Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

Por André Dick

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Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão de Bryan Singer em 2006, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tentava contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos. A primeira impressão visual indicava que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e O homem de aço possuía o trabalho de Amir Mokri, que criou uma amplitude especial para os cenários, destacando as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, com imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.
Havia por trás dessa nova visão do super-herói um diretor autoral. Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com uma das melhores obras já feitas a partir de quadrinhos, exatamente o original de Richard Donner.

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Anos antes ele já havia realizado Watchmen – O filme, uma espécie de prévia de seus projetos atuais, um passo à frente de 300. Snyder certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente quando tem liberdade. Essa característica voltaria no menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse. E regressa novamente neste Batman vs Superman – A origem da justiça.
Como na obra de 2013 e Watchmen, Snyder poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, mas escolhe um tom mais próximo da fantasia, auxiliado pelo design de produção irretocável e pela fotografia de Larry Fong, novamente com uma paleta de cores soturna, fazendo uma boa combinação com o primeiro filme, além de oferecer o tom granulado já existente em Super 8. Este Batman vs Superman é uma espécie de extensão dos toques sombrios de Watchmen com uma ação de incalculável poderio, tentando trazer o melhor de dois super-heróis que se tornam referência para contar o início da Liga da Justiça. São personagens de destaque que Frank Miller colocou em campos opostos num dos quadrinhos mais memoráveis já feitos. É costume se falar que este tipo de filme é para um público específico, assim como O senhor dos anéis e O hobbit são para admiradores das obras de J.R.R. Tolkien, mas, sob esse ponto de vista, pode-se perder algo que independe de se conhecer ou não os seus personagens.
Com um início bastante interessante, estabelecendo ligação com o primeiro O homem de aço, Snyder coloca Bruce Wayne correndo de caminhonete em meio à destruição nas ruas de Metrópolis. Ele logo se torna um potencial adversário para deter o que entende como ameaça de Superman de trazer uma batalha que não é da Terra para o planeta, ameaçando destruí-lo.

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Enquanto combate o crime em Gotham com requintes ainda não vistos nos filmes de Burton e Nolan, tornando-o tranquilo em se considerar um fora da lei, Superman é visto como um potencial risco para o governo, na figura da senadora Fich (Holly Hunter, muito bem), assim como instiga o jovem Lex Luthor (Jesse Eisenberg, melhor do que possa aparentar e construindo um vilão interessante) a querer combatê-lo. Snyder, no início, apresenta uma montagem muito rápida das cenas, conduzindo o espectador ao centro da ação, trazendo ainda o personagem Wallace Keefe (Scoot McNairy, ótimo), um ex-funcionário de Wayne.
Se, por um lado, Clark Kent tenta se manter no Daily Planet, sob a direção de Perry White (Laurence Fishburne), e namorar a colega de trabalho Lois Lane (Amy Adams), não sabe mais o que pode fazer para não ser visto como um chamado à destruição de Metrópolis. No que corresponde às relações, Wayne prefere as efêmeras, a não ser, ao que parece, quando se depara com uma misteriosa mulher, Diana Prince (Gal Gadot) – e Snyder coloca o encontro dos dois ao som da “Waltz nº 2”, de Dmitri Shostakovich, a mesma utilizada por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados. Como no filme de Kubrick, os personagens se disfarçam por trás das máscaras, e mesmo quando estão sem elas não se mostram como verdadeiramente são. Interessante também como Snyder consegue mesclar os sonhos de Bruce Wayne a seu comportamento: ele em nenhum momento se mostra como alguém com certeza do que pretende construir em Gotham City. São visões perturbadas, manifestando como o próprio personagem se sente, e a casa que dá para um lago cercado de sereno parece ser o contrário dele: não se pode enxergá-lo de fato. Trata-se de um dos acertos do roteiro de Goyer e Terrio (este o mesmo de Argo, mostrando a influência de Affleck sobre o projeto).

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A primeira hora de Batman vs Superman remete muito a Watchmen, em que havia a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia. O tom empregado é mais soturno do que na trilogia de Nolan, e dá espaço para Bruce Wayne ser um interessante contraste para a imagem de Batman. O mordomo Alfred (um ótimo Jeremy Irons) ajuda o patrão a desenvolver equipamentos de combate – conduzindo também à cena as características o personagem de Morgan Freeman na trilogia de Nolan – e lamenta a sua inclinação para a bebida. Ben Affleck, nesse sentido, compõe um super-herói menos esperançoso do que o de Bale, além de mais introspectivo. Nunca ficam muito claras suas intenções, e isso contribui para a sua dualidade. Surpreendentemente, Affleck consegue se apossar do personagem, oferecendo uma de suas melhores atuações. Além disso, a caverna onde esconde seus equipamentos dialoga com a de Nite Owl, de Watchmen, e mostra a capacidade de Snyder de lidar com um imaginário enriquecedor de adaptação dos quadrinhos.  No lado oposto, Cavill novamente entrega um Superman mais humano e suscetível ao que se espera dele.
É, aliás, surpreendente como Snyder coloca Batman como um personagem mais aliado ao fantástico do que o próprio Superman, que gostaria de ter uma vida sem incidentes e sem a consciência de ser um estrangeiro, como Clark Kent, mas precisa sempre retomar sua imagem de justiceiro da humanidade. Ambos, de qualquer modo, estão intrinsecamente ligados aos pais: Bruce teve a fatalidade de ter seus pais mortos na saída de um cinema (cena já mostrada no de Burton), e aqui o filme se chama Excalibur, como se Wayne se transformasse numa espécie de Rei Arthur, enquanto se visualiza um cartaz de A máscara do Zorro. Clark Kent, por sua vez, tem Jonathan Kent (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane), desde o primeiro, sob ameaça de Zod, a sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas. As armaduras escondem apenas a infância: a de Bruce numa mansão solitária e a de Clark numa fazenda que anoitece em meio às estrelas (numa das belas imagens que Snyder oferece aqui).

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Snyder desenha essa aproximação dos heróis de seus pais de maneira discreta e ainda assim enfática: estamos diante de dois heróis que lutam contra si mesmos para tentarem ser normais diante da incapacidade de atingir isso. E, embora esta obra pareça mais uma continuação de O homem de aço, sua narrativa pertence mais à figura do homem-morcego.
Não apenas por essa faceta simbólica, e sim por encadear uma sequência de cenas muito bem pensadas e arquitetadas, principalmente em sua meia hora final, Snyder se mostra mais uma vez um diretor capaz de mesclar ação e emoção. Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

Batman vs Superman – Dawn of justice, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 153 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

Chatô – O rei do Brasil (2015)

Por André Dick

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Não parece ser exagero considerar que Chatô – O rei do Brasil é o filme mais polêmico já realizado no Brasil. Antes do início de suas filmagens, o projeto já chamava a atenção, pela tentativa de Guilherme Fontes, que acabou por dirigi-lo, colocar Francis Ford Coppola na realização. Coppola não quis estar à frente da tentativa de adaptar o livro de Fernando Morais para o cinema, mas indicou um roteirista: Matthew Robbins, parceiro de Guillermo del Toro em Mutação e A colina escarlate e diretor de filmes como Dragonslayer e O milagre veio do espaço, que se juntou a Fontes e a João Emanuel Carneiro, de Central do Brasil. No entanto, não foi exatamente essa tentativa de ter Coppola que chamou mais a atenção para o projeto. Produzido a partir de 1995 e rodado principalmente no início dos anos 2000, Chatô levanta grandes questões quanto ao seu lado financeiro, de captação de verbas, e já parou na justiça. Chatô também se tornou quase uma lenda, pois muitos acreditavam que ele não seria lançado. Além disso, é possível lembrar inúmeras matérias que colocavam em desconfiança a sua própria existência.
É delicado opinar sobre o que realmente aconteceu na produção dele e por que demorou tanto a ser lançado. Também não parece acertado se basear nesse problema para afirmar se o resultado é bom ou ruim. O mais difícil, nesse tempo, parece ter sido não apenas concluir as filmagens, em razão dos sobressaltos financeiros, como dar uma estrutura coesa ao roteiro por meio da montagem.

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Chatô, em muitos aspectos, é o que se costuma falar dele: um experimento tropicalista. Ele tem muito não apenas do modernismo, de Oswald de Andrade e de Tarsila do Amaral (cujas pinturas servem de pano de fundo a algumas cenas passadas como se fossem um julgamento do personagem central), como também de obras que partiram desses dois artistas, no cinema especificamente O homem do pau-brasil, do início dos anos 80.
O filme inicia no momento em que o personagem sofre uma trombose, levando-o à cama de um hospital, junto com uma máquina de datilografar adaptada às suas condições. A partir daí, tudo se transforma num grande delírio com lapsos históricos: o envolvimento de Assis Chateaubriand, ou simplesmente Chatô, com Getulio Vargas (Paulo Betti), sua relação com a esposa Maria Èdoxa (Letícia Sabatella), com a amante Vivi Sampaio (Andréa Belttão) e com a segunda esposa, Lola (Leandra Leal), filha de Consuelo (Eliana Giardini). Há grandes liberdades na maneira como Fontes mostra a trajetória de Chatô, e alguns desses personagens não existiram realmente.
Em ritmo de farsa contínua, Fontes se apoia numa interpretação calibrada de Marco Ricca, alternando a melancolia, a raiva e a tentativa de se dar bem em muitas situações sem saída. Para um filme com tantos problemas, é interessante acompanhar como Fontes tentou dar forma à história do jornalista paraibano que se tornou uma referência ao se envolver na construção de Diários Associados, que contou com mais vários jornais, emissoras de rádio e TV e revistas ao lado de Afrânio (Alexandre Régis), Teddy (Marcos Oliveira), Manuel (Ricardo Blat), e na estruturação de um canal de TV, a Tupi, além de contribuir na criação do MASP.

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A maneira como Fontes tenta sintetizar essa trajetória por meio de um julgamento, em que Chatô se vê diante de pessoas que participaram da sua vida, é resolvida de maneira muito interessante. A velocidade da montagem – que prejudica algumas cenas, enquanto dá vitalidade a outras – é naturalmente da linguagem televisiva, e talvez seja nessa modernidade que o filme se sai melhor do que outras obras. O elenco, nesse aspecto, está em grande momento, principalmente Beltrão e Gabriel Braga Nunes, como Carlos Rosemberg, uma mistura de personagens reais, como do jornalista Samuel Wainer. Mas é Ricca que consegue dar um desenho especial ao personagem central, com sua fala ininterrupta e em alto e bom som.
Sua mescla entre o nervosismo, a sátira e a provocação atinge grandes momentos, como quando ele conhece Vivi Sampaio numa festa, entrando nela com peixeira na mão, até se descortinar sua tentação numa sala à parte, permanece com o mesmo tom ao longo de todo o filme, o que lhe dá uma certa linearidade ágil. A necessidade de Chatô colocar seu jornal em movimento lembra algumas cenas da inspiração mais direta, Cidadão Kane, embora tenham um ritmo mais moderno, que Scorsese adota em seu O lobo de Wall Street – que obviamente quando o filme foi realizado não poderia ser uma referência, mas se destaca como há cenas parecidas. Embora a montagem apressada realmente prejudique algumas passagens, o filme consegue se sustentar de maneira interessada pela capacidade de oferecer humor.

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Para uma produção com notáveis problemas na explicação de seu orçamento, vendo estritamente sob seu aspecto cinematográfico, Chatô é uma realização estética das mais elaboradas já feitas no Brasil. Vejamos, por exemplo, o design de produção de Gualter Pupo Filho, o figurino de Rita Murtinho e a paleta de cores da fotografia de José Roberto Eliezer, que consegue reunir diferentes períodos e situações em diálogo com as pinturas de Tarsila exibidas no julgamento do personagem. Em muitos momentos, ele lembra a paleta do filme Dália negra, de Brian De Palma, de 2006, com a fotografia do mestre Vilmos Szgimond: o ambiente de época, de redações de jornal, da luz entrando pela janela é notável numa produção brasileira. O cuidado com os enquadramentos é minucioso e muitos diálogos – numa estrutura realmente confusa, mas por outro lado que não cansa – conseguem recriar o espírito de uma determinada época do país. Além disso, Chatô possui muito de certo humor usado por Guel Arraes em O auto da Compadecida e Lisbela e o prisioneiro, no início dos anos 2000, com uma certa agilidade e um pouco de gritaria para que o espectador não se distancie do que está acontecendo. Ele aponta para um estilo, mas nem por isso deixa também de ser original.

Chatô – O rei do Brasil, BRA, 2015 Diretor: Guilherme Fontes Elenco: Marco Ricca, Andréa Beltrão, Gabriel Braga Nunes, Guilherme Fontes, José Lewgoy, Leandra Leal, Eliane Giardini, Letícia Sabatella, Luis Antônio Pilar, Marcos Oliveira, Nathália França, Paulo Betti, Ricardo Blat, Walmor Chagas, Zezé Polessa Roteiro: João Emanuel Carneiro, Matthew Robbins, Guilherme Fontes Fotografia: José Roberto Eliezer Trilha Sonora: Luiz Farah, Philippe Neiva Produção: Guilherme Fontes Duração: 105 min. Distribuidora: Distribuição Própria Estúdio: GFF Filmes / Trio Filmes / ZB Facilities

Cotação 4 estrelas

 

Kung fu panda 3 (2016)

Por André Dick

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Uma das tentativas de estabelecer confronto com a Pixar por parte da Dream Works foi, em 2008, a realização de Kung fu panda. Visto como um desenho mais popular do que os da Pixar, nunca chegou, apesar de sua qualidade, a receber a atenção merecida. Se a Dream Works tem como uma de suas características as séries de animação (a exemplo de Shreck, Madagascar e Como treinar o seu dragão), pode-se dizer que Kung fu panda é a principal no sentido de tentar elaborar uma saga com personagens bem definidos e que se correspondem ao longo dos filmes, com histórias particulares. Pode-se avaliar que ele não possui a reflexão de alguns desenhos considerados mais experimentais – principalmente aqueles vindos exatamente do Oriente –, mas dentro do que se propõe torna-se uma referência e não fica a dever para outros considerados superiores. Tudo circula em torno de um mestre, Shifu, e os cinco furiosos: Tigresa, Víbora, Macaco, Garça e Louva-Deus (com as vozes, no original, respectivamente, de Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Lucy Liu, Jackie Chan, Seth Rogen e David Cross). No início, eles não podem acreditar que Po (voz de Jack Black), um panda que trabalha servindo comida com seu pai adotivo, Sr. Pong, possa se transformar no Dragão Guerreiro, escolhido pelo mestre Oogway, uma sábia tartaruga, capaz de manter a tranquilidade no vale onde mora.

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Kung-fu panda 10Depois de um primeiro filme com ótima apresentação de cada personagem – e ainda com os melhores momentos da série –, a continuação se destacou por uma belíssima direção de arte. O personagem estava mais maduro em relação ao anterior, mas é na questão familiar que o desenho se direcionava, mesmo com os toques de humor já presentes no original, para o drama: ele quer saber de onde veio e quem é sua família original. Po precisa libertar a China de uma terrível ameaça – para ele, não para os espectadores, que se deparam com um pavão terrível e ameaçador, Lord Shen –, e para isso conta com a ajuda de seus amigos do primeiro. Lá está novamente seu mestre, Shifu, a duvidar de seu potencial, mas acredita que ele deva buscar o “equilíbrio interior”, e o panda se sente ainda mais atrapalhado em muitos momentos, mas é certo que ele está amadurecendo e olhando para o passado. Nesse ponto, ele parece nos trazer toda uma certa ideia de infância de volta.
Neste terceiro filme, a busca pelo pai biológico continua, com a presença do seu pai adotivo, o ganso Sr. Pong a seu lado, e surge uma nova ameaça para os cinco furiosos e a tranquilidade do vale: a chegada do touro Kai (com voz de JK Simmons no original), que pretende se vingar tanto dos treinados por Shifu quanto atacar o vale secreto onde moram os pandas e, consequentemente, os familiares de Po. É mais exatamente o Tai Lung do primeiro filme com um acréscimo explicativo que desenvolve outra linhagem da série – e faz com que este se feche com o primeiro mais exatamente.

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Para isso, ele reencontra o seu pai, Li (voz de Bryan Cranston no original). Novamente o panda deve colocar à prova os seus talentos com a arte marcial, sempre sob o olhar de dúvida dos amigos. É esta a característica principal dessa série muito bem feita: o personagem principal é um herói apenas para os outros, pois em nenhum momento ele se considera como tal. Para ele, tudo não passa de uma grande honra, já que seus ídolos, os cinco furiosos, são considerados menos tarimbados do que ele para a missão que precisam enfrentar. Para uma nova sequência de imagens fantásticas do Oriente, que dialogam claramente com Akira Kurosawa desde o primeiro, assim como com as obras de Zhang Yimou, na profusão de cores dos cenários e figurinos, além de lutas bem coreografadas, tudo isso é suficiente – e minha esposa e meu sobrinho de 9 anos acharam o mesmo.
Os diretores da nova empreitada são Alessandro Carloni e Jennifer Yuh (também realizadora do segundo) e se percebe, pela presença também de Guillermo del Toro na produção executiva, o quanto Kung fu panda continua sendo um exemplo de animação com atenção a todos os detalhes. A versão em 3D desta terceira parte é particularmente muito bom, realçando, sobretudo, o pano de fundo da história e as belas paisagens do vale onde moram o panda e os cinco furiosos.

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Se o roteiro desta vez tenta mesclar os conceitos dos dois filmes anteriores – um vilão que ameaça destruir os cinco furiosos e a faceta de busca pela paternidade do segundo –, pode-se dizer que os melhores momentos são os da convivência de Po com o ambiente de seus familiares, excluindo um tanto a participação de seus antigos companheiros. São momentos em que os Carloni e Yuh exercem um dos melhores elementos que vemos no primeiro e no segundo filme: uma mescla interessante entre humor e drama, em que a discussão sobre as origens fica mais interessante quando se tenta assumir responsabilidades do presente, desta vez com Po tentando ser encarregado por seu mestre Shifu de continuar o treinamento dos companheiros. Há também uma nova personagem, Mei Mei (Kate Hudson no original), embora visivelmente subaproveitada. As ações de Po continuam no limite (com a dublagem, feita de modo exitoso, por Lúcio Mauro Filho), e é bem feita a nova participação de seu pai adotivo, S. Pong (James Hong no original e Pietro Mário na excelente dublagem). Não apenas pela temática de relação pai e filho como pela própria relação com seu mestre Shifu, Kung fu panda pode não encantar mais em razão de não ser mais original – o triunfo do primeiro –, mas chega a emocionar seus admiradores.

Kung fu panda 3, EUA, 2016 Diretor: Alessandro Carloni, Jennifer Yuh Elenco: Jack Black, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Jackie Chan, Seth Rogen, Lucy Liu, David Cross, James Hong, Bryan Cranston, Kate Hudson, JK Simmons Roteiro: Gleen Berger, Jonathan Aibel Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 95 min. Distribuidora: Fox Film Produção: Melissa Cobb Estúdio: DreamWorks Animation / Oriental DreamWorks

Cotação 4 estrelas

 

Boa noite, mamãe (2015)

Por André Dick

Filme de terror

O gênero de terror sofreu uma transformação principalmente com certa presença de diretores europeus que o mesclaram com o gênero dramático de maneira que houve uma dissolução entre campos habitualmente vistos como diferentes. Os diretores Severin Fiala e Veronika Franz trabalham sobre seu próprio roteiro neste terror que em alguns pontos parece emular Michael Haneke, a começar por Funny games. Haneke é também austríaco e serve como referencial, desde O vídeo de Benny, como um cineasta que transforma o terror e o suspense em elementos de dialogar com uma atmosfera europeia bastante comedida. No filme de Fiala e Franz, são dois garotos gêmeos de 9 anos, Elias (Elias Schwarz) e Lucas (Lucas Schwarz), que estão desconfiados que a mãe (Susanne Wuest), depois de voltar de uma cirurgia plástica com o rosto coberto por ataduras, não é a mesma pessoa. Eles moram numa casa afastada, com uma arquitetura moderna e cercada por um verde de florestas. E a história inicia com os dois correndo em um milharal; crianças correndo num milharal não podem indicar exatamente tranquilidade.
Boa noite, mamãe é o tipo de filme que se assiste com apreensão, e pode-se dizer que pelo menos sua meia hora inicial, também por causa da fotografia de Martin Gschlacht e do design de produção meticuloso, trabalhando com cada detalhe de onde se passa a história, é absolutamente notável. Os diretores criam um suspense que prende o espectador apenas por meio de silêncios e passos nesta casa distante da civilização.

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Elias e Lucas, mais do que nomes com peso religioso, são referências de uma infância também afastada de tudo. É como se tudo trouxesse uma sensação de algo idílico, mas que pode indicar o início de um pesadelo. Eles ficam passeando pelos arredores da casa, procurando novos lugares, e também pela casa, principalmente quando desconfiam que sua mãe voltou para casa ou se é outra pessoa. Nessa espécie de transformação depois da cirurgia, a mãe se transformou numa fantasma? É ela mesma? Como ela seria antes desse momento? As informações passadas pela dupla de diretores é de que ela trabalha como apresentadora de TV, mas não há uma explicação para o fato de ter deixado os filhos em casa, sem ninguém para cuidar. Quem seria a pessoa que dorme no quarto ao lado? Há muitos símbolos espalhados pelo cenário: além do corpo, os insetos (a exemplo das baratas) podem cercar o ser humano e torná-lo mais assustador, como David Cronenberg faria. Talvez a sutileza mais inteligente seja dispor imagens da mãe pela casa, ao mesmo tempo que há imagens de moda constituídas por sombras e uma planta de vaso alta como uma labareda. Mais ainda: seu rosto coberto por ataduras lembra o de uma múmia, que está tentando se conservar viva num ambiente ameaçador. Lançado no Festival de Veneza de 2014 e representante na Áustria ao Oscar de filme estrangeiro em 2015, como outras obras, ele não foi selecionado, certamente pelo material devastador, pouco afeito à Academia. É uma obra estranha: se por um lado parece bela e lírica, tem momentos bastante desagradáveis e até repulsivos.
É aí que Fiala e Franz não controlam os impulsos e se afastam do habitual comedimento de Haneke (não menos assustador). Há uma torção que, mesmo dentro da imponderabilidade a que se permite o filme, faz a narrativa tender a um certo fluxo de opressão exagerado. Ainda assim, se visto dentro do gênero, esse fluxo não deixa de ser menos impactante.Obviamente, o segredo que ele guarda não é aquele que todos imaginam – revelado aos 10 minutos –, ou seja, os diretores não queriam fazer surpresa nesse sentido, mas sim mostrar o comportamento frio diante de uma pressão psicológica incontrolável.

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O talento dos diretores é contrapor uma determinada situação a uma espécie de imaginário de medo ligado à infância, com a figura das árvores, de um bosque onde podem surgir não criaturas, mas uma figura humana sem rosto definido – num dos momentos possivelmente mais assustadores da narrativa. A mãe não vai ao quarto contar fábulas para as crianças: elas a observam com medo, observando na porta. Tudo tem um clima onírico de conto, não exatamente de fadas, e sim de terror mais extremo. Não se sabe o que ela traria de ameaçador, no entanto os irmãos gêmeos têm certeza de que sua mãe não faria as imposições da pessoa que voltou, nem os obrigaria a manterá s cortinas fechadas enquanto ela se recuperasse. Também não há a presença paterna na casa nem se sabe o que aconteceu com ele, e desse modo as crianças procuram um padre na igreja mais próxima. Em outro momento, eles ficam diante de uma imagem religiosa. Ou seja, a analogia entre a paternidade e a figura religiosa é colocada num dos momentos mais significativos de Boa noite, mamãe: quando há o início de uma chuva e finalmente a casa então idílica se mostra mais isolada. O design de som do filme é de um absoluto cuidado, separando cada ação, cada passo dos personagens, e talvez não se exagere quando se vê nele quase um personagem à parte. O que mais chama atenção nesse cuidado com o som e a fotografia é justamente como os diretores contrapõem o escuro e a claridade. No escuro, pode não haver tantos sustos como na claridade, assim como o fogo pode existir sob um céu azul quanto numa noite obscura. E os sonhos de um dos irmãos se constitui nessa revelação de um universo fantasioso dentro da realidade em que estão inseridos. Não sei se eu veria de novo, pela parte final, mas Boa noite, mamãe evoca uma faceta assustadora. Dentro do que se propõe, difícil afirmar que não atende aos requisitos.

Ich seh, ich seh, AUS, 2015 Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz Elenco: Susanne Wuest, Lukas Schwarz, Elias Schwarz  Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz  Fotografia: Martin Gschlacht Trilha Sonora: Ekkehart Baumung Produção: Ulrich Seidl Duração: 100 min. Distribuidora: Playarte Pictures Estúdio: Ulrich Seidl Film Produktion GmbH

Cotação 4 estrelas

007 contra Spectre (2015)

Por André Dick

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Alguns anos depois de 007 – Operação Skyfall, Sam Mendes relutou em voltar à franquia de James Bond, mas, convencido pelo estúdio, rodou mais este 007 contra Spectre. Segundo boa quantidade de admiradores do personagem, ele não deveria tê-lo feito, ou seja, teria sido melhor ele ter deixado sua marca apenas no anterior. Se a franquia com Daniel Craig no papel do agente britânico está em seu quarto filme, e Skyfall é considerado o melhor, seguido por Cassino Royale, deve-se admitir que este novo empreendimento está muito longe de ser o fracasso que quiseram transformá-lo. Pelo contrário, desde seu início no Dia dos Mortos na cidade do Novo México, quando James Bond está atrás de Marco Sciarra (Alessandro Cremona), e antes seduz uma latina para, então, partir de vez ao serviço programado, e o embate se dá num helicóptero, 007 contra Spectre se transforma no filme mais sólido do herói desde 007 – A serviço secreto de sua majestade, o único filme protagonizado por George Lazenby de uma série que já contou, entre seus atores, com Sean Connery, George Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan.

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Daniel Craig sempre fez o James Bond mais bruto da história e aqui acontece o mesmo: a sua ação, desde o início, não é exatamente pela conversa mais ponderada, e sim pela ação da arma. Por isso, talvez M (Ralph Fiennes) queira desativar a sua função, o que Bond não considera, à medida que conta com a ajuda de Q (Ben Wishaw) e Moneypenny (Naomie Harris), em momentos de humor que estavam no mínimo ausentes em 007 – Operação Skyfall e sempre fizeram parte do personagem. Sua ida de Londres para Roma marca um dos grandes momentos da série, quando ele precisa encontrar a mulher de Sciarra, Lucia, feita por uma ótima Monica Bellucci (embora em papel diminuto), e depois se depara com uma seita que nada fica a dever para aquela de De olhos bem fechados, de Kubrick.
Eis um dos melhores momentos da trajetória de Sam Mendes: a construção de suspense dessas cenas desencadeia um 007 realmente mais soturno, mesmo em relação ao anterior, por causa também da fotografia notável de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar e Ela), que rende uma das melhores cenas de perseguição. Que o 007 de Skyfall já lidava com traumas do passado do personagem e sua relação com M era, sem dúvida, uma conquista de Mendes e também do diretor de fotografia Roger Deakins, neste parece que o espectador consegue entrar na mente de Bond, como em determinado momento do filme, vendo seus temores. Isso fica claro numa sequência-chave em que ele encontra um determinado homem que o levará à personagem de Madaleine Swann. Que Léa Seydoux não está tão à vontade neste papel, é determinante para que se torne uma das bond girls mais discretas da história. No entanto, tal atitude não extrai de sua presença enigmática uma ponte com o passado do agente, capaz de explicar não apenas o filme, como também os capítulos anteriores, junto com Franz Oberhauser (Christoph Waltz), ou seja, há um espectro rondando 007 realmente, ritmado pela trilha de Thomas Newman, que aproveita temas clássicos dando uma roupagem de suspense.

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O que mais torna o James Bond de Craig interessante desde Cassino Royale é seu equilíbrio entre a força incalculável e uma certa vulnerabilidade em qualquer confronto que precisa enfrentar – e da qual o espectador não sabe se sairá bem, desde o momento em que acaba tomando um whisky de forma descuidada em Cassino Royale. Ainda assim, essa vulnerabilidade é que estabelece o personagem como um ser humano e não meramente um agente secreto capaz de defender as cores da Rainha da Inglaterra desde sua origem.
Mendes, de maneira sugestiva, coloca os momentos iniciais numa claridade que serão ofuscados pela noite tanto da Inglaterra quanto de Roma, onde se dará o início dos eventos que levarão ao grande confronto, e durante a narrativa vai alternando lugares escuros com lugares claros dependendo das motivações estarem evidentes ou não para Bond. Há um enigma em 007 contra Spectre que não havia nos filmes anteriores de Craig e dificilmente foram tratados em algum momento. Sam Mendes é um cineasta irregular, mas muito interessante, capaz de ter se consagrado já no início de carreira com Beleza americana e sucedendo a trajetória com filmes que mostram os recantos escuros da América, a exemplo de Estrada da perdição, Soldado anônimo e Foi apenas um sonho, além de seu singelo Distante nós vamos, irrealizado filme sobre um casal querendo criar laços entre si e com os outros. Em todos esses filmes, Mendes mostra a fragilidade das relações, no entanto sempre oferece uma espécie de segunda chance a seus personagens.

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Spectre.Filme 4

Spectre.Filme

Num determinado encontro com Madeleine, a claridade do vagão de trem não chega a iluminar por completo uma cena que certamente vai desencadear algo muito remoto e escondido dentro de cada um desses personagens, além da ameaça de Mr. Hinx (Dave Bautista). É como se David Fincher estivesse fazendo um capítulo da franquia de 007, e não por acaso, mesmo pela presença de Craig, temos indícios da presença de Millennium na maneira como as paisagens são enquadradas, embora Rooney Mara seja mais participativa do que Seydoux e estabeleça uma parceria mais convincente com o ator. O ritmo empregado por Mendes traz um equilíbrio entre as paisagens espetaculares e as ações, com uma elegância incomum, já entrevista em Operação Skyfall, mas que chega ao ápice neste filme. Sua necessidade de mostrar James Bond como uma figura complexa, sempre ligado a uma questão familiar, é uma das saídas mais interessantes do período da série em que Daniel Craig está à frente. Mendes, com isso, nunca o mostra como um agente voltado apenas para sua missão, e sim como uma figura com virtudes e falhas. Desse modo, 007 contra Spectre é uma peça de alta tensão, feita realmente com a dedicação dada a um filme de Bond e que alterna cenários distintos como a naturalidade de quem muda o figurino do personagem central.

Spectre, Reino Unido, 2015 Diretor: Sam Mendes Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Naomie Harris, Andrew Scott, Monica Bellucci, Ralph Fiennes, Dave Bautista Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson Duração: 148 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: B24 / Columbia Pictures / Eon Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists

Cotação 4 estrelas e meia