Paterson (2016)

Por André Dick

Esta nova experiência de Jim Jarmusch na direção vem na sequência de seu filme cult de vampiros, Amantes eternos. Desta vez, o criador de obras singulares como Estranhos no paraíso, Daunbailó, Dead man e Flores partidas mostra a trajetória de Paterson (Adam Driver), motorista de ônibus da cidade de New Jersey com o mesmo nome seu. Ele escreve versos num caderno secreto e é ainda admirador especial de William Carlos Williams, que nasceu na cidade, trabalhou como médico e escreveu o longo poema intitulado Paterson.
Quando chega em casa, o poeta-motorista sempre leva o buldogue da sua amada Laura (Golshifteh Farahani), chamado Marvin, para passear. No trajeto, ele descansa num bar cujo proprietário é Doc (Barry Shabaka Henley), fã de Lou Costello, onde também conhece alguns outros frequentadores, inclusive o ator Everett (William Jackson Harper), que tenta reconquistar a ex-namorada, Marie (Chasten Harmon), evocando algo de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Também se depara, em alguns passeios, com um rapper (Cliff Smith, também conhecido como Method Man) e uma jovem poeta (Sterling Jerins), que lhe pergunta se gosta de Emily Dickinson depois de ler um poema no qual faz uma analogia entre a chuva e os cabelos de uma jovem.

Para quem não gosta de narrativas lentas, Paterson, exibido pela primeira vez no Festival de Cannes do ano passado, se torna especialmente difícil, mas Jarmusch consegue ser tão humano e sensível que se torna difícil não aceitar que é um dos maiores acertos de sua filmografia já rica. Há algo de estranho na relação entre Paterson e Laura: ela é uma sonhadora, que deseja seguir carreira de cantora country, mas, ao mesmo tempo, quem o prende à realidade. Querendo fazer também cupcakes, ela se transforma na referência dele para os horários marcados do cotidiano: seu interesse pela decoração da casa é um complemento a isso – e a atuação excepcional de Golshifteh Farahani, também música na vida real, colabora definitivamente para o andamento da narrativa.
Paterson retrata como as revelações do cotidiano, as simples perguntas feitas (“Como vai?”), as aspirações divididas, um encontro para jantar ou no cinema e a tentativa de descobrir por que a caixa de correio se encontra da mesma maneira todos os dias constituem um universo poético. Do mesmo modo, o personagem central se interessa em ouvir as conversas de seus passageiros: em determinado momento, aparecem Kara Hayward e Jared Gilman, o casal de Moonrise Kingdom. Neste filme de Wes Anderson, seus personagens tratavam de poesia e de rimas, o que acontece aqui quando Paterson dialoga com a menina que escreve versos em um livreto.

A maneira como o diretor mostra os poemas criados pelo motorista de ônibus (criações de Jarmusch e do poeta Ron Padgett) vai se mesclando ao seu dia a dia repetitivo, e Driver tem a melhor atuação de sua trajetória, depois de viver o vilão Kylo Ren do Star Wars de Abrams, mostrando um crescimento desde os filmes realizados com Baumbach (sobretudo em relação à performance falha em Enquanto somos jovens): fazendo um homem tranquilo e gentil, trata-se da liderança do filme e conduz tudo com rara eficácia. Ele se sente gentil, contudo não de maneira simplista, e generoso, sem aparentar um exagero. Num determinado momento decisivo, ele olha para a capa de um de seus livros preferidos, imaginando possivelmente seu poema junto dele. Em outro, ele visualiza o nome de uma marca de fósforos, Ohio Blue Tip, gravado na caixinha, e começa a selecionar a partir dessa imagem palavras para um poema. As palavras e os versos são retratados como parte de um mesmo ciclo: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, o volante e a biblioteca; tudo recomeça novamente a partir da imaginação.
Aliado a essa simplicidade do personagem, Jarmusch trabalha de maneira interessante a ambientação do filme, seja nos locais por onde Paterson passa com seu ônibus quanto pelo bar que frequenta, com uma fotografia delicada de Frederick Elmes, colaborador de David Lynch em Veludo azul e Coração selvagem, por exemplo, assim como de Jarmusch, em Uma noite sobre a terra e Flores partidas.

Além disso, quando caminha por ruas vazias, sente-se a solidão do personagem: não tendo com quem falar sobre poesia, ele apenas tenta vivenciá-la por meio da experiência com os outros. Esta é uma característica pouco presente não apenas no cinema norte-americano, como também europeu: Paterson não se sente de nenhum lugar, sendo quase de um gênero à parte, indefinido. Tão interessante que acaba criando suspense sobre a possível publicação dos poemas do motorista de ônibus. Laura insiste que ele deve fazer uma cópia para que outros possam conhecer o que realiza.
É muito difícil haver um filme que não busca desvios na trama ou grandes acontecimentos para simplesmente acontecer diante dos olhos do espectador. Sempre foi uma característica de Jarmusch extrair momentos interessantes do lugar-comum, especialmente nos seus filmes dos anos 80, no “faroeste” Dead man, em que Johnny Depp fazia uma espécie de fantasma de um caubói, e em Flores partidas, mas talvez porque esteja mais amadurecido nunca as passagens que pareceriam tão modestas para o olhar do espectador se tornam tão intensas. No filme anterior a este, Amantes eternos, uma relação era estabelecida por séculos e as citações literárias se proliferavam, mas o resultado não era, na prática, tão interessante. Além disso, em alguns outros filmes Jarmusch estava mais interessado no tema da globalização, como em Os limites do controle e Trem mistério, o que o fazia perder por vezes o foco em que se sai melhor: o de pessoas que parecem pertencer a um bairro comum e universal. Paterson representa bem a temporada de filmes indicados para o Oscar em 2017 ou que fizeram campanha (como ele): notáveis, em qualidade de direção, elenco e roteiro. É um verdadeiro manifesto em prol da afetividade e do amor.

Paterson, EUA/FRA, 2016 Diretor: Jim Jarmusch Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Method Man, Jared Gilman, Kara Hayward Roteiro: Jim Jarmusch Fotografia: Frederick Elmes Produção: Carter Logan, Joshua Astrachan Duração: 113 min. Estúdio: Amazon Studios / Animal Kingdom / K5 Film

 

Castelo de areia (2017)

Por André Dick

Depois de Guerra ao terror (mesmo que ele seja antecedido por Soldado anônimo), de Kathryn Bigelow, os filmes sobre a guerra no Iraque se tornaram cada vez mais comuns. Em Zona verde, Paul Greengrass tentou emular o estilo de Bigelow, que atingiu uma bela variação no excepcional A hora mais escura, assim como Clint Eastwood em Sniper americano. Eis que este ano, no projeto Castelo de areia, de Fernando Coimbra, distribuído pela Netflix, a Guerra do Iraque passa a ser um tema repetitivo e a abordagem feita aqui, segundo parte da crítica, é genérica.
Há três anos, Coimbra estreou à frente da direção com o superestimado O lobo atrás da porta, um thriller urbano com problemas de estrutura e, apesar do bom elenco, um tanto repetitivo. Castelo de areia, em que o diretor parte para um gênero completamente diferente, mostra a trajetória do soldado, Matt Ocre (Nicholas Hoult), que vai para o Iraque a fim de custear a sua universidade.

Depois do 11 de setembro, as tropas invadem palácios do governo (algumas cenas lembram Três reis) e, mais adiante, sob o comando do sargento Baker (Logan Marshall-Green), ele e alguns companheiros vão parar numa aldeia perigosa, Baquba, onde se encontra o capitão Syverson (Henry Cavill) e onde é preciso ajudar a população a ter água novamente, depois da destruição imposta pela invasão norte-americana. De todos, Ocre é o que mais não gostaria de estar ali – ele mesmo machucou sua mão a fim de ser dispensado –, e Castelo de areia mostra justamente seu verdadeiro ingresso na falta de sentido que constitui uma guerra. Eles são enviados ao lugar pelo sargento MacGregor (Tommy Flanagan) e pelo tenente Anthony (Sam Spruell), mas é o sargento Baker que prepara Ocre e seus companheiros, Chutsky (Glen Powell, em mais uma ótima atuação depois de Jovens, loucos e mais rebeldes!!), Enzo (Neil Brown Jr.) e Burton (Beau Knapp).
É estranho que Castelo de areia esteja sendo visto como um genérico, quando, a partir da figura humana de Ocre, numa atuação excepcional de Hoult, retrata mais os bastidores da guerra do que dela em si, sem nenhuma pretensão de ser revolucionário, e ainda assim entregando momentos de alta tensão, com embates verdadeiramente ameaçadores, no melhor estilo quase inventado por Bigelow. A ameaça dele surge de situações aparentemente tranquilas.

A fotografia de Ben Richardson (que já realizou belos trabalhos em A culpa é das estrelas e Indomável sonhadora) capta a paisagem iraquiana de modo desolada, mas é Coimbra que consegue desenvolver, em meio a ela, uma relação interessante entre os personagens. Não há também a presença de uma visão patriótica sobre os Estados Unidos: eles ingressam no Iraque a fim de instituir uma liberdade, entretanto o filme mostra que ajudou a constituir também, como se sabe, várias milícias que não apenas confrontavam os soldados norte-americanos como tentavam impedir qualquer maneira de se reerguer o que foi destruído, numa confusão completa entre habitantes e estrangeiros. O próprio símbolo do caminhão transportando água por um deserto, a fim de manter viva uma comunidade, é incomum, se levarmos em conta que estamos em uma guerra na qual não há diálogos evidentes.
O que mais chama atenção é o crescimento em pouco tempo como diretor de Fernando Coimbra. Seu trabalho de estreia se mostrava dotado de estilo, mas pouca substância: desta vez, estilo e substância se encontram, além de uma discrição na abordagem de um jovem que não queria estar na guerra, porém, finalmente, vê nela ideais de companheirismo que procura, no que dialoga bastante com A longa caminhada de Billy Lynn, filme mais recente de Ang Lee. Lá, Billy Lynn estava em dúvida justamente sobre seu papel na guerra, se deveria voltar a ela depois de estar em casa sendo homenageado por um gesto de batalha. Ocre trabalha no mesmo plano de insegurança e, ao mesmo tempo, de desenvolvimento pessoal.

Há uma eficiência na transição de cenas e na parte técnica irretocável e, além da atuação de Hoult, Marshall-Green também tem outro desempenho ótimo, depois de encarnar um dos amantes de Madame Bovary, e Cavill, o atual Superman, se revela bem com certo bom humor. É uma pena que seu personagem não seja suficientemente desenvolvido. O roteiro de Chris Roessner, que participou da Guerra do Iraque, traz também uma boa ligação entre os personagens, sobretudo quando Ocre tem contato com o diretor de um colégio da região, Kadeer (Navid Negahban), mostrando menos maniqueísmo no tratamento de figuras iraquianas do que uma produção média de Hollywood, fazendo de Castelo de areia uma peça bastante especial do gênero. Ocre tem um comportamento autêntico de um jovem no campo de batalha: ele não quer ser Patton, um estrategista a fim de ganhar as batalhas mais improváveis, e sim sobreviver às ameaças que surgem, assim como proteger seus companheiros e permitir que se reconstrua uma parte do que foi destruído. Não se trata de enaltecer tropas norte-americanas e sim de reconhecer como a guerra apenas atrasa a verdadeira construção de qualquer país. Enxergar em Castelo de areia uma ode às tropas dos Estados Unidos contraria exatamente tudo o que o filme mostra ou deixa muitas vezes subentendido, reconhecendo a inteligência do espectador.

Sand castle, ING, 2017 Diretor: Fernando Coimbra Elenco: Nicholas Hoult, Henry Cavill, Logan Marshall-Green, Tommy Flanagan, Glen Powell, Beau Knapp, Neil Brown Jr. Roteiro: Chris Roessner Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Adam Peters Duração: 113 min. Produção: Mark Gordon, Justin Nappi, Ben Pugh Estúdio: 42, Treehouse Pictures Distribuidora: Netflix

Vida (2017)

Por André Dick

Qualquer filme situado no espaço sideral com uma ameaça iminente de um ser indefinido remete a Alien, o clássico de Ridley Scott. A obra de Scott foi tão definidora para o gênero que todas que tentam repeti-la – inclusive o diretor, em Prometheus – são criticadas, com exceção de John Carpenter em O enigma de outro mundo, embora baseado numa ficção dos anos 50 e localizado numa estação da Antártida. Quando se trata de um filme que inicia uma sequência sem cortes mostrando astronautas em uma estação espacial, uma homenagem a Emmanuel Lubezki, pode-se perceber que a outra influência é mais clara ainda: Gravidade, de Alfonso Cuarón. Esses dois elementos se reúnem em Vida, dirigido pelo sueco de ascendência chilena Daniel Espinosa. E apenas essa mescla serviu para que a crítica em geral demitisse o filme ou o classificasse como sem nenhuma qualidade à vista. Embora não haja como fugir à comparação, não há por que destituí-lo de qualidades por causa justamente disso.
Seu roteiro mostra inicialmente a rotina de seis membros da Estação Espacial Internacional: o diretor médico David Jordan (Jake Gyllenhaal); a oficial britânica Miranda North (Rebecca Ferguson); o engenheiro de sistemas Rory Adams (Ryan Reynolds); o piloto japonês Sho Murakami (Hiroyuki Sanada); o biólogo britânico Hugh Derry (Ariyon Bake); e a comandante russa Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya).

Essa equipe multiétnica aguarda uma sonda que volta de Marte com uma pequena amostra do solo capaz de trazer alguma evidência de que há vida no planeta vermelho. Estudada por Hugh, ela logo se torna um organismo complexo, embora mais parecido com uma folha de planta em movimento saída de alguma animação da Pixar, e recebe o apelido de “Calvin”. Pode-se perceber o diálogo com outro biólogo que habitou o planeta, justamente o personagem de Matt Damon em Perdido em Marte. Por sua vez, Reynolds, que trabalhou com o diretor em Protegendo o inimigo, ao lado de Denzel Washington, mostra uma composição dramática eficiente que faz lembrar um de seus melhores momentos como ator, em À procura, e Gyllenhaal, dentro do que se propõe, entrega a ênfase necessária para seu personagem. No entanto, de todos no elenco, são Rebecca Ferguson e Ariyon Bake que mostram a sensação própria que caracteriza a obra de Espinosa: esta parece uma cápsula congelada na qual o espectador adentra com certa resistência.
O que aproxima Vida ainda mais é o fato de que o filme não se passa num futuro longínquo e sim com matéria atual, em que os personagens veem a Terra da estação sideral e querem trazer para a ciência a descoberta de algo novo: eles não estão em busca de minério, como a nave de Alien, e sim à espera do que anuncia Marte (cada vez mais em voga). Junto a essa visão de uma equipe com pessoas de vários países, Vida se sente mais realista do que uma ficção científica concebida para fugir ao gênero: o que vai acontecendo surge com o choque de partir de elementos reais ou que tentam se aproximar mais da realidade. Como no projeto de Cuarón, esses homens e mulheres podem estar em qualquer estação espacial fora da Terra.

Com uma fotografia excepcional de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright, e uma trilha imponente de Jon Ekstrand, Vida poderia ser apenas mais um genérico. No entanto, em seus elementos de produção, ele não fica nada a dever aos melhores filmes de ficção científica. A direção de arte de Steven Lawrence (Rogue One e Batman – O cavaleiro das trevas) e e os efeitos visuais são excepcionais, principalmente quando mostra os personagens fora da estação ou percorrendo seus túneis. Mais: se Espinosa não traz questionamentos existenciais, o seu suspense não fica a dever para os melhores de seu gênero, principalmente no sentido de criar sustos. O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, parceiros também em Deadpool e Zumbilândia, mescla um senso de espaço e de desespero depois de meia hora que poucas vezes se vê em filmes ambientados no espaço, mesmo porque quase inexistem. Se há algum problema se encontra no prólogo dado aos personagens antes de desencadear a situação-chave, nunca devidamente interessante: o espectador é apresentado muito rapidamente a cada personagem, vendo suas características básicas, embora mesmo assim nos interessemos por cada um deles, por causa das atuações, muitas delas minimalistas dentro do contexto em que são oferecidas, mas verossímeis, com envolvimento em cada cena.

Ao mesmo tempo, Vida causa um desconforto não apenas em relação ao isolamento dessas figuras no espaço quanto a real claustrofobia de se encontrar numa situação bastante inesperada. O diretor utiliza o capacete dos astronautas para acentuar esse ambiente sufocante com extrema eficácia. Isso é visto poucas vezes no cinema de maneira tão clara – a última vez foi exatamente em Gravidade. Se no filme de Cuarón a saudade da astronauta feita por Sandra Bullock era da Terra, aqui se pensa em apenas uma coisa: em evitar que qualquer ameaça de fora chegue ao planeta. Essa batalha é travada com diálogos suficientemente angustiantes para dar à história um tom de perplexidade. Que o baixo orçamento desse filme (58 milhões), um pouco mais do que metade daquele de Gravidade, mais do que visíveis na tela, tenha retornado tão pouco em termos de bilheteria até agora (68 milhões), é de se lamentar. Vida é um exemplar que se insere num padrão esperado e ainda assim consegue ser mais do que eficiente.

Life, EUA, 2017 Diretor: Daniel Espinosa Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare, Olga Dihovichnaya Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Jon Ekstrand Produção: Bonnie Curtis, Dana Goldberg, David Ellison, Julie Lynn Distribuidora: Sony Pictures / Sony Pictures Home Entertainment Estúdio: Columbia Pictures / Skydance Media / Sony Pictures Entertainment (SPE)

Sandy Wexler (2017)

Por André Dick

Este novo filme de Adam Sandler feito para a Netflix é dirigido por Steven Brill, do fraco A herança de Mr. Deeds e do caricato, mas com momentos divertidos, Little Nicky. Sandler tem mostrado alguns acertos esporádicos em sua trajetória, como Embriagado de amor, Tratamento de choque e Espanglês, mas nos últimos anos encadeou uma série de filmes desagradáveis, investindo em piadas excessivamente escatológicas e um humor voltado a piadas culturais em parte bastante ofensivas, apesar de ter aparecido também em Homens, mulheres e filhos e no infantojuvenil subestimado Pixels.
Desta vez, Sandler interpreta Sandy Wexler, que trabalha como empresário de estrelas (desconhecidas) de Hollywood: o ventríloquo Ted Rafferty (Kevin James), o esportista de luta livre Bobby Barnes (Terry Crews), o humorista Kevin Connors (Colin Quinn), o acrobata Gary Rodgers (Nick Swardson) e a atriz Amy Baskin (Jackie Sandler). No entanto, a sua grande descoberta é Courtney Clarke (Jennifer Hudson), uma cantora na qual aposta todas as suas fichas. Ele a conhece durante uma apresentação infantil e precisa pedir a permissão do pai dela, Willy (Aaron Neville), para empresariá-la. A questão é que ele se encontra numa prisão do Nebraska, para onde Wexler viaja devidamente.

Usando uma voz estranha, como em Little Nicky (e o espectador que se incomodar com isso pode se afastar imediatamente da narrativa), Sandler faz, ainda assim, um personagem humano, para o qual cada artista deve ser atendido de forma atenciosa. É uma figura ingênua, mas extremamente afetuosa, embora não consiga dizer a verdade, praticamente o oposto do empresário Richie Finestra, vivido por Bobby Cannavale em Vinyl. Ele vive numa pequena casa junto à mansão de Firuz (Rob Schneider), um milionário que se encontra fora do país e espalha câmeras por todos os lugares para que não usem sua piscina, e tem como vizinha a solitária (mas não tanto) Cindy Marvelle (Jane Seymour).
A exemplo de grande parte dos projetos de Sandler, há participações de vários artistas e diretores (veja Arsenio Hall, Rob Reiner, Quincy Jones, Judd Apatow e Jimmy Kimmel), além de parceiros do Saturday Night Live (Chris Rock, Jon Lovitz, David Spade e Dana Carvey). Isso concede aos seus filmes uma espécie de clima entre amigos, o que por vezes é prejudicial. No entanto, aqui se estabelece, em meio a algumas piadas menos bem-sucedidas, vínculos reais de amizade. Não apenas Sandler consegue oferecer uma camada interessante a Wexler: Hudson (Oscar de atriz coadjuvante em Dreamgirls) entrega uma grande atuação, além de Kevin James estar discreto e eficiente.

Além disso, a reconstituição da década de 90, na qual o filme se passa, é muito interessante, com fotografia de Dean Semler (Apocalypto), que lembra a de Boogie Nights em alguns momentos, e trilha sonora agradável de Rupert Gregson-Williams (A lenda de Tarzan e Até o último homem). O desenho de produção lembra até mesmo o de Cassino, destacando os letreiros noturnos e certos enquadramentos, como na sequência em que Wexler e Courtney vão para um estúdio de música fabuloso. Há um senso de estética no filme de Brill que não costuma haver nas obras de Sandler, um cuidado minucioso com o trabalho de figurino e as cores de cada ambiente, que fazem valer a sessão. Repare-se numa cena que mostra o personagem central caminhando por uma rua de Los Angeles com cartazes de filmes de 1994 e uma trilha sonora adequada àquele momento.
Sandy Wexler pode ser visto sem qualidades apenas por quem não considera que Sandler está adotando nessa narrativa outra postura, e o seu ritmo lembra Top five, um grande acerto de Chris Rock feito há alguns anos, também sobre as questões envolvendo fazer uma carreira acompanhada pela fama. Os bastidores do showbusiness são vistos sem nenhuma pose forçada, mas, em certos momentos, até com uma melancolia e uma nostalgia agradáveis. É notável a sequência em que Wexler reúne os artistas que assessora para comemorar a conquista de Courtney. Não há nenhuma espécie de ciúme do sucesso – talvez porque ele se considere o “rei de Hollywood”.

Terceira parceria de Sandler com a Netflix (as primeiras foram The ridiculous 6 e Zerando a vida), Sandy Wexler também possui um certo senso de crítica cultural que Noah Baumach apresenta em peças como Frances Ha e, sobretudo, Greenberg, no qual Ben Stiller tem seu melhor momento. Talvez seja o projeto pessoal de Sandler que mais se aproxime de um filme de verdade: claro que temos sua parceria afetuosa com Drew Barrymore em Afinado no amor e Como se fosse a primeira vez, e outros acertos já lembrados, mas é como se aqui ele realmente colocasse uma porção de sentimento, tanto em seu personagem quanto no tom narrativo. O roteiro de Sandler, em parceria com colaboradores de obras anteriores, Tim Herlihy, Dan Bulla e Paul Sado, é suficientemente interessante para sustentar as mais de duas horas, dividindo bem o tempo entre os personagens, de modo que não os percamos de vista. E espera-se que ele invista mais em obras nesse tom, trazendo uma homenagem interessante ao mundo artístico e buscando um diálogo até mesmo com La La Land em determinado instante, sem esquecer All That Jazz – O show deve continuar, a obra-prima de Bob Fosse. Seria uma maneira de utilizar o talento que exibe em filmes como Embriagado de amor, de quinze anos atrás e ainda seu papel mais desafiador.

Sandy Wexler, EUA, 2017 Diretor: Steven Brill Elenco: Adam Sandler, Jennifer Hudson, Kevin James, Terry Crews, Rob Schneider, Colin Quinn, Nick Swardson, Lamorne Morris, Aaron Neville, Jane Seymour, Jackie Sandler, Arsenio Hall, Rob Reiner, Quincy Jones, Judd Apatow, Jimmy Kimmel, Chris Rock, Jon Lovitz, David Spade, Dana Carvey, Conan O’Brien Roteiro: Tim Herlihy, Dan Bulla, Paul Sado, Adam Sandler Fotografia: Dean Semler Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Allen Covert, Adam Sandler Duração: 131 min. Estúdio: Happy Madison Productions Distribuidora: Netflix

Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Por André Dick

Os produtores da Warner Bros investiram 30 milhões de dólares nesta ficção científica visualmente brilhante, pensando em repetir o êxito de Alien (do mesmo Ridley Scott). Na primeira exibição, ficaram avessos ao filme, achando-o muito sério e complicado. Preferiram algo parecido com Guerra nas estrelas, ou seja, mais ação e menos reflexão, solicitando que se colocasse uma narração em off do personagem central (Harrison Ford). Resultado: um fracasso de público e recepção dividida da crítica, apesar de indicações ao Oscar e ao Bafta, mas é esta versão que conheci em VHS no final dos anos 80 (com suas imagens finais extraídas de O iluminado, de Kubrick). Porém, ao longo dos anos, o diretor conseguiu definir a sua versão, que não é a relançada em 1992 nos cinemas e sim um corte que veio a público em 2007 (com 117 minutos). Com sua continuação programada para este ano, Blade Runner 2049, dirigida por Denis Villeneuve e novamente com Ford, mas acréscimo de Ryan Gosling, a obra de Scott volta a ser cada vez mais debatida.

Harrison Ford interpreta Rick Deckard, escolhido para capturar um grupo de replicantes (androides com características humanas) que perambula pela Los Angeles de 2019, por seu ex-supervisor, Harry Bryant (M. Emmet Walsh), e recebe a companhia de Gaff (Edward James Olmos). Esses replicantes são proibidos de vir à Terra, pois só podem trabalhar em colônias espaciais.
Mesmo não gostando da tarefa, o policial acaba aceitando, mas se apaixona por uma replicante, Rachael (Sean Young, no filme que a revelou), que trabalha para o criador dos novos seres, Eldon Tyrell (Joe Turkel). O líder dos androides, Roy Batty (o espetacular Rutger Hauer), tenta obter informações sobre quem é: ele deseja, como seus companheiros, ter o tempo de vida de um ser humano e não de um androide (4 anos), e para isso tenta buscar seu criador a fim de que possa se perpetuar. Há uma que trabalha se apresentando com uma serpente, Zhora (Joanna Cassidy), numa boate, numa referência, inclusive literal, a Adão e Eva, e outro extremamente violento, Leon (Brion James). Por sua vez, a androide feita por Daryl Hannah, Pris, aliada a uma maquiagem diferente, é a mais assustadora, ao mesmo tempo que remete a uma imagem de contos de fadas ou de bonecas infantis, indo atrás de quem os confeccionou artesanalmente, J.F. Sebastian (William Sanderson), um homem de 25 anos, porém envelhecido devido a uma doença, que trabalha com Tyrell.

Baseada na novela “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, de Philip K. Dick, com uma grande adaptação feita por David Webb Peoples (que faria o roteiro de Os imperdoáveis, de Clint Eastwood) e Hampton Fancher, a narrativa de Blade Runner por vezes é confusa, mesmo com seus atos dividindo bem esta situação mostrada, entretanto tentar entender seus detalhes sempre dá acesso a um lugar diferente. Deve-se destacar o figurino dos personagens (parecem estar nos anos 40) e a trilha sonora de Vangelis. E, claro, há o impressionante desenho de produção (de Lawrence J. Paull), indicado ao Oscar, mostrando uma Los Angeles futurista, com chuva ácida, mas ainda assim antiga e nos moldes dos anos 80 (com seus néons), com traços góticos e de pirâmides, apoiado na belíssima fotografia de Jordan S. Cronenweth, com luzes vazando pelas janelas e um aspecto soturno que certamente influenciou inúmeros filmes depois, a exemplo de Batman, de Tim Burton. E temos a canção nostálgica “One more kiss dear”. Mas não é para qualquer público ou espectador mais avesso a uma narrativa lenta, o que lhe rendeu o status de cult. Ele tem mais correspondência com um THX 1138 ou um O enigma de Andrômeda do que exatamente com peças mais comerciais, em que os personagens se transformam quase em réplicas de efeitos ou cenários. Aqui os cenários e objetos neles são também personagens: um enorme zepelim futurista anuncia visita a novos mundos e um enorme painel publicitário faz companhia às naves que passam. Os efeitos visuais de Douglas Trumbull (2001, A árvore da vida), também indicados ao Oscar, são notáveis.

Na versão considerada final, há o sonho de Deckard com um unicórnio, o que remete não apenas ao filme seguinte de Scott, A lenda, como também a uma surpresa de Scott que inexistia no original, e que leva a narrativa para um campo ainda mais complexo. Esta é uma legítima ficção científica que consegue amplificar seus conceitos e não pertencer exclusivamente a seu gênero: há um drama localizado em cada um desses personagens, mesclado com uma influência policial noir, que torna Blade Runner numa obra atemporal, baseada em significados culturais mais profundos. É interessante notar também como Scott dispõe a narrativa de modo bastante simples, focando praticamente apenas uma única situação, da qual ele extrai uma investigação realmente inovadora. Acima de tudo, porém, é o olhar poético que Scott tem em relação ao conflito entre humanos e replicantes – a começar pelo teste Voight-Kampff, que aproxima o avaliador do olho do ser investigado. Em outros momentos, Scott destaca os olhos, como os de uma coruja de Tyrell ou quando Batty usa dois de plástico para cobrir os seus, parecendo um desenho animado. Mesmo com a referência à serpente do paraíso por meio de Zhora, ainda mais referencial à religião é Batty e o encontro com o seu criador. Blade Runner não mostra igrejas do futuro, mas seu pano de fundo é sobre a ideia de um divino a ser alcançado. Isso não está longe do cineasta que viria a fazer A lenda, Gladiador, CruzadaPrometheus e Êxodo. De qualquer modo, é seu final (que tanto emocionava a minha mãe, que o tinha como um de seus filmes favoritos) o motivo para se colocar esta obra de Scott entre as maiores já feitas.

Blade Runner, EUA, 1982 Diretor: Ridley Scott Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson Roteiro: Hampton Fancher, David Webb Peoples Fotografia: Jordan S. Cronenweth Trilha Sonora: Vangelis Produção: Michael Deeley, Charles de Lauzirika (Versão Final) Duração: 117 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros. Pictures / Michael Deeley Production / Ridley Scott Productions

Cotação 5 estrelas

Mulheres do século 20 (2016)

Por André Dick

O diretor Mike Mills é conhecido por um drama respeitado, mas de difícil envolvimento, Toda forma de amor, que rendeu um Oscar de ator coadjuvante merecido para Cristopher Plummer. Lá, as relações humanas ou familiares eram trabalhadas sob um ponto de vista quase europeu, com uma certa lentidão que por vezes prejudicava a narrativa. Aqui, em Mulheres do século 20, ele concentra a história em 1979, em Santa Barbara, Califórnia. Mostra Dorothea Fields (Annette Bening), uma professora e fumante inveterada de 55 anos, que pede ajuda de Abbie (Greta Gerwig), sua inquilina, e Julie (Elle Fanning), a quem trata de forma materna, para criar seu filho, Jamie (Lucas Jade Zumann), de 15 anos, afeito a fazer algumas brincadeiras fora de hora e a andar de skate. Isso porque o mundo está numa acelerada mudança, e ela simplesmente não consegue entender exatamente o que ele pensa. Por meio de pequenos gestos, Mills desenha um ambiente familiar em que a conciliação e o entendimento está no olhar. A casa de Dorothea respira um ar de comunidade, de pessoas diferentes que se entendem e estão de passagem em busca de um mínimo de afeto.

Com uma bela trilha sonora de Roger Neill, é um filme que trata das mudanças pelas quais a mulher passou quase ao final do século 20, assim como sua insegurança em relação à criação de filhos. Bening faz muito bem o papel da mãe, e Zumann do filho, e são essenciais os momentos em que contracenam juntos, expondo suas inseguranças e projeções para uma época que ainda virá. Já havia um pouco esse elemento em Toda forma de amor, em que o personagem de Ewan McGregor tinha recordações de sua mãe. No entanto, as duas atrizes que brilham são Gerwig, fazendo uma fã de punk rock que deseja ser fotógrafa, mais afastada de seu estilo nova-iorquino, e Fanning, que tem relações com vários rapazes e não se define, preferindo apenas dormir e dividir inseguranças ao lado de Jamie, de quem se considera amiga. Especialmente Gerwig, com seu corte de cabelo, lembra da new wave que se consolidou no início dos anos 1980. Por sua vez, Billy Crudup (num de seus melhores momentos) faz William, um carpinteiro hospedado na casa de Dorothea para ajudar em reformas do ambiente, assim como Abbie, e que viveu a era de Aquarius como poucos. Esses personagens se interligam de maneira evidente, com destaque para a maneira como Mills mostra o passado de cada um deles, e a fotografia de Sean Porter desenha de maneira clara essa ambientação nos anos 70, sem apelar para um design de produção e figurinos facilmente rotuláveis. O período enfocado, de verão, revela essa mudança.

A montagem do filme é um pouco estranha, meio entrecortada, mas aos poucos o espectador se acostuma a ela, como a seus personagens. É uma obra bastante sensível, dedicada tanto a momentos de reflexão quanto a elementos bem-humorados (“O punk rock é divisor”), apanhando um certo tédio existencial de Jarmusch e Wes Anderson sem levá-lo a extremos. Basicamente, é sobre um jovem testemunhando a vida de três mulheres em idades diferentes e a maneira como elas transformam o mundo e o seu próprio pensamento acerca de todas as mudanças. Quando Abbie leva Jamie ao clube de punk rock no qual sempre vai e o apresenta às pessoas do lugar, num período em que ele está também saindo da adolescência, a obra se torna receptiva a uma amizade calcada nos mínimos detalhes. E quando vemos Jamie tentando se declarar a Jamie vemos ainda mais a passagem de fases como poucos filmes consegue mostrar de maneira tão imperceptível e intensa. Ao determinar o século 20 como limite, Mills enfoca, na verdade, gerações diferentes que se encontram em determinado momento e que antecipam os rumos do que se intensificaria no século 21. Principalmente no início dos anos 90, obras como Tomates verdes fritos e Thelma & Louise representaram essa força da imagem feminina, mas Mulheres do século 20 é mais original ao deixar sua temática subentendida por meio da força de cada personagem que enfoca, assim como as obras dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Essas mulheres são precursoras sem terem necessariamente consciência disso, ou seja, Mills não as enquadra dentro de um movimento ou as enxerga como figuras que representariam uma certa independência com o objetivo de se inserir na história; o diretor as mostra como se compusessem um grande panorama de época, em que a sensibilidade ainda estava a favor da inter-relação procurada por cada um e não de um discurso ensaiado, no qual sempre se ausenta a autenticidade de querer algo por simplesmente considerar notável. A ambientação dos anos 1970 e a localização na Califórnia permitem uma grande proximidade do espectador com a faceta solar dessas histórias que se explicam em conjunto. Há alguns momentos que são inseridos em trechos da história (um pronunciamento de Jimmy Carter, fotografias icônicas de shows de rock), contudo nada que exclua o filme de uma visão universal, lembrando pela simplicidade (sem se confundir com o simplismo) de Paterson, com um roteiro belíssimo (infelizmente a sua única indicação ao Oscar). Também há algumas vinhetas em que Mills explora a trilha sonora de Neill como uma passagem de tempo notável, parecendo um pouco onírica e no qual as personagens se sentem ainda mais vivas, assim como utiliza imagens de Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio, uma ópera de imagens mostrando a modernidade do indivíduo descentralizado. Ao final, sem preparar o espectador para isso em nenhum momento, em razão de uma narrativa sem apelo dramático evidente, Mulheres do século 20 eclode numa emoção quase secular.

20th century women, EUA, 2016 Direção: Mike Mills Elenco: Annette Bening, Lucas Jade Zumann, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup Roteiro: Mike Mills Fotografia: Sean Porter Trilha Sonora: Roger Neill Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley Duração: 118 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Archer Gray