Amor (2012)

Por André Dick

Amor

O tema do amor é um dos mais difíceis de ser tratados não apenas na literatura, como também no cinema, apesar da sequência de obras que parecem remeter a ele, muitas vezes de maneira considerada profunda. O diretor austríaco Michael Haneke não tem uma obra exatamente voltada a um olhar agradável sobre determinadas situações. Seus filmes, como A professora de piano,  abrigam uma espécie de violência moral que às vezes acaba destoando do próprio enfoque que ele oferece. Tratar de um casal consciente da repetição das coisas e das ações, por anos e anos, não era o material, portanto, mais adequado ao diretor. Por outro lado, se a idade em que o amor pode ser reencontrado de várias formas (como vemos na faceta positiva e idealizada, sobretudo em O exótico Hotel Marigold) é também aquela que proporciona uma lembrança  do tempo passado, temos em Amor, de Haneke, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado a vários Oscars, inclusive de melhor filme, um exemplo para avaliarmos o que pode ser visto como amor e como ele já foi tratado.
Pode ser que o início (daqui em diante, spoilers) transpareça algo do Haneke anterior, sobretudo com uma porta sendo arrombada e o corte de um homem sentindo um cheiro incômodo ao atravessar a porta de um quarto, mas logo em seguida somos colocados diante de uma plateia. Estamos olhando para ela e ela nos olhando (nos moldes do início de Holy Motors), quando inicia um concerto de piano. Em seguida, vemos Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) Laurent cumprimentando o jovem pianista e voltando para casa de ônibus. Certamente, nessa sequência, Haneke define a passagem dos personagens da multidão para a solidão, quando chegam a seu apartamento, cuja porta tem sinais de que alguém esteve ali na ausência deles. O cuidado com que o diretor demonstra isso leva a crer, em certo momento, se é tudo excessivamente calculado ou se mesmo as atuações são excessivamente frias e autossuficientes. Acontece justamente o contrário: é difícil lembrar outro filme que consiga elaborar a descoberta de um casal de idade dos problemas de saúde que acometem o homem e a mulher. No caso de Amor, quem adoece é Anne. Há uma longa sequência em que eles tomam café, Anne fica paralisada, dando a impressão de não ouvir mais nada, e parece voltar ao normal em seguida, porém anuncia a interrupção daquela convivência natural. A filha do casal, Eva (Isabelle Huppert, sempre marcante), aparece para conversar com o pai e Haneke registra de forma seca o aviso de Georges de que Anne será submetida a uma cirurgia, sem que Eva esboce qualquer reação de interesse.

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Haneke irá estabelecer cortes temporais e de sequência para dar uma agilidade ao filme, embora ele pareça ficar sempre no mesmo lugar, como os personagens de Georges e Anne. É apenas aparente, pois na ausência percebida de ação está o que movimenta Amor: Georges quer ser atencioso com Anne, é solidário, faz compras, deixa que ela leia seu livro sozinha no quarto. No entanto, também há uma cobrança. Neste meio termo, Haneke estabelece sua concepção de amor, situado entre a espera do homem ou da mulher pela palavra alheia e da amargura que causa uma possível ausência de cada um numa relação. Inevitável, nisso, uma sequência de sonho, em que o personagem abre a porta, remetendo a seu medo de bandidos no apartamento, e se depara com uma obra e, em seguida, um corredor. Não querer que a vida se transforme, entre em reforma, e ao mesmo tempo a fuga por um corredor que pode afastar do apartamento, agora dedicado à saúde da esposa, leva o corpo a prender o grito e a água da torneira que sua mulher pode ter aberto (e não lembra direito) a seus pés. Haneke insere, em seu roteiro, a ideia de que o ser humano pode ser incapaz de sustentar uma relação em que a palavra necessitada fica ausente.
O personagem do pai é a representação evidente disso, e quando ele diz à filha que não se interessa pela preocupação dela pois já tem problemas demais em que pensar Haneke o faz de maneira ao mesmo tempo próxima e distante. É o que ele mais desenha em seu filme: personagens que olham para os outros de maneira tão próxima que acaba se criando um afastamento. Porém, nesse afastamento, e a relação entre Georges e Anne e destes com um pianista, Alexandre (Alexandre Tharaud, pianista na vida real), que foi aluno dela, e com a filha acaba criando um enigma sobre a própria condição de cada personagem. Notável a sequência da visita do pianista, quando Anne não deseja mais a harmonia da música que a acompanhou e também não deseja falar de suas sequelas. Estamos diante de uma visão artística, em que o pássaro que entra na janela fica melhor no desenho da prateleira. Ou quando, num jantar, ela apanha um álbum, sob o olhar atônito de George, e passa a folheá-lo na mesa, prendendo-se a um passado que não deseja abandonar. A sensação é de que passa a ser inevitável investigar Amor como não simplesmente um retrato de como o ser humano vai se extinguindo, sem conseguir ser plenamente deixado para trás, porque seria impossível se livrar das próprias lembranças. Por isso, avaliar que Haneke faz simplesmente um retrato frio e soturno desse desprendimento existencial soa apressado; o que ele faz, por meio de cada móvel disposto no apartamento, nas trocas de cama, na personagem de Anne sendo lavada por uma enfermeira, é justamente um ingresso na confidência e na solidariedade e no desespero contido e assustador de poder perder o outro.

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Daí as atuações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva serem primordiais para que o diretor consiga estabelecer, mesmo que não pareça, por todo o enfoque do amor ser destinado a uma facilitação entre pares, na maioria dos filmes, uma espécie de ingresso no ambiente perturbador da solidão e da insegurança. Para Georges, um pássaro pode tanto representar a prisão, o apego, e daí ele não deve voar, como sua própria libertação, do mesmo modo que um gole-d’água para quem evita em demonstrar sede. Assim acontece também para cada um dos personagem: do marido que não consegue se libertar do acampamento dos 10 anos de idade, da filha que, longe e sentindo-se culpada, quer espiar o que pode estar acontecendo do outro lado da porta do quarto. Os reflexos se espalham ao longo do filme: as enfermeiras, o ajudante do hotel, assim como as flores na pia, o soro, os lençóis da cama, os abajures iluminando a sala.
Belíssima a cena em que Anne toca piano na sala do apartamento. Ela estará lembrando do seu passado, de algum ponto da cama em que está deitada? Haneke surpreende, voltando sua câmera para Georges, abrigado pela memória no sofá. É, além de melancólico, denso e verdadeiramente profundo. Afinal, para Haneke, cada pessoa é feita de lembranças. Como o personagem pode deixá-las para trás? Ele, certamente, não pode: o casaco ainda pode trazer abrigo, embora não haja mais a saída pela porta. Não há, em algum momento, exploração gratuita da condição da personagem de Anne. Pelo contrário, Haneke consegue sintetizar a materialidade e a despedida dela de maneira estritamente sensível, mesmo que soe mesmo desalentador e questionável (ao final). Não pode haver exploração demasiada da realidade da personagem se é nela que se concentra todo o amor e o desprendimento. Emmanuelle Riva, neste caso, é memorável.
Para Haneke, e seu casal de atores, o amor só pode ser sublinhado sem a ausência de uma das partes, pela fuga em direção a uma imaterialidade que possa junto trazer a memória de algo que escapou ou que nunca veio à tona. Raras vezes, no cinema, um apartamento conseguiu transpirar toda uma condição existencial, de vida, morte, luto e retomada do voo pela janela. A Amor se deve inúmeras sensações: a própria visão do sentido do amor e de que a necessidade de mantê-lo por perto pode resultar na ausência e na tentativa de se afastar da dor, reservando apenas as lembranças e a perturbação do abandono anunciado, é uma delas.

Amour, Áustria/ALE/FRA, 2012 Diretor: Michael Haneke Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Ramón Agirre, Rita Blanco, Carole Franck, Dinara Drukarova, Laurent Capelluto, Jean-Michel Monroc, Suzanne Schmidt, Damien Jouillero, Walid Afkir Produção: Stefan Arndt, Margaret Ménégoz Roteiro: Michael Haneke Fotografia: Darius Khondji Duração: 127 min. Ano: 2012 Distribuidora: Imovision Estúdio: Les Films du Losange / X-Filme Creative Pool / Wega Film

Cotação 5 estrelas

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4 Comentários

  1. Filme lindo e cruel. Haneke nos mostra um outro lado do amor, uma triste realidade que nenhum de nós está livre de passar um dia. Crítica perfeita como sempre

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    • Prezado Felipe,

      agradeço novamente por suas palavras e pelo comentário generoso. Como você diz, “Amor” é lindo e pode ser cruel, inclusive com nossas expectativas. E Haneke confirma ser um dos maiores diretores contemporâneos. A maneira como ele conseguiu filmar esta história é memorável.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André.

      Responder
  2. Estimado Andre,

    Sublime o filme. Sensível sua crítica.
    Parabéns,

    Luciene Felix Lamy

    Responder

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