O outro lado da esperança (2017)

Por André Dick

O outro lado da esperança mostra a história de Khaled Ali (Sherwan Haji), um refugiado da Síria que escapou de Aleppo, fugindo num cargueiro de carvão, até chegar a Helsinque. Levado por funcionários da imigração, ele conhece o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon) e, mais tarde, a equipe de um restaurante, Golden Pint, coordenado por Wikström (Sakari Kuosmanen), o qual acabou de se separar de sua esposa (Kaija Pakarinen) e tem entre os seus empregados Lugbrious Greeter Calaminius (Ilkka Koivula), Nyrhinen (Janne Hyytiainen) e a garçonete Mirja (Nuppu Koivu), além de um cão. O segundo encontro (o primeiro é logo no início, imprevisto) entre Khaled e Wikström é, no mínimo, inusitado: se o segundo conseguiu o restaurante depois de várias rodadas de pôquer, seu jogo preferido, o primeiro poderia ser apenas mais uma parte do jogo em que poucos ganham.

Se a temática da imigração fica clara desde o início (o diretor já a havia utilizado no sua obra anterior, O porto), em que Ali chega à cidade com o rosto coberto de carvão depois da longa viagem, mais interessante é como o diretor Aki Kaurismäki conduz tudo para o ambiente cinza de uma delegacia de polícia. Esta jornada não pode ser interrompida como a de Oscar durante a noite em Holy Motors, nem possui os enigmas do recente Most beautiful island, sobre uma imigrante espanhola em Nova York, mas se reproduz em vários espelhos e pelas ruas de Helsinque.
Trata-se de uma mistura de David Lynch, Cristian Mungiu, Kiarostami e Ceylan com um humor enviesado capaz de dialogar com o melhor Wes Anderson e Jim Jarmusch, uma das grandes surpresas do ano, com fotografia repleta de nuances de Timo Salminen. Não raras vezes, parece que estamos acompanhando um filme antigo, o que se reproduz em seus traços e configurações mais próximos do cinema clássico dos anos 50. É curioso como o diretor nunca torna o peso dessa temática com tom grave, semelhante ao que Michael Haneke faz, por exemplo, na obra-prima Caché: seus personagens são leves e, por vezes, despretensiosos. Ele tem pontos muito mais claros com o ótimo A igualdade é branca, de Kieslowski, no qual um polonês se casa com uma francesa e se vê às voltas com a solidão.

O outro lado da esperança tem referências lynchianas determinadas, a começar por seu pôster, que lembra A estrada perdida, mas principalmente na trajetória errante de seu personagem central durante noites a fio, lembrando Veludo azul (principalmente na excentricidade do restaurante, com uma imagem de Jimi Hendrix), esperando por um raio de luz e encontrar a sua irmã, Miriam (Niroz Haji), da qual tanto gosta. Sua amizade com o dono do restaurante não tem nenhum movimento da loucura focada por Lynch em Lumbertown ou Twin Peaks, porém conserva um certo ar de deslocamento europeu e fraternidade insuspeita, precedida por uma briga de tom cômico. O restaurante Golden Pint conserva uma aura quase onírica, não apenas porque seus personagens parecem desconectados da realidade, como pela atenção ao aspecto visual que o diretor dá às mesas e aos quadros espalhados pelas paredes. Do mesmo modo, as caminhadas e viagens de ônibus que o personagem central tenta fazer sempre são interrompidas por um preconceito indisfarçável e brutal. Diante de tudo, a figura de um cão, pertencente ao restaurante, parece antecipar o que a humanidade em torno não empresta.

Há uma mistura entre sensibilidade, principalmente na maneira como o personagem enfrenta esse preconceito nas ruas de Helsinque, e a amizade com pessoas com quem, a princípio, se desentende. Em certos momentos, principalmente aqueles que mostram um cenário mais desolado, sem perder a esperança, o filme dialoga com O direito do mais forte, de Fassbinder, embora num tom menos pessimista e mais bem-humorado. No filme de Fassbinder, o personagem central, interpretado pelo próprio diretor, era explorado duplamente por causa de seu dinheiro; aqui, o personagem não possui recursos financeiros, porém é severamente perseguido por um passado nunca explicado. Também dialoga com outro filme do diretor alemão, O medo consome a alma, sem a carga de relacionamentos, por outro lado. Sherwan Haji tem uma atuação excepcional, ressonante, interligando todos os pontos. O que mais comove é seu otimismo mesmo diante das situações mais difíceis. Não há carga dramática para se tornar apelativo e mesmo a maneira como Wikström consegue seu restaurante parece apressada, mas Kaurismäki, de modo geral, desenha tudo de maneira fluida e atinge um final realmente emocionante.

Toivon tuolla puolen, Finlândia, 2017 Diretor: Aki Kaurismäki Elenco: Sakari Kuosmanen, Sherwan Haji, Simon Al-Bazoon, Kati Outinen, Ilkka Koivula, Janne Hyytiäinen, Tommi Korpela, Nuppu Koivu, Niroz Haji Roteiro: Aki Kaurismäki Fotografia: Timo Salminen Duração: 98 minutes Produção: Aki Kaurismäki Estúdio: Sputnik, Bufo, Pandora Film Distribuidora: B-Plan

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Power Rangers (2017)

Por André Dick

Não acompanhei o fenômeno pop infantojuvenil dos Power Rangers, criados por Haim Saban, portanto cheguei a este filme sem as informações básicas que um fã certamente possui. Depois de fazer muito sucesso nos anos 90, ele tem novamente as atenções com essa produção que tenta engatilhar uma nova franquia. A história mostra cinco estudantes na pequena cidade de Angel Grove: Jason Scott (Dacre Montgomery, vilão da segunda temporada de Stranger things), um jogador de futebol promissor, mas que sofre um acidente; Kimberly Hart (Naomi Scott), uma rebelde do colégio, que acaba por se desentender com antigas colegas; Trini (Becky G.), a mais inteligente de todos, recém-chegada à cidade; William “Billy” Cranston (RJ Cyler), um tanto tímido e sempre perseguido, sendo protegido por Jason; e Zack Taylor (Ludi Lin), o mais descompromissado.
O roteiro assinado por John Gatins, de Gigantes de aço, O voo e do recente Kong – A Ilha da Caveira, tenta costurar os inter-relacionamentos de maneira muito rápida, mas não sem uma dose interessante de mistério. Ainda: apesar de lidar com temas previsíveis, sobre a maneira com que cada um é tratado no colégio, nada parece excessivamente disperso ou mal feito, como costuma acontecer numa produção do gênero. Há uma atmosfera bem construída de Angel Grove, com seus bosque, e mesmo o salto de uma personagem num lago remete ao filme A lenda, de Ridley Scott, com uma construção fotográfica dedicada.

Certo dia, quando estão andando, não exatamente juntos, por uma pedreira, eles entram em contato com um artefato alienígena. Nessa noite, cada um leva para casa um medalhão com cor diferente, que passa a conceder poderes especiais. No dia seguinte, quando voltam ao lugar para investigarem melhor o que pode ter acontecido, eles descobrem uma nave espacial, onde conhecem Zordon (Bryan Cranston) e seu ajudante robô, Alpha 5 (Bill Hader), sendo avisados de que formarão o grupo Power Rangers para combater uma ameaça alienígena, Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Jason será o Ranger vermelho; Billy o Ranger azul; Kimberly a Ranger rosa; Zack o Ranger preto; e Trini, o Ranger amarelo. O interior dessa nave e a iluminação de luzes remete imediatamente ao nostálgico Invasores de Marte, refilmagem de Tobe Hopper para o clássico dos anos 50, realizado nos anos 80. E o visual de Zordon funciona muito bem, dando uma profundidade no cenário que torna o estilo realmente com senso estético personalizado. A ligação entre os jovens se sente estabelecida mais diretamente às vezes, outras vezes mais subescrita, alternando altos e baixos, mas os personagens, de modo geral, são interessantes.

Toda essa premissa do filme de Dean Israelite parece totalmente previsível e o é muitas vezes. Ainda assim, há a diversão e o colorido do design de produção, auxiliado pela fotografia competente de Matthew J. Lloyd, além de efeitos visuais e CGI acima da média, com um elenco de jovens não exatamente talentoso, mas eficaz (com destaque para RJ Cyler, numa atuação bem-humorada capaz de torná-lo o destaque da equipe), e Power Rangers consegue ser interessante na maior parte do tempo. Ele tem um direcionamento juvenil evidente, com várias referências a Super 8, Alguém muito especial e O clube dos cinco, e um humor despretensioso que faz valer várias sequências, principalmente até a primeira metade. Depois, sabe-se que é preciso mostrar batalhas, e Banks (boa atriz na série Jogos vorazes e Love & Mercy, por exemplo) se mostra uma vilã no mínimo curiosa, e a sua primeira aparição para uma das integrantes da equipe é claramente influenciada por Freddy Krueger em A hora do pesadelo, enquanto Hader rouba a cena fazendo a voz do robô Alpha 5. Lamenta-se que o personagem central, Jason, acabe ficando com o passar da narrativa um tanto subaproveitado, sem que sua relação com Kimberly seja suficientemente desenvolvida como o início subentende.

De forma surpreendente, o uniforme da equipe (cada um possui uma cor) não aparenta ser kitsch e os monstros poderiam servir de exemplo para alguns filmes de super-heróis bem mais estimados. Ao final do terceiro ato, falta, porém, para Israelite o mesmo empuxe divertido que guia o filme nas duas primeiras partes, de maneira descompromissada e suficientemente inteligente para o espectador se satisfazer. É como se um guia de referências precisasse ser atendido e ele não consegue estabelecer uma passagem dos personagens do seu início para uma roupagem de heróis. Num ano em que já tivemos filmes do gênero bastante elogiados (Logan, Mulher-Maravilha, Guardiões da galáxia Vol. 2) e filmes baseados em games e mangás (Assassin’s creed e A vigilante do amanhã), Power Rangers é, claramente, o menos pretensioso e mais deslocado. É isso que faz dele, no entanto, uma realização individual e mesmo com características excêntricas. Realizado com 100 milhões de dólares, não fez grande bilheteria, o que possivelmente compromete a franquia projetada, mas se sustenta por suas próprias qualidades.

Power Rangers, EUA, 2017 Diretor: Dean Israelite Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader Roteiro: Ashley Miller, Burk Sharpless, Haim Saban, John Gatins, Matt Sazama, Max Landis, Shuki Levy, Zack Stentz Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Brian Casentini, Haim Saban, Marty Bowen, Wyck Godfrey Duração: 124 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / Saban Brands / Saban Entertainment Inc

 

O castelo de vidro (2017)

Por André Dick

O diretor Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham e Marti Noxon fizeram o roteiro desta aguardada adaptação de O castelo de vidro, de Jeanette Walls, com um elenco em alta conta e visando às premiações principais do fim do ano. Se não houve uma resposta à altura do esperado, o novo experimento do diretor de Temporário 12 tenta contar de maneira atrativa a história de Jeanette Walls (Brie Larson na versão adulta, Ella Anderson na versão jovem e Chandler Head na versão infantil), filha de Rex (Woody Harrelson) e Rose Mary (Naomi Watts), dois pais errantes.
Ela lembra do passado com os irmãos Lori (Sarah Snook na versão adulta, Sadie Sink na versão jovem e Olivia Kate Rice na versão infantil), Brian (Josh Caras na versão adulta, Charlie Stowell na versão jovem e Iain Armitage na infantil) e Maureen (Brigette Lundy-Paine na versão adulta, Shree Crooks na versão jovem e Eden Grace Redfield na versão infantil), enquanto está num compromisso sério com David (Max Greenfield).

Trata-se de uma história autobiográfica, sobre uma família disfuncional, em que o pai alcóolatra leva a família para viver a verdadeira liberdade pelas estradas dos Estados Unidos, alugando casas diferentes e fugindo de federais. Qualquer semelhança com Capitão Fantástico não é mera coincidência, mas aqui há uma base dramática mais acentuada, principalmente nos conflitos de Jeanette com seu pai. Como lidar com alguém que imagina não possuir o problema que de fato tem? Se no início Jeanette é tirada de um hospital com queimaduras no corpo porque não seria o ambiente propício para cuidá-la, como se sentir segura com alguém que não cumpre as promessas? O espectador lembra que Temporário 12, filme anterior de Cretton, mostrava crianças abandonadas recolhidas num abrigo, a partir das memórias do próprio diretor. Aqui essas crianças não estão abandonadas, mas inseridas num sistema em que não estão preparadas para se adaptar. Não fica muito claro por que Rex age desse modo, mas o momento em que volta à sua casa de origem pode oferecer explicações indiretas e não expositivas (o roteiro é muito bem pensado). Junto a isso, a fotografia de Brett Pawlak captura uma certa solidão impositiva.

O castelo de vidro é um filme muito interessante na maneira como apresenta seus personagens. Se Rex é um easy rider, a mãe é uma pintora (abstrata, como ela diz), tentando manter sua arte enquanto não há o que servir para os filhos. Há uma mescla de drama com moldes gregos aqui, mas sem acentuar a tragédia e sim mostrando conflitos dos pais com uma vida estruturada de forma previsível segundo eles. Claro que há um certo romantismo nesse olhar, mas Harrelson e Watts em seus papéis conseguem traduzir o conceito sem soarem pretensiosos ou deslocados. Harrelson vem se especializando em papéis à margem desde sempre (e neste ano aparece ótimo também em Quase 18Wilson), enquanto Watts foge ao seu estilo mais uma vez, fazendo uma mãe distante de qualquer diálogo real.
A personagem de Larson obviamente quer negar a sua origem e se adaptar a uma vida tranquila em Nova York, mas ela não consegue se libertar das amarras do passado. Nesse sentido, o corpo, vestido com roupas simples ou não, evita qualquer afastamento completo da infância, e isso se demonstra numa bela cena em que Jeannette o mostra a outro homem. O diretor, nisso, deseja contrastar o ambiente vazio do presente da personagem, com sua arquitetura exemplar, com a agitação da casa familiar no passado e sua desconjuntura, inclusive nas casas sem cuidado de limpeza ou simples organização – por vezes funciona, por vezes não. No momento em que essa família se reencontra não é para reparar o que aconteceu e sim acentuar as divergências, no entanto é quando Cretton se mostra mais sensível a alterações narrativas, não conseguindo prover cada personagem secundário de substância real.

A história se concentra em Jeannette e não em seus irmãos, embora eles apareçam também, e cresce à medida que mostra o relacionamento com o pai, desde a infância – e as atuações de Chandler Head e Ella Handerson talvez sejam até melhores que a de Brie Larson, que é boa e continua sua parceria iniciada com Cretton em Temporário 12. Há um momento levemente manipulador, quando ela e seu pai estão deitados olhando as estrelas, mas o diálogo funciona. Noxon, um dos roteiristas, dirigiu O mínimo para viver, sobre a anorexia, e acerta aqui no equilíbrio entre esses personagens como já acontecia em seu filme. Se Capitão Fantástico tentava demonstrar um discurso ideológico, em O castelo de vidro há uma discrição mais abrangente, sobretudo por meio da personagem de Rose Mary, mantendo a discussão mais no plano familiar. Cretton aborda de forma interessante as atitudes do pai que sempre fala em liberdade, mas tem um apego sentimental a Jeannette, não querendo que ela tenha uma vida própria ou mesmo um envolvimento sério com algum homem. Sua atitude é infantil, mas essa ligação é desenhada desde o momento em que ele tenta ensiná-la a nadar numa piscina pública, simplesmente jogando-a na água, sem saber boiar, ou quando ele volta para casa com um corte no braço e ela costura a ferida com uma agulha, no momento melhor desenvolvido e ressonante da narrativa. Em outros instantes, essa aproximação entre os dois não é calibrada o suficiente, mas quando Larson e Harrelson entregam sua melhor participação é quando a narrativa cresce e O castelo de vidro se mostra decisivamente belo.

The glass castle, EUA, 2017 Diretor: Destin Daniel Cretton Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Ella Anderson, Chandler Head, Sarah Snook, Brigette Lundy-Paine, Josh Caras Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham, Marti Noxon Fotografia: Brett Pawlak Trilha Sonora: Joel P. West Produção: Gil Netter, Ken Kao Duração: 127 min. Estúdio: Gil Netter Productions Distribuidora: Lionsgate

Terra selvagem (2017)

Por André Dick

Responsável pelo roteiro de dois filmes aclamados nos últimos anos, Sicario – Terra de ninguém e A qualquer custo (indicado ao Oscar de melhor filme), Taylor Sheridan faz sua segunda obra como diretor, depois do terror Vile, neste Terra selvagem. Pode-se perceber um estilo que une os dois filmes que escreveu: ambos tratam de figuras à margem da lei enfrentando policiais ou agentes, seja no México, seja no interior do Texas. Se Sicario tem uma visão familiar quase ausente, em A qualquer custo ela forma a condição dos personagens, mesmo que a certa distância. São dois trabalhos certamente interessantes e, mesmo com algumas facilitações (não tanto aquele dirigido por Villeneuve), importantes para o cinema norte-americano nos últimos anos por transcender a fronteira previsível do gênero policial.

Em Terra selvagem, durante o inverno, na reserva indígena Wind River, localizada no Wyoming, o corpo da jovem Natalie Hanson (Kelsey Chow) é descoberto no gelo por Cory Lambert (Jeremy Renner). A primeira sequência oferece uma grande vitalidade para essa atmosfera, com o luar iluminando uma planície gelada com montanhas ao fundo. Mistério desenhado, para investigar o crime, chega à reserva uma nova agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen). Ela precisa determinar se foi um assassinato para que o governo seja responsável pela investigação e conhece o xerife Ben (Graham Greene), à frente de um departamento que precisa de ajuda.
Martin (Gil Birmingham), o pai da vítima, é amigo de Cory e ambos têm em comum o olhar distante para as montanhas. Nas investigações, descobre-se que um irmão de Natalie, Chip (Martin Sensmeier), está envolvido com drogas. Escolhido como um ajudante na procura ao culpado, Lambert foi casado com uma mulher de origem indígena, Wilma (Julia Jones), com quem teve um filho, Casey (Teo Briones) e o acontecimento o faz recordar de um momento definitivo de sua vida, capaz de acentuar ainda mais a tragédia acontecida na reserva. E, com o chapéu de cowboy num ambiente gelado, ele faz lembrar por que Sheridan escreveu A qualquer custo, com sua retomada de um gênero capaz de voltar em algumas obras com brilho disperso. No início, quando Cory aparece com seu filho andando a cavalo é possível lembrar de antigas obras.

Tudo em Terra selvagem converge para o fato de que os personagens estão inseridos num ambiente sem saída, em que, segundo um dos personagens, não há nada para fazer. Mais ainda: estão à espera de uma união familiar. A maneira como lidam com os fantasmas pessoais não foge a esse cenário, e a trama tradicional de investigação fica em segundo plano para exatamente configurar o cenário de modo intenso. Sheridan utiliza a câmera trêmula em muitos momentos para dar uma vitalidade especial à narrativa e, se lhe falta a simetria de Villeneuve, em Sicario, ele consegue extrair atuações raras de Renner e Olsen, mesmo com poucos diálogos. Particularmente, Renner é muito convincente, entregando sua melhor atuação desde Guerra ao terror e não tão discreto quanto em A chegada (no qual aparecia bem). O cenário do Wyoming remete a O portal do paraíso, o clássico de Michael Cimino, em que se tratava da disputa por territórios e perseguição a estrangeiros. Embora Sheridan não se centralize na questão de territórios indígenas, existe aqui um sentido de perseguição secular e de uma injustiça nunca possível de ser resolvida.
Em Terra selvagem, os personagens de origem indígena são muito bem desenhados e interpretados, por Greene (de Dança com lobos) e Birmingham, que já aparecia em A qualquer custo, no qual a amizade entre o personagem que esse ator fazia e o investigador feito por Jeff Bridges remete a alguns momentos deste. Há também uma influência nítida de À procura, de Atom Egoyan, principalmente na maneira como o cenário desolado, com a colaboração da fotografia de Ben Richardson (que já fez um trabalho ótimo em Indomável sonhadora e Castelo de areia), se mostra como uma extensão dos personagens. Sheridan usa panorâmicas para mostrar o isolamento dessa vida inóspita, porém com o objetivo final e acertado de nunca se aproximar demais dessas figuras. Elas se mantêm afastadas umas das outras e o que as aproxima não fica exatamente claro.Talvez o momento mais íntimo de Cory seja justamente aquele em que relata o passado e isso ajuda a explicar muitas de suas reações.

Sheridan recebeu o prêmio de melhor diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes deste ano e certamente seu trabalho se expõe de maneira talentosa. Um dos melhores elementos para mostrar se estamos diante de um talento na direção é a maneira como ele insere o espectador na atmosfera do que mostra. Terra selvagem tem um certo impasse no início, mas, à medida que surge a agente do FBI, e ela dialoga com a personagem de Blunt em Sicario, um tanto desajeitada, embora não tão séria, sabemos que a narrativa segue um padrão mais original. E a maneira como Sheridan filma os tiroteios tem uma força inegável, trazendo impacto às sequências, com a colaboração da trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Apenas se lamenta que o arco dos personagens pareça um pouco incompleto, mas esta já era uma sensação dos outros filmes que Sheridan roteirizou. O  importante não seria exatamente o que veio fazer a agente no FBI na reserva indígena, e sim os temas por trás dessa vinda: a união familiar, o passado, a solidão, a angústia de conhecer um crime cometido de forma terrivelmente cruel. É uma sensação de incompletude que acaba dando uma ideia apenas de uma certa etapa na vida dessas figuras e não tira, de qualquer maneira, a beleza de um thriller filmado num lugar incomum e que lida com questões vitais de cada indivíduo.

Wind river, EUA, 2017 Diretor: Taylor Sheridan Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Gil Birmingham, Jon Bernthal, Julia Jones, Kelsey Chow, Graham Greene, Martin Sensmeier, Teo Briones Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Matthew George, Basil Iwanyk, Peter Berg, Wayne L. Rogers Duração: 111 min. Estúdio: Acacia Entertainment, Savvy Media Holdings, Thunder Road Pictures, Film 44 Distribuidora: The Weinstein Company

Thor: Ragnarok (2017)

Por André Dick

O terceiro filme da Marvel/Disney este ano, depois de Guardiões da galáxia Vol. 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar, traz de volta o personagem Thor, o Deus do Trovão, tendo atrás das câmeras Taika Waititi. Se o humor e a ação funcionavam realmente nesses dois filmes, a expectativa era que funcionasse ainda mais no principal (pelo menos em termos de chamariz) deles. O diretor se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade. Em seguida, ele fez Hunt for the wilderpeople, conhecido no Brasil como A incrível aventura de Rick Baker ou Fuga para a liberdade. Se O que fazemos nas sombras tinha uma produção modesta, o segundo possuía uma fotografia extraordinária, com uma sucessão de gags interessante em meio a um drama familiar, influenciado por Wes Anderson, a mesma referência em Loucos por nada, filme de Waititi de uma década atrás.

Thor: Ragnarok, pelos prognósticos, se tornaria aquilo que impediram Homem-Formiga de ser: um filme autoral, por causa justamente de Waititi. Ele mostra Thor (Chris Hemsworth) precisando salvar Asgard de uma nova e terrível ameaça, Hela (Cate Blanchett). Ao lado do irmão, Loki (Tom Hiddleston), ele tem um breve encontro com outro personagem conhecido da Marvel, antes de se depararem com o pai, Odin (Anthony Hopkins). Thor vai parar no planeta de Sakaar, onde vira prisioneiro de Valquíria (Tessa Thompson), sempre uma dose etílica acima do esperado, que o entrega ao Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Esta parte do filme é a que melhor funciona, com Taika Waititi apresentando diálogos ágeis e situações cômicas no ponto exato, brincando com a cultura nórdica e a mitologia de Asgard (além da participação especialíssima, e engraçada, de um ator conhecido na reprodução de uma peça teatral), e tanto Hemsworth quanto Goldblum se destacam, além de Thompson valer cada cena em que aparece.
Em 2011, Thor teve uma transposição assinada por Kenneth Branagh, mais conhecido por suas adaptações para o cinema de obras de Shakespeare. Era este justamente o diferencial dessa produção: o herói dos quadrinhos tem, em grande parte, uma profusão de diálogos que lembram uma peça de teatro, mas sem cair no forçado ou pretensioso. Branagh mesclava a comédia com drama nos pontos certos, principalmente quando o herói cai numa cidade do deserto do Novo México, encontrando um grupo de cientistas, liderado por Jane Foster (Natalie Portman), ajudada por Darcy Lewis (Kat Dennings) e pelo Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), ausentes dessa continuação.

Havia sequências bastante divertidas, como a de Thor experimentando comida numa lanchonete ou as pessoas desconfiadas de seu figurino. A direção de arte de Bob Ringwood (o mesmo que fez os cenários de Batman – O retorno e Edward, mãos de tesoura, para Tim Burton) misturava o tom do deserto com a profusão de cores de Asgard, lembrando um pouco os anos 80, sobretudo na ponte multicolorida, com as galáxias ao fundo. Estranhamente, este filme de Branagh foi rechaçado em geral pelo público e recebido com certa indiferença pela crítica. Mais ainda: entende-se que ele não teria o bom humor agora utilizado.
Talvez porque Waititi esteja com mais nome do que Branagh se tenha criado o fato de que Thor: Ragnarok em algum momento está à altura de uma sátira à space opera como sua principal influência, Flash Gordon, dos anos 80, e que seu visual traga algo de espetacular. “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, um diálogo com a trilha do Queen para a obra de Mike Hodges, funciona, assim como as cores são fiéis aos quadrinhos, com o auxílio da fotografia de Javier Aguirresarobe. Porém, não há comparação no resultado. Mesmo o segundo filme, Thor – O mundo sombrio, possuía um design de produção mais interessante, assim como um humor bem explorado no seu ato final. Aqui, Waititi se concentra muito em objetos com superfície real e amontoados de coisas que lembram restos de sucata, por causa do planeta que serve de locação principal. Para quem fez filmes com direção de arte irretocável como Hunt for the wilderpeole e Loucos por nada, poderia ser melhor. O figurino se sente criativo, mas leve demais e com pouca diversidade, assim como as batalhas de naves se assemelham em demasia às do segundo filme para ter uma real distinção e todo o arsenal de raios de luz se sente um pouco exagerado, mesmo sendo esta a finalidade, quando, na verdade, o roteiro funciona melhor em sua simplicidade: um dos personagens se comparar a Tony Stark é uma boa referência ao restante do universo e não se sente ultrajante, e uma torcida desfilando pelas ruas de Sakaar com cartazes de um determinado super-herói é suficientemente criativo.

Além disso, Waititi interrompe dois atos de comédia leve e calibrada, sua especialidade, e repassa suas cargas para um filme previsível de ação (com montagem confusa), tentando dar dramaticidade para a qual não havia despertado anteriormente. É difícil, mesmo que seja esta a pretensão, adentrar no drama depois de dois atos dedicados, de forma promissora, a uma sucessão de sequências divertidas e diálogos com duplo sentido (e a verve de Hemsworth já foi provada nas refilmagens de Férias frustradas e Caça-fantasmas). A graça da narrativa era justamente desconsiderar a pompa shakesperiana oferecida por Branagh, mesmo com bom humor em determinados trechos, e fazer uma sátira espacial. O roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost insere o personagem de Bruce Banner (Mark Ruffalo) e, consequentemente, de Hulk de forma desajeitada. Funciona num primeiro momento, mas no final se sente vazio, como se fosse apenas um espaço para um personagem que não aparecia desde Os vingadores – Era de Ultron. Cate Blanchett tem um ótimo início e seu papel dá a entender que teremos uma vilã inesquecível, junto com o comandado Skurge (Karl Urban). No entanto, algo se perde, e as cenas de ambos se tornam muito distantes do restante da história. Thor: Ragnarok sofre um conflito inevitável, que leva a um impasse capaz de transformá-lo no que não era em seus dois primeiros atos, pela tentativa de Waititi em explorar novas nuances desse universo: uma obra até determinado ponto comum.

Thor: Ragnarok, EUA, 2017 Diretor: Taika Waititi Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Cristopher Yost Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Kevin Feige Duração: 130 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

O filme da minha vida (2017)

Por André Dick

Terceiro filme dirigido por Selton Mello, O filme da minha vida é baseado no romance Um pai de cinema, do chileno Antonio Skármeta. Mello adapta o cenário original para a Serra Gaúcha dos anos 60, seguindo sua experiência cinematográfica iniciada em Feliz Natal e continuada em O palhaço, de 2011. Se apenas atuando Mello já fez ótimas comédias (O auto da Compadecida, Lisbela e o prisioneiro) e bons dramas (Lavoura arcaica, Jean Charles), atrás das câmeras ele vem procurando adotar um estilo próprio, mas dialogando com vários diretores. Por isso, há vários filmes dentro desse filme. Na narrativa, Tony Terranova (Johnny Massaro) tem lembranças constantes do seu pai, Nicolas (Vincent Cassel), que o deixou quando criança e nunca mais reapareceu. O jovem vive com a sua mãe, Sofia (Ondina Clais Castilho), enquanto dá aulas de francês numa escola do município onde vive. A cidade é cortada pelos trilhos de uma linha férrea que vai dar em algum lugar ainda desconhecido do espectador.

Com interesse especial por livros e pelo cinema, um tema que já ecoava em outra obra de Skármeta, o conhecido O carteiro e o poeta, Tony é apaixonado por Luna Madeira (Bruna Linzmeyer), irmã de Petra (Bia Arantes). O seu amigo principal, Paco (Selton Mello), tem como filosofia comparar humanos com um determinado animal de sua fazenda. É com ele que Tony tem conversas sobre o pai, e as lembranças se dão principalmente nos seus passeios de motocicleta, destacando-se que a bicicleta que ele leva ao celeiro traz novamente o personagem a um passado próximo.
Mello, de modo geral, mostra a história do personagem inicialmente em fragmentos, que se assemelham a visões, e se sustenta na belíssima fotografia de Walter Carvalho. Pode-se apontar como a melhor aquela em que imagina as irmãs ensaiando um número de dança no pátio da escola direcionadas a seu olhar. Em outro momento, ele observa as duas na rua da cidade com outros motociclistas, como se estivesse assistindo a um filme dos anos 1960, parecendo um diálogo com Loucuras de verão e A doce vida. Na escola onde dá aula, os seus alunos parecem saídos exatamente de alguma fotografia dessa época, o que é destacada pela coloração da imagem. Aos poucos, a narrativa um pouco dispersa vai ganhando mais unidade e, junto com as imagens que despertam uma espécie de lembrança longínqua, quase simétricas, com um design de produção muito elaborado, O filme da minha vida se torna uma espécie de ponte entre vida e arte de modo inegável.

A maneira como se costura a ligação desse personagem com o filme Rio vermelho, de Howard Hawks, é especialmente lúcida e concentra boa parte das memórias dele, assim como a conversa do maquinista Giuseppe (Rolando Boldrin, com breve e eficiente participação) com Paco, sintetizada na sequência final de maneira discreta e extremamente funcional pelo roteiro do diretor em parceria com Marcelo Vindicato. Neste sentido, há um diálogo com o adorável Cinema Paradiso, dos anos 80, com o encantamento de um menino pelo cinema e sua amizade com um projecionista, sem exatamente diluir a ideia. No entanto, não se trata apenas disso: o filme é composto por ligações de um ponto a ponto e não por acaso Sofia trabalha numa central telefônica. É uma espécie de representação do esforço de Tony em se conectar com as pessoas do seu círculo.
O mais interessante talvez seja como Mello vai costurando memórias e narrações internas com o cenário ao redor: as viagens de motocicleta por estradas desertas evocam uma solidão estendida aos personagens. Se o diálogo com o cinema de Fellini é evidente por meio da metalinguagem e da maneira como se desperta a paixão pelo cinema, os arredores da casa de campo onde Tony e sua mãe vivem, com seus varais de roupa e uma longa fileira de árvores distante remete ao melhor Andrei Tarkosky de O espelho e Nostalgia, com sua sensação de isolamento de tudo, o que se sente igualmente na ficção científica do cineasta russo Solaris. Conhecendo algumas dessas paisagens, arrisco dizer que Selton Mello as mostra como talvez nenhum cineasta brasileiro antes dele (lembrei algumas vezes do subestimado e semiesquecido O quatrilho, mas aqui uma dinâmica narrativa maior está em jogo). Isso não é pouco, visto a qualidade de algumas obras.

Se O filme da minha vida tem um pouco de dificuldade na parte sonora (algumas narrações em tom baixo são difíceis de se entender), não se pode dizer o mesmo da sua qualidade em termos de direção, elenco e fotografia. A intensidade do personagem central é acentuada pela atuação de Johnny Massaro, parecido com Louis Garrel e muito expressivo, que encontra em Bruna Linzmeyer um efetivo complemento para sua interpretação e empatia imediata. E, conhecido por Cisne negro, entre outras obras, Cassel tem uma rápida, mas boa presença. Sob o ponto de vista do design de produção elaborado, há uma passagem por um bordel da cidade vizinha àquela em que vive Tony que é iluminada quase como se por Zhang Yimou, tornando cada quadro histórico. Mais ainda quando vemos o bordel de dia, com o céu azul contrastando com a cena anterior, à noite, parecendo uma extensão de Santa Sangre, de Jodorowsky. Há uma estranha circularidade nesta história: se o início pode ir de encontro ao final por um palmo de película, suas imagens estão ligadas sempre à memória desses personagens. Este é um dos melhores filmes brasileiros já feitos, no qual a narrativa muitas vezes é explicada por seu aspecto visual. Não se trata de estilo sobre a substância e sim um triunfo na trajetória de Selton Mello.

O filme da minha vida, BRA, 2017 Diretor: Selton Mello Elenco: Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vincent Cassel, Selton Mello, Bia Arantes, Ondina Clais Castilho, Rolando Boldrin Roteiro: Marcelo Vindicato, Selton Mello Fotografia: Walter Carvalho Produção: Vania Catani Duração: 113 min. Estúdio: Bananeira Filmes, Globo Filmes Distribuidora: Vitrine Filmes

Doentes de amor (2017)

Por André Dick

Há alguns filmes que costumam ser caracterizados pela fusão de gênero; quando os assistimos, não conseguimos definir a que gênero exatamente pertencem, e isso torna suas qualidades mais ou menos intensas, dependendo de como a proposta é desenvolvida. Mistura entre comédia, drama e romance assinada por Michael Showalter, Doentes de amor mostra o namoro entre um descendente de paquistaneses, Kumail (Kumail Nanjiani), que trabalha como motorista de Uber enquanto tenta se lançar como comediante de stand-up, e a recém-separada Emily (Zoe Kazan), estudante de psicologia. Os dois moram em Chicago. Se a família dele não sabe que ele está querendo namorar uma moça alheia à sua cultura, tudo se complica quando ela fica doente e ele precisa passar por uma experiência hospitalar junto aos pais dela, Beth (Holly Hunter) e Terry (Ray Romano). Se a primeira parte anuncia apenas um romance leve, com a aproximação de um casal tentando investir numa nova paixão, a partir do segundo ato os detalhes se concentram numa espécie de congregação de culturas diferentes.

O roteiro assinado por Nanjiani, mais conhecido pela série de TV Silicon Valley, e Emily V. Gordon, a partir de sua própria experiência, reserva momentos leves e de afeto, principalmente quando Beth se desentende com Kumail por saber de informações repassadas pela filha, e ele se torna amigo de Terry. Que a atuação de Nanjiani é muito boa, é claro desde o início, assim como de Kazan, sempre despertando empatia com o espectador (a exemplo de Ruby Sparks), mas são Hunter e Romano que de certo modo aplicam a humanidade nessa história. Os dois estão excelentes, roubando a cena: enquanto Hunter (vista este ano rapidamente em De canção em canção) é uma mãe dedicada à filha, o pai feito por Romano (conhecido por sua série de TV exitosa) fica num meio-termo entre a aversão da esposa a Kumail, por ele ter tido um determinado comportamento, e a tentativa de conciliar todos. Pelo cenário do hospital, pode-se imaginar que se evitam os conflitos abertos, no entanto esses se mostram mais amplos de maneira interna.

Os pais de Kumail, Azmat (Anupam Kher) e Sharmeen (Zenobia Shroff) não sabem o que está acontecendo com o filho, nem entendem por que ele não se interessa por Naveed (Adeel Akhtar), pretendente de um casamento arranjado, que tenta fingir um interesse por Arquivo X, a série favorita dele. A reuniões da família durante o almoço ou o jantar configuram exatamente essa troca de ideias sobre a cultura paquistanesa e o quanto elas interagem para que os personagens se sintam individualmente interessantes. Em Doentes de amor, tudo transcorre em ritmo cotidiano, sem grandes mudanças de rumo, apenas visualizando o comportamento de pessoas em meio a uma situação de dificuldade. Compõe-se uma mescla entre o entendimento da vida, dos relacionamentos e a adaptação a determinados ambientes culturais. Há os bastidores da amizade do personagem central com outros comediantes, CJ (Bo Durnham), Mary (Aidy Bryant) e Chris (Kurt Braunohler). Doentes de amor capta bem esse ambiente, de forma muito próxima aos subestimados The comedian, com Robert De Niro em excelente performance, e Sandy Wexler, em sua visão sobre a arte. E está sendo tão bem recepcionado (depois de uma bilheteria que representa 10 vezes o seu custo) que é cogitado, inclusive, para os Oscars principais.

Temos a pressão da plateia para que o comediante seja engraçado e um certo rompimento entre o privado e o público, com histórias pessoais em meio ao tumulto. Em certos momentos, no entanto, falta mais pretensão por parte do diretor, fazendo com que tudo se mostre encaixado em excesso, para que o espectador se satisfaça. Não há, por exemplo, um desenvolvimento tão interessante no ato final que poderia conciliar todas as possibilidades no mesmo rumo. Se há algumas gags um pouco forçadas, como as que se referem ao fatídico 11 de setembro, e fazem lembrar a do previsível O ditador, ainda assim os personagens são tão simpáticos e bem delineados que o espectador acaba tendo vontade de voltar à narrativa mais uma vez. Tendo como produtor Judd Apatow, o filme lembra as narrativas desse diretor, a exemplo de Bem-vindo aos 40, retratando a tentativa de um casal de amadurecer por meio de dificuldades, embora este enfocado aqui seja mais novo do que o daquele filme. A preocupação aqui relacionada à saúde, no entanto, adquire um contorno mais dramático e ressonante, tornando Doentes de amor numa história realmente atrativa.

The big sick, EUA, 2017 Diretor: Michael Showalter Elenco: Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Ray Romano, Adeel Akhtar, Anupam Kher Roteiro: Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani Fotografia: Brian Burgoyne Trilha Sonora: Michael Andrews Produção: Judd Apatow, Barry Mendel Estúdio: FilmNation Entertainment, Apatow Productions Duração: 117 min. Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate

Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes, Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) teve sua exibição precedida por um discurso deselegante do presidente do júri da edição deste ano, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Ele resolveu investir contra os filmes da Netflix (como é o caso de Os Meyerowitz) selecionados pelo Festival porque eles não passariam nos cinemas, sendo disponibilizados diretamente na plataforma digital. Segundo ele, isso prejudicaria o cinema e não se poderia premiar filmes em festivais que não fossem exibidos como é de costume. Claro que se trata de um discurso que remete àquele de que um filme só pode ser visto como tal na tela grande. Isso valia na Hollywood dos anos 50 ou 60, quando se considerava que um filme morria quando passava na TV. Hoje, o cinema costuma sobreviver por causa de outras plataformas, inclusive, ainda, da TV. A qualidade de uma obra não aumenta nem diminui por causa do tamanho da tela (no máximo, em caso de filmes com efeitos visuais e uma fotografia especialmente primorosa, a exemplo do recente Blade Runner 2049, realça esses elementos). Nunca assisti a Cavaleiro de copas, de Terrence Malick, na tela grande – e é meu preferido de 2016 (levando em conta a data de lançamento internacional). Os únicos filmes lançados em Cannes este ano que podem, até o momento, ser vistos pelo público no Brasil são exatamente os dois da Netflix (o outro é Okja) e O estranho que nós amamos, de Sofia Coppola. Os filmes ficam; o discurso de Almodóvar vai, aos poucos, desaparecer.

Os Meyerowitz é uma obra de Noah Baumbach, responsável pelos excelentes A lula e a baleia e Greenberg e os muito interessantes Frances Ha, Margot e o casamento e Enquanto somos jovens, entre outros. Ele também contribuiu no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico Sr. Raposo, junto a Wes Anderson, e se tornou, nos últimos anos, uma mescla entre ele (mais séria) e Woody Allen. Por sua história, Os Meyerowitz dialoga claramente com Os excêntricos Tenenbaums. Mas Baumbach, como em outros filmes, costuma situar seus personagens numa narrativa que dialoga menos com enquadramentos e cores que Anderson.
Se em A lula e a baleia, acompanhávamos um escritor, Bernard Berkman (Jeff Daniels), que havia feito sucesso e continuava dando aulas, pai de dois filhos com uma escritora, Joan (Laura Linney), fazendo o sucesso que ele tinha, em Os Meyerowitz vemos um pai escultor, Harold (Dustin Hoffman, excelente), casado com Maureen (Emma Thompson), aparentemente recém-saída de Woodstock. Ele tem um casal de filhos do primeiro casamento, Danny (Adam Sandler) e Jean (Elizabeth Marvel), e um filho do segundo, Matthew (Ben Stiller), cuja mãe é  Julia (Candice Bergen). O filme inicia com o antigo escultor, que nunca fez grande sucesso, querendo vender a sua casa. Danny deseja conservar suas obras, mas ele não pensa o mesmo. Numa ida à exposição de um antigo amigo, L.J. Shapiro (Judd Hirsch), conflitos vêm à tona para Harold, em relação a ter deixado uma obra para a posteridade.

Dividido em partes, na segunda o pai da família se encontra com Matthew, um corretor, a quem é mais devotado, mas nervoso por não ser bem atendido no restaurante previsto para um diálogo. Baumbach vai encaminhar pequenos conflitos para uma situação ainda mais delicada, na qual os irmãos precisarão se encontrar e chegar a um entendimento. Danny é pai de Eliza (a revelação Grace Van Patten, do interessante Tramps, também da Netflix), que cursa cinema, e é com eles que Baumbach abre sua bela história sobre uma família comum, mas em permanente conflito. Matthew se tornou o mais bem-sucedido, o que torna Danny um pouco receoso de sua aproximação, no entanto é este o mais próximo do pai, em diálogos sobre filmes, uma característica do cinema de Baumbach, como já víamos especialmente em Enquanto somos jovens.
O que mais chama atenção em Os Meyerowitz é a delicadeza com que ele trata a relação entre um pai e seus filhos. Não apenas pela atuação de Hoffman, mas principalmente pelo encontro exitoso entre Stiller e Sandler, este é um filme cujo humor acentua o drama e vice-versa. Depois de fazer o injustamente menosprezado Sandy Wexler este ano, Sandler apresenta aquela que é talvez sua atuação mais calibrada ao lado de Embriagado de amor. Ele consegue entregar ao papel de músico fracassado e divorciado uma sutileza necessária e, ajudado pelo belo roteiro, trava uma interação agradável com Van Patten, numa sequência ao piano logo ao início, e, sobretudo, com Stiller, que tem, num determinado momento-chave, a sequência de sua carreira (não entrarei em detalhes). Stiller já havia trabalhado com Baumbach em Greenberg e Enquanto somos jovens, em dois de seus melhores papéis, fugindo às comédias padronizadas em que costuma estar envolvido.

Baumbach consegue conciliar o ambiente urbano de Nova York, pano de fundo para muitos de seus filmes – e Adam Driver, ator que ajudou a revelar, aparece numa participação especial –, com um ambiente mais bucólico, de interior, como se a intimidade dos personagens sempre estivesse conciliada com os cenários. Algumas passagens podem parecer desnecessariamente explicativas, no entanto conservam sempre um tom familiar capaz de tornar o material de Baumbach próximo do espectador. Os personagens, mesmo adultos, adotam algumas vezes um comportamento infantil, mas o roteiro não torna isso superficial, tentando minimizar a dimensão deles, e sim os torna mais complexos. Na tentativa de não reprisarem o passado, eles olham para a geração futura com a preocupação de fazerem o certo: não há também um sentido de competição novamente em cena. Há um relato comovente de Jean, que torna a aparição de Marvel, até então um pouco deslocada, numa peça essencial para entender também o passado dessa família. Em seus trabalhos mais recentes, a exemplo de Frances Ha, Enquanto somos jovens e Mistress America, Baumbach tende a tentar desenhar um painel da juventude norte-americana em conflito com ideais de uma geração anterior, no entanto em certos momentos soa descompassado. Essa característica não se sente em Os Meyerowitz, que, mesmo com seus cortes às vezes abruptos, se sente orgânico do início ao fim e verdadeiramente sentimental em suas escolhas. Baumbach entrega um dos melhores filmes do ano, com roteiro e elenco referenciais para o que, independente de onde se veja, ainda se chama cinema.

The Meyerowitz stories (New and selected), EUA, 2017 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Elizabeth Marvel, Grace Van Patten, Candice Bergen, Adam Driver, Judd Hirsch, Rebecca Miller, Matthew Shear Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Scott Rudin, Noah Baumbach, Lila Yacoub, Eli Bush Duração: 112 min. Estúdio: IAC Films Distribuidora: Netflix

 

Blade Runner 2049 (2017)

Por André Dick

Lançado em 1982, Blade Runner – O caçador de androides, de Ridley Scott, teve uma recepção tímida por parte da crítica e do público, mas acabou se transformando num grande cult, uma obra-prima da ficção científica. Visto como um filme intocável, foi estranho à primeira vista imaginar uma continuação, e sem a direção de Scott. Foi ele, como produtor executivo, quem convidou Denis Villeuneuve para estar à frente da sequência. O diretor canadense se notabilizou nos últimos anos por transitar entre gêneros diferentes, em filmes como Polytechnique, Incêndios, Os suspeitos, O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. No ano passado, ele fez a elogiada ficção científica A chegada, sobre a tentativa de contato humano com extraterrestres.
Por toda a carga de expectativa, ele parecia cada vez o melhor nome para dirigir Blade Runner 2049. Tendo como base o roteiro de Hampton Fancher (que colaborou no primeiro) e Michael Green, baseado nos personagens de Philip K. Dick, o filme mostra um novo caçador, K (Ryan Gosling), um replicante, que trabalha para a tenente Joshi (Robin Wright), da LAPD, e, quando vai atrás de um replicante mais datado, Sapper Morton (Dave Bautista), numa sequência que lembra a de Leon (Brion James) no original, descobre uma árvore com uma ossada escondida embaixo dela.

Levando os dados para sua equipe em Los Angeles, tão chuvosa quanto no clássico de Scott (spoiler até o fim deste parágrafo), descobre-se que seria da replicante Rachael (Sean Young), desaparecida com Rick Deckard (Harrison Ford) muitos anos antes. K, certamente uma homenagem ao segundo nome do autor que criou esse universo (Kindred), vai atrás de dados dela na corporação comandada por Niander Wallace (Jared Leto), assessorado por Luv (Sylvia Hoeks), que segue a linha da Tyrell original. Nisso, um pequeno cavalo de madeira é a pista para lembranças decisivas, em paralelo com o unicórnio da obra de Scott. Há uma analogia desse símbolo com a árvore sustentada por cordas e uma pequena flor que K recolhe perto dela como se precisasse dela para uma pesquisa científica, tamanha a raridade.
Além disso, K tem uma relação cibernética com Joi (Ana de Armas), um programa de computador que reproduz uma imagem feminina, nos moldes de Ela, mas, como os replicantes do primeiro filme, que então só podiam viver em colônias da Terra, deseja, de forma angustiada, ser humano. Para quem gosta do estilo de atuação de Ryan Gosling (o meu caso), Blade Runner 2049 certamente funcionará melhor. Gosling, como nos filmes de Refn (Drive e Apenas Deus perdoa), usa o mínimo de expressões, mas de maneira relevante e sua busca pelo lado humano que pode existir nele é o mote do roteiro e da direção sensível de Villeuneuve. Suas memórias, mesmo implantadas, são o guia desta viagem. A todo instante, a história pergunta se as sensações são reais ou imaginárias.

O diretor canadense nunca apresentou personagens extremamente simpáticos, e sim conflituosos, e aqui não é diferente. K é um Deckard ainda mais frio, mais concentrado na investigação de por que Rachael morreu e quem seria seu elo de ligação – e sua busca por si mesmo dialoga com a do personagem de Scarlett Johansson em Ghost in the shell este ano. Do lado contrário, Luv faz as vezes de Roy Batty, personagem de Rutger Hauer, com um sentido implacável de abreviar a vida de quem pretende descobrir um determinado mistério decisivo para a trama. Eles são opostos que se complementam. K não deixa de ser um Batty às avessas, com sua paixão real não pela própria existência, mas para compartilhar com os outros sua experiência de vida. O afeto que tem por Joi é real, mesmo romântico (numa cena embaixo da chuva, muito bem filmada por Villeneuve), não o que tem Niander por suas criações – o beijo nelas, depois de deslizarem por uma espécie de placenta plastificada, é um sinal de abandono. O corpo é sempre o símbolo de um prazer proibido (spoiler: K vai ver sua musa desnuda apenas num holograma ao final do filme e sua relação com ela, por meio de Mariette (Mackenzie Davis), é quase impessoal).
Seria talvez desnecessário elogiar a parte técnica, que certamente reproduziria a competência mostrada em Blade Runner. No entanto, é obrigatório: o trabalho de Roger Deakins na fotografia e Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch na trilha sonora (captando as sensações daquela clássica de Vangelis) são exemplos notáveis de como ajudar a contar uma história e tornar este um blockbuster sem elementos de blockbuster (talvez por isso como o primeiro tenha estreado mal nas bilheterias). Além disso, os efeitos visuais trazem um realismo poucas vezes visto em tempos de CGI exagerado: as naves espaciais têm uma movimentação verossímil e Villeneuve, como em Sicario, aproveita para fazer tomadas áreas sobre o deserto de maneira particular. E, na parte de efeitos sonoros, há ecos de A chegada, principalmente, embora aqui sejam mais impactantes.

O filme anterior era mais uma perseguição incessante e atmosférica; este é mais uma investigação, e com todas as minúcias do gênero. Menos noir que o anterior, ele sai de Los Angeles e vai para outros lugares, mostrando mais a amplidão de 2049 do que a opressão da metrópole na vida desses personagens. Isso fica claro desde o início, quando K está atrás de Morton numa espécie de fazenda na Califórnia. Como em Sicario, Villeuneuve está interessado em mostrar cenários imensos, em que o horizonte se perde, e nunca deixa de inserir o espectador num universo futurista incontestável. Se no primeiro Los Angeles parecia Tóquio, com uma profusão infinita de neons, em seu retrato cyberpunk, este lembra mais o deserto… de Las Vegas. No apartamento de K, as luzes do lado de fora remetem mais ao filme de 1982, mas Villeneuve não tenta copiar o estilo de Scott, preferindo os ambientes mais assépticos e menos coloridos, sem também as luzes entrando pelas janelas, uma característica das narrativas noir e dos anos 80. A corporação de Niander lembra muito a do original, mas, ainda assim, parece mais labiríntica, como se a identidade das pessoas se perdesse em corredores e salas frias. Villeneuve sempre foi cuidadoso com o design, mas ele se supera em Blade Runner 2049, levando o espectador realmente para outro universo, com certa influência ainda de Inteligência artificial, na maneira como torna os ambientes desolados e, sobretudo, na sequência passada em Las Vegas, quando há também referências musicais por meio de hologramas e aos duelos de faroeste, que, se resolvidos, só poderiam terminar na mesa de um bar. Em determinado momento, também há uma referência pertinente à exploração do trabalho infantil, porém sem nenhum traço facilitador ou piegas, numa ilha de sucata remetendo a Eraserhead, de Lynch, contrastando com uma reunião de crianças imaginária ao redor de um bolo de aniversário.

Embora Leto e Hoeks tenham participações breves, ambos estão muito bem, assim como Ana de Armas e Robin Wright. Já Harrison Ford, voltando como Deckard, é particularmente emocionante, mais do que sua retomada como Han Solo em Star Wars. Este elenco conserva uma particularidade pessoal, tornando Blade Runner 2049 numa obra bastante independente da primeira, apesar dos óbvios diálogos visuais e temáticos. Se o de Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K. Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa.

Blade Runner 2049, EUA, 2017 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Dave Bautista, Edward James Olmos, Wood Harris, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer Produção: Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Bud Yorkin, Cynthia Yorkin Duração: 163 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Sony Pictures

Jogo perigoso (2017)

Por André Dick

Adaptado de um livro de Stephen King, Jogo perigoso é um lançamento recente da Netflix, dirigido por Mike Flanagan, o mesmo do terror Hush. Se há alguns anos os livros de King não eram tão adaptados com tanta frequência, como nos anos 80 e 90, parece que em 2017 houve uma retomada das transposições para o cinema de obras do autor, a começar por It – A coisa, um dos grandes sucessos do ano. King tem uma variedade de histórias que vão desde a descoberta da juventude (Conta comigo), passando por homens lutando para escapar ao ambiente da cadeia (Um sonho de liberdade) até peças com o terror mais denso (O iluminado, para citar apenas um dentre vários).
Com uma premissa muito simples, Jogo perigoso mostra um casal, Jessie Burlingame (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood), um advogado, indo para sua casa de férias no Maine. Eles querem revitalizar o casamento e, para isso, Gerald tem a ideia de algemar as mãos de sua esposa à cama. O marido já não sente a mesma atração pela mulher e fingir que ela é uma desconhecida parece despertar nele um desejo mal explicado. O que poderia ser uma espécie de Instinto selvagem em forma de diálogo teatral logo se transforma num pesadelo, não apenas para Gerald como para Jessie.

Se o espectador está interessado em boas atuações, encontrará com certeza em Gugino e Greenwood presenças de qualidade em cena. Ambos conseguem desenvolver, principalmente no início, uma boa química, pela maneira como a história é contada, de maneira ágil. No entanto, isso não é o suficiente para sustentar o roteiro. Se a ida deles para a casa afastada é precedida pelo encontro com um cachorro abandonado à beira da estrada (ao qual Gerald, em determinado momento, vai se referir como “cujo”, que é o nome de outra obra de King adaptada para o cinema, num filme assustador de 1983) e lembre um pouco o clima de Violência gratuita, de Michael Haneke, parece que tudo que cerca essa cena misturando sexo e recordações desagradáveis não é tão bem dosada quanto poderia ou o diretor Flanagan imagina. Há uma base para discussão sobre o matrimônio e sobre a intimidade bastante interessante e mesmo inusual no cinema norte-americano, no qual a fantasia se mistura com a agressão física, contudo a expectativa logo vai se desaparecendo com o tratamento irregular e os diálogos distribuídos de maneira mais plana.

Excessivamente calcado em flashbacks (nos quais Flanagan traz Henry Thomas, atuando de forma estranha, talvez pela dificuldade do papel, também para o espectador, para quem se acostumou a assisti-lo em filmes como E.T.), o filme desliza por temas arriscados e seu tom nunca se sente sólido. Ele parte de um início em que o foco é o “jogo” de Gerald para escolher no passado a forma de explicar o presente e guiar a personagem central, com resultados duvidosos. Isso porque parece que o passado de Jessie, por pior que seja, pode sugerir em algum momento o jogo do marido (será ele até o momento antes em que o conhecemos alguém diferente?) e sua superação, sob um novo castigo. Por um lado, trata-se de uma ideia até interessante e podemos ver nesse aspecto uma circularidade da personagem, uma espécie de confronto dela com seus incômodos psicológicos mais graves, contudo a maneira com que se revela acaba sendo um pouco tortuosa para o espectador. Flanagan não consegue oferece o devido crescendo no sentido de desvendar e desmontar cada personagem, embora a atriz Chiara Aurelia se mostre excepcional numa participação de grande relevância para a trama.

Flanagan não tem uma direção criativa, preferindo utilizar a simbologia de uma eclipse para definir a personagem central. É excessivamente expositivo por meio dessa imagem, não deixando para o espectador qualquer tentativa de desvendar algo. Essa opção tomada é lamentável porque principalmente Gugino (um destaque em Watchmen e Sucker Punch, duas obras de Snyder) oferece uma atuação que, com um roteiro melhor e numa obra com melhor narrativa, seria propícia a indicações a prêmios. Nesse ponto, é talvez o filme mais comum em termos de produção da Netflix, não apenas porque utiliza poucos cenários, de acordo com o livro, como também pelo acabamento do eclipse em desacordo visualmente com o restante do design de produção, parecendo sempre algo à parte da trama. Jogo perigoso é também mais assustador do que dramático em algumas cenas, mas termina com um epílogo terrível, um dos piores do cinema recente. Quando Flanagan pretende acentuar o mistério ao redor de uma trama em parte bastante realista, chegando a um momento em que o espectador precisa enfrentar uma determinada imagem, acaba se perdendo, e de certo modo o espectador percebe que antes a trama já não se mostrava com a força devida. É esse final, de qualquer modo, que define a decepção: tão calculado quanto expositivo, mesmo Gugino vê sua atuação até então irretocável ser prejudicada pela direção de Flanagan.

Gerald’s game, EUA, 2017 Diretor: Mike Flanagan Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas, Carel Struycken, Kate Siegel, Chiara Aurelia Roteiro: Jeff Howard e Mike Flanagan Fotografia: Michael Fimognari Trilha Sonora: The Newton Brothers Produção: Trevor Macy Duração: 103 min. Estúdio: Intrepid Pictures Distribuidora: Netflix