Fora de série (2019)

Por André Dick

A atriz Olivia Wilde, conhecida por filmes como Ela e Vinyl, estreia atrás das câmeras dirigindo esta comédia adolescente com um tom mais incomum em relação a outras. Sua inspiração é bem clara: Superbad, da década passada. No entanto, pode-se dizer que dialoga também com várias outras que vieram posteriormente, além daquelas obras mais dramáticos e sensíveis sobre a passagem da adolescência, a exemplo de As vantagens de ser invisível e Bling Ring – A gangue de Hollywood e também com humor menos sutil, presente em Não vai dar, lançado em 2018.
Ela foca a amizade de Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein), duas colegas de ensino médio e melhores amigas. Elas descobrem, no fim dessa fase em suas vidas, que não aproveitaram absolutamente nada em termos de festa e resolvem, numa noite de despedida, buscarem conciliar seus sonhos e pretensões. Os pais de Amy são Doug (Will Forte) e Charmaine (Lisa Kudrow), despreocupados com o que pode acontecer.

Enquanto Molly é apaixonada por Nick (Mason Gooding), Amy gosta de uma outra colega de escola, Ryan (Victoria Ruesga). Para chegarem à festa e sem terem noção do caminho a ser seguido, elas pedem ajuda a Jared (Skyler Gisondo, de Férias frustradas e da série Santa Clarita Diet), que gosta de Molly. A primeira parada é num iate com um salão de festas grandioso, onde os três se deparam com Gigi (Billie Lourd), que, ao longo da narrativa, pode aparecer em lugares imprevistos.
A maneira como Wilde mostra a escola é bem mais otimista do que séries e filmes recentes, por exemplo Oitava série, no qual a protagonista sofria constantemente, embora não sem certo uso de bom humor em momentos-chave. Não que as duas amigas não tenham problemas aqui, no entanto Wilde acrescenta um tom de humor, principalmente quando elas têm de lidar com o diretor Jordan Brown (o ótimo Jason Sudeikis), a professora Miss Fine (Jessica Williams) e com Hope (Diane Silvers).

É muito interessante a maneira como Wilde filma a dinâmica de amizade ou inimizade das duas com seus colegas, principalmente num encontro de Molly com colegas que ela imagina perdidos na vida e em suas escolhas no banheiro da escola, quando descobre não se sobressair como imaginava em relação a eles, a começar por Triple A (Molly Gordon) e Theo (Eduardo Franco). Sua reação é um dos melhores momentos da primeira parte, estabelecendo praticamente o caminho seguido pela história. O roteiro escrito a oito mãos por Emily Halpern, Sarah Haskins, Katie Silberman e Susanna Fogel (esta diretora do interessante Meu ex é um espião) flui de maneira objetiva, não apresentando grande espaçamento entre uma e outra etapa nem desperdiçando alguns coadjuvantes que contribuem realmente para a narrativa. Os estereótipos quase caem no lugar-comum, porém os diálogos se fazem necessários.
Há algumas sequências com extrato um tanto surreal, perdidas em meio a outras, com alívio cômico por vezes desnecessário, mas Fora de série apanha a atmosfera e o clima de uma determinada época e as agruras da transformação adolescente. Dever já se mostrou antes ótima atriz, em filmes como Querido menino e Outside in, além do já referencial (e infelizmente subestimado) Homens, mulheres e filhos, e Feldstein tem mais uma chance depois de sua participação exitosa em Lady Bird, demonstrando um lado cômico pouco explorado por jovens atrizes em Hollywood.

Ambas possuem uma química muito grande, situadas entre a aceleração do que desejam fazer e as dúvidas que as cercam, em cenas sobretudo emotivas no ato final, no qual a trilha sonora tem uma participação relevante, remetendo ao curioso Meu namorado é um zumbi. Mas talvez seja Gisondo o grande intérprete dessa história, passada basicamente em uma noite e com ótima fotografia de Jason McCormick, captando uma atmosfera interessante, e trilha sonora. Ele oferece, como ótimo ator que é, um tom agridoce a esta passagem de fase e se confirma como um dos talentos jovens de Hollywood. E Wilde se firma como uma nova diretora de destaque, com influência de Sofia Coppola na combinação de um ar sofisticado com algo mais popular na abordagem, levando Fora de série para um campo de diversão reflexiva.

Booksmart, EUA, 2019 Diretora: Olivia Wilde Elenco: Kaitlyn Dever, Beanie Feldstein, Jessica Williams, Lisa Kudrow, Will Forte, Jason Sudeikis, Skyler Gisondo, Mason Gooding, Victoria Ruesga, Billie Lourd Roteiro: Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Fogel, Katie Silberman Fotografia: Jason McCormick Trilha Sonora: Dan the Automator Produção: Megan Ellison, Chelsea Barnard, David Distenfield, Jessica Elbaum e Katie Silberman Duração: 105 min. Estúdio: Annapurna Pictures, Gloria Sanchez Productions Distribuidora: United Artists Releasing

X-Men – Fênix Negra (2019)

Por André Dick

É preciso estar atento que X-Men – Fênix Negra está conseguindo ter uma aprovação de pouco mais de 20% no Rotten Tomatoes, o agregador de críticas que alguns utilizam para decretar a qualidade de um filme e não conseguem expor exatamente o motivo, a não ser o simples fato de que em algum lugar possa se encontrar uma opinião “consensual”, mesmo que cada espectador tenha motivos para pensar justamente o contrário. Isso parece prenunciar um desastre no mínimo constrangedor para o último filme realizado ainda na Fox do universo da Marvel, já que ela foi incorporada pela Disney, agora sua distribuidora.
A história inicia em 1975, mostrando Jean Grey (Summer Fontana) com oito anos de idade, no carro de seus pais, Elaine (Hannah Emily Anderson) e Dr. John (Scott Shepherd) quando há uma interferência de sua telecinesia na viagem. O resultado do acontecimento a leva para a Escola do professor Charles Xavier, em Westchester County, New York, destinada a crianças e jovens com habilidades especiais ligadas ao cérebro.

Transportada para 1992, a história acompanha os X-Men que estão para salvar um ônibus espacial, Endeavour, do desastre. Liderados por Xavier, Grey (Sophie Turner), agora conhecida como Fênix Negra, acaba por absorver os resíduos de uma explosão, tornando-se mais forte, para preocupação do mestre. Ficam sabendo disso após uma análise de Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult). Grey namora Scott Summers/Ciclope e é amiga próxima de Raven Darkhölme/Mística (Jennifer Lawrence). Essas relações já são desenhadas no filme X-Men – Apocalipse, quando Summers é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers) para a escola de Xavier, assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Aparecem de relance Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters) e Ororo Munroe/Tempestade (Alexandra Shipp) e Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee).
Grey não sabe que destino exatamente teve seus pais e passa a ficar preocupada com o que pode ter acontecido a ela. Isso a leva para uma tentativa de reencontrar seu pai em Red Hook, Nova York e ir atrás da ajuda de Erik Lehnsherr/Magneto (Michael Fassbender). Enquanto isso, segue em seu encalço a enigmática Vuk (Jessica Chastain).

Se a nova fase de X-Men teve uma trilogia dirigida inicialmente por Matthew Vaughn e continuada por Bryan Singer, e seus destaques sejam Primeira classe e Apocalipse, a criticada sequência com um dos melhores desenvolvimentos de personagens da série, este episódio dedicado à figura de Fênix Negra talvez seja o derradeiro no estilo desses personagens na Fox antes de ser vendida para a Disney. E, não contando com Singer na direção, mais afeito a um tratamento pop, embora de qualidade, apresenta no comando Simon Kinberg, que estreia como diretor, mas tem no currículo o roteiro dos dois episódios anteriores dessa nova fase de X-Men, além de X-Men – O confronto final (da primeira fase, dos anos 2000), com pontos parecidos com o desta nova obra no desenvolvimento da saga de Fênix Negra, além de trabalhos ótimos, como Sherlock Holmes, de Guy Ritchie. É curioso também que ele tenha produzido inúmeros filmes (a exemplo de Logan e Deadpool2) e escreva X-Men – Fênix negra. Nada – nem mesmo Vingadores – Ultimato – tem um ritmo tão contemplativo no universo Marvel quanto este episódio para uma figura feminina de destaque. Há um peso para as ações de cada personagem, um sentimento de culpa envolvendo lembranças familiares e ser aluno de um mestre. Esse ritmo vem acompanhado de ótimas atuações, como as de McAvoy, Fassbender, Turner e, principalmente, Jessica Chastain, além da trilha sonora de Hans Zimmer, capaz de dar profundidade a sequências de ação e explosões, aqui com ótimos efeitos visuais, sobretudo no terceiro ato.

Como no filme anterior, subestimado, Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas que havia lá – e que não se repete aqui – é que os personagens quase não possuíam cenas em conjunto. Agora essa aproximação dos alunos de Xavier mostra, ao mesmo tempo, uma tentativa de independência, assim como a tentativa do professor em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado no embate continue. Se o duelo masculino prossegue entre eles, Fênix Negra e Vuk protagonizam o duelo feminino, ligado a uma figura do passado da personagem central. O roteiro não trabalha com os excessos de tramas de Apocalipse e prefere focar bem em alguns personagens. Desse modo, em X-Men – Fênix Negra novas surpresas ocorrem nesse campo de ligações anteriores e com uma dose a mais de introspecção, não notada desde Logan pelo menos entre as produções da Marvel ligadas inicialmente à Fox. É justamente essa característica que torna o filme tão interessante do ponto de vista do desenvolvimento e, justamente ao contrário da obra com Hugh Jackman, o que surpreendentemente suscita tantas críticas injustas.

Dark Phoenix, EUA, 2019 Diretor:  Simon Kinberg Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Sophie Turner, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Jessica Chastain, Summer Fontana Roteiro: Simon Kinberg Fotografia: Mauro Fiore Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Simon Kinberg, Hutch Parker, Lauren Shuler Donner Duração: 114 min. Estúdio: 20th Century Fox, The Donners’ Company, Marvel Entertainment, TSG Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Anos 90 (2018)

Por André Dick

Ator que se destacou inicialmente em filmes de Judd Apatow (a exemplo de O virgem de 40 anos e Ligeiramente grávidos) e que depois empreendeu uma trajetória peculiar, fazendo desde Superbad, passando por O homem que mudou o jogo, até O lobo de Wall Street e Cães de guerra, além da boa série Anjos da lei, com êxito incomum nas bilheterias, Jonah Hill faz sua estreia na direção em Anos 90, produzido pela A24, uma distribuidora de filmes independentes que têm se destacado nos últimos anos, a exemplo de Lady Bird e Projeto Flórida. Pode-se afirmar que há uma tentativa de mesclar Harmony Korine (que faz uma ponta nele), de peças como Gummo e autor de Kids, com Richard Linklater, aquele de Jovens, loucos e rebeldes, no entanto com elementos realmente particulares.
Embora tenhamos Katherine Waterston e Lucas Hedges como a mãe, Dabney, e o irmão, Ian, do personagem principal, Stevie, de 13 anos, interpretado com êxito por Sunny Suljic, que se encontra na vida fazendo amizade com um grupo de skatistas, Hill nunca os utiliza de maneira previsível. Primeiramente, ele mostra as dificuldades de relacionamento entre os irmãos. Há uma adoração de Stevie por Ian, na tentativa de descobrir suas preferências musicais, no entanto quando os conflitos se encadeiam são inevitáveis.

Solitário, Stevie encontra uma saída dese universo num no grupo liderado por Ray (Na-kel Smith), tendo o agressivo e mais próximo de sua idade Ruben (Gio Galicia), “Fuckshit” (Olan Prenatt) e “Fourth Grade” (Ryder McLaughlin). Stevie é um menino que tem o cobertor de as Tartarugas Ninja, remetendo diretamente à década do título, no entanto passa por conflitos internos que se reproduzem na relação problemática com o irmão e a mãe quando esta lhe pede para se afastar dos amigos e desperta uma mágoa. A história é quase uma versão masculina de Soul Kitchen, sobre um grupo de meninas skatistas, também marcante e que não chegou aos cinemas brasileiros, pelo menos até agora.
Anos 90 baseia sua qualidade no ótimo elenco. Isso não parece com obras sobre a adolescência feitos em Hollywood, seja dramáticos ou bem-humorados, como o próprio Superbad do qual Hill participa. É mais soturno, com uma fotografia pouco atrativa, que, por outro lado, oferece certo realismo, e utiliza uma trilha da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, responsável por aquela notável de A rede social. Para um filme passado na ensolarada Los Angeles, ele parece exatamente um contraponto ao clima da cidade, com o uso do cinza e de um céu nunca azul, além de prédios que parecem tirar o espaço de cada um desses skatistas, à procura de pistas e lugares vazios para fazer suas manobras. Esses jovens estão dispersos: nunca vemos como são suas vidas familiares, nem se destaca a personalidade de cada um. Em meio a tudo, eles acabam desenhando a proximidade de Stevie do skate, atraindo para um universo no qual pode encontrar liberdade, lembrando em alguns momentos As patricinhas de Beverly Hills, sem o mesmo humor. A loja de skate onde se encontram passa a ser sua casa.

A fotografia em 16mm na proporção 4:3 de Christopher Blauvelt (lembrando um filme antigo) e a trilha (sem canções em excesso querendo referenciar o período enfocado), enlaçadas, produzem uma sensação de aproximação da década mencionada, porém, ao mesmo tempo, uma volta nostálgica a um esporte que praticamente se consolidou nela. É uma época pré-internet e celulares, na qual havia mais inter-relações na fase da adolescência, sobretudo, e uma simples tentativa de pertencer a um grupo ajudava a constituir uma personalidade, mais do que servir de referência para algo que se pudesse fazer. Stevie, de certo modo, é uma espécie de símbolo dessa passagem da infância para a adolescência, na qual o universo ao redor se mostra mais confuso quando o contexto parece ser mais delicado do que se imagina. Não por acaso, ele é apelidado de “Sunburn”. Hill não chega a explorar, também pela duração de seu filme ser curta (apesar de na medida), outros temas para além daquele da relação do menino com a família  e com os amigos, porém, dentro de sua perspectiva, é bastante eficiente. Os diálogos dele com o líder do grupo, interpretado com afeto por Na-kel Smith, são verdadeiramente autênticos, assim como o duelo que trava com o amigo que o levou a este universo, com receio de perder espaço para alguém mais corajoso na hora de efetuar algumas manobras no skate. De forma mesmo inesperada, vemos em Jonah Hill um autor em meio à leva de novos cineastas, propenso a apresentar uma época com sensibilidade rara.

Mid90s, EUA, 2018 Diretor: Jonah Hill Elenco: Sunny Suljic, Lucas Hedges, Na-Kel Smith, Olan Prenatt, Gio Galicia, Ryder McLaughlin, Alexa Demie, Katherine Waterston Roteiro: Jonah Hill Fotografia: Christopher Blauvelt Trilha Sonora: Trent Reznor e Atticus Ross Produção: Eli Bush, Jonah Hill, Ken Kao, Scott Rudin, Lila Yacoub Duração: 85 min. Estúdio: A24, Waypoint Entertainment, Scott Rudin Productions Distribuidora: A24

Melhores filmes de 2013

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2013. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. A vida secreta de Walter Mitty (Ben Stiller) 24. Fruitvale Station (Ryan Coogler) 23. Um toque de pecado (Jia Zhangke) 22. Walt nos bastidores de Mary Poppins (John Lee Hancock) 21. O lugar onde tudo termina (Derek Cianfrance) 20. Rush – No limite da emoção (Ron Howard) 19. O conto da princesa Kaguya (Isao Takahata) 18. Apenas Deus perdoa (Nicolas Winding Refn) 17. Star Trek – Além da escuridão (J.J. Abrams) 16. Temporário 12 (Destin Daniel Cretton) 15. Gravidade (Alfonso Cuarón) 14. Bastardos (Claire Denis) 13. 12 anos de escravidão (Steve McQueen) 12. A imagem que falta (Rithy Panh) 11. O maravilhoso agora (James Ponsoldt)

Aladdin (2019)

Por André Dick

Lançado em 1992, Aladdin é um dos desenhos animados de maior bilheteria de todos os tempos. Embora não tenha repetido o feito de ser indicado ao Oscar de melhor filme, como A bela e a fera um ano antes, trata-se de uma grande diversão, sobretudo pela presença de Robin Williams no papel do Gênio da Lâmpada.
Em seu live-action, dirigido por Guy Ritchie, ele conta basicamente a mesma história: Aladdin (Mena Massoud) é um jovem que vive nas ruas do reino de Agrabah, em meio ao deserto, com o macaco Abu, seu melhor amigo. Seu objetivo é casar com a princesa do reino, Jasmine (Naomi Scott), filha do Sultão (Navid Negahban) e cuja melhor amiga é a criada Dalia (Nasim Pedrad). O pai quer casá-la com o Príncipe Anders (Billy Magnussen). Antes, contudo, precisa enfrentar Jafar (Marwan Kenzari), que, sempre com seu papagaio, controle o reino por meio de seus poderes hipnóticos. Ele pretende se transformar no homem mais temido do mundo e deseja encontrar o Gênio da Lâmpada (Will Smith) na Caverna das Maravilhas. Ele pode ser o meio de Aladdin se transformar num príncipe.

No filme de 1992, Jafar não é tão divertido quanto Aladdin, que se transformava em qualquer coisa para aparecer, lembrando um showman, mas tinha grande presença, o que seu intérprete no filme não consegue lamentavelmente repetir. É importante lembrar o quanto Guy Ritchie, em Snatch – Porcos e diamantes, trazia uma espécie de miscelânea de gêneros ligados ao mundo da máfia, com todos os maneirismos possíveis de sentido pop e violência influenciada visivelmente por Tarantino. Ritchie parecia um bom cineasta, mas ainda tateando, em busca de uma personalidade. Ele não conseguiu isso em projetos como Destino insólito (com sua ex-mulher, Madonna), mas são os elementos que já apareciam em Snatch que fizeram funcionar tão bem nos dois Sherlock Holmes, em O agente da U.N.C.L.E e em Rei Arthur – A lenda da espada.

Neles estão os elementos que já se encontravam em Snatch: uma espécie de necessidade de destacar os movimentos de câmera, lembrando às vezes um videoclipe, o visual carregado e o elenco fazendo soar o máximo uma espontaneidade teatralizada. Nesta adaptação com atores de Aladdin, Ritchie não emprega visualmente seu estilo – mais soturno –, apanhando um colorido capaz de remeter ao cinema de Bollywood, mas, principalmente, a The fall, de Tarsem Singh. Mesmo assim, ele consegue mostrar sua personalidade num certo humor agridoce trazido pelo Gênio da Lâmpada, numa das melhores atuações de Will Smith em sua carreira – e o filme diminui de tamanho quando em determinados momentos ele sai de cena. De algum modo, ele ainda está lá, por trás do estilo imposto pela Disney, capaz de tirar algumas vezes o mérito de diretores à frente de outras obras nesses moldes, a exemplo de A bela e a fera.
O filme de Ritchie não tem objetivo de respeitar algum molde clássico, como todos os projetos do cineasta: é um espetáculo em movimento quase de videoclipe, com uma montagem por vezes confusa, mas sem tanto, como ele gosta, idas e vindas no tempo e cortes para evitar excessivo material expositivo – uma das suas qualidades. O roteiro dele em parceria com John August (autor de vários filmes de Tim Burton, como Peixe grande e Sombras da noite), baseado no original de 1992, assinado por Ron Clements, John Musker, Ted Elliott e Terry Rossio, tenta mesclar as partes musicais, com danças, inclusive, com uma atmosfera de obra infantojuvenil que possa dialogar também com os adultos.

Nesse sentido, um dos destaques do live-action é novamente a trilha sonora brilhante de Alan Menken (o mesmo de A pequena sereia), com a parceria de Howard Ashman, que tem pelo menos três canções antológicas e um som de inegável qualidade. Não à toa, o desenho animado ganhou dois Oscars neste campo e rendeu muitos frutos. Os diálogos que a narrativa empresta ao Gênio são muito bons, embora a porção romântica entre Aladdin e Jasmine se realize mais no visual do que exatamente nas atuações um pouco deslocadas de Massoud e Scott, embora nenhuma diminua o material e sempre evoquem a animação. Apenas chama a atenção como este live-action é aquele mais realista já feito pela Disney, sem recorrer tanto a CGI (os efeitos visuais, inclusive, são ótimos, como os do tigre e do macaco) e adotando uma fotografia com várias tomadas destacando um design de produção real, assim como em seus figurinos ultracoloridos. Há também, como diferença em relação ao original, uma nova canção, “Speechless”, dos oscarizados Benj Pasek e Justin Paul, responsáveis pela belíssima “City of stars” de La La Land, e uma certa modulação no roteiro visando algumas temáticas atuais. Nada se sente forçado como poderia se imaginar inicialmente de um cineasta tão pouco provável para este material. Mesmo não alcançando a magia do original, este Aladdin consegue às vezes alçar voos altos.

Aladdin, EUA, 2019 Diretor: Guy Ritchie Elenco: Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Marwan Kenzari, Navid Negahban, Nasim Pedrad, Billy Magnussen Roteiro: John August e Guy Ritchie Fotografia: Alan Stewart Trilha Sonora: Alan Menken Produção: Dan Lin e Jonathan Eirich Duração: 128 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Rideback, Marc Platt Productions Distribuidora: Walt Disney Studios

Brightburn – Filho das trevas (2019)

Por André Dick

Com produção do diretor dos dois Guardiões da galáxia e de Super, James Gunn, e roteiro assinado por seu irmão Brian e primo Mark, Brightburn – Filho das trevas é dirigido por David Yarovesky, O filme inicia com um casal, Tori (Elizabeth Banks), e Kyle (David Denman), que mora na área rural do Kansas, numa grande fazenda, pensando em ter um filho. Nesse momento, a obra dá um salto no tempo, e os vemos criando um menino, Brandon (Jackson A. Dunn).
Se Brighturn tem algo não é exatamente a originalidade. Brandon caiu do céu dentro de uma espécie de cápsula que lembra imediatamente aquela de Superman, de Richard Donner, e de O homem de aço, de Zack Snyder (lembrando que James Gunn escreveu o primeiro filme desse diretor, Madrugada dos mortos). A semelhança é tão grande que se pode avaliar como os dois Gunn autores do roteiro devem ter feito uma pesquisa detalhada sobre aquele que se esconderia por trás da persona de Clark Kent.

No entanto, Brandon não é exatamente como Clark. A princípio, um filho educado, prestativo com os pais, começa, na chegada da adolescência, ater acessos de raiva e descobre uma força incomum, sobretudo depois de tentar ligar um cortador de grama. Esses momentos lembram principalmente O homem de aço, de Snyder, até mesmo nos enquadramentos, no entanto sob o ponto de vista de uma ameaça maligna. Aqui não existe kryptonita: ela está encarnada na própria figura do personagem central. E os símbolos das abelhas e das flores interagem para mostrar como o personagem do menino está situado entre o possível ataque e uma tentativa de sensibilidade, oferecendo um bom resultado.
Obviamente, Brightburn vai se sucedendo em blocos, com uma narrativa a princípio previsível, no entanto, além da atuação de Banks, muito bem, e da presença de Denman, o jovem ator Dunnan, o qual fez uma rápida participação em Vingadores – Ultimato como o jovem Scott Lang, traz uma plausibilidade ao roteiro. Os momentos em que ele contracena com o pai e a mãe são verdadeiros e, quando começa a mudar seu comportamento, em diálogo com a sua idade, há um interesse genuíno de avaliá-lo psicologicamente. O próprio interesse nele por sua colega de aula Caitlyn (Emmie Hunter), filha de Erica (Becky Wahlstrom), que trabalha na lanchonete da cidadezinha, mostra isso.

E, embora seja muito rápida sua transformação, a edição colabora para que o espectador aceite isso. Tendo apenas curtas e um longa-metragem, A colmeia, antes desse filme (aliás, imagem utilizada aqui em momentos-chave), o diretor David Yarovesky escolhe alguns elementos de obras de super-heróis: o menino, em determinado momento, começa a desenhar um uniforme em seu caderno. A atmosfera rural é decisivamente importante para que a narrativa se sinta real, com a presença de um bosque onde Brandon e seu pai vão treinar tiros a alvo.
Há, nisso, não apenas a influência de Superman, como também da série A profecia, que iniciou com uma peça em 1976 do mesmo diretor Richard Donner. No entanto, mais recentemente tivemos Destino especial, um menino do interior que descobria super-poderes. Brightburn tem muito desse filme, com a diferença de que acentua seu horror em suas bordas. É um grande quadro de como pode brotar o pavor de um cenário idílico, inofensivo, e adianta em sua narrativa uma espécie de diálogo com Hereditário.

É clara, em alguns momentos, a influência dessa obra de Aster, principalmente aproveitando a noite como uma oposição ao dia – os momentos mais assustadores se passam nesse período, aproveitando a imagem de bosques. O trabalho de fotografia de Michael Dallatorre, desse modo, é muito bom, e sempre deixa o fundo das cenas como espaço para a imaginação do espectador, temendo o que pode acontecer. Com isso, apesar de muitas sequências serem possivelmente previsíveis, há nelas um conjunto que consegue aparentar uma construção interessante e mesmo elegante, apesar de adotar o caminho mais brusco em alguns momentos. Mas, acima de tudo, o roteiro consegue desenvolver um elo de ligação dos pais com o filho de modo que, quando as coisas começam a ficar agitadas, o espectador fica receoso de haver um elo quebrado. Para isso, é vital a atuação principalmente de Banks, atriz subestimada. Ela consegue dar credibilidade à pressa do ato final, com momentos realmente emocionais, seja para assustar ou não.

Brightburn, EUA, 2019 Diretor: David Yarovesky Elenco: Elizabeth Banks, David Denman, Jackson A. Dunn, Matt Jones, Meredith Hagner, Emmie Hunter, Becky Wahlstrom Roteiro: Mark Gunn e Brian Gunn Fotografia: Michael Dallatorre Trilha Sonora: Timothy Williams Produção: James Gunn e Kenneth Huang Duração: 90 min. Estúdio: Screen Gems, Stage 6 Films, Troll Court Entertainment, The H Collective Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Cemitério maldito (2019)

Por André Dick

O cinema vem adaptando obras de Stephen King em larga escala desde os anos 70, quando livros como Carrie, a estranha e Os vampiros de Salem, se transformaram em filmes (o de Hooper feito inicialmente para a TV, mas depois lançado no cinema em circuito restrito, pela qualidade). No entanto, foi nos anos 80, com peças como O iluminado, Fog, Christine – O carro assassino, Conta comigo e A hora do lobisomem, que King chegou as maiores plateias. Em Creepshow ele participou, inclusive, como ator numa das histórias. No final dessa década, foi lançada a primeira adaptação de Cemitério maldito, mais exatamente em 1989. Desde lá, as adaptações do escritor não cessaram, inclusive algumas indicadas ao Oscar de melhor filme (Um sonho de liberdade, À espera de um milagre). Apenas em 2017 foram lançados It – A coisa e Jogo perigoso.
Desta vez, temos uma nova versão da mesma obra de King, como antes já aconteceu com o próprio It, O iluminado e Carrie, entre outros. Ele mostra a chegada de Louis Creed (Jason Clarke), médico de Boston, que se muda para a cidezinha de Ludlow, Maine, com sua esposa Rachel (Amy Seimetz) e seus dois filhos pequenos, Ellie (Jeté Laurence) e Gage (os gêmeos Hugo e Lucas Lavoie).

Além disso, há o gato de Ellie, chamado “Church”. A câmera sobrevoando uma estrada em meio a florestas obviamente lembra o filme de Kubrick do início dos anos 80, no entanto não existe aqui, exatamente, um tom grandioso. Tudo vai se situar num determinado espaço. Logo na chegada, Ellie vai até o bosque, onde vê crianças com máscaras levando um animal a um cemitério chamado “Pet Sematary”, onde conhece o vizinho Jud Crandall (John Lithgow), que avisa sobre o perigo do lugar.
Desde o início, a dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer tenta escapar da versão de 1989, com toda a atmosfera daquela década e a canção-título numa versão antológica dos Ramones (que mais tornou o filme conhecido), com uma fotografia mais soturna. Eles também acentuam o clima pesado e cadavérico dos personagens. Todos eles parecem ter sido afetados pelo conceito de morte, não apenas o médico, como sua esposa, que não quer falar sobre um determinado acontecimento em sua vida.

O mais interessante nessa história é que, para personagens que não conseguem enfrentar a ideia de morte, esta se aproxima cada vez mais, seja por meio de visões estranhas, seja por meio de uma determinada situação envolvendo o gato de Ellie. Este é o momento em que a história é conduzida para um ambiente fantástico, principalmente por meio de uma neblina noturna e por meio de passeios no bosque perto de casa que não parecem exatamente reais, contudo repletos de uma sensação onírica. De certo modo, há uma influência decisiva do excelente Hereditário, nos cenários apertados da casa, além de um diálogo aberto com No cair da noite, embora sem a mesma sensação de claustrofobia, e com O ritual nas cenas de sonho. Também há influências de Twin Peaks e Shyamalan quando os diretores filmam as folhas das árvores do bosque, e de Boa noite, mamãe no uso de crianças com máscaras assustadoras.
Os diretores privilegiam as atuações de Clarke, Seimetz e Lithgow, além da revelação Laurence, verdadeiramente efetiva nos melhores momentos. Kölsch e Widmyer, com um cuidado extremo, fazem da história de terror de King uma análise sobre a constituição familiar e de como os personagens dependem uns dos outros para que um certo padrão predomine.

É o tema principal da obra de King, principalmente em clássicos como O iluminado: a ligação entre os pais e como elas se projetam nos filhos, sobretudo ainda crianças. Em Cujo, por exemplo, uma mãe tenta defender seu filho de um cachorro da raça São Bernardo, que fica com raiva depois de ser mordido por um morcego. O roteiro de Jeff Buhler consegue sintetizar essas ideias de King num roteiro bastante sintético, porém sem os exageros de adaptações recentes do escritor que se pretendem épicas e soam vazias. Há alguns lapsos na narrativa, com certeza, no entanto nunca se mostram prejudiciais para o todo e, mesmo que a fotografia de Laurie Rose se sinta um tanto sem inspiração na paleta de cores, há uma movimentação de câmera interessante. Quando a violência cresce em proporção, ela não soa exagerada e sim cabível no contexto – e alguns instantes realmente assustam. É só comparar esta adaptação com outras de King que envolvem gatos (por exemplo, Sonâmbulos) para ver o quanto ele é superior e aborda de modo eficaz seus temas, além de entregar momentos decisivamente temíveis, a exemplo daqueles que envolvem uma estrada que está perto da nova casa da família e já constituíam também os melhores da versão anterior.

Pet sematary, EUA, 2019 Diretor: Kevin Kölsch e Dennis Widmyer Elenco: Jason Clarke, Amy Seimetz, John Lithgow, Jeté Laurence, Hugo Lavoie, Lucas Lavoie Roteiro: Jeff Buhler Fotografia: Laurie Rose Trilha Sonora: Christopher Young Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian, Steven Schneider Duração: 101 min. Estúdio: Di Bonaventura Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

Longa jornada noite adentro (2019)

Por André Dick

Longa jornada noite adentro, lançado na mostra “Un certain regard” do Festival de Cannes e dirigido por Bi Gan, tem uma narrativa que trata da volta de Luo Hongwu (Huang Jue) a Kaili, província montanhosa do sudoeste de Guizho, sua cidade natal, da qual se afastou há muitos anos e na qual trabalhava como gerente de cassino. Ele ressurge para o funeral de seu pai e vêm à memória sua ligação com um antigo amigo, Wild Cat (Lee Hong-chi), a mãe dele (Sylvia Chang), e com um amor nunca superado, Wan Qiwen (Tang Wei).
As influências de Bi Gan são notáveis: de David Lynch, passando por Wong Kar-Wai (sobretudo 2046), até Nicolas Winding Refn, principalmente Demônio de neon e Apenas Deus perdoa. Ele trata a narrativa de maneira a nunca deixar muito claro o que está acontecendo, com longas sequências sem diálogo e uma atmosfera onírica muito forte e detalhista. Parece uma sucessão de devaneios, em que a ideia central é justamente colocar os atores em posição de expectativa. Há traços de Holy Motors, não apenas porque se passa predominantemente à noite, como também por seu cuidado com as cores e os figurinos (predominantemente o verde da amada do personagem central).

Se o personagem encontra a mulher de sua vida num túnel, aparentando estar mais dentro de um sonho, logo vemos que a história trata Wan como próxima a criminosos e que Wild Cat, o amigo do personagem central, foi assassinado por mafiosos de sua cidade. É um mistério a ser solucionado? Não mais do que o filme. As cenas de Longa jornada noite adentro podem mesmo ser cansativas à primeira vista, no entanto constituem um cinema capa de fascinar. E, apesar do título e do tom teatral, não há uma relação clara com a peça de Eugene O’Neill.
Segue-se, então, que, a partir de determinado momento, Luo vai a um cinema, como se fosse o par de mulheres em Cidade dos sonhos, para assistir a um filme, embora também lembre Adeus, Dragon Inn e Felizes juntos, partindo daí o brilhante trabalho de fotografia assinada pelo trio Yao Hung-i, Dong Jinsong e David Chizallet. No cinema, esta parte é em 3D, numa espécie de metalinguagem típica do cinema moderno e uma certa indicação para os experimentos de Godard e certamente de Lubezki e Iñárritu em Birdman. É nesse outro filme (ou sonho) que ele conhece Kaizhen (também Tang Wei).

A impressão que se tem é de um cinema baseado em metáforas e parcialmente fantasmagórico. Se o Mr. Oscar se movimentava em Holy Motors como um espectro na noite de Paris, simbolizando a própria morte do cinema antigo e sua passagem para o mundo digital, não é muito diferente nesse filme chinês. O personagem principal tem uma narração breve, com poucas falas, mas que remetem a uma narrativa noir de detetive e mesmo os cenários vão simbolizando essa tentativa de evocar outra época, com elementos típicos: a chuva, a escuridão da estrada, uma moça caminhando na rua sendo seguida de perto com os faróis de um carro, isqueiros sendo acesos e homens de chapéu soprando fumaça de cigarro. Tudo parece uma grande representação do cinema clássico, no entanto sob uma ótica contemporânea, com extrema perspicácia. É mais ou menos o movimento feito por Chan-wook Park em A criada: utilizar imagens com um ambiente já gravado na memória cinematográfica do espectador sob um ponto de vista diferente. Nesse sentido, as imagens de Longa jornada noite adentro lidam com uma constante espécie de nostalgia.

O design de produção de Liu Qiang, evocando ambientes do interior da China, misteriosos, recorda em algumas partes o trabalho de Gaspar Noé, com a ajuda do trabalho fotográfico, sobretudo numa sequência em que os personagens parecem voar (evocando Enter the void), em meio a um cenário que lembra um grande parque de diversões, com um karaokê de fundo. É um filme absolutamente preciso, mesmo com suas elipses, e predominantemente poético em sua tentativa de transformar imagens imprecisas em algo mais concreto. Ele consegue estabelecer uma relação de perda de Luo com a tentativa de ele se reconectar com um antigo amor de maneira que o espectador é recompensado por movimentos de câmera impecáveis. E, em certos momentos, a maneira como se conta a história recorda Nostalgia, de Tarkovsky, com o personagem caminhando em meio a cenários desolados e, como o cineasta russo, Bi Gan nunca desconfia que o hermetismo de seu conto não tem um profundo senso de realidade e humanidade, entregando um dos melhores filmes do ano.

Di qiu zui hou de ye wan, China, 2019 Diretor: Bi Gan Elenco: Tang Wei, Huang Jue, Lee Hong-chi, Sylvia Chang Roteiro: Bi Gan Fotografia: Yao Hung-i, Dong Jinsong e David Chizallet Trilha Sonora: Lim Giong e Hsu Point Produção: Shan Zuolong Duração: 140 min. Estúdio: Zhejiang Huace Film & TV, Dangmai Films, Huace Pictures Distribuidora: BAC Films (França)

Melhores filmes de 2012

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2012. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. Sombras da noite (Tim Burton) 24. Cosmópolis (David Cronenberg) 23. As aventuras de Pi (Ang Lee) 22. O lado bom da vida (David O. Russell) 21. A caça (Thomas Vinterberg) 20. Holy Motors (Leos Carax) 19. Vampiras (Amy Heckerling) 18. Anna Karenina (Joe Wright) 17. Ferrugem e osso (Jacques Audiard) 16. O gebo e a sombra (Miguel de Oliveira) 15. Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (Christopher Nolan) 14. Tabu (Miguel Gomes) 13. A visitante francesa (Hong Sang-soo) 12. Prometheus (Ridley Scott) 11. O som ao redor (Kleber Mendonça Filho)

Vingadores – Ultimato (2019)

Por André Dick

Em Vingadores – Guerra infinita, os  irmãos Joe e Anthony Russo não tinham tempo a perder: empregavam uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as suas consequências. Eles acreditavam oferecer um ar dramático e, apesar dos conflitos físicos, os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU, inclusive os anteriores de Joss Whedon, desapareciam.
Não havia a construção de um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, extraindo qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parecia ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredava por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, os Russo estavam interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo compartilhado da Marvel, uma falha de ignição notável, que sua bilheteria impressionante não conseguiu sobrepujar.

O que poderia acontecer em um ano, para a chegada de Vingadores – Ultimato? Primeiro, parece que os Russo fizeram concessões em Guerra infinita para realizarem este segundo com mais liberdade. Embora haja elementos do produtor Kevin Feige, ele não tem claramente a presença aqui como nos demais desse universo. Com exceção de alguns momentos de ação, da fantasia e do estilo narrativo em determinadas partes, é outro tipo de cinema. Apesar do tom de autoimportância, ele vai, aos poucos, se confirmando como plausível.
Ultimato tem um primeiro terço verdadeiramente dramático, com um cenário de terra arrasada literalmente, desde a primeira sequência com a família de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), notável na criação de um espaço de distância de tudo, apesar de elementos cômicos pontuais e cabíveis no contexto.

É o que a Marvel mais conseguiu fazer próximo da sua principal rival na área, mas com um sentido mais pop, embora não menos emocional. É delicado, simples e vai direto ao ponto, com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), James Rhodes (Don Cheadle), Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), Rocket (Bradley Cooper) e o Gavião Arqueiro, além de Carol Denvers (Brie Larson) e Nebula (Karen Gillan), querendo arranjar uma solução para conseguirem rever alguns companheiros desaparecidos (para quem não viu Guerra infinita, deixo em suspenso). Também temos Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e o melhor acréscimo: Scott Lang/Homem-Formiga (o sempre efetivo Paul Rudd). Todos querem enfrentar novamente o temível Thanos (Josh Brolin). Não sem antes os irmãos Russo conseguirem reproduzir uma série de sequências cômicas com Thor e Bruce Banner que não têm o absurdo de Thor: Ragnarok, mas resoluções por vezes notáveis (e os efeitos especiais de Banner são ótimos).

Desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, os Russo não conseguiam fazer interação entre personagens como. Se em Guerra infinita os super-heróis apareciam e desapareciam sem criar o devido impacto, em Ultimato eles são devidamente considerados. Não há mais lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros e mesmo durante as batalhas os encontros se dão com uma sensação de vínculo ou proximidade. Se Bruce Banner pouco aparecia no último, aqui ele finalmente ganha um sentido narrativo. O mesmo se diz de Capitão América e Homem de Ferro, em atuações ótimas de Chris Evans e Robert Downey Jr. São personagens que pouco tinham a fazer em termos realmente dramáticos em Guerra infinita. Sobretudo o Capitão América, por ser o personagem mais dirigido pelos Russo, ganha um tom de serenidade empregado por Evans capaz de se contrapor aos episódios iniciais de maneira muito interessante, no entanto, ainda assim, evocando principalmente a obra inicial de sua história, dirigida por Joe Johnston. Ele representa os personagens principais do filme de 2012, cujo arco é fechado nesta peça de maneira muito competente e que recebem o destaque merecido em relação aos que tiveram seus filmes feitos depois.

Ao longo da narrativa, há uma sensação de passagem de tempo, de melancolia, que inexiste em qualquer outro filme da Marvel, pois a companhia, muito por causa de seu produtor, costuma padronizar algumas tramas. Os Russo estão mais interessados em sensações que não têm obrigatoriamente vínculo com uma franquia ou com ultrapassar bilheterias: eles conseguem desenhar um arco amplo sobre o universo compartilhado sem caírem na previsibilidade, inclusive com momentos-chave envolvendo personagens até mortos, criando uma redoma de tempo que não pode mais ser recuperado. Nesse sentido, elogiar Ultimato pelos pressupostos com os quais eram tecidos os comentários sobre Guerra infinita é estranho: ambos são quase totalmente diferentes. Mesmo visualmente, o quarto episódio com todos os heróis da Marvel é mais discreto, sem tanto CGI, focado em paisagens terrestres isoladas, ou casas campestres, criando uma ilusão de mundo distanciado. Os movimentos de câmera são mais dosados, não há uma necessidade de soar frenético e cada comportamento dos personagens parece ter uma explicação dentro da trama, fazendo com que a duração de 3 horas seja fluida, sem interrupções ou desvios tortuosos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Avengers – Endgame, EUA, 2019 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Josh Brolin Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 181 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures