Sicario – Dia do soldado (2018)

Por André Dick

É no mínimo surpreendente que Sicario – Terra de ninguém, um dos melhores filmes sobre tráfico de drogas, dirigido por Denis Villeneuve, tenha recebido uma continuação tão interessante pelas mãos do italiano Stefano Sollima. Isso talvez se deva ao fato de Taylor Sheridan, roteirista do primeiro, regressar aqui, para mostrar a trajetória novamente de Alejandro Gillick (Benicio del Toro) e Matt Graver (Josh Brolin), do Departamento de Justiça.
Se o primeiro barrava os limites entre o certo e o errado, entre a ética do Estado ou seu rompimento, para evocar indagações internas na agente do FBI Kate Macer, interpretada por Emily Blunt, isso, de certo modo, ganha um grande potencial, até maior, em Sicario – Dia do soldado, com uma configuração notável dos problemas no México. Sheridan, mais uma vez, depois dos trabalhos exibidos em A qualquer custo (pelo qual foi indicado ao Oscar) e Terra selvagem (o qual escreveu e dirigiu), mostra seu interesse por personagens vivendo uma experiência à parte do mundo conturbado, em lugares afastados, no entanto sempre afetados pela realidade mais explosiva. Toda a sua narrativa poderia ser equiparada, como A qualquer custo, com um faroeste contemporâneo, no qual os mocinhos e bandidos não são bem definidos, os cavalos são helicópteros ou caminhonetes e as regras da lei são constantemente quebradas para que se imponha o mínimo de ordem.

Graver é chamado novamente à ação depois de um atentado terrorista num supermercado de Kansas City, pelo secretário de Defesa dos EUA, James Riley (Matthew Modine). Supervisionado por Cynthia Foards (Catherine Keener), Graver, depois de uma passagem pela Somália (em cenas que lembram A hora mais escura), tenta colocar traficantes de drogas uns contra os outros dentro do México. Ele pede a participação do antigo companheiro no sequestro de Isabel Reyes (Isabela Moner), filha adolescente de 16 anos de um dos mais poderosos líderes de um cartel de drogas mexicano, mas dando a entender que são os rivais dele que o realizam – quando o espectador sabe se tratar de agentes ligados ao governo, com ou sem lei. A maneira como Sollima grava essas sequências, nas quais a verdade existe para o espectador, não para Isabel, numa espécie de metalinguagem bem-sucedida (tudo é uma grande encenação), se faz fidedigna do talento de Villeneuve em compor um clima de tensão, localizável anteriormente em Incêndios, tanto dentro de pavilhões militares quando em estradas em meio ao deserto. Esta característica se revela nos momentos de emboscada, que Sollima roda com uma urgência incomum no cinema norte-americano sem se expor a lugares-comuns excessivos.

Esta continuação de Sicario guarda em parentesco com o primeiro, além da fotografia extraordinária de Dariusz Wolski (utilizando suas lentes já testadas nesse cenário com O conselheiro do crime, de Ridley Scott, uma influência clara para o original de Villeneuve), a sua maneira discreta de tratar de temas familiares, como se mostra no comportamento de Gillick, em mais uma atuação irrepreensível de Del Toro. Sua amizade com Isabel é parecida com aquela que tinha com a agente feita por Blunt no primeiro e os maneirismos do ator mexicano nunca perdem para sua convicção em interpretá-los. Ao recordar novamente de sua filha, impossível não registrar o domínio da figura da mulher num ambiente petrificado.
Muitos apontam este filme como uma sequência desnecessária, contudo é possível ver os personagens sendo explorados de uma maneira interessante. Pode-se ver certa influência de Traffic, de Soderbergh, e de Heli, à medida que a trama cria raízes no México. No original de Villeneuve, quase tudo se concentrava em Macer e em seus amigos, a exemplo de  Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), ficando para os personagens aqui enfocados apenas um mistério. Eles surgiam sempre à espreita, sem terem muito o que dizer; aqui, eles dizem, porém quando não se expressam é que seus sentimentos vêm mais à flor da pele. O destino de Gillick é um ponto realmente bem trabalhado, além de ressoar para além das imagens.

Sollima oferece a eles mais diálogos e transparência, ao mesmo tempo que os conserva à distância do espectador. É como se ele tivesse conseguido acertar naquilo que Ridley Scott não conseguiu, em Hannibal, continuação de O silêncio dos inocentes. Utiliza a ação como um soco, não deixando de lado a violência, mas sem utilizá-la com exagero. Tanto a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir lembra a composição de Jóhann Jóhannsson (infelizmente falecido) quanto a fotografia de Wolski repete tons daquela de Deakins. Em termos narrativos, é claramente diferente do primeiro (mais lento e com transições discretas, uma especialidade de Villeneuve), com uma linearidade mais ligada a um cinema de ação, sem nunca deixar de ser igualmente interessante. Talvez sua recepção menos entusiasmada tenha se dado em razão de uma certa visão política que seria prejudicial ao país focado. Isso, porém, não se expande na abordagem de Sollima: ele apenas confere problemas que estão localizados nesse combate entre personagens ligados aos Estados Unidos e seus vizinhos, sem querer indicar nenhuma solução.

Sicario – Day of soldado, EUA, 2018 Diretor: Stefano Sollima Elenco: Benicio del Toro, Josh Brolin, Isabela Moner, Jeffrey Donovan, Manuel Garcia-Rulfo, Catherine Keener Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Hildur Guðnadóttir Produção: Basil Iwanyk, Edward L. McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 122 min. Estúdio: Black Label Media, Thunder Road Pictures Distribuidora: Columbia Pictures, Lionsgate

Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Sicario – Terra de ninguém (2015)

Por André Dick

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Foi a partir de Os suspeitos, em 2013, que o diretor Denis Villeneuve, nascido no Canadá, se firmou, pelo menos junto ao público, como um dos cineastas a serem acompanhados no cinema moderno. Particularmente, O homem duplicado, baseado no romance de José Saramago, seu filme seguinte, parece uma obra ainda melhor realizada tecnicamente, com uma temática de busca pela personalidade, ou antipersonalidade. Mas é em Polytecnique, já filmado com uma excelência técnica apesar do baixo orçamento, qualidade que se repetia em Incêndios, mas neste sem o mesmo impacto, que Villeneuve vai buscar um diálogo para a personagem central de Sicario – Terra de ninguém, a agente do FBI Kate Macer, que trabalha no combate às drogas.
Depois de uma operação no Arizona em que ela é exposta a uma realidade mais chocante do que imaginava, ela é recomendada por seu chefe, Dave Jennings (Victor Garber), a se apresentar a Matt Graver (Josh Brolin), de uma divisão especial da CIA sob comando do governo, a fim de fazer parte de um grupo que irá combater o cartel de drogas no México, junto com o amigo Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), com a ajuda também de Alejandro Gillick (Benicio Del Toro). Como a personagem central de Polytecnique, Kate não consegue se encaixar com tranquilidade num universo predominantemente masculino e ameaçador.

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Ela é convocada para a missão de encontrar traficantes, sem ao certo nunca saber o que de fato está realizando, mesmo que a pressuposta figura a ser combatida seja a do chefe de cartel Manuel Díaz (Bernardo P. Saracino). Seu ingresso na missão se deve a uma crença de que indo à origem do tráfico de drogas para os Estados Unidos pode estar modificando não apenas o direcionamento das vítimas que ele causa, como também pode estabilizar a vida como agente.
Auxiliado por uma fotografia habitualmente notável de Roger Deakins, seu habitual colaborador, Villeneuve tenta fazer uma mistura de Heli, Traffic, Onde os fracos não têm vezes e A hora mais escura. Principalmente o menosprezado (e ótimo) Heli serve de inspiração para muitos momentos de Sicario, inclusive na fotografia febril de Deakins, como se escolhesse sempre a luz natural do sol, sem intermediações, simbolizando o mormaço. Quando Villeneuve mostra a chegada em caminhonetes da equipe de Matt, Alejandro e Kate ao México, mais especificamente na cidade de Juárez, essa influência é perceptível, não apenas pelas imagens que lembram um documentário, como também por uma exposição assustadora de vítimas do tráfico de drogas. Se Escalante, no entanto, foi criticado em Heli pela violência mais crua, Villeneuve prefere atenuar as imagens com uma espécie de estilo que evoca um thriller. Ou seja, é como se Kate estivesse chegando a uma base militar de A hora mais escura – e há uma profusão de imagens que recorrem ao filme de Bigelow, principalmente aquelas que mostram prisioneiros por trás das grades. Não que já não houvesse elementos que poderiam dialogar com Bigelow em Incêndios, mas a pressão de Villeneuve tem forte influência do cinema daquela diretora.

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Em igual escala, a personagem Kate tem um diálogo com a detetive interpretada por Jessica Chastain no sentido de que não é possível saber da sua vida pessoal; ela é uma personagem que tem como limite a própria situação em que está inserida. Mesmo que os personagens sejam misteriosos, ainda melhores são as atuações de Blunt, Brolin e Del Toro, todos igualmente muito bem, assim comol Kaluuya, na persona de Reggie, amigo de Kate. Del Toro, de todos, é o mais atento ao que se pode chamar de configuração real de um personagem, com uma presença hipnótica em cena – como em 21 gramas e O lobisomem, ele atua muitas vezes apenas com o olhar –, embora Blunt consiga extrair muito de um papel bastante reduzido em termos de diálogo, entregando a melhor atuação desde Meu amor de verão, há mais de uma década atrás, quando ainda filmava mais na Europa. Brolin, por sua vez, mostra mais uma vez que se trata de um dos coadjuvantes mais centrais dos últimos anos, principalmente neste e em Vício inerente.
Impressiona como Villenuve tem uma variação no estilo, pois Sicario se sente completamente diferente de seus outros filmes no tom visual e em seu roteiro, além do uso de uma música atmosférica de Johan Jóhannsson, dialogando com o peso das imagens, principalmente aquelas em que as locações são vistas do alto (num diálogo com Amor sem escalas). Villeneuve tenta sempre contrapor os personagens isolados a cenários semi-habitados ou que parecem (apenas parecem) abandonados, a exemplo de uma rodoviária noturna, quando também dialoga com Traffic, de Soderbergh.
O roteirista Taylor Sheridan tem certa dificuldade de explorar os caracteres dos personagens, por outro lado o que seu roteiro não entrega Villeneuve e Deakins transformam em sugestão visual – e muito forte, a começar por uma passagem pela fronteira dos Estados Unidos com o México, cercada por uma tensão desenfreada. E mantém-se a essência: este é um dos melhores filmes sobre o tema de combate às drogas.

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Há uma dualidade nunca resolvida por Villeneuve e os personagens não sabem exatamente se são bons, ou se apenas sua finalidade – a eliminação do tráfico – é boa, com métodos falhos. Sicario se fixa sempre nos procedimentos a serem adotados, e eles podem reservar uma indefinição quanto à finalidade, o que fica subentendido pelo próprio título, que pode tanto remeter ao uso de armas escondidas quanto, etimologicamente, ao estado em que os personagens estão mergulhados desde o início e à finalidade com que alguns deles podem atuar neste cenário desolador. Habitualmente, os personagens principais dos filmes de Villeneuve são solitários, e Kate é um exemplo bastante propício para estender esse argumento – como também a mãe de Incêndios.
Para ela, qualquer fuga às tarefas de agente podem representar um perigo, como se ela não estivesse preparada para a realidade. O relacionamento de amizade que estabelece com Alejandro parece mais ligado a uma insegurança familiar e Villeneuve é muito efetivo ao despertá-la na narrativa de Sheridan. Ainda assim, é notável como o cineasta consegue criar uma cena de tensão num determinado local capaz de evocar a transição e a pulsação nervosa de James Cameron com a câmera em Aliens. Villeneuve utiliza o cenário para mostrar como a personagem não pode se libertar da verdadeira natureza própria. Ora, o filme não trata de uma mulher oprimida ou não – trata-se de alguém que quer seguir as leis num universo onde não há leis. Na visão de Villeneuve, a guerra a ser mostrada e combatida em Sicario está mais próximo do que se imagina, evidentemente mais ainda para a diplomacia dos Estados Unidos que parece despreocupada com o que acontece a seu lado. Sicario se concentra em determinadas ações e, ao mesmo tempo que mostra uma possível realidade, lança o espectador numa tentativa de refletir longe do cenário apresentado sem, no entanto, oferecer qualquer alívio completo. Mesmo com percalços no roteiro, é cinema de alta qualidade.

Sicario, EUA, 2015 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Jon Bernthal, Jeffrey Donovan, Victor Garber, Raoul Trujillo, Maximiliano Hernández, Daniel Kaluuya Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Basil Iwanyk, Edward McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 121 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Thunder Road Pictures

Cotação 4 estrelas

 

Vício inerente (2014)

Por André Dick

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Vício inerente parecia ser, pelo trailer, o filme mais acessível de Paul Thomas Anderson, sucedendo sua obra-prima O mestre. É possível entender que a adaptação feita pelo diretor do romance de Thomas Pynchon, lançado em 2009, procura, como o livro, fazer uma homenagem às investigações policiais dos anos 50 no cenário dos anos 70. O diretor já revisitou essa época em Boogie Nights, mas Vício inerente oferece um passeio muito mais hermético, por se basear numa escrita com várias referências explícitas ou não e uma linguagem entre o pop – no caso de Vício inerente, dessa linguagem que faz referência principalmente à geração hippie – e o que é considerado cult, os romances de detetive (e suas descrições detalhadas parecem homenagear tanto autores do gênero policial quanto os beats). Há uma diversidade de personagens na prosa de Pynchon, um entra e sai deles, nem sempre esclarecidos, diálogos que acontecem como se estivéssemos escutando os personagens de perto e uma ambientação concentrada.
Anderson respeita o romance que lhe serve de inspiração na mesma medida que lança seu olhar próprio: os zooms lentos sobre cada personagem em algumas situações, além de remeterem a Altman, mais claramente, possuem a técnica de exatamente diminuir a velocidade da prosa de Pynchon. Desse modo, o que Anderson faz não é exatamente fácil: ele retira todo o movimento dito moderno de Pynchon e coloca suas figuras, com jeito de estarem nas praias californianas, situadas entre tramas estranhas e distantes da realidade. Há um choque – e nisso se concentra a especialidade de Vício inerente. Sem deixar de ser fiel ao livro, o filme de Anderson é outra energia, como diria seu personagem principal, o detetive e hippie juramentado Doc Sportello.

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Doc mora em Gordita Beach, uma praia fictícia em Los Angeles, e é procurado por uma antiga namorada, Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston), para encontrar o amante dela, Mickey Wolfmann (Eric Roberts), um ricaço do meio imobiliário e ligado a uma organização misteriosa chamada Golden Fang. A trama labiríntica que parte daí e evoca tanto o lado solar quanto a escuridão da noite, além de uma porção de nomes, desde o delegado da polícia de Los Angeles Bigfoot Bjornsen (Josh Brolin), além de alguns ativistas, é típica do gênero e fascinante para quem se interessa. Ao mesmo tempo em que precisa encontrar Wolfmann, Doc é procurado por Hope (Jena Malone) para encontrar seu marido, também desaparecido, Coy (Owen Wilson), um saxofonista. Para o caso de Wolfmann, recebe a ajuda de Sauncho Smilax (Benicio del Toro), levando-o ao veleiro Golden Fang, enquanto tem encontros futivos com Penny Kimball (Reese Witherspoon) e interrogatórios no mínimo estranhos com Tariq Khalil ( Michael Kenneth Williams), integrante dos Panteras Negras, o Dr. Rudy Blatnoyd (Martin Short), a prostituta Jade (Hong Chau) e a esposa de Wolfmann, Sloane (Serena Scott Thomas), precisando usar seu caderninho para entender o que seria ou não resultado de uma paranoia ou alucinação pessoal. Em determinados momentos, a elaboração nas tramas lembra também a de Dália negra, obra injustamente esquecida de Brian De Palma, adaptada de Elroy, por sua profusão de caminhos e interligações, com a narração de Sortilège (Joanna Newsom, cantora e compositora), que tenta esclarecer alguns detalhes, para descontrair a história.
Embora seja vendido como uma comédia, e tenha realmente momentos de humor, Vício inerente é um filme que joga com elementos policiais clássicos com a mesma competência de Hammett, dos anos 80, dirigido por Wim Wenders, e, apesar de parecer, ele pouco tem relação com O grande Lebowski, dos irmãos Coen. Nesse sentido, ele possui tanto humor quanto Sangue negro, ao se mostrar os conflitos entre o desbravador de poços de petróleo e o pastor da localidade onde concentra sua empresa, e O mestre, quando este mostra o líder de uma seita que precisa de um homem para lidar com ações menos reflexivas, como encostar algum detrator de suas ideias contra a parede.

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Por meio dos personagens, Anderson sempre procura encontrar o lado tanto ensolarado quanto nebuloso de uma América prometida nos livros de história. E, ao contrário de Magnólia, ainda o mais visto de Anderson, não existe aqui nenhum apelo ao pop ou ao movimento: a maneira como Vício inerente foi filmado é aparentemente simples, modesta, sem os travellings a que Anderson se acostumou no início de carreira e usou sobretudo em Embriagado de amor, e isso pode ser percebido também na direção de arte e nos figurinos, que apenas complementam os personagens e nunca são um elemento à parte no cenário. Ele se parece visualmente com Boogie Nights, principalmente ao apresentar o interior dos lugares, sem nenhum exagero ou cores excessivas, ou seja, é realmente o filme em que Anderson se distancia de qualquer apoio que não seja a história e o elenco.
Filmado com um rigor descompromissado, Vício inerente é apenas aparentemente um filme ingênuo ou que apena sublinha a quantidade de drogas na cultura dos anos 70; vê-lo como uma história sobre pessoas que se utilizam de misturas ilícitas não desenvolve sua riqueza e imaginar que sua trama confusa é fruto apenas de estados alterados no mínimo equivocado (este não é um segundo Medo e delírio, também com Del Toro, em que Johnny Deep fazia um jornalista mergulhado no uso de substâncias proibidas). Isso pode ser sentido não apenas no encadeamento inicial, quando há um longo diálogo entre Doc Sportello e Shasta, até o início de suas investigações, que o levam até a gangue que pode ajudar a esclarecer onde afinal está Mickey Wolfmann. Anderson em nenhum momento, como um grande diretor, esclarece por que a história vai tendo algumas rupturas, quando, visualmente, tudo transcorre de maneira fluida e interligada. Nesse sentido, o filme só se mostra de fato confuso quando se deixa de imaginar que Anderson e, antes dele, Pynchon, queria fazer uma homenagem referencial à cultura do cinema noir, no qual as luzes e sombras desempenham papel fundamental.
Em Vício inerente, Anderson torna esse jogo de luzes e sombras com cores distintas não apenas no início, certamente aquele momento que mais se mostra fiel ao livro e determina todo o ritmo, como também no momento em que vai a uma mansão onde pode encontrar um determinado personagem. Se a delegacia é um lugar sempre iluminado, os seus personagens nunca o são: tanto Bigfoot quanto os integrantes do departamento são confusos. Bigfoot é claramente uma visão da era Nixon, da tentativa de obter um controle sobre sua própria imagem – e ele se decepciona ao perceber que não lhe dão o espaço que considera merecer. E Doc Sportello está longe de ser uma caricatura de hippie como costuma ser descrito: Phoenix lança sobre o personagem quase uma consternação melancólica, de não entender o que se passa à sua volta não exatamente em termos de efeitos psicodélicos, mas morais: Sportello está perdido nessa mudança brusca de comportamentos e conspirações por todos os lados, a começar pela do seu próprio governo.

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Anderson continua sendo um diretor fenomenal de atores, extraindo grandes atuações de Phoenix (que passa de Amantes para O mestre e Ela com a naturalidade de ser o melhor atuação da sua geração) e Brolin, mas também do elenco coadjuvante, com rápidas (e essenciais) participações de Waterston, Wisterphoon, Short e Del Toro. Além disso, Anderson homenageia também o estilo de filmagem de Robert Altman, com propriedade: há sequências memoráveis e uma ambientação impecável, levando o espectador a cada lugar enfocado. Se Altman havia tentado (particularmente sem conseguir) em Um perigoso adeus exatamente essa busca por uma revitalização do cinema que mostra investigadores envolvidos em tramas nebulosas, Anderson consegue efetuar uma modernização dessas ideias, assim como se mostrava em A ponta de um crime, em que Gordon-Lewitt interpreta um estudante de colégio em meio a uma narrativa misteriosa. Apesar da longa duração (148 minutos) e da dificuldade de acompanhar os acontecimentos – misturados à psicodelia pessoal de “Doc” Sportello –, o filme de Anderson, em meio à sua lentidão, na correspondência nunca confirmada entre diálogos e fatos, nunca é menos do que original, por aliar narrativa e atores de um modo inusitado e mesmo impressionante quando se sabe o quanto Hollywood se afasta deste tipo de tratamento narrativo.
Como pano de fundo, com esse retrato da geração hippie – o delegado feito por Brolin como o aparente extremo contrário de “Doc” –, existe ainda o surgimento de ativistas na aurora dos anos 70, a paranoia com uma possível invasão russa por meio de ideias desconexas, os cabelos ao vento das mulheres na praia, as ondas e um espaço para se avistar o horizonte entre duas casas (numa imagem recorrente da obra anterior de Anderson, O mestre).  Não apenas um retrato de época e uma brincadeira com gêneros, Vício inerente mostra toda a melancolia que existe na passagem de gerações e nos movimentos culturais, quando o personagem precisa olhar para o retrovisor, mas seguir em frente. Essa escolha está presente também na maneira como Robert Elswit trabalhou com as locações do filme: dificilmente vemos o brilho de fundo dos cenários porque a câmera está concentrada nos personagens e no que eles têm dizer e, quando há um brilho, é apenas relance de um sol. E essa é a ruptura clara entre gerações, que Doc Sportello consegue sintetizar de maneira clara, mesmo com sua aparente confusão. Com todo o seu descompromisso, Vício inerente é fascinante.

Inherent vice, EUA, 2014 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Joaquin Phoenix, Katherine Waterston, Josh Brolin, Owen Wilson, Benicio del Toro, Reese Witherspoon, Maya Rudolph, Eric Roberts, Michael Kenneth Williams, Joanna Newsom, Martin Short, Martin Donovan, Jena Malone, Sasha Pieterse, Hong Chau, Peter McRobbie, Keith Jardine Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Jonny Greenwood Produção: Daniel Lupi, JoAnne Sellar, Paul Thomas Anderson Duração: 148 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Warner Bros.

Cotação 5 estrelas