas para o parque, pois sua visitação tem diminuído e o público pede por novidades.
Depois de sua irmã Karen Mitchell (Judy Greer) enviar os dois sobrinhos para o parque, Zach (Nick Robinson) e Gray (Ty Simpkins), a fim de que se divirtam, Claire consegue se desvencilhar deles, que ficam uma cuidadora. Esses personagens formam as mesmas características do primeiro Jurassic Park e as crianças novamente estão interessadas em se envolver com o que está escondido na mata. Temos ainda o dono do Jurassic World, Simon Masrani (Irrfan Khan), com as mesmas dúvidas do dono original.
Indefinido entre ser uma continuação ou um remake, Jurassic World infelizmente não funciona, de modo geral, nessas duas concepções. Neste ano, tivemos o altamente subestimado remake de Poltergeist, mesmo com todas suas falhas. Não seria Trevorrow que conseguiria emular Spielberg: ele procura os meios iguais, e a mesma tendência não só ao uso do clássico sinfônico de John Williams, mesmo com a trilha nova de Michael Giacchino, os mesmos temas (a separação dos pais para os filhos), a mesma manipulação emocional e a mania de os personagens se transformarem subitamente pela força de vontade, no entanto ele não é Spielberg e tudo parece soar um pouco desconjuntado.

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Claire passa de uma executiva de terno a uma espécie de Ripley quando apresenta sua regata e diz que nunca mais abandonará os sobrinhos, dos quais queria distância, enquanto Owen tem um domínio insuspeito sobre os velociraptors (eles parecem querer conversar). Não só Owen parece querer conversar com as criaturas, como também Vic Hoskins (Vincent D’Onofrio), o chefe da segurança do lugar, aquele que trocaria todas as milhares de pessoas em visita ao parque por uma tentativa de estabelecer contato com dinossauros geneticamente alterados. Quando ele age, o saco de risos está preparado. As crianças ouvem avisos de perigo, para abandonar o bote, mas é inevitável que elas devem seguir o mesmo caminho do primeiro Jurassic Park. O complicado aqui é que os dinossauros parecem acompanhar até mesmo as placas de trânsito e Owen, além de conversar mentalmente com os velociraptors, tem o ímpeto de correr de moto entre os dinossauros, à noite, numa mata fechada.
Tudo é grandioso como o primeiro Jurassic Park, sem, contudo, o mesmo ritmo e a mesma vida. Os cortes oferecidos pelo diretor são pouco elegantes e quando não pretende mostrar uma cena violenta faz o sangue respingar como numa produção B, além do design de produção francamente decepcionante, uma réplica daquele que vemos nos três anteriores.
Pratt é subutilizado, pois tem uma boa veia para o humor (praticamente ausente da narrativa), já mostrada em Guardiões da galáxia, e Dallas Howard não tem oportunidade de revelar sua porção dramática, usada com intensidade em A vila e Histórias cruzadas, por exemplo, para dar à sua presença mais do que uma conversão repentina. Neill e Laura Dern, do primeiro, neste caso, realmente agiam como seres envolvidos com este universo: em Jurassic World, o casal é apenas uma lembrança de que pode haver romance num filme de verão. E, também por causa do roteiro, Nick Robinson e Ty Simpkins não conseguem se destacar.

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Não sem tentativa. Assim como a refilmagem de Godzilla, do ano passado, este Jurassic World procura abordar temas científicos, sobre a criação híbrida de dinossauros, podendo chegar a uma inteligência inesperada. O personagem de Owen é justamente contra isso, e algumas vezes ele entra em discordância com Claire e Vic sobre como tratar as criaturas pré-históricas. No entanto, esta faceta realmente apenas tenta dialogar com a do primeiro filme, melhor desenhada pelo personagem de Sam Neill. A partir daí, Trevorrow parece homenagear algumas peças de que gosta, como Tubarão e Os pássaros (este talvez na melhor sequência). O roteiro, mesmo escrito a oito mãos, pelo diretor, mais Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver, não mostra uma única vez algo que não pareça já programado antes da primeira escrita. Nesse sentido, é cada vez mais comum se justificar que um filme de ação não precisa de desenvolvimento de roteiro nem de personagens minimamente interessantes. Se esta é sua expectativa, Jurassic World é um parque de diversões. Mas é, ao mesmo tempo, uma grande falha, ao não transpor a nostalgia de vinte anos atrás para algo que ressoe uma emoção verdadeira, não apenas conduzida pelas bilheterias.

Jurassic World, EUA, 2015 Diretor: Colin Trevorrow Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy, B.D. Wong, Irrfan Khan, Jake Johnson, Brian Tee, Lauren Lapkus, Katie McGrath, Judy Greer, Andy Buckley Roteiro: Colin Trevorrow, Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver Fotografia: John Schwartzman Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Thomas Tull Duração: 126 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Universal Pictures

Cotação 2 estrelas

 

Enquanto somos jovens (2015)

Por André Dick

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O olhar do diretor Noah Baumbach sempre esteve voltado para os conflitos marcados pela passagem da juventude para a vida adulta, ou mesmo por adultos tentando se adaptar ao seu presente, sem nunca conseguirem se desligar do passado. Embora as experiências no roteiro com Wes Anderson não tragam exatamente esses temas, em A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, eles estão presentes em filmes que o próprio Baumbach dirigiu. Depois de uma estreia nos anos 90, com Tempo de decisão, ele dirigiu o ótimo A lula e a baleia, sobre uma família procurando elos de ligação, e em seguida Margot e o casamento, com Nicole Kidman, e certamente seu filme mais subestimado, Greenberg (que recebeu no Brasil o título lamentável O solteirão), com Ben Stiller. Depois das boas críticas com Frances Ha, estrelado por Greta Gerwig, sua namorada, que está no seu próximo filme, Mistress America, a ser lançado também este ano, Baumbach retomou sua parceria com Stiller neste Enquanto somos jovens. A princípio, é compreensível por que este filme não está recebendo a mesma atenção de Frances Ha: ele não tem a mesma estrela ingênua à frente do elenco, e a história é mais amarga, assim como Greenberg e Margot e o casamento.
Josh (Stiller) e Cornelia Svhrebnick (Naomi Watts) formam um casal em Nova York. Enquanto busca equilibrar o desejo inconsciente de ter filhos, Josh tenta completar um documentário sobre o intelectual Ira Mandelstam (Peter Yarrow) e dá aulas na universidade Dois ouvintes, Jamie (Adam Driver) e Darby Massey (Amanda Seyfried), se anunciam e Jamie, especificamente, diz ser admirador do documentário que ele realizou anteriormente, assim como do sogro dele, Leslie Breitbart (Charles Grodin). A relação conflituosa entre Josh e Cornelia se mostra ainda mais forte quando eles estabelecem uma amizade com esse casal. Jamie agrada a Josh não apenas pela juventude, como valorizar, ao mesmo tempo, Cidadão Kane e Rocky III, e se surpreende  quando o objetivo de Darby é trabalhar com o ramo de sorvetes. O que lhe agrada é o aparente descompromisso do casal.

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Há um clima bastante importado de alguns filmes de Woody Allen, não apenas pelo cenário de Nova York, como também pelos diálogos que remetem ao próprio cinema e à literatura. No entanto, onde Allen tenta tornar seus personagens mais agradáveis, não acontece o mesmo com Baumbach. Sua predileção é colocar seus personagens em conflitos às vezes por detalhes insignificantes, e busca não apenas o humor nisso, como também um misto de inveja e de sede de um indivíduo se sobrepor o outro. Em Frances Ha, era interessante como Baumbach mostrava sua protagonista sempre com graves problemas, porém sem aprofundar exatamente essa melancolia. O mesmo acontece em Enquanto somos jovens: os personagens nitidamente não estão felizes, embora queiram estar. Mais do que em Greenberg e Frances Ha, não há um simples encantamento com a possibilidade de se manter jovem: em Enquanto somos jovens, Josh e Cornelia se mostram desamparados, por não conseguirem mais agir como pessoas jovens, tentando pensar no futuro, mesmo com a ligação mantida com o casal Fletcher (Adam Horovitz) e Marina (Maria Dizzia).
Isso leva à citação de Henrik Ibsen, de The Master Builder, que abre o filme e remete à possibilidade de os jovens entrarem na vida de alguém mais velho para, sem outra palavra, bagunçá-la. Baumbach utiliza esta citação de Ibsen para realizar o que Woody Allen realizou em Crimes e pecados. Naquele filme, Allen interpretava um personagem que fazia um documentário sobre o cunhado, interpretado por Alan Alda. Aqui, em determinado ponto, quando Josh se mostra confiante em dividir seus planos e interesses com Jamie, ele passa também a querer participar do documentário imaginado pelo amigo. Isso acaba produzindo um clima de competição, enquanto Darby leva Cornelia a aulas de hip-hop. Há conflitos de geração muito interessantes expostos por Baumbach de forma até discreta, como aqueles que se relacionam com as tecnologias (uso de celulares, por exemplo) e a tentativa de soar como o outro mais jovem (quando Josh resolve usar chapéu como Jamie). Essa tentativa de se adaptar a um novo tempo parece um assunto óbvio, no entanto Baumbach tem talento ao costurá-lo de acordo com as interpretações e diferentes nuances que os personagens vão mostrando. Ele, de certo modo, expande a segunda metade de Frances Ha – a dificuldade de a personagem lidar com a solidão – num retrato de um casal chegando à meia-idade com um certo desespero existencial de não ter conseguido, de maneira completa, o que mais queria.

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Com isso, também há sequências divertidas, como a reunião, em determinado momento, dos casais e a tentativa de provarem Josh e Cornelia provarem que gostam um do outro. O tema da paternidade também dialoga com Distante nós vamos, de Sam Mendes, um filme quase esquecido de 2009, em que o casal viajava à procura de um lugar adequado para se estabelecer – enquanto a mulher está esperando um filho. Assim como lá, há uma sensação permanente de melancolia na reação desses pares, e enquanto Josh e Cornelia vão se afastando do seu casal de amigos com a mesma idade, que já tem um bebê, vai ficando mais claro o que eles realmente querem em suas vidas. Baumbach não trabalha isso distante de elementos evidentes de humor, no entanto enlaça tudo com uma sensação de despedida da juventude.
O que pode diminuir a intensidade de Enquanto somos jovens é justamente a sua tentativa de colocar Adam Driver como um ator capaz de atuar tanto quanto o personagem principal; impressiona como Driver ainda não consegue ser efetivo num papel mais extenso. Enquanto Stiller e Watts formam um casal cujos conflitos são convincentes, Seyfried se sente um pouco deslocada justamente em razão de Driver, ocupando quase todas as cenas em que eles dividem. O ex-Beastie Boys Horovitz tem uma boa interpretação, complementando bem as cenas em que divide com Stiller ou Watts, sempre levando Enquanto somos jovens para essa sensação de compromisso da vida adulta, ou tentativa de se afastar dele. Mas é Grodin que, além da excelência como ator, que faz costurar um pouco melhor a terceira parte da narrativa, um pouco inferior às demais, quando Baumbach pretende investigar a questão do que seria verdade ou não na realização de um documentário. Aqui, é possível sentir um pensamento quase conceitual do diretor; no entanto, isto é evidente no filme que o inspirou, o já referido Crimes e pecados e, mesmo um tanto deslocado da atmosfera geral da narrativa, indica a proposta de Enquanto somos jovens: a ingenuidade e o descompromisso da juventude podem esconder os mesmos dilemas da vida adulta.

While we’re young, EUA, 2015 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver, Amanda Seyfried, Charles Grodin, Brady Corbet, Adam Horowitz, Maria Dizzia  Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: James Murphy Produção: Eli Bush, Lila Yacoub, Noah Baumbach, Scott Rudin Duração: 97 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 3 estrelas e meia 

Kurt Cobain: Montage of Heck (2015)

Por André Dick

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O músico Kurt Cobain possivelmente seja o nome que mais continue despertando novas histórias no cenário musical, desde o surgimento da banda Nirvana no início dos anos 90 e mesmo mais de duas décadas depois de seu suicídio. Tudo o que cerca Cobain sempre teve os dois lados da moeda: para os admiradores, tratou-se, sem dúvida, de um dos maiores compositores; para os detratores, apenas um símbolo de que o rock enaltece demais para depois destruir o que acaba por se definir como mito. Gostando ou não do Nirvana, ela ajudou a modificar a indústria fonográfica. Quem foi adolescente no início dos anos 90 sabe da sua importância para redefinir um cenário que ficou marcado pela cena de Seattle, com outras boas bandas e que Cameron Crowe destacou em seu Vida de solteiro, dando mais espaço ao Pearl Jam, do qual sempre foi mais próximo.
Daí a importância de surgir um documentário como Kurt Cobain: Montage of Heck, realizado por Brett Morgen depois de receber a ajuda de Courtney Love, e com a produção executiva de Frances Bean, a filha de Cobain. Para os admiradores da banda, trata-se de um documentário interessante, na medida em que revela muitas imagens até então inéditas (embora as dos shows sejam quase reprises de outros DVDs da banda, associados à MTV). Ele tem uma linguagem rápida, lidando ainda com imagens dos cadernos de Cobain, que ganham movimento, como animações. Ainda assim, seu tom narrativo faz despertar uma curiosidade: até que ponto o documentarista estaria à vontade para tratar de Cobain sem a presença de sua família? A partir deste ponto, o documentário não perde em momento algum sua validade, no entanto seu impacto acaba atenuado.

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Vemos depoimentos da mãe, da irmã e do pai de Cobain. Os seus pais, em determinado momento da adolescência, se afastaram dele, fazendo com que se tornasse quase um andarilho, mudando de casa continuamente. E há depoimentos de Krist Novoselic, o baixista. Não vemos Dave Grohl, a não ser em vídeos dos anos 90, e justificou-se que ele não pôde gravar  um depoimento dentro do prazo solicitado e, quando gravou, o diretor não o incluiu. Tratar da vida de Cobain sem trazer Grohl e dando apenas breves espaços a Novoselic parece estranho, sobretudo porque, independente de seu relacionamento (e a partir de determinado momento era conflituoso, pois Cobain queria um ganho bem maior do que os outros da banda, conforme sua biografia referencial Mais pesado do que o céu, de Charles Cross), eles formaram uma das maiores bandas da história e lançaram, num espaço de três anos, quatro trabalhos primorosos: Nervermind, Incesticide (B-sides), In utero e o Unplugged MTV.
Se o documentarista trata do início da vida de Cobain de forma interessante, mas até certo ponto apressada, não deixando espaço também para que a ex-namorada de Cobain, Tracy Marander, possa detalhar o cotidiano – e ela parece a figura mais próxima daquilo que se imagina que Cobain seria, apesar de ela ressaltar a separação a partir do ponto em que ele estava crescendo e ela, ficando estagnada –, o filme parece criar uma ausência de humanidade. O diretor considera que as imagens dos cadernos de Cobain possam desvendá-lo (e ele faz as animações com enorme zelo pelo material, destacando, principalmente, suas perturbações orgânicas, tratadas em todos os materiais sobre sua vida, não exatamente ligadas ao uso de drogas) e quem poderia era justamente as pessoas mais próximas dele.
Apesar da característica solitária, Cobain não vivia num vácuo e certamente, pela sua criatividade, era também uma pessoa muito interessada em produzir conjuntamente. Também não se vê o interesse dele em ajudar bandas de amigos, ou sua clara admiração por Mudhoney, Sonic Youth, The Melvins, Pixies, The Breeders e Meat Puppets (que participariam do Acústico) e a amizade com músicos dessas bandas – para o documentarista, é como se Cobain não tivesse ligação com o mundo artístico à sua volta.

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Pelo contrário, ele foi um artista generoso e, quando fazia In utero, ele teria pedido ao produtor Steve Albini que o disco soasse de garagem como muitos trabalhos do Pixies (de quem admirava especialmente Surfer rosa). E Kim Gordon, do Sonic Youth, que recomendou Cobain para a Sub Pop poderia ter recebido um espaço. Nesse sentido, o documentário não captura exatamente o que seria Cobain: ele não era um artista que se considerava a voz de sua geração, mas sim um admirador de todos os trabalhos que o influenciaram de maneira decisiva. Os seus amigos possivelmente teriam ajudado a dar uma impressão mais ampla sobre o que ele foi.
O documentário não apenas evita mostrar seu potencial criativo também em conjunto, como quase restringe sua criatividade ao ambiente doméstico e seu relacionamento com Courtney Love, sobretudo na parte final, quando parece selecionar apenas os momentos em que ele aparenta estar sob efeito de drogas, fingindo responder a questões em entrevistas ou posando de rock star. Mas Cobain não era, e nisso sempre me pareceu seu afastamento do mainstream e a aversão que nutriria se fizesse hoje CDs ao vivo retomando também os antigos clássicos, exatamente um poseur. Nesse sentido, ele não era o que se tornaram outros músicos também talentosos de sua geração. Cobain parecia obcecado inicialmente pelo sucesso do Nirvana, o que fica claro em sua biografia (o documentário é tímido neste sentido), mas, no fim das contas, ele estava mais apegado, afinal, à sua infância em Aberdeen – pelo documentário, o momento em que foi, de certo modo, mais feliz. Por isso, em Montage of heck, quando Novoselic comenta que ele teria casado com Courtney porque gostaria de constituir um lugar, uma família, e o documentário se fixa na presença da vocalista do Hole é que o documentarista deixa claro que sua família não era o Nirvana e sim sua mulher e, em seguida, sua filha. Trata-se de algo que pode ser facilmente colocado em desconfiança, pois Cobain, como artista, tentava essa conciliação, sem, ao que tudo indica, conseguir – tanto que se tornaram públicas sua angústia com a possibilidade de perder outra família e com o universo musical em que estava inserido, o qual, antes do final de sua vida, não apreciava mais.

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Com extrema polidez, Morgen aborda a pressão da imprensa, à época, de que Courtney talvez estivesse usando drogas durante sua gravidez. E revela um telefonema ameaçador que Cobain teria dado a uma jornalista, por ela contar detalhes do casal, o que já consta em sua biografia assinada por Cross. A sensação, aqui, não é de havia apenas uma pressão sobre Kurt, ainda maior devido aos seus problemas com drogas – é muito clara essa tentativa pelas imagens do casal, algumas delas extremamente humanas, outras que trazem a incômoda sensação de rotular Cobain ou mostrar que estaria isolado de todos, apoiado apenas na família e interessado em fazer piadas com o Guns N’Roses. E há uma tentativa clara de situar o casal como uma espécie de John Lennon e Yoko Ono em protesto contra a guerra, isolado, contra o mundo exterior. Praticamente a banda se ausenta da segunda parte, como se ele tivesse parado de atuar como músico depois da explosão de Nevermind, e não realizado mais alguns trabalhos que mereciam uma concentração criativa, principalmente In utero (a MTV tem uma entrevista muito boa sobre esse disco, não colocada no filme, em que Cobain se mostra, no mínimo, diferente do modo restrito como aparece nesse documentário de Morgen). As cenas de bastidores da banda são apenas, salvo engano, as já conhecidas, assim como a de shows, inclusive no Hollywood Rock, no Brasil, em 1992. Ao fim, o que se pode dizer é que o material foi muito bem solucionado em termos de imagens e de montagem, no entanto é tendencioso, restringindo a visão da obra de Cobain e sendo mais uma homenagem ao período em que passou com sua filha e Courtney Love. Montage of heck pode apresentar o músico e a sua banda a quem não o conhece e mesmo agradar aos fãs, porém aqui não há a essência – um misto de alegria, angústia e, afinal, entretenimento – que fez o Nirvana uma das maiores bandas da história.

Kurt Cobain: Montage of Heck Diretor: Brett Morgen Elenco: Kurt Cobain, Courtney Love, Dave Grohl, Krist Novoselic, Tracy Marander, Wendy O’Connor, Kim Cobain, Donald Cobain Roteiro: Brett Morgen Duração: 132 min. Distribuidora: HBO Documentary Films

Cotação 3 estrelas

A espiã que sabia de menos (2015)

Por André Dick

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Poucas vezes há oportunidade de se deparar com uma comédia interessante nos últimos anos ou que não esteja restrita a um encontro de amigos filmado, com aspecto de terminado às pressas. Um gênero que teve nos anos 80 Jim Abrahams e os irmãos David e Jerry Zucker, com nomes como Apertem os cintos, o piloto assumiu, Top secret! e Corra que polícia vem aí, como um de seus grandes momentos. Nos anos 2000, há duas vertentes de humor no cinema norte-americano, e elas acabam se reunindo de certo modo em A espiã que sabia de menos: é uma sátira e, ao mesmo tempo, um estudo de um personagem com a autoestima abalada pelos acontecimentos. Se esta característica fundou praticamente a trajetória de Steve Carell no humor, não o é com muita diferença com Melissa McCarthy. Revelada sobretudo em Missão madrinha de casamento, pelo qual foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, ela é uma ótima comediante, das melhores que surgiram na última década e infelizmente rotulada como humor apenas grosseiro.
Este ano Melissa já havia tido uma boa participação no sensível Um santo vizinho, ao lado de Bill Murray e Naomi Watts, destoando um pouco do humor que empregou em Missão madrinha e As bem-armadas – divertida comédia policial com Sandra Bullock, com sua sátira a Máquina mortífera. Em A espiã que sabia de menos, Melissa se reúne novamente com Paul Feig, que realizou esses dois filmes, e fez em parceria com Judd Apatow a saudosa série Freaks and geeks. Tendo como mote uma brincadeira com 007, uma espécie de Agente 86 feminino, tudo indicaria A espiã que sabia de menos como uma comédia memorável.

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A história é mero papel fino. Melissa faz Susan Cooper, que trabalha como auxiliar do agente Bradley Fine (um Jude Law tão deslocado quanto seus risos nervosos, totalmente afastado desse gênero). Em determinada missão, ele acaba sucumbindo a Rayna Boyanov (Rose Byrne) – e isso não chega a ser um spoiler, já que sabemos de antemão que ela se transformará naquela que poderá desvendar o mistério, desta vez com a ajuda da amiga Nancy B. Artingstall (Miranda Hart), depois de dividirem intrigas sobre Karen Walker (Morena Baccarin). Tudo é motivo para ela entrar em conflito com a superior, Elaine Crocker (Allisson Janney), e com um dos agentes, Rick Ford (Jason Statham), que não a aceita na missão, além de mote inicial para uma viagem por paisagens europeias, a começar pela França, onde Susan se hospedará num hotel que lembraria O fabuloso destino de Amélie Poulain não fossem os ratos. E é uma justificativa para a personagem colocar em xeque sua autoestima abalada, pois nunca de fato, apesar da formação, foi colocada em campo, permanecendo nos bastidores. Ela passa a ficar no encalço de Sergio De Luca (Bobby Cannavale), com a ajuda de Aldo (Peter Serafinowicz).
Melissa é uma atriz bastante eficiente, com um humor que se situa entre o ingênuo e o provocador, e se mostra novamente desse modo em A espiã que sabia de menos. No entanto, apesar das ótimas cenas de ação e algumas piadas engraçadas, este filme parece menos interessante do que As bem-armadas, também de Feig e com Melissa – muito em razão da ausência de Sandra Bullock, que consegue servir como escada para Melissa se destacar. É verdade que Jason Statham tem momentos tão bons quanto Melissa aqui, mas ambos são prejudicados por uma lamentavelmente caricata Rose Byrne, uma surpresa, por ser boa atriz, e um clima previsível de sátira a 007, o que já era claramente o problema de Agente 86.

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Melissa não consegue visivelmente improvisar em muitos momentos porque o roteiro está circunscrito sempre a esse clima de sátira, ao contrário de Missão madrinha de casamento, que conseguia, por meio de sua corrosão, mostrar o clima de organização de casamento, em meio a brigas e separações, com a presença de Kristen Wiig, uma atriz notável para o gênero e o roteiro também assinado por ela (não por acaso, indicado ao Oscar). E, ainda, sem espaço suficiente para improvisar em cima de um roteiro que não reconhece a importância de cada personagem, Melissa dispara, numa velocidade igual à cena em que precisa usar uma moto, uma série de palavrões, a fim de que a narrativa não pareça estagnada em determinado ponto; e esta, finalmente, é a derrocada da real comédia que se manifestava até a metade do filme, e que será recuperada apenas por causa de cenas de ação surpreendentemente bem filmadas e a parte final. E isso não acontece exatamente por causa dos coadjuvantes. Como De Luca, Bobby Cannavale não se sai bem. A parceira de Melissa, feita por Miranda Hart, também prejudica; é difícil lembrar de uma coadjuvante que não acrescenta realmente às cenas em que aparece, assim como Serafinowicz. E a muito boa atriz Janney é esquecida depois de um bom início.
Quem consegue gostar, no entanto, das atuações do elenco coadjuvante terá uma sensação de ter visto uma narrativa mais completa – para quem esperava mais, a impressão é de ter se visto uma comédia em parte diluída para um público mais amplo, com uma lamentável característica de humor caricato, quando Melissa, no início, revela o que poderia ser uma base humana. Aos poucos, quando se vê que o filme envereda pelo absurdo, cada vez maior, essa porção humana se perde, e a graça passa a se concentrar apenas em ações desgovernadas e comportamentos exagerados. No fim de tudo, ele funciona mais como ação do que como comédia.

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Como muitas obras do gênero, A espiã que sabia de menos tende a melhorar em uma revisão e se sente valorizada não apenas pela fotografia de Robert D. Yeoman, habitual colaborador de Wes Anderson, com suas locações em Paris, Roma e Budapeste, quanto pelo cuidado nas cenas em que o humor é um complemento para a ação (a sequência passada na cozinha de um restaurante, desse modo, é vital). É lamentável que a montagem não seja de William Kerr e Michael L. Sale, responsáveis pelos trabalhos de Superbad, Missão madrinha de casamento e We’re the Millers, melhores do que os montadores deste filme, que não conseguem calcular exatamente o tempo das gags. Diante de adjetivos como escalandosamente divertido, talvez A espiã que sabia de menos poderia ser mais efetivo. Melissa e Statham tentam – os coadjuvantes e o roteiro é que não acompanham.

Spy, EUA, 2015 Diretor: Paul Feig Elenco: Melissa McCarthy, Jason Statham, Jude Law, Miranda Hart, Rose Byrne, Allison Janney, 50 Cent, Peter Serafinowicz, Bobby Cannavale, Morena Baccarin Roteiro: Paul Feig Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Jenno Topping, Jessie Henderson, Paul Feig, Peter Chernin Duração: 120 min. Distribuidora: Fox Film / Twentieth Century Fox Film Corporation Estúdio: Feigco Entertainment

Cotação 3 estrelas

 

Star Wars: Episódio III – A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

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Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar: por exemplo, interpretando o mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson comprova ser um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas e, entre excessos de efeitos especiais, as paisagens de Tatooine tinham o mérito de dialogar com a saga original.
O descompromisso de A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, O ataque dos clones, cujo tom interno é mais melancólico e mesmo arriscado, contrariando, ao contrário do primeiro desta trilogia, a franquia antiga, mesmo com a habitual trilha de John Williams. Continuam nele os problemas de A ameaça fantasma, em que existia pouco humor, mesmo mostrando R2-D2 e C-3PO, mas se anuncia a base da história que repercutirá em A vingança dos Sith. Percebe-se que Annakin Skywalker (agora Haydeen Christensen) quer tomar o lugar do mestre Obi-Wan Kenobi (McGregor) e confrontar Yoda – em movimento –, assim como Mace Windu (Samuel L. Jackson).

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A questão política envolvendo a princesa Amidala (Natalie Portman), por quem Annakin se apaixona, continua presente, e Palpatine tenta organizar o jogo. No entanto, nem os cenários diferentes e a presença de Jango Fett (Temuera Morrison), pai de Boba Fett (da série antiga), acabam conferindo ao filme uma ação interessante. Outro vilão, Conde Dooku (o ótimo Cristopher Lee), não chega a ter uma relação direta com a ação, e os personagens estão constantemente passando em frente a cenários magníficos, ou trocando ideias com fundo político, mas parecem não fazer parte deles. Ou seja, o chroma-key, aqui, é desgastante. No entanto, há algumas qualidades: há um bom ritmo, com uma perseguição inicial que remete a Blade Runner, as paisagens reproduzem um visual fascinante e tudo se encaminha para uma grande luta de jedis numa caverna do deserto.
A segunda trilogia de George Lucas precisava encerrar com um filme pelo menos superior aos dois primeiros, sobretudo o segundo Suas cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos não chegam a cansar e, em A vingança dos Sith, Lucas entrega uma obra à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente, levemente deslocado, mesmo em comparação a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou à trilogia.

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A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, mas pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (o excelente Ian McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Annakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu finalmente tem uma participação decisiva na história.
A revolta de Annakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Annakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, O ataque dos clones já tinha uma tristeza impenetrável, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Annakin à Terra e o reencontro com Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com direção de arte impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções interessantes deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas e meia

Jornada nas estrelas – O filme (1979)

Por André Dick

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O primeiro filme para o cinema da série Jornada nas estrelas, baseado nos personagens criados por Gene Roddenberry, despertou certa polêmica à época de seu lançamento, dez anos depois de a série de TV ser interrompida (durou de 1966 a 1969). A impressão geral, tanto para o público em geral quanto para os fãs da série, é de que faltava ação e humor à trama. Mesmo na primeira visualização, essa impressão realmente se mostra em parte correta, devido ao roteiro soar um tanto frio, do mesmo modo como surge Spock, depois de uma temporada em Vulcano. À frente da direção, estava o cineasta Robert Wise, que havia ganho Oscars de melhor filme por Amor, sublime, amor e A noviça rebelde, além de ter dirigido O dia em que a terra parou e O enigma de Andrômeda. O estúdio investiu um grande orçamento, de mais de 40 milhões de dólares, consumidos principalmente pela área de efeitos especiais. Para ela, forma convocados os nomes de Douglas Trumbull e John Dykstra; o primeiro, responsável pelos efeitos de 2001, o segundo de Guerra nas estrelas.
O filme, de certo modo, recebe uma nova oportunidade com sua visualização em HD, em sua cópia de Blu-ray. E, depois das duas parcelas da nova geração filmadas por J.J. Abrams com o apuro de um dos melhores diretores de ação do momento atual, talvez não seja o melhor caminho comparar o ritmo – a série antiga, e sobretudo o primeiro episódio para o cinema, soam próprios de seu período, sem nenhum demérito.

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Com uma etapa inicial marcada pela trilha sonora marcante de Jerry Goldsmith, Wise mostra toda a tripulação do seriado de volta, sob o comando do capitão Kirk (Shatner), que foi promovido a almirante e trabalha em San Francisco como Diretor de Operações da Frota Estelar. Em 2273, ele é convocado depois que uma força estranha composta de energia ameaça se aproximar da terra, depois de se deparar com uma esquadra klingon e detectada pela Frota Estelar estação de monitoramento, Epsilon Nine. No entanto, ele precisa confrontar o atual capitão da nave Enterprise, Willard Decker (Stephen Collins), rebaixando-o de posto. Levado à espaçonave por Scotty (James Doohan), Wise mostra a primeira visão da Enterprise como uma espécie da passagem do osso lançado ao céu para a estação espacial aguardando o ônibus de Floyd em 2001. O tempo longo de execução, por outro lado, se mostra interessante para demarcar este primeiro ingresso cinematográfico dos personagens de Roddenberry. Se as indicações ao Oscar (trilha sonora, direção de arte e efeitos especiais), são justas, parece não ser reduzir este episódio a uma antecipação do que a série ofereceria de melhor, o segundo capítulo, com A ira de Khan, e o sexto, A terra desconhecida, ambos dirigidos por Nicholas Meyer. Kirk se mostra inseguro diante da ameaça de não estar à frente do comando da Enterprise, e para isso ele se cerca dos amigos Dr. McCoy (DeForest Kelley), ou “Bones”, Uhura (Nichelle Nichols), e Sulu (George Takei), o piloto, além de Scotty.
Na ida para a ameaça que vem em direção à Terra, vem a bordo Spock (Leonard Nimoy), a fim de colaborar com a missão. Este reencontro, se não e um dos momentos mais divertidos do filme, é, sem dúvida aquele que melhor demarca a oposição entre Kirk e o vulcano. Spock não se mostra muito interessado em rever os companheiros, ainda mais por causa do curso pelo qual passou Essa linha fina de roteiro, porém, se expande quando uma das passageiras, Ilia (Perris Khambatta), é raptada por V’Ger, a força de energia, e substituída por uma réplica robótica, e regressa afirmando ser mensageira daquilo que se chama V’Ger. O que seria exatamente V’Ger? Para o espectador, fica clara a analogia com o monólito negro de 2001, de Kubrick, e onde este filme parou parece que Wise quer continuar.

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O roteiro, desse modo, passa a se mostrar mais interessado em traçar o real mistério do que seria o V’Ger, perturbando os tripulantes da Enterprise, sobretudo Spock, que diz ser ele um dos motivos para ter vindo a bordo e que poderá ajuda-lo a completar o que não conseguiu entender em Vulcano. É neste ponto que o roteiro de Alan Dean Foster e Harold Livingston se mostra mais interessante, pois este Jornada nas estrelas – O filme tenta mostrar a Spock o que de fato ele, embora não pareça, quer sensações próximas à humanidade. O mistério do que significa o V’Ger levará Spock a reavaliar sua trajetória até ali. Não apenas isso: Ilia, ligada a Decker, guarda, em sua porção já dominada pelo V’Ger, o resquício de amor que nutria anteriormente por ele. Ou seja, se ela passa a ser quase uma mensageira de um enigma que a partir de determinado momento se confunde com uma máquina, o que certamente tem influência no recente Transcendence.
É interessante como num momento em que a ficção científica Guerra nas estrelas, George Lucas, havia se tornado uma referência, com sua mescla fabulosa entre humor e ação, Wise tenha optado em fazer de Jornada nas estrelas – O filme uma resposta, no imaginário popular, ao cerebral 2001 de Kubrick. Ele consegue, de fato, empregar um conceito por meio de V’Ger bastante instigante, e a maneira como descortina esse cenário do espaço sideral é inquietante, originalíssimo. Os gráficos, tanto de V’Ger quanto da viagem de Spock vestido de astronauta, se dialogam com David Bowman depois de sair da espaçonave, em razão de HAL-9000, antecipam, muito mais, as imagens de outros filmes, como O segredo do abismo, 2010 – O ano em que faremos contato, Tron – Uma odisseia eletrônica, Superman 2Blade Runner e A árvore da vida. Não por acaso, pois Trumbull foi o responsável pelos efeitos especiais dos dois últimos, por exemplo. Ele consegue, em Jornada nas estrelas, compor uma harmonia clássica de imagens com efeitos especiais. Os planetas visualizados por Spock, próximos de uma espiral que se abre e fecha como uma planta, além de formas que lembram a origem do homem, a sua genética, compõem um gráfico fabuloso não apenas para o final dos anos 70, como para a história da ficção científica no cinema. Trata-se de um momento impressionante, não uma tentativa de copiar 2001, e sim uma viagem autêntica ao espaço sideral, em termos de ficção científica.

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Se o desenho de podução de Harold Michelson da parte interna da Enterprise parece menos futurista do que Alien, do mesmo ano, é certamente por vontade de Wise dialogar com a série de TV dos anos 60 – e, junto a seus figurinos, parece ser a parte mais datada deste filme. Ainda assim, é natural que um filme como Jornada nas estrelas também dialogue com sua época – e a introdução de Spock é um dos indícios desse caminho.
Uma das críticas feitas aos episódios de J.J. Abrams é sua necessidade de colocar seus personagens em tom de aventura e emoção, muitas vezes ignorado o mistério do espaço; isso é bastante flagrante se comparado com este filme, no qual o enigma vale muito mais do que qualquer emoção. Também é notável como Wise não consegue encontrar humor – que seria visível principalmente no quarto episódio, A volta para terra – nesses personagens: é como se ele realmente quisesse rever Kubrick. E é curioso como se veja este Jornada nas estrelas como maçante, quando, na verdade, seu ritmo é muito mais intenso do que o de 2001. Isso se deve, sobretudo, às atuações tanto de Nimoy, como Spock, quanto, principalmente, de William Shatner, talvez em seu melhor momento como o capitão Kirk, praticamente centralizando toda a comunicação entre os personagens – e Stephen Collins se torna um ator efetivo ao não concordar com as ordens de Kirk. Mas é justamente a composição visual em que esses personagens estão, com a trilha vigorosa de Jerry Goldsmith, que fazem este Jornada nas estrelas um belo prenúncio de novas viagens. Há uma ressonância distinta neste filme, capaz de ser percebida apenas com a distância dos anos – e para melhor.

Star Trek – The motion picture, EUA, 1979 Diretor: Robert Wise Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, George Takei, James Doohan, Walter Koenig, Nichelle Nichols, DeForest Kelley, Majel Barrett, Stephen Collins, Persis Khambatta Roteiro: Alan Dean Foster, Harold Livingston Fotografia: Richard H. Kline Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Gene Roddenberry Duração: 132 min.Estúdio: Century Associates / Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas