Dumbo (2019)

Por André Dick

A adaptação de Dumbo em live-action segue o cronograma dos estúdios Disney de adaptações com atores ou cenários repletos de CGI das animações clássicas do estúdio. Nos últimos anos, tivemos vários sucessos nesse campo: Malévola, Cinderela, Mogli – O menino lobo, A bela e a fera e neste ano ainda serão lançados Aladdin e O rei leão. Baseado no original de 1941, um dos filmes prediletos de Walt Disney, a nova versão é dirigida por Tim Burton.
O filme começa mostrando Holt Farrier (Colin Farrell), que está voltando da Primeira Guerra Mundial para o circo Medici Bros, coordenado por Max Medici (Danny DeVito). Ele é pai viúvo de Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Robbins) e, tendo vindo da guerra sem um braço, é contratado para cuidar de um elefante recém-nascido, com grandes orelhas, o que o torna excêntrico, chamado Dumbo. Isso desperta o interessa de um grande empresário, VA Vandevere (Michael Keaton), que deseja comprar o circo de Medici para obter a atração e levá-la para Dreamland (um equivalente de Tomorrowland), sempre ao lado de Colette Marchant (Eva Green), uma trapezista da França.

Surge também J. Griffin Remington (Alan Arkin), um grande magnata de Wall Street. O original dos anos 40 ainda se mantém como uma animação de qualidade primorosa, mas, como alguns clássicos da Disney, se sente estranhamente incompleto. Essa é a dificuldade que Burton tem, em primeiro lugar: Dumbo não comporta uma história com muitos caminhos, sendo essencialmente a história de um filhote de elefante afastado da mãe, no original com econômicos 64 minutos (pouco menos da metade da sua versão com humanos). Isso estabelece uma emoção que é captada às vezes no original, no entanto nunca trabalhada exemplarmente, como se repete aqui. E Burton se arrisca a criar camadas de diferentes personagens, o que não havia no original, restrito quase totalmente à visão do mundo dos animais (e não há aqui, especialmente, o ratinho amigo de Dumbo) e faz algumas referências curiosas a Santa Sangre, de Jodorowsky, com o auxílio do roteiro de Ehren Kruger, que escreveu Os irmãos Grimm, por exemplo.
Com a fotografia de Ben Davis, que fez trabalhos ótimos em Guardiões da galáxia e Três anúncios para um crime, substituindo Bruno Delbonnel, parceiro de Burton em suas últimas empreitadas, o ótimo e subestimado Sombras da noite e o delicado O lar das crianças peculiares, e a trilha sonora de Danny Elfman, tentando inovar nos acordes, com eficácia, Burton realiza o que pode com o material: Dumbo é uma fantasia com elementos emotivos e de valorização da família, com um personagem marginalizado, como é de praxe na trajetória do diretor, de Batman a Ed Wood e de Edward, mãos de tesoura a Willy Wonka.

Mais: Burton consegue, por meio da figura de Marchant, criar um vínculo materno não apenas dela com as crianças de Farrier, como também com o próprio Dumbo. É Eva Green, possivelmente, o melhor elo de ligação da história com o espectador, embora Farrell também esteja bem e Keaton e DeVito bastante efetivos – principalmente Keaton, parecendo interpretar Will Arnett, de Arrested development. No caso do personagem de Medici, não há como não lembrar de outra participação de DeVito na filmografia de Burton, em Peixe grande e suas histórias maravilhosas, que contém imagens expandidas aqui, sobretudo por causa da imagem do circo no imaginário.
É possível perceber, desde a imagem do trem no início, toda a carga de estilo de Burton, que leva seu filme para pontos familiares do espectador, e fazem lembrar, sobretudo, A fantástica fábrica de chocolate (a imponência de Dreamland), no entanto inicialmente o cineasta está tentando dialogar com o cinema dos anos 40, com referências a Buck Jones por meio de Holt Farrier – ambos passaram por ferimentos na guerra. Também é interessante como Burton consegue criar uma atmosfera inovadora em seu projeto utilizando uma fotografia com cores de pôr do sol, o que remete, em determinado momento, a Cinzas do paraíso, de Terrence Malick, influenciado claramente pelas pinturas de Edward Hopper. A partir do segundo ato, ele, por meio da grandiosidade, retoma um design de produção vital de Rick Heinrichs, que remete a seus projetos desde Batman – O retorno, e Vandere lembra em parte Max Schreck, vilão daquela obra. E, se há algo que aprendemos com a filmografia de Burton, é que não se pode dissociar a narrativa que ele conta da maneira como a conta: fazer isso é simplesmente subvalorizar seu olhar atento para a captura de imagens inesquecíveis, como aquelas dos animais solitários à noite, numa selva enjaulada, em contraposição a outro momento do roteiro.

Se o desenho animado dos anos 40 é muito mais ingênuo e baseado em trapalhadas dos elefantes, assim como se utiliza deles falando, a versão de Burton, como parte de sua trajetória, é mais soturna. Mais ao final, quando os personagens infelizmente ficam em segundo plano, prejudicando Farrell e Green, fica exposta essa grande diferença. O discurso de crítica contra o corporativismo soa quase sempre estranhíssimo num filme dos estúdios Disney (num momento em que compram a Fox), no entanto está de acordo com seus projetos anteriores. Aliás, é curioso que Burton, que saiu da Disney para seguir seu caminho particular nos anos 80 (com Frankenweenie e As aventuras de Pee-Wee), tenha se voltado, desde Alice no país das maravilhas, a conversar com esse imaginário e mesmo a reproduzi-lo para novas gerações. A sua diferença é basicamente autoral: quando vemos Dumbo, sabemos estar diante de uma obra de Burton. De algum modo, mesmo que não pareça, ele nunca coloca seu universo definitivamente à venda. É curioso que neste caso ele lembre essencialmente o criador da Disney.

Dumbo, EUA, 2019 Diretor: Tim Burton Elenco: Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green, Alan Arkin, Nico Parker, Finley Robbins Roteiro: Ehren Kruger Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Justin Springer, Ehren Kruger, Katterli Frauenfelder, Derek Frey Duração: 112 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Tim Burton Productions, Infinite Detective Productions, Secret Machine Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

cotacao-3-estrelas-e-meia

 

Batman – O retorno (1992)

Por André Dick

Esta continuação fez maior sucesso do que o primeiro, de forma surpreendente, pois é um filme tematicamente mais ousado, embora perca levemente seu misto entre o lado cartunesco do Coringa de Jack Nicholson e a direção de arte intensamente soturna de Anton Furst (vencedora do Oscar). Tim Burton havia gostado muito do roteiro original de Daniel Waters, autor um ano antes do ambicioso Hudson Hawk, com Bruce Willis, que homenageia a época do expressionismo alemão, tanto nos cenários quanto na figura dos personagens (Max Schreck, o nome do vilão feito de maneira hábil por Christopher Walken, é o mesmo do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922) e ainda explica o surgimento de novos vilões: o Pinguim e a Mulher-Gato. Como trama, o roteiro de Waters não convence, mas quanto aos diálogos há um surpreendente jogo de questões explorando a dupla personalidade dos personagens centrais.
A história se passa durante o Natal, 33 anos depois que o casal Cobblepot (Paul Reubens e e Diane Salinger) jogou seu filho defeituoso nos esgotos de Gotham City, depois de um início que remete a O milagre de Anne Sullivan, dos anos 60. A cidade está assustada com o Homem Pinguim (Danny DeVito), que vive junto a pinguins no subsolo do zoológico municipal.

Ajudado por Max Schreck, ele volta à sociedade, com a vontade de se tornar um cidadão comum, mas sempre atormentado por ter sido abandonado pelos pais. Acaba se transformando em candidato a prefeito, tendo por trás a Red Triangle Gang, uma trupe de figuras saídas de algum circo desvirtuado, e desafia Batman (a persona heroica do milionário Bruce Wayne, interpretado por Michael Keaton) a enfrentá-lo. No entanto, sua obsessão pelo abandono o leva a planejar uma determinada captura, envolvendo também Charles “Chip” Shreck (Andrew Bryniarski).
Enquanto isso, surge a Mulher-Gato da pele da secretária de Schreck, Selina Kyle (Michelle Pfeiffer, que voltaria a trabalhar com o diretor em Sombras da noite), que mora num apartamento com inúmeros gatos, em meio a neons que servem como jogo de palavras, e se mantém informada dos negócios de seu chefe. Com problemas de relacionamento, ela se modifica completamente depois de um acontecimento e passa a namorar Bruce Wayne, sem nenhum deles saber quem é, na verdade, o outro. Este envolvimento dará origem a novos conflitos irremediáveis.

Se, de um lado, os personagens procuram conviver e Wayne continue a ver um pai em Alfred (Michael Gough), por outro, as explosões e os efeitos especiais se sucedem em ritmo vertiginoso, a violência é explícita (como a cena em que o vilão, uma espécie de Edward mãos de tesoura perverso, quase arranca o nariz de um publicitário, ou quando a Mulher-Gato rasga a pele de assaltantes) e batalhões de pinguins fazem um desempenho incrível numa produção sofisticada – sobretudo de excelentes cenários. Burton tinha em mente não repetir o primeiro Batman, e realmente o fez.
O visual de Bo Welch é brilhante, com referências a Nosferatu, O corcunda de Notre-Dame, A noiva de Frankenstein O patinho feio, enquanto a atmosfera é melancólica, lembrando, assim, o período vitoriano e expressionista, em diálogo com os personagens (o Pinguim e a Mulher-Gato são pessoas abandonadas, que querem enlouquecer a cidade; a sequência em que o vilão voa com seu guarda-chuva, enquanto Batman e a Mulher-Gato se enfrentam pelos telhados da cidade é uma das mais bem solucionadas dentro das pretensões do diretor). Nesse sentido, o estilo de Burton permanece intacto, com direito a outras cenas originais: a grandiosa invasão dos pinguins nas ruas de Gotham City, por exemplo; a explosão durante a festa de Schreck. Há uma prevalência de fantasia nas imagens aqui do que na trilogia de Nolan, fazendo persistir na memória muitas sequências interessantes. Com isso, a fotografia de Stefan Czapsky explora Gotham City como uma sucessão de ruelas abafadas por edifícios imensos, e as perspectivas de filmagem remetem ao expressionismo e a uma espécie de pesadelo kafkiano.

É um filme de ação, por vezes, pesado e triste e a direção de Burton é sempre melhor do que a narrativa (que em muitos momentos cansa, pois não dosa as peças direito), procurando a estranheza dos personagens e os problemas psicológicos de cada um, com referências à psicologia de Freud, Jung e Lacan, não necessariamente nessa ordem. Todos possuem não apenas uma face dupla, como um duplo comportamento, não interagindo de maneira previsível em meio aos diferentes rumos de narrativa. Talvez Kyle seja a melhor personagem, pois se confronta com uma vida tediosa e, depois da transformação, com a descoberta de uma sexualidade que, de forma completa, a torna rejeitada. Trata-se de um filme que antecipa elementos, por exemplo, empregados por Burton em A lenda do cavaleiro sem cabeça, com seu clima vitoriano e brumas de uma fábula. Não é um filme para crianças portanto, já que as atuações de Michelle e Danny DeVito às vezes assustam, sendo, no mesmo sentido, bastante eficazes, principalmente a dela. Mais espetacular, barulhento e “filme de autor” do que o primeiro, e ainda assim inferior, Batman – O retorno, mesmo assim, é visualmente uma das melhores produções de super-heróis já feitas, de profunda influência nas obras atuais do gênero e um símbolo de que um blockbuster pode flertar realmente com ideias originais e com a história do cinema.

Batman returns, EUA, 1992 Diretor: Tim Burton Elenco: Michael Keaton, Danny DeVito, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Michael Gough, Pat Hingle Michael Murphy Roteiro: Daniel Waters Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 126 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Warner Bros.

Homem-Aranha – De volta ao lar (2017)

Por André Dick

Depois de o Homem-Aranha ser vivido por Tobey Maguire entre 2002 e 2007, na trilogia de Sam Raimi, ainda referencial, e por Andrew Garfield em dois filmes, um de 2012 e outro de 2014, a partir de Capitão América – Guerra Civil temos seu novo intérprete, Tom Holland. Revelado em O impossível, no qual fazia o filho de Naomi Watts num desastre da natureza, e integrante do elenco do ótimo Z – A cidade perdida, Holland reprisa o papel no seu primeiro filme solo, Homem Aranha – De volta ao lar.
A história tem início logo após a Batalha dos Vingadores contra Loki em Nova York, quando a empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton), que ajuda a limpar a cidade, é barrada pelo Department of Damage Control (DODC), que constitui uma parceria entre o governo norte-americano e Tony Stark (Robert Downey Jr.). Toomes decide roubar algumas peças de tecnologia das naves alienígenas para fazer seus próprios artefatos. Esse início é um boa retomada da cena de combate da obra de Joss Whedon, quase esquecida em filmes posteriores da Marvel, com exceção de Homem de Ferro 3.

Oito anos depois, Parker é chamado por Stark para participar da luta contra o Capitão América –  e vemos algumas cenas de Guerra Civil filmadas com um celular, parecendo um making of. Pode-se dizer que, a partir daí, o diretor Jon Watts já esclarece seu caminho: este Homem-Aranha é muito mais bem-humorado do que os anteriores. O de Maguire era um tanto melancólico, e funcionava bem, com momentos pontuais de diversão, enquanto o de Garfield se fazia mais próximo deste, com uma certa adolescência em jogo e interesse por esporte (ele andava de skate, por exemplo). Peter Parker estuda na Midtown School of Science and Technology, à espera de um novo chamado para outra missão.
Ele é muito amigo de Ned (Jacob Batalon) e apaixonado por Liz (Laura Harrier), com quem participa do Decathlon acadêmico do Sr. Harrington (Martin Starr, conhecido por suas participações em Freaks and geeks e Adventureland), apesar de incomodado por um colega, Flash (Tony Revolori, de O grande hotel Budapeste). Sua tia, May (Marisa Tomei), nem desconfia que ele usa um uniforme secreto para combater o crime. Nas suas peregrinações atrás de criminosos, o Homem-Aranha se depara com alguns homens de Toomes, usando máscaras dos Vingadores, numa sátira a Caçadores de emoções, de Kathryn Bigelow. Como se trata do sexto filme do super-herói em 15 anos, Watts resolveu não contar novamente sua origem, ou seja, não temos a figura do tio do personagem, mesmo porque esta versão já aparecia na peça dos irmãos Russo.

O diretor encadeia as ligações de maneira muito ágil e descompromissada, tornando o humor orgânico, sem exageros, assemelhando-se, em proposta, a Homem-Formiga, um dos mais bem resolvidos do universo, por misturar naturalmente ação, drama e humor. Há uma influência visível no timing cômico e de ação dos filmes de Edgar Wright, e a impaciência adolescente de Parker é bem dosada por Holland. Sua participação em Guerra Civil se estendia como uma espécie de trailer antecipado para este filme, e havia um certo nervosismo do ator: aqui o nervosismo se converte, em determinado momento, em apelo dramático, e o ator funciona bem, principalmente no embate com um ótimo – embora subaproveitado – Michael Keaton, brincando com Birdman. Perto do semidesastre que foi o segundo filme com Garfield, com seu excesso de vilões e camadas irresolvidas, este se sente uma realização ainda que sem novidades na estrutura bastante eficiente. Ele se encaixa com o restante do universo sem parecer forçado e a participação de Stark não se sente intrusiva, como poderia antecipar o trailer (Downey Jr., aliás, está bem, assim como Jon Favreau, na pele de seu assessor Happy Hogan).

Os quarenta primeiros minutos têm um diálogo com filmes de adolescente recentes, a exemplo de Cidades de papel, com uma participação exitosa de Batalon, como o amigo de Parker, As vantagens de ser invisível e uma brincadeira com O clube dos cinco, de John Hughes – com o Capitão América servindo como uma espécie de guia dos bons valores escolares. Há uma boa solução de romantismo em relação a Liz, embora a atriz, Harrier, não tenha a mesma participação permitida a Kirsten Dunst e Emma Stone, das versões anteriores. Quando o Homem-Aranha procura criminosos, há um misto entre humor e ação bem dosados que faz lembrar o primeiro filme da franquia de Raimi, principalmente na conversa entre habitantes de um bairro (entre eles, Stan Lee). Watts também sabe criar uma boa ambientação, principalmente nas cenas noturnas, com um belo visual destacado pela fotografia de Salvatore Totino. Talvez Homem-Aranha – De volta ao lar comece a parecer repetitivo justamente quando ingresse nas cenas de ação inevitáveis (por vezes exageradas), o que é um problema. Não chega a haver tanta mudança de tom neste Homem-Aranha, mesmo com seis roteiristas, mas principalmente a sequência de embate conclusiva se sente um tanto apressada e sem vibração. Como praticamente o filme se sustenta num diálogo, bem feito, com o humor, a exemplo de Homem-Formiga, ele nunca se sente pesado o suficiente para entendermos que o super-herói está passando por ameaças vigorosas. Isso não prejudica o resultado, certamente um dos mais exitosos do gênero nos últimos anos.

Spider-man – Homecoming, EUA, 2017 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Tyne Daly, Abraham Attah, Hannibal Buress, Kenneth Choi, Martin Starr, Selenis Leyva Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers Fotografia: Salvatore Totino Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Amy Pascal, Kevin Feige Duração: 133 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures

Fome de poder (2017)

Por André Dick

Em Fome de poder, uma cinebiografia sem os elementos típicos do gênero, Michael Keaton interpreta Ray Kroc, um vendedor ambulante que avança pelas estradas do interior dos Estados Unidos em 1954, vendendo aparelhos de milk-shake. O início parece lembrar um pouco as imagens de Carol, um road movie, sem a tentativa, no entanto, de estabelecer sentimentos entre os personagens – o que eles têm a apresentar são negócios a serem concretizados. Por causa de um pedido maior do que o comum, Kroc viaja até San Bernardino, Califórnia. Lá ele conhece a primeira lanchonete do McDonald’s, assim como os irmãos que a projetaram, Maurice (John Carroll Lynch) e Richard McDonald (Nick Offerman). Apresentado aos bastidores da criação, logo tem interesse em fazer parte do projeto, visualizando uma possível franquia capaz de se estender por todo o país. Para isso, ele tenta convencer quem não pensa o mesmo. Com a esposa Ethel (Laura Dern) como fonte de apoio, Kroc tenta encontrar, afinal, um negócio capaz de fazê-lo se consagrar.

Essa linha de argumento lembra bastante A rede social, quando Sean Parker visualiza de fora a criação de Zuckerberg e tenta convencê-lo a expandir sua ideia. Roy é do tipo compenetrado, que não deseja fazer mais nada depois de vislumbrar essa possibilidade de realmente ganhar dinheiro. Vendo como os hambúrgueres e as batatas fritas são preparados, ele pretende aplicar o mesmo rigor em todas as unidades que deseja abrir depois de assinar um contrato com os irmãos inventores. Como extrair potencial de uma história que parece mais inclinada a um documentário sobre negócios a serem feitos? Sobre a empresa que popularizou o fast-food?
Se Fome de poder tem um grande mérito é a atuação de Michael Keaton, fazendo jus a seu grande momento no cinema, logo depois de Birdman e Spotlight. Ao contrário desses filmes, no entanto, Keaton volta a apresentar certos trejeitos de Beetlejuice. Ele faz um sujeito que não é exatamente antipático, mas bastante frio em seu modo de comportamento, com uma certa alegria calculada. Isso não muda quando conhece o proprietário de um restaurante, Rollie Smith (Patrick Wilson), e sua esposa Joan (Linda Cardellini); pelo contrário: tudo se mostra conforme seu planejamento. É interessante como Kroc visualiza a empresa a ser colocada em expansão como um símbolo dos Estados Unidos e uma espécie de lugar onde não as famílias se reúnem, mas uma comunidade. Nesse sentido, aponta-se que Fome de poder trabalha bem com as potencialidades temáticas, mesmo que nunca ingresse naquele campo que Linklater trabalhe com impacto em Fast food nation, sobre os bastidores dessa indústria.

O diretor John Lee Hancock fez há alguns anos um filme visualmente muito parecido – outro grande mérito de sua direção –, chamado Walt nos bastidores de Mary Poppins. Se lá ele mostrava como agia o criador Walt Disney, aqui ele revela como iniciou a rede de lanches internacional que é lembrada principalmente pela efetiva entrega de seus produtos para consumo num curto espaço de tempo. Seria algo previsível não fosse a maneira como Hancock filma, com bela fotografia de John Schwartzman e trilha sonora de Carter Burwell (e os 25 milhões de orçamento aparecem na tela).
Ele, infelizmente, não recebe um roteiro, escrito por Robert D. Siegel, sem arestas, problema com o qual já lidava em Um sonho possível, o que é lamentável quando se lembra que realizou a história de uma das melhores obras de Clint Eastwood, Um mundo perfeito. Quando as coisas mudam drasticamente no momento em que Ray conhece Harry Sonneborn (BJ Novak), um consultor financeiro que o leva a um caminho específico capaz de inserir Fome de poder em vários temas, como fidelidade, ganância, traição, mas não explica exatamente por que, por exemplo, Crok nunca se reúne com os irmãos McDonald, conversando com eles apenas por telefone (e nem eles demonstram especial interesse pelo que Crok está fazendo), ou por que sua esposa jamais chega a frequentar o seu negócio brilhante. Nesse ponto, os atores, de modo geral, são subaproveitados, a começar por Laura Dern, embora Carroll Lynch e Offerman sejam convincentes e Cardellini discretamente insinuante.

Principalmente por causa de Keaton, o filme transita entre as aspirações de uma pessoa ao grande sonho americano e a maneira como ela tenta possuir o sonho de outra sem ter exatamente o merecimento disso. Hancock desenha uma linha tênue, em que vemos um Crok extremamente dedicado, enquanto os irmãos McDonald parecem até acomodados, e na qual os personagens parecem estar atrás dele em termos de agilidade e esperteza. Não deixa de ser uma limitação narrativa, principalmente quando a obra desenha seu arco final, talvez não mostrando exatamente como as coisas aconteceram e sim como Hancock imagina que causaria um impacto maior no espectador. Ainda assim, é interessante como o diretor desenha essa visão gloriosa de uma marca que é comparada a outras instituições marcantes de uma cidade com uma visão até certo ponto bastante sombria e pouco alegre, mesmo com o sol quase sempre brilhando e os arcos dourados reluzindo à noite. É um filme sobre parte da história dos Estados Unidos por meio de uma marca. Se não chega a ser uma propaganda (pergunta-se se não seria uma antipropaganda), Fome de poder atinge elementos de cinema de qualidade.

The founder, EUA, 2017 Diretor: John Lee Hancock Elenco: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Linda Cardellini, Patrick Wilson, B. J. Novak, Laura Dern Roteiro: Robert D. Siegel Fotografia: John Schwartzmann Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Don Handfield, Karen Lunder, Jeremy Renner, Aaron Ryder Duração: 115 min. Distribuidora: Weinstein Company Estúdio: FilmNation Entertainment, The Combine, Faliro House Productions S.A.

 

Spotlight – Segredos revelados (2015)

Por André Dick

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Alguns filmes adquirem, de um momento para outro, uma determinada importância que os fazem ser assistidos com mais ou menos expectativa. Alguns correspondem a ela, outros não. Quando o também ator Tom McCarthy (ele está na série Entrando numa fria, como um dos cunhados de Robert De Niro), realizou, por exemplo, O agente da estação, ainda era um cineasta em início de trajetória, e Ganhar ou ganhar mostrou sua sensibilidade, por meio da bela atuação de Paul Giamatti, enquanto Trocando os pés trouxe mais um Adam Sandler de rotina, mas com Spotlight – Segredos revelados ele acaba chamando a atenção para si e para o elenco que atrai para esta história baseada em fatos reais.
O jornal Boston Globe contava com uma equipe de reportagens especiais, Spotlight, tendo à frente Walter Robbinson (Michael Keaton), com Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) como parceiros. Eles são incumbidos pelo novo chefe, Marty Baron (Liev Schreiber), de investigar abusos por parte de padres pedófilos ligados à Igreja Católica em Boston. Trata-se de um assunto de extrema importância, sobretudo porque necessita um tratamento que não seja condescendente com o assunto. Há alguns filmes pontuais que fazem uma crítica direta à Igreja Católica e são bastante ousados, a exemplo de O poderoso chefão III, quando mostra Michael Corleone com contatos diretos dentro do Vaticano.

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O tema de Spotlight é distinto – e lida com uma questão que atinge a Igreja há alguns anos, por todas as notícias a que se tem acesso. McCarthy tinha uma linha a seguir de emotividade, no entanto, em termos narrativos, Spotlight se destaca por ser um filme de diálogos sobre uma matéria a ser feita. Parece que muito está acontecendo, e quando se percebe não chega a haver uma linha mais aprofundada de cada personagem. Eles buscam informações e se movimentam, mas o espectador dificilmente está com eles. Como na referência central do filme, Todos os homens do presidente, sobre o Caso Watergate, eles vão atrás de pessoas e poucas vão recebê-los, no entanto Pakula sabia construir um crescente de tensão e desconfiança; McCarthy parece apenas registrar fatos e colocar personagens para dizê-los sem a ênfase necessária, ao som de uma trilha sonora surpreendentemente tímida de Howard Shore.
Spotlight fica no limite da denúncia, no entanto um pouco afastado do tema que pretende abordar, por meio, principalmente, do empecilho que o direito colocaria para impedir a verdade. A questão, ao que parece, é que a importância de Spotlight não parece ser a mesma de seu tema em questão, e pelo que se vê essa mistura está sendo feita em grande quantidade, mesmo quando tem grandes momentos.
Os relatos de vítimas são muito bem feitos no início, dando ao filme uma carga dramática específica, principalmente os de Phil Saviano (Neal Huff), Joe Crowley (Michael Cyril Creighton) e Patrick McSorley (Jimmy LeBlanc), todos em excelentes atuações, por outro lado McCarthy os descarta para dar uma movimentação ininterrupta. Todos os jornalistas falam o tempo todo dos casos, não abrindo espaço para uma emoção que podem tirar deles. Nessa movimentação, é visível que se ausenta a parte que na investigação é responsável pelos acontecimentos. Quando ela surge, é de maneira um tanto encoberta, como se não quisesse mostrá-la. Ou seja, há uma pauta jornalística a ser cumprida pela equipe Spotlight; isso em termos de cinema não significa que dê um filme destacado. E é difícil acreditar que McCarthy deseja extrair um traço de humor do aviso de Matt Carroll a seus filhos.

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Com esta falta de carga dramática, as atuações têm dificuldade para se sobressair, exceto as de Mark Ruffalo e de alguns coadjuvantes (Stanley Tucci e Schreiber), principalmente Billy Crudup como o advogado ambíguo Eric Macleish e John Slattery, no papel de Ben Bradlee Jr. Keaton e McAdams, apesar de estarem bem (e admiro ambos), talvez estejam em parte desperdiçados em personagens que poderiam mais contundência. Não há traços claros da sensibilidade interpretativa que McCarthy mostrou em seus belos O agente da estação e Ganhar ou ganhar, ou a simplicidade que realçava as bordas emocionais desses filmes. Num ano em que há um filme como Juventude, é difícil considerar que Spotlight chegue perto de ter o melhor elenco.
A montagem, para um filme quase documental, é igualmente confusa e as camadas vão se sobrepondo, abandonando ideias interessantes, outras menos, porém sempre deixando para trás alguma linha pela qual o espectador poderia seguir com mais clareza para que o impacto seja devidamente atingido. À medida que Spotlight hesita em mostrar quem eram os responsáveis pelos acontecimentos, em raras exceções, o filme se sente, de certa maneira, incompleto. Não há uma clareza entre o público e o privado, não da maneira proposital que deveria, e sim para o crescimento dos personagens nessas duas redomas. A exposição do problema crucial para Boston, tão referida ao longo do filme, se torna para além do filme: não é o ponto para McCarthy. Tudo, para ele, continua e continuará em segredo, pelo menos para o espectador que acompanha a história. A verdade só poderá vir depois da notícia, e nos perguntamos se veremos Saviano, Crowley e McSorley diante de quem cometeu algo trágico em suas vidas.

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Mesmo a maneira com que McCarthy filmou sua história, com um design de produção bastante simplista (lembra um telefilme antes das produções mais recentes sofisticadas) e movimentos de câmera em parte previsíveis (algumas conversas são acompanhadas pelas costas dos personagens, mas nunca recebem um significado mais amplo), incomoda. Além disso, a redação de jornal não se confirma como um lugar atrativo e os cenários além dela são dispersos e pouco numerosos. McCarthy opta por uma certa secura visual, como se isso desse a ele mais efetividade no tratamento do tema.
E ele realmente não consegue solucionar a montagem da melhor maneira. Não era o objetivo, claro, mostrar a amizade entre os repórteres; o problema é que em Spotlight não há um elo de ligação evidente que os torna uma equipe, e isso é sentido no resultado final, que parece absorver toda a emoção que haveria nos relatos originais, entregando apenas o que seria impresso. Isso acaba criando um afastamento inevitável do espectador que percebe esse impasse na narrativa de McCarthy, de que os personagens são apenas o elo para uma denúncia de impacto enorme (o final mostra muito bem essa característica, especialmente) e não, como em Todos os homens do presidente, também figuras intrinsecamente ligadas ao assunto, exceto a do personagem feito por Ruffalo, ao menos em termos de convencimento cinematográfico. O editor feito por Keaton é um exemplo. É isto o que mais chama a atenção ao fim de Spotlight: a vida dessas pessoas prejudicadas tragicamente por padres pedófilos parece, antes de tudo, servir apenas a uma matéria, e o roteiro acaba por se ressentir de um acabamento: aquele que faz do espectador também parte daquela emoção. Para o que gostaria de ser, falta, na verdade, um editor para Spotlight.

Spotlight, EUA, 2015 Diretor: Tom McCarthy Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachael McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Billy Crudup, John Slattery, Len Cariou, Neal Huff, Michael Cyril Creighton, Jimmy LeBlanc Roteiro: Josh Singer, Tom McCarthy Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Blye Pagon Faust, Michael Sugar, Nicole Rocklin, Steve Golin Duração: 128 min. Distribuidora: Sony PicturesEstúdio: Anonymous Content / Participant Media / Rocklin / Faust

Cotação 2 estrelas e meia

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) (2014)

Por André Dick

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Antes de assistira Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), é natural que se espere mais um filme superestimado, em razão do número de críticas prontas para apontar inúmeras virtudes, sobretudo numa época em que muitos filmes são lançados com o objetivo de participar de alguma premiação. O mexicano Alejandro González Iñárritu é um diretor que agradava à Academia de Hollywood, depois das indicações de 21 gramas e Babel, mas não havia lidado até agora com um material que não envolvesse um drama caracterizado até mesmo pela tragédia, como vimos em Biutiful, na interpretação de Javier Bardem. Com a colaboração do fotógrafo Emmanuel Lubezki (Gravidade e dos filmes mais recentes de Terrence Malick), ele provoca uma espécie de deslocamento em sua carreira, mesmo que não se afaste completamente de características da sua trajetória, e consegue apresentar Birdman como se fosse um único plano-sequência, mostrando os ensaios de uma peça teatral adaptada de Raymond Carver, no Teatro St. James de Nova York.
Esta peça tem à frente da adaptação e do elenco o ex-ator de sucessos de Hollywood Riggan Thomson (Michael Keaton), que interpretava o super-herói Birdman até 1992 (como o próprio Keaton quando fez Batman) e deixou de fazê-lo no terceiro filme da franquia. Longe dos holofotes, Thomson está em conflito com alguns integrantes do elenco, como Mike Shiner (Edward Norton), e sua tentativa de estabelecer um relacionamento com a filha, Sam (Emma Stone), enquanto tenta lidar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan). Ele ainda precisa buscar o equilíbrio na relação com duas atrizes: Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), mas ainda enfrenta o pior: a voz de Birdman – que lembra tanto a de Batman quanto a de Beetlejuice – em sua mente, ditando o que deve fazer. A questão é se seus poderes o ajudarão a se livrar de um ator que está jogando a peça para baixo.
Um dos componentes mais interessantes de Birdman é justamente ser um filme que mostra uma peça teatral baseada em “Do que falamos quando falamos de amor”, de Carver, em que temos alguns temas suscitados ao longo de sua história: a relação problemática entre o homem e a mulher e, sobretudo, a vida como um limite tênue com o desespero e a busca pela personalidade. No entanto, a obra de Iñárritu não se sustenta apenas por ser um filme de referências e autorreferências, ainda que uma conversa no início remeta a Roland Barthes, um dos teóricos da metalinguagem.

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Misturando o movimento nos bastidores da peça e os arredores do teatro, na Times Square, as tomadas de Lubezki conseguem envolver o espectador numa atmosfera ao mesmo tempo familiar e enigmática, e o uso de luzes nos bastidores e no palco desempenha quase um elemento narrativo, principalmente porque algumas luzes representam situações ou sensações dos personagens. Não há muitos filmes, como Birdman, que apresentem a sensação de estarmos num teatro e na vida real (A viagem do Capitão Tornado, filme italiano de Ettore Scola, e Sinédoque, Nova York podem ser mais lembrados). Ele talvez soasse pretensioso, mas não é sentido desta maneira: Birdman consegue unir vida “real” e teatro de uma maneira criativa, por meio do plano-sequência adotado por Iñárritu, intercalado pelos solos de bateria e das trocas de roupa, maquiagem e uso de perucas de Riggan.
Diante de críticas a este estilo de filmagem, pode-se imaginar se há uma espécie de surpresa em relação a ele e Lubezki terem conseguido, por efeitos especiais, essa ilusão, ou imperícia crítica de acreditar que ele existe apenas para uma espécie de enfeite: a sensação é de que Birdman tenta costurar aquele ambiente teatral que havia nos filmes de Robert Altman, sobretudo um filme bastante esquecido de 1976, Oeste selvagem, em que Paul Newman interpretava Buffalo Bill e o fazia como se estivesse em um teatro ao ar livre.
Para dar a impressão de acompanharmos os movimentos dos bastidores, da peça e da vida “real” de cada personagem, Iñárritu filma longas sequências com diálogos, obtendo um sentido de continuidade e de variações de cada um e os duplos de cada personagem, nos bastidores e à frente do público. Trabalha-se com os duplos a todo instante, não apenas dentro da narrativa apresentada, como também em relação a outras obras, numa sucessão de piadas culturais, mesmo que possam ser vistas como descartáveis: enquanto Keaton já foi Batman, Norton atuou como Hulk, mas substancialmente, e isso se relaciona com a questão da duplicidade de Riggan, esteve em Clube da luta (também evocado em determinada sequência), enquanto Naomi Watts homenageia Cidade dos sonhos e seu papel no King Kong de Peter Jackson, como atriz selecionada por Jack Black. Por sua vez, Emma já fez par com Ryan Gosling, a quem o personagem de Norton se compara em Birdman, em dois filmes. Nesse sentido, esses atores não estão desempenhando apenas personagens, como também satirizando a própria carreira, além de remeterem às inúmeras histórias de outro livro de Carver, este adaptado para o cinema, pelo próprio Altman: Short Cuts – Cenas da vida.

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Lembrando-se que o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan filma diálogos de 15 a 20 minutos em Winter sleep, vendedor em Cannes no ano passado, tendo como personagem central um ex-ator, Iñárritu emprega um filme que parece não ter cortes e onde tudo deve ser ensaiado, mas que quase nunca resulta no que se ensaiou. As conversas entre Riggan e seu agente, Jake (Zach Galifianakis), são divertidas porque justamente abordam essa linha de abordagem – os imprevistos da montagem teatral -, enquanto a atriz Lesley tenta obter seu primeiro sucesso na Broadway e não raramente costura algumas brigas nos bastidores, mesmo tentando, em seguida, a reconciliação. E Shiner se torna o principal ponto de provocação para Riggan, pois atrai o público para as bilheterias, a principal lembrança guardada pelo ex-Birdman dos tempos de fama e seu calcanhar de Aquiles.
Num instante em que Keaton entra num estabelecimento tomado de luzes aparentemente natalinas, mas no formato de pimentas mexicanas, Birdman também tenta voar como Enter the void, de Gaspar Noé. O espectador sente a profundidade dos ambientes, embora haja a opção, na maior parte do tempo, do diretor e de Lubezki pelos closes. É muito interessante a cena em que Keaton precisa enfrentar o Times Square (está no trailer) e as pessoas na multidão fazem comentários sobre seu estado físico ou querendo aparecer com ele em câmeras de celulares. Trata-se de uma sequência que poderia ser previsível, com sua evidente sátira ao show business, mas recebe um tratamento tão interessante por Iñárritu e Lubezki, como apoio de Keaton, que se torna quase uma síntese da narrativa. Do mesmo modo quando os personagens entram e saem do teatro como se fôssemos conhecendo diferentes níveis de consciência de cada um, sobretudo nos encontros entre Sam e Shiner no alto do teatro, de onde se pode ver a Broadway. Se, por um lado, Birdman é uma ode ao mundo do teatro e das múltiplas interpretações, ele também é um palco aberto para figuras bastante solitárias, com seus dramas de rotina.

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É a solidão de Riggan que se torna o diálogo perfeito para O fantasma da ópera, que aparece em propagandas, na Broadway, pois o personagem de Keaton não deixa de habitar os bastidores e sua persona dupla não deixa de ser um fantasma do seu eu, sobretudo por sua tentativa de conviver com as mulheres ao redor que, como aparece na peça de Carver, o abandonam ou se afastam por seu comportamento ambíguo. No entanto, é um fantasma menos taciturno, e algumas falas dele com uma crítica de teatro, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), são bastante engraçadas, à medida que o desabafo se torna uma metalinguagem descompromissada. Como grande diretor de atores,  Iñárritu extrai de Keaton uma excelente interpretação (no ano passado, ele já estava bem no mais recente RoboCop), assim como do elenco coadjuvante, cumprindo à risca as mudanças de tom e direcionamentos (com destaque para os ótimos Norton, Watts e Stone) e se o filme tem um problema é não dar um desfecho à altura para cada um dos personagens.
Por meio da figura de Dickinson, Iñárritu faz, com certeza, algumas provocações pessoais ao universo da crítica, assim como leva Keaton também a falar contra quem o vê apenas como Batman, e ainda sobram referências cômicas a atores que fazem super-heróis, além da sátira às redes sociais (pela qual Jason Reitman pagou por todos em Homens, mulheres e filhos). Destacado por seu visual atrativo, Birdman é uma mescla entre estilo e substância e torna-se melhor quando o espectador se surpreende com a mudança de ambientes, mesmo dentro de um mesmo espaço, ou de situações, sempre com o ritmo de um ator que precisa jogar suas falas para a plateia de uma peça, com o calor das luzes do teatro St. James chegando também ao espectador. Há emoção nele, traduzida pelo elenco com interesse e, ainda que em seu plano mais emocional tenha elementos claros de outros filmes (como Cisne negro Asas da liberdade), é uma peça muito calibrada de cinema. Mesmo o final, aparentemente rápido demais, é capaz de estabelecer a passagem da natureza interna para a externa que o cineasta deseja mostrar, formando, com seu elenco estelar, um filme estranhamente de arte sem deixar de lembrar Hollywood. Uma obra sobre a própria vida e os clichês que costumam movimentá-la, mas não sem emoção, por meio da representação e do desejo de nunca ser o mesmo.

Birdman or (The unexpected virtue of ignorance), EUA, 2014 Diretor: Alejandro González Iñárritu Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Antonio Sánchez Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, John Lesher Duração: 119 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Regency Enterprises / Worldview Entertainment

Cotação 5 estrelas

Batman (1989)

Por André Dick

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing.
A primeira surpresa de Batman é que se tratava de um trabalho autoral: do início ao fim, estamos diante de uma obra de Tim Burton. E, no que também inspirou a série Batman assinada por Cristopher Nolan, o trabalho de Burton era baseado na adaptação do herói feita por Frank Miller, com um tom muito mais sombrio (embora no mesmo ano, 1989, tenha sido lançado a que me parece ser a peça em quadrinhos mais vital, Asilo Arkham, de Dave McKean e Grant Morrison). Este Batman possui elementos do dia a dia (gângsteres modernos que tentam movimentar o comércio de produtos químicos, em uma metrópole dominada pela criminalidade), mas o que predomina é a indefinição histórica – ou seja, não tem a concepção mais realista (em determinados termos) daquele de Nolan, o que é uma característica de Burton. Sua Gotham City tem um ambiente europeu entre o início do século XIX e o início do século XX: muita fumaça de fábricas, como na Revolução Industrial, e os ambientes enevoados, semelhante a um filme noir, preenchidos por um design que evoca não exatamente Blade Runner, ao qual foi comparado, mas o expressionismo alemão.

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Esta proximidade aumentaria, inclusive, na continuação de Batman, em que o vilão interpretado por Cristopher Walken se chamava Max Schreck, mesmo nome do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922. Se o Batman de Nolan parece mais um policial moderno, o de Burton ainda lembra um detetive em meio a policiais de capote. A influência mais direta no visual de Batman é o trabalho de Hammett, feito também em 1982, por Wim Wenders, em que o escritor trabalhava como detetive e tentava descobrir uma quadrilha de mafiosos no bairro Chinatown. Nesse sentido, o diálogo entre figurinos e ambiente do filme de Burton, sintetizado na direção de arte (de Anton Furst) premiada com Oscar, com cenários montados no lendário estúdio Pinewood, estabelece uma atmosfera adequada para o desenvolvimento da narrativa. Combinado com uma trilha de Danny Elfman em seu início, ainda sem os maneirismos de sua trajetória, e os efeitos especiais de Derek Meddings (Superman e Duna), numa era ainda sem a tecnologia atual, mas com uma fusão orgânica em relação à narrativa, e temos um Batman certamente interessante.
A mitologia do herói criado por Bob Kane, que participou da construção do roteiro, também é mantida (daqui em diante, possíveis spoilers). Durante o dia, Bruce Wayne (Keaton) é um milionário, mas à noite enfrenta o crime de sua cidade, como Batman, sobretudo porque aconteceu um fato em sua infância que o conduziu a este caminho. O único a saber de sua dupla identidade é o mordomo de sua mansão, Alfred (Michael Gough). Já entre os gângsteres, Jack Napier (Nicholson) faz jogo duplo com seu chefe, Carl Grissom (o ótimo Jack Palance), obedecendo suas ordens, mas o traindo com sua esposa, Alicia (Jerry Haal). Para investigar as histórias de Batman, chega à cidade a jornalista Vicki Vale (Basinger), da Time, juntando-se ao repórter desajeitado, Knox (Wuhl), para extrair informações do comissário Gordon (Hingle), próximo a Harvey Dent (Billy Dee Williams). Enquanto o departamento de jornal de Gotham City se baseia novamente nesta concepção noir, não ficam para trás as reuniões da polícia e dos políticos: os ambientes suntuosos mesclam, ao mesmo tempo, um peso atmosférico, por trás de figurinos e maquiagens. Também não se deve esquecer que o primeiro encontro entre Wayne e Vicki Vale acontece num salão com armaduras medievais, cercado de espelhos: nesta sequência, filmada com grande talento por Burton, introduzindo cada diálogo de maneira ao mesmo tempo divertida e irônica, o personagem de Bruce Wayne revela sua dualidade e antecipa que o uso de armaduras não faz parte apenas de sua história, mas foge ao limite histórico.

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As coisas vão mudar em Gotham City. Durante um roubo à empresa de produtos químicos da cidade, Napier, depois de cair num tonel cheio de ácido, fica com o rosto deformado, com um sorriso permanente, voltando para acertar contas com seu chefe. Vicki conhece Bruce Wayne e se apaixona, e ele passa a enfrentar o maior rival, o Coringa, a nova personalidade de Napier. Então, acontece o choque: Batman criou o Coringa, e quem criou Batman? Este fio de narrativa administrado por Burton de maneira efetiva guarda mais do que estamos acostumados num filme de herói. Não existe apenas o duelo entre dois personagens, mas também a tentativa de entender a origem deles.
Outra característica de Burton é a maneira como lida com a dualidade dos personagens. Talvez Bruce Wayne seja o personagem melhor delineado por Burton ao lado de Ichabod Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça e de Ed Wood no filme homônimo, ambos protagonizados por Johnny Depp. E isto se dá com o auxílio direto de Michael Keaton, ator que não compromete depois da pressão dos fãs, que não o queriam no papel, mas no ano anterior havia feito não apenas Os fantasmas se divertem, com Burton, mas o dramático Marcas de um passado (e neste ano, depois de sua excelente participação em RoboCop, regressa com um filme que também brinca com sua atuação aqui, em Birdman). Keaton oferece uma discrição eficiente, ao mesmo tempo em que desenvolve bem seu traço familiar, perturbado por um acontecimento decisivo.
Por sua vez, o personagem do Coringa – e antes dele de Jack Napier – é solucionado de maneira adequada por Nicholson, com sua tendência a ser o primeiro artista homicida do mundo, apesar do exagero, perfilando-se ao lado daquelas que o ator emprega em Um estranho no ninho e O iluminado, e hoje infelizmente, algumas vezes, menosprezada em relação à de Heath Ledger. Suas atitudes colaboram na condução do personagem e sua entrada num restaurante com seu grupo transformando as obras de artes expostas nele num rascunho para Duchamp, e a solução de preservar uma obra de Francis Bacon, com a música de Prince ao fundo, parece uma síntese de um certo cinema dos anos 80 e a passagem para os anos 90, em que o colorido é borrado ou ganha um tom mais soturno. Apesar de o Coringa ser certamente perigoso, Burton concede uma veia mais cômica a ele, fazendo com que seu comportamento assustador seja atenuado em favor de uma visão mais voltada à série antiga de TV, não tanto aos quadrinhos, embora Nicholson realmente traga sua carga para o papel. E, mesmo que o Superman de Donner tenha desencadeado o universo de adaptação de super-heróis para o cinema, Batman é, sem dúvida, a confirmação de que se pode fazer um filme neste campo com um peso autoral, e, sem negar a influência dos quadrinhos, fazer referência ao próprio cinema: é a principal influência de, por exemplo, Dick Tracy, dirigido por Warren Beatty no ano seguinte, com suas homenagens aos filmes de máfia e musicais dos anos 40 e 50, com cenários equivalentes aos dos quadrinhos.

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A necessidade de diálogo entre os personagens e o cenário ganha o ponto máximo na sequência da catedral de Gotham City, uma construção gótica e que destaca, por seu abandono, o principal: a cidade desses personagens não tem nenhuma espécie de religião. Com seu habitual talento para imagens, Burton faz discretamente um filme em que os temas são suscitados por cenários. Temos um senso de design onipresente ao longo do Batman de Burton e não se anuncia nenhum elemento deslocado, mesmo em cenários que nos anos 80 talvez pudessem ser menos elaborados, como o da caverna em que ele guarda suas criações e armas para o combate ao crime organizado. Este senso se encaixa de maneira equilibrada com o comportamento dos personagens: enquanto Bruce Wayne é mais afeito ao cálculo e ao comedimento, mas também avesso ao tamanho de sua mansão, Jack Napier e sua porção extravasada, o Coringa, se comporta como um anunciante de produtos e mesmo de dinheiro jogado aos ares de Gotham City. Além do seu interesse por fotografias e obras plásticas, ele tem outro: recorta fotografias até que preencham o piso do chão. Em Burton, o Coringa é a própria infância (desvirtuada) que Bruce Wayne não teve. Mas o próprio Batman não deixa de ser, para o Coringa, uma personificação da infância: “Onde ele consegue esses brinquedos?”, pergunta o Coringa em determinado momento. Há uma provocação neste comportamento de cada um que não foge a Burton, com seu olhar atento para detalhes que poderiam escapar de um cineasta comum.
De algum modo, o duelo estabelecido (também nas atuações) entre Keaton e Nicholson, ao mesmo tempo, beneficia o elenco. A descompromissada Basinger está bem – no melhor momento da sua trajetória, junto com Los Angeles – Cidade Proibida –, e Wuhl tem uma participação divertida como Knox. Mesmo Jack Palance, com o pouco tempo em cena, é marcante (dois anos antes de receber um Oscar de ator coadjuvante por um caubói em Amigos, sempre amigos), além de Michael Gough (em papel que seria na nova franquia de Michael Caine). Trata-se de uma qualidade de Tim Burton, que ele tem em comum exatamente com Donner, do primeiro Superman: seus filmes, apesar de contarem com grande orçamento, valorizam não apenas as ideias, como as atuações, e tudo acaba soando como um conjunto estabelecido. E não se tem dúvida de que, assim como muitos, Nolan sentou-se muitas vezes em frente a este Batman de Burton para imaginar como seria o seu, principalmente o ótimo Batman begins. Apesar de um tanto esquecido em relação à trilogia mais recente, o filme de Burton continua a figurar entre as maiores adaptações de quadrinhos já feitas, um verdadeiro feito diante das expectativas que se tinha em relação a ele.

Batman, EUA/Reino Unido, 1989 Diretor: Tim Burton Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire, Del Baker, Philip O’Brien, Rocky Taylor, Vincent Wong, Steve Plytas, Liz Ross, John Sterland Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren Fotografia: Roger Pratt Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Peter Guber, Jon Peters Duração: 126 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / The Guber-Peters Company / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 5 estrelas

RoboCop (2014)

Por André Dick

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Em 1987, o primeiro RoboCop apresentava, mais do que a violência conhecida, uma espécie de imaginação referente ao universo futurista, em que os policiais humanos poderiam começar a ser substituídos por robôs. Mas o que mais chamava a atenção é que o filme do holandês Paul Verhoeven lidava, de forma interessante, com uma linguagem de quadrinhos, influenciando de forma decisiva o Batman de Tim Burton, sobretudo pela inserção de noticiários em meio à trama. E era nisto que morava a sua diversão. No entanto, ninguém falava em RoboCop como ícone de um novo cinema, da corrosão (literal) de Verhoeven, da sátira incrivelmente costurada.
Nisto reside a surpresa de, no novo século, RoboCop ser uma espécie de obra-prima da ficção científica e o remake de José Padilha ser uma espécie de ameaça a esta aura de filme inalcançável. Quando soube dessa refilmagem, a primeira sensação foi de temor. RoboCop figura como um dos melhores filmes dos anos 1980, mas basicamente ele é (e foi) um filme que tentava ser pop – e se transformou em cult justamente por essa mistura entre um lado mais popular e a estranheza, com seu elenco original e cenas de extrema violência, o que Verhoeven usaria novamente em O vingador do futuro. O mesmo Verhoeven praticamente afastado de Hollywood por causa de sua joia menosprezada Showgirls – e mesmo com seu Tropas estelares, visto em seu lançamento como apenas um cinema trash no espaço – hoje é exemplo do que deveria ser um diretor de ficção científica. Verhoeven tinha elementos que nem os diretores de Hollywood do gênero possuíam: uma vontade de misturar elementos de filme B com uma sofisticação. É isto que vemos em vários de seus filmes, mesmo de outros gêneros, como Instinto selvagem. Mas o RoboCop original não tem a dose fora de série de humor pelo qual é conhecido nem esta crítica ferina implacável – ele tem, aqui e ali, elementos de crítica ao sistema, contanto nada extraordinário – e tem um ambiente muito mais perverso, com violência explícita, não necessariamente uma qualidade, e drogas sendo usadas. Ou seja, era uma visão pessoal de Verhoeven.

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Padilha é precedido pelos dois Tropa de elite e teria sugerido assumir a refilmagem de RoboCop a produtores da MGM. Depois de recusar o roteiro da versão de Darren Aronofsky, que se retirou para dirigir Cisne negro, ficou claro que ele próprio tinha uma concepção particular do projeto. A questão passaria a ser as inevitáveis comparações com o filme de Verhoeven. Onde este é mais violento, o novo RoboCop passaria a ser mais asséptico; onde o do diretor holandês era mais bem-humorado e agressivo, mostrando o uso de drogas, o novo seria menos intenso e mais comedido. Quando se inicia o filme com os drones ED-209 nas ruas de Teerã, tentando garantir a segurança da população, com uma equipe de filmagem do programa de Pat Novak (Samuel L. Jackson) a postos, e os olhares de alguns moradores pela janela, fica claro que o novo RoboCop não agradaria quem esperava uma espécie de figura do futuro, mas afastada da política. No entanto, o novo RoboCop não chega a ser um filme estritamente político – como foram os filmes anteriores de Padilha, inclusive Ônibus 174. Nem mesmo quando logo se mostra, em seguida, a inoperância da polícia em perseguir um traficante na Detroit de 2028. O policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) se culpa pelo ferimento do parceiro numa cena de guerra e, depois de voltar para casa e reencontrar a mulher, Clara (Abbie Cornish), e o filho, David (John Paul Ruttan). O que acontece daí em diante o levará para a sala de pesquisas do dr. Dennett Norton (Gary Oldman), que está a serviço de Raymond Sellars (Michael Keaton), dono da OmniCorp. O governo americano não quer aprovar uma lei que permita uso de robôs em combate policial, e Sellars pede a Norton um robô com certa percepção humana. Murphy acaba servindo a isso – e é nisto que o novo RoboCop se baseia.
Mais do que um filme de ação ou do que um remake da obra de Verhoeven, o novo RoboCop discute a fusão possível entre o homem e a máquina. Quando Murphy se conhece pela primeira vez com a armadura, há um salto considerável da obra de Verhoeven para a obra de Padilha. Não há, nessa conversão, artifícios de um mero blockbuster, com orçamento milionário. O filme tem, e isso é considerável, uma alma definida. Ele mostra o reconhecimento de um homem diante de sua nova vida, não apenas alguém que é utilizado por uma corporação para se tornar um exemplo de policial do futuro.
Mas Padilha não se concentra especificamente no drama familiar, pois isso tiraria a mitologia do personagem, também ligada à ação. E, se há um equilíbrio bastante claro entre as questões científicas e vilões ambíguos de todos os tipos, temos também um filme de ação vigoroso, cuja montagem (com a presença de Daniel Rezende, que colaborou em Cidade de Deus e A árvore da vida) é não menos do que perfeita. Embora tenham deslizes e um excesso de narração em off, não se pode falar que os dois Tropa de elite sejam filmes sem uma autoria. Em RoboCop, o excesso de diálogos se converte numa síntese, como a armadura do personagem central, e se o poder da versão de Verhoeven era sua autenticidade o de Padilha é justamente um trato emocional. O momento especialmente em que RoboCop surge é simbólico, sobretudo quando ele se encontra, em determinado momento, em meio a um campo de plantações semelhante àqueles do Vietnã, embora na China – não antes sem uma homenagem clara a Avatar, de James Cameron. No futuro, a corporação norte-americana não consegue fugir de seu passado. Nesse sentido, os diálogos sobre salvar vidas humanas ou não, usando robôs sem uma porção emocional ou não, são muito interessantes, e Padilha vai além do que imaginou Verhoeven nos anos 80. Quando se importa em quantos milésimos de segundo alguém será morto, o filme pergunta se a vida de uma criança em cena de guerra será realmente importante para quem fabrica armas – e a relação do RoboCop com o filho estabelece uma ligação direta com o início do filme em Teerã. Padilha trata o personagem não com reverência, mas como parte de um contexto, sem afastá-lo, no entanto, de sua mitologia e da diversão. E talvez toda essa comparação com o anterior e um certo saudosismo ofusque o mais evidente: o novo RoboCop é impressionante.

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Padilha extrai das reações humanas e não dos diálogos a peça para seu filme funcionar, o que não seria possível sem o elenco. Gary Oldman é um excelente Norton, provando novamente ser um grande ator, capaz de extrair emoção de um material que nas mãos comuns se tornaria indefensável, e Joel Kinnaman é uma revelação como RoboCop. Peter Weller, do primeiro, nunca foi grande ator (pelo menos até sua atuação no recente Star Trek). Kinnaman não é apenas mais ator, como também consegue transparecer emoção num roteiro que pode ser considerado, dentro de determinados limites, um clichê (embora quando se ouve falar que Ela, de Spike Jonze, é um filme de clichês, os parâmetros ficam mais delicados). Sua transformação de simples policial no personagem-título é grande. Por sua vez, o até então desaparecido Michael Keaton consegue fazer uma mistura entre Miguel Ferrer e Ronny Cox da primeira versão, assim como Jennifer Ehle consegue desempenhar a assessora do cientista Liz Kline com grande eficácia, e Jackie Earle Haley também consegue boas linhas como Rick Mattox. Samuel L. Jackson, por sua vez, como o Pat Novak, colabora com a porção de crítica, discutindo o militarismo, embora alguns instantes de sua participação soem um pouco artificiais e encaixados de forma mais esquemática diante do restante. Mas a questão está lá: desde Fahrenheit 11/9, a obsessão norte-americana pelo militarismo não era tão criticada e, se Padilha não tem o sarcasmo de Verhoeven, as farpas de seu RoboCop ressoam muito mais do que a Detroit imaginada em 1987.
Todos esses personagens são envolvidos numa narrativa que se costura rapidamente, sem grande complexidade, mas que soa verdadeira e sem deixar pontas soltas, com o auxílio de efeitos visuais preciosos e uma direção de arte urbana alternando com corredores e salas de pesquisa. Há alguns elementos do início do filme que mostram uma certa dificuldade de adaptação ao cenário, uma certa experimentação com a atmosfera (e entre dedilhados de violão e uma música de Frank Sinatra não parecemos estar num filme de ficção científica), mas aos poucos se percebe que este tratamento é proposital, para que Murphy passe de sua forma humana a uma fusão com seu futuro, e tente se adaptar a ela. Em nenhum momento, sente-se o filme como um arremedo solto, tentando agradar infalivelmente a plateia, e mesmo onde há falhas logo a montagem consegue preencher a lacuna. Os sentimentos de Alex Murphy conseguem sustentar com segurança todo o ato final, com uma sequência de cenas de ação compactadas e bem resolvidas, e sentimos que há uma mão coordenando tudo, sem menosprezar o espectador. O mais importante parece ser que este RoboCop não pede desculpas a seu original e tenta seguir seu próprio caminho. O de Verhoeven sempre vai habitar a imaginação como um filme brutalmente original, mas este de Padilha possivelmente será mais reconhecido – não tanto agora, pois é muito recente – por seu impacto em termos de emoção e angústia humanas.

RoboCop, EUA, 2014 Diretor: José Padilha Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, John Paul Ruttan Roteiro: James Vanderbilt, Joshua Zetumer, Nick Schenk Fotografia: Lula Carvalho Trilha Sonora: Pedro Bromfman Produção: Eric Newman, Gary Barber, Marc Abraham, Roger Birnbaum Duração: 117 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Strike Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia