Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

Star Trek – Sem fronteiras (2016)

Por André Dick

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Quando estava para ser feita a terceira parte de Star Trek, vários rumores surgiram: o primeiro foi o afastamento de J.J. Abrams da direção, para se dedicar a Star Wars – O despertar da força e, em seguida, o anúncio de Edgar Wright, de Scott Pilgrim contra o mundo, como o novo diretor. No entanto, a direção coube finalmente a Justin Lin, de quatro episódios da série Velozes e furiosos. Estava configurada a temeridade: poderia o terceiro episódio reproduzir a qualidade dos dois primeiros filmes de Abrams? Isso porque Abrams praticamente conseguiu refundar esses personagens criados por Gene Roddenberry sob uma nova roupagem, com mais agilidade e não exatamente menos reflexão, uma característica da série que iniciou na TV nos anos 60 e se transportou para o cinema do final dos anos 70 até o início da década de 90 (não por acaso, um dos cartazes de Star Trek – Sem fronteiras e é quase uma réplica do de Star Trek – O filme, de Robert Wise, que tentava repetir 2001). E é difícil entender a demissão em parte da crítica ao segundo episódio, um dos melhores construídos da história da franquia, e ainda assim questionado por seus temas voltados à política e com indiretas à política norte-americana de invasão a determinados países em guerra.
Neste terceiro episódio, a Enterprise volta de uma missão de cinco anos à base estelar Yorktown (uma destreza em design, mesmo que com clara influência de Elysium). O Capitão James T. Kirk (Chris Pine) está refletindo sobre a sua função, um pouco entediado do que julga ser uma rotina episódica – qualquer metalinguagem é mera coincidência –, depois de todos esses anos, e pensa em querer promover Spock (Zachary Quinto) como novo capitão da Enterprise. Ficamos sabendo que a relação deste com Uhura (Zoe Saldana) não se mostra como era antes e que aconteceu a perda de um ente querido (o Spock mais velho, Leonard Nimoy, a quem o filme também é dedicado).

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Uma cápsula é encontrada numa nebulosa, e nela uma sobrevivente, Kalara (Lydia Wilson), que avisa que sua nave está em Altamid, um planeta nas localidades. A Enterprise sai em missão de resgate, mas acaba se deparando com uma invasão alienígena liderada por Krall (Idris Elba), que está atrás de um artefato descoberto por Kirk numa de suas missões. Este artefato, o Abronath, colocará a Enterprise numa situação delicada, capaz de lembrar, particularmente, o momento mais espetacular de Matrix revolutions, deixando os combates anteriores entre naves nos filmes anteriores para trás em termos de impacto.
Temos de volta não apenas Kirk e Spock, como também Uhura, Sulu (John Cho), Chekov (Anton Yelchin, em sua participação lamentavelmente derradeira, R.I.P.), Leonard McCoy (Karl Urban), Montgomery Scott (Simon Pegg), e o ritmo empregado por Justin Lin não é muito diferente daquele usado por Abrams nas duas primeiras partes. Existe, aqui, uma necessidade de mostrar a equipe agindo em núcleos, depois de um grande imprevisto, e Lin consegue desenvolvê-los de maneira adequada, sobretudo a ligação entre McCoy e Spock. E ainda há uma nova personagem, Jaylah (Sofia Boutella, de Kingsman), embora seja um spoiler se eu dissesse qual sua participação.
Se não existe aqui a interação entre Kirk e Spock que havia nos demais, e mesmo assim Pine e Quinto continuam ótimos em seus papéis, muito em conta dessa separação por aqui, Star Trek – Sem fronteiras, se mostra mais leve em sua maneira de apresentar a ação, mesmo que igualmente espetaculoso, com design de produção fantástico e um figurino acertado. Percebe-se o cuidado em realmente não se concentrar no CGI, mas reproduzir alguns cenários em alta visual de impacto (apesar de termos a cidade espacial que pode ser um passo além das experimentações visuais de Gravidade).

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O roteiro, escrito por Pegg, também responsável pelas narrativas de Chumbo grosso, Paul – O alien fugitivo e Heróis de rassaca, em parceria com Doug Jung, é muito interessante na maneira como estabelece a história sem uma divisão clara, com uma ação contínua, em que um quadro desencadeia o outro, sucessivamente, transformando-se numa sequência bastante envolvente e na qual não existe a quebra que havia, nos anos 80, de A ira de Khan para À procura de Spock. O que falta às vezes é justamente um toque de humor, especialmente de Pegg, que havia em doses maciças no primeiro empreendimento desta franquia de Abrams, que segue como produtor, e mesmo o ator não está no seu momento mais inspirado, talvez por dividir desta vez suas funções. Ele simplesmente não consegue desenvolver a mesma agilidade quanto aos personagens que Abrams conseguia, e Damon Lindelof, um dos roteiristas do segundo, faz especialmente falta. Também há um descuido talvez na maneira como apresentam uma determinada cena com Sulu, que foi alvo de comentários, pois não expande a ideia, como deveria, e parece apenas um acréscimo forçado, pois logo a abandona, não trazendo aquela ligação dramática para o resultado final. Ainda assim, a homenagem a Nimoy soa interessante e sente-se aproximação de Kirk novamente com seu passado, do seu pai (Chris Hemsworth) e do almirante Pike (Bruce Greenwood), como um adendo capaz de ressoar junto ao espectador como antes.

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Em relação ao segundo, há a perda de Benedict Cumberbatch como vilão, e Idris Elba está escondido depois de uma pesada maquiagem (lembrando Louis Gosset Jr. em Inimigo meu), sofrendo os mesmos problemas de Eric Bana do primeiro Star Trek desta geração mais jovem. Não chega a haver uma justificativa mais concreta para as posições de Krall, sentindo-se sua presença também diminuída em relação ao vilão do segundo filme. Isso não exclui a maneira como Lin transforma esse vilão mais assustador em alguns instantes, sobretudo porque ele se alimenta da energia alheia e tenta escravizar inúmeras pessoas para constituir uma alternativa à Federação. Outro destaque é a trilha de Michael Giacchino, igualmente bela e sem repetir o padrão dos dois primeiros trabalhos, com uma escala e variação musical exuberante.
Se Lin não consegue ser Abrams na confecção de cada ato e na motivação, algumas vezes, dos personagens, por outro lado, ele possui, mais do que Abrams, um olhar mais próximo dos anos 80 para esses personagens. Ou seja, principalmente nas cenas de ação, há uma espécie de improviso que caracteriza esses personagens com a ênfase oferecida nessa década, mais corporal e menos calcada apenas nos efeitos especiais (embora esses, quando surjam, sejam nada menos do que espetaculares). À parte, deve-se dizer o quanto o visual desse Star Trek incorpora um trabalho de cores específico e muito atrativo, por todos os cantos, também mais próximo da estética dos anos 80. Dentro do seu gênero, continua um referencial e tanto.

Star Trek Beyond, EUA, 2016 Diretor: Justin Lin Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Zoe Saldana, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Idris Elba, Sofia Boutella, Joe Taslim, Lydia Wilson, Deep Roy, Harpreet Sandhu Roteiro: Doug Jung, Simon Pegg Fotografia: Stephen F. Windon Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Roberto Orci Duração: 122 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Paramount Pictures / Skydance Productions

 Cotação 4 estrelas

Rua Cloverfield, 10 (2016)

Por André Dick

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Filmes imaginando um futuro sem saída, em que os seres humanos são colocados numa situação-limite, nunca saem de moda, pois parecem sempre mexer com o inconsciente coletivo, de receio quanto às novas gerações e de como o planeta será habitado daqui a alguns anos. Do mesmo modo, obras envolvendo uma ameaça à própria sobrevivência se proliferam com o toque de Hollywood. A continuação (pelo menos é o que subentende o título) do cult Cloverfield recebeu a mesma produção de J.J. Abrams, o diretor que estreou no cinema com a terceira parte de Missão impossível e vem atraindo atenção por ajudar a revitalizar outras séries, como as de Star Trek e Star Wars, com um breve intervalo autoral – apesar de suas claras influências – no nostálgico e expressivamente bem-sucedido Super 8 (isso sem lembrar de seu grande acerto televisivo: Lost).
A narrativa se passa não em Nova York e sim num abrigo da Louisiana, com cenário claustrofóbico, em que um homem, Howard (John Goodman) diz cuidar de uma jovem, Michelle (Mary Elizabeth Winstead), após um acidente bastante suspeito, e de um rapaz, Emmett (John Gallagher Jr.), de uma ameaça externa que é colocada sempre em dúvida pelo espectador. Escrito por Josh Campbell, Matthew Stuecken, e Damien Chazelle (diretor de Whiplash), esta continuação tem a estreia de Dan Trachtenberg atrás das câmeras. E, se a obra tenta estabelecer uma ponte com Cloverfield, seu cartaz e marketing promocional que antecedeu seu lançamento parecem os de Super 8.

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Eu poderia dizer que o filme apresenta algumas obsessões de Abrams, a começar por exatamente por algo estranho acontecendo e colocando a humanidade em polvorosa, mas seu principal traço é a relação forçada entre essas figuras diferentes. A princípio, Howard tem dúvidas quanto à Michelle, mas, aos poucos, parece que há uma aproximação familiar. Toda a ambientação para que esses três pareçam enclausurados funciona plenamente durante a narrativa. Mais uma amostra de como o cinema norte-americano tem talento para criar um cenário restrito com grande design de produção e muitos detalhes (a sensação é de que, com seus neons, jukebox, mesa de sinuca, jogos e filmes, o abrigo é uma espécie de cenário atemporal da própria cultura norte-americana), Rua Cloverfield, 10 se baseia numa espécie de nostalgia que Abrams deve conservar de séries fantásticas. Assim como Steven Spielberg se baseou em No limite da imaginação para compor sua ótima série dos anos 80 (infelizmente pouco lembrada) chamada Histórias maravilhosas, J.J. Abrams tenta recuperar essa sensação pelo olhar contemporâneo, em que as ameaças estrangeiras parecem se proliferar dentro dos Estados Unidos, com uma sensação de pouca liberdade para seus cidadãos. Isso já estava claro em Super 8, quando a serenidade dos extraterrestres dos filmes de Spielberg (excluindo Guerra dos mundos) é substituída por uma cidade em polvorosa depois de um estranho acidente de trem, do qual um grupo de crianças é testemunha.

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Que tipo de acontecimento estaria deixando os personagens nesse abrigo? Seria uma invasão russa, para lembrar um dos receios que existiam na Guerra Fria (resultando em um filme, dos anos 80, chamado Amanhecer violento)? Ou alguma praga capaz de contaminar, como diz Howard? Temas como esse são bem trabalhados pelo roteiro de Campbell, Stuecken e Chazelle, apontando para os meios culturais, e dialogam principalmente com a versão já referida de Guerra dos mundos feita por Spielberg.
Os personagens de Michelle e Emmett possuem uma simpatia inerente graças a seus intérpretes, sobretudo Winstead, presença de destaque desde Scott Pilgrim, mas sem se menosprezar a ótima participação de Gallagher Jr., visto ao lado de Brie Larson no sensível Temporário 12. É Winstead que dá verossimilhança ao comportamento da personagem central, desconfiada do fato de estar naquele abrigo. Ainda assim, quem rouba a cena é John Goodman, numa atuação capaz de lembrar seus melhores momentos – um estranho assustador (como, especialmente, em Barton Fink) – e cujo passado pode ser a verdadeira ameaça existente aqui se não fosse diluída em meio aos contornos gerais. Isso poderia ser, caso se explorasse melhor, um novo The fog – A bruma assassina ou O enigma de outro mundo, ambos de John Carpenter, no entanto ele tem pressa, a pressa dos blockbusters.

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Há algumas tentativas do diretor em surpreender, e as surpresas podem não se resolver da melhor maneira, dando uma sensação de algo feito às pressas para se acomodar à história e sem aproveitar, por exemplo, exatamente esse passado do personagem de Goodman. É como se o roteiro quisesse esconder o que verdadeiramente sugere: um lado encoberto da América, e o diretor, de modo evidente, mostra sua inexperiência até então atrás das câmeras, querendo buscar atalhos para não tratar de temas que deixa em suspenso no ar.
Inevitável dizer que ao longo da história há algumas surpresas, o que não impede de o clímax ser inevitavelmente óbvio diante do potencial. O primeiro era um legítimo found footage, com algumas boas saídas e efeitos visuais decentes, mas carecia de alguma força que reunisse seus pedaços. Este tem uma força na reunião desses personagens, no ritmo e no suspense de muitas cenas – e deixando a sensação de que falta algo, ou seja, que não estamos vendo mais do que uma determinada cena de Guerra dos mundos mais extensa. Há alguns diálogos que poderiam ser mais desenvolvidos, não fosse a preferência, claro, de Trachtenberg, certamente influenciado por Abrams, de sintetizar tudo por meio de uma explicação definida. Tudo no cinema de Abrams (e digo isso porque sua produção se estende sobre o estilo de todo o filme, assim como Spielberg em Poltergeist – O fenômeno, não assinado por ele e sim por Tobe Hooper, mas tão dele quanto), no bom e mau sentido, deve ser explicado quase didaticamente ao espectador. Em muitos momentos ele acerta; em outros, como aqui, o que seria um grande suspense se torna apenas num filme competente e com ótimas atuações.

10 Cloverfield lane, EUA, 2016 Diretor: Dan Trachtenberg Elenco: Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr. Roteiro: Damien Chazelle, Josh Campbell, Matthew Stuecken Fotografia: Jeff Cutter Trilha Sonora: Bear McCreary Produção: J.J. Abrams, Lindsey Weber Duração: 103 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Paramount Pictures / Spectrum Effects

Cotação 3 estrelas e meia

 

Star Wars – O despertar da força (2015)

Por André Dick

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Depois de O retorno de Jedi, em 1983, George Lucas resolveu fazer uma segunda trilogia, contando a origem de Darth Vader, e os filmes que conhecemos (de 1999, 2002 e 2005) alternaram bons e maus momentos, mas não chegando a capturar novamente a magia da saga inicial. Era de se esperar, a partir daí, que não houvesse mais filmes envolvendo a família Skywalker nem suas gerações futuras. Não era o que pensava George Lucas quando vendeu os direitos de sua criação para os estúdios Walt Disney pela bagatela de 4 bilhões de dólares. Naturalmente, os estúdios Disney passaram a conceber uma nova trilogia, que desse sequência a O retorno de Jedi e trouxesse de volta os personagens que arrebataram fãs entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80 e constituem uma mitologia à parte dentro do cinema. Para lidar com mitologias cinematográficas, o nome mais acessível nos últimos anos é o de J.J. Abrams. Criador da série Lost, ele fez a terceira parte de Missão impossível e, em seguida, produziu uma espécie de mistura entre Godzilla e Alien em Cloverfield. Mas foi justamente com a retomada de Star Trek, mostrando os personagens em sua juventude, que elevou Abrams ao status de diretor de franquias. Super 8 e a segunda parte de Star Trek apenas antecederam o que ele entrega de melhor: a nostalgia de se reviver um cinema que parecia perdido no tempo.

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O seu Star Wars – O despertar da força é baseado justamente nessa configuração que o levou a ser o cineasta predileto para retomadas de um universo. Ao contrário de Star Trek, no entanto, percebe-se que em Star Wars Abrams não teve a mesma disponibilidade e segurança para empregar o seu próprio universo, que alterna um humor quase desleixado, se não fosse também bastante elaborado. Sua parceria com Lawrence Kasdan – roteirista de O império contra-ataca e O retorno de Jedi – na elaboração da história (a presença de Michael Arndt não parece tão grande) mostra que ele quis retomar alguns caminhos já entregues na primeira trilogia. Desta vez, quem vive no deserto – de outro planeta, Jakku, reservado a ferro-velho – é Rey (Daisy Ridley), em busca de sucata para conseguir mantimentos e sobreviver, que determinado dia encontra um androide perdido, BB-8, que pode trazer, como o R2-D2 no filme inaugural, dados importantes para localizar um determinado personagem. Ao mesmo tempo, temos o dilema de Finn (John Boyega), um stormtrooper que não pretende seguir os mandamentos do novo senhor do lado escuro, Kylo Ren (Adam Driver) – que age ao lado de General Hux (Domhnall Gleeson, nunca antes tão vilão) – e pretende ter uma nova vida.
Abrams tem um grande cuidado ao introduzir esses novos personagens, com o carinho que George Lucas tinha com os seus na primeira saga. Rey é, inicialmente, uma personagem já bastante próximo do público, por sua personalidade cercada de um heroísmo sem o lado espetaculoso. Sua intérprete, Daisy Ridley, é uma descoberta, também por sua semelhança com os registros mais recentes de Keira Knightley, em Anna Karenina e Mesmo se nada der certo, quando sua porção como atriz melhorou muito. Por sua vez, Finn é decisivamente firmado pela interpretação de Boyega, que consegue despertar uma empatia imediata com o espectador. Suas ações vão se encontrar – e isso não é um spoiler – com os personagens antigos, Han Solo (Harrison Ford, em bela atuação) e Chewbacca (Peter Mayhew), num emaranhado de situações que podem lembrar desde o recente Guardiões da galáxia até os filmes antigos da saga, principalmente O império contra-ataca e O retorno de Jedi.

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Abrams tem um cuidado visual muito grande em sua obra, e com Star Wars não é diferente. As partes que alternam lugares com árvores remetem a O retorno de Jedi e as paisagens geladas recordam imediatamente O império contra-ataca. Ainda assim, sente-se que Abrams realmente quer dar um toque autoral ao filme quando escolhe, nesse caminho, focar no conflito trazido pelo vilão Kylo Ren. Não lembro de outra atuação tão efetiva de Adam Driver em sua curta trajetória, mais conhecido pelas peças que fez com Noah Baumbach e nos quais não chega a ter um brilho especial. Como vilão, Driver potencialmente consegue mostrar um componente trágico e que leva a narrativa a uma situação realmente devastadora. Ele não tem a mesma contundência daquela que mostra Benedict Cumberbatch no segundo Star Trek, mas não deixa a dever em termos de ameaça quando finalmente tem um roteiro para trabalhar.
Ainda assim, Abrams fornece ao espectador alguns problemas que não eram encontrados em Star Trek: vejamos como ele elabora rapidamente as ligações de alguns personagens, mas não consegue dar o mesmo fluxo emocional, em razão, principalmente, de estar preso à continuação de uma linhagem. Em Star Trek, ele tinha liberdade porque estava subvertendo o imaginário de Roddenberry, oferecendo uma nova roupagem a Kirk e a Spock. Ele não pode fazer o mesmo com Han Solo ou Princesa Leia, personagens icônicos e que os admiradores da série ligam aos filmes originais. De qualquer modo, ele consegue, principalmente com Han Solo e Chewbacca, mais uma parceria baseada em certo bom humor que consegue agradar ao espectador. E Carrie Fisher surpreende com segurança, sendo, em certa medida, desperdiçada, pelo menos quanto ao potencial que seu personagem apresenta para o núcleo da história.

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Abrams também tem um olho muito atento para os cargueiros e as naves imperiais, além das naves dos rebeldes (novamente), assim como com os stormtroopers, como se ele pudesse reviver parte da infância brincando com esses objetos e efeitos especiais. Há sequências de batalha muito bem filmadas, principalmente uma em que se pronuncia sobre as ruínas de um determinado local, bastante longe do CGI apresentado por Lucas na sua segunda trilogia – é visível como Abrams tentou realmente construir os cenários e evitar a computação gráfica. Existe uma imponência maior no que se refere ao tamanho das naves e aos detalhes que elas carregam, quase inexistentes nos originais. Em alguns momentos, há cenários e figurinos um pouco desajeitados na tentativa de atingir a atmosfera dos originais, sobretudo de clubes esfumaçados com criaturas estranhas, em que surge Maz Kanata (Lupita Nyong’o, por trás da maquiagem e dos efeitos especiais), contrabalançado por uma fantástica concepção de paisagens invernais ao som do que o espectador deseja presenciar nessa continuidade da saga. Abrams não é tão cuidadoso quanto Lucas ao mostrar criaturas horrendas: se Lucas quer focar seu lado cômico, Abrams as emprega com ameaça, como em Super 8 e Cloverfield (não há humor, e sim violência nelas). Há uma certa dose desmedida de violência atípica para uma produção da Disney e mesmo em relação aos episódios anteriores de Star Wars, mais distante da fantasia.
Em termos de visão política, se George Lucas quis carregar todas as tintas na analogia de sua segunda saga com o Senado norte-americano do período de George W Bush, aqui em Star Wars o novo império surge quase como um Terceiro Reich, principalmente numa sequência grandiosa, parecida com o que veríamos num filme sobre a Alemanha nazista. Este elemento destoa, em parte, do universo fantástico que vemos – e Lucas não arriscou sequer em seu segundo filme –, mas não tira o mérito de Abrams.

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Ele, na verdade, parece querer reprisar o que Lucas fez em Guerra nas estrelas com um olhar moderno. Em certos momentos, consegue atingir isso: mostra como os destroços podem constituir uma linguagem. Em outros, apenas se confunde, não dando a importância necessária a personagens como os de Poe Dameron (uma boa criação de Oscar Isaac, ainda que ligeira, pelo menos neste primeiro capítulo da nova trilogia) e Lor San Tekka (Max von Sydow), além do ótimo androide BB-8. É difícil dizer, mas Abrams não consegue a mesma imponência de Kershner e Marquand nos filmes que seguiram ao primeiro Guerra nas estrelas porque lhe falta, aqui, em parte, a liberdade que necessitava, que era justamente empregar sua visão mais pessoal ao universo de Lucas. Sem o grande criador, parecia que estava sendo mais livre, no entanto o contrário acontece algumas vezes: Abrams se apega demais à arquitetura original, sem acrescentar muito da sua, o que se apresenta, principalmente, no terceiro ato. Ele, de certo modo, acerta mais quando cria uma certa aura de mistério, entregando os personagens de modo enviesado. Em alguns momentos, por outro lado, as ações deles não parecem ter a devida ênfase e a interação mais possível. Isso não tira seus méritos na recuperação desse universo, na sua tentativa explícita de se declarar a ele, como quando se busca a mesma força dos novos personagens centrais, que atraem grande parte da energia dessa história e realmente guardam para o espectador um universo grandioso. É muito bom estar de volta a esse universo e à continuação de uma linhagem extraordinária.

Star Wars: The force awakens, EUA, 2015 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Ken Leung, Greg Grunberg Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Kathleen Kennedy Duração: 136 min. Estúdio: Bad Robot / Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas

Além da escuridão – Star Trek (2013)

Por André Dick

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Em 1979, os produtores pediram ao diretor Robert Wise um Jornada nas estrelas – O filme mais comercial, na linha de Guerra nas estrelas; Wise não fez isso e até hoje o filme é lembrado por ser uma tentativa de reproduzir 2001, a obra-prima de Kubrick, com efeitos visuais que utilizaram boa parte do orçamento milionário. Mas, em seguida, vieram as continuações (quatro delas nos anos 80), que, ao contrário do primeiro, fizeram mais sucesso e apontaram um caminho de maior divertimento – sobretudo o segundo, com o antológico Ricardo Montalban como Khan, e o sexto e derradeiro desfecho pelas mãos de Nicholas Meyer.
No final da década passada, o diretor J.J. Abrams conseguiu trazer de volta os personagens da série Star Trek, criada por Gene Roddenberry, que havia tido o último filme de cinema no início dos anos 90. Privilegiado por retomar algumas séries, a julgar também pelos dois mais recentes Missão impossível (o terceiro e subestimado dirigido por ele) e o próximo Guerra nas estrelas, Abrams, tanto no primeiro Star Trek quanto neste segundo, Além da escuridão – Star Trek, apresenta seus traços como autor, a partir de uma criação alheia. É precipitado, a partir daí, considerar que o novo Star Trek seja apenas mais um blockbuster com ação frenética. Como em outros filmes seus, mesmo em Super 8, que homenageia as turmas dos anos 80, sobretudo a de Os Goonies, há, por trás da ação frenética, personagens e motivações. Assim, embora Abrams esteja em voga, seria injusto colocar sua presença no cenário como prejudicial ou excessiva. Capaz de mesclar a compreensão de fantasia de Spielberg, George Lucas e Peter Jackson, ele consegue sempre atingir a dramaticidade por meio de peças que parecem simplesmente estrondosas.

Star Trek.Filme 4

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Como o primeiro filme da nova franquia, Além da escuridão, junto com a ação, aprimora o senso de humor em meio a um discurso político, que não pende para o exagero, mas se equilibra dentro da narrativa com algumas referências. Se no primeiro explosões de planetas, fugas de monstros, viagens no tempo justificavam uma grande celebração do encontro dos personagens, inclusive remetendo à sua infância, e os atores se entregavam a isso de forma despretensiosa, mas, ao mesmo tempo, fazendo dos diálogos afiados um ponto claro para a empreitada, nesta continuação, os personagens precisam enfrentar um dilema referente a matar ou prender um criminoso.
O início é nada menos do que espetacular (e parece que As aventuras de Tintim já tem companhia como o filme que melhor utilizou o 3D nos últimos anos), levando, em seguida, os personagens a uma sala de reuniões em que é discutido um ataque terrorista feito por John Harrison (Benedict Cumberbatch), em Londres. A Enterprise precisa novamente partir em missão e o almirante Marcus (Peter Weller, excelente), da Frota Estelar, dá a ordem para que isso aconteça. Ele ordena que a Enterprise leve um misterioso armamento, a fim de ser lançado, se necessário, num determinado planeta (qualquer diálogo com a perseguição a Bin Laden no Afeganistão e Paquistão não seria mera coincidência, mas o filme, de forma acertada, não se fundamenta nessa analogia externa).
Enquanto James T. Kirk teve um passado problemático e foi levado para a Enterprise pelo capitão Christopher Pike (o convincente Bruce Greenwood), tendo com ele uma dívida de confiança, que se acentua aqui, Spock é um vulcano que recorre à humanidade para contrabalançar suas dúvidas existenciais e o interesse amoroso pela oficial Uhura (Zoe Saldana). Nesta continuação, a humanidade de Spock é posta novamente em prova, e a arrogância de Kirk se coloca como uma esperança em reencontrar seu amigo, ao mesmo tempo em que é testado seu respeito por Pike. Desde o início espetacular, Spock conclui que a tripulação vale mais do que sua vida, mas, para Kirk, ele deve entender justamente o contrário, de que um amigo deve ser salvo sem que isso constitua um adendo para relatórios burocráticos. Por sua vez, Uhura precisa ser testada em seus conhecimentos, para que a harmonia da Terra não seja ameaçada, assim como deve traçar uma compreensão maior diante da desistência romântica de Spock.

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Temos novamente Chris Pine como Kirk, desta vez menos pretensioso, e Zachary Quinto, como Spock, que apenas aparenta não ter insegurança e mostra estar à altura de Leonard Nimoy, e ambos os atores parecem, também pela experiência, mais à vontade e convincentes, principalmente Pine. É essa amizade com desentendimentos, mas com sensibilidade, que dá força a um conflito que poderia ser no máximo repetitivo e traz o interesse novamente pela série, apoiado também no elenco coadjuvante: o ator que faz Leonard McCoy, Karl Urban, por exemplo, é ótimo, assim como Anton Yelchin, no papel do navegador Chekov, e Simon Pegg, especialmente, como Scotty, acompanhado da estranha criatura do primeiro, cuja inexpressividade chega a ser divertida. Mais do que em Missão impossível III e Super 8, é em suas versões de Star Trek que Abrams comprova sua habilidade à frente dos atores e dá espaço decisivo a cada um para o desenvolvimento da narrativa, contrabalançando a ação e os diálogos. E é o personagem de Scotty que vai lembrar a Kirk que a Enterprise serve para explorações espaciais, e não para armamentos alimentares, indicando que Abrams guarda um discurso de paz. Não há, aqui, nenhuma opressão dos interrogatórios de Maya em A hora mais escura; é um Star Trek com fundo pós-11 de setembro, ainda assim realçando a mitologia da série, com a criação de cenários grandiosos, cuja sensação, para os olhos, nunca é excessiva (como na segunda trilogia de Star Wars). Também o novo vilão de Star Trek, ao contrário do romulano Nero (Eric Bana) do filme anterior, é mais complexo, em razão, também, de Benedict Cumberbatch ter um desempenho notável.
Críticas apressadas têm concluído que o filme, por um lado, não respeita a mitologia da série original e, por outro, a segue em excesso, com referências múltiplas. Há ainda aquelas que julgam o filme simplesmente oco (natural, à medida que Prometheus, no ano passado, também foi considerado). É mais interessante se comparar este Star Trek com as grandes continuações de ficção, a exemplo de O império contra-ataca. Ele consegue ao mesmo tempo remeter ao original, de 2009, e apresentar acréscimos dramáticos de vigor, sem circunscrever os personagens num determinado limite, ou seja, faz exatamente o que deveriam trazer as continuações. O roteiro de Alex Kurtzman, Damon Lindelof e Roberto Orci não tem excessos, e cria surpresas na medida apropriada. Mesmo sem a nostalgia de Super 8, e talvez por causa disso, Abrams vê o espaço sideral como extensão da humanidade – não à toa, a referência ao pai de Kirk (Chris Hemsworth) é trazida sempre à lembrança, por ter salvo uma nave em perigo, e por isso colocam tanta expectativa em seu filho, do mesmo modo que Spock coloca expectativa na permanência da sabedoria de seus ancestrais (e há uma surpresa, novamente, nesse sentido). Desta vez, Kirk não é apenas mais alguém querendo ser capitão de uma espaçonave, e sim alguém que pretende ter uma liderança referencial em relação aos demais, além de conseguir entregar a confiança necessária para que cada um realize seu trabalho da melhor maneira, mesmo sob pressão. Com um olhar impressionante para cenas de ação, a partir dos efeitos visuais e sonoros não menos que excelentes, e uma afinidade com a bela direção de arte, Abrams compõe uma espécie de aventura ritmada em cima das peças de composição de Michael Giacchino. Estamos longe de uma nova tentativa de 2001 que Robert Wise apresentou no belo Jornada das estrelas – O filme (1979). Mas Abrams, mesmo que não agrade a todos, consegue humanizar os personagens de modo intenso, sem simplificá-los. Seu novo Star Trek, como o êxito do anterior já antecipava, é espetacular.

Star Trek Into Darkness, EUA, 2013 Direção: J.J. Abrams Roteiro: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Alice Eve, Simon Pegg, Anton Yelchin, John Cho, Leonard Nimoy, Bruce Greenwood, Peter Weller Produção: Alex Kurtzman, Bryan Burk, Damon Lindelof, J. J. Abrams, Roberto Orci Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Kurtzman Orci Paper Products / Paramount Pictures / Skydance Productions

Cotação 5 estrelas

Super 8 (2011)

Por André Dick

Produzido por Spielberg e assinado por J.J. Abrams, Super 8 tem o intuito de mostrar proximidade com os filmes juvenis do primeiro dos anos 80 (E.T., Os Goonies, Gremlins), sob um olhar contemporâneo. Abrams, conhecido por ser o criador de Lost, mas também principal responsável pela retomada de Jornada de estrelas (com um filme melhor do que a série de cinema dos anos 1970-1980) e da terceira parte, subestimada, de Missão impossível, não consegue transformar o monstro que os meninos do filme perseguem num personagem à parte – ele não é o foco, e sim o que desencadeia a ação –, entretanto é certo que sua maneira de filmar e lidar com os personagens tem muitas qualidades.
Os meninos que ele mostra no filme realmente têm vida e se movimentam numa fábula adulta sustentada pelos efeitos especiais competentes e algumas cenas semelhantes às de de Jurassic Park, em alguns momentos, mais do que de outros filmes de Spielberg, mas situados numa cidade de interior do Ohio, Lillian, em 1979, onde quase nada acontece – a não ser o que mais importa para uma turma de crianças.
Ou seja, Super 8 é bem melhor do que se poderia esperar do que é apontado como uma diluição. Sobretudo porque deseja contar, por meio de uma narrativa que mescla ficção e realidade, sobre a perda, situando-se nos anos 1970, quando uma cor amarela em triste tom, melancólica, predominava – e ele aparece na cor do carros, jaquetas, no luminoso de um posto de gasolina, no uniforme de um eletricista – e ao ritmo de “My Sharona”, de The Knack. O menino Joe Lamb (Joel Courtney, em atuação natural e destacada) – que evoca, talvez, Joe Dante, diretor de destaque dos anos 80, de filmes como Gremlins e Viagem ao mundo dos sonhos – acaba de perder sua mãe e vive com seu pai Jack (Kyle Chandler), policial que não consegue superar o fato. A mãe de Joe teria morrido porque um funcionário, Louis (Ron Eldard), faltou a seu turno e ela o substituiu. O velório acontece no inverno. Pai e filho não têm boa relação, e depois de 4 meses, já no verão, Jack quer enviá-lo a uma colônia de férias e para afastá-lo dos amigos que só pensam em fazer filmes sobre zumbis, como ele diz.
Os amigos são Charles (Riley Griffiths), que deseja ser um cineasta, Cary (Ryan Lee) e Martin (Gabriel Basso), além da menina Alice Dainard (Elle Fanning, excelente) – filha de Louis.

Numa noite, escondido do pai, Joe Lamb recebe contato de Charles, às 12:02 da madrugada (os números não são deliberados: eles correspondem à data de aniversário de Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos, que lutou contra a escravidão e teve a Guerra Civil Americana como um dos acontecimentos de seu governo).
Quando eles estão filmando, com super 8, uma cena numa estação de trem, acontece o descarrilamento dele e a escapada de uma estranha criatura – que, a princípio, eles não veem. Esta cena é uma das mais bem feitas dos últimos tempos – uma explosão sonora e de imagens que realmente impressiona. Os meninos passam a querer descobrir o que havia exatamente no trem, pois um professor deles, Woodword, foi quem causou o acidente e o exército invade o local, tendo à frente a figura de Nelec (Noah Emmerich).
Joe acaba se apaixonando por Alice, que no filme interpreta uma moça que virou morta- viva e é ela que estabelece o elo entre a perda de Joe, a culpa de seu pai – que quer cuidar da cidade, embora não consiga, de fato, cuidar do seu único filho – e uma renovação. Neste ponto, há uma revalorização da família, as lembranças da mãe do menino, o encontro do primeiro amor adolescente e a tentativa de lidar tanto com a perda da mãe quanto o que se denomina de amor infantojuvenil – em meio a acontecimentos estranhos na cidade (como o desaparecimento de cães, do delegado, depois de um ataque num posto de gasolina), explosões e fogos que evocam outro acontecimento marcante dos anos 70, a Guerra do Vietnã, encerrada quatro anos antes de quando se passa Super 8 (cuja narrativa inicia no inverno e salta para o verão, exatamente quatro meses depois) mas cujas cicatrizes, naquele momento, ainda eram recentes.
Se é verdade que esses garotos passam quase todo o tempo falando de como farão seu filme, discutindo efeitos especiais com trens de brinquedo, e sobre a maquiagem dos mortos-vivos (uma expressão mais adequada do que “zumbis”, apesar da homenagem clara a George Romero), Abrams quer mostrar um mergulho desse universo tranquilo, de uma cidade pacata, na violência da guerra que já terminou, ainda que continue presente – para capturar um monstro, os militares não hesitam em invadir a cidadezinha de Lillian e mesmo incendiar árvores, fingindo um desastre da natureza. Em certo momento, Jack, pai de Joe, dirige-se a outro personagem: “Foi um acidente”, repetindo, em seguida, a mesma frase. Não dá a impressão de que isso acontece à toa e não é simplesmente referência a algo que aconteceu no filme: para os Estados Unidos, assim como o descarrilamento do trem, com sua pirotecnia de explosões e vagões voando pelos ares, a invasão ao Vietnã – que ajudou a extrair momentos de mais tranquilidade nos subúrbios americanos – é vista como tal (as únicas menções ao Vietnã surgem no curta-metragem que os garotos gravam, quando Joe Lamb atua como um oficial que chama outro porque teriam servido juntos no Vietnã, uma “época difícil”). Numa reunião comunitária, depois dos acontecimentos estranhos, uma mulher afirma que só pode ser “uma invasão dos russos”.

Ver a realidade, nos anos 70, era, sem dúvida, se deparar com uma guerra distante que afetou de sobremaneira os Estados Unidos. E, no caso de Joe, é recordar a morte de sua mãe. Nesse sentido, o monstro é uma metáfora desta tentativa de despedida do personagem para superar seja a perda pessoal ou histórica: Abrams o coloca no subterrâneo de uma cabana localizada num cemitério. Joe precisa superar o medo de outra perda e resgatar quem lhe dá acesso a uma nova camada de vida.
Esta divisão entre o universo das filmagens e o da realidade é o que move Super 8. Os personagens querem se relacionar, porém essa relação se dá sobretudo em frente ao projetor de filmes e à televisão: especificamente, em três situações – quando Joe e Alice conversam sobre o que aconteceu à mãe dele e quando Joe e seu amigo descobrem que as imagens gravadas na plataforma de trem guardam mais do que eles haviam imaginado até então. Ou quando Charles está vendo o noticiário sobre o descarrilamento de trem e se vira para Joe: “Se noticiaram, é real”, como se tudo pelos quais eles passam tivesse de ter uma conotação cinematográfica. Assim, o filme de Abrams questiona a própria realidade fora do filme que esses garotos estão fazendo – e vemos ela se desenhar nos pôsteres de Star Wars do quarto de Joe Lamb. Eles estão sempre visando a fantasia, ao contrário de algumas figuras mais velhas, como o delegado, que não se interessa na novidade que lhe é mostrada pelo funcionário da loja de conveniência de um posto de gasolina: o toca-fitas em que toca “Heart of glass”, de Blondie, banda típica desse período.
Consequentemente, os personagens de Super 8 parecem estar em busca de um novo mundo, ao mesmo tempo que querem manter a segurança de suas vidas – e, mesmo que alguns deles não sejam desenvolvidos da maneira mais apropriada, nos interessamos no andamento. O novo mundo é representado pelo cinema de forma definitiva: Joe, em seu quarto, cria bonecos e um universo à parte. A maneira que se aproxima de Alice é ao conseguir fazer a maquiagem nela – e convencê-la a participar de toda a realização do filme. Isso, no entanto, a partir de determinado momento, não é mais possível – não tanto pelas crianças terem perdido seus sonhos, mas porque, afinal, é preciso, de um modo ou de outro, crescer (todas elas, nesse sentido, têm muito de Elliott, o personagem de E.T.), sem perder o ímpeto da descoberta. Do mesmo modo, a movimentação em torno da família é resquício de uma época mágica – como correr em torno da televisão ou montar maquetes pelo simples motivo de vê-las em pé, mesmo sem funcionamento. Para Abrams, porém, em algum momento deve-se saltar da tela para a realidade.
Com uma reconstituição perfeita dos anos 1970, montagem acelerada, trilha sonora de qualidade de Michael Giacchino (sobretudo nas escalas mais sentimentais), e poucos closes no monstro, para encobrir do que se trata – o monstro, na verdade, sai à noite, e entendemos ao final o motivo –, é um filme que cumpre o que promete. Abrams não engana o espectador ao recontar, em Super 8, a história de toda uma geração e de uma história que, afinal, perderia o encanto.

Super 8, EUA, 2011 Diretor: J. J. Abrams Elenco: Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler, Ron Eldard, Noah Emmerich, Joe Courtney, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills Produção: J. J. Abrams, Bryan Burk, Steven Spielberg Roteiro: J. J. Abrams Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 112 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Amblin Entertainment / Bad Robot / Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas e meia