Melhores filmes de 2019 (até agora)

Por André Dick

Abaixo, a lista dos melhores filmes de 2019 até agora do Cinematographe, seguida por menções honrosas, que será atualizada à medida que forem sendo vistas novas produções. Conta-se a data de lançamento internacional deles, não apenas no país de origem ou em festivais. Por isso, há obras nela que foram lançadas, por exemplo, no Festival de Cannes e Festival de Berlim em 2018. São incluídos lançamentos realizados também em VOD e na Netflix.

1. A árvore dos frutos selvagens (Nuri Bilge Ceylan)
2. Nunca deixe de lembrar (Florian Henckel von Donnersmarck)
3. Longa jornada noite adentro (Bi Gan)
4. Vingadores – Ultimato (Joe & Anthony Russo)
5. Os mortos não morrem (Jim Jarmusch)
6. Sob o lago prateado (David Robert Mitchell)
7. Vox Lux (Brady Cobert)
8. O hotel às margens do rio (Hong Sang-soo)
9. Domino (Brian De Palma)
10. Vidro (M. Night Shyamalan)

***

11. The Beach bum (Harmony Korine)
12. Toy Story 4 (Josh Cooley)
13. Velvet Buzzsaw (Dan Gilroy)
14. Climax (Gaspar Noé)
15. Alita – Anjo de combate (Robert Rodriguez)
16. Shazam! (David F. Sandberg)
17. Obsessão (Neil Jordan)
18. Shaft (Tim Story)
19. High life (Claire Denis)
20. Fora de série (Olivia Wilde)
21. Cemitério maldito (Kevin Kölsch e Dennis Widmyer)
22. The perfection (Richard Shepard)
23. Espírito jovem (Max Minghella)
24. Paddleton (Alexandre Lehmann)
25. Brightburn (David Yarovesky)

Menções honrosas: Anima (Paul Thomas Anderson), Dumbo (Tim Burton), Uma aventura Lego 2 (Mike Mitchell), Aladdin (Guy Ritchie), X-Men – Fênix Negra (Simon Kinberg), Gloria Bell (Sebastián Lelio), John Wick 3 – Parabellum (David Stahelski), Godzilla II – Rei dos monstros (Michael Dougherty), Tater Tot & Patton (Andrew Kightlider), JT LeRoy (Justin Kelly), Calmaria (Steven Knight), A cinco passos de você (Justin Baldoni), Estrada sem lei (John Lee Hancock), Deixando Neverland (Dan Reed), A morte te dá parabéns 2 (Christopher Landon), High flying Bird (Steven Soderbergh), Hellboy (Neil Marshall), O menino que queria ser rei (Joe Cornish), Casal improvável (Jonathan Levine), Amanda (Mikhaël Hers), Homem-Aranha – De volta ao lar (Jon Watts)

Acompanhe atualização desta lista de melhores filmes de 2019 aqui.

Hellboy (2019)

Por André Dick

Logo depois do díptico Hellboy, dirigido por Guillermo del Toro, com Ron Perlman no papel central, o personagem se tornou um dos grandes destaques das adaptações dos quadrinhos para o cinema. Sem que voltasse para a direção do terceiro, Del Toro implicou também a desistência de Perlman na continuidade à frente do personagem. Coube aos roteiristas escrever uma nova versão, com colagem de várias histórias da criatura configurada por Mike Mognola e se direcionando para uma espécie de reboot. O filme inicia na Idade das Trevas, quando a Rainha Vivian Nimue (Milla Jovovich) espalha uma praga, sendo impedida por Rei Arthur e sua espada Excalibur.
A narrativa se transporta para os dias atuais, quando Hellboy (agora David Harbour, o xerife da série Stranger Things) está à procura, em Tijuana, no México, do agente Esteban Ruiz (Mario de la Rosa), rendendo uma das sequências mais interessantes da história.

Depois de um incidente, Hellboy vai se encontrar com o líder do BPRD Trevor Bruttenholm (Ian McShane), o humano que o adotou. Ele pede que o filho ajude o Clube Osiris na busca por três gigantes. Lá, Hellboy encontra Lady Hatton (Sophie Okonedo), uma espécie de vidente, mas a caminho de uma missão ele se depara com um imprevisto. Ao mesmo tempo, uma estranha criatura em forma de javali tem as ordens de Baba Yaga (Emma Tate, com voz de Troy James) para colher os restos de Nimue, para poder se vingar de Hellboy.
Este acaba sendo resgatado por Alice Monaghan (Sasha Lane), uma médium que ele ajudou quando ela era bebê. Juntos com o agente M11 Ben Daimio, os personagens partem para o enfrentamento com uma possível volta de Nimue, com diálogos ágeis escritos por Andrew Cosby. O mais plausível desta versão é justamente a ligação de Hellboy com Alice, fazendo com que suas ações sejam sugeridas pelo passado estabelecido com os humanos, mesmo em seu surgimento, incluindo também a presença de Lobster Johnson (Thomas Haden Church, quase irreconhecível).

Nos moldes do que acontece com algumas criaturas que aparecem ao longo de sua narrativa, Hellboy foi destroçado pela crítica e já desponta, na opinião de muitos, como pior filme do ano. Talvez isso fosse diferente se Kevin Feige fosse seu produtor: talvez, inclusive, fosse indicado ao Oscar. Certamente a nova versão não tem a condução criativa de Del Toro, com seu tato especial para o trabalho de design de produção, porém a obra não deixa a desejar em termos de direção ou elenco e mesmo na parte técnica. Se Harbour apresenta uma boa atuação central, Sasha Lane (a revelação de Docinho da América) e Ben Daimio (Daniel Dae Kim) fazem uma boa equipe, trazendo certa humanidade que faltava mesmo nos episódios dirigidos por Del Toro. No design dos cenários e nos efeitos visuais, além da fotografia captando bem os interiores de Lorenzo Senatore, o filme apresenta qualidade, demonstrando a experiência do diretor Marshall à frente de episódios de Game of Thrones. As passagens em que se mostra o surgimento de Hellboy é possível ver um diálogo com Os caçadores da arca perdida, ao mesmo tempo que as referências ao Rei Arthur vão ao encontro da versão recente de Guy Ritchie e também há referências a Constantine – mais ao início.

Também há boas cenas de ação. Uma delas, em que Hellboy enfrenta seres ameaçadores, é óbvio o diálogo com Jack, o caçador de gigantes, com uma faceta violenta. Em outro momento, no topo de uma montanha e uma estranha árvore, temos a presença de A lenda do cavaleiro sem cabeça. Enumeram-se essas obras não para mostrar uma diluição, e sim para mostrar com o diretor Neil Marshall trabalha com referências cinematográficas que tornam sua obra também interessante. Aliás, ao contrário das obras de Del Toro, Hellboy de Marshall é mais gore. Del Toro concentrava o horror na viscosidade das criaturas que apresentava, quase que como uma extensão do universo que desenvolvia em O labirinto do Fauno. Tudo isso proporciona um ritmo contínuo e agradável, com uma atmosfera de mistério. Jovovich, apesar de não ser grande atriz, tem uma boa participação como Nimoe, assim como McShane, com pouca participação, convence no papel de pai humano de Hellboy. E Harbour, apesar dos poucos diálogos, confere sua presença no papel central, em boa parceria com Lane e Dae Kim. Ele insere um lado cômico que não estava tão sobressalente com Perlman, assim como uma certa ingenuidade em seu tratamento com os humanos. Algumas gags parecem, inclusive, improvisadas, no entanto soam orgânicas em meio ao contexto despretensioso. Ele ajuda a impedir que a edição apressada do ato final se torne menos estranha, estabelecendo uma ponte entre as histórias desses personagens que o cercam e soando como entre dois filmes, King Kong e Indiana Jones e a última cruzada. Nesse sentido, é interessante perceber como esta versão teria potencial para uma franquia se não tivesse sido, de maneira injusta, tão mal recebida.

Hellboy, EUA, 2019 Diretor: Neil Marshall Elenco: David Harbour, Milla Jovovich, Ian McShane, Sasha Lane, Daniel Dae Kim Thomas Haden Church Roteiro: Andrew Cosby Fotografia: Lorenzo Senatore Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Lawrence Gordon, Lloyd Levin, Mike Richardson, Philip Westgren, Carl Hampe, Matt O’Toole, Les Weldon Yariv Lerner Duração: 121 min. Estúdio: Milennium Media, Lawrence Gordon Productions, Dark Horse Entertainment, Nu Boyana, Campbell Grobman Films Distribuidora: Lionsgate

Homem-Aranha – Longe do lar (2019)

Por André Dick

O personagem da Marvel com mais adaptações neste século sem dúvida é o Homem-Aranha. Desde a trilogia exitosa assinada por Sam Raimi, principalmente seus dois primeiros episódios, com Tobey Maguire no papel central, o super-herói conquistou uma legião maior de fãs, que já compreendia aquela dos quadrinhos. Logo depois da terceira parte assinada por Raimi, ele voltou interpretado por Andrew Garfield. Se as duas composições tinham talento, ainda com as presenças de Kirsten Dunst e Emma Stone, pareceu pouco natural que já em 2017 a Marvel trouxesse o reinício da franquia. Sobretudo porque O espetacular Homem-Aranha 2 havia sido um desastre e talvez um sinal de que o personagem mereceria um tempo de espera. Não foi o que aconteceu e Jon Watts dirigiu a nova versão, desta vez com Tom Holland à frente do elenco. Conhecido por sua atuação anterior em O impossível, Holland trazia a faceta mais juvenil, envolvido com problemas de adolescência, que os demais não destacavam com tanta ênfase.

Homem-Aranha – De volta ao lar foi um dos melhores filmes do universo MCU. Não por acaso, havia expectativa para esta segunda parte. Ela inicia com Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Maria Hill (Cobie Smulders) no México, investigando uma estranha situação e sendo resgatados pelo misterioso Quentin Beck (Jake Gyllenhaal). Logo a narrativa se transporta para Nova York, na qual alunos da Midtown School of Science and Technology se preparam para viajar à  Europa, sob o comando dos professores Dell (JB Smoove) Roger Harrington (Martin Starr).
Ainda sob o impacto de uma reviravolta em sua vida, Peter Parker continua amigo de Ned (Jacob Batalon) enquanto tem a rivalidade de Flash (Tony Revolori). Ele pretende se declarar à colega Michelle “MJ” Jones (Zendaya). No entanto, fica preocupado com um possível interesse de Happy Hogan (Jon Favreau), colaborador de Tony Stark, por sua tia May (Marisa Tomei, mais presente do que no primeiro).
A primeira estadia é em Veneza, na Itália, numa lembrança de Indiana Jones e a última cruzada, onde Parker e seus amigos terão de enfrentar uma nova situação inesperada e ele vem a conhecer Mysterio (Gyleenhaal), a partir do qual vão se suceder novas reviravoltas. De fundo, a tentativa de Parker de conciliar sua vida com uma pretensão amorosa, cortejada por Brad (Remy Hii), ao mesmo tempo que seu amigo Ned passa a namorar Betty Brant (Angourie Rice).

Talvez o principal peso para o filme seja suceder o excelente Vingadores – Ultimato, em que o universo MCU conseguia o equilíbrio adequado entre drama, comédia e ação. O novo Homem-Aranha se sente como um regresso aos episódios anteriores, mais acessíveis e sem uma certa profundidade na composição de suas imagens. Se o primeiro tinha uma aura juvenil bem desenvolvida, com cores trabalhadas e pouco CGI, este segundo já tenta se adequar a uma certa grandiosidade que víamos nos episódios de Capitão América e Thor, embora com um tratamento descompromissado quando trata de Parker e seus amigos. O humor, no início, é orgânico, como no primeiro, desenhando um universo próximo daquele das peças de John Hughes, mas Watts vai tendo de fazer certas escolhas que não acrescentam muito ao tom da história. É um pouco difícil entender a escolha em situar todos numa viagem, senão por uma fraqueza de roteiro. Ou seja, como esses personagens não se encaixariam num cenário europeu, justifica-se a reunião deles numa viagem com Parker, e por vezes lembra até o raso Eurotrip – Passaporte para a confusão. Nesse sentido, os personagens bem-humorados têm à frente Hogan, numa boa atuação de Favreau, e Revolori, com pouco espaço, e ainda assim bem aproveitado.

O filme trabalha bem as diferentes paisagens – temos ainda Holanda e Inglaterra, por exemplo, ainda que fotografadas de maneira não tão expressiva quanto poderia – e orquestra bem suas cenas de ação, porém parece faltar um certo desenvolvimento em personagens basilares, a exemplo da própria Michelle Jones, apesar de Zendaya atuar bem. Também não parece um acerto o esquecimento de figuras vitais da primeira parte, em roteiro assinado apenas por Chris McKenna e Erik Sommers, fazendo certamente falta Jonathan Goldstein e John Francis Daley, que ajudaram a escrever o anterior e dirigiram A noite do jogo. Num conjunto, Homem-Aranha – Longe do lar funciona bem menos do que a primeira empreitada de Watts. Ele se mantém ainda com momentos destacáveis antes não pelo roteiro e sim pela presença carismática de Holland. Gyllenhaal poderia entregar um personagem mais interessante, embora seja acompanhado por uma cortina de efeitos visuais notáveis (principalmente uma perto do ato final, que dialoga, numa escala maior, com Doutor Estranho). Levando-se em conta a dificuldade de dar continuidade a um universo que atingiu seu filme-chave no fechamento de Vingadores – Ultimato, pode ser que esta é a principal explicação. Sem nunca atingir o desenvolvimento conseguido, por exemplo, no segundo exemplar assinado por Raimi, de 2004, a nova obra dedicada ao super-herói invoca uma nova tentativa de revitalização, com esses atores, contudo com outro direcionamento.

Spiderman – Far from home, EUA, 2019 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Samuel L. Jackson, Zendaya, Cobie Smulders, Jon Favreau, Martin Starr, J. B. Smoove, Jacob Batalon, Martin Starr, Marisa Tomei, Jake Gyllenhaal, Remy Hii, Angourie Rice Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige e Amy Pascal Duração: 129 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Melhores filmes de 2014

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2014. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. Êxodo: deuses e reis (Ridley Scott) 24. Transcendence (Wally Pfister) 23. Invencível (Angelina Jolie) 22. RoboCop (José Padilha) 21. Nós somos as melhores! (Lukas Moodysson) 20. Mapas para as estrelas (David Cronenberg) 19. Vida de adulto (Scott Coffey) 18. Cães errantes (Tsai Ming-liang) 17. Jersey Boys – Em busca da música (Clint Eastwood) 16. O ano mais violento (J. C. Chandor) 15. Ninfomaníaca – Vol. I (Lars von Trier) 14. Força maior (Ruben Östlund) 13. O grande hotel Budapeste (Wes Anderson) 12. Homens, mulheres e filhos (Jason Reitman) 11. Palo Alto (Gia Coppola)

Shaft (2019)

Por André Dick

O personagem do detetive particular Shaft teve, além de uma breve série de TV, três filmes, o mais conhecido de 1971 com Richard Roundtree, dirigido por Gordon Parks, e o mais contemporâneo de 2000, estrelado por Samuel L. Jackson e tendo atrás das câmeras John Singleton, falecido lamentavelmente de forma precoce. Este novo filme com o personagem surge como uma espécie de sequência dos outros, mostrando John Shaft II (Samuel L. Jackson), que se separou da Maya Babanikos (Regina Hall), deixando-a com o filho John “JJ” Shaft Jr. (Jessie Usher), depois que um traficante, Pierro “Gordito” Carrera (Isaach de Bankolé), tentou matá-los.
A esposa não aceita o estilo de vida de Shaft e, duas décadas depois, o seu filho trabalha na área de segurança cibernética do MIT do FBI. Determinado dia, seu amigo desde criança, Karim (Avan Jogia), aparece morto por causa de uma overdose de heroína. Isso é motivo para Shaft Jr. começar a perseguir quem pode estar envolvido na morte, o que o leva a um grupo de traficantes.

Namorado de Sasha (Alexandra Shipp), o jovem integrante do FBI recorre a seu pai, que tem um escritório no Harlem, para ajudá-lo a encontrar os responsáveis pela morte do amigo, o que vai levá-lo a uma trama intrincada de suspeitos, incluindo Bennie Rodriguez (Luna Lauren Vélez). No entanto, ele desconfia que seu pai aceita colaborar com ele para, na verdade, encontrar outro criminoso que ele persegue há décadas. É interessante como Tim Story, o diretor do novo Shaft, tenha em seu currículo obras um descartáveis, como o decepcionante Quarteto fantástico de 2005, embora algumas divertidas dentro do que se propõe, como os dois Policial em apuros. Desta vez, ele consegue, de certo modo, se inspirar no estilo de Dois caras legais, que emulava o cinema dos anos 70, inclusive com a trilha sonora típica. Mesmo a química entre Jackson, saindo aqui do universo Marvel, e Usher, é bastante parecida, com trocas de ofensas e desentendimento risíveis.
O filme mais funciona nesse plano do humor do que propriamente em seus elementos de narrativa policial. E, como na obra de Shane Black com Crowe e Gosling, a fotografia de Larry Blanford é muito elegante, proporcionando imagens da cidade de Nova York de maneira rebuscada e dialogando com a excelência da recente série John Wick. As cenas de ação, com isso, acontecem em lugares de rotina, mas embelezadas por um visual detalhado, o que não era característica das obras anteriores de Story, significando um amadurecimento em sua carreira.

Um dos elementos mais adequados à obra é de que ela não se leva a sério. Há um determinado momento que o próprio Jackson faz uma brincadeira com a roupa que veste e com ator de outra série, bastante parecido com ele. Do mesmo modo, as conversas familiares entre os Shaft não têm nenhuma preocupação em ter um senso de responsabilidade, pelo contrário acabam usando uma linguagem imprópria para obras mais comedidas – o que é melhor: parece não ligar nem um pouco para qualquer polêmica que seja despertada O roteiro é assinado por Kenya Barris (Viagem das garotas e Black-ish) e de Alex Barnow (Uma família da pesada), trazendo as características dos seus trabalhos anteriores em outro contexto. As conversas podem ser vistas com certa desconfiança, de tom vulgar, no entanto nunca se sentem ofensivas porque exatamente o elenco não as conduz de maneira imprópria. Nisso, atrizes como Regina Hall, recentemente um destaque em Support the girls, apesar de não terem o melhor roteiro, acabam se destacando pela eficiência com que empregam seus diálogos.

Ainda assim, nesta falta de pretensão evidente, Story consegue introduzir questões familiares e o conflito entre os pais separados do jovem Shaft se situam num espaço difícil de ser percorrido sem cair no lugar-comum. Hall e Jackson formam uma boa dupla, trazendo envolvimento a este laço nunca desfeito com o passado, enquanto o filho tenta se adequar a uma nova maneira de ação. Se o original dos anos 70 continua uma referência para seu gênero e o de 2000 possuía um vilão mais elaborado, graças à atuação de Christian Bale, este novo Shaft, apesar de recebido com descrédito, é um acerto. Não se duvide que, caso tenha um bom número de visualizações na Netflix e uma boa bilheteria nos Estados Unidos, ganhe uma sequência, e seria muito interessante rever esses atores em seus personagens.

Shaft, EUA, 2019 Diretor: Tim Story Elenco: Samuel L. Jackson, Jessie Usher, Regina Hall, Alexandra Shipp, Richard Roundtree,Luna Lauren Vélez Roteiro: Kenya Barris e Alex Barnow Fotografia: Larry Blanford Trilha Sonora: Christopher Lennertz Produção: John Davis Duração: 111 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Khalabo Ink Society, Warner Bros. Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures (Estados Unidos), Netflix (Internacional)

Gremlins 2 – A nova geração (1990)

Por André Dick

Gremlins é uma comédia com elementos de terror dirigida pelo mesmo Joe Dante de Piranha e se constitui um dos clássicos remanescentes dos anos 80. Nele, um pai cientista querendo agradar a seu filho, Billy Peltzer (Zach Galligan), resolve presenteá-lo com um mogwai, criatura que encontra numa loja de relíquias chinesa. Ele não pode se alimentar depois da meia-noite, nem ser molhado ou exposto à luz. Caso contrário, pode acontecer um problema. Já sabemos que, diante da direção de Dante e da produção de Spielberg, o problema é perturbador e divertido. O rapaz dá o nome de Gizmo ao seu novo amigo e tem uma vida tranquila no banco da cidade onde mora, mas, antes de tudo, tenta se declarar a uma moça que trabalha numa lanchonete, Kate Beringer (Phoebe Cates).

No dia em que não segue às ordens dadas para que Gizmo não dê problemas, sua casa se transforma numa confusão, e panelas voam para todos os lados, em direção sobretudo à mãe de Billy. É preciso avisar a polícia, mas quem acredita em pequenos monstros saltando pelas ruas em plena noite natalina? Nesse ponto, a cidade já está completamente abandonada e mesmo no cinema, ao som de Branca de Neve e os sete anões, os monstrinhos, ou gremlins já estão queimando até as pipocas. Tudo o que se passa neste filme é absurdo, e Dante comprova nele o valor que já mostrara não apenas em Piranha, como também em Grito de horror, e que investiria novamente em Viagem insólita, Meus vizinhos são um terror e Matinê, este já nos anos 90.
O objetivo desta continuação é encadear gags a partir dessa situação em Nova York, com homenagens a vários filmes. Para realizar Gremlins 2 – A nova geração, Dante pediu liberdade total à Warner e investiu num roteiro de Charles S. Haas que começa com uma referência aos Looney Tunes e satiriza desde Batman e Rambo até musicais da MGM. É uma diversão notável – embora não raro forçada, no entanto talvez por isso mesmo encantadora.

Desta vez, Gizmo – que dava origem aos gremlins no primeiro filme – perde seu dono, o Sr. Wing (o chinês Keye Lucke). Em Nova York, ele se reencontra com o antigo dono, Billy, e sua namorada Kate. A ação se passa no prédio do magnata Daniel Clamp (o excelente John Glover), sempre acompanhado por seu braço direito, Forster (o ótimo Robert Picardo). O mogwai é molhado pela água de um bebedouro, dando origem à nova geração de monstrinhos, maiores e piores. O primeiro, levado por engano para casa por Kate, é completamente alucinado, com os olhos rodando a todo vapor. Por sua vez, os vizinhos do casal da cidade de origem, Murray Futterman (Dick Miller) – aquele que gritava no original que se chamavam “gremlins” determinados aviões da Segunda Guerra Mundial –  e sua esposa Sheila (Jackie Joseph), aparecem para visitar o casal e novamente se envolvem com a confusão generalizada provocada pelas criaturas ameaçadoras.
Essas invadem o laboratório do Dr. Catheter (Christopher Lee, em participação antológica) e passam a tomar produtos químicos, surgindo gremlins dos mais diversos tipos. Tudo muito original, com as tintas acentuadas pela trilha sonora circense de Jerry Goldsmith, um exemplo de cinema independente bancado pela indústria. Em meio à confusão, um figurante de uma série de terror gravada no prédio, vovô Fred (Robert Prosky), decide virar repórter para cobrir os acontecimentos.

Com algumas boas piadas que se perdem na tela pequena (spoiler a seguir), como a interrupção do filme pelos gremlins como se estivessem na cabine do projetor do cinema, e mesmo inferior ao original (um clássico do humor) Gremlins 2, de qualquer modo, é uma diversão contagiante, pois consegue, por meio de seu cenário único, levar o espectador aos lugares e sensações mais inusitados, colocando até o conhecido crítico Leonard Maltin em situação delicada. A coleção de gremlins, como no original, representa os humanos num sentido hiperbólico, por isso revela que Joe Dante é um mestre nesse sentido. Em Grito de horror, ele mostrava uma comunidade de lobisomens aterrorizando humanos e em Meus vizinhos são um terror um bairro em polvorosa por causa da chegada de uma nova família, estranha e que não saía à luz do sol. Dante tem um talento especial para elaborar personagens cartunescos que não chegam a ser caricaturas, ou seja, é possível reconhecer neles traços humanos e mesmo sensíveis. Em Gremlins 2, ele associa os monstrinhos à organização da sociedade de maneira ainda mais elaborada, em alguns momentos bastante engraçada. É um exemplo de cinema anárquico e até, de certo modo, conceitual.

Gremlins 2 – The new batch, EUA, 1990 Diretor: Joe Dante Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, John Glover, Robert J. Prosky, Robert Picardo, Christopher Lee, Dick Miller, Jackie Joseph, Keye Lucke Roteiro: Charles S. Haas Fotografia: John Hora Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Michael Finnell Duração: 106 min. Estúdio: Amblin Entertainment (Amblin Partners) Distribuidora: Warner Bros.

Toy Story 4 (2019)

Por André Dick

Desde 1995, quando Toy Stoy se tornou uma das grandes animações da história, criado pela Pixar, ligada em seu início a Steve Jobs, ele vem se tornando uma referência cultural, o que se intensificou no segundo episódio de poucos anos depois e uma década depois no fechamento da trilogia, indicado, de forma surpreendente (não pela qualidade, e sim pelo pouco espaço dado a animações em prêmios), ao Oscar de melhor filme. Se o primeiro tinha roteiro de, entre outros, Joss Whedon, que fez Os vingadores, e Andrew Stanton, diretor de John Carter e Procurando Nemo, também um dos responsáveis pela história do segundo, este quarto foi criado por Stephany Folsom e novamente Stanton, depois de se ausentar do terceiro.
O cowboy Woody (Tom Hanks) agora vive ao lado de seus amigos com Bonnie (Madeleine McGraw), que os ganhou de presente do antigo dono deles, Andy. Ela se encontra em seus primeiros dias de colégio, no jardim de infância, e cria, com restos de objeto, Forky (Tony Hale), não à toa fascinado por latas de lixo.

Como líder dos brinquedos, capaz de conciliar as opiniões contrárias em prol de um mesmo caminho, Woody é o único que percebe a importância desse objeto para sua dona, enquanto se cerca da vaqueira Jessie (Joan Cusack) e, claro, do astronauta Buzz Lightyear (Tim Allen), novamente deixados em segundo plano na hora do lazer. A premissa lembra muito a do terceiro, quando Andy estava indo para a faculdade e era cobrado pela mãe a jogar os antigos companheiros fora ou guardá-los no sótão – Andy queria levar apenas Woody junto. Em uma espécie de fuga imaginando um lugar melhor, onde seriam bem aceitos, a luta deles passava a ser contra um ursinho rosa temível e dominador, que havia sido abandonado por sua dona (num dos flashbacks mais interessantes para se mostrar que o brinquedo tem (ou não) sentimento e está ligado a seu dono de maneira inabalável). Além do tom agridoce, o terceiro episódio tinha, com isso, momentos de intensidade e mesmo sustos no confronto com essa figura a princípio ingênua e que passa a oferecer perigo. Havia no terceiro ato momentos especialmente assustadores, com a tentativa de o grupo liderado por Woody escapar de uma situação capaz de levá-los ao desaparecimento.

Em Toy Story 4, durante uma viagem da família, Forky vai desaparecer e Woody vai empreender um resgate numa loja de antiguidades, na qual se encontram brinquedos que gostariam de ter, mas não têm, dono. Woody também reencontra Bo Peep (Annie Potts), que lhe oferece ajuda. Temos o surgimento de Gabby Gabby (Christina Hendricks), uma boneca com problema na caixa de voz, fazendo com que nenhuma criança se interesse em tê-la por perto, e Duke Caboom (Keanu Reeves), além de dos temíveis Bensons, estranhamente lembrando a figura de Nixon, de Giggles McDimples (Ally Maki) e de Ducky (Keegan Michael-Key) e Bunny (Jordan Peele, diretor de Corra! e Nós), dois ursos de pelúcia. Os demais personagens que apareciam na franquia Toy Story, como Rex (Wallace Shawn) e Hamm (John Ratzenberger), voltam a aparecer esporadicamente, embora aqui não tenham o mesmo espaço, sendo a narrativa mais sintética e concentrada em poucos lugares, embora ainda assim instigante.
A diferença deste Toy Story para os anteriores não é a emoção, sobretudo quando se lembra do terceiro, e sim uma certa maturidade no tratamento de alguns temas. São personagens que cresceram com seu público e não é difícil entender que muito dele é dedicado aos responsáveis por transformar Toy Story, há quase 25 anos, num clássico do gênero. É interessante, também, como a Pixar vem acertando muito em suas sequências, como Universidade Monstros, Os invencíveis 2 Carros 3.

Mesmo que não apresente sobretudo o humor corrosivo do anterior (nas passagens de Ken e Barbie, por exemplo), Toy Stoy 4 apresenta um ritmo interessante desde o início, quando parece lembrar Divertida mente, e se apresenta como uma espécie de sonho americano dos brinquedos, quando eles encontram sua essência numa viagem familiar, em meio a parques de diversões e estradas extensas. E Woody, como o cowboy solitário em busca de ajudar Forky e Gabby Gabby, desta vez parece vislumbrar na loja de antiguidades um pouco do labirinto em que tem vivido, cheio de imprevistos. Por meio de expressões exatas e da voz de Tom Hanks adquire uma profundidade pouco abordada em animações. O diretor Josh Cooley, exatamente um dos roteiristas de Divertida mente, consegue articular uma boa combinação entre as personagens centrais, principalmente a amizade de Woody com Bo Peep, e isso cresce em relevo pelas interpretações de voz de Hanks e Potts, conhecida por ser a secretária de Os caça-fantasmas e a avó de Shedon na série televisiva. Essa é uma dupla muito boa, e recebe a contribuição não apenas de Allen, como de Hendricks e Reeves. A interação entre eles, não apenas por meio da animação irretocável, torna o resultado final um novo salto de qualidade da Pixar, e isso não significa pouco.

Toy Story 4, EUA, 2019 Diretor: Josh Cooley Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Tony Hale, Keegan-Michael Key, Jordan Peele, Madeleine McGraw, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Ally Maki, Jay Hernandez, Lori Alan, Joan Cusack Roteiro: Stephany Folsom, Andrew Stanton Fotografia: Patrick Lin Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Jonas Rivera, Mark Nielsen Duração: 100 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Rubens Ewald Filho

Por André Dick

Imagem: Marcos Alves (Agência O Globo)

O crítico Rubens Ewald Filho infelizmente faleceu aos 74 anos de idade. Para pessoas da minha idade que gostam de cinema, ele possivelmente fez parte da formação de leitura e escrita sobre a sétima arte. No meu caso, em um determinado período dos anos 80, havia três referências na crítica brasileira de filmes: SET, Cinemin e Rubens. Enquanto a SET e Cinemin trabalhavam com textos mais longos, alguns parecidos com ensaios (a SET por meio de, por exemplo, José Emilio Rondeau, José Geraldo Couto, Eugênio Bucci e Ana Maria Bahiana; a Cinemin, com Fernando Albagli e Hugo Sergio Sukman), Rubens era um mestre da crítica sintética, formato que escolheu certamente para poder tratar do número maior possível de produções. Lembro-me principalmente de um guia de filmes infantojuvenis que ele escreveu em meados dos anos 80 e de quantos deles vi a partir de então, a exemplo de Duna, De volta para o futuro e Indiana Jones e o templo da perdição. E também pude ler pela primeira vez textos sobre alguns que já tinha visto, como A história sem fim e Os Goonies.
Acabei depois assinando a Video News, na qual Rubens fazia críticas de filmes lançados em VHS. Era o auge das locadoras. Chegar da escola em determinada semana do mês, sabendo que a revista havia chegado, era uma alegria ímpar. Por anos, foi possível acompanhar Rubens também nos comentários da festa do Oscar. Talvez seja um lugar-comum, mas ele era uma enciclopédia. Suas observações no Oscar, quando passavam as imagens em memória aos que morreram, atestavam isso. É muito raro um crítico conhecer bem artistas de uma ou duas gerações: ele conhecia de várias. Tinha um conhecimento incontestável da história do cinema. E, apesar de lidar com lançamentos, também escreveu o essencial Dicionário de Cineastas, uma enciclopédia sobre diretores, até os mais desconhecidos. As notas que eu datilografava em determinada época sobre diretores que iam surgindo eram baseadas neste livro dele. E os guias com resenhas que eu xerocava e tentava empurrar a familiares e amigos traziam muito dessas leituras.
Claro que, como referência, fiquei chateado algumas vezes, como quando, num jornal da TV, ele anunciou Batman como o pior filme de 1989. Ou quando criticava o excesso de surrealismo em David Lynch (mesmo que admirasse especialmente Veludo azul). Em determinado momento, pode-se imaginar que nosso gosto será igual ao do crítico, porque apreciamos o que ele escreve. Quando um crítico que se admira pensa o contrário, gostaríamos que pensasse igual apenas para termos a certeza de que realmente determinada obra tem a qualidade que vimos nela. Mas críticos são vitais também para descobrirmos nossas próprias escolhas, sem que se diminua a importância deles. E Rubens também apresentava uma ótima característica: era imprevisível nas avaliações. Às vezes filmes bem recebidos eram bastante criticados por ele, e o contrário acontecia em igual escala. Outra grande característica: tendo lançado inúmeros guias de filmes em VHS e em DVD, referenciais para qualquer um que aprecie cinema, ele nunca lamentava quando determinadas plataformas iam perdendo vigor ou mesmo desaparecendo; sempre ia se acostumando a novas. Na verdade, ao que me parece, seu intuito sempre foi querer o acesso do cinema ao grande público, torná-lo sempre mais forte. Tenho a sincera impressão de que ele conseguiu isso com raro êxito. E, com sua dedicação a vida toda ao cinema, possivelmente seja sua maior realização.

Descanse em paz, Rubens Ewald Filho.

JFK – A pergunta que não quer calar (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Trágica e complexa são palavras que podem definir a morte de John Fitzgerald Kennedy, presidente norte-americano assassinado em 22 de novembro de 1963, no estado do Texas, em Dallas, durante um desfile pelas ruas da cidade. Baseado neste episódio da história americana e em duas obras, Crossfire: The Plot That Killed Kennedy, de Jim Marrs, e On the Trail of the Assassins, de Jim Garrison, com uma montagem que mistura cenas documentadas com outras fictícias, Stone constrói uma teia de personagens ligados a políticas e ideologias e consegue transformar uma rede de imagens em algo ressonante. E o principal: cineasta polêmico, vindo de dois filmes sobre a Guerra do Vietnã (Platoon e Nascido em 4 de julho), ele fornece uma ousadia tão grande que o filme provocou discussões e reclamações reais – igual a A hora mais escura, de Bigelow, que tem elementos dele, e a Todos os homens do presidente, seu precursor mais imediato, no qual Robert Redford e Dustin Hoffman interpretam dois jornalistas tentando desvendar o Watergate envolvendo Nixon.

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Para Jim Garrison (Kevin Costner) e, consequentemente, Stone, quem matou Kennedy foi uma conspiração formada por cubanos anti-Castro, a CIA, a máfia e até o próprio governo, e não o atirador Lee Oswald (no filme, interpretado por um impressionantemente parecido Gary Oldman). Este, depois do assassinato, logo foi preso, num cinema, e se costurou sua história de ligação com a KGB como uma explicação para o que teria acontecido com o presidente. Após um interrogatório feito pela polícia (nunca encontrado), foi morto por Jack Ruby (Brian Doyle-Murray), ligado à máfia, que também não conseguiu se manter vivo.
Oliver Stone coloca a pergunta: por que se desejar encobrir o assassinato de Kennedy, visto como a ação solitária de Lee Oswald? Para isso, tenta desvendar aquilo que ficou encoberto no acontecimento em Dallas, Texas. Num lugar associado à mitologia do velho oeste, o presidente sofreu a emboscada de um inimigo oculto, quando não teve chance de defesa. Mas Stone também está tratando daquele que é considerado como o país que tenta sempre estar à frente de qualquer questão política ou de guerras. No período em que Kennedy estava à frente do cenário político, havia conspirações de toda ordem para que os Estados Unidos organizassem a situação no Vietnã e se contrapusessem à União Soviética. Havia motivos para que se quisesse, segundo Stone e os livros nos quais ele se baseia, a eliminação de JFK, quando ele teria deixado de agir com a firmeza esperada diante desses fatores – e não apenas se restringem a uma ação de Oswald.

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Promotor público de New Orleans, Garrison é casado com Liz (Sissy Spacek ) e, sempre com um cachimbo, nos moldes de um Sherlock Holmes, tenta provar justamente isso desde o acontecimento, interrogando David Ferrie (Joe Pesci), o qual prende em determinado momento. Garrison parece desistir da investigação. Em 1966, conversa, numa viagem de avião, com o senador Long (Walter Matthau), que o leva a conhecer em detalhes o Relatório Warren e procurar outras provas, interrogando também Jack Martin (Jack Lemmon), agredido por ser visto como aliado dos cubanos; Willie O’Keefe (Kevin Bacon), que tinha relacionamento com Ferrie; um advogado (John Candy) chamado para defender Oswald; e Clay Shaw (Tommy Lee Jones), empresário que tinha contato com os cubanos e havia trabalhado na CIA. Tem como apoio dois assistentes, Bill Broussard (Michael Rooker) e Lou Ivon (Jay O. Sanders).
A primeira parte possui uma narrativa mais tensa e ágil, com Garrison, à procura de provas, visitando o local de onde, supostamente, Lee Oswald teria atirado no presidente, e segue indo atrás de todas as testemunhas possíveis, que presenciaram os tiros de perto e se pergunta: “De onde eles vieram?”. Na segunda parte, envolvido pelo caso, o promotor acaba se afastando da família, assim como se encontra com o misterioso Coronel X (Donald Sutherland), que traz as maiores teorias conspiratórias, envolvendo a Máfia, a CIA e o FBI. Além disso, afirma que Kennedy queria tirar as tropas norte-americanas do Vietnã e de que havia lido, na Nova Zelândia, a notícia de que Oswald havia matado o presidente norte-americano sem haver tempo suficiente para a impressão do jornal.

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Há, claro, uma dose de exagero de Stone, querendo ver Kennedy como uma espécie de político que gostaria de ter conduzido os Estados Unidos a um acordo com a União Soviética – e não à toa até J. Edgar Hoover aparece no meio da história como contrário a ele –, ou seja, gostaria de ter interrompido a Guerra Fria, assim como impedir a Guerra do Vietnã, o que faria com que o governo não investisse bilhões em armas, helicópteros e outros equipamentos. São questões dificilmente comprováveis, elucubrações de Oliver Stone, algumas tão verdadeiras quanto as viagens de Jim Morrison em The Doors, que ele dirigiu no mesmo ano.
Stone não é um cineasta de sutilezas, e ele funciona melhor assim, como em seus subestimados Um domingo qualquer e Reviravolta. Nisso, Garrison é visto como um modelo combativo de família, pretendendo reconstruir a imagem de Kennedy, destacando uma seleção de homens que escondiam por trás apenas ameaças, e quando os acordes de John Williams soam é como se a perfeição entrasse em cena. Seu comportamento diante da esposa é um tanto idealista – proporciona os diálogos mais inconsistentes do filme – e com os filhos, mas se trata, na verdade, de dar acesso ao espectador a uma trama ao mesmo tempo histórica e sobre a construção familiar. Se a narrativa reúne apenas teorias, ele o faz da maneira mais interessante já vista no gênero, tornando a investigação num thriller policial certamente precursor de Zodíaco. Nesse sentido, torna-se mais difícil negar o fascínio de JFK como cinema, e não aula de história. Dentro dos seus exageros, Stone é de fato um cineasta. Além disso, toca na ferida: a falta de explicação permite a qualquer um imaginar o que pode ter acontecido e, quando um indivíduo toca um sistema inteiro, é bem plausível acreditar que o óbvio não parece ser tão óbvio.

A narrativa é densa, com fotografia escura e os diálogos, extremamente rápidos. A maneira como Stone conta a história, com pistas acertadas, outras falsas, interrogatórios longos ou curtos e uma atmosfera constante de pressão (quando Ferrie tenta pedir auxílio policial para se proteger ou quando Garrison vai a um programa de TV e não pode mostrar as fotos que possui do caso), é extraordinária. Poucas vezes viu-se uma obra tão bem editada (por Pietro Scalia e Joe Hutshing) e fotografada (por Robert Richardson), inclusive mostrando o assassinato de Kennedy (por meio das imagens reveladoras de Abraham Zapruder) nos minutos finais, com uma profusão de detalhes inigualável em filmes desse gênero. Vencedor dos Oscars de melhor fotografia e montagem, tendo concorrido também a melhor filme, direção, ator coadjuvante (Jones), roteiro adaptado, trilha sonora e som, JFK é uma obra-prima.

JFK, EUA, 1991 Diretor: Oliver Stone Elenco: Kevin Costner, Jack Lemmon, Vincent D’Onofrio, Gary Oldman, Sissy Spacek, Michael Rooker, Laurie Metcalf, Gary Grubbs, Beata Pozniak, Joe Pesci, Walter Matthau, Tommy Lee Jones, John Candy, Kevin Bacon, Donald Sutherland Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: John Williams Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone Duração: 205 min. Ano: 1991 Estúdio:  Canal+/Regency Enterprises/Alcor Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Fora de série (2019)

Por André Dick

A atriz Olivia Wilde, conhecida por filmes como Ela e Vinyl, estreia atrás das câmeras dirigindo esta comédia adolescente com um tom mais incomum em relação a outras. Sua inspiração é bem clara: Superbad, da década passada. No entanto, pode-se dizer que dialoga também com várias outras que vieram posteriormente, além daquelas obras mais dramáticos e sensíveis sobre a passagem da adolescência, a exemplo de As vantagens de ser invisível e Bling Ring – A gangue de Hollywood e também com humor menos sutil, presente em Não vai dar, lançado em 2018.
Ela foca a amizade de Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein), duas colegas de ensino médio e melhores amigas. Elas descobrem, no fim dessa fase em suas vidas, que não aproveitaram absolutamente nada em termos de festa e resolvem, numa noite de despedida, buscarem conciliar seus sonhos e pretensões. Os pais de Amy são Doug (Will Forte) e Charmaine (Lisa Kudrow), despreocupados com o que pode acontecer.

Enquanto Molly é apaixonada por Nick (Mason Gooding), Amy gosta de uma outra colega de escola, Ryan (Victoria Ruesga). Para chegarem à festa e sem terem noção do caminho a ser seguido, elas pedem ajuda a Jared (Skyler Gisondo, de Férias frustradas e da série Santa Clarita Diet), que gosta de Molly. A primeira parada é num iate com um salão de festas grandioso, onde os três se deparam com Gigi (Billie Lourd), que, ao longo da narrativa, pode aparecer em lugares imprevistos.
A maneira como Wilde mostra a escola é bem mais otimista do que séries e filmes recentes, por exemplo Oitava série, no qual a protagonista sofria constantemente, embora não sem certo uso de bom humor em momentos-chave. Não que as duas amigas não tenham problemas aqui, no entanto Wilde acrescenta um tom de humor, principalmente quando elas têm de lidar com o diretor Jordan Brown (o ótimo Jason Sudeikis), a professora Miss Fine (Jessica Williams) e com Hope (Diane Silvers).

É muito interessante a maneira como Wilde filma a dinâmica de amizade ou inimizade das duas com seus colegas, principalmente num encontro de Molly com colegas que ela imagina perdidos na vida e em suas escolhas no banheiro da escola, quando descobre não se sobressair como imaginava em relação a eles, a começar por Triple A (Molly Gordon) e Theo (Eduardo Franco). Sua reação é um dos melhores momentos da primeira parte, estabelecendo praticamente o caminho seguido pela história. O roteiro escrito a oito mãos por Emily Halpern, Sarah Haskins, Katie Silberman e Susanna Fogel (esta diretora do interessante Meu ex é um espião) flui de maneira objetiva, não apresentando grande espaçamento entre uma e outra etapa nem desperdiçando alguns coadjuvantes que contribuem realmente para a narrativa. Os estereótipos quase caem no lugar-comum, porém os diálogos se fazem necessários.
Há algumas sequências com extrato um tanto surreal, perdidas em meio a outras, com alívio cômico por vezes desnecessário, mas Fora de série apanha a atmosfera e o clima de uma determinada época e as agruras da transformação adolescente. Dever já se mostrou antes ótima atriz, em filmes como Querido menino e Outside in, além do já referencial (e infelizmente subestimado) Homens, mulheres e filhos, e Feldstein tem mais uma chance depois de sua participação exitosa em Lady Bird, demonstrando um lado cômico pouco explorado por jovens atrizes em Hollywood.

Ambas possuem uma química muito grande, situadas entre a aceleração do que desejam fazer e as dúvidas que as cercam, em cenas sobretudo emotivas no ato final, no qual a trilha sonora tem uma participação relevante, remetendo ao curioso Meu namorado é um zumbi. Mas talvez seja Gisondo o grande intérprete dessa história, passada basicamente em uma noite e com ótima fotografia de Jason McCormick, captando uma atmosfera interessante, e trilha sonora. Ele oferece, como ótimo ator que é, um tom agridoce a esta passagem de fase e se confirma como um dos talentos jovens de Hollywood. E Wilde se firma como uma nova diretora de destaque, com influência de Sofia Coppola na combinação de um ar sofisticado com algo mais popular na abordagem, levando Fora de série para um campo de diversão reflexiva.

Booksmart, EUA, 2019 Diretora: Olivia Wilde Elenco: Kaitlyn Dever, Beanie Feldstein, Jessica Williams, Lisa Kudrow, Will Forte, Jason Sudeikis, Skyler Gisondo, Mason Gooding, Victoria Ruesga, Billie Lourd Roteiro: Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel, Katie Silberman Fotografia: Jason McCormick Trilha Sonora: Dan the Automator Produção: Megan Ellison, Chelsea Barnard, David Distenfield, Jessica Elbaum e Katie Silberman Duração: 105 min. Estúdio: Annapurna Pictures, Gloria Sanchez Productions Distribuidora: United Artists Releasing