O primeiro homem (2018)

Por André Dick

Em 2014, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar principal, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, veio com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, apresentou uma história que podia ser considerada romântica em seu limite. Talvez ele não apresentasse nada de muito novo sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tinha muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) eram figuras que, como no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividiam entre o que pretendem ser e o que se mostrava realmente viável. Isso conferia ao filme uma camada que Chazelle tornava encantadora pela maneira como a revelava, aos poucos.

Depois do grande desempenho junto ao crítico e à pública de La La Land, recebendo seis Oscars, a nova obra do diretor, O primeiro homem, mostra a vida do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling), a partir de 1961, e sua rotina com a sua primeira esposa Janet Shearon (Claire Foy), até começar a fazer parte da missão coordenada pela Nasa em direção à Lua em 1969. Esses são personagens que realmente existiram e próximos de um contexto do qual La La Land se afastava: o da tentativa de ser fiel aos fatos. Chazelle sofre uma transformação por trás das câmeras. Se em Whiplash e La La Land, ele utilizava um estilo simples e ambientes arejados, nada disso se repete em O primeiro homem.
Com uma notável tentativa estética, por meio da fotografia de Linus Sandgren, de remeter ao estilo de Terrence Malick de A árvore da vida, assim como àquele visto em Interestelar, de Christopher Nolan, e ao clássico 2001, de Kubrick – na iluminação dos capacetes dos astronautas, sobretudo –, a dicção de Chazelle quase desaparece. Temos a sensação de assistir a uma busca de estilo que ressoa uma determinada emulação de outros artistas. Chazelle não está preocupado com o sentimento, a exemplo do que víamos em La La Land, apenas com a técnica e em criar enquadramentos diferenciados. Por sua vez, a tentativa de ir à Lua se torna menos intensa e o personagem de Neil Armstrong é emblemático nesse sentido.

Não apenas desenhado com um sujeito frio e distante da família e da esposa, por causa de uma perda marcante, mal percebemos o quanto ele interage com outros personagens, como seus companheiros de aventura Buzz Aldrin (Corey Stoll) e Michael Collins (Lucas Haas), além dos astronautas Ed White (Jason Clarke), Roger B. Chaffee (Corey Michael Smith) e Gus Grissom (Shea Whigham) e o diretor de operações de voo Deke Slayton (Kyle Chandler), reunindo um grande elenco. Nas cenas em que interage com os filhos, a lembrança imediata é o estilo de Malick em A árvore da vida, porém o que o cerca é uma sensação permanente de luto. Por isso, talvez esse sentimento se estenda ao restante da história. As reuniões na Nasa, que eram tão interessantes em Os eleitos, de Philip Kaufman, o qual certamente influenciou também Chazelle, são passageiras. A câmera de Sandgren treme como se estivéssemos num filme de guerra de Kathryn Bigelow, porém isso não guarda relação com os sonhos desses personagens. Há um verniz documental sobre um fundo de mundo de transformação, mas as duas características não se fundem como poderia. Alguns bastidores históricos do universo da cultura não se encaixam com a narrativa, provocando certa estranheza.

O primeiro homem é um filme levemente autocentrado e desprovido de certa emoção que faz Gravidade e Perdido em Marte, por exemplo, parecerem playgrounds de desenvolvimento de personagens – e mesmo oferece certa ausência do clima de rotina e mudança histórica encontrados em Estrelas além do tempo. E impacta a maneira como Gosling e Foy, um par de grande talento, fica sem sustentação do roteiro e sem colaboração de Chazelle. Gosling parecia um ator perfeito para esse papel, no entanto seu olhar vago é muito diferente daquele que utiliza em Drive, O lugar onde tudo termina e Blade Runner 2049, nos quais possui um roteiro para trabalhar; aqui ele aparenta estar apenas entre momentos marcantes para a humanidade, mas dos quais ele se aproxima apenas por um interesse remoto e baseado em efeitos visuais muito bem realizados. Isso se deve muito ao roteiro de Josh Singer, que ganhou um Oscar inexplicável por Spotlight e escreveu The Post, baseado no livro de James R. Hansen, que não consegue tecer um elo real entre os personagens – principalmente de Neil com seus parceiros de voo – e faz com que Chazelle tente concentrar a expectativa e suspense nas engrenagens de um foguete indo ao espaço. O que não tinham Spotlight e The Post? Exatamente relações efetivas entre os personagens (difícil recordar, ao longo do filme, uma fala de Lukas Haas, por exemplo).

A missão da Nasa na Apollo 11 em direção à Lua é uma reminiscência de infância, dos sonhos de cada criança quando descobrimos que o homem chegou a ela, e teve sua transmissão ao vivo desse acontecimento. Tudo isso desperta uma grande nostalgia. O primeiro homem faz o contrário. O que ele consegue, no máximo, é reverter essa espécie de sonho coletivo numa espécie de conto sobre um homem solitário e como a chegada à Lua, na verdade, foi apenas uma extensão do vazio que o preenche toda a narrativa, com a trilha sonora introspectiva de Justin Hurwitz. Essa sequência do pouso (imaginamos não ser um spoiler) é um registro da secura da paisagem diante a qual Neil se mostra sempre, mesmo quando visualiza a Lua à noite no céu. Muitas críticas avaliam que o filme de Chazelle falharia ao ser um tanto antiamericano: não é o caso, apenas não sendo patriótico ou com sentimentos retumbantes pelo êxito do país na corrida espacial, que seriam incoerentes com a figura mostrada de Neil Armstrong na narrativa, na qual o luto é definidor mesmo para um discurso de John Kennedy sobre a Lua. O seu problema é não ser uma obra com a grandeza do acontecimento enfocado, apesar de sua parte técnica notável, deixando no espectador a sensação de que muitos elementos estavam prontos para funcionar, sem serem, ao fim, colocados em prática.

First man, EUA, 2018 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit, Lukas Haas Roteiro: Josh Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Wyck Godfrey, Marty Bowen, Isaac Klausner, Damien Chazelle Duração: 136 min. Estúdio: Universal Pictures, DreamWorks Pictures, Temple Hill Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Universal Pictures

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Blade Runner 2049 (2017)

Por André Dick

Lançado em 1982, Blade Runner – O caçador de androides, de Ridley Scott, teve uma recepção tímida por parte da crítica e do público, mas acabou se transformando num grande cult, uma obra-prima da ficção científica. Visto como um filme intocável, foi estranho à primeira vista imaginar uma continuação, e sem a direção de Scott. Foi ele, como produtor executivo, quem convidou Denis Villeuneuve para estar à frente da sequência. O diretor canadense se notabilizou nos últimos anos por transitar entre gêneros diferentes, em filmes como Polytechnique, Incêndios, Os suspeitos, O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. No ano passado, ele fez a elogiada ficção científica A chegada, sobre a tentativa de contato humano com extraterrestres.
Por toda a carga de expectativa, ele parecia cada vez o melhor nome para dirigir Blade Runner 2049. Tendo como base o roteiro de Hampton Fancher (que colaborou no primeiro) e Michael Green, baseado nos personagens de Philip K. Dick, o filme mostra um novo caçador, K (Ryan Gosling), um replicante, que trabalha para a tenente Joshi (Robin Wright), da LAPD, e, quando vai atrás de um replicante mais datado, Sapper Morton (Dave Bautista), numa sequência que lembra a de Leon (Brion James) no original, descobre uma árvore com uma ossada escondida embaixo dela.

Levando os dados para sua equipe em Los Angeles, tão chuvosa quanto no clássico de Scott (spoiler até o fim deste parágrafo), descobre-se que seria da replicante Rachael (Sean Young), desaparecida com Rick Deckard (Harrison Ford) muitos anos antes. K, certamente uma homenagem ao segundo nome do autor que criou esse universo (Kindred), vai atrás de dados dela na corporação comandada por Niander Wallace (Jared Leto), assessorado por Luv (Sylvia Hoeks), que segue a linha da Tyrell original. Nisso, um pequeno cavalo de madeira é a pista para lembranças decisivas, em paralelo com o unicórnio da obra de Scott. Há uma analogia desse símbolo com a árvore sustentada por cordas e uma pequena flor que K recolhe perto dela como se precisasse dela para uma pesquisa científica, tamanha a raridade.
Além disso, K tem uma relação cibernética com Joi (Ana de Armas), um programa de computador que reproduz uma imagem feminina, nos moldes de Ela, mas, como os replicantes do primeiro filme, que então só podiam viver em colônias da Terra, deseja, de forma angustiada, ser humano. Para quem gosta do estilo de atuação de Ryan Gosling (o meu caso), Blade Runner 2049 certamente funcionará melhor. Gosling, como nos filmes de Refn (Drive e Apenas Deus perdoa), usa o mínimo de expressões, mas de maneira relevante e sua busca pelo lado humano que pode existir nele é o mote do roteiro e da direção sensível de Villeuneuve. Suas memórias, mesmo implantadas, são o guia desta viagem. A todo instante, a história pergunta se as sensações são reais ou imaginárias.

O diretor canadense nunca apresentou personagens extremamente simpáticos, e sim conflituosos, e aqui não é diferente. K é um Deckard ainda mais frio, mais concentrado na investigação de por que Rachael morreu e quem seria seu elo de ligação – e sua busca por si mesmo dialoga com a do personagem de Scarlett Johansson em Ghost in the shell este ano. Do lado contrário, Luv faz as vezes de Roy Batty, personagem de Rutger Hauer, com um sentido implacável de abreviar a vida de quem pretende descobrir um determinado mistério decisivo para a trama. Eles são opostos que se complementam. K não deixa de ser um Batty às avessas, com sua paixão real não pela própria existência, mas para compartilhar com os outros sua experiência de vida. O afeto que tem por Joi é real, mesmo romântico (numa cena embaixo da chuva, muito bem filmada por Villeneuve), não o que tem Niander por suas criações – o beijo nelas, depois de deslizarem por uma espécie de placenta plastificada, é um sinal de abandono. O corpo é sempre o símbolo de um prazer proibido (spoiler: K vai ver sua musa desnuda apenas num holograma ao final do filme e sua relação com ela, por meio de Mariette (Mackenzie Davis), é quase impessoal).
Seria talvez desnecessário elogiar a parte técnica, que certamente reproduziria a competência mostrada em Blade Runner. No entanto, é obrigatório: o trabalho de Roger Deakins na fotografia e Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch na trilha sonora (captando as sensações daquela clássica de Vangelis) são exemplos notáveis de como ajudar a contar uma história e tornar este um blockbuster sem elementos de blockbuster (talvez por isso como o primeiro tenha estreado mal nas bilheterias). Além disso, os efeitos visuais trazem um realismo poucas vezes visto em tempos de CGI exagerado: as naves espaciais têm uma movimentação verossímil e Villeneuve, como em Sicario, aproveita para fazer tomadas áreas sobre o deserto de maneira particular. E, na parte de efeitos sonoros, há ecos de A chegada, principalmente, embora aqui sejam mais impactantes.

O filme anterior era mais uma perseguição incessante e atmosférica; este é mais uma investigação, e com todas as minúcias do gênero. Menos noir que o anterior, ele sai de Los Angeles e vai para outros lugares, mostrando mais a amplidão de 2049 do que a opressão da metrópole na vida desses personagens. Isso fica claro desde o início, quando K está atrás de Morton numa espécie de fazenda na Califórnia. Como em Sicario, Villeuneuve está interessado em mostrar cenários imensos, em que o horizonte se perde, e nunca deixa de inserir o espectador num universo futurista incontestável. Se no primeiro Los Angeles parecia Tóquio, com uma profusão infinita de neons, em seu retrato cyberpunk, este lembra mais o deserto… de Las Vegas. No apartamento de K, as luzes do lado de fora remetem mais ao filme de 1982, mas Villeneuve não tenta copiar o estilo de Scott, preferindo os ambientes mais assépticos e menos coloridos, sem também as luzes entrando pelas janelas, uma característica das narrativas noir e dos anos 80. A corporação de Niander lembra muito a do original, mas, ainda assim, parece mais labiríntica, como se a identidade das pessoas se perdesse em corredores e salas frias. Villeneuve sempre foi cuidadoso com o design, mas ele se supera em Blade Runner 2049, levando o espectador realmente para outro universo, com certa influência ainda de Inteligência artificial, na maneira como torna os ambientes desolados e, sobretudo, na sequência passada em Las Vegas, quando há também referências musicais por meio de hologramas e aos duelos de faroeste, que, se resolvidos, só poderiam terminar na mesa de um bar. Em determinado momento, também há uma referência pertinente à exploração do trabalho infantil, porém sem nenhum traço facilitador ou piegas, numa ilha de sucata remetendo a Eraserhead, de Lynch, contrastando com uma reunião de crianças imaginária ao redor de um bolo de aniversário.

Embora Leto e Hoeks tenham participações breves, ambos estão muito bem, assim como Ana de Armas e Robin Wright. Já Harrison Ford, voltando como Deckard, é particularmente emocionante, mais do que sua retomada como Han Solo em Star Wars. Este elenco conserva uma particularidade pessoal, tornando Blade Runner 2049 numa obra bastante independente da primeira, apesar dos óbvios diálogos visuais e temáticos. Se o de Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K. Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa.

Blade Runner 2049, EUA, 2017 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Dave Bautista, Edward James Olmos, Wood Harris, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer Produção: Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Bud Yorkin, Cynthia Yorkin Duração: 163 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Sony Pictures

De canção em canção (2017)

Por André Dick

Depois de A árvore da vida, Terrence Malick resolveu partir para um cinema baseado essencialmente na solidão da vida contemporânea, mesmo que busque, como em toda sua filmografia, a formação de casais. Foi assim em Amor pleno, Cavaleiro de copas e agora em De canção em canção. Se em Amor pleno, o personagem central casava com uma europeia e ambos iam morar no Texas edênico de Malick, em Cavaleiro de copas acompanhávamos um roteirista em Hollywood, Rick, que tinha problemas familiares e não conseguia nunca estabelecer ligações afetivas verdadeiras com as mulheres. Em De canção em canção, Malick apresenta quatro personagens centrais, embora o principal pareça ser Faye (Rooney Mara). Ela se apaixona inicialmente por BV (Ryan Gosling), um aspirante a músico igual a ela, bastante promissor, na cena musical do Texas.

Ambos se conhecem numa festa – no qual ela estende o fone de ouvido para BV ouvir a música que está ouvindo – e têm por perto o empresário Cook (Michael Fassbender), que se sente a ameaça, nesse sentido, para um amor que possa existir entre eles. Faye trabalhou desde a adolescência como assistente no escritório de Cook. As ligações entre eles são indefinidas, a não ser quando Cook e BV viajam com Faye para o México, e se subentende que possa haver um relacionamento entre eles – que se manifesta com clareza mais adiante. Cook, no entanto, tem inveja dos dois e parece haver uma separação. Quando ele entra em contato com a garçonete Rhonda (Natalie Portman, nunca tão bem fotografada e com uma atuação do nível de Cavaleiro de copas), junta-se uma figura que irá estabelecer a ligação entre o universo musical solto e uma tentativa de transcendê-lo, com suas frequentes idas à Igreja. Além disso, Rhonda busca a segurança material que Cook pode lhe conceder.

Novamente com fotografia do grande Emmanuel Lubezki, De canção em canção é, de longe, o filme mais difícil, em termos de estrutura, da trajetória de Malick: mesmo que nos anteriores não tivéssemos histórias lineares, o novo Malick se sente realmente um produto experimental da indústria. Quase ignorado em seu lançamento (não arrecadou sequer 450 mil dólares nos Estados Unidos) e desabonado pela crítica, cuja característica é lembrar de filosofia apenas quando escreve sobre filmes do diretor, esse é um cinema que não se preocupa com a recepção. Depois de mostrar um pôster gigante de Arthur Rimbaud na parede da casa de Faye, Malick está mais interessado no “desregramento dos sentidos” que pregava o poeta francês, uma visão simultânea desses personagens e de suas peregrinações pela vida. Rimbaud tem um livro de poemas em prosa chamado Illuminations, no qual registra diversas viagens que fez e Faye inicia dizendo que a ela importa qualquer experiência no lugar de nenhuma. Tudo se sente ao mesmo tempo desencaixado, solto e vinculado. Faye está à procura de um amor, mas não sabe exatamente o que deseja e há um núcleo do filme que trata da traição. Sozinha, procura numa artista francesa, Zoey (Bérénice Marlohe), como Rimbaud (em seu caso, era o poeta Verlaine), uma tentativa de se encontrar consigo mesma. Baseada em um verso do poeta, “Engoli uma notável poção de veneno”, ela diz em determinado momento a BV que Rimbaud esgotou todas as poções.

Embora haja participações do Red Hot Chili Peppers, Patti Smith e Iggy Pop em diferentes momentos, De canção em canção não pretende construir um mosaico musical da vida moderna. Ele pretende mostrar mais como cada existência é governada por dissonantes acordes, que às vezes não seguem a mesma faixa. Mas, como a família musical, a Malick interessa a família em si. Rhonda tem uma relação próxima da mãe (Holly Hunter), assim como Gosling tem da sua (Linda Emond) – e em determinado momento precisa cuidar do pai (Neely Bingham) – e Faye do seu pai (Brady Coleman), todos sem nome próprio, como convém à tentativa de Malick em ser universal. O único que parece sem vínculos familiares é exatamente Cook. Esses personagens entram e saem do filme no mesmo fluxo contínuo da vida sendo revelada. As figuras dos pais eram determinantes em A árvore da vida e Cavaleiro de copas, quando se ausentavam particularmente em Amor pleno. Aqui, como em Cavaleiro de copas, BV troca ideias com um irmão (Tom Sturridge), sobre o pai, que parece ter prejudicado a sua família. Ainda assim, BV é visualizado entrando numa igreja no México, tentando se conectar com um ser superior que possa solucionar suas dúvidas, e é um traço que o aproxima dos personagens de Brad Pitt e Ben Affleck em A árvore da vida e Amor pleno.

Mesmo para um filme de Malick, De canção em canção se mostra surpreendentemente sem um eixo certo: ele não caminha estabelecendo pontos evidentes e sim sensações, como a entrada em determinado momento da personagem Amanda (Cate Blanchett), uma mulher solitária e que vê as pérolas de seu colar se espalharem no chão (e lembre-se que a pérola era um símbolo de Cavaleiro de copas).
Também se percebe que Ryan Gosling fez o filme em diferentes anos: em algumas passagens, ele aparenta estar com o visual de Drive e O lugar onde tudo termina, de seis, sete anos atrás, mais do que o restante do elenco – e comenta-se que Malick iniciou as filmagens de maneira aleatória, gravando concertos diferentes no Texas, e não oferecia nenhum roteiro concreto aos atores. Também confunde o espectador a maneira como a personagem de Faye vai mudando seus cortes de cabelo (no início, Mara parece ter o visual que usa em Millennium, de 2011), mas é como se Malick fosse registrando suas relações com BV e Cook em fases diferentes, talvez até mesmo antes do início dessa história. Ajuda saber que Faye, além de tentar carreira musical, “mostra apartamentos e passeia com cães”, como diz em determinado momento, por isso muitas vezes as locações mudam sem explicação.

Malick, como em Cavaleiro de copas e Amor pleno, usa a arquitetura das casas para falar dos personagens, cria analogias entre pássaros na natureza e de madeira pendurados no teto da sala, distribui uma porção de cenários em que os personagens se sentem ou mais solitários ou em busca de companhia: rios, piscinas de casas, estacionamentos, casas onde moram ou de suas famílias, o contraste entre interior e cidade, a tranquilidade da varanda e o caos dos shows. Todo o cuidado cênico se manifesta em cada sequência, e, além da referência a Rimbaud, em outro momento Malick filma uma parede com a palavra “Howl” gravada – o título do famoso poema de Allen Ginsberg da geração beat. Malick, aliás, faz algumas breves menções à geração beat, quando Cook e BV viajam com Faye para o México, com a mesma busca pela contracultura (e quando Cook se entrega finalmente aos experimentos alucinógenos já temos a outra face desse caminho), embora atenuada por imagens dos personagens ajudando pessoas nas ruas. Do mesmo modo, ele se entrega a uma viagem pessoal, mesmo sendo casado. Cook representa uma espécie de ameaça aos demais: ele personifica algo próximo da tentação, quando tenta separar Faye de BV, sugerindo um contrato de gravadora a ela, e oferece um cogumelo a Rhonda envolto em mel, por exemplo, ou quando usa sua piscina para festas particulares. Rhonda gostaria de ser professora infantil e, quando dialoga com uma garota de programa (Christin Sawyer Davis) e esta lhe fala que também gostaria de ser professora, parece que a personagem tem a consciência sobre o lugar para o qual Cook vai levá-la.

Temos os personagens novamente à procura de afeto: Malick utiliza sua obsessão em filmar o corpo humano em momentos descompromissados e atrativos, com narrações em “voice over” (muito bem utilizadas) que alternam a descrição de cada personagem para o que estão sentindo. Como em Cavaleiro de copas, Malick não está interessado exatamente pela indústria que serve de pano de fundo para tais personagens e seus comportamentos: tudo é motivo para vislumbrar fragmentos da tentativa de pessoas diferentes existirem. Trata sobretudo de escolhas sendo feitas, de como as pessoas lidam com suas perspectivas. Particularmente exitosa é a referência muito discreta de Malick ao filme Cada um vive como quer, com Jack Nicholson, de 1970. Lá, Nicholson interpretava um ex-pianista com problemas de relacionamento com o pai enfermo, justamente o que acontece com o personagem BV, feito por Gosling. Mara, para isso, tem uma contribuição notável para o filme, assim como Gosling, com quem mais contracena e se mostra em determinadas cenas um ator mais versátil ainda do que se mostrou em Drive e La La Land. Portman é tremendamente humana, numa atuação ao nível de Cisne negro e Jackie, e Fassbender, por sua vez, retrata o próprio vazio que parece cercá-lo. Um destaque também para o elenco coadjuvante de pais ou mães desses personagens, notável, mesmo com pouco tempo de atuação, e a inspirada Blanchett, embora com pouco roteiro (Christian Bale teria gravado cenas, mas foram descartadas, e Val Kilmer aparece brevemente como um roqueiro, lembrando um Jim Morrison que pretende integrar o Sonic Youth).

É notável que, mais do que em Amor pleno e Cavaleiro de copas, os atores se sintam numa espécie de jazz session de atuação, fazendo gestos e tendo comportamentos abertos para a história, sempre movimentando as peças para todos os lados possíveis. Percebe-se, também, como, desde A árvore da vida, Malick registra algumas cenas como parte de uma ficção científica cotidiana: quando Faye, BV e Cook voltam do México, Malick filma os dois últimos flutuando no jato, como astronautas; os estacionamentos vazios que Malick apresenta parecem pertencer a uma paisagem pós-apocalíptica, na qual todos estariam sozinhos; as montanhas onde Faye e BV caminham lembram aquelas de Cavaleiro de copas, afastadas de tudo. De canção em canção requer novas visualizações para se obter mais das camadas que Malick entrega. Talvez seja melhor assisti-lo como um conjunto de peças que vão se encaixando mais por meio da sensação visual e dos temas enfocados e pelas atuações, não se dando tanta importância à ordem em que isso acontece: melhor seria acompanhar os trajetos indefinidos dos pássaros no céu, mostrados ao longo de todo o filme, em momentos diferentes. Como a vida, Malick não esclarece onde as relações começam ou terminam: é a própria viagem que se faz o importante. O que se tem é mais um dos grandes momentos do cinema, uma amostra de como tornar um filme numa verdadeira experiência, muito em razão novamente da arte conjunta de Malick e Lubezki. De canção em canção é uma obra-prima.

Song to song, EUA, 2017 Diretor: Terrence Malick Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Olivia Grace Applegate, Dana Falconberry, Linda Emond, Iggy Pop, Tom Sturridge, Neely Bingham, Brady Coleman Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Produção: Ken Kao, Sarah Green Duração: 129 min. Distribuidora: Supo Mungam Films Estúdio: Buckeye Pictures / FilmNation Entertainment / Waypoint Entertainment

La La Land – Cantando estações (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, vem com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, La La Land traz uma história que pode ser considerada romântica em seu limite.
A jovem Mia Dolan (Emma Stone) se encontra numa estrada congestionada de Los Angeles quando as pessoas saem de seus carros e se põem a cantar “Another day of sun”, num número musical realmente notável e que Chazelle filma praticamente sem cortes. Ela trabalha como barista no café da Warner Bros e deseja ser atriz, sempre participando de audições. Por sua vez, preso no mesmo engarrafamento, está Sebastian Wilder (Ryan Gosling), um dedicado pianista de jazz, que não consegue se manter com tranquilidade e isso provoca conflitos com sua irmã Laura (Rosemarie DeWitt). No restaurante onde toca, seu chefe, Bill (JK Simmons), diz que ele não deve tocar jazz, apenas canções de Natal. Por sua vez, Mia está preocupada com seu futuro, pois as audições não estão dando certo, enquanto convive com três colegas de apartamento (Callie Hernandez, Jessica Rothe e Sonoya Mizuno), e ainda assim se motiva a ir a uma festa.

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Este início de La La Land é acelerado, pois encadeia dois números musicais quase seguidos em que há um trabalho de cores nos figurinos e luzes, mas também um estilo que não se localiza no restante da narrativa que apresenta. Alguns apontam justamente que há uma queda onde, na realidade, La La Land ingressa em seu verdadeiro tributo à maneira como se enxerga a arte e a vida. La La Land não tenta ser espetacular em termos de figurinos e design de produção como Moulin Rouge, Chicago ou Os miseráveis, para citar três musicais recentes: ele utiliza a música para tratar de relações.
Depois de Mia encontrar Sebastian pela terceira vez – a segunda evoca Mesmo se nada der certo –, tocando músicas dos anos 80 numa mansão de Hollywood, ambos passam a se aproximar e, graças a Emma Stone e Ryan Gosling, o filme adquire uma carga não apenas romântica como também nostálgica e cortante. Por um momento, temos a Stone de A mentira e o Gosling de Dois caras legais: ambos já formaram casais no ótimo Amor a toda prova e no irregular Caça aos gângsteres, e Chazelle sabia claramente que tinham uma química evidente de atuação. Eles não precisam de muitos diálogos para desenhar o arco de seus personagens e é isso que La La Land revela à medida que a relação entre os dois é trabalhada. Sebastian tenta criar em Mia um interesse pelo jazz (ela não aprecia este gênero musical) e tem o sonho de criar um clube, o que já era tema em Whiplash, mas aqui pode soar, para alguns, um tanto facilitado. Mais do que personagens, são símbolos e, por causa das atuações, eles se transformam em figuras críveis.

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La La Land talvez não tenha nada de muito novo a falar sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tem muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia e Sebastian são figuras que, como aparecem no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividem entre o que pretendem ser e o que se mostra realmente viável. Isso confere ao filme uma camada que Chazelle torna encantadora pela maneira como a revela, aos poucos. Não há nada de novo nesse romance; o novo se concentra justamente na maneira como essa mensagem de busca pelo sonho é passada.
Quando Sebastian encontra um colega de escola, Keith (John Legend), Chazelle não descarta o que vinha mostrando. Sebastian não é apenas pianista como Ray, de O fundo do coração, que podia conceder os sonhos à personagem central do filme de Coppola; é também uma espécie de tributo ao personagem que James Dean faz em Juventude transviada, cuja noite de sonhos visualiza uma vida realmente tranquila, sem os conflitos em que é inserido às vezes à força, além daquela referência de local, que é o Griffith Observatory, numa sequência que evoca outro filme com Stone, Magia ao luar, de Woody Allen.

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Não por acaso, Chazelle situa esse clássico como o ponto de encontro entre Sebastian e Mia: esses são personagens que não vivem longe de seus sonhos. Chazelle, porém, não é condescendente e, mais do que O fundo do coração, de Coppola, inspiração clara para muitas cenas (e mesmo nos postes de luz das ruas), e muito mais do que o cinema francês de Jacques Demy – presente nas cores de alguns figurinos –, ele traz a lembrança do cortante New York, New York, de Scorsese, que mostrava uma relação conturbada entre um músico feito por De Niro e uma cantora feita por Liza Minelli e os conflitos entre ambos na busca pelo sucesso. Chazelle não transforma esses personagens em figuras apenas ligadas pelo sonho – e sim como símbolos capazes de representar a solidão de Los Angeles, em que o sol não brilha para todos, na carreira, mas os sonhos definitivamente podem brilhar. Isso já aparecia em seu filme de estreia, Guy and Madeline on a park beach, no qual um jovem admirador de jazz se encontrava entre idas e vindas com uma jovem, marcado pelo estilo nouvelle vague de Godard, a começar por sua fotografia em preto e branco. Em La La Land, o diretor pergunta constantemente: nos sonhos realizados há perfeição e não existe a melancolia que se almeja não ter em nenhum momento?
Stone e Gosling não são exímios cantores (embora não cheguem nunca a desafinar, como Crowe em Os miseráveis), mas cantam bem e é isso que ajuda o tornar o filme tão próximo do espectador: estamos diante de pessoas reais e que podem se mostrar mais pelo que não transparecem aos outros. Os números musicais são bem feitos, embora nenhum tão encantador quando um em que Stone e Gosling trocam passos de dança e ele usa o sapateado numa das colinas de Hollywood, com as luzes de Los Angeles ao fundo – que remete imediatamente a Las Vegas de O fundo do coração, de Coppola. Nesses números, Chazelle desenha a aproximação entre os personagens, que se concretiza nos gestos e olhares trocados entre os personagens.

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São justamente por meio desses gestos, que Chazelle colheu principalmente de Amor a toda prova, em que o casal atuou junto pela primeira vez e de maneira excepcional, que La La Land caminha para ser um triunfo não musical, mas de reflexão sobre os momentos em que os indivíduos estão afastados do palco e dos holofotes. Ele não grava os sonhos majestosos como algo que confere uma alegria adicional ao ser humano, e sim os pequenos gestos e os sonhos mais íntimos, compartilhados apenas com uma determinada pessoa. Mesmo que Mia viva com três amigas pretendentes a atriz, e Sebastian seja um pianista de clubes, eles dificilmente são vistos em interação com outros: a cidade se reduz a eles, porque ambos são símbolos de Los Angeles. Tanto parece ser isso que, quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades.
Nesse sentido, Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

La La Land, EUA, 2016 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, JK Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt Duração: 127 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Gilbert Films / Impostor Pictures / Marc Platt Productions

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Dois caras legais (2016)

Por André Dick

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Desde o roteiro dos quatro filmes da série Máquina mortífera, dos anos 80 e 90, com Mel Gibson e Danny Glover, Shane Black se tornou um especialista em filmes sobre duplas. Em O último boy scout, ele colocou, sob direção de Tony Scott, Bruce Willis ao lado de Damon Wayans. Já em 1993, em O último grande herói, ele traz uma homenagem ao cinema de ação, na amizade entre um menino e Arnold Schwarzenegger. Em 2005, Black finalmente estreou na direção com o ótimo Beijos e tiros, uma homenagem ao cinema noir com cores surpreendentes, tendo à frente o dueto entre Val Kilmer e Robert Downey Jr. E, quando voltou à direção quase 10 anos depois, em Homem de ferro 3, não deixava também de estabelecer como uma dupla o Homem de Ferro e o Coronel James Rhodes.
Desta vez, em Dois caras legais, o roteiro (daqui em diante, possíveis spoilers), em parceria de Black com Anthony Bagarozzi, trabalha na pista dos filmes de investigação policial e de literatura do gênero, a exemplo de Vício inerente, de Thomas Pynchon. A trama se passa em 1977, na cidade de Los Angeles. Um menino, Bobby (Ty Simpkins), é testemunha de um acidente de carro envolvendo a atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio). Na mesma semana, Holland March (Ryan Gosling) é procurado pela Sra. Glenn (Lois Smith), a tia da atriz, pedindo para encontrá-la, como se ainda estivesse viva.

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March conclui que uma menina desaparecida, Amelia Kutner (Margaret Qualley), está envolvida no caso. No entanto, Amelia contrata Jackson Healy (Russell Crowe) para assustar Holland. Healy é abordado por dois bandidos, Blue Face (Beau Knapp) e Older Guy (Keith David), que questionam sobre Amelia, e procura Holland, a fim de encontrarem Amelia antes dos bandidos. Isso tudo com a ajuda de Holly (Angourie Rice), jovem filha de Holland.
Os dois iniciam uma investigação que os levará a um projecionista, Dean (Jack Kilmer), e a um cineasta amador, Dean, com quem Amelia rodava um filme, parando numa festa onde estaria Sid Shattack, um produtor de pornografia notório. Acabam sendo contratados pela mãe de Amelia, Judith Kutner (Kim Basinger), do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que enxerga a filha como uma vítima do sistema de pornografia que invade Los Angeles, tentando encontrá-la ainda com a ajuda de sua assistente, Tally (Yaya DaCosta). Ou seja, como em livros do gênero, Dois caras legais caracteriza-se por uma trama intrincada – embora, em seu caso, mais pop do que certamente hermética.
Há uma clara influência também de Dália negra, filme de De Palma baseado em romance de James Elroy, nesta ligação de Los Angeles com um underground de pornografia, e, enquanto o elenco coadjuvante é excelente, Gosling mostra uma química e desenvoltura irretocável com Crowe: Gosling é o desastrado (e torna refinado seu traço cômico já bem aproveitado em Amor a toda prova), que consegue parar no hospital ao tentar arrombar uma porta.

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Já Crowe é o durão, sem perder um lado afetuoso e cômico: ele não aparece desse modo desde o subestimado Um bom ano, em que faz um executivo que envereda por uma paixão romântica. Ambas são figuras críveis e simpáticas e o relacionamento entre ambos se estabelece numa mescla entre desconfiança e tentativa de apresentar um trabalho minimamente sério em suas investigações, mesmo que muitas vezes tortuosas.
Tanto Gosling quanto Crowe aceitam que não há senso para seus personagens que não seja o de serem imprevisíveis. Também há acenos para obras como Chinatown, Boogie Nights e Los Angeles – Cidade proibida, com um talento inegável de Black em mesclar tons de investigação e violência com bom humor e até o envolvimento de adolescentes em meio a um cenário mais soturno, com uma atmosfera bem captada pela cinematografia do francês Philippe Rousselot, o que já se constatava no ótimo Beijos e tiros, e o figurino alegre e que se corresponde com uma espécie de atmosfera de disco music. Black desenvolve alguns diálogos saborosos, lembrando um pouco o comportamento de Dirty Harry em seu filme de estreia, mesmo que o tom geral soe despretensioso. Por exemplo, a presença da filha de Holland, Holly – metade do nome de Hollywood –, ajuda não apenas a estabelecer uma ligação com os jovens, como a tornar mais humana a amizade entre seu pai e o detetive feito por Crowe, principalmente porque este age de determinada maneira num momento-chave, denunciando um certo vício de profissão.

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O grande momento para esses personagens é realmente o da festa numa das colinas de Los Angeles, na qual se mesclam referências a Vício inerente, de Anderson, e Cidade dos sonhos, de Lynch, sob uma ótica decisivamente original, com a brincadeira de Holland numa piscina com moças que desempenham o papel de sereias. É o ano de Os embalos de sábado à noite, e Hollywood, como a perseguição desses detetives, está em transformação. Mas Black não reitera a violência que poderia haver num filme policial situado nos anos 70, preferindo equilibrar tudo com doses maciças de humor e ironia. Não se trata exatamente de uma sátira, e sim de uma mescla inteligente entre gêneros que poucas vezes funciona como aqui. Como Beijos e tiros, ele se passa quase totalmente à noite, e seus poucos indícios de luz remetem a uma nova cultura surgindo de dentro da cidade. Como pano de fundo, assim como em outras obras suas, está o próprio cinema, e Black brinca com a metalinguagem de maneira inteligente, de modo que não soe forçada dentro do contexto em que os personagens se inserem. Realmente é uma grata surpresa esta comédia e apenas se lamenta que seu orçamento (50 milhões de dólares) tenha retornado até agora em pouca bilheteria (57), talvez invalidando uma possível e merecida franquia com esses personagens. Dois caras legais é um filme que apenas superficialmente parece comum. Por baixo de sua estética, lembra o que há de melhor no cinema norte-americano de diversão.

The nice guys, EUA, 2016 Diretor: Shane Black Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Matt Bomer, Margaret Qualley, Kim Basinger, Murielle Telio Roteiro: Anthony Bagarozzi, Shane Black Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: David Buckley, John Ottman Produção: Joel Silver Duração: 116 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Misty Mountains / Silver Pictures / Waypoint Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

 

A grande aposta (2015)

Por André Dick

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Este novo filme de Adam McKay, diretor de O âncora, Ricky Bobby e Quase irmãos (todos com Will Ferrell) e também presente na direção e roteiros de Saturday Night Live, é baseado num livro escrito por Michael Lewis, sobre a crise financeira de 2007-2008, causada, como todos sabem, por uma bolha no mercado imobiliário. Em 2005, a possibilidade de isso acontecer, especificamente em 2007, é antevista por Michael Burry (Christian Bale). Ele configura esse mercado como completamente instável, baseado em empréstimos fora de qualquer padrão. Visto como uma pessoa antissocial (e assumindo-se como tal), ele vai a vários bancos para tirar lucro da ideia, apostando o dinheiro da empresa para ganhar em cima da esperada perda na área. Os bancos apostam que o mercado é seguro, e ele acaba sendo visto como um desequilibrado; riem dele pelas costas.
Num determinado local, quem ouve a história de suas peregrinações é Jared Vennett (Ryan Gosling), que logo nota que as previsões são verdadeiras, e se junta a Mark Baum (Steve Carell). Os dois descobrem que a possível quebra está ligada a CDOs, grupos de empréstimo. Baum trabalha com Porter Collins (Hamish Linklater), Danny Moses (Rafe Spall) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong), tentando ser convencida pela esposa, Cynthia (Marisa Tomei), a largar a profissão e o universo de Wall Street. A profissão de quem lida com o dinheiro é constantemente satirizada em A grande aposta e associada, como no filme de Scorsese, a strippers e boates onde ele é jogado pelos ares.

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Há também, na mesma escala, os investidores Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), sabendo das ideias de Burry por via indireta, que passam a trabalhar para o ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt). Todos esses personagens estão envolvidos com a mesma possibilidade, no entanto nunca são vistos juntos, ou seja, eles apenas anteveem o que irá acontecer sem terem certeza de que isso acontecerá – ao mesmo tempo em que têm essa certeza.
McKay trabalha com esse elenco de maneira muito competente, mas estranhamente desigual, sendo prejudicado pela montagem, que dá espaço maior a personagens não tão interessantes quanto os de Bale, Pitt, Rosling e Carell, os principais (e fiquei imaginando se tivessem conseguido encaixar aqui Jim Carrey em seus melhores momentos). Todos estão muito bem, especialmente Carell, na atuação dramática que poderia ter lhe rendido uma nova indicação ao Oscar e complementa, em outro plano, aquela excelente que teve em Amor a toda prova (em que também contracena com sua esposa aqui, Tomei). O personagem de Bale é fascinante, principalmente no início, quando lhe é dado um merecido espaço, com suas manias, fuga do stress por meio de uma bateria e a Síndrome de Asperger. McKay, ainda assim, se equivoca ao restringi-lo somente a um espaço, sendo como o homem que não vê os outros, mas sabe tudo o que irá acontecer aos outros. Falta, digamos, um ponto alto, capaz de atrair todos os personagens, mesmo separados, para o mesmo núcleo dramático.

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O roteiro é bastante complexo, principalmente para quem não sabe os detalhes da crise, ou seja, em certos momentos parece mais para o público norte-americano. No início, existe a impressão de que se trata mais de uma comédia satírica sobre o que aconteceu, porém, aos poucos, vai se anunciando mais um drama nas entrelinhas referentes aos personagens, sobretudo nas atuações de Pitt e Carell, às vezes oportunizando mesmo uma lição de moral, o que seria dispensável diante do que o filme nos mostra (e dificilmente A grande aposta pode ser visto como uma comédia, do modo como é vendido, não mais, por exemplo, do que um Cosmópolis, uma sátira ferina de Cronenberg tanto ao capitalismo exacerbado quanto aos ocupantes de Wall Street).
Há uma agilidade sensível na direção, ao mostrar personagens falando para a câmera. Isso às vezes funciona, outras não (passa a ser um recurso estranho quando ele se ausenta por muito tempo), no entanto a montagem vai selecionando muitas imagens para que o espectador nãos e distraia, mesmo que não entenda plenamente o contexto. Para isso, ele coloca Margot Robbie (curiosamente de O lobo de Wall Street) e Selena Gomez para dar explicações práticas das negociações em andamento, sobretudo, no segundo caso, quando há uma reunião em Las Vegas para discutir os rumos da economia. Há uma certa linguagem moderna que, por vezes, acaba se chocando com as reflexões do filme, mais exatamente do personagem de Carell, e isso cria um conflito claro na estrutura.

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Às vezes, ele lembra O lobo de Wall Street pela bateria de diálogos rápidos (Pitt tentou, lembremos, comprar os direitos e fazer esse filme), assim como uma excelente obra dos anos 90, chamado O sucesso a qualquer preço. E é interessante como todos os atores envolvidos no projeto já participaram de filmes com uma sátira ou crítica ao chamado capitalismo (mesmo Gosling fez Lost river, que trata também de pessoas sendo desalojadas e não deixa de ser uma metáfora da bolha financeira de 2008). Mas aqui não há o talento de Martin Scorsese quando, em O lobo de Wall Street, desmontou esse universo com o auxílio da atuação de DiCaprio. Havia mais foco na maneira como se dava esse olhar, e os personagens eram caricaturais, sem nenhum moralismo, quando aqui pelo menos o personagem de Pitt aparece para dizer palavras capazes de mostrar os verdadeiros erros. É interessante como McKay, um diretor de comédias, acaba levando mais a sério e querendo demonstrar com dados e definições de conceitos esse universo. Tudo é entregue para que o espectador possa selecionar as partes capazes de deixar o panorama mais claro; às vezes não fica, mas o elenco se esforça.
Mesmo com todas as falhas, ainda há mais virtudes em A grande aposta e uma real vida nas atuações, sem a neutralidade forçada e esforçada, por exemplo, de um Spotlight. Nisso, a fotografia de Barry Ackroyd, apesar de lembrar bastante a da série The Office (com Carell), e outras séries, diga-se de passagem, oferece um movimento ininterrupto e capta melhor os cenários, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas. A grande aposta acaba tendo como referência uma dissolução interessante de gêneros no fim das contas, além de contar com um elenco estelar em grande forma, apesar de alguns não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro e suas consequências até hoje, inclusive seu reaproveitamento sob outras formas, conta mais para o espectador ter consciência sobre o tema.

The big short, EUA, 2015 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Max Greenfield, John Magaro, Karen Gillan, Melissa Leo, Hamish Linklater, Billy Magnussen, Rafe Spall, Tracy Letts Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner Duração: 130 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Plan B Entertainment / Regency Enterprises

Cotação 3 estrelas e meia

 

Lago perdido (2014)

Por André Dick

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Com a reação pouco amistosa do público no Festival de Cannes depois de exibida na amostra “Um certo olhar”, a estreia na direção de Ryan Gosling quase não atingiu seu lançamento comercial. No entanto, com apoio de uma grande distribuidora, a Warner Bros, Lago perdido chega tanto a cinemas do exterior quanto em video on demand, num lançamento simultâneo (sua estreia nos cinemas brasileiros se dará em 23 de julho). Acusado, desde o início, de ser mais uma pose do que um filme, é interessante como, ao mesmo tempo, o mesmo festival de Cannes tenha dado o prêmio do Grande Júri a Mommy e Adeus à linguagem, obras que não se mantêm longe de uma pose de linguagem, principalmente o de Godard, com uma aura de vanguarda que ele não mais carrega desde, pelo menos, o momento em que os rumos da Nouvelle Vague foram capturados pelo cinema em sua amplitude. E ainda o melhor diretor escolhido foi Bennett Miller por seu decepcionante Foxcatcher. Com as críticas pouco favoráveis, imaginava-se que Lago perdido seria o que pode ser chamado de desastre consumado.
Quando se vai ao filme de Gosling, é notório, logo nas primeiras imagens, suas maiores influências: Terrence Malick e David Lynch. A presença desses diretores nas imagens de Lago perdido são claras, e com eles compartilham espaço também Harmony Korine e Dario Argento (um clássico do terror), além de Nicolas Winding Refn, com quem Gosling fez Drive e Apenas Deus perdoa. Há também lances de David Gordon Green, embora este já tenha um diálogo bastante aberto com Malick.

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Gosling, de certo modo, não esconde suas influências, como se fosse exatamente um fã. Mas, se há detalhes que anunciam que esta é uma obra de estreia, pode-se também dar o benefício da dúvida: se todos os filmes com tom de declaração de amor ao cinema alheio tivessem o impacto de Lago perdido já haveria o que se entende de influência do cinema autoral. Gosling não está interessado, e em se tratando de um astro de Hollywood que não precisava arriscar nada é algo inusitado, em preservar a imagem que apresenta como galã: Lago perdido, mais do que uma homenagem ao cinema desses autores, é uma viagem por um trem fantasma, por vezes bastante assustadora.
A cidade fantasma, Lost River, é aquela em que mora o que seria o personagem principal, Bones (Iain De Caestecker) . Ele divide a casa com a mãe, Billy (Christina Hendricks) e o irmão menor (Landyn Stewart), mas há uma dívida de aluguel de três meses. A mãe vai até um banqueiro, Dave (Ben Mendelsohn), a fim de solucionar a questão; ele lhe passa, numa espécie de Cidade dos sonhos, um cartão para que ela procure um emprego. Este se localiza num lugar cuja entrada é realmente a de um trem fantasma – e o que acontece dentro dele remete, tanto por Cat (Eva Mendes, também esposa de Gosling e uma ótima participação especial) quanto pelo banqueiro, aos personagens do underground de Lynch. É esta faceta que Lago perdido mais deve ao cinema do criador de Cidade dos sonhos. Neste lugar em ruínas, casas são destruídas diariamente e Bones o percorre atrás de resíduos de cobre, para que possa vendê-los. No entanto, circula pela cidade Bully (Matt Smith), com um uniforme de artista e microfone à mão que o ameaça, sempre acompanhado pelo assustador Face (Torrey Wigfield).
Numa das fugas, Bones acaba chegando a um lago onde postes de luz estão semisubmersos – e parecem ao longe o monstro do Lago Ness (o título original do filme é justamente Como pegar um monstro). Ao mesmo tempo, tem como vizinha Rat (Saoirse Ronan), que possui a figura de um flamingo em neon que ilumina seu quarto à noite e uma avó (Barbara Steele, de obras clássicas de um mestre do terror, Mario Bava), que fica imóvel diante de uma televisão assistindo a um vídeo antigo. Todas as imagens de Lago perdido não podem ser lidas, como uma peça surrealista, em sua superfície, como o lago que pode cobrir uma cidade; para cada grafite num muro, pode haver uma sala de cores que remetem a uma ficção científica, e casas podem parecer detritos enquanto o clube simetricamente calculado pode esconder o que a cidade esconde.

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Muito em razão da fabulosa fotografia de Benoît Debie – que fez não apenas um ótimo trabalho em Spring Breakers, como sobretudo em Enter the void e The Runaways –, e de uma trilha sonora impactante de  Johnny Jewel (ouça a excelente canção “Tell me”, cantada pela atriz Saoirse Ronan), Lago perdido é um mergulho numa atmosfera ao mesmo tempo acolhedora (as paisagens da natureza no início ou o registro de momentos afetuosos, como o irmão correndo ao lado do carro parado, com o irmão menor à direção) e horripilante: se os passeios pelas ruas abandonadas lembram os passeios do casal de vampiros em Amantes eternos (filmado na mesma Detroit em que Gosling capturou seu filme), as imagens do clube – ou trem fantasma – reservam um subterrâneo dessa cidade que, na verdade, desapareceu. Há muito do trabalho de cores de Dario Argento (principalmente de Suspiria) e de Jodorowsky filtrado por Refn, no entanto Gosling tem um tato para a ambientação mais natural, menos rebuscada, que não se encontra nesses diretores, fazendo com que Lago perdido muitas vezes crie um choque entre um plano onírico e uma vegetação local – o corte da corrida de Bones fugindo de Bully, para o escritório em que sua mãe se reúne com o banqueiro, é exemplar, assim como os momentos em que ela vai para o trabalho com um taxista (Reda Kateb). Tudo tem a sensação de um pesadelo, que pode ser entendido como parte da realidade que se descortina pelos personagens quando em contato sobretudo com a noite.
Nesse sentido, a procura de Bones por uma cidade escondida nas águas é a procura por Lost River, que ele vai percorrer com uma alucinante corrida, mais ao final. Lamenta-se diante deste trabalho apenas que Gosling não tenha conseguido transformar os momentos de aproximação entre os personagens em algo mais corrente: se a relação entre o filho e a mãe logo se estabelece, o seu contato com a vizinha se torna um pouco apressado, o que se deve visivelmente a momentos enigmáticos, no sentido que pode lembrar tanto Apenas Deus perdoa quanto uma ficção científica em que a figura feminina pode ser abafada com um peixe perdido no rio, num ambiente que parece capturar O segredo do abismo, de James Cameron, por mais estranha que seja esta aproximação. Ou seja, em determinado momento, a representação da mãe lutando contra a dominação é a mesma do filho procurando libertar esta cidade, com a grande atuação de Christina Hendricks, que fez Drive junto com Gosling, assim como a de Mendelsohn, seu parceiro em O lugar onde tudo termina.

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Nisso, pode haver também a leitura, menos instigante, de que Lago perdido representa a sociedade norte-americana em ruínas, sendo preferível a de que Gosling quis capturar um momento dela como se fosse uma espécie de trem fantasma do qual é preciso descer em algum momento – ou seja, é preciso se deslocar da fábula para a realidade. Desse modo, o roteiro de Gosling, mesmo que algumas vezes fique a dever no plano dos diálogos, e alguns lances de ingenuidade narrativa, consegue suscitar analogias muito interessantes, pois completamente afastadas do cinema comercial de Hollywood, sem a tentativa de ser uma exposição de galeria de arte vazia como, no ano passado, Sob a pele. Seria interessante que a versão completa exibida em Cannes (com 10 minutos a mais) fosse em algum momento liberada para que se tenha a noção mais exata dessa estreia de Gosling em termos de história; se a crítica às vezes pode ajudar na reconsideração de uma obra, ela também pode subtrair uma obra que poderia ser melhor aproveitada ainda de modo mais completo.
Ainda assim, Lago perdido é uma experiência que ressoa e compromete Gosling com um cinema que não pode lhe trazer uma recepção garantida da plateia: em seu curso, a sensação é de lidarmos com um cinema que não evoca o experimentalismo para se autocongratular, como é visto, e sim como uma maneira de expressão que instiga a conhecer seus diálogos. É uma maneira interessante de expor a criação de um novo diretor, assim como uma nova sensibilidade.

Lost river, EUA, 2014 Diretor: Ryan Gosling Elenco: Ben Mendelsohn, Christina Hendricks, Saoirse Ronan, Eva Mendes, Matt Smith, Iain De Caestecker, Demi Kazanis, Barbara Steele, Landyn Stewart, Reda Kateb Roteiro: Ryan Gosling Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Johnny Jewel Produção: Ryan Gosling, David Lancaster, Michel Litvak, Marc Platt, Adam Siegel, Jeffrey Stott Duração: 95 min. Distribuidora: Bold Films, Marc Platt Productions Phantasma Estúdio: Warner Bros

Cotação 4 estrelas

Apenas Deus perdoa (2013)

Por André Dick

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Depois do grande êxito de Drive, pelo qual foi premiado no Festival de Cannes como melhor diretor, Nicolas Winding Refn passou a fazer parte de uma reservada lista de cineastas e sua parceria com Ryan Gosling resultou em novo fime: Apenas Deus perdoa. A contrário do anterior, este novo Refn foi vaiado em Cannes e bastante criticado por seu visual e história. De certo modo, esperava-se uma espécie de prosseguimento das alternativas fornecidas por Drive, que magnetiza pela sua ação comedida e pelo comportamento estranho do personagem central. Embora Apenas Deus perdoa não se esforce em ser um diálogo direto de Drive, deve-se reconhecer, pelo menos, o seguinte: dificilmente haverá, pelo menos este ano, um filme tão estranho e visualmente fascinante.
Desta vez, Gosling interpreta Julian Thompson, que possui um clube de luta Muay Thai em Bangkok, junto com seu irmão, Billy (Tom Burke). Em determinada noite, este sai à procura de mulheres e encontra um cenário de pesadelo. Cada falha dos personagens deve ser punida pelo tenente Chang (Vithaya Pansringarm, excelente), que canta num karaokê para uma plateia imobilizada, antes de empunhar a sua espada como elemento de vingança e, ao voltar para casa, tira os sapatos, a fim de encontrar sua filha – pela janela do quarto dela, se enxerga uma vegetação verde e calma, como em algum plano de Kurosawa, como se fizesse parte de um quadro oriental (veja também o cão que caminha pelo beco até onde Julian se encontra). Assim como em Drive, Apenas Deus perdoa apresenta dissonâncias.

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Apenas Deus perdoa

Há um salto da violência (e aqui ela é graficamente desagradável, embora sonoramente não tão chocante quanto em Drive) para o sossego e a calmaria, mas o que permanece é uma espécie de sensação de pesadelo noturno, e não está distante a ideia de que este universo guarda alguma ligação com o de Nikki de Império dos sonhos, a obra de David Lynch. Assim como Chang olha pela janela o céu calmo, Julian olha para o espelho num ambiente escurecido, como se estivessem em universos complementares, em que a violência acaba vindo à tona. Julian tenta estabelecer vínculo emocional com uma prostituta, Mai (Yayaying Rhatha Pongham), que trabalha num clube com neons, lâmpadas pelas paredes, e está sempre em corredores escuros ou intensamente vermelhos, cercados pelo figurino e pelos papéis de parede com o mesmo dragão que está ao fundo do clube de luta. Não se sabe ao certo se Julian está acordado ou sonhando: o banheiro às vezes fica azul e em suas mãos é possível ver o sangue da culpa ou do prenúncio do que ainda irá acontecer. Ele tenta afastar-se desse corredor, como se fugisse do pesadelo. Sua mãe, Crystal (Kristin Scott Thomas), vem da América e deseja cobrá-lo por não ter pego ainda o assassino do seu irmão. Ela é claramente obcecada pelos filhos, mas sobretudo por Julian, sobre o qual parece não obter o domínio que gostaria – e Kristin desempenha um dos melhores papéis de sua carreira, assustadora e frágil na medida certa.
Refn trabalha alguns elementos que já apresentava em Drive, como a pulsação da trilha sonora de Cliff Martinez e a quase muda participação de Gosling. Este se encontra parcialmente preocupado em lidar com sua relação com o universo feminino, e a cada olhar que dispara para a mulher que deseja no clube é uma espécie de sinal de que sabe que tudo acabará sofrendo alguma concessão desnecessária. Ele não consegue corresponder à criação e exigência materna com o que aparenta ser sua rotina: dividido entre a luta de boxe, as drogas e os pesadelos noturnos, o que lhe resta é tentar enfrentar aquele que parece ser uma espécie de justiceiro, responsável em escolher o destino de alguns personagens e mesmo uma espécie de fantasma, que anda pelas ruas de Bangkok e desaparece sem que possamos imaginar seu paradeiro.
Todos os personagens, embora pouco dialoguem, e interajam, conseguem estabelecer uma espécie de panorama de relacionamento perturbador. Não apenas a obsessão da mãe pelos filhos, como a tentativa de Julian em enfrentar aquele que imagina fazer justiça, tornam Apenas Deus perdoa numa espécie de experimento arriscado. Também a maneira como Refn dispõe a infância tortuosa desses irmãos – sobre a qual não ficamos sabendo – quando revela outras crianças: uma na cadeira de rodas e a filha de Chang, sempre à espreita de uma violência incontrolável.

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Pode-se dizer que o início do filme e muitas passagens ao longo dele sejam feitas num estilo slow motion: quase tudo é extremamente sem movimento, calculado e mesmo pesado, mas, de algum modo, essa composição acaba por amplificar o sentimento dos personagens (aqui, poucos diálogos não significam falta de história) e torna a fotografia de Larry Smith – que fez parte da equipe de iluminação de O iluminado e Barry Lindon, é responsável pelo trabalho do Kubrick derradeiro, De olhos fechados, e havia trabalhado com Refn em Bronson – numa peça-chave para essa composição se tornar mais ampla. Os contrastes pretendidos por Refn são esboçados em alta conta por Smith: sobretudo quando passamos dos interiores noturnos para a casa aberta e arejada, parecendo parte de um cartão postal, de Chang. É como se os personagens fizessem parte de um universo obscuro, onírico, de pesadelo e, de repente, passassem à claridade do dia, sendo, antes de tudo, extensões uns dos outros (spoiler: inevitável imaginar que Julian, ao final, chegue à casa de Chan, e sai em defesa da filha dele se contrapõe à acusação que sua mãe faz em outra cena e a seu irmão).
De igual intensidade, é o trabalho em relação às mãos dos personagens. Se Julian inicia o filme colocando seus punhos fechados, como um boxeador, logo ele estará tentando levar suas mãos ao corpo feminino, ou vendo, no banheiro, o sangue saindo delas. Do mesmo modo, num instante especialmente cruel – e o mais perturbado do filme, embora num cenário que parece alentador e lembre o do karaokê, numa espécie de clube noturno de mulheres bem comportadas –, as mãos são castigadas a tal ponto que nem o personagem que causa a situação consegue suportar.

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Only God forgives.Filme 4Refn não estabelece uma estética da violência; ele, na verdade, parece trabalhar muito mais com conceitos prévios a essas imagens, criando uma atmosfera de opressão como se ela não fosse, como indica o título, perdoar o comportamento de seus personagens, traídos ou não pelas situações em que se colocam. Julian também tem pesadelos ao imaginar suas mãos sendo cortadas por uma lâmina, e os personagens são captados pela câmera sempre numa espécie de estagnação, a não ser quando se está esperando que a violência irrompa de algum canto. Nesse sentido, os olhares passam a ganhar um movimento perturbador no isolamento em que Refn consegue captá-las, e as mãos passam a ser um símbolo do toque e do afastamento: ao mesmo tempo em que Julian quer tocar a mulher de sua vida, ele tem um receio e mesmo uma repulsa.
Esta simbologia é desenhada de maneira profunda por Refn, ou seja, muito mais do que Drive, que, em meio à sua originalidade latente, ainda era uma espécie de produto dos sintetizadores dos anos 80 e uma visão, embora original, sobre os dublês de Hollywood, Apenas Deus perdoa apresenta uma espécie de panorama amplo de um cinema experimental. Para Refn, as vaias em Cannes representam não um passo atrás em sua trajetória, mas uma compreensão de que conseguiu criar estranheza mais do que já era provável. Seu filme é uma obra de notável impacto, mesmo que se movimente quase em slow motion, planejado simetricamente e com uma densidade onde nada parece existir.

Only God forgives, FRA/Dinamarca, 2013 Diretor: Nicolas Winding Refn Elenco: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm, Yayaying Rhatha Pongham, Tom Burke Roteiro: Nicolas Winding Refn Produção: Lene Børglum Fotografia: Larry Smith Trilha Sonora: Cliff Martinez Duração: 90 min. Estúdio: A Grand Elephant / Film i Väst / FilmDistrict / Gaumont / Wild Bunch

Cotação 4 estrelas e meia

O lugar onde tudo termina (2013)

Por André Dick

O lugar onde tudo termina

Quando acompanhamos Ryan Gosling se dirigindo a uma tenda de circo, sendo parado por algumas crianças em meio a um cenário de parque de diversões, para entrar num globo da morte, temos a sensação de estarmos vendo um instante de Drive, em que ele interpretava o misterioso motorista – principalmente pela câmera acompanhar sua visão. Aos poucos, no entanto, com o mesmo olhar melancólico e seu drama pessoal, Gosling anuncia que O lugar onde tudo termina é um drama que trata da paternidade como Drive não chegou a tratar, apesar de elementos da trama também o levarem a isso. Ele se chama Luke Glanton, trabalha como mociclista e descobre que teve um filho, com um antigo caso, Romina (Eva Mendes, num momento especialmente bom), que mora na cidade de Schenectady, Nova Iorque, embora ela já esteja envolvida com Kofi (Mahershala Ali). Sem a permissão de Romina, Luke insiste em reatar a ligação e fica na cidade, onde, com seu talento como motociclista, faz amizade com o dono de uma oficina, Robin (Ben Mendelsohn), que o aponta como um talento – depois de se conhecerem numa corrida involuntária num bosque das redondezas da pequena cidade. Luke é um indivíduo perfeitamente enquadrado na filmografia de Derek Cianfrance, que já havia dado a Gosling o papel de Namorados para sempre, com Michelle Williams. Mas é ainda mais: Gosling, o melhor ator de sua geração, ainda que ultimamente criticado por repetir papéis (e Caça aos gângsteres contribuiu para isso), consegue traduzir a tragédia desse personagem às voltas com a tentativa de, afinal, exercer a função de pai da família, mesmo que todas as coisas pareçam dizer o contrário. Para isso, está sempre na lanchonete de Romina tentando oferecer ajuda para o filho.

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Esta obra de Cianfrance não seria apenas interessante se assistida sem as informações que levam a desvendar suas surpresas, mas porque o drama de Luke é uma espécie de diálogo aberto com o drama do policial Avery Cross (Bradley Cooper), que acabou de ser pai e passa por um momento delicado no departamento de polícia da cidade, onde se vê às voltas com amizades não muito confiáveis (uma delas, Deluca, interpretada por Ray Liotta, especializando-se neste papel de ameaça), sob o olhar do promotor (Bruce Greenwood, sempre uma presença marcante) e do pai, Al (Harris Yulin), que trabalha como juiz e a quem recorre para decidir o que pretende fazer.
A maneira como Avery tem a desconfiança de sua mulher, Jennifer (Rose Byrne) corresponde àquela que Luke tem da mãe de seu filho. Mas os papéis dialogam porque o conflito é o mesmo, e Cianfrance consegue apresentá-lo com sutilezas de um diretor que vem se especializando em narrativas com personagens a princípio rotineiros, mas cujas implicações existenciais se tornam próximas de um gênero grandioso. Esses são personagens que vivem na mesma cidade, em situações diferentes, de criações diferentes, mas que se deparam, em algum momento, com o que pode transformar suas vidas. Suas decisões põem em risco não apenas a si mesmos, mas também suas famílias, e o dinheiro passa a significar não apenas uma sobrevivência, mas um sinal de que algo pode estar se complicando e às vezes é preciso dar o recuo necessário, para que não se chegue ao limite. E, em alguns momentos, eles se fecham e acrescentam uns aos outros sem que se perceba o movimento que foi feito para que isso aconteça.

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O lugar onde tudo termina, a partir de determinado momento, passa a tratar de questões que dizem respeito não apenas a seus personagens, como a todo um contexto de poder e castas mantendo sua posição, e isso não tem exatamente um traço que conduz à lição de moral, mas serve como uma observação do estado de coisas que envolve os personagens e uma permanência de questões ligadas à infância. Essas questões se ligam à paternidade, e envolvem dois jovens, AJ (Emory Cohen) e Jason (Dane DeHaan), que acabam se conhecendo na escola e logo ficam próximos, por meio do uso de drogas e, se participam da sequência menos surpreendente do filme, não deixem de explorar o potencial da narrativa e não tornam a duração (140 minutos) excessiva.
O roteiro, assinado por Cianfrance em parceria com Ben Coccio e Darius Marder, introduz algumas reviravoltas, mas é exatamente a direção, em combinação com a fotografia impecável de Sean Bobbitt, que coloca O lugar onde tudo termina como uma das produções mais sensíveis que o cinema norte-americano produziu recentemente. Nele, o cenário da cidade tem um papel fundamental. Cercada de bosques, com estradas que parecem se perder, sobretudo depois de algumas cenas de ação, ela guarda uma espécie de tranquilidade nervosa, por meio de seus personagens, e os neons das lanchonetes se misturam a uma trilha dos anos 80, sem fazer com que se volte a esta época. Há um incômodo nessa paisagem tranquila que parece chegar aos personagens, e tanto Luke quanto Romina tentando reatar o relacionamento ao mesmo tempo vivem nesse lugar sem poderem se distanciar, assim como parece provocar um tédio no grupo que tenta dominar o departamento de polícia. É também neste cenário que os pais tentarão dar uma dedicação a seus filhos, longe dos problemas que puderem existir, mas onde exatamente se confundirá o papel de cada um.
Cianfrance deposita sua principal expectativa na ligação interna entre esses personagens, fazendo com que o espectador veja o personagem de Gosling em cada um deles, mesmo quando não está presente em cena. Mas isso não diminui o impacto da atuação de todo o elenco, sem exceção, e Bradley Cooper se mostra aqui ainda mais adequado do que na sua jogada psiquiátrica de O lado bom da vida, além da dupla de jovens, Emory Cohen e Dane DeHaan, mostrar uma atuação irretocável. Mendes e Byrne, como as mulheres desamparadas neste universo em que os homens tentam dominar todas as funções, conseguem, cada uma, apresentar uma insegurança sensível, e apenas se lamenta que Byrne e Mendelsohn não apareçam tanto. Mas em O lugar onde tudo termina – e isso é difícil no cinema contemporâneo – os atores não tentam chamar atenção para sua presença. Quando os personagens crescem, é sempre em função da história e dos elementos que podem fazer para que ele se torne, mesmo com algumas repetições, num filme de absoluta beleza.

The place beyond the pines, EUA, 2013 Diretor: Derek Cianfrance Roteiro: Ben Coccio, Darius Marder, Derek Cianfrance Elenco: Ryan Gosling, Bradley Cooper, Bruce Greenwood, Eva Mendes, Ben Mendelsohn, Rose Byrne, Ray Liotta, Emory Cohen, Dane DeHaan Produção: Alex Orlovsky, Jamie Patricof, Lynette Howell, Sidney Kimmel Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Mike Patton Duração: 140 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Electric City Entertainment / Hunting Lane Films / Pines Productions / Sidney Kimmel Entertainment / Silverwood Films / Verisimilitude

Cotação 4 estrelas e meia

 

Amor a toda prova (2011)

Por André Dick

Amor a toda prova

É muito raro, no cinema recente, existirem comédias românticas que não sejam apenas passatempo, em que o espectador se sente envolvido com os personagens e com a narrativa. Por isso, Amor a toda prova é uma alternativa bastante interessante, sobretudo em razão do elenco (Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Kevin Bacon, Marisa Tomei…), que torna sua história menos previsível e mais próxima da humanidade, com a colaboração decisiva do trabalho de fotografia de Andrew Dunn (As vantagens de ser invisível), contrastando lugares claros e escuros, como a situação de cada personagem. Cal Weaver (Carell) e Emily (Moore) são casados, mas, logo no início, ela lhe pede o divórcio, pois o teria traído com um companheiro da empresa, David Lindhagen (Bacon). Desolado, ele leva a babá de seus filhos, Jessica (Analeigh Tipton), para casa. Ela gosta dele, sem saber que na família Weaver já há quem goste dela, Robbie (Jonah Bobo), um dos filhos. Cal vai para um bar tentar esquecer o que aconteceu.
Já neste momento, percebemos que o filme tem um elemento dramático, ou seja, ele não deseja mostrar relacionamentos da maneira mais debochada, como em O virgem de 40 anos (com o próprio Carell) ou Missão madrinha de casamento (que, de qualquer modo, insere sensibilidade em meio às piadas). Tudo direciona Amor a toda prova para um meio-termo entre gêneros. Em seguida, ao conhecer um rapaz, Jacob (Gosling), no bar, que pretende transformá-lo novamente em alguém capaz de conquistar as mulheres, há um momento de Hitch (com Will Smith), entretanto o filme não se mantém nessa linha, o que faria com que se perdesse. Gosling não tem uma tendência para o humor mais óbvio; é mais discreto, e seu personagem acaba oscilando entre a necessidade de companhia incessante e a solidão de sua grande mansão. Carell segue o mesmo caminho; é um ator de comédia que possui talento quando precisa se envolver numa situação dramática, como Jim Carrey de O show de Truman e O mundo de Andy (não parece por acaso que ambos fizeram a franquia Todo poderoso). Nesse sentido, apesar de ser uma situação estranha, nem Gosling nem Carell a transformam em algo previsível ou banal. Eles podem ter até um material não tão bom às mãos, e ainda assim conseguem jogar com as cenas.

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O filme prefere se concentrar mais na dificuldade de amor entre idades diferentes, como aquele do menino Robbie pela babá. Enquanto isso, ela pede conselhos a uma colega mais experiente de como sair com homens mais velhos. Já Cal está perdido num universo no qual não se sente mais à vontade: da conquista. E, mesmo assim, ele se envolve com Kate (Marisa Tomei), durante uma noite, o que mais adiante resultará em uma surpresa. É interessante que o filme mostre a ex-mulher de Cal como uma pessoa ainda insegura, diante de um possível compromisso com o colega de trabalho. Julianne Moore é uma atriz que mostra, como poucas, a vulnerabilidade. Sabemos, ao olhar seus gestos, que ela está sofrendo com determinada circunstância, nunca deixando seus personagens caírem no lugar-comum (a cena em que ela liga para Cal, inventando que precisa de ajuda, enquanto ele está no pátio e consegue vê-la pela janela, é muito bem interpretada).
Ainda assim, a interpretação de Jonah Bobo é a melhor do elenco, pois ele justapõe essa ligação entre gerações – o momento em que tenta se declarar para a babá no colégio é um dos melhores – e coloca em dúvida a ideia de que um adulto entenderia melhor uma questão amorosa por ser mais velho. Trata-se, claro, de um elemento clichê, que os diretores Glenn Ficarra e John Requa conseguem traduzir em humanidade. Da mesma maneira, quando mostra a jovem Hannah (Emma Stone), que sonha em ser pedida em casamento pelo namorado e reluta em se envolver com Jacob, e quando os dois vão para casa dele se brinca com Dirty Dancing, dos anos 80, mostrando uma ingenuidade da conquista.
Neste sentido, Amor a toda prova mostra a dificuldade de se fugir à rotina – Cal volta às noites para casa, sem que a família veja, para poder molhar a grama –, de uma maneira bastante sensível, sem nunca colocar os personagens em descrédito. É evidente que, como em outras comédias românticas, em alguns pontos o filme não consegue sair da previsibilidade (o desfecho talvez seja ligeiro demais), mas, ao mesmo tempo, o espectador não se sente assistindo a apenas uma história em que homens e mulheres tentam se entender – ele consegue transformar a loucura e a estupidez do amor do título original em um encontro para a compreensão entre gerações.

Crazy, stupid, love, EUA, 2011 Diretor: Glenn Ficarra, John Requa Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Steve Carell, Kevin Bacon, Julianne Moore, Marisa Tomei, Jonah Bobo, John Carroll Lynch, Josh Groban Produção: Steve Carell, Denise Di Novi Roteiro: Dan Fogelman Fotografia: Andrew Dunn Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Carousel Productions

Cotação 4 estrelas