O curioso caso de Benjamin Button (2008)

Por André Dick

Esta fábula dirigida por David Fincher pode parecer, à primeira vista, um Forrest Gump com menos humor, mas fica apenas na superfície a comparação. Em certos aspectos também parecido com Peixe grande, de Tim Burton, embora superior, o filme de Fincher tem um lado fabular não apenas pela figura de Benjamin Button, que nasce velho e vai rejuvenescendo. Isso seria o resultado de uma espécie de pedido feito por Monsieur Gateau (Elias Koteas), que está construindo o relógio da estação de trem de Nova Orleans e, tendo perdido seu filho na guerra, gostaria que o tempo contasse para trás (spoilers a partir daqui)..
Nascido no dia de encerramento da Primeira Guerra, em 1918, Button é abandonado pelo pai, Thomas Button (Jason Flemyng) na escadaria de um asilo e acolhido por uma afro-americana, Queenie (Taraji P. Henson), uma enfermeira, e seu namorado Tizzy (Mahershala Ali). Neste ambiente, em que a morte está presente todos os dias, e também trazendo todas as enfermidades no corpo de nenê, Button se refugia do restante do mundo. No entanto, já um pouco crescido (embora curvado e numa cadeira de rodas), é levado pela mãe adotiva a uma missa, sob as preces de um pastor começa a andar – lembrando também o filme com Tom Hanks – e, aos poucos, vai se acostumando a sair de casa, até que conhece Daisy (na infância, Ellen Fanning; na vida adulta Cate Blanchett), cuja avó mora no asilo.

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É esse amor que vai acompanhá-lo a vida toda, até que se reencontram quando têm a mesma idade, ou seja, no meio da vida. Tal drama – de o personagem nunca pertencer totalmente a seu tempo – é o que torna o filme de Fincher tão denso, assim como a maneira com que expõe o relato da mulher apaixonada por Benjamin.
Ao mesmo tempo, temos o relato de Daisy já envelhecida, acompanhada de Caroline (Julia Ormond), sua filha num hospital, que lê o diário de Benjamin, enquanto se aproxima a tempestade do Katrina. Suas lembranças não são apenas aquelas de que a mãe participa, mas principalmente as de Benjamin, que conta sobre o dia em que conhece Ngunda Oti (Rampai Mohadi), que, pelo tamanho, acha ser uma pessoa muito próxima e enfrenta seu primeiro afastamento de casa; sua amizade com o capitão Mike (Jared Harris), que lhe dá um emprego em seu rebocador, o leva para conhecer um bordel, em cuja saída acaba sendo abordado, sem saber, pelo pai; e o seu envolvimento com Elizabeth Abbott (Tilda Swinton, sempre com uma discrição elegante), mulher de um espião inglês, a qual conhece num hotel em que fica hospedado enquanto aguarda o momento de ir para alto-mar.

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Numa dessas idas e vindas, o rebocador de Mike é chamado para servir na Segunda Guerra, e Benjamin se oferece para integrar a tripulação. Todas essas lembranças são filmadas de maneira delicada por Fincher, utilizando de maneira irrepreensível os cenários, quase sempre vazios, mas acolhedores, como aquele em que Benjamin encontra sua amante (o filme recebeu o Oscar de direção de arte) no hotel. Entre idas e vindas para o asilo, Benjamin não consegue esquecer Daisy, sua paixão desde a infância, desde o momento em que conversa com ela debaixo de uma cabana na sala do asilo, iluminado pelas lanternas (como algum registro perdido de Wes Anderson), e ela se torna dançarina, participando de um grande grupo de balé, levando a uma das mais belas cenas – quando ele a contempla dançar depois de anos em frente a um espelho de estúdio.
O roteiro é de Eric Roth, o mesmo que realizou o de Forrest Gump, a partir de uma história de F. Scott Fitzgerald, talvez por isso haja elementos de ligação entre os dois filmes. O terreno é o da fantasia, pouco experimentado por Fincher, a não ser em Alien 3, com todo seu peso e opressão, expandido em policiais de serial killers de Zodíaco, Seven e Millennium e na claustrofobia de O quarto do pânico e Clube da luta. Mas em Benjamin Button o plano trágico do personagem – de ter sido abandonado e não recebido o amor da mãe, como acontece com Forrest – se destaca nas mãos de Fincher.

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Vemos seu personagem por dentro, ou seja, não é um simples arquétipo de fábula ou uma história universal, mas trágico,  o que é traduzido por uma das melhores interpretações até hoje de Brad Pitt. Nesse sentido, ainda mais interessante o romance atemporal de Benjamin pela amada e a noção de que a origem pode também representar o fim, ou vice-versa, e Cate Blanchett, com seu habitual distanciamento , convence. Todos esses sentimentos são reunidos com singularidade por Fincher, e a atmosfera do filme adquire um grau de melancolia que abrange tanto os afastamentos de Button da família e de Daisy (quase forçados) quanto aqueles em relação aos amigos que ele fará, mas certamente não irá manter, seja pela separação, seja pela perda. Há uma ambientação poucas vezes vista em outros filmes, em que o tempo ganha uma aceleração e uma permanência, uma aproximação e uma distância. Benjamin, ao contrário de Gump, não participa de grandes realizações, mas está permanentemente interessado em concretizar seu amor por Daisy e, quando participa de um acontecimento, como o da Segunda Guerra, é mais como coadjuvante.
Ainda assim, isso parece proposital em Fincher: ele está justamente mostrando um personagem singular, que não consegue se inserir nunca no tempo em que está. Também parece não ter interesse especial por isso: ele está mais interessado em reencontrar o espaço onde foi salvo, como se a ele tivesse de se apegar para a continuidade de sua existência. O espaço do asilo é sempre uma referência para a junção dos tempos que se perderam, assim como os comentários de um senhor sobre fatos de seu passado e os encontros tardios com seu pai.

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O que realmente é curioso no filme de Fincher é como esse quadro sentimental de vários personagens não tenta ser, em nenhum momento, piegas: sua emoção surge não dos personagens, mas da maneira como as imagens foram selecionadas. De inegável beleza toda a trajetória do casal pelos anos 60, pintando o apartamento e vivendo de forma descompromissada, acentuando a solidão de cada imagem; ou de Pitt, lembrando o Marlon Brando de O selvagem da motocicleta, andando numa estrada deserta e encoberta por nuvens escuras.
O filme ganha relevo por meio da bela fotografia de Claudio Miranda e da trilha sonora arrebatadora de Alexandre Desplat (lembrando alguns elementos daquela que Morricone fez para Cinzas no paraíso). Miranda filma Benjamin Button com os detalhes que conhecemos em outras obras de Fincher, e ele prossegue a linha de imagem entre o amarelo e o verde de O quarto do pânico, Zodíaco, e, depois de Benjamin Button, de Millennium e A rede social, sempre com as digitais de Fincher. Cada instante do filme de O curioso caso de Benjamin Button consegue arrebatar pela melancolia.

The curious case of Benjamin Button, EUA, 2008 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Mahershala Ali, Fiona Hale, Elle Fanning, Jared Harris, Tilda Swinton Roteiro: Eric Roth Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Ceán Chaffin, Kathleen Kennedy, Frank Marshall Duração: 166 min. Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / The Kennedy/ Marshall Company Distribuidora: Paramount Pictures (América do Norte) e Warner Bros. Pictures (Internacional)

100 melhores filmes da década 2010-2019

Por André Dick

O Cinematographe apresenta a seguir os 100 melhores filmes da década 2010-2019. Foi uma década com uma quantidade impressionante de ótimos filmes e selecioná-los não foi fácil: era possível fazer uma lista de 200 imprescindíveis. Alguns cineastas têm mais de um filme aqui, o que mostra o trabalho importante que eles apresentaram. Como todas as listas, as escolhas são pessoais. E as preferências tendem, às vezes, a mudar com o tempo. Alguns desses abaixo não estavam entre os principais das minhas listas de melhores de 2010 a 2019. Apenas numa revisão delas, pude separar melhor aqueles que, ao longo da década, foram se tornando mais destacáveis, em várias revisões, inclusive, enquanto outros a princípio mais relevantes foram perdendo um pouco a preferência. Por isso, há filmes mais ao final do ano de 2019; no caso, são ainda muito recentes e não tão vistos ou apreciados quanto os anteriores, embora muitos desse ano já tenham se tornado automaticamente marcantes. O objetivo principal é oferecer um panorama geral e que o leitor possa relembrar ou descobrir algumas dessas obras. É o modo como vejo as listas que contêm filmes dos quais gosto e não gosto. A lista foi publicada anteriormente no Twitter do Cinematographe (e agradeço a quem acompanhou sua publicação nesta plataforma) e os cartazes de cada um dos escolhidos está nesta página do Letterboxd. Agradeço a você por acompanhar o trabalho realizado aqui quase ao longo de toda a década passada, tendo o Cinematographe iniciado em 2012.

 

Uma vida oculta (2019)

Por André Dick

O cineasta Terrence Malick teve um hiato de vinte anos no cinema entre Cinzas no paraíso e Além da linha vermelha. A partir de 2011, mais exatamente depois do lançamento de A árvore da vida, ele se tornou um dos cineastas que mais lançou novas obras na década passada: Amor pleno, Cavaleiro de copas, Voyage of time e De canção em canção compuseram os novos momentos centrados no século XXI, mostrando casais em união ou em separação sob diferentes nuances. Embora esses filmes tenham sido recebidos com certa desconfiança, acredito que sejam, ao lado de A árvore da vida, o grande momento da carreira de Malick. Ele praticamente recriou, ao lado de Emmanuel Lubezki, a maneira de filmar e desenvolver uma narrativa no cinema contemporâneo, sempre com edições antilineares.

Embora seja mais linear do que os anteriores, Uma vida oculta partilha do mesmo estilo. Sua narrativa se localiza na Áustria, em 1939, na vila de St. Radegund. Nela, o camponês Franz Jägerstätter (August Diehl) vive com a esposa Franziska (Fani) (Valerie Pachner) ao lado dos filhos e de sua mãe (Karin Neuhäuser), numa espécie de paraíso sobre a terra, como acontecia em seu segundo filme, de 1978. Também vive com eles a cunhada, Resie (Maria Simon). Nisso, há brincadeiras com as crianças, aproveitando cada estação, enquanto trabalham no campo. O problema é quando a Segunda Guerra Mundial se aproxima com o domínio nazista de Hitler, e Franz é recrutado para treinamento. Extremamente religioso, ele frequenta a igreja, onde tenta se aconselhar com o padre Ferdinand Fürthauer (Tobias Moretti)  e tem discussões com o prefeito (Karl Markovics) sobre a verdadeira intenção do regime de Adolf Hitler. A questão mais grave, para ele, é ter de jurar lealdade ao ditador, que considera uma figura maléfica, ao contrário de muitos dos moradores de Radegund, quando passam a seguir os cumprimentos do nazismo. A palavra e o juramento estão em questão no filme de Malick mais do que em qualquer outro: como pode o indivíduo prestar lealdade a um regime que considera como o contrário do que acredita? Tudo é levado a um ponto extremo, para que o espectador possa raciocinar sobre as premissas de Franz.

Com uma trilha sonora emocional e discreta de James Newton Howard, principalmente a partitura para o casal central, e uma fotografia extraordinária de Jörg Widmer, substituindo Lubezki, mas selecionando algumas características dele (o movimento, o realismo da iluminação, os closes, a sensação de o espectador caminhar com os personagens), Uma vida oculta traz os mesmos elementos do restante da obra de Malick: trata-se de uma jornada de um sujeito tentando descobrir seu mais profundo sentimento, que pode lhe dar como resposta dúvidas que tem sobre a vida – ou simplesmente aumentá-las. É a mesma jornada dos personagens de filmes de época de Malick quanto nos contemporâneos, como o pesquisador feito por Ben Affleck em Amor pleno, ou o roteirista interpretado por Christian Bale em Cavaleiro de copas, ou os casais envolvidos com a música de De canção em canção. Com o acréscimo, aqui, de se tratar de uma história real e situada num momento especialmente trágico para a humanidade.

Se nos filmes mais recentes Malick focava a vida urbana no interior dos Estados Unidos, ou parte da vida rural, de modo passageiro, aqui ele lida com um universo de camponeses de maneira muito efetiva. O espectador parece se inserir no cenário montado por ele nas montanhas austríacas: tudo é arquitetado para que a atmosfera ganhe a tela de maneira abrangente. Os campos de trigo, as plantações, os animais (porcos, galinhas), os moinhos, a igreja do vilarejo e o carteiro que passa cruzando a vila desempenham uma noção fundamental para se entender a luta subjetiva desse homem. Em muitos momentos, Malick recupera uma espécie de cinema que parecia perdido, aquele, por exemplo, de A árvore dos tamancos ou de Os imigrantes, com uma condução do espectador para lugares inóspitos. Malick define a natureza, a rotina, o cotidiano como diametralmente oposto à ideia de guerra e seu caos e destruição. Isso se dá por meio de analogias de imagens e sua competência a colocar vozes de diálogos sobrepostas sobre cenas das quais já não fazem parte, construindo uma arquitetura delicada e humana, deslocando personagens de lugares nas mesmas conversas.

Mais uma vez, Malick coloca o casal como representação de um pedaço de paraíso na terra que pode ser afetado pelo mal, no caso Hitler. As atuações de Diehl e Pachner são notáveis. Diehl é curiosamente bastante conhecido por sua participação como um nazista que provoca uma confusão numa taverna em Bastardos inglórios, de Tarantino, no qual, diga-se de passagem, está também irretocável. Mesmo tendo poucos diálogos, eles conseguem, por meio do olhar e das ações, demonstrar uma grande e notável persuasão junto ao espectador. Todos os coadjuvantes (inclusive alguns atores que vão aparecendo ao longo da narrativa, a exemplo de Jürgen Prochnow e Bruno Ganz, em sua última obra) são nada menos do que excelentes. A temática religiosa de fundo se mostra de grande diálogo principalmente com Amor pleno, nas caminhadas de Franz com o padre da vila – naquele filme de 2012, o padre era interpretado por Javier Bardem. Também há um diálogo de Franz com um homem que faz pinturas religiosas, também ligado a A árvore da vida e a Amor pleno. Ele diz que sobrevive pintando o sofrimento sem saber o que é sofrer – é uma das linhas mais sensíveis de um filme de Malick e coloca a distinção entre teoria e prática do indivíduo. Mais do que em qualquer outro filme seu, a ideia de como as escolhas de um indivíduo afetam os demais ganha um grande espaço. E, em igual escala, como as crianças representam o futuro.

Por isso, Malick constitui uma obra à parte, na qual os filmes vão dialogando e se completando, talvez funcionando mais para o espectador que os conhece de antemão. Ainda assim, quem vai ao cinema sem conhecer o estilo de Malick se depara com uma obra em que a reconstituição de época é brilhante, desde o design de produção até o figurino, e tudo se encaixa dentro da montagem feita de forma proposital mais embaralhada. Essa montagem vai dando cadência às cenas passadas nas montanhas e aquelas em que Franz enfrenta os homens por causa do seu discurso. As paisagens a céu aberto contrastam com os muros e as celas da prisão. É a presença de uma força divina, a partir desse momento, como na obra em geral de Malick, que se manifesta nos cenários, assim como as narrações lembram confissões sobre a eternidade evocada pelos personagens por meio de suas ações.  A maneira como o diretor entrelaça o fim e o início traz uma comoção particular. Como toda a filmografia recente de Malick, Uma vida oculta é uma obra-prima, particularmente o melhor filme de 2019.

A hidden life, EUA/ALE, 2019 Diretor: Terrence Malick Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Matthias Schoenaerts, Tobias Moretti, Karl Markovics, Bruno Ganz, Jürgen Prochnow Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Jörg Widmer Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: Elisabeth Bentley, Dario Bergesio, Grant Hill, Josh Jeter Duração: 174 min. Estúdio: Elizabeth Bay Productions, Aceway, Studio Babelsberg Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

 

O preço da verdade (2019)

Por André Dick

Um diretor que investiu em filmes com caráter de denúncia é Steven Soderbergh. Embora tenha peças contra a indústria farmacêutica (Distúrbio, Terapia de risco) ou manipulação de contratos no esporte (High flying bird), talvez seu principal filme, nesse sentido, tenha sido aquele que foi lançado no mesmo ano de outro exemplar com essa característica, Traffic: o dramático e, ao mesmo tempo, bem-humorado Erin Brokovich, indicado ao Oscar de melhor filme em 2000, e ganhador do prêmio de melhor atriz (para Julia Roberts).
Ela desempenha com impressionante veracidade Erin Brokovich, uma mulher solteira, com filhos, que tenta descobrir como uma empresa está despejando dejetos tóxicos numa comunidade do interior dos Estados Unidos. Iniciando como secretária, torna-se uma assessora jurídica, tendo sempre desentendimentos engraçados com seu chefe (o ótimo Albert Finney).

Parece que o filme de Soderbergh, em suas aproximações e leves diferenças, é a premissa inspiradora de O preço da verdade, baseado também numa história verdadeira relatada no livro “The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare”, de Nathaniel Rich. Desta vez, acompanhamos um advogado, Robert Bilott (Mark Ruffalo), funcionário daTaft Stettinius & Hollister, em Cincinnati, Ohio, que é procurado por um fazendeiro, Wilbur Tennant (Bill Camp), que mora na cidade de sua tia, Parkersburg, Virgínia Ocidental.
A cidadezinha está às voltas justamente com m problema na água: parece que uma empresa conhecida, DuPont, está derramando substâncias tóxicas nelas, afetando não apenas os moradores, como também os animais da fazenda de Tennant. Quando Robert vai até lá, descobre que quase duzentas vacas morreram devido a complicações de saúde, sem uma explicação evidente. A questão imposta é que o advogado trabalha justamente para empresas que infringem as leis ambientais – o que coloca sua guinada como uma matéria de filme de Hollywood.

O diretor Todd Haynes é muito conhecido por seu apuro visual. Suas obras têm um detalhado rebuscamento, a exemplo de Longe do paraíso, Carol e o recente e belíssimo Sem fôlego, com sua fotografia em preto e branco. Usando novamente o trabalho do diretor de fotografia Edward Lachman, seu colaborador de longa data, Haynes filma esse advogado num universo soturno e praticamente sem vida. Enquanto Erin Brokovich tinha uma temática tão pesada quanto em alguns momentos, era mais solar, O preço da verdade faz a atmosfera se abater sobre o espectador. Em Erin Brokovich, Soderbergh empregava seu estilo documental, o que ocorre mesmo em sua franquia Onze homens e um segredo, mas dava especial atenção à relação entre os personagens. Erin se envolve com um hippie, que passa a cuidar de seus filhos. A claridade dos filmes de Soderbergh parece real, destacando-se nesse um tom dos anos 70 (cores pastéis, horizontes e planícies típicas de filmes dessa década), enquanto o de Haynes, apesar de soturno e parecendo mais próximo da realidade, adquire um formato um pouco mais irrealista. O roteiro de Mario Correa e Matthew Michael Carnahan se desvencilha de muitos diálogos e aprofunda no trabalho dos personagens em sua caracterização visual, a maneira como se comportam diante de um desafio.

O personagem representado por Mark Ruffalo tem um casamento estável com Sarah (Anne Hathaway) e trabalha numa firma de advocacia conhecida, tendo à frente Tom Terp (Tim Robbins). Quando ele se desentende com o advogado advogado da DuPont Phil Donnelly (Victor Garber), um dos homens que têm conhecimento do que faz a indústria na cidade, tudo passa a desencadear uma investigação pessoal em meio a milhares de arquivos. Há um ponto de vista sem dúvida mais romantizado do que o que vemos em Erin Brokovich: o personagem de Ruffalo é visualizado mais como um herói que combate o sistema, ao contrário da personagem de Roberts, mais humana. Isso, de qualquer modo, não diminui o interesse em se saber para onde se mexem as peças de O preço da verdade, um filme consciente dos temas que trata – embora não os leve até seu limite polêmico. Além de Ruffalo atuar muito bem, Hathaway, Garber e Robbins, além de Bill Pullman mais ao final, como um advogado, são ótimos coadjuvantes, concedendo a seus papéis uma credibilidade insuspeita. São eles que tornam O preço da verdade realmente sólido.

Dark waters, EUA, 2019 Diretor: Todd Haynes Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, Bill Pullman Roteiro:  Mario Correa e Matthew Michael Carnahan Fotografia:  Edward Lachman Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Produção: Mark Ruffalo, Christine Vachon, Pamela Koffler Duração: 126 min. Estúdio: Killer Films, Amblin Partners Distribuidora  Focus Features

Maria e João – O conto das bruxas (2020)

Por André Dick

Os contos de fadas têm sido utilizados nos últimos anos das mais variadas formas, seja em séries de TV (Grimm), seja em obras que lidam com um tom mais juvenil (A garota da capa vermelha) ou uma vertente de humor e violência (João e Maria – Caçadores de bruxas), além de animações (a exemplo de A bela e a fera), considerando ainda o tratamento metalinguístico no interessante Os irmãos Grimm, de Terry Gilliam. Este filme de Oz Perkins recupera a conhecida fábula dos irmãos Grimm sob um ponto de vista diferente, mais próximo do suspense e do terror, com claros elementos de A bruxa e uma fotografia excelente de Galo Olivares, assistente direto de Alfonso Cuarón na concepção de Roma.
O filme inicia com um bebê ficando doente numa vila distante, o que remete a alguma influência de uma releitura bíblica, e é entregue a uma feiticeira (Jessica De Gouw) para que possa sobreviver. No entanto, isso forma uma ação inesperada sobre o povoado. Maria (Sophia Lillis) e João (Samuel Leakey) vivem no lugar e ela é incitada a trabalhar pela mãe (Fiona O’Shaughnessy). Depois de negar a proposta de um homem, Maria é expulsa de casa com seu irmão e ambos vão parar num bosque. Depois de serem ajudados por um caçador (Charles Babalola), encontram Holda (Alice Krige), uma mulher que os recebe em sua casa com muitos doces.

Perkins utiliza um visual onírico que por vezes evoca Jodorowsky, principalmente aquele de A montanha mágica, dando uma sensação constante de pesadelo, assim como trabalha com elementos do videoclipe de “Heart-shaped box”, do Nirvana, principalmente numa sequência que imagina o preparo de uma comida de maneira distinta. Os galhos longos das árvores do bosque também remetem ao ótimo A lenda do cavaleiro sem cabeça, assim como os ambientes rústicos têm bastante influência de A vila, de Shyamalan, do mesmo modo que certo trabalho de cores. Em um determinado momento, uma grande árvore recorda Tarkovsky e sua releitura feita por Iñárritu em O regresso. É um trabalho visual de raro cuidado.
Nesse ponto, a fotografia de Olivares se destaca ainda mais, fazendo uma mescla entre as folhas laranjas pelo chão de um outono próximo da loucura que pode ser imposta num confinamento. Maria e Joao passam a viver com Holda sem suspeitar que ela, na verdade, seja uma bruxa e tentam se acostumar ao fato de que ali podem ter diariamente um banquete bem provido, diferente do lugar de onde vieram, expulsos do núcleo familiar. Esse clima claustrofóbico tanto ajuda quanto prejudica: em alguns momentos a narrativa perde em termos de impacto, pois Lillis é filmada diante de discursos expositivos. Ainda assim, sua narração contribui e trata-se de uma boa atriz, o que já mostrou em It – A coisa.

No plano simbólico, igualmente, o roteiro de Rob Hayes se sustenta bem: o homem significa a tentativa de salvar a comunidade e, ao mesmo tempo, sua perdição; a comida significa a entrada num universo paralelo àquele enfrentado pelo povoado; os cogumelos no bosque também ajudam na alucinação de algo que não existe; o espelho multiplica uma infinidade de crianças abandonadas, o trabalho delas é uma obrigação para conseguirem viver, contrapondo-se à vida que a bruxa oferta. Tudo é composto de maneira ao mesmo tempo orgânica e artificial, como cada doce dado pela bruxa aos seus hóspedes, acentuado por uma trilha sonora atmosférica de Robin Coudert.
Fica clara a intenção de realizar um terror mais artístico, no entanto se depara com limitações. A história torna-se em parte antilinear, no que tem bons propósitos, mas com toques mais ágeis ganharia em ênfase. Ainda assim é um filme que provoca interesse e pode crescer numa revisão. Ele tem uma boa mescla de ideias à medida que a trama vai se concentrando num espaço único, para o espectador disposto a perceber detalhes a princípio desnecessários e que ajudam a contar a história desses personagens de maneira essencial.

Gretel & Hansel, EUA, 2020 Diretor: Oz Perkins Elenco: Sophia Lillis, Sam Leakey, Charles Babalola, Jessica De Gouw, Alice Krige,Fiona O’Shaughnessy Roteiro: Rob Hayes Fotografia: Galo Olivares Trilha Sonora: Robin Coudert Produção: Brian Kavanaugh-Jones e Fred Berger Duração: 87 min. Estúdio: Orion Pictures, Automatik Entertainment, Bron Creative Distribuidora: United Artists Releasing

Sonic – O filme (2020)

Por André Dick

Os filmes baseados em videogame até algum tempo atrás não eram tão bem recebidos pelo público. Já nos anos 90, com Super Mario Bros, confirmava-se uma espécie de dificuldade de fazer o trânsito entre as duas linguagens. Talvez Angelina Jolie tenha conseguido algum efeito com sua versão de Lara Croft – Tomb Raider, reprisada por Alicia Vikander sem a mesma aceitação, no entanto nunca chegou a se caracterizar como uma referência. E, mesmo com a decepção nas bilheterias de Scott Pilgrim contra o mundo (este um filme fora de série de Edgar Wright) e Assassin’s creed  na década passada, tivemos alguns sucessos nessas adaptações, com boas ou excelentes bilheterias: Pixels – O filme, Rampage, Warcraft e Pokémon: Detetive Pikachu são alguns exemplos.
Com Sonic – O filme, ganhamos mais uma adaptação que tenta mesclar o tom infantil e o atrativo para um público mais adulto. Tendo na direção Jeff Fowler, em sua estreia, o roteiro é  de  Pat Casey e Josh Miller, baseados nos personagens de Yuji Naka, Naoto Ohshima e Hirokazu Yasuhara  Ben Schwartz faz a voz do personagem central, Sonic, um ouriço azul vindo de outro planeta capaz de correr numa ultravelocidade.

Ao não ouvir o seu guardião, Longclaw, e depois de ser atacado por uma tribo, Sonic recebe um punhado de anéis com poder de leva-lo para outros planetas. Ele acaba parando  perto de Green Hills, Montana, onde se torna admirador do xerife Tom Wachowski (James Marsden) e sua esposa Maddie (Tika Sumpt). O xerife tem uma vida tranquila: como o policial rodoviário de Missão madrinha de casamento, seu passatempo ideal é ver se algum carro passa acima da velocidade por seu carro de polícia. Sem que Sonic saiba, eles estão para se mudar para San Francisco.
E determinado momento, Sonic acaba criando uma interferência eletromagnética com sua velocidade, causando a queda da energia no noroente do Pacúfico. O cientista Doutor Robotnik (Jim Carrey), chamado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, surge para tentar ver onde se originou essa questão, e passa a perseguir Sonic e quem estiver com ele.

É claro que essa premissa é simples e Sonic – O filme não foge a ela em nenhum momento. Isso leva em conta que a química entre os personagens, apesar de rápida e construída sem naturalidade, é agradável, tanto pela voz de Schwartz quanto pela presença despretensiosa de Marsden, ator que aparece em projetos, de X-Men, passando por Superman – O retorno, até A caixa e Encantada. Ao tentarem empreender uma fuga, o filme se torna um rápido road-movie, com elementos curiosos que remetem a uma entrada no espírito do interior norte-americano, com uma referência a Cowboy do asfalto, com John Travolta, dos anos 80.
A própria presença de Jim Carrey evoca uma nostalgia. Depois de uma década passada sem muitos filmes, como Os pinguins do papai e as desastradas sequências de Debi & Loide e Kick-ass, e uma participação na série Kidding, além do bom documentário Jim & Andy, Carrey retoma alguns momentos do Charada que fez em Batman eternamente, com um tom entre a psicopatia e a tentativa de soar bem-humorada, além de remeter à sua presença histriônica em Desventuras em série. É um ator tarimbado para a narrativa proposta e sua presença rouba a cena toda a vez em que aparece, embora pareça exagerada. É ele que consegue tornar uma ideia a princípio apenas descartável numa diversão moderadamente agradável, em seus conflitos com o agente Stone (Lee Majdoub).

O roteiro não chega a desenvolver os personagens do xerife e de sua esposa que embarcam nessa aventura com Sonic, mas este, com seu sentimento de solidão, afastado de seu lugar de origem, é certamente excêntrico o bastante para despertar interesse por suas falas e velocidade – uma espécie de The Flash animado e em forma de ouriço. Os efeitos visuais são competentes (lembre-se que os fãs reclamaram do primeiro trailer, e o diretor efetuou uma grande mudança no visual do personagem), e os drones que o cientista carrega empregam uma maneira interessante de desencadear as cenas de ação, em lugares abertos ou fechados. Algumas, mais ao final, tentam recuperar alguma inspiração de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, embora sem a mesma tentativa de ser épico. Não há muito roteiro a se explorar aqui, e os atos são divididos. De qualquer modo, Fowler consegue efetuar uma diversão para todas as idades, com bom visual e que não insulta o espectador, soando às vezes ingênuo e nostálgico, duas características às vezes em falta mesmo em obras mais despretensiosas.

Sonic the Hedgehog, EUA, 2020 Diretor: Jeff Fowler Elenco: James Marsden, Ben Schwartz, Tika Sumpter, Jim Carrey Roteiro: Pat Casey, Josh Miller Fotografia: Stephen F. Windon Trilha Sonora: Tom Holkenborg Produção: Neal H. Moritz, Toby Ascher, Toru Nakahara, Takeshi Ito Duração: 99 min. Estúdio: Sega Sammy Group, Original Film, Marza Animation Planet, Blur Studio Distribuidora: Paramount Pictures

 

Jojo Rabbit (2019)

Por André Dick

O diretor Taika Waititi se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade, uma produção modesta e eficiente. Antes, porém, ele já tinha feito Loucos por nada, que anunciava em parte  inspiração no  universo criado pro Wes Anderson, repetida em A incrível aventura de Rick Baker. Já em Thor: Ragnarok, ele explorava um visual oitentista baseado em Flash Gordon. Agora, com Jojo Rabbit, ele amplia seu universo para o âmbito histórico, da Segunda Guerra Mundial, baseado no livro Caging skies, de Christine Leunens Trata-se de um diretor que sempre teve como intuito mesclar um universo próprio e outro imaginado, seja adaptado de quadrinhos, seja baseado num contexto mais próximo da realidade, em conflitos familiares e descobertas de uma vida.

Seu novo filme acompanha a vida de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis), um menino de dez anos que é um mininazista, dedicado aos ideais de Adolf Hitler (Taika Waititi), que imagina frequentemente como um amigo imaginário. Jojo mora com a mãe, Rosie (Scarlett Johansson), e seu pai está servindo na guerra, enquanto sua irmã mais velha recém faleceu. O ditador o acompanha no campo de treinamento da Juventude Hitlerista, comandado pelo capitão Klenzendorf (Sam Rockwell), num momento do filme que se parece muito com Moonrise Kingdom. No lugar, há os mais variados absurdos, sempre em diálogo com  que realmente aconteceu – a queima de livros –, sob um certo viés de sátira.
Depois de uma situação com um coelho, ele é apelido de Jojo Rabbit e acaba sofrendo um acidente que o “rebaixa” de posto, tendo de espalhar folhetos de propaganda nazista pela cidadezinha onde mora. Nesse meio tempo, ele descobre escondida em sua casa a Elsa Korr (Thomasin McKenzie), uma adolescente judia, ex-colega da irmã que faleceu.

Ele fica com receio de contar à mãe, do que aconteceria com ela, e Waititi visualiza essa situação de maneira agridoce. Mais maduro do que em Rick Baker, embora acompanhe novamente a trajetória de um menino antes da entrada na adolescência, Waititi continua utilizando um visual que lembra Anderson – as imagens referentes ao nazismo remetem a O grande Hotel Budapeste –, no entanto empregando em momentos decisivos um caminho mais dramático. Algumas situações rotineiras, como um passeio de Jojo com a mãe, ganham um lirismo quase escondido por trás de uma sátira que parece óbvia. E o próprio Waititi no papel de Hitler, embora tente fazer lembrar Chaplin, inigualável, consegue ser o ponto para que o espectador pense sobre todo esse cenário já visto no cinema de maneira mais trágica, contudo não no sentido de atenuar, mas de revelar as ideias ridículas por trás de um sistema que se pretendia sério e secular. A maneira como Waititi aborda a visão infantil sobre os judeus é como se fossem parte de outro universo, e os adultos alemães tentam confirmar essa impressão. Por isso, a primeira aparição de Elsa lembra o encontro de Elliott com o E.T. no filme de Spielberg. É visível como Waititi visualiza tudo como se fosse parte de um livro infantojuvenil, que, em meio a todo drama histórico, precisa ser revisto sob o ponto de vista justamente da infância, para que se tente descobrir alguma explicação sobre a barbárie.

Para desmontar uma ideia, o humor é utilizado de maneira decisiva em muitos filmes, principalmente no que se refere a conceitos pretensamente utilizáveis por todos. Nesse sentido, o filme de Waititi, tentando empregar um realismo às vezes próximo do ato final de O regaste do Soldado Ryan, porém com elementos de humor, consegue transitar bem entre extremos a partir de determinado ponto de vista irreconciliáveis. Com fotografia de Mihai Mălaimare Jr., o mesmo de O mestre, capaz de criar uma textura de época para as imagens, com uma atmosfera verdadeiramente europeia, e não apenas genérica, e uma trilha sonora muito boa de Michael Giacchino, que recebe os acréscimos de canções pop (“I Want To Hold Your Hand”,  dos Beatles), Jojo Rabbit se mostra até determinado momento um pouco forçado.
Contudo, as atuações de Griffin Davis e Johansson passam a se sobressair, e McKenzie (revelada no melancólico Sem rastros) é excelente, além de Rockwell acertar o tom de seu papel e Archie Yates quase roubar toda a cena em que aparece, como o amigo de Jojo. A obra de Waiteti se baseia na parte técnico e no elenco para acentuar uma narrativa que, até determinado ponto, poderia ser fraca e ligeiramente esquecível. Há elementos, claro, de A vida é bela, de se imaginar uma realidade paralela àquela que se impõe. Nisso, Waititi consegue ser mais interessante do que Benigni, fazendo uma sátira que a todo momento se lembra de ser séria – e, mesmo que entregue uma mensagem evidente, o faz de maneira calibrada e emocional, capaz de suscitar sentimentos imprevistos. As cartas, os poemas e as bibliotecas fazem parte de uma possível mudança de perspectiva e as janelas que lembram olhos chorando representam a autodescoberta da vida do personagem central. Isso consegue levar a uma comoção baseada na ideia de que são as crianças que vão escrever novas páginas direcionadas ao futuro, com um novo otimismo e necessidade de revitalizar a história. É uma ideia que parece óbvia, mas que Jojo Rabbit entrega com rara ênfase e cuidado.

Jojo Rabbit, EUA, 2019 Diretor: Taika Waititi Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Taika Waititi, Rebel Wilson, Stephen Merchant, Alfie Allen, Sam Rockwell, Scarlett Johansson Roteiro: Taika Waititi Fotografia: Mihai Mălaimare Jr. Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Carthew Neal, Taika Waititi, Chelsea Winstanley Duração: 108 min. Estúdio: Fox Searchlight Pictures, TSG Entertainment, Defender Films, Piki Films Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Vencedores do Oscar 2020

Por André Dick

Os favoritos ao Oscar, antes da temporada de premiações, eram O irlandêsCoringa, História de um casamentoEra uma vez em… Hollywood, seguidos por Jojo Rabbit, que foi escolhido como melhor filme no prestigiado Festival de Sundance, e Ford vs Ferrari. A partir do início de janeiro, 1917Adoráveis mulheres se juntaram a esses títulos, tendo como coadjuvante um filme da Coreia do Sul chamado Parasita.

Melhor filme

Parasita, desde a vitória no Festival de Cannes, foi ganhando cada vez mais admiradores e se tornou um grande e inesperado sucesso de bilheteria. No entanto, 1917 havia ganhado BAFTA e Globo de Ouro. Ficou muito conhecido pelo plano-sequência. Nas duas semanas anteriores ao Oscar, Parasita, no entanto, tomou uma grande proporção. Quem achava que ele ganharia os Oscars de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional? Nenhum diretor estrangeiro conseguiu essa vitória antes, nem aqueles inseridos na indústria de Hollywood, como Alfonso Cuarón e Ang Lee. É um feito histórico de Boon Jon Hong: o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o Oscar principal. Também é o primeiro filme desde Quem quer ser um milionário?, em 2009, a vencer sem ter nenhum nome do elenco indicado (injustamente, e é importante lembrar de sua vitória no SAG).
Numa temporada do Oscar que parece ter se passado mais à frente da tela de TV (por causa de O irlandêsHistória de um casamentoDois Papas) do que nos cinemas, a indústria se precavê. E é justo, pois nessa década certamente haverá uma transformação sem precedentes, com muitos filmes migrando das salas de cinema  para o streaming. É um sinal muito claro O irlandês ter sido o único dos indicados ao Oscar principal sair sem nenhum prêmio. Do mesmo modo História de um casamento ter vencido apenas na categoria de atriz coadjuvante. Era uma vez em… Hollywood conseguiu certo destaque, com Oscars de ator coadjuvante e design de produção, enquanto Coringa venceu nas categorias de melhor ator e trilha sonora e Ford vs Ferrari os Oscars de melhor edição e edição de som. O favorito até poucos minutos antes do anúncio de melhor diretor, o filme de guerra 1917, saiu com três Oscars técnicos (melhor fotografia, mixagem de som e efeitos visuais). Mas a conhecida divisão de prêmios principais, que me fazia acreditar que Era uma vez em… Hollywood tivesse chances, não aconteceu em 2020. A Academia concedeu nada menos do que quatro Oscars a Boong Joon Ho.
A festa em si fluiu melhor do que a do ano passado, mesmo sem apresentador fixo. Tivemos boas presenças de Steve Martin e Chris Rock, Will Ferrell e Julia Louis-Dreyfus, além de Kristen Wiig e Maya Rudolph (reprisando parceria de Missão madrinha de casamento) fazendo boas parcerias bem-humoradas. A apresentação inicial de Janelle Monáe foi boa, assim como as de canções, incluindo as de Elton John para a canção vencedora do Oscar, e de Eminem. O diretor Joon Boon Hong fez uma bela homenagem, em seu discurso de agradecimento, a Scorsese e Tarantino.

Melhor diretor

O diretor Martin Scorsese é certamente o nome com filmografia da lista, seguido de perto por Quentin Tarantino. A homenagem de Joon Boon Hong quando recebeu a estatueta a Scorsese, este sendo aplaudido de pé, foi muito merecida. E um reconhecimento do diretor sul-coreano que faz parte de uma nova geração, com peças como Memórias de um assassino e Mother, e conseguiu fazer de Parasita a obra mais comentada do cinema em 2019, depois de sua vitória no Festival de Cannes. Outra quebra no padrão: os vencedores do Directors Guild of America Award, apenas a partir do início deste século, sempre levaram o Oscar de direção, exceto Ben Affleck, que não chegou a ser indicado por Argo em 2013. Bong Joon Ho também rompeu essa referência. Ainda: ganhou de um novo nome muito forte para os próximos anos, Todd Phillips, diretor de Coringa.

Melhor ator

O grande favorito, depois do Globo de Ouro, BAFTA e Critics’ Choice Awards, era Joaquin Phoneix, por Coringa, que de fato foi o escolhido, merecidamente, depois de ser ignorado outras vezes, por O mestreJohnny & June e Gladiador, além de não ter sido nomeado por obras-primas como Ela e Vício inerente. Seu concorrente principal era Adam Driver, excelente em História de um casamento, que também foi destaque em outros três filmes em 2019: Os mortos não morremStar Wars – A ascensão Skywalker e O relatório. Jonathan Pryce também está muito bem em Dois Papas, assim como Leonardo DiCaprio em Era uma vez em… Hollywood e Antonio Banderas em Dor e glória. Os dois últimos, contudo, poderiam ter sido substituídos por Robert Pattinson (O farol) e Adam Sandler (Joias brutas) ou Song Kang-ho (Parasita).

Melhor atriz

Renée Zellweger teve um início de século marcante, fazendo sucesso com O diário de Bridget Jones e Chicago, além de ganhar o Oscar de atriz coadjuvante por Cold Montain, e reapareceu em Judy – Muito além do arco-íris. Ela venceu uma atriz de peso: Scarlett Johansson, no melhor momento de sua carreira em História de um casamento. Cynthia Erivo se destaca em Harriet e Charlize Theron está ótima em O escândalo. Já Saoirse Ronan, indicada por Adoráveis mulheres, aguarda seu momento, depois de algumas indicações.

Melhor ator coadjuvante

Depois das últimas premiações, Brad Pitt parece ser o favorito por Era uma vez em… Hollywood, que de fato acabou vencendo. No entanto, deve-se lembrar de Al Pacino e Joe Pesci, por O irlandês, ambos já ganhadores do Oscar (Pacino com Perfume de mulher de melhor ator e Pesci nessa mesma categoria por Os bons companheiros) e atuação extraordinária de Anthony Hopkins  em Dois Papas. É bom lembrar que outro concorrente era Tom Hanks, única indicação de Um lindo dia na vizinhança, que tem boa atuação.

Melhor atriz coadjuvante

A Academia de Hollywood seguiu a temporada de premiações e escolheu Laura Dern por sua atuação em História de um casamento. No entanto, as outras indicadas eram ótimas, sobretudo Margot Robbie, por O escândalo, e Kathy Bates (vencedora do Oscar de melhor atriz com Louca obsessão), por O caso Richard Jewell.

Melhor roteiro original

Imaginei que a Academia premiaria Bong Joon Ho por Parasita, deixando Quentin Tarantino em segundo plano por Era uma vez em… Hollwyood. São dois trabalhos notáveis, cada um com suas características: o do filme sul-coreano mais compacto e o de Tarantino mais estendido e lento, mesmo com a profusão de diálogos. Noah Baumbach, um tanto injustiçado na temporada de premiações, apresenta um trabalho irrepreensível em História de um casamento e deveria ser um dos lembrados naturalmente já outras vezes – o foi antes apenas por A lula e a baleia. Apenas não parecia se encaixar entre os indicados o roteiro de Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns para 1917.

Melhor roteiro adaptado

Taika Waiiti ganhou por Jojo Rabbit, uma adaptação de grande qualidade, misturando temas sérios com um tom cômico.  O melhor trabalho, porém, me parecia ser o de Steve Zaillian em O irlandês, seguido pelo de Todd Phillips e Scott Silver em Coringa. O do filme de Scorsese tem várias camadas, idas e vindas no tempo, e o de Coringa algumas reviravoltas bem costuradas.

Melhor filme internacional

Parasita era o grande favorito da categoria, apesar de ter como concorrentes filmes de destaque, a exemplo de Dor e glória e Os miseráveis. Retrato de uma jovem em chamas não concorria; talvez tivesse sido aquele com mais chance contra o favorito da Coreia do Sul.

Melhor animação

Grande favorito, Toy Story 4 foi o escolhido. No entanto, Klaus e Perdi meu corpo tiveram destaque na corrida, assim como Link perdido. Como treinar o seu dragão 3 continuou a boa tradição da série. Uma as melhores safras do gênero desde o início desta categoria.

Melhor curta de animação

Hair Love

Melhor documentário

American Factory

Melhor documentário em curta-metragem

Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)

Melhor curta-metragem

The Neighbors’ Window

CATEGORIAS TÉCNICAS

Melhor fotografia

Os trabalhos de Rodrigo Prieto em O irlandês e Lawrence Sher em Coringa são ótimos, assim como o de Robert Richardson no filme Era uma vez em… Hollywood, mas o melhor candidato parecia ser o de Jarin Blaschke (O farol), com sua espetacular fotografia em preto e branco, lembrando clássicos de Ingmar Bergman. Ganhou Roger Deakins, que fez um competente plano-sequência e movimentação criativa de câmera em 1917 , apenas dois anos depois de sua vitória por Blade Runner 2049.

Melhor trilha sonora

Hildur Guðnadóttir foi a premiada, por Coringa, ganhando principalmente do já tradicional nas indicações Alendre Desplat, por Adoráveis mulheres, e John Williams, por Star Wars – A ascensão Skywalker. Belíssima trilha, ajuda a marcar o ritmo do filme de Phillips.

Melhor canção original

“I’m Gonna Love Me Again” (Rocketman) proporcionou um Oscar a Elton John, bastante merecido. Era a canção mais interessante, mas também se destacavam “I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4) e “Stand Up”  (Harriet).

Melhor design de produção

Barbara Ling e Nancy Haigh ganharam o Oscar por Era uma vez em… Hollywood, à frente de bons trabalhos: Bob Shaw e Regina Graves, por O irlandês, Ra Vincent e Nora Sopkova, por Jojo Rabbit, e Dennis Gassner e Lee Sandales, por 1917, além de Lee Ha-Jun and Cho Won Woo, Han Ga Ram e Cho Hee, por Parasita, com sua arquitetura contemporânea. A reconstituição de época do final dos anos 1960 da obra de Tarantino é notável, ajudando muito na narrativa e mesmo nas atuações.

Melhor figurino

Jacqueline Durran, que havia vencido o Oscar anteriormente pelo figurino impressionante em Anna Karenina, ganhou novamente por Adoráveis mulheres, enfrentando bons trabalhos, principalmente os de O irlandês e Jojo Rabbit. Seu trabalho é rico em criatividade e cores, lembrando não apenas o que fez para a adaptação de Joe Wright, como aquele de Milena Canonero em Maria Antonieta, vencedor da categoria em 2007.

Melhor edição

Michael McCusker e Andrew Buckland venceram por Ford vs Ferrari, numa categoria que costumava combinar com a de melhor filme anos atrás. Tinha como adversários os ótimos trabalhos de Thelma Schoonmaker em O irlandês e de Jinmo Yang em Parasita. A edição do filme de Mangold é extremamente ágil, em especial nas cenas de corrida espetaculares. É o grande atrativo, ao lado da atuação de Christian Bale.

Melhor edição de som

Don Sylvester venceu o Oscar por Ford vs Ferrari. Ganhou do trabalho competente de Alan Robert Murray em Coringa. Os outros concorrentes eram igualmente fortes: 1917, Era uma vez em… Hollywood e Star Wars – A ascensão Skywalker

Melhor mixagem de som

Mark Taylor e Stuart Wilson venceram por 1917, conseguindo chegar à frente de trabalhos como os de Ad Astra, Coringa Ford vs Ferrari.

Melhor maquiagem e cabelo

O escândalo recebeu um Oscar merecido, com sua ótima maquiagem efetuada por Kazu Hiro, Anne Morgan e Vivian Baker nos personagens de Nicole Kidman, Charlize Theron e John Lithgow.

Melhores efeitos visuais

1917 foi o escolhido, em trabalho efetuado por Guillaume Rocheron, Greg Butler e Dominic Tuohy, conseguindo ganhar de filmes destacados neste campo, principalmente O rei leão e Star Wars – A ascensão Skywalker.

Possíveis vencedores do Oscar 2020

Por André Dick

Esta é a melhor seleção de indicados ao Oscar de melhor filme desde que o número aumentou para dez. Predominam excelentes obras. Uma lista com 10 indicados seria bem-vinda, principalmente com a inclusão de O caso Richard Jewell, O farol ou O pintassilgo.
Dos indicados, a disputa vai ficar, ao que tudo indica, entre 1917, Parasita e Era uma vez em… Hollywood, com algumas possibilidades para Coringa. O irlandês corre por fora. Seria uma surpresa Jojo Rabbit e Adoráveis mulheres vencerem. Já História de um casamento Ford vs Ferrari não apresentam, pelo que a temporada mostrou até agora, chances.
Cada filme precisa passar por algumas vitórias para chegar ao Oscar principal. A questão é se a Academia de Hollywood vai querer consagrar Sam Mendes, já premiado com Beleza americana, ou Bong Joon-ho, de Parasita. Minha hipótese é de que vai haver uma divisão de prêmios: Mendes vai ganhar como melhor diretor, Joon-ho os Oscars de filme estrangeiro e roteiro original e Quentin Tarantino o de melhor filme, pois é produtor também de Era uma vez em… Hollywood. No entanto, para ganhar o Oscar mais visado, 1917 deve cumprir seu favoritismo em categorias técnicas, e Era uma vez em… Hollywood receber um ou dois outros Oscars (o de ator coadjuvante está praticamente garantido, mais o de design de produção). Nesse sentido, acho difícil Joon-ho sair com três Oscars: além de filme estrangeiro e roteiro original (aos quais é favorito), o prêmio principal, também como produtor. Alfonso Cuarón não conseguiu isso com Roma – mas pode acontecer, claro. Parasita e 1917 também têm em comum não terem nenhum integrante do elenco indicado nas categorias de atuações. A última obra a ganhar o Oscar principal sem nenhuma indicação de elenco foi Quem quer ser um milionário?. em 2009.
História de um casamento e O irlandês, assim como Nasce uma estrela em 2019, tiveram seu hype inicial reduzido, na temporada de premiações, à categoria de melhor atriz coadjuvante (Laura Dern) para a obra de Baumbach. Há chances de O irlandês ser o único filme indicado ao Oscar principal que sairá sem nenhum êxito, o que é especialmente lamentável. Embora considere que Era uma vez em… Hollywood seja o possível vencedor, Parasita cresceu no momento derradeiro, e 1917 é o grande favorito depois do Globo de Ouro e do BAFTA (pesa ainda o fato de que, quando um filme de origem britânica chega bem ao Oscar, a exemplo de Ghandi, Shakespeare apaixonado, Quem quer ser um milionário?, O discurso do rei e 12 anos de escravidão, costuma ganhar). Abaixo, como já adiantado no Twitter do Cinematographe, quem VAI ganhar, PODE ganhar e DEVERIA ganhar em cada categoria principal, em escolhas pessoais (destaco a imagem da escolha preferida).

Melhor filme

Vai ganhar: Era uma vez em… Hollywood

Pode ganhar: 1917

Deveria ganhar: Era uma vez em… Hollywood

Melhor diretor

Vai ganhar: Sam Mendes (1917)

Pode ganhar: Quentin Tarantino (Era uma vez em… Hollywood)

Deveria ganhar: Martin Scorsese (O irlandês)

Melhor ator

Vai ganhar: Joaquin Phoenix (Coringa)

Pode ganhar: Adam Driver(História de um casamento)

Deveria ganhar: Joaquin Phoenix (Coringa)

Melhor atriz

Vai ganhar: Renée Zellweger (Judy – Muito além do arco-íris)

Pode ganhar: Scarlett Johansson (História de um casamento)

Deveria ganhar: Scarlett Johansson (História de um casamento)

Melhor ator coadjuvante

Vai ganhar: Brad Pitt (Era uma vez em… Hollywood)

Pode ganhar: Al Pacino (O irlandês)

Deveria ganhar: Brad Pitt (Era uma vez em… Hollywood)

Melhor atriz coadjuvante

Vai ganhar: Laura Dern (História de um casamento)

Pode ganhar: Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)

Deveria ganhar: Margot Robbie (O escândalo)

Melhor roteiro original

Vai ganhar: Bong Joon-ho e Jin Won Han (Parasita)

Pode ganhar: Quentin Tarantino (Era uma vez em… Hollywood)

Deveria ganhar: Quentin Tarantino (Era uma vez em… Hollywood)

Melhor roteiro adaptado

Vai ganhar: Taika Waititi (Jojo Rabbit)

Pode ganhar: Greta Gerwig (O irlnadês)

Deveria ganhar: Steven Zaillian(O irlandês)

Melhor filme em língua estrangeira

Vai ganhar: Parasita (Coreia do Sul)

Pode ganhar: Dor e glória (Espanha)

Deveria ganhar:Parasita (Coreia do Sul)

Melhor animação

Vai ganhar: Tot Story 4

Pode ganhar: Klaus

Deveria ganhar: Toy Story 4

Melhor fotografia

Vai ganhar: Roger Deakins(1917)

Pode ganhar: Robert Richardson (Era uma vez em… Hollywood)

Deveria ganhar: Jarin Blaschke (O farol)

Melhor trilha sonora

Vai ganhar: Hildur Guðnadóttir (Coringa)

Pode ganhar: Thomas Newman (1917)

Deveria ganhar: Hildur Guðnadóttir (Coringa)

Melhor canção original

Vai ganhar: “I’m Gonna Love Me Again” (Rocketman)

Pode ganhar: “Stand Up”  (Harriet)

Deveria ganhar: “I’m Gonna Love Me Again” (Rocketman)

Melhor design de produção

Vai ganhar: Era uma vez em… Hollywood

Pode ganhar: 1917

Deveria ganhar: Era uma vez em… Hollywood

Melhor figurino

Vai ganhar: Adoráveis mulheres

Pode ganhar: Jojo Rabbit

Deveria ganhar: Adoráveis mulheres

Melhor edição

Vai ganhar: Ford vs Ferrari

Pode ganhar: Parasita

Deveria ganhar: O irlandês

Melhor mixagem de som

Vai ganhar: 1917

Pode ganhar: Ford vs Ferrari

Deveria ganhar: Coringa

Melhor edição de som

Vai ganhar: 1917

Pode ganhar: Ford vs Ferrari

Deveria ganhar: Star Wars – A ascensão Skywalker

Melhor maquiagem e cabelo

Vai ganhar: O escândalo

Pode ganhar: Coringa

Deveria ganhar: O escândalo

Melhores efeitos visuais

Vai ganhar: O rei leão

Pode ganhar: 1917

Deveria ganhar: O rei leão 

Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa (2020)

Por André Dick

Com o sucesso de bilheteria de Esquadrão suicida em 2016, a personagem que mais se destacou foi a de Arlequina, feita por Margot Robbie, embora o Pistoleiro, interpretado por Will Smith, também tivesse uma presença acentuada. Aproveitando uma passagem da DC, como alguns dizem, mais soturna, planejada por Zack Snyder, para outra mais descompromissada e com elementos mais de humor, Arlequina recebeu seu filme solo, com coadjuvantes. Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa é precedido por alguns dos maiores sucessos da DC, Mulher-Maravilha, Aquaman e Coringa – este sem fazer parte do universo estendido –, além do familiar e divertido Shazam!, o que constitui um desafio: tentar se equilibrar entre dois tons.
Ao contar logo no início sobre o rompimento de Arlequina com Coringa – entendido como o rompimento de Jared Leto com a DC –, a diretora Cathy Yan mostra a personagem desolada num clube noturno, cujo dono é o terrível gângster Roman Sionis. No lugar, ela conhece a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), uma espécie de protegida de Sionis, cujo braço direito, Victor Zsasz (Chris Messina), gosta de cometer crimes em profusão.

O ambiente é propício para Arlequina, que se sente ainda parte das escolhas do ex-namorado, uma das ameaças a Gotham City. A maneira como Arlequina lembra dele, assim como do seu passado trabalhando como psiquiatra no Asilo Arkham, recorda substancialmente o filme de David Ayer – aqui um dos produtores executivos – e se destaca como o enfoque neste universo não tem relação com o de Todd Phillips, uma saída encontrada pela Warner/DC para a abordagem de cada um, e isso pode ser sentido também no nome que Arlequina dá a uma hiena que adota.
Depois de uma de suas estripulias (homenageando de forma criativa Thelma & Louise), acentuada por uma narração tentando aproximar tudo de um universo lúdico – mesmo quebrar braços e pernas – e lembrando, pelas cenas iniciais, os Looney Tunes, Arlequina passa a ser perseguida por Renee Montoya (Rosie Perez), detetive da polícia. As coisas se complicam quando a menina órfã Cassandra Cain (Ella Jay Basco) rouba um diamante precioso de Zsasz. Até esse momento, a diretora costura uma sucessão de flashbacks, com gráficos apresentando os personagens que dialogam com os de Esquadrão suicida e uma trilha sonora de músicas pop. Funciona às vezes, quando a edição fica menos sobrecarregada de idas e vindas.

Se Margot Robbie ressalta uma nova visão de Arlequina mais frenética, diferente do filme de Ayer, no qual alternava alegria desenfreada e certa tristeza, Roman Sionis é um vilão bastante desagradável, feito com receio e certo constrangimento por Ewan McGregor, deslocado em pelo menos três cenas excessivas, mas salvo pela presença de Messina. A narrativa ganha mais peso de entretenimento e mesmo emocional quando começa a dar espaço para outras personagens, como o da órfã ou o de Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead), que passou por um grande problema quando criança, tirando o foco de Arlequina e de Sionis. A diretora se sente à vontade, inclusive, para prestar homenagem a um determinado filme de Quentin Tarantino, assim como a clássicos dos anos 50, Os homens preferem as loiras e A dama e o vagabundo. E o título original, com os parênteses, é uma clara referência a Birdman, de Iñárritu. Também parece que vai havendo, ao longo da trama, uma predisposição em fazer os figurinos de Arlequina se encaixarem mais com o ambiente e o design de produção.

São elas, ao mesmo tempo, que trazem Arlequina de volta para a narrativa, depois de um início trepidante, e fazem Robbie diminuir o overactring do primeiro ato e voltar a certa carga mais dramática. Igualmente é muita boa a atuação de Jurnee Smollett-Bell, aproveitando os poucos diálogos que recebe do melhor modo. Os personagens dos homens representam o que há de pior na sociedade, e em algum momento Arlequina brinca que eles só querem violência – é justamente o elemento oferecido pelo filme em larga escala, aliado ao bom humor de determinadas situações. Algumas cenas de ação em câmera lenta dialogam bem com o estilo da DC, embora algumas vezes não fosse necessário adotá-lo.
Preponderantes do início ao fim, as lutas são coreografadas com competência, principalmente quando vai se aproximando o final, com uma sucessão de cortes apoiados na fotografia exitosa de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofsky, como em Cisne negro e mãe!. Com isso, Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa tem uma boa dose de entretenimento e funciona bem dentro do seu universo, fazendo uma apresentação coerente com a proposta e as personagens.

Birds of Prey (and the fantabulous emancipation of One Harley Quinn), EUA, 2020 Diretora: Cathy Yan Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Rosie Perez, Chris Messina, Ella Jay Basco, Ali Wong, Ewan McGregor Roteiro: Christina Hodson Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Margot Robbie, Bryan Unkeless, Sue Kroll Duração: 109 min. Estúdio: DC Films, LuckyChap Entertainment, Kroll & Co. Entertainment, Clubhouse Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures