Ford vs Ferrari (2019)

Por André Dick

De forma inesperada, há poucos filmes de corrida no cinema, pelo menos marcantes. Nos anos 1960, tivemos o maior clássico do gênero, Grand Prix, vencedor de três Oscars, uma notável obra sobre uma temporada de F-1. Ainda nesta década, três peças com humor também usavam elementos de corrida: A corrida do século, obra-prima de Blake Edwards, Deu a louca no mundo e Se meu fusca falasse. Nos anos 90, a peça exemplar do gênero, embora não tão interessante, foi Dias de trovão, na primeira parceria de Tom Cruise e Nicole Kidman, além da presença de Robert Duvall. Em 2013, Ron Howard lançou seu Rush, que tratava da amizade dos pilotos Niki Lauda e Ethan Hunt. E não se pode esquecer da animada série Carros, principalmente do seu terceiro e subestimado episódio, o que melhor se enquadra nesse universo automobilístico, e de Speed Racer, das irmãs Wachowski, capturando um universo fantástico.

Em 1963, a Ford, sob o comando de a a Henry Ford II (Tracy Letts), incomodado com o fato de não ter conseguido comprar a Ferrari do experiente Enzo (Remo Girone), depois de ser aconselhado por Lea Iacocca (Jon Bernthal), deseja um carro capaz de disputar corridas com a companhia e por isso ele contrata Carroll Shelby (Matt Damon), um ex-piloto. Este, por sua vez, chama Ken Miles (Christian Bale), casado com Mollie (Caitriona Balfe)  e pai de Peter (Noah Jupe), um piloto e mecânico inglês para aperfeiçoar o modelo de carro para a Ford. Ambos testam o Ford GT40 Mk no Aeroporto Internacional de Los Angeles, rendendo algumas das sequências mais emocionantes. No entanto, evitando a figura de Miles, a Ford convoca outros pilotos para competirem no Le Mans de 1964. Em 1966, Leo Beebe (Josh Lucas) se torna o responsável pelo departamento de corrida e pretende seguir o programa novamente sem Miles. Porém, Shelby leva Heny II para um teste no carro que está sendo preparado.
Este é o mote principal para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características no seu estimado Logan que ele busca em Mad Max, com sua crueza na abordagem nas cenas de carro, que ele reapresenta aqui, com mais talento ainda. Ford vs Ferrari, como Rush e Grand Prix, apresenta sequências de corrida absolutamente fantásticas, com uma transição impecável e edição de Michael McCusker e Andrew Buckland no seu estado máximo de competência.

De qualquer modo, o padrão técnico não sera o mesmo não fosse uma conjunção da fotografia luminosa de Phedon Papamichael, colaborador habitual tanto de Mangold quanto de Alexander Payne – fazendo o filme todo parecer rodado durante uma manhã, exceção feita a algumas cenas – e da parceria entre os personagens de Bale e Damon. Se o segundo usa seu estilo habitual, Bale novamente consegue extrair emoção de um personagem a princípio previsível. Com uma boa interação com os personagens da mulher (Caitriona Balfe faz a voz de Tavra na ótima série O cristal encantado) e do filho (Jupe já mostrou talento em Suburbicon e Um lugar silencioso), ele explora um espaço capaz de tornar Ford vs Ferrari não numa obra sobre a indústria e sobre a competição e sim sobre o otimismo de superar o limite, sem que isso determina o caráter do indivíduo ou seus ganhos pessoais e sim a imaginação que pode determinar vitórias no futuro.
Mangold mostra mais uma vez seu talento incontestável para extrair ótimas atuações de seu elenco: Sylvester Stallone e Robert De Niro se destacaram especialmente em Cop Land – A cidade dos tiras; Angelina Jolie recebeu o Oscar de atriz coadjuvante por Garota, interrompida; Joaquin Phoenix e Resee Whiterspoon brilharam em Johnny & June (Reese recebeu o Oscar de melhor atriz por ele); Tom Cruise e Cameron Diaz estabeleceram ótima parceria em Encontro explosivo; e Hugh Jackman talvez tenha tido sua melhor atuação em Logan.

Bale é mais rápido do que todo o elenco e consegue extrair mais do que o bom roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller oferece, por sua agilidade em acrescentar camadas ao seu personagem onde elas, se o espectador prestar atenção, não existem. Ainda, recuperando a atmosfera do final dos anos 60, Mangold parece fazer uma espécie de Era uma vez em… Hollywood no universo das corridas de automóveis. Alguns momentos lembram o filme de Tarantino, talvez por se basearem em obras parecidas daquela época e são bastante nostálgicas, imprimindo certa ingenuidade no comportamento de alguns personagens. A diferença talvez seja que Ford vs Ferrari, muito por causa do vilão feito por Lucas (que reprisa seu papel em Hulk) se aproxima mais do conceito de blockbuster, usando alguns lugares-comuns para comover o espectador, o que não o afasta, de nenhum modo, do seu objetivo. Sua melhor qualidade é também o lugar-comum: os 152 minutos de filme passam voando.

Ford v Ferrari, EUA, 2019 Diretor: James Mangold Elenco: Matt Damon, Christian Bale, Caitriona Balfe, Noah Jupe, Josh Lucas, Tracy Letts, Remo Girone, Jon Bernthal Roteiro: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, Jason Keller Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Marco Beltrami e Buck Sanders Produção: Peter Chernin, Jenno Topping, James Mangold Duração: 152 min. Estúdio: Chernin Entertainment, TSG Entertainment, Turnpike Films Distribuidora: 20th Century Fox

Parasita (2019)

Por André Dick

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho tem um clássico incontestável chamado Memórias de um assassino, de 2003, que inspirou diretamente Zodíaco, de David Fincher, assim como o filme Mother – A busca pela verdade, lançado no fim da década passada. Em Okja, exibido no Festival de Cannes sob protesto, em razão de ser distribuído pela Netflix, ele parecia querer uma mescla entre O hospedeiro, sua obra mais cultuada, e a fantasia de filmes norte-americanos, além de referências a animações orientais. Em 2013, com O expresso do amanhã, Joon-ho já tentava um salto para Hollywood, o que acontecia plenamente em Okja, apesar de não aparentar, extremamente comercial, e de modo algum é seu problema.

Parasita, vencedor do Festival de Cannes em 2019, é facilmente o seu melhor filme desde Memórias de um assassino e o melhor a receber o prêmio desde Winter sleep, de Ceylan. É meio insano, sem gênero definido, parecendo, às vezes, não dizer nada, mas sabe profundamente de seus temas. Joon-ho aprendeu com os erros de Okja e soube deixar as metáforas mais implícitas ao invés de tentar explicá-las para o espectador.
A história se passa em Seul. Kim Ki-jeong (Park So-dam) e seu irmão, Ki-woo (Choi Woo-shik), moram com seus pais, Ki-taek (Song Kang-ho), e Park Chung-sook (Jang Hye-jin), numa casa que mais parece um porão, em meio ao trabalho de dobrar caixas de pizza. Por indicação do amigo Min-hyuk (Park Seo-joon), Ki-woo começa a ensinar inglês para uma jovem ricaça, Da-hye (Jung Ji-so), da família Park, e nisso vislumbra uma chance para sua família experimentar outra vida. Ainda mais quando se arma um plano envolvendo a Sra. Park (Cho Yeo-jeong), esposa de Dong-ik (Lee Sun-kyun), e sua antiga governanta, Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun), além do motorista, Yoon (Keun-rok Park). Aos poucos, a família de Ki-woo vai ocupando os espaços e as funções da casa dos Park, como se fossem, conforme aponta o título, “parasitas”.

Essa premissa simples é muito funcional e todos os personagens acabam tendo uma interação principalmente por causa da edição extremamente rápida. A história de cada um vai se interligando com a dessa família rica e o espectador, de repente, é inserido num universo aparentemente real e bastante inesperado. O humor é um tanto non-sense e mesmo os paralelismos entre a vida da família rica e da família pobre acabam tecendo um elo inteligente para os rumos da história, sem cair no mero paralelismo entre a situação de uma e de outra. Isso normalmente prejudicaria uma trama utilizada com o objetivo de aplicar uma lição de moral, entretanto o diretor é muito perspicaz em utilizar os diálogos e as ações em reflexos de uma sociedade de maneira ampla.
Como artista que é, Joon-ho não utiliza o seu filme para pregar um discurso; pelo contrário, ele deixa o espectador subentender, por meio de suas imagens, o que bem quiser. Em igual escala, a atmosfera criada trata dos próprios personagens: quando cai uma chuva torrencial, a família Kim está deslocada e sem espaço, ao contrário da família Park. As paredes da casa também passam a simbolizar para um outro universo, mesmo que dentro do mesmo espaço. Nisso, os cheiros e as roupas trazem uma espécie de aproximação e afastamento entre iguais. A arquitetura moderna da casa, deixando tudo à mostra, esconde, de maneira paradoxal, os sentimentos e intenções de cada um dos integrantes dessas famílias. Não está em jogo cada um mostrar o que é de fato e sim aquilo que esconde.

O diretor utiliza alguns símbolos, como a tenda de índios da filha da família Park, para tratar da tentativa de se dominar uma cultura, assim como faz críticas corrosivas à Coreia do Norte utilizando os cômodos de uma casa belíssima. Também insere os meios tecnológicos (telefones, interfones, internet, Wi-Fi) como extensões de cada ação. Para isso, o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo assegura os movimentos de câmera para fazer o espectador se inserir dentro dos ambientes. É uma espécie de jornada por uma sociedade em construção ou desconstruída, nunca previsível. Não há lados distintos: apenas um amontoado de pessoas com receio de sair de onde estão e, quando saem, perseguidas pela própria condição original. Todos aqui, independentes da situação, desejam sair do esconderijo. Daí o ato final pendendo para certa melancolia.
Além disso, o elenco é, de forma uniforme, excelente. Quem se destaca é a de Song Kang-ho, ator extraordinário, situado entre o cômico e a angústia, ajudado por um ótimo roteiro, encadeado por uma aparente sucessão de sketches, no entanto costuradas de modo ao mesmo tempo ágil e concisa. Não há aqui o labirinto narrativo de Memórias de um assassino e Mother, e sim uma sucessão de pistas falsas sobre o que está acontecendo aos personagens. Bong Joon-ho tem um humor excêntrico em seus filmes e não era diferente em Okja. No entanto, o diretor não conseguia mesclar, em algumas de suas obras, o pano de fundo sério com a comédia. Ao reunir drama e humor em Parasita ele acerta na medida exata, lembrando exatamente os melhores momentos de sua obra-prima de 2003, um dos grandes momentos do cinema neste século.

기생충, Coreia do Sul, 2019 Diretor: Bong Joon-ho Elenco: Park So-dam, Choi Woo-shik, Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Park Seo-joon, Jung Ji-so, Cho Yeo-jeong, Lee Sun-kyun, Lee Jung-eun,  Keun-rok Park Roteiro: Bong Joon-ho, Han Jin-won Fotografia: Hong Kyung-pyo Trilha Sonora: Jeong Jae-il Produção: Bong Joon-ho, Kwak Sin-ae, Moon Yang-kwon, Jang Young-hwan Duração: 132 min. Estúdio: Barunson E&A Corp Distribuidora: CJ Entertainment (Coreia do Sul)

Melhores filmes de 2018

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2018. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. Se a Rua Beale falasse (Barry Jenkins) 24. Puro-sangue (Cory Finley) 23. Creed II (Steven Caple Jr.) 22. O primeiro homem (Damien Chazelle) 21. Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (David Yates) 20. Arábia (João Dumons e Affonso Uchoa) 19. Dogman (Matteo Garrone) 18. Deixe a luz do sol entrar (Claire Denis) 17. A favorita (Yorgos Lanthimos) 16. Green Book – O guia (Peter Farrelly) 15. 22 de julho (Paul Greengrass) 14. No portal da eternidade (Julian Schnabel) 13. Outside in (Lynn Shelton) 12. Você nunca esteve realmente aqui (Lynne Ramsey) 11. O amante duplo (François Ozon)

Histórias assustadoras para contar no escuro (2019)

Por André Dick

Depois dos Oscars de melhor filme e direção por A forma da água, o cineasta Guillermo del Toro parece ter se afastado de seus projetos mais populares: ele apenas produziu a continuação de Círculo do fogo e não teve grande interesse em fazer um terceiro Hellboy, entregando o projeto a outro diretor e ator, o que o conduziu a um fracasso de bilheteria. Para aproveitar seu tempo após projetos mais ambiciosos, Del Toro parece ter se voltado aos tempos de juventude para fazer, com Patrick Melton e Marcus Dunstan, a história de Histórias assustadoras para contar no escuro, dando origem ao roteiro de Dan Hageman e Kevin Hageman, a partir de uma trilogia literária de Alvin Schwartz.
Há muitos elementos de Del Toro aqui – ampliados pelo fato de também ser um dos produtores –, não apenas a escrita simples sem ser simplista já explorada em seu trabalho em O hobbit, de Peter Jackson. O primeiro é mostrar a narrativa ambientada em 1968, numa pequena cidade, Mill Valley, na Pensilvânia. Uma turma de amigos, Stella (Zoe Margaret Colletti), escritora incipiente fascinada por terror, e seus amigos Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Austin Zajur) estão se divertindo no Halloween quando se metem numa confusão com Tommy Milner (Austin Abrams), típico valentão do colégio. Eles vão parar num drive-in, onde se escondem no carro de Ramón (Michael Garza).

O interessante é o filme que está sendo exibido: A noite dos mortos-vivos. Este detalhe é típico no trabalho de Del Toro. Dali, a história os conduz a uma casa mal assombrada da cidade, pertencente à família Bellows, uma das mais conhecidas na história da cidadezinha. Na casa, eles acabam encontrando um livro com histórias de horror escritas por Sarah Bellows, remetendo a narrativa a um espaço bastante explorado na carreira de Sam Raimi. Depois de se depararem com Tommy novamente, namorado de Ruth (Natalie Ganzhorn), a irmã de Chuck, a história é estendida a um universo misterioso e fantástico e que faz lembrar Creepshow, o grande filme de George Romero dos anos 80. O trabalho de fotografa de Roman Osin, iluminando os anos 60 com um sol alaranjado, aliado a um design de produção irretocável, insere o espectador nesse ambiente no qual Stella percebe que o livro de terror descoberto na casa passa a escrever por si histórias que vão acontecendo na realidade.

Essas histórias se sucedem como que episódicas, mas não separadas da narrativa principal, e, apesar dos lugares-comuns, suscitam um certo fascínio. A autoria de Del Toro é percebida no interesse pelo universo da casa mal-assombrada, que liga ao seu subestimado e excepcional A colina escarlate, com uma certa inspiração de H. P. Lovecraft. Os monstros e ameaças surgidos no caminho da turma – que suscita, claro, aproximações com Os Goonies e Super 8, além de Stranger Things – parecem ter toques de O labirinto do fauno e Hellboy, principalmente na maneira como algumas cenas são filmadas (a da cozinha, por exemplo) e uma certa atmosfera lúgubre em alguns momentos remete a Chronos, um dos primeiros trabalhos de Del Toro. Ele consegue lidar com os elementos de sobrenatural e violência muito mais do que Tempos obscuros, por exemplo, elaborado com características semelhantes e cujo desenvolvimento era excessivamente tortuoso, afastando-se também de brincadeiras como Goosebumps, ao qual é equiparado.

Do mesmo modo, como em A forma da água, a história cria um vínculo entre fantasia e a situação política dos Estados Unidos, com as eleições envolvendo Richard Nixon´e a Guerra do Vietnã. É a história fantasiosa sendo escrita no livro de Bellows e a história sendo escrita na realidade. Del Toro parece se perguntar qual é a mais assustadora. Ou seja, Histórias assustadoras para contar no escuro é assinado por André Øvredal, mas certamente poderia ter a assinatura de Del Toro, embora sua edição seja muito apressada e abrupta em alguns momentos, ao contrário de seu rebuscamento de A colina escarlate e A forma da água, ambos exemplos claros de seu crescimento como cineasta. Há momentos decisivamente assustadores, lembrando aqueles de O labirinto do fauno, e o principal se dá num banheiro de colégio, feito com destreza e noção de espaço, além do uso de efeitos visuais singulares e realistas. O melhor é o filme ter uma textura de filme de terror e de época, criando um diálogo vital para compreender os seus personagens.

Scary stories to tell in the dark, EUA, 2019 Diretor: André Øvredal Elenco: Zoe Colletti, Michael Garza, Gabriel Rush, Austin Zajur, Natalie Ganzhorn, Austin Abrams, Dean Norris, Gil Bellows, Lorraine Toussaint Roteiro: Dan Hageman e Kevin Hageman Fotografia: Roman Osin Trilha Sonora: Marco Beltrami e Anna Drubich Produção: Guillermo del Toro, Sean Daniel, Jason F. Brown, J. Miles Dale, Elizabeth Grave, Joshua Long, Roberto Grande Duração: 108 min. Estúdio: CBS Films, Entertainment One, 1212 Entertainment, Double Dare You Productions, Sean Daniel Company Distribuidora: Lionsgate

A lavanderia (2019)

Por André Dick

O cineasta Steven Soderbergh sempre teve um projeto cinematográfico voltado a mostrar o indivíduo tentando enfrentar um sistema oculto ou visível, de modo que sua obra pode ser vista como uma extensão das ideias que revelam os choques entre as pessoas à margem dele. De certo modo, isso constitui alguns de seus melhores projetos, a exemplo de Erin Brokovich. Ao mesmo tempo, ele busca rechaçar o sistema de tratamento psiquiátrico, em peças como Terapia de risco e Distúrbio, em meio à série buscando a diversão em assaltos de Onze homens e um segredo. Ainda ele vê certo atrativo em universos deteriorados, como em Contágio e Kafka.
Em A lavanderia, ele acompanha Ellen Martin (Meryl Streep), que está em férias com o marido Joseph David (James Cromwell) quando acontece algo terrível. Ela passa a buscar meios de como processar a vida sob outra condição, tendo de lidar com determinados seguros que a levam a uma teia muito delicada de corrupções e desvios ligados a um escritório de advocacia da Cidade do Panamá, dirigido por Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas).

Eles prestam serviços para os mais variados clientes – e não necessariamente honestos, incluindo bandidos declarados, como traficantes, e ditadores. Ellen está aos poucos consciente de que sua vida ao lado da filha, Melanie (Melissa Rauch) e dos netos é apenas um resquício de um grande conglomerado de interesses escusos.
Com um início satirizando a aurora da humanidade de Kubrick em 2001 (e o cineasta teve parte de seu patrimônio envolvido na mesma questão que apresenta o filme), Soderbergh está interessado em ligar esse mosaico da vida minúscula de Ellen com uma discussão relacionada a negócios. Neste ano, ele já havia oferecido uma visão contundente sobre o universo do basquete em High flying bird, mas é em A klavanderia que ele utiliza uma trama provocadora.

Baseado numa atuação concisa e excelente de Streep, são, no entanto, Oldman e Banderas que brilham em papéis evocando A grande jogada, de Adam McKay. Assinando com seu pseudônimo Peter Andrews, Soderbergh apresenta um trabalho de fotografia notável, parecendo ampliar sempre cada cenário com lentes luminosas (e ele sempre foi experimental, mesmo nos momentos mais fracos, a exemplo de Full frontal). As reuniões do Capitão Ethan Allen (Robert Patrick) e Matthew Quirk (David Schwimmer), sócios de uma balsa que causa o conflito do primeiro ato, num pub são especialmente agradáveis, apesar do assunto insensível, ligado a papéis não comprováveis da Shoreline Cruises, levando a um vigarista das Bahamas, Irvin Boncamper (Jeffrey Wright).
Soderbergh, baseado num roteiro de Scott Z. Burns, a partir de Based on Secrecy World: Inside the Panama Papers Investigation of Illicit Money Networks and the Global Elite, de Jake Bernstein, joga com os personagens em diferentes espaços e suas ações sendo colhidas numa cadeia, como ele se especializou em mostrar no ótimo Traffic. Há uma base numa história verdadeira, a dos Panama Papers, mas ele cresce exatamente em pontos rotineiros, quando mostra um ricaço, Charles (Nonso Anozie), que é pego numa situação delicada pela filha Simone (Jessica Allain) e precisa contorná-la tentando esconder da sua esposa Miranda (Nikki Amuka-Bird). Por trás, os acordos familiares e, do mesmo modo, o eco dos Panamá Papers. É interessante como Soderbergh, como em Logan Lucky, seu filme de assalto nos bastidores de uma corrida de automóveis mostra também dois homens reunidos num bar (Will Forte e Chris Parnell), em algo que lembra A mula, de Eastwood. Também temos em viagem ao Oriente o personagem Maywood (Matthias Schoenaerts), se envolvendo numa estranha situação com Gu Kailai (Rosalind Chao).

A lavanderia não é necessariamente um drama ou uma comédia, situando-se num meio-termo oportuno que conduz o risco de emprego de dinheiro em questões duvidosas. Embora toda a narrativa que envolve a personagem de Streep seja mais de um drama de Hollywood, interrompido apenas por uma cena em que ela imagina fazer algo, em outros momentos o filme parece uma sátira, que, embora lembre A grande aposta, não tem o encantamento de McKay pelas trapaças. Ou seja, Soderbergh lança um certo pesar mesmo quando parece brincar com as vítimas das enganações de Mossack e Fonseca – e ao filmá-los por meio de imagens emulando propagandas luminosas lança, na verdade, uma bruma de dúvida sobre seu comportamento. Nesse sentido, o filme de Soderbergh, apesar de nunca explorar com a devida ênfase seus personagens, é um estudo muito curioso sobre o universo dos negócios e o reflexo na vida de várias pessoas, mesmo que pareça episódico. É na sua aparente leveza que sua trama se fortalece de maneira substancial, definindo-se como um dos melhores momentos na trajetória de Soderbergh e do cinema deste ano.

The laundromat, EUA, 2019 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, Jeffrey Wright, Robert Patrick, Nonso Anozie, Melissa Rauch, Jessica Allain, Nikki Amuka-Bird, David Schwimmer, Sharon Stone Roteiro: Scott Z. Burns Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews) Trilha Sonora: David Holmes Produção: Scott Z. Burns, Lawrence Grey, Gregory Jacobs, Steven Soderbergh Michael Sugar Duração: 95 min. Estúdio: Anonymous Content, Grey Matter Productions, Topic Studios, Sugar23 Distribuidora: Netflix

El Camino – A Breaking bad movie (2019)

Por André Dick

Há uma tradição de séries tão bem-sucedidas que acabam virando filmes. Isso aconteceu, por exemplo, com  Twin Peaks e Arquivo X nos anos 90, utilizando os mesmos atores. Em outros casos, as séries são feitas numa década e transpostas para o cinema em outra, com elenco diferente, a exemplo de Sombras da noite, Os intocáveis, Miami Vice, Agente 86, As panteras e Anjos da lei. Outros filmes, por sua vez, dão origem a séries, no caso de Cobra Kai (estendendo o universo de Karatê Kid para a internet) e O cristal encantado, ou, no caso de Twin Peaks, voltam ao universo televisivo, todas, no entanto, com estilo cinematográfico. Não é, nesse sentido, inesperado que uma das séries mais festejadas dos últimos anos, Breaking bad, veiculada entre 2008 e 2012, ganhe um filme agora, sob a mesma direção do seu criador Vince Gilligan.

A história inicia com um flashback no qual Jesse Pinkman (Aaron Paul) e Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) discutem sobre sua saída dos negócios de Walter White (Bryan Cranston) e sobre  desejos futuros. Logo a história se transporta para o presente quando Jesse está fugindo da polícia a bordo do El Camino e vai parar na casa dos amigos Skinny Pete (Charles Baker) e Brandon “Texugo” Mayhew (Matt Jones). A partir daí, uma espécie de amizade enraizada e bem definida de Jesse com esses personagens, sobretudo com Skinny, o diretor desencadeia uma série de idas e vindas no tempo, primeiro com Jesse lembrando de Todd (Jesse Plemmons), supremacista branco que o prendeu e precisa de sua ajuda para se livrar de um problema em seu apartamento.
O diretor Vince Gilligan (produtor de Arquivo X) é um estilista notável, o que já se pronunciava na série. No filme, ele expande o estilo que influenciou Denis Villeneuve (Sicario) e Ridley Scott (O conselheiro do crime), focado em sua principais inspirações: os irmãos Coen de Onde os fracos não têm vez o David Lynch de Coração selvagem (levando-se em conta que há elementos de Twin Peaks – O retorno inspirados em Breaking bad) e o Tarantino de Kill Bill – Vol. 2. Sua maneira de filmar esse universo árido, com a ajuda da fotografia de Marshall Adams por meio da perspectiva de um homem acuado pelos erros do tempo, Jesse, é notável.

No entanto, sua efetividade não seria a mesma sem a atuação de Aaron Paul, verdadeiramente extraordinário na sua volta ao papel. O roteiro é encadeado por uma série de blocos muito bem definidos, que não tornam a narrativa rígida, pelo contrário extremamente fluida e necessária ao compor seus diálogos. Uma ida de Jesse ao apartamento de Todd é impecável na sua construção de suspense, assim como o encontro dele com Neil Kandy (Scott MacArthur), e seu parceiro de trabalho Casey (Scott Sheperd), numa reminiscência do primeiro episódio de Twin Peaks – O retorno, em que dois policiais se veem à volta com uma moradora de condomínio confusa. A pressão aumenta quando ele se encontra com Ed (Robert Forster), numa outra sequência de grande desenvolvimento em termos de diálogo e imprevisto.
Fala-se que Gilligan considera o filme pode não tão interessante para quem não acompanhou a série. É possível dizer que, exceto alguns detalhes (acompanhei a série de modo excessivamente fragmentado para me considerar conhecedor), ele se mantém perfeitamente como uma obra à parte. Não tem, por exemplo, a mesma ligação de Twin Peaks com a série ou os filmes do Arquivo X com o universo que os precedeu.

Não apenas Paul tem uma ótima atuação, como também MacArthur, Sheperd e Robert Forster, infelizmente no seu papel derradeiro. Todos desempenham seus personagens de maneira destacada num universo caracterizado pela solidão e por uma certa falta de esperança, na maneira como Gilligan amplia o campo de visão de cada cenário, deixando seus personagens minúsculos diante da natureza.
Como a série, porém ainda com mais apuro, isto se parece com um faroeste contemporâneo, igual a alguns dos melhores momentos da obra dos irmãos Coen, e há uma determinada solução que aponta para esse caminho. Jesse é um homem que vem de um quase desaparecimento para uma tentativa de desaparecer totalmente do Novo México e do rastro da polícia e do passado que o envolveu numa série de castigos. Gilligan exerce essa visão de maneira visualmente atrativa, parecendo coloca-lo em cenários abandonados e nunca mais visitados. Mesmo uma conversa ao telefone com seus pais é cercada de ilusões sobre o que poderia ter sido, não tivesse acontecido exatamente o contrário. Desse modo, o filme El Camino – A Breaking bad movie é uma das grandes surpresas desta temporada do Oscar que se aproxima, com grande efeito em quem viu ou não a série. Um exemplo de como lidar com um personagem principalmente em diferentes linguagens, muitas vezes inseparáveis.

El Camino – A Breaking bad movie, EUA, 2019 Diretor: Vince Gilligan Elenco: Aaron Paul, Jonathan Banks, Bryan Cranston, Robert Forster, Charles Baker, Matt Jones, Jesse Plemmons, Scott MacArthur, Scott Sheperd Roteiro: Vince Gilligan Fotografia: Marshall Adams Trilha Sonora: Dave Porter Produção: Mark Johnson, Melissa Bernstein, Charles Newirth, Vince Gilligan, Aaron Paul Duração: 122 min. Estúdio: Sony Pictures Television, Gran Vía Productions, High Bridge Productions Distribuidora: Netflix

 

Coringa (2019)

Por André Dick

Há uma década, Todd Phillips realizou uma das comédias mais interessantes do cinema deste século, Se beber, não case!, muitas vezes subestimada, que ganhou duas sequências, a terceira parte com menos qualidade, igual à outra empreitada de sua autoria, Um parto de viagem. Em 2016, ele lançou Cães de guerra, uma espécie de sátira à política da era George W. Bush, com dois amigos lucrando com a venda de armas para territórios em combate. Sem exatamente ser associado a temas sérios, Phillips tinha como projeto antigo fazer uma adaptação da origem do Coringa para o cinema. Ela se tornou real com a atuação de Joaquin Phoenix, um dos atores mais brilhantes de sua geração, que apenas nesta década atuou em obras notáveis como O mestre, Ela, Vício inerente e Você nunca esteve realmente aqui.

Com um roteiro apresentando elementos de dois filmes de Scorsese – O rei da comédia e Taxi Driver –, Coringa mostra Arthur Fleck (Phoenix), que trabalha como palhaço nas ruas de Gotham City, em 1981, e em casa cuida de sua mãe Penny (Frances Conroy). A cidade está passando por um momento conturbado, com muitos desempregados e lixo nas ruas, atraindo, inclusive, uma invasão de ratos. Arthur sofre de problemas neurológicos, um deles rir compulsivamente quando em estado de ansiedade. Ele tem uma boa relação com a mãe, com quem costuma assistir ao programa de Murray Franklin (Robert De Niro), um talk show, no entanto precisa tomar muitos medicamentos, para que suas crises não piorem. Também tem interesse por uma vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), que encontra certo dia no elevador, com a sua filha – numa cena capaz de transferir o espectador para algo de Drive. Todos os problemas de Fleck são acentuados pelo fato de não ser bem aceito em seu ambiente de trabalho, apesar do apoio de Gary (Leigh Gill) e da “amizade” de Randall (Glenn Fleshler), e os rumos da política na cidade, com a candidatura de Thomas Wayne (Brett Cullen).

Phillips costura os rumos da vida de Fleck, que, em meio a tudo, sonha em fazer um show de comédia stand-up , com uma visão sombria sobre o comportamento humano. Seu roteiro, apesar de tomar como referência as obras de Scorsese, como já fazia em Cães de guerra – com seus elementos visuais e narrativos de O lobo de Wall Street –, vai muito além e considerá-lo um simples apêndice dessas obras mostra um desentendimento da proposta de Phillips: não estamos diante de um taxista que detesta o cheiro das ruas nem de um stalker em busca da amizade de seu comediante favorito. Sem se basear exatamente no cânone de histórias em quadrinhos do Coringa, o diretor desenha uma figura da qual o espectador se aproxima aos poucos como de um personagem a ser estudado. É exposta a relação dos cenários nos quais Fleck perambula com seu comportamento, e a maneira como ele projeta a realidade se confronta com sua visão sobre construção familiar, a partir da figura emblemática da mãe, feita com sensibilidade por Conroy, e, fantasiosamente, de Murray, em bela atuação de De Niro. A maneira como ela espera dele um comportamento feliz e como ele visualiza o apresentador Murray Franklin como uma espécie de pai artístico é entrelaçada com outra subtrama definidora de que aqui está uma adaptação dos quadrinhos realmente psicológica, escolhida como melhor filme no Festival de Veneza.

Phoenix, com uma atuação extraordinária, vai modulando nuances e mudando seus trejeitos a cada vez que vai descobrindo mais sobre si mesmo (e se autodescobrir, em seu  caso, não é exatamente um mérito) e Phillips não o visualiza, embora pareça, como uma vítima da sociedade, e sim como o resultado de escolhas passadas feitas por outras pessoas, traduzidas no que ele tenta ser e não consegue, pois os limites entre o certo e o errado já se perderam em sua mente e não são simples ou firmados.
Com uma trilha sonora incessante de Hildur Guðnadóttir, retratando o descompasso do personagem central, e uma fotografia exímia de Lawrence Sher, com o qual Phillips habitualmente trabalha e que se inspira na de Emmanuel Lubezki de Birdman, em alguns momentos, Coringa revela um universo no qual a piada feita em cadernos borrados de pensamentos nunca consegue realmente se manifestar – apenas uma risada compulsiva. Fleck é uma espécie de travessia da tentativa de se adaptar e o resultado da inadaptação, e os passos dados por Phoenix na construção de seu personagem são marcantes porque se situam num espaço em que a clareza não se manifesta nunca. Isso porque não sabemos o que nele é humano e desumano, pois ambas as facetas algumas vezes parecem existir nele em diferentes etapas da narrativa e Gotham City e seus habitantes são a projeção de como ele se sente em relação às pessoas.

Por isso, a tentativa de se aproximar amorosamente da vizinha Sophie se mostra tão dolorosa e Phillips consegue extrair uma sensação de solidão inabalável do apartamento em que Fleck vive com sua mãe, com uma densidade singular. São raríssimas as obras capazes de lidar com temas delicados de maneira tão ampla e, principalmente, acompanhar a progressão de um indivíduo em suas complicações antissociais. Se este é visto como uma saída para a sociedade em ruínas? Só o espectador mais desavisado entenderia assim. Coringa provoca o espectador a pensar sobre o que constitui um indivíduo, no caso de Fleck os problemas neurológicos e o que isso é usado em nome de um combate ao sistema – Phillips não está interessado nisso em nenhum momento, como se predispõe a dizer, uma vez que ele enxerga o sistema como parte da própria desculpa para um ser humano com elementos psicóticos se manifestar. Kubrick já usou esses temas em Laranja mecânica, mas Phillips faz em seu filme mais do que uma releitura: ele faz uma leitura da sociedade contemporânea por meio da entrada de um homem na insanidade completa. Desde o início, o filme não está tentando ser bem-humorado; ele pesa. Não serve para indicar exemplos, a não ser de como o cinema pode fazer um registro de impacto quando conta uma história com maestria.

Joker, EUA, 2019 Diretor: Todd Phillips Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Douglas Hodge Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver Fotografia: Lawrence Sher Trilha Sonora: Hildur Guðnadótti Produção: Todd Phillips, Bradley Cooper, Emma Tillinger Koskoff Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, Village Roadshow Pictures, Bron Creative, Joint Effort Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Melhores filmes de 2017

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2017. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Não se costuma incluir obras que são consideradas séries, mas abriu-se uma exceção para Twin Peaks – O retorno, uma vez que se trata, na minha opinião, de um filme dividido em 18 episódios e dirigido por um dos maiores cineastas da história. Ele foi exibido como tal no Museu de Arte Moderna em Nova York no fim de 2017, assim como em outros lugares do mundo. Este foi um ano especialmente difícil para se escolher a ordem. Qualquer um dos quatro primeiros colocados poderia ser o melhor filme desse ano. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. The Square – A arte da discórdia (Ruben Östlund) 24. Alien: Covenant (Ridley Scott) 23. Graduation (Cristian Mungiu) 22. O sacrifício do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos) 21. O filme da minha vida (Selton Mello) 20. Planeta dos macacos – A guerra (Matt Reeves) 19. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola) 18. A cura (Gore Verbinski) 17. mãe! (Darren Aronofksy) 16. Em ritmo de fuga (Edgar Wright) 15. Columbus (Kogonada) 14. Sombras da vida (David Lowery) 13. A forma da água (Guillermo del Toro) 12. Lágrimas sobre o Mississipi (Dee Rees) 11. Todo o dinheiro do mundo (Ridley Scott)

Midsommar – O mal não espera a noite (2019)

Por André Dick

No ano passado, tivemos uma estreia marcante do diretor Ari Aster à frente do filme de terror Hereditário. Com um padrão autoral e um modo de filmar com características singulares, fazendo de maquetes a própria estrutura da casa mostrada na história, Aster agora regressa com seu segundo projeto, Midsomar – O mal não espera a noite, distribuído pela mesma A24, de filmes independentes.
A jovem Dani Ardor (Florence Pugh) recebe uma notícia perturbadora relacionada à irmã e aos seus pais e pede a ajuda de seu namorado, Christian Hughes (Jack Reynor), estudante de antropologia. Este, no entanto, com o apoio de seus amigos Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgren), parece querer distância dela. Segundo os amigos, ela é psicologicamente instável. O amigo sueco, Pelle, convida a todos para ir à sua comunidade de origem na Suécia, durante o solstício de verão. É um lugar adequado para Christian fazer uma pesquisa para seu trabalho acadêmico.

O mais interessante é como Aster mostra, antes da chegada, o carro levando os amigos e a câmera se inverte na estrada: é a entrada num universo à parte. É o que parece a princípio. Com o uso de um psicotrópico, Dani tem a sensação primeiro de uma vegetação crescer em seu pé e depois de que pessoas da comunidade, os Hårga, estarem rindo dela, até se trancar numa cabana e daí sair correndo floresta afora. Aster corta a sequência e já mostra o grupo chegando ao núcleo de habitações da comunidade. A partir daí, será tudo realidade ou a imaginação da personagem central?
Esta comunidade afastada é filmada por Aster com toques de um surrealismo remetendo à parte da filmografia de Alejandro Jodorowsky, principalmente A montanha sagrada (há realmente um urso trancado numa jaula?). Todos na comunidade vestem branco (com bordados floridos) e as mulheres, guirlandas, e brincam pelo espaço, dançam ou ficam estendidos em gramados, numa espécie de paraíso afastado da barbárie. Mas também participam de cerimônias estranhas, não raramente sob efeito de alguma bebida feita com poções indefinidas – e estão interessados mesmo em observar algum tipo de sacrifício que possa justificar sua existência. Lá o grupo de norte-americanos também conhece um casal, Connie (Ellora Torchia) e Simon (Archie Madekwe), levado pelo irmão de Pelle, Ingemar (Hampus Hallberg).

Como em Hereditário, Aster não está muito preocupado em esclarecer para o espectador se o que está assistindo é real ou fruto de uma alucinação – aqui literalmente. Essa comunidade tem galpões com histórias contadas por meio de desenhos, assim como tapeçarias adiantando pontos da trama e um senso de humor peculiar – em determinado momento, uma integrante da comunidade pergunta ao grupo se deseja assistir a Austin Powers. Aster, obviamente, não está interessado em provocar sustos ou simplesmente amedrontar. Por meio de um design de produção fabuloso de Henrik Svensson e efeitos sonoros que lembram as obras de David Lynch, ele faz uma espécie de análise sobre a culpa da personagem principal em relação à família e à comunidade como sua possível substituta.
Como os amigos de Christian não gostam dela, com exceção de Pelle (ironicamente, o nome do personagem da peça de Bille August vencedor do Oscar de filme estrangeiro pela Suécia em 1989), que sofreu um abalo na vida parecida com o dela, Dani se sente sempre deslocada – e esse deslocamento a faz pensar que nenhum deles pode substituir sua vontade de estar estruturada por uma ideia de união familiar e a busca do indivíduo é pelo entendimento alheio de sua dor, mesmo que a “ajuda” possa vir de lugares terrivelmente estranhos e de comportamentos indefiníveis. Para isso, Pugh consegue superar sua ótima atuação de Lady Macbeth e se mostra uma das melhores atrizes da nova geração, com um misto de insegurança, desconfiança e aversão ao que acontece a seu redor, principalmente nas atitudes do namorado. Aster utiliza as imagens mais como metáforas de uma trama do que propriamente para contar uma narrativa. As roupas floridas das mulheres da comunidade, assim como a carruagem que leva Dani, enfeitada por flores, são complementares.

Os diálogos quase não importam e as ações dos personagens são quase sempre previsíveis: o filme contado por Aster, como em Hereditário, não está nos diálogos e sim nas imagens. E é nelas que, como em sua estreia, Midsommar adquire um impacto imprevisto. Pode haver em alguns momentos o predomínio da estética sobre o conteúdo, mas é uma estética elaborada em minúcias. Iniciando numa paisagem invernal e soturna, a obra se transfere para o dia tão iluminado que parece brilhar, no entanto ele não parece ser o mais propício para os rumos da narrativa. A própria maneira como o diretor colhe pontos de O homem de palha, por exemplo, é justificada pelo contexto, sem nunca, no entanto, parecer uma diluição. O seu desinteresse em mostrar os integrantes da comunidade é justamente para causar um impacto nos momentos necessários. A claridade da fotografia de Pawel Pogorzelski, o mesmo de Hereditário, se justifica em todos os seus pontos e ajuda a contar a história de maneira decisiva. E é por meio dela que Midsommar adquire outro estágio no ato final, quando os personagens vão se dispersando para, na verdade, concentrar o relato num só olhar. É uma sucessão de sequências raramente permitidas em Hollywood e que fazem o gênero de terror adentrar no campo indefinido da arte mais subjetiva possível.

Midsommar, EUA, 2019 Diretor: Ari Aster Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Will Poulter Roteiro: Ari Aster Fotografia: Pawel Pogorzelski Trilha Sonora: Bobby Krlic Produção: Lars Knudsen e Patrik Andersson Duração: 147 min. Estúdio: Square Peg, B-Reel Films Distribuidora: A24 (Estados Unidos) e Nordisk Film (Suécia)

Ad Astra – Rumo às estrelas (2019)

Por André Dick

O gênero de ficção científica vem ganhando cada vez mais destaque em Hollywood, principalmente nesta década, quando os efeitos especiais se aprimoraram em grande intensidade, não apenas por causa de franquias rentosas, mas também em razão de filmes mais baseados em conceitos. Nesse sentido, Ad Astra – Rumo às estrelas é uma peça típica dessa fase estabelecida de viagens espaciais.
Brad Pitt, em outro grande momento seu este ano, depois de Era uma vez em… Hollywood, interpreta o major Roy McBride, que é convocado para uma missão no espaço: chegar a Netuno, onde estaria seu pai, Clifford (Tommy Lee Jones), dado como morto desde a sua adolescência, depois de participar do Projeto Lima, no qual se pretendia identificar a existência de vida fora da Terra e que pode estar causando danos ao planeta. A primeira etapa é chegar à lua, ao lado do coronel Thomas Pruitt (Donald Sutherland), amigo de seu pai, na base SpaceCom. O território lunar abriga complexos lembrando um shopping center.

Ali, Roy embarca no foguete Cepheus, com destino a Marte. Há um aviso vindo de uma estação espacial norueguesa, onde ele vai se deparar com babuínos sendo testados cientificamente. Na SpaceCom de Marte, o astronauta conhece Helen Lantos (Ruth Negga), e é colocado para gravar mensagens endereçadas ao Projeto Lima, da qual seu pai faz ou fazia parte. Dali ele parte para Netuno, a fim de que possa esclarecer as dúvidas de sua existência.
O personagem de Roy é um solitário, recém-separado de Eve (Liv Tyler) – e o nome dela obviamente é uma referência bíblica – e que não sabe ao certo o destino de seu pai. O espaço se constitui para ele como um grande lugar para solidão se manifestar. James Gray, naturalmente, tem grande proximidade desse tema depois, principalmente, do belíssimo Amantes, mas também do falho, embora tecnicamente perfeito, Era uma vez em Nova York e do ótimo Z – A cidade perdida, aqui com a solidão da selva. Pitt entrega um desempenho tão contido e emocional que se fica perguntando onde estariam os papéis de sua trajetória capazes de extrair tanto sentimento (em alguns momentos lembra muito o de A árvore da vida). Seu personagem tem elementos do Leonard Kraditor, feito por Joaquin Phoenix em Amantes, na sua insegurança diante das decisões a serem tomadas na vida amorosa.

Na maior parte do tempo, Ad Astra parece uma compilação de referências a 2001 – Uma odisseia no espaço e sua passagem pela lua é uma das mais interessantes já feitas no cinema, ao lado justamente da obra de Kubrick e de O primeiro homem, do ano passado, recordando, numa cena de ação, até mesmo o mais recente Mad Max, com uma profusão sonora de grande qualidade e impacto notável. Ao mesmo tempo, ele recorda muito Interestelar, inclusive pelo diretor de fotografia ser o mesmo Hoyte van Hoytema, e em alguns momentos Gravidade, duas referências do gênero de ficção científica dos últimos anos.
Gray focaliza a solidão humana como ponto de partida para a substituição das figuras paterna e materna finalmente pela mulher amada – e o trajeto que o astronauta faz é um mergulho em si mesmo. Metaforicamente, o filme funciona muito bem, não aparando, porém, algumas arestas da narrativa, soando um pouco abruptos os saltos no roteiro. Os personagens não chegam a ser interessantes, no entanto seus intérpretes buscam um acesso direto ao público, sem passarem pelos diálogos. Neste ponto, ele lembra bastante High life, de Claire Denis, no qual Robert Pattinson faz um astronauta vagando no espaço, inclusive na sua lentidão proposital, sem nenhuma lembrança dos blockbusters de Hollywood, mesmo em seu traço romântico, característica que obtém também da versão de Steven Soderbergh de Solaris.

Se o filme de Denis é mais pessimista do que o de Gray e com efeitos especiais menos imponentes, em base eles procuram pelo mesmo caminho de análise de como o ser humano reage à vastidão das estrelas. Pelo seu orçamento maior, Ad Astra amplia seu escopo com mais brilhantismo visual e um design de produção mais variado, embora não totalmente acertado – Gray é um diretor acostumado a lindas ambientações de época –, e entrega uma fotografia capaz de deixar o espectador com a sensação de pairar no espaço. Lamenta-se apenas que a trilha sonora de Max Richter seja muito intrusiva, vaga e tente emular as de Hans Zimmer, sem a mesma qualidade (imagina-se como o filme cresceria com uma trilha do segundo). A jornada desse astronauta torna-se uma viagem pessoal que se estende a quem a acompanha, e profundamente dolorosa em alguns pontos nos quais Gray sobrepõe o drama à técnica que o cerca. Isso talvez se mostre pela presença de um determinado ator, no seu melhor momento em anos, num momento de profunda melancolia causada pelo espaço. É este ator que, com Pitt, ajuda a justificar mais esta obra de Gray, cuja narrativa, de modo singular, consegue realmente mostrar uma viagem espacial capaz de transformar um indivíduo.

Ad Astra, EUA, 2019 Diretor: James Gray Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Ruth Negga, Liv Tyler, Donald Sutherland Roteiro: James Gray e Ethan Gross Fotografia: Hoyte van Hoytema Trilha Sonora: Max Richter Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, James Gray, Anthony Katagas, Rodrigo Teixeira, Arnon Milchan Duração: 124 min. Estúdio: 20th Century Fox, Regency Enterprises, Bona Film Group, New Regency, Plan B Entertainment, RT Features, Keep Your Head Productions, MadRiver Pictures, TSG Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures