Rampage – Destruição total (2018)

Por André Dick

Há alguns anos, principalmente desde Terromoto – A falha de Santa Andreas, Dwayne Johnson, mais conhecido como The Rock, vem tendo uma ascendência sobre projetos de ação e bem-humorados na Warner Bros. O seu feito mais recente é Rampage – Destruição total, filme que se aquece com várias referências a King Kong, Godzilla e Jurassic Park, adaptado de um jogo de arcade muito popular nos anos 80. Com um orçamento respeitável de 120 milhões de dólares, ele arrecadou 420, constituindo-se num sucesso imprevisível, principalmente perto de franquias irregulares da companhia, como aquela que abriga os filmes da DC Comics. Afinal, o último filme com grande orçamento que apostou nessa ligação entre selva e cidade foi o financeiramente prejudicado A lenda de Tarzan. E deve-se ressaltar que Johnson está em outro grande sucesso nesse molde de filme situado entre o jogo e a realidade, que é a continuação de Jumanji.

Tudo inicia quando uma estação espacial, Athena-1, sofre problemas e tem como única sobrevivente a Dra. Kerry Atkins (Marley Shelton). Ela faz pesquisas de patógenos no espaço, a mando de Claire Wyden (Malin Akerman, de Watchmen – O filme), da empresa Energyne, assessorada pelo irmão Brett (Jake Lacy, forçando um overacting constrangedor). Os restos da estação acabam caindo nos Estados Unidos, atingindo especificamente San Diego Wildlife Sanctuary, onde mora um gorila albino, George (com movimentos impecáveis de Jason Liles), que é cuidado pelo primatologista David Okoye (Johnson), ex-integrante do exército norte-americano e um sujeito solitário, mesmo que o roteiro não desenvolva isso. Com os efeitos desse patógene atingindo seu amigo primata, David recebe a ajuda de Dra. Kate Caldwell (Naomie Harris). Esse vírus provoca raiva e crescimento no animal que sofre seus efeitos. Também surge um agente, Russell (Jeffrey Dean Morgan), que pode ou não prejudicar suas ações.

A partir daí, começa uma caçada das autoridades a George, mas também a outras criaturas que surgem pelo caminho. É inevitável avaliar que Rampage – Destruição total tem uma narrativa muito simples, sem nenhuma elaboração especial. No entanto, mesmo que a atuação de Johnson destoe, por exemplo, daquelas de Naomie Harris (Moonlight), com sua empatia habitual, e Dean Morgan (The Walking Dead), pode-se dizer que se trata de uma obra despretensiosa capaz de alcançar seu efeito.
Não há nenhuma novidade no caminho mostrado pelo diretor Brad Peyton, especializado em dirigir filmes de Johnson (o já mencionado Santa Andreas e Viagem 2 – A ilha misteriosa), porém o encadeamento das cenas não permite ao espectador um momento de desinteresse. Não se trata de uma ação puramente caótica, e sim o entrelaçamento dessa narrativa blockbuster com efeitos especiais realmente extraordinários, incorrendo por vezes num chroma key desnecessário em certos momentos, por outro lado revelando uma intensa vibração e um tom de aventura e busca de amizade. O roteiro escrito a oito mãos por Ryan Engle, Carlton Cuse, Ryan J. Condal e Adam Sztykiel é ostensivamente previsível, e ainda assim o espectador quer acompanhar seu desenvolvimento. Em razão de os vilões principalmente serem caricatos e Harris não ter química com Johnson, Rampage não atinge o potencial que deveria, porém é mais do que se esperaria de um projeto com suas características.

Os “diálogos” entre David e George, a criatura sendo observada, têm alguns bons momentos, embora mais ao final se mostrem excessivamente focados na comédia, o gênero preferido de Johnson nos últimos anos. George, curiosamente, é o melhor personagem do filme, e sua movimentação não deixa a desejar aos trabalhos de César, de Planeta dos macacos, e do King Kong de Peter Jackson (ambos os trabalhos de Andy Serkis). Há um real drama quando o diretor Peyton foca o olhar do gorila que vai, a seu contragosto, se agigantando por causa do patógene espacial. Seu traço cômico não se assemelha a George – O rei da floresta, filme irregular com Brendan Fraser, e sim com o personagem central de Detona Ralph. Literalmente, ele carrega o filme nas costas, junto com os efeitos especiais, responsáveis por transformar os vinte minutos finais em algo grandioso, além de relativamente violento (inclusive nas mortes). E Johnson, mesmo com sua limitação conhecida, é um ator funcional nesses projetos. Seus filmes que satirizam a polícia são cada vez mais presentes, assim como sua presença em Velozes e furiosos. No entanto, é em peças menos chamativas como Sem dor, sem ganho, Southland Tales e este Rampage que ele se mostra mais à vontade.

Rampage, EUA, 2018 Diretor: Brad Peyton Elenco: Dwayne Johnson, Naomie Harris, Malin Akerman, Jake Lacy, Jeffrey Dean Morgan Roteiro: Ryan Engle, Carlton Cuse, Ryan J. Condal, Adam Sztykiel Fotografia: Jaron Presant Trilha Sonora: Andrew Lockington Produção: Brad Peyton, Beau Flynn, John Rickard Hiram Garcia Duração: 107 min. Estúdio: New Line Cinema, Flynn Picture Company, Wrigley Pictures, ASAP Entertainment, Seven Bucks Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

 

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Desobediência (2018)

Por André Dick

O diretor chileno Sebastián Lelio já havia lançado Uma mulher fantástica, vencedor do Oscar de filme estrangeiro e que estreou no Festival de Berlim, quando também estava finalizando a produção de Desobediência, seu ingresso em Hollywood, com Rachel McAdams e Rachel Weisz. É interessante como Lelio constrói as cenas iniciais do seu filme premiado, aliando drama, romantismo e suspense, principalmente porque nunca indica o que irá acontecer depois que o personagem namorado de uma mulher transexual se sente combalido, rompendo a tradição.
Em Desobediência, que também estreou no ano passado no Festival Internacional de Toronto ele se baseia de outro modo na tradição. Com roteiro escrito em parceria com Rebecca Lenkiewicz a partir de um romance de Naomi Alderman, ele mostra uma mulher, Ronit Krushka (Rachel Weisz), que regressa à sua comunidade judaica londrina depois da morte de seu pai Rav (Anton Lesser), um rabino, e encontra Esti Kuperman (Rachel McAdams), casada com Dovid (Alessandro Nivola), o seu amigo de infância e sucessor do seu pai como rabino. Esti também manteve um triângulo amoroso com a amiga e o agora marido.

Para os olhos alheios, eles seguem as normas dessa comunidade, da qual Ronit não quer mais fazer parte, tendo se tornado uma respeitável fotógrafa em Nova York. Os tios de Romit, Fruma (Bernice Stegers) e Moshe (Allan Corduner), a recebem com solicitude, no entanto com certa desconfiança e temor de revisitar o passado. Há um acontecimento específico que tentará justamente fugir às regras impostas, não apenas pela comunidade, como também, por habitual, pela sociedade. O casamento se transforma no símbolo dessa permanência de sentimentos, e Lelio filma a relação entre Esti e Dovid de maneira simétrica, com enquadramentos minuciosos.
Uma mulher fantástica é uma espécie de thriller disfarçado a partir de um acontecimento central que desencadeia todos os fatos. Há uma espécie de fantasma que ronda o tempo todo a personagem central sem que ela possa se defender à altura do comportamento que recebe das pessoas em torno. Já Desobediência parece bem menos tenso, mantendo quase uma frieza do espectador em relação ao trio principal, nunca se decidindo exatamente por um caminho. Talvez esta ambiguidade seja exatamente seu atrativo, ao lado das belas atuações de Weisz e McAdams, esta uma atriz múltipla, capaz de passar do malickiano Amor pleno para A noite do jogo sem que se note a diferença, pois seu talento transita de gênero para gênero.

Enquanto em Uma mulher fantástica, Lelio utilizava imagens por vezes reais, por vezes líricas, com um bom aproveitamento da fotografia, e nunca se torna condescendente com a situação, tentando mostrá-la da maneira mais incisa o possível, em Desobediência ele se fixa na realidade de modo preponderante. O diretor não joga os sentimentos de acordo com intenções meramente sociais e sim sentimentais, equivalendo, da melhor maneira, o objetivo de representar um drama autêntico e a tentativa de colocá-lo como um símbolo de um discurso à margem. A amizade que transcende a época entre Ronit e Estit se consolida em todos os aspectos por meio de imagens poéticas, com um jogo de luzes da fotografia bem acentuado, além de uma sequência ousada para as duas atrizes, revelando uma intensidade poucas vezes vista. Lelio se mostra um grande condutor de elenco, extraindo, desse dueto, ainda uma atuação à margem de Nivola, ator que vem se tornando referência em papéis indecisos, como aquele professor universitário que se envolve com uma aluna em Almas secas, e se parecendo, nesse sentido (não apenas fisicamente), com Michael Fassbender.

Há uma atmosfera interessante de tradição seguida à risca em todo o filme, no que se corresponde com o recente Noviciado e o já clássico Dúvida, que trata do catolicismo, principalmente pela figura de Nivola, mas sobretudo por aquela de McAdams, que trabalha como professora e parece temer qualquer passo que desvie do caminho que foi estabelecido para sua vida. Nesse sentido, Romit é como se fosse o símbolo da libertação desse universo, daquilo que ela gostaria de ter sido, fugindo ao que foi imposto. De certo modo, é este mote que oferece a transição de todo o ato final, com um paralelismo notável entre o que deve permanecer para esses personagens e, ao mesmo tempo, se transformar com a passagem do tempo. Não parece descompromissado o fato de Romit ser uma fotógrafa. Cada instante desta narrativa lembra um postal tentando encontrar o olhar do outro, com um sentimento, a começar pelo desencadeamento da história, de luto e sobrevivência ao que se foi e se tenta ser. As velas sendo acesas em diferentes sequências representam essa tentativa de cada um se autoiluminar. Vários filmes tratam de uma tradição mais vigorosa e centrada nos papéis de seus integrantes, porém Desobediência possivelmente seja o exemplo mais claro dos últimos anos, desempenhando esse esforço com uma competência narrativa que não foge a pontos já previstos, ainda que sempre com o intuito de apresentar ao espectador uma visão interessante.

Disobedience, EUA/ING/IRL, 2018 Diretor: Sebastián Lelio Elenco: Rachel Weisz, Rachel McAdams, Alessandro Nivola, Anton Lesser, Bernice Stegers, Allan Corduner Roteiro: Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Matthew Herbert Produção: Frida Torresblanco, Rachel Weisz, Ed Guiney Duração: 114 min. Estúdio: LC6 Productions, Braven Films, Element Pictures, Film4 Productions, FilmNation Entertainment Distribuidora: Curzon Artificial Eye, Bleecker Street

O amante duplo (2017)

Por André Dick

Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes de 2017, O amante duplo é o filme mais recente de François Ozon, o diretor francês com mais lançamentos nos últimos anos. Ele vem fazer companhia a Frantz, obra mais clássica do diretor lançado no primeiro semestre do ano passado, fotografado em um preto e branco excepcional. Mais clássica também porque O amante duplo recupera as características do cineasta exibidas principalmente no fascinante Swimming Pool – À beira da piscina, de 2003, com Charlotte Rampling no papel de uma escritora que vai para uma casa de campo tentar escrever uma obra quando se vê cercada por um mistério em torno da filha de seu editor (Ludivine Sagnier). Nessa peça que já completou 15 anos, vemos o estilo de um novo diretor se sustentar pela originalidade.
Chloé Fortin (Marine Vacth) é uma jovem com características depressivas que passa a se tratar com o psicanalista Paul Meyer (Jérémie Renier, um dos atores favoritos dos irmãos Dardenne). Ela é uma ex-modelo de 25 anos que deseja fazer com que desapareça uma determinada dor em seu corpo. Isso é o início de um relacionamento nebuloso, em que Ozon utiliza uma simbologia entre a psicanálise e a figura do gato. Ele desenha analogias interessantes, quando Chloé vai trabalhar num museu – e este representa, algumas vezes, sua própria personalidade, ligada a um sexo instintivo.

Poucas vezes o cenário de um museu é tão bem utilizado aqui: além do cuidado cenográfico, com uma composição de obras que tratam não apenas do lugar enfocado, como também da personagem, Ozon ingressa num labirinto humano, no qual a personalidade de uma mulher vai sendo desenhada tanto pela criação artística quanto pela criação que surge de sua faceta psicanalítica. Certamente há muito de Freud e Lacan nas imagens colecionadas pelo diretor, numa história que coloca o sexo como ponto de partida para solucionar questões existenciais persistentes.
Ozon faz uma espécie de drama mesclado com thriller de voltagem erótica, lembrando em alguns pontos Gêmeos, de Cronenberg, e Elle, de Verhoeven, mas com uma sensação ainda maior de vazio, como é de praxe em sua obra. Vacth (estrela de Jovem e bela, outro filme de Ozon) tem uma atuação surpreendente e se entrega ao papel com vulnerabilidade, protagonizando cenas difíceis e nas quais Ozon chega a comparar o olhar com o sexo feminino, com um requinte visual de fazer inveja aos melhores diretores de cinema de arte. Uma fotografia decisivamente bela de Manu Dacosse entrega não apenas ao museu uma representação da duplicidade que persegue esses personagens. Veja-se a cena em que Chloé adentra um espaço em que sua imagem é multiplicada por vários espelhos, ou como a Ozon enquadra seu rosto para se assemelhar a uma figura felina (e outras vezes andrógina).

O mais interessante é como Ozon deixa em suspenso qualquer tipo de explicação mais definida, a exemplo de algumas personagens femininas que vão surgindo para preencher lacunas. O passado, nesse meio campo, se torna uma referência para que possamos descobrir o que está acontecendo (ou não) aos personagens. Nunca se tem certeza sobre o que está ocorrendo; a cada momento em que a trama avança, parece que o espectador precisa retomar passos que já pareciam deixados para trás.
Chloé lembra muito as personagens de um filme de De Palma, embora muito mais complexa em determinados pontos também porque o roteiro navega por um jogo menos intenso com a metalinguagem e mais com a perturbação emocional capaz de conduzir a lugares diferentes. Se em obras como Dublê de corpo De Palma presta uma clara homenagem a Hitchcock, Ozon deixa seus caminhos mais nublados, fazendo uma contraposição entre o dia claríssimo no museu e a noite na qual as relações se mostram estranhamente confusas. Há muito, nisso, claro, de um estilo que pode ser interpretado como apenas palatável para as plateias, sem o intuito exatamente de chocar.

No entanto, há algo sempre onírico rondando essa trama, independente do que leva Chloé a se locomover em busca de uma explicação para o que está de fato sentindo, o que leva ao encontro de De olhos bem fechados, obra derradeira de Kubrick que estabelecia a ligação da noite com o dia de maneira única, mais do que toda a história mostrada de maneira irretocável. Desse modo, ele dialoga abertamente, ao mesmo tempo, com o estilo de Olivier Assayas, outro cineasta francês da nova geração, com muito talento. Embora recebido com certa insatisfação, O amante duplo é um belíssimo filme que vem sendo subestimado de maneira geral desde sua exibição em Cannes. Ele é tudo o que gostaria de ter sido a trilogia baseada nos romances de E. L. James, sobre o comportamento da mulher diante de uma relação notadamente arriscada. E não fala apenas dela: trata dos sentimentos do espectador de maneira enviesada, trazendo uma interpretação para a busca de uma identidade nem sempre capaz de libertá-la.

L’amant double, FRA/BEL, 2017 Diretor: François Ozon Elenco: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset, Myriam Boyer, Dominique Reymond Roteiro: François Ozon Fotografia: Manuel Dacosse Trilha Sonora: Philippe Rombi Produção: Éric Altmayer e Nicolas Altmayer Duração: 110 min. Distribuidora: California Filmes

Jurassic World – Reino ameaçado (2018)

Por André Dick

Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu os Oscars de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.

Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora a maior peça com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Quando as criaturas pré-históricas retornaram em Jurassic World, o diretor Colin Trevorrow não conseguiu elaborar do melhor modo a história, fazendo quase uma refilmagem do primeiro, sem o mesmo vigor.

Três anos depois estamos de volta à Ilha Nublar, em Jurassic World – Reino ameaçado, desta vez com Trevorrow como um dos roteiristas. O filme inicia com  o casal do filme anterior, formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), se reencontrando depois de algum tempo. Ela não é mais uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, mas sim alguém que tenta ajudar na preservação dos dinossauros, com a ajuda de Franklin (Justice Smith) e da veterinária Zia Rodriguez (Daniella Pineda), enquanto ele mora afastado, no campo. O problema é que há mercenários querendo o DNA de um dos híbridos das criaturas existentes no parque abandonado. Ao mesmo tempo, o Senado norte-americano interroga o Dr. Ian Malcolm (novamente Goldblum) sobre se os dinossauros devem ser tirados da ilha, que sofrerá uma erupção vulcânica capaz de dizimá-los. Claire é contratada por Benjamin Lockwood (James Cromwell), ex-parceiro de John Hammond (Attenborough, no filme de 1993) na clonagem de dinossauros. Ela conhece seu assessor Eli Mills (Rafe Spalls) e a neta de Benjamin, Maisie (Isabella Sermon), esta sob os cuidados da governanta, Iris (Geraldine Chaplin). O maior interesse é pelo velociraptor Blue, que tem uma ligação com Owen, pois foi criado por ele.

A volta do grupo à ilha lembra muito Jurassic Park III, com a presença do chefe dos mercenários Ken Wheatley (Ted Levine). Trata-se de um início pouco original. No entanto, depois de uma sequência fantástica de ação, que sobrepuja a decepção de Jurassic World de Trevorrow, o diretor espanhol J.A. Bayona emprega seu maior talento: a junção entre espetáculo, com efeitos especiais de ponta (e os dinossauros aqui lembram mais aqueles dos filmes de Spielberg, sem tanta computação gráfica), o que já mostrara em O impossível e Sete minutos depois da meia-noite, com um toque por vezes poético. Se há momentos que remetem a O segredo do abismo e mesmo um especificamente aos momentos sobre a criação do mundo na obra de Terrence Malick, Bayona deixa de lado a ligação entre o casal e foca no desejo do ser humano se aproveitar dos dinossauros para romper a barreira do limite. Trata-se de um tema já subentendido no final de O mundo perdido, de Spielberg, sob certo ponto de vista subvalorizado (que conta com uma ótima Julianne Moore), e que aqui recebe o espaço acertado. Além disso, Bayona faz um núcleo interessante do casal com a atriz Sermon, esta especialmente ótima.

As figuras adversárias, representadas por leiloeiro Gunnar Eversol (Toby Jones), ganham um momento à parte que dialoga com o original de Spielberg do melhor modo, numa sucessão de perseguições e um sentimento de claustrofobia. Bayona revela a admiração da criança pelo universo de criaturas ameaçadoras, o que já fizera em seu experimento anterior, Sete minutos depois da meia-noite, mas avança em relação a um prazer de elaborar imagens que ficam na mente do espectador, como aquele em que a sombra de um dinossauro se projeta na parede dentro de um quarto infantil, lembrando os contos de fada ameaçadores. Mais do que isso, em certos instantes este Jurassic World é um filme de terror, com uma referência insuspeita, por exemplo, a O silêncio dos inocentes. Se ele não consegue se elevar como poderia a mais do que um filme de ação bastante eficiente, existe aqui um diretor e uma visão.

Jurassic World – Fallen kingdom, EUA, 2018 Diretor: J.A. Bayona Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, James Cromwell, Toby Jones, Ted Levine, B.D. Wong, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, Jeff Goldblum Roteiro: Colin Trevorrow e Derek Connolly Fotografia: Óscar Faura Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Belén Atienza Duração: 128 min. Estúdio: Universal Picture, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Legendary Pictures Distribuidora: Universal Pictures

Suspiria (1977)

Por André Dick

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O cinema de Dario Argento, desde O pássaro das plumas de cristal, se caracterizou por uma mescla evidente entre substância narrativa e uma parte visual orgânica, que parece dizer tanto quanto a primeira. Que alguns vejam seus filmes apenas com predomínio do estilo sobre a substância é bastante comum, devido a este destaque que ele oferece ao trabalho de fotografia. Na sua estreia, ele contava com Vittorio Storaro, vencedor do Oscar por Apocalypse now e Dick Tracy, com seu trabalho impressionante de cores. Em Suspiria, seu terror de 1977, ano de Guerra nas estrelas e Contatos imediatos do terceiro grau, a fotografia – desta vez de Luciano Tovoli – desempenha um papel mais uma vez importante, sendo quase o personagem central. É possível perceber o quanto ela é importante quando, de fato, a trama se guia por ela.
Na história, baseada vagamente em Suspiria de Profundis, coleção de ensaios escritos por Thomas De Quince, Suzy Bannion (Jessica Harper), uma estudante de balé, desembarca em Munique, Alemanha, a fim de se dirigir para a Academia de Dança Tanz, em Freiburg, como se esclarece na breve narração do próprio diretor, não creditada. Já chega em meio a uma tempestade e, quando o taxista se dirige para o lugar, ela vê uma menina caminhando (ou flutuando?) no bosque. Na entrada da Academia, percebe uma estudante, Pat Hingle (Eva Axen), fugindo desesperada.

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Não conseguindo ficar no lugar, ela descobre, no dia seguinte, que aconteceu algo a Pat. Ela conhece também Madame Blanc (Joan Bennett), a vice-diretora, e Miss Tanner (Alida Valli), uma das instrutoras. É apresentada, ao mesmo tempo, a duas colegas, Sarah (Stefania Casini) e Olga (Barbara Magnolfi). A partir daí, entre desmaios e larvas no pente de cabelo e no teto, o lugar se torna cada vez mais estranho para Suzy, guiada sempre para um quarto onde receberá um atendimento médico especial. Há também um pianista cego, Daniel (Flavio Bucci), com seu cão-guia, e Sarah, especialmente, revela a Susy que ela era amiga de Pat e que esta agia de modo estranho há muito tempo.
Argento transforma simples cenas em peças de tensão muito bem construídas, principalmente quando Suzy conhece um psicólogo, Frank Mandel (Udo Kier), que relata sobre o passado da Academia, e o Professor Milius (Rudolf Schündler), colega dele. São momentos que parecem apenas expositivos, entretanto revelam a atração de Argento pelo jogo de espelhos como um reflexo das coisas. O trabalho de cores, do rosa passando pelo vermelho e azul, realça a atração de Argento em moldar os personagens por meio delas. O uso do vermelho, por exemplo, remete tanto à pintura da Academia quanto ao pesadelo em forma viva dos personagens em situações desesperadoras e às unhas da dançarina sendo pintadas em um momento de tranquilidade. Por sua vez, o azul parece intermediar uma passagem para um mundo de sonho – na piscina e na cortina –, e o rosa atua como um meio-termo com o vermelho, aparecendo sobretudo nos corredores. O laranja é utilizado no quarto da personagem central, como se ela fosse mais pura do que outros personagens. No momento em que as jovens dançarinas precisam dormir numa mesma sala, há uma companhia estranha, que, pela sombra, parece um Nosferatu.

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Argento faz uma espécie de diálogo multicolor com o expressionismo alemão: enquanto lá contava o jogo de sombras no preto e branco, em Argento o arsenal de cores trabalha para não identificar seu cenário com o que existe de mais aparentemente assustador, tal como Jodorowsky fazia em A montanha sagrada, quatro antes, para mostrar uma certa psicodelia visual dos anos 1970. Esta trajetória vivida pela personagem central é típica de um personagem ingênuo de conto de fadas: não por acaso, ela sempre está à mercê das pessoas a seu redor, fragilizada e assustada. Suzy é uma reprodução de várias mocinhas dos estúdios Disney e o espectador pode perceber que em algum momento está vendo uma espécie de Alice no país das maravilhas em formato de terror e sustos. Também pode estar em meio a O mágico de Oz, uma influência declarada para a captação de cores da iluminada fotografia de Tovoli, em que os movimentos das pernas embaixo d’água na piscina adquirem uma sobreposição com a cena do bosque que abre o filme e uma ameaça externa, vinda de uma figura ligada à magia.
Com auxílio também da trilha sonora composta por Goblin, Argento compõe um painel de luzes e sensações que conseguiriam influenciar diversos cineastas, de David Lynch – os corredores escuros ou não que remetem a Twin Peaks e A estrada perdida, o onirismo de Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, a cortina de Veludo azul –, passando por Refn – em seus filmes Drive e Apenas Deus perdoa –, Stanley Kubrick – especialmente O iluminado –, Wes Anderson – a arquitetura da academia remete a O grande Hotel Budapeste e a trilha a Moonrise Kingdom, embora mais sinistra –, Brian De Palma – em A fúria, Vestida para matar e Dublê de corpo, por exemplo –, Francis Ford Coppola – aquele de Drácula de Bram Stoker –, Darren Aronofsky – mais exatamente Cisne negro –, até a estreia de Gosling em Rio perdido, principalmente na fachada da Academia de dança.

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Não sem utilizar uma simetria de movimentos de câmera já encontrada antes por Stanley Kubrick, principalmente quando mostra Suzy andando pelos corredores da academia. Todo esse cuidado eleva o gênero do terror a que Suspiria se dedica a um patamar de mais determinação e reconhecimento. Já em O pássaro das plumas de cristal e Prelúdio para matar, Dario Argento misturava o terror com a arte. No seu filme de estreia, mais exatamente, o primeiro crime acontecia numa galeria, e o jogo de espelhos e pintura é vital para compreender o seu desfecho. Não apenas espelhos, mas vitrais: todos eles, ao longo de Suspiria, parecem olhos espreitando a personagem e o espectador, e a janela que poderia oferecer o que há fora da Academia pode esconder figuras estranhas ou a continuação de um pesadelo. Há uma atmosfera constante de perseguição e estranheza em meio a um ambiente que seria naturalmente previsível. Em Suspiria, a arte se encontra exatamente em considerar que tudo não passa de um jogo de terror: é mais, é implacável e realmente amedrontador.

Suspiria, ITA, 1977 Diretor: Dario Argento Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Udo Kier, Joan Bennett, Aida Vallli, Eva Axen Roteiro: Dario Argento e Daria Nicolodi, baseados em Suspiria de Profundis, de Thomas De Quincey Fotografia: Luciano Tovoli Trilha Sonora: Dario Argento, Goblin Produção: Claudio Argento, Salvatore Argento Duração: 98 min. Distribuidora: Produzioni Atlas Consorziate

Cotação 5 estrelas

 

Melhores filmes de 2018 (até agora)

Por André Dick

Abaixo, a primeira lista dos melhores filmes de 2018 do Cinematographe, seguida por menções honrosas, que será atualizada à medida que forem sendo lançados ou vistos novos filmes. Conta-se a data de lançamento internacional deles, não apenas no país de origem ou em festivais. Por isso, há obras nela que foram lançadas, por exemplo, no Festival de Cannes e Festival de Berlim de 2017. São incluídos lançamentos realizados também em VOD e na Netflix.

1. Colo (Teresa Villaverde)
2. O amante duplo (François Ozon)
3. You were never really here (Lynne Ramsey)
4. Outside in (Lynn Shelton)
5. Mudo (Duncan Jones)
6. De corpo e alma (Ildikó Enyedi)
7. As aventuras de Paddington 2 (Paul King)
8. Noviciado (Margaret Betts)
9. 15h17 – Trem para Paris (Clint Eastwood)
10. Jogador Nº 1 (Steven Spielberg)

***

11. Like me (Robert Mockler)
12. Deadpool 2 (David Leitch)
13. Em pedaços (Fatih Akin)
14. A noite do jogo (John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein)
15. Sem amor (Andrey Zvyagintsev)
16. Você e os seus (Hong Sang-soo)
17. Felicité (Alain Gomis)
18. Rastros (Agnieszka Holland)
19. Fútil e inútil (David Wain)
20. Espectador profissional (Dito Montiel)
21. Vende-se esta casa (Suzanne Coote e Matt Angel)
22. Hostis (Scott Cooper)
23. Newness (Drake Doremus)
24. Jurassic World – Reino ameaçado (J. A. Bayona)
25. Tudo que quero (Ben Lewin)

Menções honrosas: Desobediência (Sebastián Lelio), Cargo (Ben Howling e Yolanda Ramke), Almas secas (Liz W. Garcia), Blame (Quinn Shepard), Together (Terrence Malick), Unsane (Steven Soderbergh), Becks (Daniel Powell, Elizabeth Rohrbaugh), Fullmetal alchemist (Fumihiko Sori), Perigo na montanha (Lin Oeding), Frost (Šarūnas Bartas), The ballad of Lefty Brown (Jared Moshe), Submersão (Wim Wenders), Aniquilação (Alex Garland), O ritual (David Bruckner), Um lugar silencioso (Joseph Krasinki), A sombra da árvore (Hafsteinn Gunnar Sigurðsson), Todas as razões para esquecer (Pedro Coutinho), O mercador (Tamta Gabrichidze), O rei da polca (Maya Forbes), Vingança (Coralie Fargeat), The Cloverfield Paradox (Julius Onah)

A serem vistos/lançados: Lea on Pete (Andrew Haigh), Guernsey – A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata (Mike Newell), Tully (Jason Reitman), Wildlife (Paul Dano), The tale (Jennifer Fox), The miseducation of Cameron Post (Desiree Akhavan), The Irishman (Martin Scorsese), Leave no trace (Debra Granik), Eight grade (Bo Burnham), Skate kitsch (Crystal Moselle), Blaze (Ethan Hawke), We the animals (Jeremiah Zagar), The death & life of John F. Donovan (Xavier Dolan), Boy erased (Joel Edgerton), Bohemian Rhapsody (Dexter Fletcher), Acrimony (Tyler Perry), Maria Madalena (Garth Davis), O dia depois (Hong Sang-Soo), Deixe a luz do sol entrar (Claire Denis), The kindergarten teacher (Sara Colangelo), Mary, queen of scots (Josie Rourke), Detona Ralph 2 (Rich Moore, Phil Johnston), Ilha dos cachorros (Wes Anderson), Sicario 2 – Soldado (Stefano Sollima), Os incríveis 2 (Brad Bird), Creed 2 (Steven Caple Jr.), Suspiria (Luca Guadagnino), Don’t worry, he won’t get far on foot (Gus Van Sant), Thoroughbreds (Cory Finley), Homem-Formiga e a vespa (Peyton Reed), Life & nothing more (Antonio Méndez Esparza), Todos lo saben (Asghar Farhad), At war (Stéphane Brizé), Dogman (Matteo Garrone), Le Livre d’image (Jean-Luc Godard), Asako I & II (Ruysuke Hamaguchi), Sorry Angel (Christophe Honoré), Girls of the Sun (Eva Husson), Ash is purest white (Jia Zhang-ke), Shoplifters (Hirokazu Koreeda), Capernaum (Nadine Labaki), Burning (Lee Chang-Dong), BlacKkKlansman (Spike Lee), Under the Silver Lake (David Robert Mitchell), Three faces (Jafar Panahi), Cold War (Pawel Pawlikowski), Lazzaro Felice (Alice Rohrwacher), Yomeddine (Abu Bakr Shawky), Leto (Kiril Serebrennikov), Border (Ali Abbasi), Sofia (Meyem Benm’Barek), Little tickles (Andréa Bescond e Eric Métayer), Long day’s journey into night (Bi Gan), Manto (Nandita Das), Sextape (Antoine Desrosières), Meu ex é um espião (Susanna Fogel), Girl (Lukas Dhont), Best f(r)iends (Justin MacGregor), Mary Poppins returns (Rob Marshall), Lizzie (Craig Macneill), Nasce uma estrela (Bradley Cooper), The seagull (Michael Mayer), An evening with Beverly Luff Linn (Jim Hosking), Ayka (Sergei Dvortsevoy), The spy gone north (Yoon Jong-Bin), Christopher Robin (Marc Forster), 10 years in Thailand (Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol e Apichatpong Weerasethakul), The state against Mandela and the others (Nicolas Champeaux e Gilles Porte), The wild pear tree (Nuri Bilge Ceylan), O grande circo místico (Cacá Diegues), La traversée (Romain Goupil), To the four winds (Michel Toesca), Dead souls (Wang Bing), Pope Francis – A Man of His Word (Wim Wenders), The Meg (Jon Turteltaub), Mosaic (Steven Soderbergh), Freakshift (Ben Wheatley), The mercy (James Marsh), Welcome the stranger (Justin Kelly), O homem que matou Dom Quixote (Terry Gilliam), The son (Denis Villeneuve), Aquaman (James Wan), The week of (Robert Smigel), The war with Grandpa (Tim Hill), First man (Damien Chazelle), Uma dobra no tempo (Ava DuVernay), Tom Raider – A origem (Roar Uthaug), Where life is born (Carlos Reygadas), Operação Red Sparrow (Francis Lawrence), O passageiro (Jaume Collet-Serra), Círculo de fogo – A revolta (Steven S. DeKnight), Oito mulheres e um segredo (Gary Ross), Mamma Mia – Lá vamos nós de novo (Ol Parker), Missão: impossível: Efeito Fallout (Christopher McQuarrie), Predador (Shane Black), Light of my life (Casey Affleck), Robin Hood – Origins (Otto Bathurst), The house with a clock on it’s wall (Eli Roth), Bad times at the El Royale (Drew Goddard),  Jungle Book – Origins (Andy Serkis), The girl in the spider’s web (Fede Alvarez), X-Men – A fênix negra (Simon Kinberg), The professor and the madman (Farhad Safinia), Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (David Yates), Desejo de matar (Eli Roth), Widows (Steve McQueen), A pequena sereia (Chris Bouchard, Blake Harris), Chris The Swiss (Anja Kofmel), The old man & the gun (David Lowery), Máquinas mortais (Peter Jackson), Diamantino (Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt), Egy Nap (Zsófia Szilágyi), Fuga (Agnieszka Smoczynska), Kona Fer I Stríð (Benedikt Erlingsson), Sauvage (Camille Vidal-Naquet), Sir (Rohena Gera), Angel face (Vanessa Filho), White boy Rick (Yann Demange), City of lies (Brad Furman), The sisters brothers (Jacques Audiard), Euphoria (Valeria Golino), My favorite fabric (Gaya Jiji), Friend (Wanuri Kahiu), The Harvesters (Etienne Kallos), In my room (Ulrich Köhler), Um pequeno favor (Paul Feig), Papillon (Michael Noer), El Angel (Luis Ortega), The gentle indifference of the world (Adilkhan Yerzhanov), Le grand bain (Gilles Lellouche), Arctic (Joe Penna)

A lista atualizada pode ser verificada também aqui.

Han Solo – Uma história Star Wars (2018)

Por André Dick

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de SplashCocoonWillow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da VinciO Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repetiu em No coração do mar, sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.

Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti,  Howard foi chamado a ocupar o posto de diretor de Han Solo – Uma história Star Wars quando a dupla Cristopher Miller e Phil Lord, dos dois Anjos da lei e de Uma aventura LEGO, foi demitida pela produtora Kathleen Kennedy por divergências de concepção – e quando, ao que se sabe, já havia sido rodada boa parte do filme.
A narrativa começa com Han Solo (Alden Ehrenreich) e sua amante Qi’ra (Emilia Clarke) em Corellia, um centro de construção naval da galáxia, tentando escapar de uma gangue local. No despiste de tropas imperiais, acaba acontecendo uma separação, o que vai levar Han, três anos depois, a uma batalha num planeta chamado Mimban. Ele conhece um grupo de criminosos que têm à frente Tobias Beckett (Woody Harrelson), que age com a esposa Val (Thandie Newton) e o alienígena Rio Daurant (voz de Jon Favreau). No meio do caminho, isso vai levar o personagem central a uma cela onde conhecerá seu amigo Chewbacca (Joonas Suotamo). Han tem a sorte de falar a língua do companheiro, Shyriiwook. A partir daí, a história envereda por um roubo de carga liderado pelo mesmo Beckett, a serviço de Dryden Vos (Paul Bettany, usando uma camisa social), líder do clã criminoso Crimson Dawn. Claro que, depois de algumas peripécias, Solo se encontrará com Lando Calrissian (Donald Glover), afinal esta é uma prequela das aventuras localizadas na trilogia de George Lucas.

Howard é um diretor talentoso e sabe lidar, a maior parte do tempo, com os atrasos impostos pela primeira filmagem de Miller e Lord. Ele tem um talento para a técnica de efeitos especiais, o que já mostrou em outras obras. No entanto, é certo que o roteiro de Jonathan e Lawrence Kasdan não é o mais interessante. Lawrence é autor de Os caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, clássicos dos anos 80, e, a partir da década passada, quando dirigiu O apanhador de sonhos, não teve mais acertos. Sua parceria com J.J. Abrams em O despertar da força rendeu novos personagens até certo ponto sólidos, porém nunca instigantes como os da trilogia original.
A tarefa de dar vida à juventude de Solo esbarraria em duas coisas: o ator obviamente não seria Harrison Ford e este personagem tinha mais justificativa com Luke Skywalker e Princesa Leia a seu lado. Seu início de amizade com Chewbacca é uma coleção de momentos previsíveis, sem nenhum traço do humor que constituiria a dupla na trilogia de Lucas – e talvez este pudesse ter sido melhor explorado por Lord e Miller, que teriam entendido o filme como uma comédia, ao contrário da Disney.

Por mais que consigamos vê-lo de maneira autônoma, Han Solo não é um personagem suficientemente complexo para receber uma história à parte, ao menos não com um roteiro disperso. Talvez se imaginasse que ele, se Ford fosse mais jovem, rendesse um novo Indiana Jones. Sua participação não foge ao esquema de um personagem apaixonado que conhece novos amigos e precisa antecipar várias referências do que aparece na trilogia de Lucas principalmente.  Ehrenreich tem boa vontade e certo talento, demonstrado antes em Ave, César! e Regras nãos e aplicam, mas não supre a ausência de mais carisma, independente do fato de acertadamente não tentar uma imitação de Ford.
Também se percebe que a atenção visual dada ao restante da série não comparece aqui, pelo menos não depois da satisfatória primeira meia hora. O filme de Howard, além de se basear numa fotografia inadequada de Bradford Young – responsável pelo trabalho primoroso de O ano mais violento –, centrada demais na cor marrom (a mesma do uniforme de Han e do pêlo de Chewbacca), variando com o cinza e um azul esmaecido, não tem assessoria de um figurino e direção de arte ricos (uma sala em que ocorrem alguns dos momentos-chave é particularmente desinteressante). No segundo ato, é visível a falta de criatividade para a criação de lugares múltiplos para esse mundo estendido, numa configuração eterna de paisagens desérticas e rochosas sem o mínimo de atrativo. A falta de criatividade parece repercutir nas atuações pouco inspiradas do habitualmente ótimo Harrelson e de Glover, levando-se ainda em conta que Emilia Clarke não tem carisma o suficiente para sustentar sua personagem, embora pareça a mais centrada no que está acontecendo a seu redor. Do mesmo modo, os personagens – mesmo Chewbacca – se sentem apenas componentes de um universo forçadamente estendido. Esse não era um traço de Rogue One, um semiépico espacial despretensioso e muito eficaz em sua construção de novos personagens capazes de anteceder a obra de 1977 sob um viés até mesmo trágico.

A trilha sonora de John Powell tem o incômodo de ser uma mescla de acordes novos com outros extraídos do trabalho icônico de John Williams: nos momentos de ação, surge a trilha de Williams em meio aos estilhaços de tentativa de fazer uma nova. É uma tentativa de se aproveitar da nostalgia do espectador em todos os momentos, principalmente numa sequência praticamente semelhante a uma que acontece em O império contra-ataca. Isso faz crer que não apenas a nova trilogia Star Wars se baseia demais na antiga, como Han Solo se nutre das aventuras do personagem já vistas anteriormente em outra companhia. Esse caminho causa um incômodo eficaz para que o espectador nunca se desvencilhe do fato de que essa é apenas uma introdução a algo mais importante – e talvez quem se contente com o que se convencionou chamar de fan service saia mais satisfeito da sessão. Nem mesmo algumas referências ao gênero do faroeste, na parte final, sustentam o fato de que todas as sequências de ação soam por demais genéricas, embora muito bem feitas e com uma parte técnica praticamente irreparável. Sob esse ponto de vista, é lamentável que Howard nunca consiga inserir seu ritmo de ação em meio ao drama, já comprovado em Willow, Rush e No coração do mar, por exemplo. Ele sempre parece aqui apenas um nome para conduzir uma obra iniciada por outros diretores e que tentou consertar ao máximo o estrago, como profissional competente. Do mesmo modo, o elenco visivelmente sentiu o peso das refilmagens. Se a Millennium Falcon sempre atinge um poder de recuperação, Howard, infelizmente, não conseguiu o mesmo.

Solo – A Star Wars history, EUA, 2018 Diretor: Ron Howard Elenco: Alden Ehrenreich, Joonas Suotamo, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Ian Kenny, John Tui, Warwick Davis Roteiro: Jonathan Kasdan, Lawrence Kasdan Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: John Powell e John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Allison Shearmur, Simon Emanuel Duração: 135 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

2010 – O ano em que faremos contato (1984)

Por André Dick

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Dar continuidade a uma das maiores obras de ficção científica não apenas de todos os tempos, mas também a uma obra-prima cercada por conceitos e enigmas não seria fácil de qualquer modo. Se tentasse se manter o mesmo estilo, ainda mais. Por isso, 2010 – O ano em que faremos contato, dirigido por Peter Hyams a partir de uma obra de Arthur C. Clarke, é visto, não por poucas pessoas, como uma decepção do tamanho do monólito negro que navega pelo espaçotempo de 2001, justamente por ter procurado seu caminho próprio. Hyams teria ligado ao próprio Kubrick, e este teria lhe dito para fazer a obra que quisesse. O diretor de Capricórnio Um, que trabalha com a ideia de que a chegada à Lua foi, na verdade, uma grande criação governamental, e de Outland – Comando Titânio, uma espécie de faroeste de ficção com Sean Connery de 1981, seguiu o conselho de Kubrick.

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E, como Kubrick, Hyams assumiu mais do que o posto de diretor: é também roteirista, diretor de fotografia e produtor. De 2010, lembro mais exatamente a capa do livro original, quando ia a uma livraria com meu pai quando criança, parecida com a do material de marketing do filme: no entanto, havia naquela capa um mistério que o filme tenta carregar consigo. Trata-se de uma ficção científica de bastante qualidade, que surgiu em meio a um período em que vigoravam as séries de Guerra nas estrelas e Star Trek, não encontrando público – conseguiu apenas cobrir seus custos –, e, apesar de comparado a 2001, pode-se dizer que certamente inspirou Gravidade e Interestelar e merece ser reavaliado, sobretudo na sua versão em Blu-ray, com cores notáveis.

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Se tudo inicia (possíveis spoilers a partir daqui) com as palavras do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea), o roteiro mostra norte-americanos, comandados pelo doutor Heywood Floyd (Roy Scheider, substituindo William Sylvester, do original), que têm o objetivo de reencontrar a nave Discovery, desaparecida no final do primeiro filme, localizada pela última vez perto da lua de Saturno. A União Soviética tem o plano de ir também atrás da nave, e para isso preparam a Leonov. Essa informação é levada por Dimitri Moisevitch (Dana Elcar) a Floyd. Com receio de sua esposa Caroline (Madolyn Smith) e do filho, Cristopher (Taliesin Jaffe), Floyd acaba concordando em partir numa missão conjunta, ao lado de Walter Curnow (John Lithgow), responsável pela construção da Discovery, e do Dr. Chandra (Bob Baladan), criador do HAL 9000. Na missão, entre os russos, estão a capitã Tanya Kirbuk (Helen Mirren), Vladimir Rudenko (Savely Kramarov), Irina (Natasha Schneider) e Maxim Brailovsky (Elya Baskin). Interessante a maneira como Hyams compõe a vida de Lloyd antes da viagem, com seu filho alimentando golfinhos numa piscina dentro de casa, e a luminosidade remete a um futuro solitário e vago – como, por exemplo, quando Lloyd está à frente da Casa Branca ou correndo numa estrada ao lado do filho, num carrinho.

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Já no espaço, há um conflito entre norte-americanos e soviéticos, entre o comando feminino e Floyd, além de certo patriotismo na trama, no entanto a narrativa, embora com ar de Guerra Fria, é interessante. Perto de Júpiter, eles localizam o monólito, assim como logo chegam à Discovery. A narração de Floyd se constitui principalmente em pedaços de mensagem para sua esposa e filho – ele está ali para proporcionar um amanhã diferente. A partir daí, Hyams explica vagamente por que o computador HAL 9000 enlouqueceu no primeiro e parte do mistério do monólito negro, ou seja, chega a ser didático, ao contrário do filme de Kubrick, o que também corresponde à continuação em livro, escrita por Arthur C. Clarke. Não surpreende que o filme seja apontado simplesmente como inferior ao primeiro, sem a devida análise e percepção de que se trata de uma obra com outro estilo. Existe, aqui, uma tentativa clara de aproximar mais o público de uma aventura espacial, e a primeira ida de Curnow e Chandra até a Discovery revela isso, com um apuro visual de Hyams e um trabalho na movimentação de câmera e no som que colocar o espectador em meio à sensação de estar no espaço sideral.

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Enquanto Kubrick sugeria mais por meio de imagens até poéticas, Hyams cria elementos de ligação mais evidentes para que a história se esclareça sem desvios. Pode-se apontar mais exatamente onde a obra envelheceu – principalmente por sua temática envolvendo norte-americanos e soviéticos –, no entanto existe aqui uma tentativa de ressoar uma real ficção científica. O conjunto de peças de Hyams é mais imersivo do que várias outras que viriam a seguir, sem a mesma força. O mais notável é que os efeitos especiais supervisionados por Richard Edlund (o mesmo de Indiana Jones e Guerra nas estrelas) não tenham sido premiados com o Oscar (conta também com excelente direção de arte, efeitos sonoros, som e figurino elaborados, igualmente indicados ao prêmio). Mantendo a parte técnica excelente do clássico de Stanley Kubrick , 2010 conta ainda com um visual futurista de Syd Mead (Blade Runner) e um elenco com bastante diversificação, em que Scheider é a peça principal, mas assessorada por um Baladan e Lithgow compenetrados e uma Helen Mirren discreta.

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Esse visual e elenco chegam ao limiar do tema abordado por Clarke: o de que o espaço e o monólito guardariam todas as fases da vida humana, e quando ressurge David Bowman em diferentes períodos de sua existência, Hyams oferece um toque quase surreal e fantasmagórico, como o encontro virtual com sua esposa, Betty Fernandez (Mary Jo Deschanel) no hospital. Não apenas o fantasma de Bowman surge na Terra, como avança sobre os espaços da Discovery. Tudo em 2010 é mais evidente. Não apenas nesse sentido, como na maneira como os astronautas, a exemplo de Floyd, atuam – num instante de perigo ele se abraça a uma colega soviética de jornada. É uma cena pouco imaginável em 2001. Em Kubrick, a sensação é de que estamos diante de um grande painel de mistério sobre a humanidade, em ritmo de ópera; em 2010, o ponto de equilíbrio é a discussão política e científica que surge por trás das ações dos personagens. Ainda assim, Hyams é capaz de elevar suas imagens a algo que remete a 2001 no trabalho de cores e visões. Cada uma delas lembra uma grande pintura espacial: eis o que esses filmes parecem ter de melhor.

2010, EUA, 1984 Diretor: Peter Hyams Elenco: Roy Scheider, John Lithgow, Helen Mirren, Bob Balaban, Keir Dullea, Betty Fernandez, Madolyn Smith, Savely Kramarov, Nastasha Schneider, Elya Baskin Roteiro: Peter Hyams Trilha Sonora: David Shire Fotografia: Peter Hyams Produção: Peter Hyams Duração: 116 min. Distribuidora: Metro Goldwyn-Mayer

Deadpool 2 (2018)

Por André Dick

O grande filme de super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passou de Lanterna Verde a um herói mais cômico. A continuação começou a ser planejada logo em seguida, devido ao grande sucesso de bilheteria. E o diretor do original, Tim Miller, nesse meio tempo acabou se desentendendo com Reynolds e deu lugar a David Leitch. Ele teria pretendido fazer um filme como o primeiro, simples em termos de orçamento, indo contra a vontade do ator. Leitch dirigiu anteriormente duas peças de ação destacáveis, John Wick e Atômica. Ambos têm, além de uma ação dosada, um visual muito interessante, sobretudo o segundo.

Reynolds volta a fazer aqui um bom super-herói. Mais à vontade com a carregada maquiagem que exibe quando não está com a máscara, quando aparece como Wade Wilson, ele vem conseguindo se destacar até dramaticamente, em À procura, e parece ter entendido ainda melhor o timing do humor. As grandes qualidades de Deadpool 2 se devem, como no primeiro, à sua presença. Ele já começa em grande movimento, com o herói tendo de se enfrentar bandidos. Em seguida, ele reencontra a namorada Vanessa (Morena Baccarin), e logo adiante seu melhor amigo, Weasel (T.J. Miller), que trabalha num pub.
Se o primeiro filme tinha um bom ritmo até o fim de sua primeira metade, Deadpool 2, pela utilização de cenários variados e exatamente mais grandiosidade (que teria causado o desentendimento entre Reynols e o diretor do original), é uma obra de ação que retoma elementos de um humor despretensioso, apesar de sua variedade infinita de referências ao universo cultural (particularmente engraçada a analogia entre Frozen e Yentl, filme dos anos 80 com Barbra Streisand, e a lembrança de Instinto selvagem), além de voltar a mostrar o super-herói como uma peça menos importante do universo X-Men, na mansão Xavier, levando novamente à quebra da quarta parede, em gags que funcionam em boa parte. Para que Wade possa descobrir um lado que desconhecia (o de querer uma família), ele conhece o jovem mutante Russell Collins (Julian Dennison, outra vez mostrando o talento que exibiu em A incrível aventura de Rick Baker), revoltado com o diretor (Eddie Marsan, em breve participação, mas convincente) do orfanato onde vive.

Domino, alter ego de Neena Thurman (Zazie Beetz), é a personagem que surge para acompanhar Deadpool no terceiro ato inevitavelmente voltado a cenas de ação, ainda assim melhor dosado do que aquele do primeiro filme. O interessante é que o roteiro dos mesmos autores do original, apesar de previsível, principalmente depois da entrada do vilão Cable (Josh Brolin, muito bem em uma persona maquiada, mas sem digitalização), se mostra muito superior ao primeiro, em que havia um salto do primeiro para o segundo ato sem o preparo necessário.
O filme já inicia com uma referência a uma determinada influência que Deadpool teve no universo da Marvel. Estão de volta Colossus (Stefan Kapicic) e o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller buscava contato com o humor violento de Kick-Ass, mas Leitch, por ter mais apuro visual, consegue concentrar a violência sob um ponto de vista menos impactante e verdadeiramentes engraçado. Uma passagem em que Deadpool tenta guiar uma equipe é uma das mais cômicas do cinema recente. As sequências de ação têm ritmo próprio, porém não se apresentam de maneira a investir num exagero desproporcional; privilegiam a técnica e o embate corpo a corpo, uma especialidade do diretor já demonstrada principalmente numa longa sequência de luta de Charlize Theron em Atômica. O diretor de fotografia Jonathan Sela, o mesmo desse filme anterior de Leitch, desenha uma movimentação interessante com a câmera.

No primeiro, a impressão é que a aparente crítica corrosiva apenas procurava encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo elementos parecidos o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. Aqui o filme brinca exatamente em cima da própria metalinguagem: “segue uma cena de efeitos especiais”. É simples e funcional, e o personagem funciona sem a autoimportância de ser aquele que critica a indústria sob um ponto de vista bem-humorado: ele já explicita que faz parte dessa mesma indústria e suas gags são bem mais discretas e verdadeiramente sarcásticas. Deadpool 2, como o anterior, ainda deve bastante ao que Homem-formiga fez com precisão e agilidade, mas tem personagens à altura de seus objetivos. Se o primeiro arrecadou um valor extraordinário nas bilheterias, talvez este segundo não chegue ao mesmo. Com quase o dobro de custo do original, visto plenamente na tela, de qualquer modo, há algo decisivamente substancial nesta peça, uma espécie de visão familiar buscada pelo super-herói em diferentes passagens, até quando está tentando ser engraçado.

Deadpool 2, EUA, 2018 Diretor: David Leitch Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Jack Kesy Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, Ryan Reynolds Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds, Lauren Shuler Donner Duração: 119 min. Estúdio: Marvel Entertainment, Kinberg Genre, The Donners’ Company Distribuidora: 20th Century Fox

O mito da liberdade (2010)

Por André Dick

O diretor David Robert Mitchell se tornou conhecido por seu brilhante suspense Corrente do mal. No entanto, sua estreia atrás das câmeras havia acontecido alguns anos antes com este O mito da liberdade, uma tradução um pouco problemática em relação ao original. Se há algum filme que soube conservar alguns elementos das experimentações de Linklater de início de carreira (em Jovens, loucos e rebeldes) e trazer sua própria visão, chegando a antecipar algumas abordagens, como as de As vantagens de ser invisível e Palo Alto, mais do que exatamente Harmony Korine, é este. Numa semana em que o filme mais recente de Mitchell, Under the Silver Lake, foi o mais vaiado até agora do Festival de Cannes, é importante retomar uma trajetória que parte do cinema underground dos Estados Unidos com talento poucas vezes visto. Há oito anos, O mito da liberdade estreava justamente no Festival de Cannes.
A história segue um grupo de jovens de um subúrbio de Detroit, que pretende aproveitar seu último dia de verão para, principalmente, chegar a algumas conquistas. Nada muito diferente dos filmes sobre jovens, adolescentes e a dificuldade de entrar na vida adulta. Mas Mitchell, como em Corrente do mal, possui uma visão poética dos detalhes que cercam a adolescência: em seu filme, tudo é discreto (talvez o contrário do que vemos em Linklater) e mesmo sem humor, fazendo com que o espectador nunca chegue muito próximo dos personagens (há poucos diálogos), no entanto nunca deixe de senti-los como reais.

Amanda Bauer é Claudia, uma corredora, um tanto interessada em provocar o namorado de uma amiga; Marlon Morton é Rob Salvati, que se apaixona por uma menina no supermercado e passa a procurá-la depois disso; Brett Jacobnsen é Scott Holland, irmão de Jen (Mary Wardell), que, ao olhar alguns álbuns de fotos, redescobre subitamente um interesse por duas irmãs gêmeas do colegial, Ady Abbey (Nikita Ramsey) e Anna Abbey (Jade Ramsey); e Claire Sloma é Maggie, uma menina que se interessa pelo rapaz que trabalha na piscina onde vai durante o verão, enquanto se dedica à dança. Todos esses personagens serão mostrados vagando à noite pelas calçadas do subúrbio, entrando e saindo de casas onde há reuniões, seja de rapazes ou moças.
Interessante como Mitchell privilegia um olhar melancólico, diferente do olhar de John Hughes em seus projetos iniciais, embora Clube dos cinco antecipe parte dessa reflexão juvenil, e mais ainda Superbad, embora Mottola desenhe para seus personagens uma descaracterização do adolescente comum. É um diretor que consegue extrair boas atuações, discretas e concisas, de um elenco inexperiente e que consegue ser efetivo. Ele tem uma ambientação muito bem feita, assim como Corrente do mal, até mesmo com elementos do outro filme (os lugares são quase sempre escuros e abandonados). Trata-se de uma espécie de despedida de uma fase, com mais sensibilidade do que costumamos ver. O último dia de verão e a noite que segue a ele podem definir o rumo de cada um.

O roteiro não tem um desenvolvimento complexo, mas a maneira como Mitchell filma essa noite (com a “festa do pijama” a que remete o título original) parece traduzir a sensação do verão e das descobertas de uma maneira que leva ao comedimento, não apenas com Maggie dançando em meio a uma festa, como também Scott tentando reviver uma nostalgia do colegial, e Rob querendo encontrar a menina que pode ser a sua futura namorada. Os olhares e toques importam mais do que a sensação de envolvimento, e pode-se ver também o quanto há cenas que inspiraram filmes mais pop, como Cidades de papel e Homens, mulheres e filhos (o casal se encontrando à janela). A fotografia de James Laxton, que se tornaria mais conhecido por seu trabalho em Moonlight – Sob a luz do luar, é verdadeiramente delicada, alternando a claridade ofuscante do dia com o mistério da noite que significa um rito de passagem para esses jovens enfocados.
O cenário do subúrbio dialoga, desse modo, com o sentimento dos personagens: as ruas vazias, algumas meninas andando de bicicleta, o barulho da festa, alguns adolescentes nadando num lago, meninas reunidas ao redor de uma mesa de sala, os rapazes jogando papel higiênico nas árvores (lembrando o videoclipe “1979”, do Smashing Pumpkins), o jovem que aprecia uma menina (Amy Seimetz) limpando o carpete da casa para depois encontrá-la, surpreso, numa banheira, o seu amigo que não consegue entender por que ele busca a mesma menina do supermercado. Mesmo em relação a uma série sobre essa fase, Freaks and geeks, O mito da liberdade se sente introspectivo, como se apenas mostrasse detalhes do cotidiano que irremediavelmente irão marcar a vida dos personagens-chave, mesmo que eles não deem a importância necessária ou mesmo não queiram saber. Mitchell se apresenta como um diretor e roteirista à altura desta visão realmente importante para o gênero.

The myth of the american sleepover, EUA, 2010 Diretor: David Robert Mitchell Elenco: Claire Sloma, Marlon Morton, Amanda Bauer, Brett Jacobsen, Nikita Ramsey, Jade Ramsey, Amy Seimetz Roteiro: David Robert Mitchell Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Kyle Newmaster Produção: Justin Barber, Michael Ferris Gibson, Adele Romanski, Cherie Saulter Duração: 93 min. Distribuidora: IFC Films