It – A coisa (2017)

Por André Dick

Em 1990, o diretor Tommy Lee Wallace foi o responsável pela primeira adaptação para outro meio (naquele caso, a televisão) de It, livro de Stephen King. Lee Wallace era conhecido pela direção de Halloween III e A hora do espanto 2, ou seja, filmes de duas franquias de terror e apostava em It um clima capaz de dialogar com outra obra de King, Conta comigo, adaptada por Rob Reiner. Na pele do personagem ameaçador, o palhaço Pennywise, que se esconde nos esgotos da cidade de Derry, Maine, Tim Curry mostrava a desenvoltura como figura maligna que já víamos em A lenda. A série de TV foi lançada em VHS como um filme e até hoje se considera que seja de fato uma obra cinematográfica de três horas, pelo cuidado visual e narrativo. Visto na década de 90, nunca mais o revisitei, mas lembro de ter sido marcante e que a divulgação foi tão boa quanto para esta nova adaptação. A imagem do palhaço aparecia em muitas revistas e pôsters de locadoras.

Esta, intitulada It – A coisa, é dirigida pelo diretor argentino Andy Muschietti, o mesmo de Mama. Tudo inicia em 1988, quando Bill Denbrough (Jaeden Lieberher, de Destino especial) oferece a seu irmão Georgie (Jackson Robert Scott), de apenas 7 anos, um barco feito com uma folha de caderno. Georgie sai brincando com o barco numa tempestade, até que este cai num esgoto. Surge, então, a figura assustadora de um palhaço, Pennywise (Bill Skarsgård).
No ano seguinte, quando se encerram as aulas no Derry High School, numa referência explícita a Super 8, Bill e seus amigos Richie Tozier (Finn Wolfhard), Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e Stanley Uris (Wyatt Oleaff) enfrentam Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e sua gangue. Por sua vez, Beverly Marsh (Sophia Lillis) é perseguida por colegas, maltratada, assim como o é em casa por seu pai, Alvin (Stephen Bogaert). Ela se encontra com Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor), que é apaixonado secretamente por ela e encontra um livro sobre a história de Derry, descobrindo o quanto ela tem sido vítima de numerosos desaparecimentos de crianças. Em seguida, há uma sequência assustadora, talvez a mais bem definida e uma homenagem clara a Os caça-fantasmas de 1984.

Outro menino, Mike Hanlon (Chosen Jacobs), encontra Pennywise antes de quase ser atropelado pela gangue. Pennywise começa a aparecer também para o grupo de amigos: enquanto Bill o vê no porão de casa, confundindo-o com a figura do irmão, Eddie passa por uma casa abandonada, onde se depara com o palhaço por trás de um balão no pátio. Já Stan vê a criatura projetada num quadro e Beverly ouve vozes das crianças desaparecidas vindas da pia do banheiro, numa das sequências melhor desenhadas, remetendo ao melhor Wes Craven de A hora do pesadelo.
O grupo se autointitula “The Losers Club” e nota, depois de um intervalo Moonrise Kingdom (no qual Beverly é a menina do grupo), que a entidade o cerca. Este é o melhor momento do filme de Muschietti: quando a turma descobre que, além da amizade, tem em comum essa ameaça. Até aí, a narrativa já construiu uma atmosfera eficiente e envolvente, o que significa que temos também pelo menos três cenas assustadoras e uma analogia com a violência paterna por meio de um banho de sangue que faz lembrar O iluminado. Mesmo Bill Skarsgård funciona até este momento em que aparece mais discretamente.

No entanto, aos poucos, percebe-se como o diretor na verdade se apoia demais em experimentos de nostalgia, como Os Goonies e Super 8, e mais recentemente Stranger things (utilizando até mesmo seu ator principal, Wolfhard), para pretensamente fazer uma peça de terror que, a cada passo, aparenta ter sido realizada e decidida por um grupo de executivos em busca de uma franquia da maneira mais previsível e sintomática. Se o livro e a série original se passava nos anos 50, na infância dessas crianças, o filme, ao transportá-las para os anos 80, utiliza todos os lugares-comuns que isso indicaria, inclusive com referência a New Kids on the Block. Há, por exemplo, uma sequência em que eles projetam um filme, elemento já aproveitado em Super 8. A relação de Beverly também lembra muito a que tinha a personagem de Elle Fanning na obra de Abrams, embora tenha um viés muito mais grave. Muschietti diz não apreciar a adaptação dos anos 90 feita por Wallace, mas a sequência inicial é basicamente igual, inclusive nos movimentos de câmera, e o clima do bosque, se não é evidentemente dos anos 50 (em razão de a atual adaptação não ser fiel, neste quesito, ao romance original), lembra bastante igualmente, embora esta sua versão tenha cenários (como o da casa abandonada) em diálogo mais com Tim Burton e certas soluções desajeitadas lembrem Cowboys e aliens.

Com roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman, a impressão é que It possui pelo menos meia hora a mais do que deveria, o que é estranho pois se baseia num livro com em torno de mil páginas (mesmo sabendo que parte da história ficou para a já divulgada sequência). Os personagens se sentem apenas como preenchimentos vagos para uma tentativa de o diretor reviver filmes alheios aos seus, sem nenhum esforço para empregar sua própria visão, mesmo que descenda da mesma nostalgia de outros. Ele salta do horror e do suspense para a comédia e depois para o drama não porque deseja uma síntese desses gêneros e sim porque deseja apenas agradar ao espectador, não de maneira criativa e sim apenas procurando seu desejo de rever imagens de crianças andando de bicicleta. Existe a impressão de que há três tons diferentes tentando se ajustar num só.
Na terceira parte, a trilha sonora de Benjamin Wallfisch é excessivamente calcada em John Williams para incorporar qualquer verdadeiro susto, que não sejam apenas aqueles pré-projetados, embora a fotografia de Chung-hoon Chung, colaborador de Chan-wook Park (A criada é uma obra-prima visual, por exemplo), seja irretocável e produza uma frequente imersão em cada quadro. O filme cresce exatamente quando mescla a realidade e o onirismo em forma de pesadelo e comportamentos inesperados. Há uma história terrivelmente assustadora por baixo desta e que King oferece, algo mais próximo de Sobre meninos e lobos do que aparenta: de que a infância pode ser traumática, mas que crescer pode ser ainda mais, algo que se destaca principalmente na atuação dramática de Jaeden Lieberher, talvez o único, ao lado da ótima Lillis, que está na obra certa – e não é a mesma do diretor. Este quer apenas uma atmosfera pop e voltada ao consumo e isso não seria prejudicial se realmente se mostrasse mais interessante e sem apostar essencialmente em nostalgia do espectador.

It, EUA, 2017 Diretor: Andy Muschietti Elenco: Jaeden Lieberher, Bill Skarsgård, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Wyatt Oleff, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman Fotografia: Chung-hoon Chung Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Roy Lee, Dan Lin, Seth Grahame-Smith, David Katzenberg. Barbara Muschietti Duração: 135 min. Estúdio: New Line Cinema, Vertigo Entertainment, Lin Pictures, KatzSmith Productions, RatPac-Dune Entertainment Distribuidora: Warner Bros.

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A múmia (2017)

Por André Dick

Há alguns filmes que não provocam muitas expectativas, e esta refilmagem de A múmia é um deles. Não apenas porque a história já se mostra um tanto desgastada, depois da série iniciada nos anos 90, com Brendan Fraser e Rachel Weisz, como também Tom Cruise está se repetindo cada vez mais no papel de herói em filme de ação. Depois de O último samurai, Colateral e Operação Valquíria, com algumas de suas melhores atuações, ao lado daquelas em Nascido em 4 de julho, Magnólia e De olhos bem fechados, Cruise se dedica a filmes em que possa se arriscar fazendo cenas no lugar de dublês, deixando clara uma escolha artística. Não deixa de se lamentar a perda de interesse por outros gêneros de um dos maiores atores dramáticos de Hollywood.
O filme inicia em 1127 a.C., quando cavaleiros ingleses descobrem um rubi egípcio e o enterram em uma tumba. Na Londres de hoje, uma equipe de construtores da Crossrail descobrem o lugar. Em um flashback, retoma-se a história da Princesa Ahmanet, numa sucessão de imagens envolvendo a inveja que tinha do filho recém-nascido de seu pai, que ocuparia seu lugar em direção ao poder do Egito. Sua lenda se encerra, obviamente, numa espécie de maldição, sendo mumificada, com um jogo de luzes que recupera algo de Fome de viver, dos anos 80.

No Iraque atual, onde existia a antiga Mesopotâmia, o mercenário Nick Morton (Tom Cruise) e seu parceiro Chris Vail (Jake Johnson) descobrem justamente a tumba de Ahmanet (a nova estrela Sofia Boutella, de Kingsman), junto com a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis), um interesse romântico antigo de Nick. Isso é o início para uma sequência de cenas de ação suficientemente divertidas para prender a atenção do espectador. A primeira se passa num avião, talvez a mais espetacular do ano, com um trabalho de movimentação de câmeras impactante, depois de Nick perceber que está tendo visões estranhas e parece ter ficado obcecado pela figura de Ahmanet. Mais interessante fica quando sabemos que Halsey trabalha para o Dr. Jekyll (um Russel Crowe claramente se divertindo) e o filme se desloca para a Inglaterra, no qual temos um refinamento de humor envolvendo o personagem de Nick e, principalmente, sua amizade com Vail, já em outro estado.

Tudo em A múmia é calculado, com efeitos visuais espetaculares e muito CGI, e a direção de Alex Kurtzman é previsível. Trata-se do segundo filme do diretor, que colaborou no roteiro de vários sucessos, entre os quais A lenda do Zorro, Missão: impossível III, Transformers, Watchmen, Star Trek e Cowboys e aliens, ou seja, especialista em grandes produções. Ele tem uma boa noção de ritmo e humor, principalmente na primeira hora, bastante agradável, trabalhando bem com a faceta bem-humorada de Tom Cruise, no entanto é justamente no desenvolvimento do roteiro e dos personagens que a obra apresenta mais falhas. Se o personagem de Nick tem uma boa química inicial com Jenny, aos poucos as cenas de ação passam a ocupar o centro emocional da trama, e nenhum dos atores consegue estar à altura desse combate. No entanto, mesmo em meio a elas pode-se extrair alguns momentos de cinema de ação de qualidade, como aqueles que antecedem uma ameaça sobre Londres. Os filmes de A múmia com Fraser tinham como foco exatamente a mescla entre ação e humor e por vezes principalmente o primeiro era assustador. Esta versão de Kurtzman tenta usar alguns ingredientes parecidos, no entanto procura ser mais soturno na resolução de determinados momentos.

A múmia também inaugura o Dark Universe, que pretende trazer vários filmes envolvendo monstros, em refilmagens de clássicos da Universal. A ideia é boa e, se conseguirem a qualidade que este filme obtém em sua primeira metade, há possibilidade de uma franquia interessante. A sua bilheteria não foi à altura do esperado, mas conseguiu bastante sucesso em países fora dos Estados Unidos, o que pode ser um caminho para os outros. Este é um universo realmente interessante, que merecia, num primeiro momento, melhor tratamento, mas que tem acertos e não deve ser desconsiderado, ao poder entrelaçar diferentes personagens num mesmo núcleo.

The mummy, EUA, 2017 Diretor: Alex Kurtzman Elenco: Tom Cruise, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Jake Johnson, Courtney B. Vance, Marwan Kenzari, Russell Crowe, Javier Botet Roteiro: David Koepp, Christopher McQuarrie, Dylan Kussman Fotografia: Ben Seresin Trilha Sonora: Paul Hirsch Produção: Alex Kurtzman, Chris Morgan, Roberto Orci, Sean Daniel Duração: 110 min. Estúdio: K/O Paper Products / Sean Daniel Company / Universal Pictures

 

Teoria sobre o episódio 18 de Twin Peaks – O retorno (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre os episódios 17 e 18, o filme Twin Peaks – Fire walk with me e Duna

O final de Twin Peaks deixou uma proliferação de teorias para o espectador. Tanto no Brasil quanto no exterior muitas delas são extremamente criativas. Neste texto, apenas tento elaborar as pistas por meio de algumas sequências (com imagens legendadas pela Netflix, onde a terceira temporada está disponível) e analisar as informações de forma que elas realmente independam de uma quarta temporada (embora eu apreciasse um novo retorno).
A resolução de Twin Peaks se inicia logo depois que a figura de Mr. C é derrotada. Quando Naido se transforma em Diane (Laura Dern) diante de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), eles olham para o relógio da delegacia, que está marcando 2:53, o mesmo horário determinado pelo Major Briggs para que Truman (Robert Forster), Bobby Briggs (Dana Ashbroock), Andy (Harry Goaz) e Hawk (Michael Horse) pudessem acessar o White Lodge no bosque de Twin Peaks, no episódio 14. Lá Andy teria informações visuais sobre um plano do Bombeiro (Carel Struycken). É hora de Dale Cooper dizer o que disse Phillip Jeffries (David Bowie) na visita em sonho que fez ao FBI, quando falou de Judy e a data de morte de Laura Palmer: “Vivemos dentro de um sonho”. Exatamente às 2:53 Jeffries conversa com Gordon Cole (David Lynch), Agente Cooper e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer). E o sonho principal de Cooper é evitar o assassinato de Laura. Pelo que Cooper pergunta a Diane: “Você se lembra de tudo?”, com a concordância dela, ele já conseguiu mudar a linha de tempo (como veremos no final do episódio 17 e no episódio 18).

Isso está de acordo com o que diz a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) a Hawk (Michael Horse) no episódio 10: “É o que é [o assassinato de Laura Palmer] e o que não é [a versão alterada do tempo]”.

Por meio da chave do 315, Dale Cooper, Diane e Gordon Cole (David Lynch) seguem pelo subterrâneo do Greath Northern, até chegar a uma porta, que abre para a Loja de Conveniência, onde Cooper encontrará o Homem de um Braço Só (Al Strobel) e, em seguida, Phillip Jeffries em forma de sino/chaleira. Ele é transportado para a data em que morrerá Laura Palmer, 23 de fevereiro de 1989, conforme Phillip havia dito no sonho passado no escritório do FBI. Ele faz a viagem no espaço e no tempo, quando o Homem de um Braço Só diz: “Eletricidade”, assim como Paul Atreides (interpretado pelo mesmo MacLachlan) conseguia fazer em Duna (quarta imagem abaixo), dirigido por David Lynch.

Podemos retroceder ao início da terceira temporada, quando Cooper está com o Bombeiro num lugar naquele momento indefinido (agora se entende que seja o White Lodge), enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. O Bombeiro fornece algumas pistas: “Ouça os sons”; “Ele está na nossa casa agora”; “430”; “Richard e Linda”; “Dois passarinhos com uma pedra só”.

Destaca-se que o som ouvido por Cooper é o mesmo que ele ouvirá no episódio 17 quando está conduzindo Laura Palmer para o White Lodge, alterando a linha do tempo e impedindo sua morte. Quando surge esse som, logo depois de Sarah Palmer quebrar o retrato dela, ou seja, tentando impedir sua não morte, Laura desaparece e Cooper ouve um grito ao longe no bosque. A frase “Ela está na nossa casa agora” remete, por sua vez, ao que diz o neto dos Tremond/Chalfont no filme Twin Peaks – Fire walk with me, quando ele alerta Laura Palmer que Bob está embaixo do elevador de sua casa e ela descobre que se trata de Leland. Quem está na casa agora é Judy, a presença maligna referida por Gordon Cole no início do episódio 15 e a qual Mr. C buscava no episódio 15. As pistas do Bombeiro remetem ao futuro, no entanto. São essenciais para estabelecer uma ligação do primeiro com o último episódio. É o plano do Bombeiro para salvar Laura.
No segundo episódio da terceira temporada, Cooper encontra o Homem de um Braço Só, que lança a pergunta “É o futuro ou é o passado?”. No episódio 17, Cooper vai para o passado; no episódio 18, ele vai para o futuro (o presente, em relação a 1989).

O Homem de um Braço Só desaparece e surge Laura Palmer, que lhe pergunta: “Você me reconhece?”. Cooper pergunta: “Você é Laura Palmer?”. Ela lhe responde: “Eu sinto que a conheço, mas às vezes meus braços dobram para trás” (o que ela dizia no sonho da primeira temporada). Cooper novamente pergunta: “Quem é você”, e ela finalmente responde: “Laura Palmer”. Cooper retrocede: “Mas Laura está morta”, ao que Laura responde: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, tirando seu rosto e dando espaço a uma claridade. Em seguida, ela levanta, vai até Cooper e o beija, como no sonho da primeira temporada. Em seguida, sussurra um segredo em seu ouvido. Na série dos anos 1990 ela contava quem era o seu assassino. Neste episódio da terceira temporada, algo acontece e Laura desaparece no espaço, ao som de seu grito. O que ela contou e a ele? Tudo indica que contou sobre Judy, a ameaça referida por Gordon Cole (David Lynch) no início do capítulo 17. Laura é enviada para uma realidade alternativa. Esta sequência já não aparece no episódio 18, pois Laura não se encontra mais no Black Lodge. Cooper olha assustado, as cortinas vermelhas parecem balançar com vento e surge um cavalo.

O cavalo é uma pista para a empreitada que Cooper terá no episódio 18, depois de salvar Laura no episódio 17, mas ela escapar de suas mãos, levada para um outro lugar que ainda ele desconhece. Nesse episódio final, Cooper, depois de sair do Black Lodge, e Diane viajam por uma estrada deserta. Exatamente no número de km 430 (número oferecido pelo Bombeiro), ele para de carro na beira da estrada e enxerga torres de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. É dia e, quando a ultrapassam, fica noite.

A torre de eletricidade lembra a imagem que aparecia na mensagem do Major Briggs (embaixo do pico da direita) no episódio 9 e no mapa de Hawk (Michael Horse) no episódio 11. Quando Frank Truman (Robert Forster) pergunta o que ela significa, Hawk responde que ele não vai querer saber. Tudo indica que essa imagem remete a Judy.

O carro que utilizam também não é aquele com que Cooper chega a Twin Peaks no piloto da série de 1990. Parece um mais antigo.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Ambos fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para o mesmo dilema (a luta do bem contra o mal). É como se Diane reproduzisse, em sua imaginação, a relação que teve com Mr. C disfarçado de Cooper. É como se, por meio do ato, Cooper se transportasse para o universo de Judy disfarçado um pouco de Mr. C (por isso ele pede a ela que apague a luz do quarto), para não ser impedido, daí sua ausência completa de paixão. Diane, ainda traumatizada pelo que Mr. C fez a ela, cobre o rosto de companheiro. No dia seguinte, Cooper acorda num hotel da cidade, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard.

São os nomes dados pelo Bombeiro no início da temporada. Cooper (ou Richard?) tem agora, no estacionamento de outro hotel, um carro do mesmo modelo utilizado por Mr. C no terceiro episódio:

Ele está em Odessa, Texas, mas numa espécie de linha temporal diferente ou universo paralelo. O ano, no entanto, é 2017: a população da placa que aparece é a atual:

Para toda uma disposição cênica que Lynch tem em seus episódios, mas sobretudo neste, chama a atenção um poste de luz com um globo branco ao lado de uma árvore que lembra aquela que fica na entrada do White Lodge, em frente ao hotel onde Cooper acorda. Podemos lembrar de como a esfera, na trajetória de Lynch, remete a um universo onírico: em Coração selvagem, a Bruxa Boa (Sheryl Lee) aparecia numa esfera voando; em O homem elefante, John Merrick imaginava sua mãe nas estrelas; e no episódio 8 desta temporada de Twin Peaks vemos Laura Palmer sendo criada dentro de um globo dourado. No entanto, aqui, é um globo ligado a um poste de luz, corriqueiro, que pode estar dizendo que estamos mais na realidade do que a aparência demonstra.

Cooper finalmente chega à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca; ao fundo há postes de eletricidade e à frente um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, como referido anteriormente.

Apesar de aparentar não ser totalmente ele, Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes.

Não teria tido também um sonho com o agente, assim como Laura confessa ter tido ao encontrá-lo no bosque, quando ele tenta salvá-la? O fato é que Cooper parece acordar quando a vê, perguntando se ela tem um pai chamado Leland (ela consente) e uma mãe chamada Sarah (que a deixa intrigada, o que se entende que é o nome de sua mãe também). Repare-se que na parede da casa há um pequeno cavalo branco e o corte de cabelo de Carrie Page é o mesmo que usa Laura Palmer quando conversa no segundo episódio desta temporada com o agente Cooper no Black Lodge.

Sabemos agora que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa. Lembremos que na investigação do filme Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland) se deparavam (na época, o espectador não sabia) com woodsmen, no Hap’s Diner, onde Teresa trabalhava:

No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores), mas, ao mesmo tempo, é de uma marca atual, a Valero (será o lugar onde passam finalmente para a realidade não alternativa, assim como os postes demarcavam a passagem para a realidade alternativa?), e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Para recuperarmos informações importantes antes de seguir adiante, no episódio 8, Lynch conta o surgimento do Black Lodge, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma Loja de Conveniência no deserto. A Loja de Conveniência é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita. À frente dessa Loja de Conveniência, perambulam os woodsmen que apareceram na primeira parte do episódio e voltam a aparecer nos episódios 11 (na Zona investigada por William Hustings) e 15. E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”. Lembremos o que contava o Major Briggs na segunda temporada por meio das imagens abaixo:

O Major descreve uma caminhada em meio às chamas, que remetem justamente à bomba atômica de 1945 e, ao final, recorda a aparição de uma coruja gigante, o que remete à simbologia do anel e do Black Lodge.
No episódio 8, depois da detonação da bomba, deve-se lembrar que Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, no mesmo ambiente em que Cooper no episódio 3 era transportado para um cubo pendurado no espaço sideral. A sequência remete imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Bombeiro (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio.

Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Bombeiro se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esse amarelo é o ouro que se encontra na entrada do White Lodge no bosque de Twin Peaks, nos episódios 14 e 17 (lembrando que na entrada do Black Lodge há uma espécie de óleo escuro).

Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob? É um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação (imagem que Andy visualiza quando vai ao White Lodge no episódio 14). No oitavo, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob, que utiliza como hospedeiro seu pai, Leland, mas também, pelas informações do fim da terceira temporada, a Judy. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação.

Mas quem é Judy?
Se no episódio 12, Sarah Palmer (Grace Zabriskie) começava a gritar numa loja de conveniência “Eles estão vindo” e, ao ser visitada por Hawk (Michael Horse), podia-se ouvir barulhos dentro de sua casa, no episódio 14, a acompanhamos entrando num bar para pedir um Bloody Mary quando é abordada por um homem. Pedindo que ele saia, sem ser atendida, Sarah retira seu rosto – como Laura faz no Black Lodge – e, ao invés de vermos luz, há uma escuridão. Ela mata o homem com uma mordida que lembra A hora do espanto, mas sem deixar rastro. Uma atmosfera aterradora e se pode notar que Sarah tem mais proximidade dos woodsmen do que imaginávamos.

Mas há um senão nessa possível teoria: Sarah foi sempre Judy (se realmente ela é um hospedeiro dela, como Leland era de Bob)? Acredita-se que não: Judy, na verdade, tenta dominá-la nesses anos em que está solitária porque Laura pode ameaçá-la. Ela se nutre da mãe dela como Bob de Leland. Na série original, Sarah, com suas visões, dava pistas de como apanhar o assassino. Ela sempre pareceu uma vítima de Leland, tanto quanto Laura, embora muitas vezes se notasse que ela fingia tragicamente não enxergar o que estava acontecendo. Um dos momentos mais interessantes nesse sentido está em As peças que faltam, quando ela chega a Laura no momento em que esta se encontra hipnotizada pelas hélices do ventilador (que indicam a proximidade de Leland/Bob), e se comporta de maneira estranha.

Sua maior proximidade seria o uso de cigarros, que na série a ligam à figura do woodsman de 1956 (“Gotta light?”). Em As peças que faltam, sua primeira aparição é carregando um pacote com várias embalagens de leite, o mesmo que Leland lhe dá para que durma e não veja o que faz. De qualquer modo, delimitemos que Sarah não era Judy, e sim passou a ser dominada por ela. A explicação de que Judy deu origem a Bob é parte também de uma suposição, pois nada comprova isso mesmo a partir de informações do episódio 8.

Judy é confundida com uma figura que aparece nos episódios 15 (quando o woodsman acessa a corrente de eletricidade) e 17 (quando desce a escadaria em que Cooper e o Homem de um Braço Só sobem), associada a um dos integrantes da reunião na Loja de Conveniência testemunhada por Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me: nela, aparecem os woodsmen (1, 2 e 3) e os Tremond/Chalfont (4) na terceira figura abaixo.

No segundo episódio da terceira temporada, Sarah já mostrava um comportamento no mínimo estranho ao ver uma cena violenta de animais, refletindo no espelho atrás de seu sofá (o que recorda justamente Leland olhando-se nele e visualizando Bob).

Um dos woodsman dizia numa cena incluída em Twin Peaks – As peças que faltam (extras de Twin Peaks – Fire walk with me), na reunião da Loja de Conveniência, algo que remete a esse comportamento: “Vida animal”:

Que Sarah é Judy parece ficar finalmente claro com uma pista deixada por Phillip Jeffries a Mr. C no episódio 15. Quando ele pergunta quem é ela, Jeffries diz que Mr. C já a conheceu (como Mr. C esconde Bob, isso se esclarece).

E quando pela fumaça da chaleira revela números de onde se encontraria essa figura são muito próximos dos da casa de Sarah Palmer (708): aparece uma profusão de números, de forma destacada 408.

Lembremos que o Bombeiro oferece várias visões a Andy no episódio 14, inclusive sobre o momento em que Lucy terá de decidir se vai atirar ou não no Mr. C depois de atender ao telefone. As imagens mostradas a Andy reproduzem o fato de, conforme diz a Senhora do Tronco no episódio 10, Laura ser a escolhida:

Há, inclusive, a indicação do poste com o número 6, que há em frente à casa de Carrie Page. É Page, justamente uma espécie de duplo de Laura (como foi Dougie de Cooper), que pode reestabelecer o equilíbrio. Por isso, o Bombeiro quer que Cooper a encontre no universo onde Judy tentou escondê-la, em Odessa. Ela já o era no final do filme Twin Peaks – Fire walk with me, iluminada:

Laura Palmer é escondida por Judy em Odessa justamente depois de revelar o segredo a Cooper na sala vermelha, por isso soa seu grito como no final do episódio 17, no momento em que está mudando a linha temporal. Não foi o White Lodge que levou Laura a Odessa, pois ela some um pouco antes exatamente de Cooper chegar ao White Lodge na floresta de Twin Peaks. Ao ouvir os sons que o Bombeiro disse que ele escutaria (de um gramofone, e lembremos que no White Lodge há um gigante para transportar as pessoas a diferentes lugares), Cooper, até então com Laura Palmer, conseguindo mudar seu curso, a perde e se ouve o grito no bosque. O grito acontece, ao mesmo tempo, no Black Lodge, por Sarah/Judy em 2017 e no passado, em 1989.

Recuperando uma informação do primeiro parágrafo: pouco antes vemos Sarah/Judy quebrando o retrato dela, como se quisesse impedi-la de viver outra vida (enviando-a, por fim, a Odessa). Em seguida, corta para a mesma sequência do segundo episódio, com o Homem de um Braço Só:

Desta vez, Cooper se levanta e segue até o Braço que lhe pergunta se esta é a história da menina que mora no fim da rua (numa ligação com o filme de Jodie Foster em que ela interpreta uma menina que sofre abuso sexual, como Laura). Não há mais a parte em que conversa com Laura; ela não está mais com ele. Em seguida, Cooper vai até o pai de Laura, Leland (Ray Wise), que lhe pede: “Encontre Laura”. Fazia parte do plano do Bombeiro destruir Judy e Bob.

Para Lynch, a casa de Laura e Cooper é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo, e os Tremond/Chalfont são do Black Lodge. Eles aparecem no sonho de Laura Palmer em Twin Peaks – Fire walk with me e é embaixo do trailer em que moram no parque administrado por Carl Rodd (Harry Dean Stanton) que desaparece o agente do FBI Chester Desmond (Chris Isaak).

No episódio 12, Sarah avisava, reiteramos, numa loja de conveniência de Twin Peaks: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. Judy tentou escondê-la, mas Cooper, por meio das pistas do Bombeiro do White Lodge a descobriu, mesmo a tendo perdido em 1989. E Laura é, afinal, a escolhida: com seu grito, ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen e Judy, apagando, de certo modo, o seu passado. Repare-se que a Casa tem um símbolo sobre o número que lembra chifres de boi, que também havia na Cafeteria Judy.

Ela responde ao que a Senhora do Tronco pergunta a Hawk no episódio 10:

Antes de dizer:

Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade, em Odessa: acorda para a realidade já alterada. Como Paul Atreides, em Duna, usando o som para disparar os módulos, “O adormecido deve despertar”. No filme de 1984, Atreides também é anunciado como uma espécie de escolhido, quando faz chover sobre o planeta desértico de Arrakis e destrói seu adversário final, Feyd-Rautha (Sting), com o som de sua voz. E Laura desperta. Tanto é que a própria atriz que interpreta Alice Tremond, Mary Reber, é a dona atualmente da casa dos Palmer. Estamos em 2017. Talvez seja a primeira vez que Lynch tenha oferecido uma pista concreta. A série se encerra com Laura sussurrando no ouvido de Cooper. Assim como na primeira temporada ela dizia o nome de seu assassino, aqui ela fala de Judy:

Levando em conta que esta possibilidade indica que não teria havido nunca Twin Peaks, a série, apenas o filme, antes do assassinato de Laura Palmer, pode-se dizer que Lynch aproveita também as duas versões temporais (passado e futuro) para dizer que os traumas não se apagam, que eles voltam sempre (por meio do grito de Laura). Prefiro, ainda assim, esta versão mais otimista, baseando-me na informação da Senhora do Tronco, de que “Laura é a escolhida”, e que o Bombeiro havia traçado um plano que se confirma, e que pode ser aceita, de qualquer modo, não se sabendo se haverá ou não quarta temporada (na qual Cooper poderia estar na cidade por outro motivo). Tudo, afinal, pode ser apenas um sonho do “sonhador” desta série fascinante.

Twin Peaks – Terceira temporada (O retorno) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre a temporada e o filme O iluminado

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Novo México, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), voltando apenas algumas vezes às florestas da pacata cidade na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série era Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passava mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks: houve episódios surpreendentes. O clima de Twin Peaks funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (no melhor momento de atuações do elenco), o 14, 16, 17 e 18. Ou seja, 14 episódios foram ótimos, uma média considerável em se tratando de uma temporada com 18.

De modo geral, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland), por meio de Cooper/Dougie Jones/Mr. C; analisou a terceira idade na vida de vários personagens; os efeitos do White Lodge e do Black Lodge; a relação entre sonho e realidade; e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos.
A trama principal pode ser resumida do seguinte modo: o agente Cooper (Kyle MacLachlan) sai do Black Lodge, depois de conversar com o Bombeiro (Carl Struycken), Laura Palmer (Sheryl Lee) e o Homem de um Braço Só (Al Strobel), passando pelo White Lodge, e toma o lugar de Dougie Jones, uma cópia que havia sido produzido pelo seu duplo do mal, Mr. C (também McLachlan), a fim de que este não voltasse para o Black Lodge. Enquanto isso, os antigos companheiros de Cooper, Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), ao lado de Thammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern), vão no encalço de respostas sobre isso, a partir da prisão de Mr. C em Dakota do Sul. Já os integrantes da delegacia de Twin Peaks, xerife Frank Truman (Robert Forster), Andy (Harry Goaz) e Bobby Briggs (Dana Ashbrook) também buscam pistas sobre algo estar faltando na investigação do assassinato de Laura Palmer depois que Hawk (Michael Horse) recebe um comunicado da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Tudo, mais tarde, envolve pistas deixadas pelo Major Briggs.

O agente Cooper, na pele de Dougie, é casado com Janey-E (Naomi Watts), pai de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e trabalha na agência de seguros de Bushnell Mullins (Don Murray) e algumas pessoas tendo o Mr. C por trás querem matá-lo. Outros, como os irmãos Mitchum, Bradley (James Belushi) e Rodney (Robert Knepper), sempre acompanhados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal), querem descobrir por que ele faturou tanto em seu cassino de Las Vegas. Já em Twin Peaks, temos o filho de Audrey Horne, Richard (Eamon Farren) cometendo maldades; os efeitos da solidão de Sarah Palmer (Grace Zabriskie); algumas passagens pelo Double R e pelo Greath Northern; e apresentações musicais de ponta na Roadhouse. No episódio 8, os motivos da criação do Black Lodge, por meio do White Lodge, numa sequência de imagens fascinantes. Junto a inúmeras qualidades pictóricas captadas pela fotografia de Peter Deming, de atuação e roteiro, Lynch talvez pudesse ter colocado mais trama em Twin Peaks e mais inter-ligações entre os personagens. Os cenários de Las Vegas ou na Dakota do Sul não possuem o mistério das paisagens da cidadezinha: não evocam estranheza e beleza, uma volta a um passado longínquo que a vida urbana não pode captar. Era disso que Cooper tratava em muitos momentos nas temporadas iniciais, de um universo onde a contagem de vidas era realmente vital. Lynch não proporcionou isso em grande parte da temporada, preferindo utilizar o estilo de seus filmes mais experimentais a partir dos anos 90 e sem apostar na atmosfera do original. Por um lado, foi um acerto, não se curvando à expectativa e apresentando um trabalho muitas vezes extraordinário; por outro, às vezes se excedeu na escolha. Alguns dos grandes episódios foram cercados por essa sensação de mistério, de lugares isolados, principalmente os episódios 8, 9, 14, 16, 17 e 18. O último, por exemplo, localizado entre Odessa, Texas, e uma deserta Twin Peaks possui um clima semiapocalíptico.

Para alguns, a explicação para isso era recorrer ao fato de que David Lynch é um artista que não deve explicações a ninguém e que nunca entrega o que o espectador espera ou presta fan service. Foi interessante acompanhar esta temporada por redes sociais – já que nos anos 90 não havia além de jornais e revistas para ver a reação à série – por uma espécie de culto interessante a teorias. Nesses termos, a temporada em si teve boas bases de fan service, principalmente para quem é admirador de Twin Peaks – Fire walk with me. O fato de o filme ter sido um apoio da série não impediu algumas indagações: uma delas foi a própria exclusão completa de Annie Blackburn (Heather Graham), fundamental para o fechamento da segunda temporada e do filme e que aqui retornou apenas na referência às páginas do diário de Laura Palmer. Outra foi a ausência de Chester Desmond (Chris Isaak). Pode-se ter uma explicação para essa volta constante de Lynch ao filme, principalmente do episódio 8 em diante, além da tentativa de salvar Laura Palmer (Sheryl Lee). O diretor gosta de voltar a temas que teriam sido questionados em sua carreira. Foi assim com Duna, ao qual se refere sempre como projeto em que foi prejudicado, mais especificamente por não ter podido participar da montagem final. Toda sua carreira tem referências constantes a Duna, e a própria nova temporada de Twin Peaks. O personagem central de Duna, Paul Atreides, recebia um anel do pai que remete ao da Caverna da Coruja; as atrizes de Cidade dos sonhos lidam com uma caixa misteriosa, como a Bene Gesserit de Duna; os módulos de som dos Fremen em Duna adiantam o mistério a partir da descoberta de uma orelha em Veludo azul. Também a fala do Homem de um Braço Só ao ver Cooper levantando da cama do hospital (“Você está acordado. Finalmente”) é uma referência direta ao “O adormecido deve despertar” de Paul Atreides, feito pelo mesmo MacLachlan, em Duna. E foi assim com Twin Peaks – Fire walk with me: Lynch quis testar, por meio da série, o quanto havia sentido naquilo que não viram sentido à época do lançamento, nas vaias em Cannes, no fracasso de bilheteria e crítica. É como se ele desse uma resposta e ele a ofereceu do melhor modo: a terceira temporada foi um espetáculo sensorial e ajudou a desfazer outra lenda: de que não explica nada. É verdade que há muitas perguntas como resposta às respostas, mas pode-se mencionar nesta temporada inúmeros diálogos desvendando os mistérios relacionados ao Major Briggs.

O que mais fez Lynch, com a colaboração fundamental de Mark Frost, foi estabelecer pontas de explicação sobre o Black Lodge, o White Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… Muito do mistério de Twin Peaks teve seu impacto aumentado, principalmente no antológico episódio 8. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário. E ainda com personagens enigmáticos: Freddie Sykes (Jake Wardle), o homem bêbado da delegacia (Jay Aaseng), Naido (Nae Yuuki) e o Bombeiro (Carl Struycken), além dos woodsmen no episódio 8.
Mais interessante é como Lynch e Mark Frost aproveitaram temas que teriam desvirtuado a segunda temporada. Esta, com todos seus problemas, tinha os competentes Harley Peyton e Robert Engels à frente de vários roteiros, com trabalhos algumas vezes superiores ao que Lynch e Frost, criadores da série, apresentaram nesta terceira, sobretudo a partir do momento em que os personagens precisavam ganhar desenvolvimento em inter-relações. E em termos de roteiro me refiro principalmente a diálogos, não em analogias ou imagens (nas quais Lynch se sobressai especialmente).

Robert Engels (que foi corroteirista do filme, ao lado de Lynch) assinou sozinho ou em parceria 10 episódios das duas primeiras temporadas, e Harley Peyton nada menos do que 13. Algumas simbologias referentes ao Major Briggs estão em episódios escritos por Engels e Peyton, mas, acima de tudo, assim como Frost (que participou do roteiro de 11 episódios), foram eles que desenharam esses personagens de Twin Peaks e também construíram o universo da cidade e dos personagens de Twin Peaks, sem o qual Lynch não teria conseguido trabalhar seus conceitos neste retorno. Em algumas resoluções desta temporada, o problema não foi a direção e sim o desenvolvimento de alguns personagens e a montagem de Duwayne Dunham, que colaborou com Lynch no piloto de Twin Peaks, em Veludo azul e Coração selvagem. A série original teve a montagem principalmente de um trio: Jonathan P. Shaw, Toni Morgan e Paul Trejo, que se revezou do início ao fim das temporadas, abrindo espaço apenas para Duwayne Dunham em dois episódios e Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, em um. Apesar do apoio de P. Shaw e Lynch na edição desta temporada, ela foi hesitante em certos momentos. Lynch compensou com a direção e o grande design de som: ao mesmo tempo que aprimorou elementos já mostrados em sua carreira, ele se mostrou aberto a algumas influências – mais especificamente Nicolas Winding Refn nas cenas iniciais passadas em Nova York e Terrence Malick, no episódio 8 e na entrada do corpo policial de Twin Peaks no bosque da cidade no episódio 14, com os raios de sol entre as árvores, uma conquista estilística de Emmanuel Lubezki.

A montagem era decisiva para o dinamismo de Twin Peaks (independente de lenta ou ágil). O retorno alternou ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem foi mais vagarosa, com cenas extensas e repletas de diálogos – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas foram curtas demais e outras longas demais. Em certos momentos, a montagem desta nova temporada era em certa medida confusa que surgiram teorias falando de uma não linearidade; veja-se, por exemplo, o agente Cooper jogando beisebol com o filho no episódio 12 e no episódio seguinte, o 13, aparecer na manhã seguinte ao jantar dos irmãos Mitchum, acontecido no 11. Ou Dougie se livrar do ataque de Ike (Christophe Zajac-Denek) no episódio 7 e os irmãos Mitchum verem a matéria de TV sobre ele apenas no episódio 11. O dinamismo do original era ajudado pela trilha de Angelo Badalamenti, que praticamente se ausentou aqui, voltando mais ao final, com grande empatia e se destacando no episódio 8. O design de som – feito por David Lynch – esteve em todos os episódios como o som principal, junto às apresentações de bandas e artistas solo, um acerto, por um lado (pela qualidade deles, a exemplo de Chromatics, Au Revoir Simone, Nine Inch Nails, Lissie e Eddie Vedder, que fizeram minhas apresentações favoritas), e prejudicial, por outro, em razão de costurar o final de muitos episódios de maneira previsível.
No entanto, tudo isso ganha algum sentido se concluirmos que “vivemos dentro de um sonho”, palavras que o agente Cooper fala na delegacia no episódio 17 do mesmo modo que Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. É a explicação para o limbo em que parece se encontrar Audrey Horne (Sherilyn Fenn), sempre em conversa com o marido Charlie (Clark Middleton) sobre o amante Billy (que acabamos não conhecendo ao fim da temporada). São situações que configuram um interesse incomum pelo surrealismo cotidiano. Este se mostrou especialmente presente nos episódios com passagens para universos paralelos (episódio 1, 2, 3, 8, 11, 14, 15, 17 e 18).

Esse surrealismo foi apoiado por personagens significativos: Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e William Hustings (Matthew Lillard), realmente vitais para a trama, em polos que se complementam, um com certa sensibilidade para uma ligação com universos paralelos e o outro, um diretor de escola confuso e envolvido numa busca arriscada pela Zona. Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) foi ótimo, funcionando muito bem em sua despedida em parceria com Gordon Cole (David Lynch), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern). Anthony Sinclair (Tom Sizemore) teve momentos – aquele em que ele vai conspirar contra Dougie aos irmãos Mitchum é excepcional (“Vocês têm um inimigo: Dougie Jones!”), assim como quando se esconde atrás da mesa quando surge o trenzinho dos mafiosos, suas assistentes e Dougie na agência de seguros. Bushnell Mullins (Don Murray) se inclui entre os grandes personagens da mitologia de Twin Peaks, com sua gentileza e decência, como diz Cooper ao acordar. Murray tem uma precisão cômica que tornou grandes as reuniões com Dougie ou sua ida à delegacia de Las Vegas para falar com os irmãos Fusco. Janey-E (Naomi Watts) destacou-se, particularmente o melhor personagem novo desta temporada, ao lado do filho Sonny Jim (Pierce Gagnon). Watts conseguiu desenhar uma personagem desapontada com o marido, mas amorosa e defensora do seu lar. A despedida dela de Cooper (ela já sabia que não se tratava de Dougie) no episódio 16 costurou toda uma simbologia para uma mulher de família que poderia ter sido a esposa de Cooper caso ele não fosse agente do FBI. A despedida dela comove porque ela queria ter aquela vida que já não Dougie e sim Cooper lhe prometia. Seu olhar triste é de alguém que estava gostando daquela vida, mas continuar nela seria tirar a vida que Cooper tinha antes de ocupar o lugar de Dougie.

Em Twin Peaks, Hawk (Michael Horse), Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) foram acertos. O arco desenhado pelo crescimento emocional de Bobby foi, sem dúvida, uma boa ponte com as temporadas anteriores, em companhia das mensagens misteriosas da Senhora do Tronco e a sabedoria de Hawk. Frank Truman (Robert Forster) tornou-se um substituto eficiente para Harry, nunca querendo substituir o êxito de Michael Ontkean. Não aproveitados o quanto se poderia, Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) se mostraram um alívio nostálgico, mas a ponta de Michael Cera como seu filho Wally Brando é antológica. Chad Broxford (John Pirruccello) atuou como um bom vilão policial. Personagens introduzidos sem força, como os irmãos Mitchum, adquiriram uma importância fundamental – e alguns dos melhores momentos foram deles na parte final, numa recuperação extraordinária para Knepper e Belushi. Mesmo os eventos do episódio 11 (que pareciam forçados à primeira vista) ganham numa reavaliação, sobretudo o jantar com Dougie, seguido por torta de cereja. Achei muito engraçados os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner) – principalmente na cena em que eles são informados de que Dougie seria o agente Cooper ou quando prendem Ike – e Hutch e Chantal tiveram sua inclusão explicada pelo excepcional episódio 16, com atuações magníficas de Leigh e Roth. Steven Burnett (Caleb Landry Jones) tem um potencial não aproveitado totalmente, caso não tenha uma nova temporada, assim como Richard Horne (Eamon Farren) foi um vilão à altura pelo pouco roteiro que recebeu. Outros personagens ao redor do Mr. C não tiveram o mesmo êxito: falo de Duncan Todd (Patrick Fischler). Algumas vezes, Lynch impediu o prosseguimento mais ágil da série com cenas em que eles apareciam. Particularmente, todos os episódios que se concentraram na tentativa de matar Dougie Jones foram menos exitosos, excluindo o 16. Fiquei bastante surpreso como Clark Middleton, como Charlie, o “marido” de Audrey; é um ótimo ator e trava um diálogo de quatro episódios com desenvoltura. Sherilyn Fenn fez novamente uma misteriosa Audrey Horne, desta vez perturbada e num mundo paralelo, sobretudo em sua apresentação na Roadhouse. Grace Zabriskie, como Sarah Palmer, roubou a cena nos episódios em que apareceu. E o agente Dave Mackley feito por Brent Briscoe foi um personagem discreto, mas eficiente.

E houve elementos que ficaram sem explicação, o que era de se esperar. Sem saber se a série terá uma quarta temporada, alguns personagens novos ou antigos, quando (re)apresentados, não adquiriram desenvolvimento. Isso funcionou muito bem em episódios iniciais, mas quando a série não mostrou o desenvolvimento deles é claro que houve certa decepção. Não tivemos clareza sobre a vida de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick); a ligação entre Shelly e Red (Balthazar Getty), que teve ótima apresentação no episódio 6 e depois fez apenas uma ponta no episódio 11; quem de fato é Diane (Laura Dern), pois nem no encerramento parece que tivemos respostas suficientes, principalmente quando ela enxerga um duplo no hotel de beira de estrada e não fala a respeito ao agente Cooper, antes de ele se transformar em Richard e ela em Linda, agindo, de certo modo, como a Diane fabricada por Mr. C, que não avisa sobre o ataque de um woodsman a Hustings. Também merecia elaboração o interesse de Richard Horne (Richard Beymer, mais uma vez fora de série, principalmente no quase monólogo do capítulo 12) por Beverly Page (Ashley Judd), assim como a relação entre Big Ed Hurley (Everety McGill) e Norma Jennings (Peggy Lipton), que se resolve em menos de cinco minutos depois de décadas. Imagino que muitos se cansaram com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) restrito apenas a algumas cenas de discurso no seu programa de internet, assim como Nadine (Wendy Robie) de espectadora dele. James Hurley (James Marshall) praticamente não teve participação, a não ser cantando “Just you” na Roadhouse e servindo de confidente para Freddie. Não ficou muito clara a relação entre Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt).
Todas essas são tramas mais lineares, que talvez não coubessem no conceito da temporada, mas poderiam ter sido exploradas em determinados momentos, ao invés de Lynch se concentrar principalmente no que fazia sua equipe de FBI ou certas cenas mais conceituais (um homem varrendo o chão da Roadhouse, estabelecendo ligação com um Renault mais velho falando de uma sujeira que não pode ser escondida; uma francesa demorando a sair do quarto de Gordon; o excesso de intervenções de Candie no episódio 10; Jerry Horne perdido no bosque por três capítulos; a bad trip na floresta do episódio 15; algumas conversas de personagens desconhecidos na Roadhouse…), entre outras.

E temos as questões suscitadas pelo episódio 8, com sua referência à origem de uma maldade. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. No episódio 17, o Bombeiro (Carel Struycken), que aparece no episódio 8, ressurge no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar, depois de ter encontrado Andy no episódio 14. Esses momentos possuem uma força visual poucas vezes vista, inclusive na trajetória de Lynch. Audrey, que terminou o episódio 16, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nos dois últimos. E qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?
Também houve o polêmico Dougie Jones. Nos primeiros episódios (até o sexto e um tanto no episódio 11), ele funcionou muito bem, com cenas verdadeiramente cômicas e no ponto exato, graças à atuação excepcional de MacLachlan, também com o assessor de Bushnell, Phil Bisby (Josh Fadem); nos demais pouco foi desenvolvido e terminou como um personagem que fica num meio-termo. Lynch poderia, ao contrário, ter mostrado mais a rotina de Dougie junto à família, já que o motivo era mostrar principalmente o homem médio dos Estados Unidos. Não tenho clareza sobre o motivo de Lynch ter preferido colocar o personagem no lugar do agente Cooper até o episódio 15, mas tenho algumas hipóteses além daquela de que quis substituí-lo por Gordon Cole: 1) O agente Cooper não teria a parceria de Harry S. Truman (Michael Ontkean), que não voltou para a série; ambos foram decisivos para o ritmo da série original; 2) Frost e Lynch não conseguiriam reproduzir o ritmo de diálogos de Cooper das duas primeiras temporadas pelo excesso de ideias conceituais e porque queriam uma trama vagarosa, uma oposição às características do personagem; 3) Muitos episódios funcionaram no plano conceitual e o agente Cooper sempre estabeleceu uma ponte desse plano com o plano material, pelo qual Lynch não estava tão interessado; 4) Lynch não queria fazer uma série exatamente bem-humorada, apesar de momentos indicando esse caminho, e o agente Cooper prejudicaria isso. Hoje, a hipótese principal, no entanto, foi que Lynch manteve o personagem escondido para que o espectador pudesse testemunhar uma volta impressionante no capítulo 16, já histórico. Não haveria com certeza a mesma emoção de Cooper dizendo “Eu sou o FBI” se ele tivesse voltado logo no início. Sem dúvida, mas ainda se sente um pouco incômoda sua quase não presença (ou não existência, como diz o Braço no início da temporada), principalmente com tanta participação de Mr. C, principalmente nos episódios 7, 13 e 15, alguns dos mais problemáticos em termos de ritmo (mesmo que com grande performance novamente de MacLachlan). Não foi uma temporada, por isso, sem falhas, mas é difícil não considerar que foram vários filmes espetaculares prejudicados por alguns vazios (particularmente, os capítulos 10, 11, 13 e 15 se sentiram menos à altura do restante).

E os dois episódios finais mostram que, mais do que o retorno de Cooper a Twin Peaks, o que importava a Lynch e a Frost era mostrar como uma possível existência de duplos pode transformar o universo complexo e a narrativa mais aos moldes de Império dos sonhos e A estrada perdida. Depois do episódio 17, em que a ação se desenvolve em combater Mr. C e tentar voltar no tempo para salvar Laura Palmer de seu destino, além de se saber sobre uma presença ameaçadora (Judy), no episódio 18 o Homem de um Braço Só (Al Strobel), como havia pedido Cooper no episódio 16, faz uma nova versão de Dougie Jones para Janey-E e Sonny Jim. Enquanto Dougie chega de volta à Lancelot Court falando “Casa!”, ao fim de tudo, o agente Cooper procura uma casa para Laura Palmer, mas ela não existe mais ou é indefinida. Tudo volta às palavras da Senhora do Tronco, de que “a morte não é o fim, mas uma mudança”: é justamente o que Lynch apresenta nesse clímax. A emoção de ver a linha de tempo sendo alterada é muito marcante, principalmente na figura de Jack Nance, um dos melhores amigos de Lynch, que regressa à cena como Pete Martell, inclusive numa caminhada inédita, não utilizada no piloto da série, depois de sair de casa. É como se Lynch também quisesse reviver esses amigos (não apenas Nance, Davis, David Bowie e Frank Silva faleceram, como do elenco desta temporada Catherine Coulson, a Senhora do Tronco, Miguel Ferrer e Will Frost, que faz uma ponta como Dr. Hayward). Isso me leva à figura de minha mãe, que era uma grande fã da série original e faleceu há quatro anos. Este Twin Peaks, de maneira inesperada, apresenta com seu final uma sensibilidade especial de Lynch em relação aos anos que se passaram: gostaríamos que a linha de tempo fosse muitas vezes mudada. O diretor, claramente, sabe disso: ele compreende exatamente a nostalgia do espectador e o sentimento de perda durante tantos anos. Lynch é generoso quando não se esperava tanto dele, fazendo seus personagens se comportarem como o próprio público.
No episódio 18, Lynch busca seus duplos no cinema, mas moldando os conceitos num simbolismo rico, daí particularmente ter me agradado em especial: o agente Cooper e Diane dirigem como o casal Lila Crane (Vera Miles) e Sam Loomis (John Gavin), que busca Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose. O interessante é que ele para de carro na beira da estrada e enxerga postes de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. Esta sequência dialoga com Intriga internacional, de Hitchcock, em que um agente de publicidade, Roger O. Thornhill (Cary Grant), era confundido com um agente secreto, George Kaplan (novamente os duplos), e em determinado momento se encontra numa estrada deserta, tendo de se esconder de um avião que quer matá-lo num milharal (garmonbozia?). No início deste episódio, o encontro de Cooper com Diane na saída do Black Lodge lembra um num bosque nas proximidades do Monte Rushmore do mesmo filme de Hitchcock, cuja título original é North by Northwest (lembrando que Twin Peaks fica no Northwest dos Estados Unidos), e Gordon Cole se refere ao Monte Rushmore no episódio 4 deste temporada, em diálogo com Albert.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Esta sequência também remete a Psicose, assim como o papel de parede da Loja de Conveniência do episódio 15 lembra a dos quartos do hotel de Norman Bates (que age como sua mãe).

Diane e Cooper fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para os anos 1950. No dia seguinte está num hotel da cidade, remetendo a Hitchcock e a A estrada perdida, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard. O quarto tem um papel de parede que remete ao formato que sai da chaleira de Phillip Jeffries e remete ao anel da Coruja (depois de selecionar essas imagens, vi que muitos no Twitter perceberam esse mesmo detalhe). Assim como dialoga com a tapeçaria onde brinca o menino Danny no Hotel Overlook de O iluminado (filme em que Kubrick teria se inspirado em Eraserhead, de Lynch).

Outro indício de que se trata de um universo em que Cooper não é mais exatamente o Cooper que conhecíamos é o número do quarto em que ele se hospeda, 7. Este número aparece em diferentes oportunidades sempre relacionada a duplos, sonhos ou universos paralelos: é o número do café de Tracey (Madeleine Zima) no primeiro episódio da terceira temporada; o número do quarto em que Mr. C encontra Chantal (Jennifer Jason Leigh); o número do andar em que Phillip Jeffries (David Bowie) chega para encontrar a equipe do FBI em Twin Peaks – Fire walk with me e o número que está no nome da Lucky 7 Insurance, a agência de seguros em que trabalha Dougie Jones.

Em sua busca (não se sabe ainda pelo quê) em Odessa (agora sabemos a cidade), no Texas, ele passa de carro por um trilho de trem (à frente do qual apareciam os Tremond/Chalfont no filme de 1992 para entregar o quadro de Laura e pelo qual passava o Homem de um Braço Só na perseguição ao carro onde estão Leland e Laura; destaca-se, ainda, que é num vagão de trem onde ocorre o assassinato de Laura).

Odessa está um universo paralelo: em frente à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca, há um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, quando Laura Palmer diz a Cooper: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, sugerindo uma ligação exatamente com o episódio 18. Dentro da cafeteria, há várias imagens de quadros com cavalos (estamos no Texas, mas aqui é simbólico).

Também há ao lado da porta de entrada da Cafeteria Judy uma guirlanda de rosas que remete a uma do quarto de Laura Palmer no filme de 92.

Do lado de fora da Cafeteria, temos, além dos postes de eletricidade, contêiners, que haviam também ao lado da casa com acesso à Zona, universo paralelo, no episódio 11. Tudo indica que há indícios do Black Lodge neste lugar.

Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Não parece coincidência que a atriz que faz a garçonete abordada pelos cowboys, Kristi, seja Francesca Eastwood, filha de Clint (conhecido por tantos filmes de faroeste). E a Odessa real, no Texas, tem como chamariz uma escultura chamada Jack Rabbit (como lembra o leitor do blog Alan nos comentários à crítica dos episódios 17 e 18), mesmo nome dado por Bobby Briggs ao lugar que serve de pista para chegar ao White Lodge no bosque de Twin Peaks. Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Perceba-se a semelhança do ator (infelizmente o nome dele não aparece nos créditos finais, isso se não for apenas um boneco, o que seria ainda mais proposital) com Jack Nicholson e como seu corpo parece congelado. Essa imagem remete ao final de O iluminado, de Stanley Kubrick. A roupa do morto também é parecida. Deve-se lembrar que naquele filme Jack Torrance era um duplo (ou reencarnação) de um zelador que havia matado a família anos antes no Hotel Overlook. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes. Repare-se, também, que na parede da casa há um pequeno cavalo branco.  Sabemos também que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa.

Também não se entende por que ela pergunta a ele se é agente no carro do mesmo modo (em olhar e voz) que ela pergunta se Leland, seu pai, estava em casa num determinado dia em que viu Bob, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores) e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Os faróis iluminando a estrada sintetizam a obra de Lynch e remetem à primeira perseguição a James Hurley e Donna Hayward no piloto da série e à estrada em que os woodsman aparecem assustando o casal de velhinhos no episódio 8, passado em 1956: “é passado ou futuro?”, mas também a filmes anteriores de Lynch, Coração selvagem, A estrada perdida e Veludo azul. Tudo se mescla, assim como o episódio 18 incorpora várias referências simbólicas e cinematográficas, sendo uma espécie de homenagem de Lynch a Hitchock e Kubrick principalmente. Se algumas vezes o retorno de Twin Peaks investiu em excesso de conceitos, Frost e Lynch o finalizam de maneira impressionante.

O episódio todo é construído por elementos simbólicos sobre a duplicidade tanto em Twin Peaks quanto no cinema e ambos sintetizam o universo da série por meio de detalhes que podem passar em branco. No plano narrativo, é como se Cooper e Laura tivessem uma simbiose, perdidos entre o passado e o futuro. Para Lynch, a casa de ambos é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Minha teoria é de que ela é realmente Laura Palmer, à medida que os pais de Carrie têm o mesmo nome: Leland e Sarah. Tanto que, quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo. No episódio 12, Sarah avisava na Loja de Conveniência: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy?) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. E Laura é, afinal, a escolhida: ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen. Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade. Não seria coincidência a passagem para a Loja de Conveniência também se dar no Greath Northern, em diálogo direto com o Bates Motel e o Overlook. São argumentos para uma possível quarta temporada, apenas uma entre inúmeras teorias, permitidas num universo de sonhos. Depois de toda uma temporada, finalmente chegamos a Twin Peaks.

Twin Peaks – The Return, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Richard Beymer, Chrysta Bell, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Eamon Farren, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, David Bowie, Wendy Robie, Russ Tamblyn, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Peggy Lipton, Catherine E. Coulson, Mädchen Amick, Josh Fadem, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Brent Briscoe, Balthazar Getty, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Patrick Fischler, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne, Michael Cera, Emily Stofle, Shane Lynch, Derek Mears, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Jane Adams, Charlotte Stewart, Ashley Judd, Larry Clarke, Frank Silva, Gary Hershberger, Joan Chen, Jack Nance, Don S. Davis, Eric Edelstein, David Koechner, Grant Goodeve, Eric Rondell, Sky Ferreira, Scott Coffey, David Duchovny, Richard Chamberlain, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, Francesca Eastwood, George Griffith, Carel Struycken, Nicole LaLiberte, Warren Frost, Adele René, Ernie Hudson, Walter Olkewicz, Nafessa Williams, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Brett Gelman, Grace Victoria Cox, Jane Levy, Madeline Zima, Phoebe Augustine, Bérénice Marlohe, Julee Cruise, Ben Rosenfield, Mary Reber, Cornelia Guest Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 1080 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódios 17 e 18) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre os episódios 17 e 18, a terceira temporada e o filme de 1992

Numa entrevista durante o lançamento de Duna, David Lynch disse que sua infância foi marcada por “casas antigas, ruas arborizadas, o leiteiro, construção de fortalezas do quintal, aviões monótonos, céu azul, cercas, grama verde, cerejeiras”. Para ele, “era um mundo de sonho”, com a ressalva de que “sempre há formigas vermelhas por baixo”. Este universo foi explorado ao máximo em obras como Veludo azul – literalmente, com as formigas – e nas duas temporadas originais de Twin Peaks. Desta vez, na terceira (disponível na Netflix), Lynch utilizou algumas dessas imagens, mas seu foco foi muito mais conceitual, na exploração da realidade como um sonho. Ele expandiu bastante aquilo que ficava muitas vezes subentendido na série dos anos 90. No entanto, nos episódios finais (principalmente a partir do 12), Lynch foi voltando a esse universo de uma pequena cidade, à verdadeira Twin Peaks, às ruas arborizadas, ao céu azul, às cercas de pátios com grama verde, mesmo que fosse na Lancelot Court, rua onde morava Dougie Jones. Dougie passou a ser realmente o agente Cooper, tentando voltar no tempo, à antiga Twin Peaks e aos efeitos da última vez em que adentrou o bosque em busca de Annie Blackburn (Heather Graham).

Para uma série que se concentrou principalmente em personagens da terceira idade, principalmente com a figura vital da Senhora do Tronco, Lynch obteve uma certa ideia circular a respeito de alguns personagens, como se suas impressões estivessem congeladas no espelho, igual ao reflexo do duplo mal de Cooper. E com esse ambiente natural fomos levados, como no restante da série, por um surrealismo estranho e original.
Se no início da terceira temporada víamos o agente Cooper vir para nossa dimensão substituindo o pacato corretor de seguros Dougie Jones, ultrapassando cenários estranhos e chegando às máquinas de jogos de Las Vegas, aos poucos fomos conhecendo o que aconteceu com alguns personagens de Twin Peaks, o corpo policial da cidade, agora com Bobby Briggs e Frank Truman, irmão de Harry, Benjamin Horne, Doutor Hayward, Big Ed, Norma Jennings, Shelly… Também conhecemos personagens novos, como Janey-E e Sonny Jim, mulher e filho de Dougie Jones, seu chefe Bushnell Mullins e uma conspiração do mal organizada pelo duplo mal de Cooper para matá-lo, envolvendo até mesmo dois irmãos gângsteres, os Mitchum. Conhecemos os irmãos Fusco, policiais de Las Vegas, ao mesmo tempo que reencontramos Gordon Cole, Albert Rosenfield, ao lado de Tammy Preston e Diane. Outros personagens ficaram envoltos por um mistério, a exemplo de Sarah Palmer e Audrey Horne.

De modo geral, ao longo desse retorno, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em Estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland); e analisou os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens, a relação entre sonho e realidade e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos. Pode-se dizer que os dois episódios finais da terceira temporada costuram algumas dessas questões, mas se concentram na ideia do tempo como um círculo que se repete ao infinito.
No episódio 17, o agente Cooper é levado a Twin Peaks pelos irmãos Robert (Robert Knepper) e Bradley Mitchum (James Belushi), dos quais se tornou amigo – como se eles tivessem saído do Black Lodge para o White Lodge por meio de Cooper – e já chega à delegacia numa situação delicada. O seu duplo mal, Mr. C., estava pronto para balear Frank Truman (Robert Forster) quando é alvejado por nada mais nada menos que Lucy (Kimmy Robertson). Enquanto isso, o jovem Freddie Sykes (Jake Wardle) usa seu punho poderoso para derrubar o policial Chad Broxford (John Pirruccello) e ajuda Naido (Nae Yuuki), a moça sem olhos, junto com James Hurley (James Marshall), a chegar à sala principal do xerife. Enquanto os woodsmen cercam o Mr. C como no episódio 8, para reerguê-lo, surge novamente Bob dentro da mesma bola que o víamos ser expelido nesse episódio referido. O garoto de punho verde se coloca como adversário em potencial – e um grande adversário. Não há tempo para muito, apenas para vermos a chegada de Gordon Cole (David Lynch), Thammy Preston (Chrysta Bell), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), além de Bobby Briggs (Dana Ashbrook) depois de uma sucessão de imagens que lembra um filme surrealista em seu grau extremo, embora envolva uma briga.
Cooper descobre que Naido é a verdadeira Diane (Laura Dern). Seu rosto se sobrepõe à imagem: será ele o “sonhador”? Junto com ela e Gordon Cole, Cooper segue pelos caminhos do forno do Greath Northern, que James Hurley visitava no episódio 14. Passando a porta que James olhava, ele se depara com o Homem de um Braço Só (Al Strobel), que o conduz até a Loja de Conveniência do episódio 15. Cooper encontra Philip Jeffries, em forma de sino/chaleira gigante e vai até o passado. “É futuro ou passado?”, perguntava o Homem de um Braço Só desde as primeiras temporadas. Sabemos que é passado e agente Cooper tenta salvar Laura Palmer (Sheryl Lee) de seu destino, mesclando sua participação com cenas incluídas em Twin Peaks – Fire walk with me em preto e branco e outras inéditas. “Eu o vi no meu sonho”, diz ela, referindo-se exatamente a uma passagem do filme, antes de encontrar Ronette Pulaski, Leo Johnson e Jacques Renault no bosque. Cooper atua como uma espécie de mensageiro de uma bondade.
Em uma sequência emocionante, vislumbra-se o início da série nos anos 1990 com Pete Martell (Jack Nance) saindo para pescar sem haver o corpo de Laura Palmer na beira do rio. Cooper teria conseguido mudar o destino de Laura? De volta ao bosque e com Cooper tentando conduzi-la até o portal que resultará no White Lodge, ela escapa de suas mãos e ele ouve gritos na floresta. O episódio se encerra com a nostálgica Julee Cruise cantando na Roadhouse.

O episódio 18 inicia com uma visão de Mr. C se desintegrando em chamas no Black Lodge. O Homem de um Braço Só produz uma nova versão de Dougie Jones para ele entrar pela porta vermelha para sempre – e vemos Janey-E (Naomi Watts) e Sonny Jim (Pierce Gagnon) de costas o recebendo alegremente. Cooper volta ao Black Lodge onde reencontra o Braço falando da menina do final da rua. Lembre-se que isto remete a um filme sobre abuso sexual com Jodie Foster dos anos 70: essa menina é Laura Palmer. O agente Cooper sai do Black Lodge pela cortina vermelha em que entrou no final da segunda temporada, em meio aos sicômoros, e se depara com Diane. Ele viaja com ela por uma estrada deserta, até chegar a vários postes de eletricidade. É ali que se passará, pelo que se entende, para outra dimensão. Chegando a um hotel de beira de estrada, o agente Cooper e Diane se hospedam. Ela vislumbra um duplo ao longe.
No quarto de hotel, Cooper e Diane fazem amor, numa sequência que remete muito a Coração selvagem, com Nicolas Cage e Laura Dern, dos anos 90. No dia seguinte, no entanto, ela lhe deixa um bilhete, referindo-se a ele como Richard e a ela como Linda – os nomes dados pelo Bombeiro no primeiro episódio desta temporada. Também não é mais o hotel de beira de estrada, e sim um na cidade, parecendo ter havido uma troca de corpo como em Estrada perdida. Numa espécie de tempo paralelo, mas ainda se considerando Cooper, o agente do FBI vai até uma cafeteria de nome Judy – o nome pronunciado no filme e no episódio 15 por Philip Jeffries. Ali, Cooper enfrenta alguns cowboys (Matt Bataghlia, Heath Hensley, Rob Mars) que mexem com uma garçonete, Kristi (Francesca Eastwood, filha de Clint). Ele pede o endereço de outra funcionária que atende ali e segue até uma casa em que há um poste com o número 6 à frente (o mesmo que aparecia no filme e no episódio 14).
Quem atende à porta é Carrie Page (Sheryl Lee), mas se trata de Laura Palmer. Cooper pergunta se o nome dos pais dela são Sarah e Leland e ela diz que sim. Repare-se na vida da moça: um homem baleado no sofá e detalhe para a imagem do cavalo branco (que Sarah Palmer enxergava em suas visões e também estava na fala do woodman do episódio 8) numa decoração da sala de estar. Cooper descobre estar em Odessa, no Texas, e dirige para Twin Peaks, para levá-la de volta ao lar. No entanto, na casa não se encontra Sarah, e sim uma mulher que se diz Alice Tremond (Mary Reber). Os Tremond são uma avó e o neto do Black Lodge que apareciam no filme Twin Peaks – Fire walk with me entregando um quadro a Laura Palmer, e na segunda temporada da série, na rota de entrega de refeições do Double R. Ele pergunta quem alugou a casa antes dela. E ela responda que foram os Chalfont. Os Chalfont são o outro nome dado aos Tremond. Eles moravam no parque de trailers de Twin Peaks – Fire walk with me, de Carl Rodd. É embaixo do trailer dos Chalfont que desaparece o agente Chester Desmond (Chris Isaak). A casa dos Palmer seria uma extensão do Black Lodge?

O que mais estabeleceu ligação com as duas primeiras temporadas foi o número de mistérios relacionados ao Major Briggs, justamente o ponto mais criticado da segunda temporada e que tomou outra dimensão aqui, com o propósito de Lynch compor um extenso universo sobre o universo do bem e do mal que rege a todos. Lynch estabeleceu explicações sobre o White Lodge, o Black Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… mesmo que tudo pareça igualmente enigmático ao fim de tudo. Muito do mistério de Twin Peaks, na verdade, ganhou uma especial consideração aqui nessa conclusão. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário.
Como se esperava (e também porque não sabemos se terá uma quarta temporada), o retorno de Twin Peaks deixou vários temas em aberto: as questões suscitadas pelo antológico episódio 8 ficaram pendentes. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. O Bombeiro (Carel Struycken) aparece novamente no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar. Audrey, que terminou o episódio anterior, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nesse episódio. Outros pontos não são claramente explicados: o que aconteceu, por exemplo, ao casal Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt) no bosque? Benjamin Horne (Richard Beymer) aparece no início do episódio 17 tendo informações do seu irmão, encontrado perdido e desnudo. Mas qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?

É interessante lembrar que, no último capítulo da segunda temporada, Cooper entra no Black Lodge para resgatar sua namorada, Annie Blackburn (Heather Graham). A temporada se encerra melancolicamente, com Bob possuindo o agente Cooper. No filme Twin Peaks – Fire walk with me, o corpo de Laura boia para ser descoberto pelos policiais da cidade, mas seu espírito está liberto. Na verdade, o filme se encerra com uma simbologia transcendental, própria de Lynch. Mais do que em Veludo azul ou no piloto da série e em seus melhores episódios da série dos anos 90, existe, aqui, uma trajetória em queda e, depois, em subida; existe o sonho de normalidade do personagem.
Para Lynch, um personagem como Laura, com duas personalidades, quando se encontra com Cooper em sonho (também na série), é um encontro sobretudo com a normalidade, apesar de estar imersa na estranheza. E, ao não se render à figura de Bob – que precisa enfrentar, conforme o episódio 8 desta temporada –, ou seja, resistir ao Black Lodge, consegue escapar dessa floresta estranha e perturbadora. O regresso da figura do anjo que havia desaparecido do quadro de seu quarto faz Lynch encerrar o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade. Na série, Cooper só se entrega a Bob para salvar sua amada Annie, ou seja, acima de tudo, a série e o filme de David Lynch tratam do amor mais intenso.
No fechamento da terceira temporada, esses temas são trazidos novamente à cena. Nos episódios 17 e 18, é como se Cooper estivesse num loop temporal, tentando mudar o destino de Laura, inclusive ao encontrar uma espécie de duplo dela, como Dougie Jones foi dele. E o duplo de Laura mora em Odessa, que provém da palavra “odisseya”, em grego, ou seja, uma “grande jornada”. David Lynch concebe um fechamento desta temporada inesquecível porque é, sem dúvida, o tema de Twin Peaks: não se pode voltar ao passado e corrigir os erros, mas numa espécie de circularidade, para Lynch, é possível tentar reviver e encontrar a bondade humana, mesmo onde ela pode não existir mais. É absolutamente comovente Cooper tentando conduzi-la à entrada do White Lodge, a fim de modificar o que aconteceu a ela. E, ao final, tentar encontrar sua casa, para que ela volte aos braços dos pais, mesmo que seja apenas um duplo. E em qual ano ele se encontra? Passado ou futuro? Sarah Palmer não estaria sendo escondida por Alice Tremond? A estrada se estende noturna, mas, ao mesmo tempo, carrega a existência, a grande jornada, desses personagens que se ligam: Laura e Cooper. Tudo sublinhado por uma atuação irretocável de Sheryl Lee. O passado e o grito se repetem (depois de Page/Laura ouvir a voz de sua mãe, Sarah, dentro da casa) – e o grito está ligado à humanidade e à eletricidade. Pelo final, tudo se entende que Lynch gostaria de uma quarta temporada – mas este tudo pode indicar também que ele tenha desejado novamente deixar a história em aberto. É fascinante, exatamente como foi desde os anos 90 e, por mais estranho e irresolvido que pareça às vezes, é fiel tanto à obra quanto ao conceito aplicado em Twin Peaks – O retorno, que acaba – esperamos que apenas por enquanto – de maneira realmente extraordinária.

Twin Peaks – Episodes 17 & 18, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 116 min. Distribuidora: Showtime

Death note (2017)

Por André Dick

O diretor Adam Wingard tem feito alguns filmes interessantes e até subestimados, a exemplo de O hóspede e a refilmagem de A bruxa de Blair, esta especialmente criticada em seu lançamento e muito superior à versão dos anos 90, a começar por seu terceiro ato claustrofóbico. Aqui ele parte de um mangá criado por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata para desenhar a vida de um adolescente de Seattle, Light (Nat Wolff). Depois de se mostrar interessado pela líder de torcida Mia (Margaret Qualley), em meio a uma tempestade, ele se depara com um caderno que cai do céu, cuja inscrição na capa é Death Note. Por meio do caderno, ele entra em contato com a figura assustadora de Ryuk (Willem Dafoe), o deus da morte. Detalhe: se ele escrever o nome de uma pessoa no caderno traçando seu destino e imaginar seu rosto, pode eliminá-la. Rapidamente, ele já tem alguém em vista, e o destino da vítima é doloroso de assistir. A meia hora inicial de Death note é instigante, e temos ainda a relação entre Light e seu pai, o detetive James Turner (Shea Whigham), além de cenas que remetem a um clima de terror que verdadeiramente assusta.

No entanto, quando surge o investigador L (Lakieth Stanfield), acompanhado por seu pai e assistente Watari (Paul Nakauchi), e a química entre Light e Mia começa a soar forçada, o roteiro vai se perdendo aos poucos, apesar de o visual continuar interessante, um dos méritos da filmografia de Wingard, com a ótima fotografia climática de David Tattersall, o mesmo de Speed Racer, inspirada em Demônio de neon e Enter the void (nas cenas passadas em Tóquio). O problema é a tentativa de transformar o conceito original, mais reflexivo, em algo muito popular e apressado, e não se pode imaginar que Nat Wolff tenha sido escolhido por outro motivo. Muito bem em A culpa é das estrelas, Palo Alto e Cidades de papel, ele tem uma atuação bastante limitada, talvez pelo roteiro e pela direção. Ele acaba sendo sobrepujado por Qualley, sua parceira, que deseja agir em conjunto para enfrentar o mal do mundo usando um caderno que serve a uma figura maligna com o intuito de ser “mais do que uma líder de torcida”.
Se eles chegam a uma festa de colégio em que está tocando “Don’t change”, do INXS, é exatamente o contrário do que acontece com ela, justamente porque passa a ter mais ideias sobre o que deve ser feito, e aos poucos o conjunto de mortes em escala universal atinge uma escala de autoperturbação e desejo de domínio sobre o outro. Trata-se de uma ideia aparentemente simples, mas que pode ganhar um significado se o diretor estivesse disposto a colocar a discussão por trás dela realmente em prática; isso fica apenas na aparência e em cenas violentas. A montagem ágil acaba não dando peso às sequências, ou seja, se o filme não cansa, ele dificilmente convida a olhar os personagens além da maneira como aparecem na tela. A simbologia que os cerca se perde.

Em O hóspede, Wingard já lidava com um personagem que se situava entre o bem e o mal, ambíguo, e Light não é diferente. No entanto, falta uma certa densidade a alguns conflitos enfrentados por ele, sobretudo quando Ryuk sugere que a autoria das mortes seja assinada pelo codinome Kira. A seu lado, Stanfield (que aparece bem em Corra! e War machine) tem uma atuação equivocada, tentando repetir certos maneirismos do personagem original, mas logo caindo mais numa espécie de caricatura. Shea Whigham e Willem Dafoe, por sua vez, aparecem muito bem e dão respaldo às suas cenas. Longe de ser o desastre como está sendo apontado, haveria espaço para um desenvolvimento melhor de personagens. Há assuntos delicados aqui (querer fazer justiça em cima de criminosos por meio de uma figura maligna), no entanto as coisas se perdem em determinado momento, recuperando-se apenas mais ao final, com uma ótima sequência de ação, uma das especialidades de Wingard. É preciso dizer que esta sequência tem um trabalho visual principalmente com as cores poucas vezes visto no cinema blockbuster e o rumo dos personagens lembra um episódio de Além da imaginação.

Talvez se Wingard também tivesse delimitado melhor seus objetivos – ele se situa entre uma tentativa de reproduzir outros filmes de adolescentes já citados com o próprio Wolff e um terror lado B, nos moldes de Creepshow, inclusive utilizando um trabalho de câmera semelhante –, aproveitando melhor a trilha sonora de Atticus e Leopold Ross (vencedores do Oscar por A rede social), inspirada claramente naquelas que Cliff Martinez compôs para as obras mais recentes de Refn, poderia ter realizado um filme realmente marcante. É claro que ele tinha um potencial narrativo a ser explorado com mais detalhes, à medida que tinha um elenco de ponta em suas mãos. Preferiu o caminho de apelo mais pop, e é justamente nesse terreno que ele vem sendo tão criticado. Para uma obra desse estilo, ele precisaria ter levado mais em conta os pressupostos originais, mesmo que quisesse, como fez, realizar uma adaptação mais livre. Fazer uma versão nos Estados Unidos requisita outro estilo, como o mostrado, com uma atmosfera bastante atraente, mas é preciso manter certo jogo de ideias, como, aliás, acontece em outras adaptações de mangás. Ainda assim, Death note tem suas qualidades e merece ser visto.

Death note, EUA, 2017 Diretor: Adam Wingard Elenco: Nat Wolff, Lakeith Stanfield, Margaret Qualley, Shea Whigham, Paul Nakauchi, Jason Liles, Willem Dafoe Roteiro: Charles Parlapanides, Vlas Parlapanides, Jeremy Slater Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: Atticus Ross, Leopold Ross Produção: Roy Lee, Dan Lin, Masi Oka, Jason Hoffs, Ted Sarandos Duração: 100 min. Estúdio: LP Entertainment, Vertigo Entertainment, Lin Pictures Distribuidora: Netflix

Twin Peaks – O retorno (Episódio 16) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), White e Black Lodges, voltando apenas algumas vezes à pequena cidade em meio às florestas na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série é Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passa mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
Aos poucos, pode-se concluir que Lynch esteve decidido a não oferecer em quase momento algum a atmosfera de Twin Peaks que reconhecíamos, não apenas pelos cenários mais urbanos, como também pela quase ausência da trilha sonora de Angelo Badalamenti, tão marcante. À medida que a série foi avançando, ela jamais foi do agente Cooper, vagando pelo corpo de Dougie Jones; era de David Lynch apenas, como diretor, inclusive com seu agente Gordon Cole, apostando principalmente na estranheza.
A questão é que Twin Peaks nunca foi apenas estranheza nem diferença: ela sempre desconstruiu tudo a partir exatamente de uma imagem da vida padrão e clássica do interior dos Estados Unidos, iluminada por toques de surrealismo lynchiano e pela fotografia de Frank Byers. Esse era seu elemento diferenciador. Na nova temporada, Lynch se dedica especialmente à estranheza e a compor e explicar teorias por meio de seu estilo único, o que faz, muitas vezes, com notável êxito. Alguns desses temas mencionados remetem a Twin Peaks, sem dúvida, mas eram tratados de maneira subentendida nas primeiras temporadas, por meio do desenvolvimento dos personagens. Voltar à cidade que o espectador admirou, junto com seu personagem central, não era o foco: o Double R, o Greath Northern e a delegacia de Twin Peaks foram, de certo modo, reduzidos a cenários de nostalgia. Os bosques só eram vistos praticamente em tomadas aéreas (belíssimas, por sinal).

É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks, que houve episódios surpreendentes. O clima funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (nas melhores atuações em conjunto) e o 14.
A partir principalmente do episódio 10, Lynch alternou bons ou ótimos momentos com alguns irregulares. Não é o caso desde episódio 16. Este é um exemplo do que Lynch poderia ter feito toda a temporada. E, perto do final, Lynch traz de volta o personagem que sempre tornou a série Twin Peaks conhecida, independente de todo o seu universo riquíssimo: o agente Cooper. Afinal, em certo momento pensou-se que ele nunca voltaria a aparecer – se desconsiderarmos que nos 3 primeiros episódios desta temporada ele vaga pelo White e Black Lodges –, escondido no corpo de Dougie Jones. Foi extraordinário. Sim, muitos estavam acompanhando a temporada também para rever o personagem. Neste episódio, ele aparece hospitalizado depois do choque no episódio anterior. Cuidado por Janey-E (Naomi Watts), seu filho Sonny Jim (Pierce Gagnon) e Bushnell Mullins (Don Murray), ele recebe ainda em coma a visita dos irmãos Mitchum, Rodney (Robert Knepper) e Bradley (James Belushi), carregando flores, e de suas assistentes, Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal).  É um momento divertido e remete aos melhores momentos da atmosfera de Twin Peaks: humor e drama juntos. Depois de Bushnell ouvir o mesmo som de eletricidade que Benjamin Horne ouvia com sua secretária no Greath Northern e Gordon Cole estar em meio às máquinas do escritório do FBI no hotel, o agente Cooper finalmente acorda, recebendo um conselho do Homem de Um Braço Só (Al Strobel), além do anel da Coruja (possivelmente para tentar colocar no Mr. C, que tenta evitar sua volta ao Black Lodge). Depois de dizer que está 100%, alerta a um surpreso Bushnell quando este lembra que agentes do FBI estão atrás dele: “Eu sou o FBI”.

O início do episódio, no entanto, é puro Black Lodge. O duplo mal de Cooper, Mr. C (Kyle MacLachlan), anda por uma estrada noturna, nos moldes dos filmes de Lynch, e leva Richard Horne (Eamon Farren) a um determinado lugar para simplesmente conduzi-lo a um monte de pedra onde recebe uma corrente elétrica. Surge, ao longe, correndo nada menos que seu tio Jerry (David Patrick Kelly). Richard é um bom exemplo de como Lynch tratou alguns personagens esta temporada: depois de aparecer em relances durante alguns episódios, ele é morto – de maneira impactante – sem ter uma cena em conjunto com sua mãe, Audrey. De qualquer modo, Richard foi apenas um conceito de Lynch, não um personagem. E, apesar da grande atuação de Farren, uma boa revelação, nunca lhe foi entregue um roteiro à altura nem inter-ligações suficientes para agregar à mitologia da série.
Ao mesmo tempo, Mr. C contacta Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh) que estão em frente à porta de Dougie Jones em Las Vegas. Veem os irmãos Mitchum chegarem, para abastecer a casa dos Jones com alimentos, e carros do FBI à procura dele. No entanto, quando um homem (Jonny Coyne) os aborda para que tirem sua van da entrada de sua casa, Chantal acelera contra o carro dele. O problema é que o sujeito está mais armado que ambos e os aniquila com uma chuva de balas. Trata-se de um dos momentos mais impactantes da temporada de Twin Peaks, uma aula de direção de David Lynch, e lembra muito o estilo de Tarantino. Não por acaso, os dois atores, Roth e Leigh, participaram de Os oito odiados, e Lynch faz o mesmo que Tarantino aqui: numa manhã ensolarada, de assuntos banais sobre salgadinhos entre Hutch e Chantal, surge o inesperado para dois matadores. Em um bairro pacífico, temos quase a taverna de Bastardos inglórios. E, ao verem o tiroteio, os irmãos Mitchum comentam como as pessoas estão nervosas hoje em dia.

Depois de sair do hospital, o agente Cooper acelera seu carro, para felicidade de Janey-E e Sonny-Jim que finalmente o veem falar depois de semanas, mas, principalmente, volta o tema central de Angelo Badalamenti para a série, mostrando que ela não é a mesma sem Cooper. A maneira como Lynch filma essa sequência traduz uma emoção para os espectadores recolhida desde os anos 90. Eles vão para o cassino dos irmãos Mitchum, onde o agente Cooper se despede de ambos, dizendo que vai voltar, no mesmo espaço entre as máquinas de jogos na qual sua trajetória neste retorno iniciou. As palavras do personagem aos dois remetem às melhores falas das duas primeiras temporadas, com sentimento, mas sem maniqueísmo. Nesta sequência, está impressa a sensibilidade de Lynch, que faltou em alguns instantes mais ásperos da retomada desse universo, prejudicados por uma montagem irregular. Além disso, dá oportunidade a MacLachlan e Watts de mostrarem atuações irretocáveis, assim como Gagnon tem uma boa participação. Cooper pede que os irmãos Mitchum o auxiliem a voar para Twin Peaks, onde deve ir até a delegacia.
Enquanto isso, Diane (Laura Dern) recebe uma mensagem de que deve matar seus companheiros de FBI. Num elevador com fundo vermelho – como se viesse do Black Lodge –, e com a mesma música de fundo que introduz Mr. C no início desta temporada, ela vai até o quarto onde estão Gordon Cole (David Lynch), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) e Thammy Preston (Chrysta Bell) e conta que quando recebeu a visita de Cooper anos antes – já o duplo mal – aconteceu um incidente terrível, que a fez não ser mais ela. E, quando ela tenta disparar neles, Thammy e Albert atiram de volta. Diane desaparece no ar, como Laura Palmer no segundo episódio, indo para o Black Lodge. Diante do Homem de Um Braço Só, ela vai sumindo como Dougie Jones, não sem antes sublinhar para ele: “Fuck you”. Ela se transforma na mesma esfera de metal em que Dougie havia se transformado no terceiro episódio. Onde estaria a Diane verdadeira?

O espectador então é transportado para a Roadhouse, onde se apresenta Edward Louis Severson, mais conhecido como Eddie Vedder (numa grande performance, cantando “Out of sand”), quando Audrey Horne (Sherilyn Fenn) e seu marido Charlie (Cark Middleton) chegam ao local. Depois do show de Vedder, o apresentador anuncia a dança de Audrey. Todos da Roadhouse se afastam para abrir a pista a Audrey, que dança a mesma música de Badalamenti do episódio em que encontra Donna Hayward no Double R e é a participação mais antológica da personagem. No entanto, surge um homem puxando briga no bar – o sonho se converte em pesadelo – e vemos Audrey se olhando num espelho, sem maquiagem, como se acordasse. Será do coma? Tudo seria um sonho?
Este episódio 16 é um verdadeiro exemplo do que Lynch é capaz de fazer em termos de mescla entre drama, comédia, ação e mistério, com uma sequência irretocável de cenas, sem nenhum desequilíbrio. Ao contrário do episódio anterior, em que a história ficava em círculos, aqui ele consegue, mesmo em cenas vagarosas, dar uma solução adequada ao contexto dos personagens. Toda a tensão que cercava a tentativa de matar Dougie é solucionada de maneira ágil, o que se esperava há alguns episódios. Além disso, o simples regresso da trilha sonora de Badalamenti acentua a atmosfera de Twin Peaks, sem praticamente ter cenas passadas na cidade. É um grande momento, também, para o elenco: pela primeira vez, há um elo verdadeiro dos irmãos Mitchum com a narrativa, assim como a rápida conversa entre Cooper e Bushnell mostra o humor e afeto do agente do FBI desaparecido há 25 anos. É como se finalmente a série tivesse tido uma continuidade em relação ao último episódio da segunda temporada. Twin Peaks, como o agente Cooper, renasce novamente, depois de alguns impasses, antecipando os aguardados dois capítulos finais, que serão exibidos na próxima semana. E, assim se espera, antecipando uma quarta temporada.

Twin Peaks – Episode 16, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Pierce Gagnon, Naomi Watts, Robert Knepper, James Belushi, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Eamon Farren, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

David Lynch – A vida de um artista (2017)

Por André Dick

David Lynch é um dos melhores cineastas de todos os tempos e um documentário sobre sua arte e sua história se torna primordial, principalmente num momento em que uma de suas principais criações, Twin Peaks, voltou em grande estilo. Por isso, David Lynch – A vida de um artista tem, por um lado, atrativos consideráveis e, por outro, é um tanto decepcionante. Basicamente, ela tem os problemas de outra cinebiografia recente, Kurt Cobain: Montage of heck. Vemos o artista tratando de sua origem, de sua inclinação para a pintura, por meio da ajuda de Bushnell Keeler (finalmente sabemos por que há o Bushnell Mullins da nova temporada de Twin Peaks), pai de um de seus amigos, e revisitando memórias familiares envolvendo os pais, irmãos e vídeos particulares da primeira esposa Peggy com sua filha Jennifer, em meio às filmagens de sua primeira obra cinematográfica, Eraserhead, e fotografias com seu amigo Jack Fisk.

A grande questão é que não vemos Lynch, como naquele documentário sobre Cobain, se referir a suas influências. É como se ele fosse uma espécie de gênio (sob o ponto de vista romântico) cuja formação se deu independente de tudo. “Eu não gosto de sair”, ele diz em determinado momento, para concluir que gosta de “viver em seu mundo”, sugerindo um criador autônomo. Sabe-se o quanto Francis Bacon, Buñuel, Edward Hopper e Magritte, entre outros, contribuíram em sua formação, e nenhum deles é mencionado. Não se trata aqui de pedir uma explicação didática; trata-se de compor sua obra em diálogo como a dos outros. As lembranças que ele tem da infância – e dialogam com seus filmes, embora se possa acreditar que ele esteja também “contando histórias” para aproximar sua obra de sua vida – e dos pais são especialmente comoventes. É visível a tentativa que tinha de se aproximar, por meio do interesse pela arte, da expectativa familiar em relação a ele. Podemos ver, em muitas referências, as ideias originais para Veludo azul e Twin Peaks. Ficamos sabendo de sua juventude tumultuada, o que deve ter inspirado bastante na criação de personagens como Bobby, de Twin Peaks (a partir deste documentário, quase seu alter ego), e Sailor, de Coração selvagem. No entanto, falta algo.

Com direção de Jon Nguyen, Olivia Neergaard-Holm e Rick Barnes, este é um documentário guiado por Lynch. Não vemos ninguém falando dele; apenas Lynch se expressa, e o vemos pintando em sua casa em Los Angeles, também ao lado de sua filha pequena, Lula (nome da personagem de Coração selvagem e que rende algumas das melhores e singelas sequências), mostrando que ele é, mais do que um artista, um carpinteiro nos moldes daquela cultura que ele apresenta nas telas: do interior dos Estados Unidos e seus mistérios. Lynch mexe com furadeiras, tinta, pincéis, borrachas, fios, arames, tudo o que se encontra à frente para produzir arte. São imagens raras. No entanto, temos aqui um predomínio de seu trabalho pictórico que, todos que o acompanham sabem, o levou para o cinema. Pouco se vê de sua admiração pelo cinema em si. Parece que a pintura o levou para outro meio de expressão, sem nunca a abandonar, mas em nenhum momento ele considera o meio cinematográfico que o tornou conhecido tão importante quanto. Isso acaba soando deslocado mesmo para quem acompanha seus filmes. Não há na tela nenhum momento de Lynch falando de sua obra depois de Eraserhead.

É como se ele tivesse colocado essa obra inicial como síntese de tudo o que ele fez, o que não pareceria o mais adequado. Pode-se dizer que Eraserhead introduziu o trabalho de um diretor conhecido por seu surrealismo, mas que foi adentrando, obra a obra, na vida norte-americana em geral. A maneira como o filmam (numa cabine de som ou fumando e mexendo no cabelo) remete a seu estilo em geral, no entanto é pouco criativa em relação ao que apresenta em seus filmes. Ou seja, em se tratando de uma cinebiografia, que deveria captar de certo modo a essência de sua figura enfocada, há temas ausentes de maneira significativa. Gostaria muito de saber como Lynch se sentiu ao ser convidado por Mel Brooks a dirigir O homem elefante, depois de assistir a Eraserhead; como foram os conflitos e concordâncias com a família De Laurentiis em Duna e Veludo azul; o sucesso com Twin Peaks e a Palma de Ouro com Coração selvagem; e todas as experimentações em seguida na proximidade com a vanguarda mais ativa do cinema, além de seu envolvimento com a meditação transcendental, abordada em livros e palestras. E, para verdadeiros apreciadores de arthouse, Lynch foi indicado três vezes ao Oscar e recebeu uma Palma de Ouro, mostrando que grande cinema não se restringe a filmes e diretores ignorados por premiações. Não se deveria esperar pelo óbvio, pode-se apontar. Justo. A questão é que o trailer do documentário anunciava os títulos desses filmes em destaque, como se também tratasse deles.

Sendo Eraserhead seu ponto de partida e chegada, não temos aqui seu conhecimento de literatura visível, influência para seus roteiros, e sim o Lynch admirador da pintura. Outro detalhe interessante é por que o diretor apresenta pinturas que são colagens surrealistas, mas muito de seu cinema conversa com a pop art e cenários bem delineados, quase sem nenhum elemento que remeta a Eraserhead (falo especificamente de Twin Peaks e Coração selvagem). Trata-se, desse modo, de um documentário às vezes confuso no seu propósito e, embora eu entenda seus objetivos (manter-se como um artista misterioso), um tanto falho em sua execução. Mesmo que tenhamos Lynch falando de forma alegre do seu ingresso no American Film Institute e sua convivência com moradores na Filadélfia, além de ter uma conversa definidora com seu pai, talvez a lembrança mais significativa desse documentário, sabemos que haveria muito mais aqui a ser dito. O aprendizado mais uma vez deve ser buscado em sua obra.

David Lynch – The art life, EUA, 2017 Direção: Jon Nguyen, Rick Barnes, Olivia Neergaard-Holm Elenco: David Lynch, Lula Fotografia: Jason S. Trilha Sonora: Jonatan Bengta Produção: Jason S., Jon Nguyen, Sabrina S. Sutherland Duração: 88 min.

Uma beleza fantástica (2017)

Por André Dick

Com direção de Simon Aboud, Uma beleza fantástica tem sido recebido como uma espécie de versão inglesa de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Há realmente semelhanças em certo design de produção infantil e na ingenuidade da personagem central, Bella Brown (Jessica Brown Findlay), que foi abandonada quando bebê perto de um rio, sendo protegida por patos. Depois de ser criada por freiras, ela se torna bibliotecária e pretende escrever um livro infantil. Para quem tem uma origem relatada deste modo, não se torna estranho que ela deseje viver como uma escritora de fábulas, e nesse sentido o cineasta Aboud consegue costurar bem uma narrativa a princípio indefinida entre o humor mais raso e um drama profundo. Ele não possui a intensidade do filme de Jean-Pierre Jeunet, mas, de certo modo, possui a sua elegância em conectar as ideias.
O problema da vida de Belle é sua desorganização: ela não consegue ser pontual no trabalho e deixou seu jardim de casa chegar a um ponto de poder ser despejada. Isso contrasta exatamente com a mania de encaixar todos os seus alimentos perfilados de maneira exata nas prateleiras de seu armário de cozinha.

O seu vizinho, Alfie (Tom Wilkinson), bastante grosseiro, perde para Bella o seu cozinheiro irlandês, Vernon (Andrew Scott, o temível Moriarty da série de TV Sherlock), que se torna o melhor amigo dela. Isso acontece de modo abrupto, sem muitas explicações, até o espectador perceber os caminhos de Aboud: a maneira como ele apresenta a trama também possui certos elementos mais corriqueiros de uma fábula, às vezes parecendo, inclusive, não ser trabalhada o quanto deveria.
Enquanto isso, na biblioteca, a aspirante à escritora se interessa pelo inventor Billy (Jeremy Irvine), enquanto se desentende com a chefe, Bramble (Anna Chancellor). O inventor possui algumas criações notáveis, mesclando realidade e natureza, principalmente uma ave mecânica realmente impressionante. Aboud (curiosamente genro de Paul McCartney) oferece a cada sequência de encontro entre os dois um romantismo de fundo não exatamente inglês, mas europeu, dialogando com Rohmer em seus melhores momentos, mas imbuído de uma carga fantasiosa. Tudo vai depender de o espectador apreciar um determinado estilo de narrativa mais propositadamente leve e sem uma clara ambição de soar mais pretensioso. Alfie caracteriza bem isso, não apenas pela ótima atuação de Wilkinson, como pelo seu comportamento oscilante entre a inimizade e a tentativa de mudar a vida alheia.

Apesar de Findlay não ser especialmente simpática como requisitaria a personagem central, não conseguindo produzir uma personagem inocente na mesma intensidade alcançada por Audrey Tautou como Amélie Poulain, correspondente mais direto, deve-se destacar o elenco que a cerca, a começar por um excelente Wilkinson e um convincente Scott. Irvine parece se recuperar de sua estreia muito fraca como protagonista de Cavalo de guerra, de Spielberg, entregando uma atuação sensível.
Em seu início, Uma beleza fantástica é excessivamente exagerado e mesmo caricato, mas aos poucos os diálogos de Bella com o vizinho Alfie e seu pretendido levam a fotografia de Mike Eley a se mostrar realmente importante para o andamento de tudo. É um filme que parece despretensioso, mas guarda exatamente aquilo que Bella deseja escrever: uma história de fundo infantil que lida com a relação e a memória das pessoas, com uma busca pelo vínculo.

O jardim é uma metáfora transparente para as pessoas. Quando Bella e seu vizinho caminham em meio a ele, pode-se notar a primeira vez em que o muro que divide suas casas é colocado em segundo plano e eles passam a entender melhor o que se passa na vida ao lado. Aboud materializa essa ideia de maneira comovente, mesmo quando o espectador sabe exatamente o que poderá ocorrer aos personagens. Uma obra singela, como poucas se vê hoje em dia, com um certo sentimentalismo bem dosado, sem nunca diminuir a capacidade de o espectador entender a história, Uma beleza fantástica se torna, de forma insuspeita, num drama delicado sobre como mudanças individuais podem afetar todo o universo de pessoas ao redor.

This beautiful fantastic, ING, 2017 Diretor: Simon Aboud Elenco: Jessica Brown Findlay, Tom Wilkinson, Andrew Scott, Jeremy Irvine, Anna Chancellor, Eileen Davies, Sheila Hancock Roteiro: Simon Aboud Fotografia: Mike Eley Produção: Andrea Iervolino, Monika Barcadi, Christine Alderson, Kami Naghdi, Matt Treadwell, Iliane Ogilvy Thompson, Jennifer Levine, Norman Merry, Phil Hunt, Compton Ross Duração: 92 min. Estúdio: Ipso Facto Productions, Smudge Films

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 15) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Não parece ser mais surpresa que o pressuposto básico desta terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) é dialogar com o filme de 1992, cujo subtítulo é Fire walk with me, e explorar o conceito do duplo, já utilizado por Lynch em Estrada perdida, Cidade dos sonhos, Império dos sonhos e nas primeiras temporadas de Twin Peaks por meio de Laura/Maddie e Bob/Leland, além de ver os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens. A cada episódio, Lynch vem lidando com esses temas numa linha tênue entre o surrealismo e o simbolismo, com uma profusão de diálogos conceituais e cenas com gênero indefinido. O episódio 14 marcou o lado mais potencial desta temporada: o mistério da série em diálogo com histórias surpreendentes.
Neste capítulo 15, tudo começa com Big Ed Hurley (Everett McGill) conversando com Nadine (Wendy Robie), com sua pá de ouro em punho e querendo libertar o marido (lá se vão 25 anos), antes de ir ao Double R se encontrar com Norma Jennings (Peggy Lipton), que parece dar as costas para Walter (Grant Goodeve), seu novo interesse amoroso. Esses momentos são condensados por Lynch para solucionar o que esses personagens já sentiam desde as primeiras temporadas. Norma apareceu esporadicamente desta temporada e Big Ed apenas no episódio 13. Lynch não se mostra muito interessado em retomar esses personagens, e a participação deles soa como um toque de nostalgia, apesar das ótimas atuações de McGill e Robie. Um acréscimo é o visual dessas cenas, com cores vibrantes.

Logo em seguida, acompanhamos o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) numa estrada deserta, com os faróis iluminando a noite, até chegar a uma Loja de Conveniência. Ele é recebido por um woodsman, que o conduz até o segundo andar, a partir de onde suas imagens desaparecem. Mr. C entra num espaço com papel de parede cheio de flores, que remete ao sonho de Laura Palmer no filme Twin Peaks – Fire walk with me com um woodsman utilizando um aparelho de eletricidade, que víamos no Hap’s Diner quando Chester Desmond e Sam Stanley investigavam a morte de Teresa Banks. Ele é conduzido pelo woodsman que matou Hustings até o quarto onde estaria Phillip Jeffries. Lá, numa atmosfera assustadora, ele pergunta sobre Judy, a respeito da qual falava Jeffries no filme. Quem lhe responde é um sino gigante (com a voz de  Nathan Frizzel), semelhante ao que aparece no White Lodge. Transportado para a cabine telefônica que fica em frente à Loja, Mr. C é abordado por Richard Horne (Eamon Farren), que fala ser ele o agente Cooper, conhecido de sua mãe, Audrey. Se o episódio tivesse esse clima e elaboração seria ótimo. A imagem da Loja de Conveniência se mescla com a do bosque de Twin Peaks, onde se encontram Steven Burnett (Caleb Landry Jones), marido de Becky (Amanda Seyfried), e Gersten Hayward (Alicia Witt), aparentemente afetados por uma bad trip. O bosque sinaliza que há algo errado acontecendo com os dois, mas esse era o arco desenhado para dois personagens que mal se apresentaram? O melhor a se dizer é que Caleb e Witt têm uma ótima atuação, lembrando o drama de Cobain em Últimos dias. Um homem vê os dois e avisa a Carl Rodd (Harry Dean Stanton) do parque de trailers. A partir daqui, o episódio vai se perdendo.
James Hurley (James Marshall) reencontra Renee (Jessica Szhor), sua pretensão amorosa e casada. Depois de 25 anos, ele não descobriu uma maneira mais discreta de participar de uma conversa. Parece uma sina de James: ele também era amante de Laura e depois de Evelyn Marsh, para quem consertava carros na segunda temporada. Desta vez, por causa disso, ele se envolve numa briga de bar na Roadhouse, sendo auxiliado pelo amigo Freddie Sykes (Jake Wardle), que, com seu punho de borracha, machuca quem tenta espancar James. Ambos são levados para a delegacia, onde se encontram Chad Broxford (John Pirruccello), um homem bêbado (Jay Aaseng) e a mulher sem olhos (Nae Yuuki)  do episódio anterior.

Duncan Todd (Patrick Fischler) é assassinado a sangue frio por Chantal (Jennifer Jason Leigh) em Las Vegas, antes de ela dividir hambúrgueres com seu parceiro Hutch (Tim Roth) numa van e observar que Marte pode ser visto no céu, acima de fios de eletricidade, um diálogo certamente com as referências espaciais do Major Briggs e com o tom desse episódio, bastante melancólico.
Já Dougie Jones (Kyle MacLachlan) recebe outro pedaço de bolo de Janey-E (Naomi Watts), mas o roteiro deles parece ter se esgotado praticamente desde o episódio 6, ou seja, há quase dez capítulos não há uma evolução coerente. Neste, a parte mais interessante é quando Dougie sintoniza Crepúsculo dos deuses na TV e vê a personagem central do filme, Norma Desmond (Gloria Swanson), falando do produtor de cinema Gordon Cole. Dougie associa o nome ao antigo colega e se aproxima de uma tomada com um garfo colocando-o nela, até que há um clarão, que remete sobretudo a Império dos sonhos.
Muito se vem debatendo sobre a volta ou não de agente Cooper, que ainda vaga no corpo de Dougie Jones, tentando acordar. Alguns indicam que isso seria exigir uma concessão de parte de David Lynch. Tenho ainda em mente que Lynch, como grande criador, quis substituir o agente Cooper por seu agente Cole. Faz parte dele como artista querer isso. Se deu certo? Em certos momentos – até o capítulo 6, principalmente –, muito: Dougie de fato funcionou e Cole teve tiradas ótimas, reiteradas por sua fabulosa aparição no episódio 14. Mas, aos poucos, Dougie foi sendo deixado de lado, aparecendo mais nos episódios 11 e 13 – com Cole bastante presente a maior parte do tempo.

Nos episódios 8 e 14, dois dos melhores desta temporada, não há nem sinal de Dougie, e a impressão que se tem é que Lynch não explorou esse duplo totalmente, com prejuízos também à ótima personagem de Janey-E, que sustentou algumas cenas bravamente por causa do talento insuspeito de Naomi Watts. Havia espaço para desenhar um homem médio dos Estados Unidos, mas ficou num meio-termo. E cada vez que Lynch mostra seu duplo mal faz o espectador lembrar da imagem desagradável de encerramento da segunda temporada, o que me parece um equívoco de Lynch: Cooper é a imagem do equilíbrio de Twin Peaks e vê-lo sem poder agir como tal, a exemplo do seu próprio duplo do mal, confere um estranho destaque a este em detrimento daquele. Como admirador da série, entendo ter sido uma escolha equivocada de Lynch.
Já na delegacia de Twin Peaks, Hawk (Michael Horse) conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson), que lhe diz que está morrendo. Trata-se da cena mais emocionante do episódio, e Hawk avisa Andy (Harry Goaz), o xerife Truman (Robert Forster) Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e Lucy (Kimmy Robertson) como se fosse a despedida da atriz.

O problema novamente é que, a três episódios agora do fim desta temporada ou de Twin Peaks, o personagem de Audrey Horne continua a sua conversa com Charlie (Clark Middleton), que iniciou no episódio 12, e Sarah Palmer voltou a descansar depois do momento de violência impactante do anterior. Muitas, muitas perguntas e se espera que haja, sim, uma quarta temporada caso não tenhamos o desenvolvimento adequado para as histórias se concretizarem nesta. Alguns dos grandes méritos são a fotografia de Peter Deming e a atuação de MacLachlan. Mas, em termos de roteiro (e aqui Mark Frost também é responsável) e montagem, este episódio novamente se mostra bastante falho. Impressiona a irregularidade de Lynch ao montar os episódios desta temporada, desde o décimo pelo menos, independente de ele tratar tudo como um filme só (do qual apenas as cenas musicais na Roadhouse já tirariam o ritmo). Se o anterior colocava a história para a frente, este novamente deixa quase tudo em círculos. A participação de alguns personagens (até mesmo Audrey Horne, tão esperada ao longo de vários capítulos) soa dispensável, pois não há acréscimos.
Tudo novamente é muito conceitual, mas sem a devida formulação. É preciso admitir que, mesmo com momentos excepcionais (e um marco, o episódio 8), esta temporada não está cumprindo sua expectativa inicial, e mesmo que encerre com três grandes partes ficará sempre a sensação de várias tramas deslocadas e sem o devido desenvolvimento. O mais estranho é que Lynch soube fazer peças excepcionais, mas em outras simplesmente não conseguiu mostrar seu melhor talento. Percebe-se que os melhores momentos de seu trabalho possuem cenas longas e substanciais, com diálogos bem feitos, o que se ausenta praticamente aqui, com uma miscelânea de acontecimentos com detalhes interessantes, mas no todo desconjuntado. Chega a ser estranho: parece que de semana a semana a série vai mudando, mas não é uma falta de rumo experimental e interessante, e sim apenas desencontrada. Neste episódio 15, especialmente, há muitos equívocos no desenvolvimento. Fica até difícil aceitar que tudo se trata da obra de um mesmo diretor (as duas primeiras temporadas, com vários diretores, se sentiam com mais unidade). Um mistério como o próprio universo de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 15, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Peggy Lipton, Naomi Watts, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Everett McGill, Tim Roth, Kimmy Robertson, Jennifer Jason Leigh, Wendy Robie, Grant Goodeve, Catherine E. Coulson, Nathan Frizzel, Jessica Szhor, Eamon Farron, Harry Dean Stanton, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Patrick Fischler, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Charlyne Yi Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime