Deadpool 2 (2018)

Por André Dick

O grande filme de super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passou de Lanterna Verde a um herói mais cômico. A continuação começou a ser planejada logo em seguida, devido ao grande sucesso de bilheteria. E o diretor do original, Tim Miller, nesse meio tempo acabou se desentendendo com Reynolds e deu lugar a David Leitch. Ele teria pretendido fazer um filme como o primeiro, simples em termos de orçamento, indo contra a vontade do ator. Leitch dirigiu anteriormente duas peças de ação destacáveis, John Wick e Atômica. Ambos têm, além de uma ação dosada, um visual muito interessante, sobretudo o segundo.

Reynolds volta a fazer aqui um bom super-herói. Mais à vontade com a carregada maquiagem que exibe quando não está com a máscara, quando aparece como Wade Wilson, ele vem conseguindo se destacar até dramaticamente, em À procura, e parece ter entendido ainda melhor o timing do humor. As grandes qualidades de Deadpool 2 se devem, como no primeiro, à sua presença. Ele já começa em grande movimento, com o herói tendo de se enfrentar bandidos. Em seguida, ele reencontra a namorada Vanessa (Morena Baccarin), e logo adiante seu melhor amigo, Weasel (T.J. Miller), que trabalha num pub.
Se o primeiro filme tinha um bom ritmo até o fim de sua primeira metade, Deadpool 2, pela utilização de cenários variados e exatamente mais grandiosidade (que teria causado o desentendimento entre Reynols e o diretor do original), é uma obra de ação que retoma elementos de um humor despretensioso, apesar de sua variedade infinita de referências ao universo cultural (particularmente engraçada a analogia entre Frozen e Yentl, filme dos anos 80 com Barbra Streisand, e a lembrança de Instinto selvagem), além de voltar a mostrar o super-herói como uma peça menos importante do universo X-Men, na mansão Xavier, levando novamente à quebra da quarta parede, em gags que funcionam em boa parte. Para que Wade possa descobrir um lado que desconhecia (o de querer uma família), ele conhece o jovem mutante Russell Collins (Julian Dennison, outra vez mostrando o talento que exibiu em A incrível aventura de Rick Baker), revoltado com o diretor (Eddie Marsan, em breve participação, mas convincente) do orfanato onde vive.

Domino, alter ego de Neena Thurman (Zazie Beetz), é a personagem que surge para acompanhar Deadpool no terceiro ato inevitavelmente voltado a cenas de ação, ainda assim melhor dosado do que aquele do primeiro filme. O interessante é que o roteiro dos mesmos autores do original, apesar de previsível, principalmente depois da entrada do vilão Cable (Josh Brolin, muito bem em uma persona maquiada, mas sem digitalização), se mostra muito superior ao primeiro, em que havia um salto do primeiro para o segundo ato sem o preparo necessário.
O filme já inicia com uma referência a uma determinada influência que Deadpool teve no universo da Marvel. Estão de volta Colossus (Stefan Kapicic) e o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller buscava contato com o humor violento de Kick-Ass, mas Leitch, por ter mais apuro visual, consegue concentrar a violência sob um ponto de vista menos impactante e verdadeiramentes engraçado. Uma passagem em que Deadpool tenta guiar uma equipe é uma das mais cômicas do cinema recente. As sequências de ação têm ritmo próprio, porém não se apresentam de maneira a investir num exagero desproporcional; privilegiam a técnica e o embate corpo a corpo, uma especialidade do diretor já demonstrada principalmente numa longa sequência de luta de Charlize Theron em Atômica. O diretor de fotografia Jonathan Sela, o mesmo desse filme anterior de Leitch, desenha uma movimentação interessante com a câmera.

No primeiro, a impressão é que a aparente crítica corrosiva apenas procurava encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo elementos parecidos o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. Aqui o filme brinca exatamente em cima da própria metalinguagem: “segue uma cena de efeitos especiais”. É simples e funcional, e o personagem funciona sem a autoimportância de ser aquele que critica a indústria sob um ponto de vista bem-humorado: ele já explicita que faz parte dessa mesma indústria e suas gags são bem mais discretas e verdadeiramente sarcásticas. Deadpool 2, como o anterior, ainda deve bastante ao que Homem-formiga fez com precisão e agilidade, mas tem personagens à altura de seus objetivos. Se o primeiro arrecadou um valor extraordinário nas bilheterias, talvez este segundo não chegue ao mesmo. Com quase o dobro de custo do original, visto plenamente na tela, de qualquer modo, há algo decisivamente substancial nesta peça, uma espécie de visão familiar buscada pelo super-herói em diferentes passagens, até quando está tentando ser engraçado.

Deadpool 2, EUA, 2018 Diretor: David Leitch Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Jack Kesy Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, Ryan Reynolds Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds, Lauren Shuler Donner Duração: 119 min. Estúdio: Marvel Entertainment, Kinberg Genre, The Donners’ Company Distribuidora: 20th Century Fox

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O mito da liberdade (2010)

Por André Dick

O diretor David Robert Mitchell se tornou conhecido por seu brilhante suspense Corrente do mal. No entanto, sua estreia atrás das câmeras havia acontecido alguns anos antes com este O mito da liberdade, uma tradução um pouco problemática em relação ao original. Se há algum filme que soube conservar alguns elementos das experimentações de Linklater de início de carreira (em Jovens, loucos e rebeldes) e trazer sua própria visão, chegando a antecipar algumas abordagens, como as de As vantagens de ser invisível e Palo Alto, mais do que exatamente Harmony Korine, é este. Numa semana em que o filme mais recente de Mitchell, Under the Silver Lake, foi o mais vaiado até agora do Festival de Cannes, é importante retomar uma trajetória que parte do cinema underground dos Estados Unidos com talento poucas vezes visto. Há oito anos, O mito da liberdade estreava justamente no Festival de Cannes.
A história segue um grupo de jovens de um subúrbio de Detroit, que pretende aproveitar seu último dia de verão para, principalmente, chegar a algumas conquistas. Nada muito diferente dos filmes sobre jovens, adolescentes e a dificuldade de entrar na vida adulta. Mas Mitchell, como em Corrente do mal, possui uma visão poética dos detalhes que cercam a adolescência: em seu filme, tudo é discreto (talvez o contrário do que vemos em Linklater) e mesmo sem humor, fazendo com que o espectador nunca chegue muito próximo dos personagens (há poucos diálogos), no entanto nunca deixe de senti-los como reais.

Amanda Bauer é Claudia, uma corredora, um tanto interessada em provocar o namorado de uma amiga; Marlon Morton é Rob Salvati, que se apaixona por uma menina no supermercado e passa a procurá-la depois disso; Brett Jacobnsen é Scott Holland, irmão de Jen (Mary Wardell), que, ao olhar alguns álbuns de fotos, redescobre subitamente um interesse por duas irmãs gêmeas do colegial, Ady Abbey (Nikita Ramsey) e Anna Abbey (Jade Ramsey); e Claire Sloma é Maggie, uma menina que se interessa pelo rapaz que trabalha na piscina onde vai durante o verão, enquanto se dedica à dança. Todos esses personagens serão mostrados vagando à noite pelas calçadas do subúrbio, entrando e saindo de casas onde há reuniões, seja de rapazes ou moças.
Interessante como Mitchell privilegia um olhar melancólico, diferente do olhar de John Hughes em seus projetos iniciais, embora Clube dos cinco antecipe parte dessa reflexão juvenil, e mais ainda Superbad, embora Mottola desenhe para seus personagens uma descaracterização do adolescente comum. É um diretor que consegue extrair boas atuações, discretas e concisas, de um elenco inexperiente e que consegue ser efetivo. Ele tem uma ambientação muito bem feita, assim como Corrente do mal, até mesmo com elementos do outro filme (os lugares são quase sempre escuros e abandonados). Trata-se de uma espécie de despedida de uma fase, com mais sensibilidade do que costumamos ver. O último dia de verão e a noite que segue a ele podem definir o rumo de cada um.

O roteiro não tem um desenvolvimento complexo, mas a maneira como Mitchell filma essa noite (com a “festa do pijama” a que remete o título original) parece traduzir a sensação do verão e das descobertas de uma maneira que leva ao comedimento, não apenas com Maggie dançando em meio a uma festa, como também Scott tentando reviver uma nostalgia do colegial, e Rob querendo encontrar a menina que pode ser a sua futura namorada. Os olhares e toques importam mais do que a sensação de envolvimento, e pode-se ver também o quanto há cenas que inspiraram filmes mais pop, como Cidades de papel e Homens, mulheres e filhos (o casal se encontrando à janela). A fotografia de James Laxton, que se tornaria mais conhecido por seu trabalho em Moonlight – Sob a luz do luar, é verdadeiramente delicada, alternando a claridade ofuscante do dia com o mistério da noite que significa um rito de passagem para esses jovens enfocados.
O cenário do subúrbio dialoga, desse modo, com o sentimento dos personagens: as ruas vazias, algumas meninas andando de bicicleta, o barulho da festa, alguns adolescentes nadando num lago, meninas reunidas ao redor de uma mesa de sala, os rapazes jogando papel higiênico nas árvores (lembrando o videoclipe “1979”, do Smashing Pumpkins), o jovem que aprecia uma menina (Amy Seimetz) limpando o carpete da casa para depois encontrá-la, surpreso, numa banheira, o seu amigo que não consegue entender por que ele busca a mesma menina do supermercado. Mesmo em relação a uma série sobre essa fase, Freaks and geeks, O mito da liberdade se sente introspectivo, como se apenas mostrasse detalhes do cotidiano que irremediavelmente irão marcar a vida dos personagens-chave, mesmo que eles não deem a importância necessária ou mesmo não queiram saber. Mitchell se apresenta como um diretor e roteirista à altura desta visão realmente importante para o gênero.

The myth of the american sleepover, EUA, 2010 Diretor: David Robert Mitchell Elenco: Claire Sloma, Marlon Morton, Amanda Bauer, Brett Jacobsen, Nikita Ramsey, Jade Ramsey, Amy Seimetz Roteiro: David Robert Mitchell Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Kyle Newmaster Produção: Justin Barber, Michael Ferris Gibson, Adele Romanski, Cherie Saulter Duração: 93 min. Distribuidora: IFC Films

A noite do jogo (2018)

Por André Dick

As comédias sobre casais do subúrbio nos Estados Unidos envolvidos com problemas têm o seu principal referencial em Meus vizinhos são um terror, de Joe Dante, dos anos 80. Recentemente, tivemos Vizinhos nada secretos, um bom momento para a parceria entre Galifianakis e Gal Gadot, embora com muitos problemas de roteiro. Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein, responsáveis pela nova versão de Férias frustradas, bastante subestimada, fizeram o roteiro de Homem-Aranha – De volta ao lar e dos dois Quero matar meu chefe.
A noite do jogo tem, de certo modo, elementos de todos seus filmes anteriores, mas principalmente dos dois Quero matar meu chefe, por se passar quase totalmente à noite, o que ajuda a construir um clima específico. Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) adoram jogos e se conhecem num deles. Acabam se envolvendo e no momento atual pensam em ter um filho. Eles gostam de se reunir com os amigos Ryan (Billy Magnussen), Sarah (Sharon Horgan) e o casal Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury). No entanto, seu vizinho, Gary Kingsbury (Jesse Plemmons), não é mais convidado aos jogos depois de ter se separado da mulher, talvez pelo seu jeito curiosamente estranho. E Max também tem conflitos de rivalidade com o irmão Brooks (Kyle Chandler).

A partir de uma noite de jogo, Max os convida para que a próxima seja em sua casa. É quando ele explica que planejou um jogo diferente: um dos integrantes será sequestrado e os demais terão de encontrá-lo. Trata-se de uma premissa um pouco absurda, mas como nos demais filmes de Daley e Goldstein há uma preocupação principalmente com fazê-la funcionar, a cabo de muitas situações de humor absurdas e diálogos ultra-rápidos. Para isso, a colaboração dos atores é notável. Bateman é um dos atores mais subestimados de Hollywood: ele não tem nenhum talento interpretativo notável, mas é eficaz quando está em cena quase sempre, assim como em Quero matar meu chefe, além de ser um diretor competente (a julgar por Palavrões, por exemplo). Sua mania de nunca sorrir ou exagerar é justamente o que lhe oferece diversão. E McAdams, depois de uma sucessão de obras dramáticas, volta aqui ao que fez tão bem em Uma manhã gloriosa, no qual interpretava a produtora principal de um programa matinal nos Estados Unidos e precisava lidar com uma dupla de apresentadores egocêntrica interpretada por Harrison Ford e Diane Keaton.

O que chama a atenção no trabalho de John Francis Daley, o Sam Weir, personagem principal da exitosa série de TV Freaks and geeks (que aparece no início de A noite do jogo), e Jonathan Goldstein é justamente a habilidade em lidar com situações paralelas, a rapidez das cenas sem cair numa narrativa descartável e um espantoso maneirismo de colocar uma simples movimentação de câmera como algo essencial para se entender um filme (movimentação que se dá numa festa com referências a Django livre e Clube da luta). Eles trabalham com um roteiro de Mark Perez que parece ter sido feito por eles. De maneira geral, ambos sempre homenageiam lances do cinema, e há uma quantidade de gags nesse sentido em Quero matar meu chefe, mas também marcava presença no mais recente Homem-Aranha, com suas referências à filmografia de John Hughes, sobretudo Curtindo a vida adoidado e O clube dos cinco. Uma homenagem em forma de sátira a Denzel Washington é uma das melhores, no clima mais intensificado de Saturday Night Live. O cinema se torna uma metalinguagem, mas sem cair na obviedade, sendo ajudado pela trilha sonora eficiente do habitual colaborador de Nicolas Winding Refn, Cliff Martinez, o mesmo de Drive (e as cenas de perseguição de carro aqui são muito boas).

O personagem feito por Jesse Plemmons é significativo justamente por isso: ele é como se fosse o espectador que não está exatamente inteirado do que está acontecendo. O roteiro investe em reviravoltas que soam plausíveis dentro do contexto sem nunca apelar a uma necessidade de chamar a atenção para o fato de que o roteiro nunca explica devidamente seus pontos-chave, embora os personagens sejam pouco desenvolvidos e algumas soluções caiam planas. A história tem como principal base uma determinada obra de David Fincher, à qual não me refiro para evitar spoiler, e o diálogo é criativo e intenso na maior parte do tempo. Por outro lado, o filme com o qual A noite do jogo mais dialoga é Uma noite fora de série, com Steve Carell e Tina Fey, dirigido por Shawn Lewy, uma diversão descompromissada e arrasada pela crítica no início da década. A elaboração minuciosa de cada cenário noturno e a rota ente humor e ação é típica da obra de Lewy, hoje consagrado como um dos diretores e produtores de Stranger things. A química entre Bateman e McAdams funciona como a do casal dessa comédia de 2010, nos melhores momentos de uma comédia norte-americana dos últimos anos. Embora certamente dissociado de pretensões e uma elaboração hermética, A noite do jogo é um daqueles filmes agradabilíssimos aos quais se irá rever em reprises na TV.

P.S.: Tem uma cena pós-crédito.

Game night, EUA, 2018 Diretores: John Francis Daley e Jonathan Goldstein Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Billy Magnussen, Sharon Horgan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Jesse Plemons, Michael C. Hall, Kyle Chandler Roteiro: Mark Perez Fotografia: Barry Peterson Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: John Davis, Jason Bateman, John Fox, James Garavente Duração: 100 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Aggregate Films, Access Entertainment Distribuidora: Warner Bros.

15h17 – Trem para Paris (2018)

Por André Dick

Este é considerado por muitos o pior filme da carreira de Clint Eastwood. No entanto, há filmes de Eastwood considerados obra-primas e que sequer são bons, embora a média geral seja de grande qualidade. Sua obra mais recente se baseia numa história real, envolvendo Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, soldados dos Estados Unidos que viajam pela Europa, a fim de buscar diversão e descanso.
A história de 15h17 – Trem para Paris começa um pouco antes, mostrando-os desde a infância, quando tinham interesse por armas e eram mandados para a sala do diretor do colégio onde estudavam. Stone (interpretado então por William Jennings) e Alek eram mais próximos; depois, Sadler (Paul Mikél-Williams) se aproxima de ambos. Do mesmo modo, desenha-se a ligação de Stone com sua mãe Joyce (Judy Greer) e de Alek (Bryce Gheisar) com sua mãe Heidi (Jenna Fischer).

Esta interligação com eles ainda crianças mostra uma certa simpatia de Eastwood pela construção do herói improvável e seu filme é uma obra filmada como ficção, mas que poderia ser um documentário, já que conta com as figuras reais em ação na vida adulta. Inicialmente, se o espectador desconhece a história, a sensação é de Eastwood mostrar a cultura armamentista já visualizada no belíssimo Elefante, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Ao mesmo tempo, se quer mostrar a criação religiosa principalmente de Stone. Trata-se de um clima pouco visto na filmografia do diretor: o da infância, com alguns recursos nostálgicos de imagens no bosque, o contato com a natureza, diminuído depois pelos corredores do exército.
Afirma-se que, por isso, o elenco tem um tom amador, entretanto é justamente essa despretensão que torna a narrativa de Eastwood interessante. Há elementos de Sniper americano aqui, um movimento elegante de câmera e intensifica sua tensão no ato final com perícia de um grande diretor. Baseado no livro The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes, de Jeffrey E. Stern, Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, o roteiro de Dorothy Blyskal se caracteriza pela agilidade. A naturalidade dos acontecimentos dialoga muito bem com obras recentes sobre jovens militares, a exemplo de A longa caminhada de Billy Lynn e Honra ao mérito.

É possível apontar algum reducionismo na maneira como algumas situações são enfocadas, no entanto é inegável que Eastwood tem talento. O ambiente militar trazido por este filme e Sniper de certo modo se espalha pela trajetória do diretor. Temos, por exemplo, Firefox e O destemido senhor da guerra nos anos 80, assim como Cartas para Iwo Jima e A conquista da honra. Nesses filmes, Eastwood visualiza seus personagens de maneira a nunca tratá-los como uma extensão do discurso que existe por trás deles.
Talvez seja mais interessante desconhecer a história verdadeira antes de assistir a 15h17 – Trem para Paris, assim como não ver o trailer e ler críticas, que basicamente sintetizam o que ocorre. Não sabia o que iria acontecer (talvez eu tenha visto matérias na época do acontecimento, mas há fatos divulgados em tanta quantidade nos tempos modernos que notadamente acabamos não lembrando de todos) – e isso aumentou a tensão. O fato de ter sido demolido pela crítica diz muito mais desta do que da qualidade do filme, e talvez decorra do fato de o roteiro não trabalhar também o ponto de vista de quem leva a ação às consequências finais da narrativa. E do elenco Sadler é um inevitável destaque; mesmo interpretando a si mesmo, ele confere mais dramaticidade do que os outros.

O final pode se sentir muito formal e previsível, principalmente em relação à sequência-chave da história (com uma crueza bem trabalhada e uma sensação de combate iminente), no entanto poucos filmes falam de como uma pessoa comum pode se tornar verdadeiramente importante num determinado momento em que é requisitada a agir. Esse tema acaba dialogando diretamente com a bela obra anterior do diretor, Sully – O herói do Rio Hudson, com uma atuação magistral de Tom Hanks e um tom documental que não se deixava abater pela neutralidade ou alguma frieza diante dos acontecimentos. Eastwood, acostumado a faroestes clássicos no início de sua carreira e até especialmente a obra-prima Os imperdoáveis, deixa que as figuras enfocadas falem por si, e isso é raro no cinema norte-americano.

The 15:17 to Paris Diretor: Clint Eastwood Elenco: Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone, Judy Greer, Jenna Fischer,William Jennings, Paul Mikél-Williams, Bryce Gheisar Roteiro: Dorothy Blyskal Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Christian Jacob Produção: Clint Eastwood, Jessica Meier, Tim Moore, Kristina Rivera Duração: 94 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures, Malpaso Productions, RatPac-Dune Entertainment Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Submersão (2017)

Por André Dick

O diretor alemão Wim Wenders vem se afastando bastante de seu estilo empregado nos anos 70 e 80, e mesmo nos anos 90, só reiterado ainda no ótimo Estrela solitária, uma homenagem às pinturas de Edward Hopper, e seus documentários, a exemplo do magistral Pina. Pode-se lembrar de O amigo americano ou Alice nas cidades, dos anos 70, e O estado das coisas, Hammett, Paris, Texas e Asas do desejo, dos anos 80, para saber como Wenders conseguiu elaborar um cinema de arte e, ao mesmo tempo, com forte sentido de visual moderno. Nos últimos projetos, ele tem se concentrado em apresentar tramas sem muita complexidade. É o caso de Submersão. Na costa leste da África, o escocês e, a princípio, engenheiro de água James Moore (James McAvoy) é aprisionado por integrantes jihadistas. Ele lembra de quando conheceu, numa praia francesa, Danielle Flinders (Alicia Vikander), uma biomatemática que trabalha com experimentos ligados a mergulhos no oceano, prestes a experimentar as profundezas da Groenlândia a bordo de um minissubmarino.

Wenders se mostra sem muito sentimento nesta visão sobre um casal aproximado pelas lembranças e afastado pelas circunstâncias. É visível que ele possui algumas influências, e é inescapável a de Terrence Malick. Tem como base belas atuações de McAvoy e Vikander, no entanto demora a explorar os meandros de um roteiro baseado em romance de JM Ledgard. O casal inspira essa paixão, porém ela se encontra dispersa ou não se encontra simplesmente na tela: Vikander rende mais quando tem um roteiro como os de A garota dinamarquesa e O agente da U.N.C.L.E. no qual demonstra elementos como o bom humor, do que quando faz alguém mais introspectivo, como em Ex Machina. É curioso como McAvoy lembra aqui o estilo de atuação de Fassbender, com quem Vikander é casada e atuou em A luz entre oceanos. Basicamente, a trama paralela, localizada na Somália, é de James com Yusef (Hakeemshady Mohamed), um líder jihadista, e um médico (Alexander Siddig), além de um soldado, Saif (Reda Kateb), e a personagem de Vikander fica em segundo plano de modo estranho, com pouca participação dramática, apesar da tentativa de se inserir sua amizade com Thumbs (Celyn Jones), o que soa desajeitado.

A maneira como Wenders apresenta o personagem de James como um espião remete a alguns experimentos de Kathryn Bigelow, a exemplo de A hora mais escura, no qual também aparece o ator Kateb, contudo o diretor alemão não tem a mesma consistência dramática para revelar seu sofrimento. A relação do casal a distância poderia conviver com Até o fim do mundo, um de seus melhores filmes dos anos 90, não fosse a montagem um tanto previsível e linear demais, tentando compor sentimentos por meio de enquadramentos estáticos.
O navio onde está Danielle remete, por um lado, ao filme A vida marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson, assim como ao Filme socialismo, de Godard, mesmo que não haja a mesma profusão visual, assim como o final tenta capturar uma espécie de mergulho de uma estrangeira no continente europeu, sempre aberto à mudança, e pode-se dizer que em certos momentos lembra de Mediterrâneo, dos anos 60, quando Wenders filma o vento nas árvores do hotel em que o casal se hospeda.

A fotografia de Benoît Debie, o mesmo do belíssimo Enter the void, de Gaspar Noé, é notável, porém, de modo surpreendente, Submersão não tem um design de produção criativo, uma especialidade de Wenders. Quando ele é mais elaborado, sente-se um pouco deslocado, como o próprio lugar onde James fica preso, com uma série de jogos de luz que tira a realidade da situação, ao mesmo tempo que tenta soar mais literal. Isso faz com que os personagens, como é comum em seus melhores filmes, também se traduzam pelos cenários, mesmo que aqui a água represente o vínculo entre ambos. Também se visualiza a correspondência entre o vento nas árvores e nos rochedos do mar, como se os personagens fossem extensões da natureza – e o final deixa claro que uma reação humana pode ser a reprodução de outra, seja em qual parte do mundo estiver. Nesses pontos, Wenders reproduz o que fez seu cinema tão conhecido e respeitado principalmente nos anos 70 e 80 e se lamenta que ele não consiga elaborar melhor seus diálogos, ficando preso demais a termos técnicos. Por instantes, é possível perceber que tudo foi rodado meio que às pressas. Em meio a isso, Submersão vale a pena ser assistido, mas sem muita expectativa.

Submergence, EUA/FRA/ESP, 2017 Diretor: Wim Wenders Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy, Hakeemshady Mohamed, Alexander Siddig, Alex Hafner, Celyn Jones, Reda Kateb Roteiro: Erin Dignam Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Fernando Velazquez Produção: Cameron Lamb Duração: 112 min. Estúdio: Backup Films, Lila 9th Productions, Morena Films, Waterstone Entertainment Distribuidora: Mars Distribution, Antena 3, Samuel Goldwyn Films

Um lugar silencioso (2018)

Por André Dick

Todos os anos há um filme de suspense ou terror que acaba chamando a atenção do público e da crítica em especial. Em 2016, foi A bruxa; em 2017, Corra!Ao cair da noite. Em 2018, parece ser o caso de Um lugar silencioso, estreia na direção do ator John Krasinki, que também aparece no filme. Passada em 2020, a história mostra que a humanidade foi quase extinta por criaturas alienígenas com audição hiper-desenvolvida, por meio da qual alcançam as pessoas para matá-las. Krasinki interpreta o pai da família Abbott, Lee, casado com Evelyn (Emily Blunt) e que tem como filhos Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e Beau (Cade Woodward).
O início da obra já mostra uma espécie de cenário que remete a Ensaio sobre a cegueira, a adaptação de Fernando Meirelles para José Saramago e, se Lee é uma extensão em situação delicada do personagem que fazia Krasinki em Sob o mesmo céu, também parece o pai de Guerra Mundial Z, preocupado com a família e fazendo cálculos para a sobrevivência. Eles vivem numa fazenda, que remete a American fable e Sinais, ao mesmo tempo que não podem ficar tranquilos: qualquer ruído pode atrair as criaturas.

Neste universo de silêncio ao qual o título do filme já remete, Krasinki constrói um suspense a princípio interessado e mesmo antimainstream, baseando-se nas reações físicas dos personagens, nos gestos contidos pela situação desesperadora. É onde o ator-diretor se sai melhor. As atuações que extrai de Blunt (sua esposa na realidade), Millicent Simmonds e Noah Jupe são ótimas. Blunt já mostrou seu potencial muitas vezes, mas Simmonds e Jupe são revelações recentes. Surda na vida real, ela esteve no ótimo e subestimado Sem fôlego, enquanto Jupe esteve no subvalorizado Suburbicon, de George Clooney, e interpretou um dos amigos do garoto menosprezado pela aparência de Extraordinário.
Krasinki tem competência e sorte em contar com esses talentos para contar uma história que, de outro modo, poderia passar despercebida. Os símbolos utilizados por ele na narrativa são excessivamente previsíveis e quase toda cena remete a outras obras, como Jurassic Park, Guerra dos mundos e Aliens – O resgate.  Não ajuda que ele situe os personagens de maneira rápida demais, tentando empregar, ao mesmo tempo, referências religiosas, como já havia conseguido o diretor de Ao cair da noite, parecido com este Um lugar silencioso e substancialmente melhor. Deve-se dizer, por outro lado, que não haver quase falas no roteiro (os personagens se comunicam praticamente pela linguagem de sinais) não tira dele uma narrativa esclarecida, talvez até demais. Além disso, a trilha sonora do habitualmente discreto Marco Beltrami tenta inflar as cenas destituídas de outros sons humanos.

A ideia de Krasinki é interessante, assim como a maneira com que enxerga o mundo numa situação irremediavelmente inusitada. Porém, se ele mostra até certa competência no tratamento das imagens, com a bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen, vista em trabalhos recentes de destaque, como A grande jogada, A garota do trem e Longe deste insensato mundo, ele não consegue afastar suas criaturas do palco que remete imediatamente a Cloverfield e Stranger Things, dos experimentos mais recentes. Chega a ser cansativa a maneira como ele joga a todo instante com obras que o inspiraram. Tudo acaba sendo uma espécie de extensão de algo já visto, embora tente inovar na maneira como as situações são tratadas. Aos poucos, o espectador vai percebendo que há artifícios insustentáveis mesmo para um filme que joga no limite entre o suspense, lances de terror e fantasia, embora os alienígenas sejam plausíveis para uma obra de orçamento até certo ponto limitado.

A dinâmica familiar, de qualquer modo, é muito boa, não apenas pelo elenco, como pela humanidade de Krasinki, um ator que vem de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi, de Michael Bay, um dos produtores de Um lugar silencioso. Ele tem uma maneira de atuar um tanto desajeitada, mas é justamente ela que lhe concede um estilo diferenciado. Mais conhecido pela participação na série de TV The Office, seu melhor momento no cinema, além desse filme de guerra de Bay, é Distante nós vamos, em que ele compõe, com Maya Rudolph, um casal querendo criar raízes em algum lugar para criar seus filhos. De certo modo, é a essência da narrativa de Um lugar silencioso e seria retribuída do melhor modo não fosse por certa previsibilidade de condução e exageros no ato final para justificar tudo. No momento derradeiro, Krasinski está apenas fazendo o que os diretores fazem em Hollywood: tentar estabelecer uma franquia, o que diminui bastante sua tentativa de fazer um trabalho até certo ponto autoral e limita a atuação de seu elenco de alta qualidade.

A quiet place, EUA, 2018 Diretor: John Krasinski Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward Roteiro: Bryan Woods, Scott Beck, John Krasinski Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller Duração: 90 min. Estúdio: Platinum Dunes, Sunday Night Distribuidora: Paramount Pictures

 

Jogador Nº 1 (2018)

Por André Dick

Há sete anos, Steven Spielberg realizou seu primeiro desenho animado, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerraLincoln e Ponte dos espiões, ele regressou com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. No ano passado, Spielberg fez o “Oscar bait” The Post – A guerra secreta, chegando, talvez, a seu limite como realizador de obras guiadas por fatos, através de um veículo com o objetivo de buscar nomeações a prêmios e sem a devida autenticidade.

Menos de meio ano depois, ele regressa ao universo pop com Jogador Nº 1, baseado em romance de Ernest Cline. A história mostra o jovem Wade Watts (Tye Sheridan), que vive a maior parte do tempo em seu avatar, Parzival, dentro da realidade virtual intitulada Oasis, criada por James Haliday/Anorak (Mark Rylance), com a ajuda de Ogden Morrow (Simon Pegg). Morando em Columbus, Ohio, ele está interessado por uma garota participante do jogo, chamada Art3mis, ou melhor, Samantha Cook (Olivia Cooke), que o ajuda numa missão determinada com amigos Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), em busca de um “easter egg”, e pretende descobrir o que pretende Nolan Sarrento (Ben Mendelsohn). Sarrento quer ter o domínio sobre Oasis, com a colaboração direta do monstro i-R0k (TJ Miller). A história se passa em 2045, quando toda a terra parece ter sido erguido sobre favelas – embora os primeiros momentos lembrem mais Speed Racer, das irmãs Wachowski, e uma estranha movimentação de edifícios lembre A origem, de Nolan.

Se O bom gigante amigo trazia imagens que mesclavam as árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau, Jogador nº 1 é uma coleção de referências cinematográficas diversas. O início remete a De volta para o futuro (com Watts num DeLorean) e King Kong, além de i-R0K ter um peito em forma de caveira, aquela da caverna de Indiana Jones e o templo da perdição, e há uma passagem fantástica (spoiler a seguir) que insere o espectador nos corredores e quartos do Overlook de O iluminado. Trata-se de um alívio, pois finalmente se sabe onde Spielberg estava nas filmagens de The Post: filmando na verdade Jogador Nº 1.
À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar de maneira brilhante, Spielberg desenha um universo atrativo. Jogador Nº 1, ao contrário dos cenários pálidos dos últimos filmes do cineasta, é um primor de concepção visual e remete ao melhor da configuração em video game já mostrada no cinema, a de Tron. A ambientação da casa de Wade Watts – que diz ter sido assim batizado como um Peter Parker ou Bruce Banner – lembra as de Minority Report e A.I., misturando cores soturnas e uma conjunção de imagens computadorizadas. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, ele localiza aqui a de solidão não da infância, como em Império do sol, e sim da adolescência. Em seu roteiro, os jovens não têm praticamente uma “vida real”: eles sobrevivem por meio do jogo. Nisso, os anos 80 povoam o imaginário do filme, também musicalmente, com “Jump”, do Van Halen, por exemplo, assim como numa festa temos New Order.

Misturando imagens de video game e atores reais – que lembra em alguns instantes o subestimado Warcraft –, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, Jogador Nº 1 não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. Graças às atuações de Sheridan e Cooke, o cineasta consegue entregar certa dramaticidade a partir dessa ideia, embora não extraia notas diferenciadas de Mendelsohn (praticamente o vilão do cinema atual) ou Pegg (um pouco subaproveitado). Talvez se lamente que os atores não apareçam tanto como suas peças virtuais, pois todos exercem uma química em conjunto. Ao contrário do que demonstra no quase desastroso The Post, Spielberg se sente à vontade de regresso à cultura pop que ele ajudou a organizar, desta vez com a colaboração na trilha de Alan Silvestri no lugar de John Williams, que já concede um ritmo diferente – e faz várias referências a seu trabalho em De volta para o futuro. As cenas de ação se sentem vívidas, como aquelas de As aventuras de Tintim, com um senso de realismo mesmo na irrealidade representada.

Talvez ele tenha sido aqui o que menos se revela ultimamente: um autor até discreto. Em poucos momentos, ele homenageia a si mesmo. Ele prefere fazer reverência aos filmes oitentistas de John Hughes, Robert Zemeckis (um de seus “alunos”) e coloca O gigante de ferro, da animação dos anos 90 de Brad Bird, como uma espécie de exterminador do futuro de James Cameron. Em termos conceituais, o roteiro de Zak Penn não traz nada de especialmente relevante, com uma mensagem até previsível, porém Spielberg não se mostra aberto ao excesso de sentimentalismo que por vezes desconcerta sua obra, principalmente ao final. Ele prefere se basear na ideia de um universo múltiplo, uma espécie de Avatar adolescente, para retomar elementos que foi esquecendo ao longo dos últimos anos, praticamente desde o contestado Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Há uma certa despretensão bem-vinda, com uma intensidade notável até a primeira parte, que conduz tudo a um desfecho direto e sem contorcionismos para enfeitar esse universo.

Ready player one, EUA, 2018 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller Simon Pegg, Mark Rylance Roteiro: Zak Penn Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Steven Spielberg, Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger Duração: 140 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, Village Roadshow Picture, De Line Pictures, Farah Films & Management Distribuidora: Warner Bros. Pictures

The Square – A arte da discórdia (2017)

Por André Dick

O premiado pela Palma de Ouro em Cannes 2017, The Square – A arte da discórdia, traz à cena a discussão artística, em torno do curador do museu X-Royal, em Estocolmo, Christian (Claes Bang), que pretende tornar o lugar numa referência de vanguarda. O diretor Ruben Östlund, como em Força maior, utiliza o personagem central como uma referência para explorar temas relacionados à estrutura da sociedade. Inicialmente, Christian tem sua carteira e smartphone furtados na rua, e ele consegue rastrear as peças roubadas, chegando a um bloco de apartamentos na periferia. Junto com o funcionário Michael (Christopher Læssø), ele deixa uma carta ameaçadora a todos os moradores para ver se as obtém de volta.

Isso é apenas uma justificativa para Östlund brincar com um homem que parece inserido na vida artística, no quadrado conceitual que guia a narrativa, e se dilui em discursos desconexos de sua realidade. Neste quadrado, “todos compartilhamos direitos e obrigações iguais”. Ora, sabemos quem Östlund está satirizando. A mania de enquadrar indivíduos é própria de um sistema do qual eles não podem mais sair, e o diretor empreende essa ideia literalmente, colocando o quadrado como um dispositivo para determinadas sequências: desde o momento em que se coloca uma marcação em neon diante do museu ou quando Christian chega em casa e há um quadro na parede com o mesmo formato daquele que é usado como símbolo artístico.
É como se o quadrado fosse o lugar em que esses personagens na verdade habitam, mas quando escapam deles a realidade prepondera. Veja-se a sequência em que Christian pula uma janela, como se ela fosse um quadrado, para chegar a detritos de lixo. Para Östlund, o museu tenta esconder essa realidade, utilizando o pó (da existência, como numa de suas exposições) ou as cadeiras empilhadas como símbolos de que a realidade existe ali apenas de forma indireta. Ou seja, quem entende essa farsa literalmente talvez não chegue ao que o diretor quer mostrar: ele revela, por meio de um homem longe de problemas reais, apesar de servir a pessoas necessitadas com lanches ou gorjetas, uma certa casta que vive encastelada com discursos que querem exatamente dominar a sociedade que desconhecem. Não se duvide que, por meio do museu, Christian acredita estar na vanguarda da sociedade. O seu discurso evidencia isso.

No meio do caminho ele se envolve com uma jornalista, Anne (Elizabeth Moss), que parece viver no mesmo apartamento de Sr. Oscar de Holy Motors, o que significa o salto do personagem para o universo que gostaria de entender e não entende, mesmo no relacionamento com as duas filhas pequenas: o feminino. Logo na sequência inicial, quando ambos se conhecem e ela utiliza uma citação dele, sem nexo algum, sobre a arte, ambos os personagens se definem: ela surge como que para descortinar esse homem por trás da figura do museu. Numa sequência significativa, ele fica com receio de que ela possa querer, num subterfúgio, engravidar dele, e a atitude dela é equivaler o comportamento a uma das tantas peças que habitam o museu.
No entanto, nisso, em meio aos resíduos de obras do museu e uma performance primata de Oleg (Terry Notary, o mesmo que fez os movimentos do gorila gigante de Kong – A Ilha da Caveira), The Square mostra que tudo que foge à segurança do quadrado pode também incluir peças descartáveis. O filme busca uma certa crítica corrosiva a peças que se consideram provocativas, mas, no fim das contas, se inserem apenas no mesmo establishment que contestam. Nisso, inclui-se o discurso de Christian, em determinado momento, ao telefone. Não se trata de uma crítica previsível a curadores de museu; trata-se de um olhar sobre a sociedade a partir da estrutura de um museu. Uma das cenas mais divertidas é aquela em que o público aguarda ansiosamente que o discurso de Christian termine para que possam jantar (e é em outro jantar que acontece a cena-chave, já referida, da obra de Östlund, na qual o artista Julian (Dominic West) é desafiado).

The Square não é sem falhas: há alguns problemas de transição e nota-se que há cenas deixadas na sala de edição para que isso aconteça, além de a personagem da jornalista não ser totalmente aproveitado, levando em conta que Moss está excelente. Porém, sua temática consegue se sobressair a esses problemas. Não por acaso, Östlund insere uma criança para ser a peça-chave desse caos que o personagem pretende causar, que não afete nunca, claro, a sua vida. O comportamento do curador é desproporcional diante da reação de uma criança, mas são reflexos um do outro. Numa sequência impactante, ao final, Christian vê suas filhas participarem de uma apresentação de colégio dentro de um enorme quadrado. Quando saem de lá, ele volta ao mesmo bloco de apartamentos da periferia, que remete bastante a Caché, de Michael Haneke, outro vencedor da Palma de Ouro, em 2005. Ou seja, da segurança ilusória proposta pelo quadrado, em que todos seriam iguais, ele se estende para a realidade. O olhar da filha de Christian, por baixo do boné, é o dele próprio, no círculo de sempre, do discurso que visa à transformação de tudo e todos e termina, conscientemente, no mesmo lugar.

The Square, SUE/ALE/FRA, 2017 Diretor: Ruben Östlund Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Dominic West, Christopher Læssø Roteiro: Ruben Östlund Fotografia: Fredrik Wenzel Produção: Erik Hemmendorff, Philippe Bober Duração: 151 min. Estúdio: Plattform Produktion, Coproduction Office Distribuidora: TriArt Film

A melhor escolha (2017)

Por André Dick

Depois de Boyhood e Jovens, loucos e mais rebeldes!!, o imprevisível Richard Linklater volta seu olhar para a Guerra, seja a do passado, seja a do presente, em A melhor escolha. Para isso, adapta um romance de Darryl Ponicsan, com a ajuda do próprio autor, relatando a história de Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell), que primeiro vai ao encontro de um antigo amigo com quem serviu no Vietnã, Sal Nealon (Bryan Cranston), atualmente dono de um bar. Ambos viajam para encontrar outro companheiro, Richard Mueller (Laurence Fishburne), que se transformou num pastor. Num jantar na casa de Mueller, onde conhece a esposa dele, Ruth (Deanna Reed-Foster), Doc revela que precisará da ajuda emocional dos dois para que possa enterrar seu filho, que acabou de perder na Guerra do Iraque. Para isso, eles precisam ir para uma base aérea localizada em Dover. Doc pretende se insurgir contra a ideia de uma homenagem militar nos moldes padronizados antecipadamente.

Linklater utiliza um argumento bastante simples para mostrar a complexidade do sistema norte-americano, voltado a uma tradição de guerra, e seu filme é quase um complemento de A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, além de travar um diálogo com A última missão, de Hal Ashby, dos anos 70, adaptado de um livro também de Ponicsan e que serve como prelúdio desta história. Em 2017, o roteirista de Sniper americano, Jason Haal, também dirigiu o interessante Thank you for your service, ainda inédito no Brasil, com Miles Teller, sobre três jovens que regressam da Guerra do Iraque com traumas em suas vidas, e também esta obra pode dialogar com o de Linklater.
A melhor escolha cresce quando mostra Charlie Washington (J. Quinton Johnson), o amigo do filho de Doc, que está presente na chegada do corpo e tem revelações a fazer sobre o que teria acontecido, contra a vontade do tenente coronel Willits (o ótimo Yul Vazquez), mas ainda mais mostra seu êxito com a química entre Carell (ator múltiplo, capaz de na mesma temporada entregar essa atuação e a de A guerra dos sexos), Fishburne e Cranston, os três extraordinários, que valeriam o filme por si só. Interessante como Linklater mostra os militares norte-americanos, longe do bom humor com que normalmente revela em suas peças sobre a juventude. Também não há nenhum sinal de suas experimentações com o universo da animação ou alguma nostalgia romântica que vemos em sua trilogia com Hawke e Delpy. E, embora Boyhood tenha inclinações políticas bastante claras, elas eram sobrepujadas pela narrativa existencial. A interação entre esses personagens lembra os melhores momentos de qualquer obra de Linklater, seja em seu descompromisso, seja em seu rigor com um certo sentimento perdido no tempo.

O filme poderia muito bem ficar numa certa teatralidade, com um número considerável de diálogos, mas o elenco exerce um atrativo muito grande e consegue tornar os temas mais evocativos do que se imaginava. Os companheiros são diferentes e complementares: Doc é discreto, Sal é um falastrão e Richard não tem praticamente nenhuma característica de quando os conheceu. O passado aqui se repete em ações e sob um céu soturno, que abre, no entanto, espaço para uma amizade que foge aos limites de tempo. Há um aproveitamento de cenários internos como se vê em poucos filmes, assim como uma espécie de transição entre lugares diferentes que remete também ao modo como os personagens se sentem, um tanto desamparados, com o auxílio de Shane F. Kelly, habitual diretor de fotografia de Kelly.
Os conflitos no que se refere a questões cotidianas, sociais ou políticas se concentram na humanidade que muitas vezes passa sem que se note. Nesse sentido, A melhor escolha trabalha uma visão social sobre a sociedade dos Estados Unidos, em suas angústias e expectativas diante de uma tradição de guerra. Os personagens parecem resistir para passar esse bastão adiante, também por meio de seus filhos, e é quando o filme de Linklater talvez melhor se expresse em sua visão sobre a solidão de oportunidades para uma reconciliação. Possivelmente é o momento mais político do diretor ao lado de Nação fast food – A rede de corrupção, na qual mostrava como a indústria de carne se fazia no interior dos Estados Unidos. Essas duas obras dialogam não exatamente pelo tema e sim por seus personagens em busca de uma explicação para sua existência, o que traz sempre um material muito amplo no caso de um cineasta talentoso e que apenas nesta década entregou uma obra-prima como Boyhood. A melhor escolha foi um dos filmes mais subestimados da temporada do Oscar, um verdadeiro encontro entre amigos que precisam redescobrir seu rumo.

Last flag flying, EUA, 2017 Diretor: Richard Linklater Elenco: Steve Carell, Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Deanna Reed-Foster, J. Quinston Johnson,Yul Vazquez Roteiro: Richard Linklater e Darryl Ponicsan Fotografia: Shane F. Kelly Trilha Sonora: Graham Reynolds Produção: Ginger Sledge, John Sloss Duração: 124 min. Estúdio: Amazon Studios, Big Indie Pictures, Detour Filmproduction Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate