O iluminado (1980)

Por André Dick

O iluminado.Kubrick

Baseado em romance de Stephen King, que não teria gostado do filme, este terror de Kubrick está entre os melhores filmes de todos os tempos. O diretor vinha de um filme que obteve certo respeito por parte da crítica, embora não sucesso de público (Barry Lindon), e pretendia assustar o espectador não apenas com a história, como também com os seus movimentos de câmera, utilizando o visual cultivado sobretudo em 2001 e Laranja mecânica: uma espécie de passadismo futurista, cujos neons e luzes compõem a história tanto quanto o roteiro. Kubrick, além de grande cineasta, é um criador visual, um designer, que coloca seus personagens sempre numa engrenagem na qual possa produzir mais claramente suas ideias – mesmo que elas não se expliquem sozinhas ou sejam enigmáticas (daqui em diante, spoilers).
O iluminado já inicia de forma impactante, ao som de uma adaptação feita por Wendy Carlos de “Dies Irae”, tema do quinto movimento da Symphonie Fantastique, de Hector Berlioz, com uma câmera aérea sobre montanhas, que se aproxima do carro de Jack Torrance (Nicholson) e depois de afasta sobre um abismo, mostrando o voo da própria mente, a ser tratado pelo filme. Torrance (Nicholson) está indo fazer uma entrevista com o gerente do hotel Overlook, Stuart Ullmann (Barry Nelson). Ele avisa o futuro zelador de que aconteceu uma tragédia no local: um zelador, Grady, teria matado toda a sua família, inclusive suas duas filhas, com um machado, em razão do que ele chama de uma “febre de cabana”, quando o indivíduo se sente claustrofóbico num lugar fechado e afastado. Torrance avisa que não acontecerá o mesmo com ele, pois ocupará seu tempo para escrever seu livro, e de que sua mulher, Wendy, adora histórias de terror e fantasmas. Ao mesmo tempo, Kubrick mostra, em sua casa, o seu filho, Danny (Lloyd) e sua mulher, Wendy (Shelley Duvall) comendo sanduíche, e, em seguida, o menino conversando com o amigo imaginário, Tony, por meio de seu dedo, que o alerta sobre o hotel.
Em seguida, sem o espectador saber se Jack contou sobre a trágica história à sua mulher – entendemos o contrário, pois, pelo comportamento dela, dificilmente aceitaria ir para o hotel sabendo do que aconteceu nele –, já estão em direção ao Overlook. A conversa é sobre um grupo que teria ficado perto daquelas montanhas e, numa determinada condição, havia sido obrigado a praticar canibalismo. Wendy, chamando a atenção para o fato de Jack comentar sobre isso perto do filho pequeno, ouve este dizer: “Sei tudo sobre canibalismo. Eu vi na TV”, uma ponta, que Kubrick tentará costurar mais adiante.

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Chegando ao hotel, eles devem conhecer o cozinheiro, Dick Halloran (Scatman Crothers), que mostra os depósitos de comida e logo descobre que Danny é paranormal, como ele, um “iluminado”, conforme dizia sua avó, e imita o Pernalonga, figura associada ao menino. Ao mesmo tempo, o gerente mostra o Overlook ao casal Torrance – é quando Kubrick vai revelando, pouco a pouco, a imponência do lugar e o fato de ele transformar qualquer pedido de socorro em um pedido desnecessário. Isso faz pensar sobre o fato de que Kubrick exibiu o filme Eraserhead, de David Lynch, para a equipe de produção, querendo a mesma atmosfera daquele. E isso vemos no hotel Overlook: cada passagem e corredor, por mais tranquilizante, não renega o fato de que ele parece estar afastado da realidade – como o quarto do personagem de Eraserhead. Contempla-se o Overlook no alto, e as outras definições dessa palavra (omissão, exame, supervisionar, omitir, não tomar conhecimento e dirigir mau-olhado sobre) definem a persona e o encargo de Jack Torrance no hotel.
Ao mostrar as pessoas deixando o hotel, as malas sendo levadas embora, ao mesmo tempo em que o trio familiar chega a ele, vai criando um clima de tensão, explicitado logo quando Kubrick passa para os próximos capítulos – o filme é divido em partes demarcadas, e cada uma delas tem a sua própria narrativa, que vai se interligando com as demais.
Com a chegada do inverno rigoroso – as estradas sendo fechadas e o hotel ficando afastado de qualquer contato com a civilização – e a reclusão completa, Torrance começa a perder o controle, o que parece ter conexão com a família assassinada no local, anos antes. Mas tem ligação, ainda mais – e isso indica talvez a análise mais brilhante sobre o filme, de Bill Blakemore –, com o fato de o hotel ter sido construído sobre um cemitério indígena.
Quando o gerente do hotel, Stuart, diz a Jack, na entrevista inicial, que quase não acredita que o zelador matou sua família, não lembra, como mais adiante, este fato ligado ao passado de chacina dos índios. É impressionante, nesse sentido, ver que o hotel tem por seus corredores uma belíssima tapeçaria indígena. Na versão mais completa do filme (a versão norte-americana tem 144 minutos; a brasileira, 120 minutos), há uma conversa mais estendida sobre essa tapeçaria, do gerente com Wendy, interessada pelo lugar. Mesmo os tapetes em que Danny anda com seu triciclo – também com as cores da bandeira dos Estados Unidos, e que proporcionam a Kubrick travellings antológicos, quando o espectador acompanha o menino por corredores, temendo pelo que pode haver a cada curva e a cada porta pela qual ele passa – são repletos de desenhos indígenas.

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Isso leva a algo não percebido nesta análise excelente (e que se mistura a outras já feitas, como as do excelente documentário sobre o filme, Room 237): uma imagem da sequência na qual o garoto está utilizando um blusão remetendo à Apollo 11, como se fosse a supremacia do homem branco, da chegada à lua (mais do que uma mensagem subliminar de que Kubrick teria filmado esse acontecimento). Porque Danny, na verdade, como o iluminado do título, representa os Estados Unidos e a consciência/inconsciência de tais fatos na história, a renovação desta cultura, independente, aqui, do fato de ser positiva ou negativa, mas que Kubrick apresenta com persuasão.
Já no início, quando vemos Wendy conversando com seu dedo, ambos estão com um figurino que remete à bandeira dos Estados Unidos: vermelho e branco, sendo que a camisa de Danny tem estrelas e a imagem icônica do Pernalonga.
Numa das sequências cortadas na versão brasileira e europeia, mostra-se a visita de uma médica a Danny. Vejamos a imagem do seu quarto, e outra imagem de desenho animado, do Pateta, à esquerda, com as mesmas cores da roupa de sua mãe. É como se a família de Danny representasse os moldes da família norte-americana, de sua apreciação desse universo infantil, ligado aos desenhos animados (em outro momento, vemos pelas paredes imagens de Snoopy; num outro figurino, Danny usa um blusão com a figura do Mickey Mouse), ignorando, em igual medida, toda a história que a antecede. Uma história que se repete diante da televisão – e na versão completa, norte-americana, também no hotel havia mais presença dela, num contraponto com a solidão do lugar.

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A chacina contra os índios é ainda mencionada indiretamente em duas imagens icônicas de O iluminado. Quando o cozinheiro está mostrando a sala de mantimentos e olha para Danny, estabelecendo uma ligação paranormal com ele, vemos a seu fundo uma lata de Calumet (que significa “cachimbo da paz”), que trazia fermento e cuja imagem era a de um índio com cocar. Em outra cena, quando Jack é colocado dentro dessa sala e está revoltado, batendo a cabeça contra a porta, vemos a seu fundo novamente várias latas emparelhadas de Calumet – como se a presença da chacina dos índios estivesse presente na violência desse homem que se refugia com a família para escrever um livro. E tem relação com o 4 de julho, data-chave de O iluminado, e que simboliza toda essa referência a cores da bandeira norte-americana e acontecimentos do país.
Obviamente, Kubrick espalha esses elementos sabendo simetricamente do que pretende mostrar em O iluminado e que a análise de Bill Blakemore mostra tão bem: a chacina do homem branco contra os índios e como essa violência continua se reproduzindo, século depois de século. Nesse sentido, não se trata de analisar O iluminado como, mais do que um suspense ou terror, um filme com ampla visão histórica, mas sim de como Kubrick é artista mesmo mostrando uma história a princípio simples, sobre pessoas que começam a sofrer manifestações estranhas quando convivem sozinhas, apartadas do mundo, num hotel, e como elas podem intensificar seus problemas. Nesse sentido, ele abandona o livro de Stephen King, muito mais centrado na fantasia e no terror, e transforma sua obra num épico de uma família a ponto de se desmantelar diante de problemas não resolvidos e que vêm à tona de modo irrecuperável. Kubrick utiliza, para mostrar essa ascendência do homem sobre a mulher e a criança, um labirinto existente no Overlook.
Em determinado momento, Jack observa a maquete deste labirinto e, quando vemos a câmera se aproximar, vamos acompanhando Danny e Wendy dentro do labirinto. Este remete à estrada que leva ao Overlook – filmada em detalhes e com requinte por Kubrick, como se traduzisse a capacidade de a mente se deslocar ou ficar aprisionada. Mãe e filho caminham descompromissadamente, mas de certa maneira, a cada curva que fazem, algo parece aguardá-los. A inocência da diversão é corrompida por esse olhar de Jack sobre o labirinto, de forma a mostrar sua tentativa de dominação sobre o restante da família. Assim como muitas imagens são labirínticas – a estrada para o Overlook, o labirinto no jardim deste –, as palavras, em O iluminado, são circulares: elas vão e voltam na boca dos mesmos personagens, seja pela antevisão de pensamentos, seja pelo grito mudo diante da imagem do sangue jorrando de um elevador. Wendy e o filho ficam juntos como as meninas que ele passa a ver pelos corredores, mortas pelo zelador, e Kubrick vai selecionado tais fragmentos para fazer com que o espectador espere por uma determinada situação, embora ela só apareça mais ao final.

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Ao longo do filme, o garoto passa a ter outras visões estranhas (o sangue que jorra do elevador, cuja moldura é de inspiração indígena, como observa o artigo de Blakemore) e é o primeiro a perceber que seu pai está ficando louco. Shelley Duvall, como Wendy, tem uma atuação excelente; como afirma Pauline Kael, da metade para o final, ela cresce e seu rosto lembra uma tela de Modigliani, sobretudo pelo desespero. Fala-se dos desentendimentos que ela teve com Kubrick durante as filmagens, da pressão de fazer sempre um personagem angustiado, enquanto Nicholson fazia o descontrolado, durante meses. No DVD em homenagem a Kubrick, o cineasta repreende a atriz por ela não conseguir abrir uma porta depressa, o que estaria atrasando a filmagem. Levando em conta que O iluminado foi rodado em mais de um ano, leva-se à consideração de Jack Nicholson: de que Kubrick era ótimo com ele, e o contrário com Shelley Duvall. Isso parece ter acrescentado a ela uma segunda pele de atuação – ela é o oposto, ao contrário de Jack, do que vemos no início do filme, sobretudo na cena em que acompanha o cozinheiro pelos corredores do hotel, de mãos dadas com o filho. A atuação do menino Danny Lloyd, que depois não apareceu mais em filmes e surpreendentemente é bastante criticado, também é excelente, sobretudo porque ele mantém um certo distanciamento do contexto, necessário para criar a surpresa, pois Kubrick, desde o início, já antecipa passo a passo o que pode acontecer, algo certamente proposital, para que possa criar, depois, desvios inesperados.
Mas é Jack Nicholson quem dá o sentido mais exato do isolamento do hotel. O ator havia recebido um Oscar de melhor ator em 1975 por Um estranho no ninho, foi criticado por Stephen King e exagera, como quando faria Coringa em Batman, mas consegue suprir as lacunas do roteiro, adequadas ao contexto, com sua presença cênica. No início, com as sobrancelhas arqueadas, já não o consideramos normal, mas é justamente uma certa displicência na atuação, que alterna depois para uma fuga da realidade mais concentrada, que torna sua atuação primorosa. A sequência na qual ele se refugia no salão de festas, o Gold Room – onde, na verdade, não há bebidas – e é atendido por um barman do passado, Lloyd (Joe Turkel), é impressionante, pela maneira como o ator a conduz, quase sozinho. Em poucos momentos, ficamos sabendo mais detalhes do seu passado, que começam a explicar que seu comportamento não deveria surpreender, sobretudo Wendy. E como ele se sente na figura de patriarca, tendo de escolher os rumos de sua família. Já Lloyd indica que ele não precisa pagar pela bebida que está tomando, pois teria crédito naquele lugar. Mas qual seria o crédito? O Gold Room é um salão de festa para ricaços e personalidades, e Jack Torrance não está situado neste universo, sendo apenas mais um de seus desejos reproduzido.

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O comportamento de Jack é sempre ambíguo. Ele, na verdade, não quer compromissos, como, quando perguntado por Wendy se quer passear na parte externa do Overlook, junto com ela e o filho, responde que tem muito a fazer, e na cena seguinte vemos sua máquina de escrever abandonada em cima da mesa e ele jogando uma bolinha de tênis contra as paredes do hotel, bem ao lado da tapeçaria indígena. Numa outra, quando enfrenta Wendy, que segura um taco de beisebol (transformando a diversão predileta dos Estados Unidos numa defesa contra o horror), ainda mais notável. Quando sobe uma escadaria, a luz sobre o seu rosto vai ficando avermelhada, representando ser ele um símbolo do mal. Ele alega que assinou um contrato, tendo responsabilidade sobre tudo, mas que não é permitido seu crescimento na família. Na verdade, está indignado por não fazer parte do Gold Room. Para ele, a mulher quer que ele volte aos trabalhos antigos, os quais ela julga que ele é merecedor. Não se trata, durante o filme, de um homem em momento incapacitado para criar. Na verdade, Torrance deseja ser um escritor, por uma inaceitação de si mesmo, e não quer dizer que o seja. Ao lado de sua máquina, há um livro aberto com recortes de jornal. Ele buscaria uma inspiração real para sua escrita? É um álbum com imagens do Overlook, com recortes sobre acontecimentos passados ali? Há uma fuga em direção à infância e ao passado em Jack.
Ele não deseja, nesse sentido, ter a família que possui: o menino e a mulher representam entraves, e o hotel revela isso. Ele não deseja mais a mulher, mas imagina a bela mulher saindo da banheira no quarto 237; ele não ama mais o filho, mas gostaria de ficar no hotel para sempre com ele, ou seja, fazendo com que ele permaneça numa eterna infância, repetindo as mesmas palavras que as meninas dizem para Danny quando ele as encontra no corredor. Jack tem um interesse evidente por outras mulheres, o que se mostra em momentos diferentes do filme (quando chega, por exemplo, a seu quarto e vê duas funcionárias do hotel indo embora). E, para a mulher, não se vê reservar um sequer momento ao longo da metragem, a não ser quando recebe dela um café com bacon, principalmente quando ela lhe pergunta se o livro está sendo feito da maneira como ele gostaria. Mas Jack não tem interesse no que ela fala. Seus olhos estão voltados para um livro que inexiste e inexistirá. É a complexidade desse choque que torna sua presença num caminho tortuoso para qualquer pessoa.
Não parece à toa que, quando Jack persegue Wendy e o filho, que se escondem desesperados atrás da porta do banheiro, ele, com machado à mão, imite a fala do Lobo Mau atrás dos três porquinhos (a figura de animais, como ursos, é corrente ao longo do filme). Para Jack, atormentado pelo hotel e pela trajetória de sua vida, o melhor é se trancafiar numa espécie de infância eterna e doentia, para ele, capaz de aniquilar toda uma família. Trata-se de um homem comprometido e fechado em si mesmo (Overlook, nesse sentido, passa a ser uma expressão para representá-lo), preso em sua infância, incapaz de se deixar “iluminar” – embora não saibamos se os poderes de Danny, ao final, não sejam provindos da família – e que por isso parece ser condenado.

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O iluminado.Kubrick 14O personagem do cozinheiro, por sua vez, é emblemático, mostrando o que ocorre fora do hotel, onde os personagens estão circunscritos a um espaço pequeno, levando Kubrick a focá-los sempre de perto, mas ainda assim se afastando quando vemos o salão de festas e as escadarias. E também emblemático porque, assim como em relação aos índios, o filme quer indicar também um racismo em relação à sua presença – sobretudo pela conversa que Jack tem no banheiro. O ator Scatman Crothers dá um peso especial ao papel, embora apareça em poucas cenas, e Kubrick cria uma analogia entre o quarto de Danny (da versão norte-americana), repleto de personagens infantis, e o quarto de Halloran, com uma valorização da cultura negra (quadros de mulheres de cabelo black power acima da TV e atrás de sua cama). Pauline Kael disse que Kubrick estava interessado, aqui, em estereótipos, e não em personagens, mas me parece que Kubrick simboliza os espaços que filma, ao contrário de outros diretores, em que o cenário serve apenas para demarcar onde acontecem as cenas.
A decisiva relação paranormal entre o cozinheiro e o menino Danny leva Jack a se sentir, como pai, traído, como se o filho precisasse seguir seus passos. Halloran entende Danny porque tem os mesmos poderes que ele. No início, quando estão tomando sorvete juntos, e o cozinheiro pede a Danny não ir ao quarto 237, e afirma que certamente coisas ruins aconteceram no hotel, e tudo deixa um rastro, ele está tentando entender o menino. Este não conta aos pais sobre o seu poder; apenas Tony, o menino que fala por sua boca, sabe dos segredos que ele esconde. Trata-se de um segredo encerrado na infância, mas Halloran deseja aceitá-lo de maneira diferente, como seus pais não conseguem.
E Kubrick novamente estiliza seus cenários de modo que todos componham o que pretende. Se no início as imagens são mais concentradas nos tapetes e mobílias, a partir do momento em que Jack visita o salão de festas, temos uma profusão de luzes remetendo aos anos 20 e um banheiro futurista, para onde vai, a fim de um garçom, Delbert Grady (Phillip Stone), que derrubou bebida nele possa limpá-lo – banheiro cuja direção de arte se situa entre o vermelho e o branco, remetendo a Laranja mecânica, mas sobretudo a 2001. É um banheiro meticulosamente atemporal, e o vermelho representa uma conversa que conduzirá a uma das soluções da história. Nesta sequência, percebemos que em nenhum momento conseguimos visualizar o reflexo do garçom, ou seja, não sabemos se ele é fruto da imaginação de Jack ou um fantasma. Como vemos em outros momentos Jack refletido, sabemos que ele é um personagem de carne e osso (embora o desfecho da primeira versão de O iluminado indique o contrário). De modo que os cenários do filme podem ser tanto do hotel quanto uma representação imaginária de Jack Torrance, assim como para Danny.
Na verdade, deve-se definir como uma obra que, por meio do suspense, calculado, consegue aterrorizar, com um clima de tensão e expectativa, do início a fim, com uma fotografia (de John Alcott) e direção de arte (de Leslie Tomkins) notáveis.
Diante do que vemos em O iluminado, é interessante tentar entender o motivo de o filme não ter sido inicialmente sucesso de crítica, apesar de ter tido uma boa bilheteria. Sobretudo porque se trata de um filme que consegue, por meio de elementos definidos e sintéticos, tratar não apenas de um núcleo de personagens, mas de parte da história norte-americana. Em seu ano, tivemos O portal do paraíso, de Michael Cimino, sobre a perseguição a uma comunidade de imigrantes eslavos, mostrando outro pedaço da história norte-americana que costuma ser esquecido. Talvez não tenha sido um ano interessante para essa temática mais contundente e reflexiva. E porque não se esperava que Kubrick, por meio de um gênero considerado “menor”, fosse capaz de, através de cenários, mostrar um comportamento humano que destoa e perturba como mostrou. Quando Kubrick consegue entrelaçar cada fragmento mostrando uma obra de unidade, que poderia parecer dispersiva, sabemos estar diante de uma filme raro. Nesse sentido, o cuidado estético que apresenta em relação aos cenários, à trilha sonora e ao seu elenco, compondo, de forma rara, um panorama da culpa humana histórica dentro de um hotel semiabandonado durante o inverno, torna O iluminado uma obra-prima. Pois é inevitável pensar que a corrida de Jack atrás da possibilidade de apagar de vez toda a sua vida e infância mostra que a obra de Kubrick é sempre um encontro com a odisseia inicial – aquele do outro filme – e o ser humano, alguém capaz de se deparar e de se entender, sempre, a cada momento, com seu passado e seu futuro.

The shining, EUA/ING, 1980 Diretor: Stanley Kubrick Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Barry Nelson, Joe Turkel, Philip Stone Roteiro: Diane Johnson e Stanley Kubrick Fotografia: John Alcott Trilha Sonora: Wendy Carlos, Rachel Elkind Produção: Robert Fryer Duração: 120 min. (Brasil); 144 min. (EUA) Estúdio: The Producer Circle Company, Peregrine Productions, Hawk Films Distribuidora: Warner Bros.

O rei da comédia (1983)

Por André Dick

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A parceria entre Martin Scorsese e Robert De Niro rendeu alguns dos melhores filmes que ambos já fizeram: embora Touro indomável seja ainda o mais respeitado e elogiado, e Taxi Driver tenha o status mais forte de cult, não se pode menosprezar a importância de Os bons companheiros e Cabo do medo, e um pouco menos Cassino. Há também aquelas parcerias mais desconhecidas (New York, New York). No entanto, pode-se dizer que a mais subestimada é justamente aquela que apresenta o melhor momento dos dois em toda a sua trajetória: O rei da comédia é uma obra-prima quase esquecida em meio a todo esse punhado de grandes filmes. É curioso que, depois dele. Scorsese ficou alguns anos atrás de financiamento para seus projetos seguintes em razão do seu fracasso nas bilheterias. Mais ainda é imaginar que Scorsese ganhou o Oscar tão perseguido em sua carreira com o bem menos interessante Os infiltrados, da fase cansativa com DiCaprio (com a exceção de Gangues de Nova York).
Possivelmente também, em nenhum outro filme Scorsese conseguiu utilizar o nervosismo de uma trama com a humanidade correspondente do personagem principal, Rupert Pupkin (De Niro), um aspirante a estrela de comédia, que determinado dia consegue entrar no carro de Jerry Langford (Jerry Lewis), um famoso apresentador de TV, para tentar convencê-lo a lhe dar uma chance. Langford lhe promete um encontro, como uma espécie de despiste, enquanto Pupkin imagina que realmente ele conseguirá um espaço em seu programa. Interessado por Rita (Diahnne Abbott), que trabalha num bar, ele imagina a sua vida transformada com o acontecimento de se apresentar na TV. Pupkin passa a procurar Langford, em seu escritório, todos os dias, a fim de tentar revelar o seu trabalho. Primeiro, tenta encontrá-lo como uma extensão do primeiro encontro; depois, quando pedem que prepare uma fita com sua apresentação, tenta se mostrar feliz.

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A sala de recepção do programa é um primor visual, com um ambiente asséptico e um tanto futurista, áspero em se tratando de um ambiente onde trabalha um comediante, com a atendente por trás de um vidro que parece mais uma cabine de espaçonave, escondendo uma sucessão de escritórios organizados o suficiente para manter um programa que pode trazer, inclusive, bom humor. Pupkin é insistente. Volta ao lugar todos os dias e tenta se livrar da parceria com Marsha (Sandra Bernhard), que também se mostra excessivamente presa à figura de Langford. Uma assistente de produção, Cathy (muito bem interpretada por Shelley Hack) tenta se livrar da sua presença. Na verdade, ele quer mostrar o quanto consegue, por meio de suas piadas, relatar a sua história e seu cotidiano. No entanto, o seu cotidiano também se mistura com a fantasia, e se destaca aquela cena em que ele contracena com os cartazes de Langford e Liza Minnelli.
O rei da comédia é um filme de roteiro e montagem, da parceira habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, sempre se mostrando eficiente nos cortes de cena e no crescente. Não apenas em razão do personagem de Pupkin, mas também em razão de Langford, a trama não se mostra aberta a um stand-up, com piadas. No entanto, há uma ironia cáustica em cada comportamento de Pupkin, e, depois de um início em que Scorsese tenta equilibrar esse humor negro com um lado mais cômico (sem se perder como em comédias de humor negro em que o personagem central persegue alguém, e lembro especificamente daquele The cable guy, com Jim Carrey), ele vai, aos poucos, colocando na superfície do filme uma segunda camada de existência e tragédia. Embora Scorsese tenha um especial talento para desenvolver personagens com problemas psicológicos – e De Niro encarnou vários nesses filmes que fez em parceria com o diretor –, talvez ele nunca tenha conseguido, como aqui, desenvolver poucos personagens em poucas situações de maneira tão convincente.

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Isso se deve ao trio principal, De Niro, Lewis e Bernhard. Especialmente De Niro consegue uma atuação que deixa mesmo o seu Jake La Motta, de Touro indomável, em segundo plano, com uma dosagem equilibrada entre a comédia e a excentricidade do personagem, compondo um Pupkin antológico, com seu figurino colorido (sobretudo a cor dos sapatos e da gravata contrastando com o terno); a ele dá respaldo o mau humor do cotidiano de Pupkin diante da situação inusitada de ser perseguido. Durante boa parte do filme, não vemos Langford, já que ele tenta escapar do fã, porém isso só desenha ainda mais o distanciamento desejado por Scorsese entre o universo televisivo e sua contrapartida do lado do espectador. Por sua vez, Bernhard é um misto entre espanto, obsessão e oportunismo, e pertence a ele a sequência, mais ao final, mais inusitada, embora eu prefira ainda o clímax.
Scorsese consegue fazer com que Pupkin seja uma espécie de contador de histórias impulsivo, como é o próprio diretor, entretanto isso em nenhum momento faz com que o espectador se afaste de sua condição, por repulsa ou algo parecido. Se no início há um sentimento de paranoia no ar – e a paranoia é o elemento-chave de Travis Bickle, de Taxi Driver, sendo De Niro apto para dar este movimento –, com elementos que remetem mesmo a Psicose, no seu restante O rei da comédia vai colhendo algumas características de um drama agridoce, contido em seu olhar, mas ainda assim original ao extremo no tratamento que dá ao show business e à visão que se tem da comédia. Claramente, estamos diante de um personagem que vive isolado e se alimenta da imagem de pessoas que riem congeladas no corredor de sua mente. Langford, com sua mesa vazia e o telefone inconveniente tocando, não deixa de ser seu mais claro contraponto. É de se imaginar por que esse roteiro de Paul D. Zimmerman atraiu tanto Scorsese, e pode-se imaginar que foi justamente na fase do diretor em que as dificuldades não foram atenuadas por Touro indomável, e tentar sorrir em cima das dificuldades ainda era um caminho, numa época em que ainda estava tentando se situar num mercado em que seus companheiros Spielberg e George Lucas praticamente lideravam. Para Pupkin, como para Scorsese, o sucesso não é mais do que um prato que se come frio.

The king of comedy, EUA, 1983 Direção: Martin Scorsese Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard, Shelley Hack, Bill Minkin, Cathy Scorsese, Ed Herlihy, Tony Randall Roteiro: Martin Scorsese, Paul D. Zimmerman  Fotografia: Fred Schuler Trilha Sonora: Robbie Robertson Produção: Arnon Milchan Duração: 101 min. Estúdio: Embassy Pictures / Twentieth Century Fox Film Corporation

Mestres do universo (1987)

Por André Dick

No final dos anos 80 ainda não eram comuns os live actions ou adaptações de quadrinhos ou animações para o cinema. Por isso, Mestres do universo, que trazia a versão em carne e osso de He-Man e Esqueleto, brinquedos da Mattel, entre outros, do Planeta Eternia, tão populares no imaginário infantojuvenil da época, parecia um feito, independente dos seus valores de produção (grandiosos 20 milhões de dólares). Apesar de seu resultado falho na bilheteria, tratava-se de um acontecimento no início da era das videolocadoras.
Em 1985, o desenho já havia ganhado uma versão para o cinema chamada O segredo da espada mágica, mas com a entrada da Cannon Films no mercado da fantasia, parecia se abrir um novo eixo para o gênero. Conhecido por interpretar Ivan Drago em Rocky IV, Dolph Lundgren foi escolhido para o papel central, investindo contra o vilão Esqueleto (Frank Langella), além de Demoníaca (Meg Foster). Ele tem a parceria de Man-At-Arms (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field) para tentar libertar a Feiticeira de Grayskull (Christina Pickles), aprisionada por Esqueleto para tentar acabar com os poderes do Castelo de Grayskull.

He-Man e seus amigos tentam buscar uma determinada chave cósmica, um objeto que pode transportá-lo para qualquer lugar e está nas mãos de Gwildor (Billy Barty). Porém, acontece um acidente e os senhores do universo acabam parando na Terra, numa pequena cidade de New Jersey, onde são ajudados por dois jovens. No entanto, o império de Esqueleto os localiza e coloca naves espaciais em direção ao planeta. É a Guerra Fria, em suma.
A Cannon Films, nos anos 80, por meio de Menahem Golan e Yoram Globus, tentaram reproduzir o universo de fantasia de Spielberg/Lucas com versões próprias, e eles foram responsáveis pelo desastroso Superman IV: Mestres do universo é, em toda a sua tentativa de produção, ser uma espécie de Star Wars, e inclusive a trilha sonora de Bill Conti tenta lembrar disso a todo instante. Mas não só: enquanto tem elementos de Superman III, com os personagens de Julie Winston (Courteney Cox) e seu namorado Kevin Corrigan (Robert Duncan McNeill) , que ajudam o grupo de He-Man, num baile de escola, ele tem muito de De volta para o futuro, inclusive com a presença de James Tolkan, como o detetive Hugh Lubic, que era diretor da escola no filme de Zemeckis.

Ao mesmo tempo, há elementos de Gremlins, na composição da pequena cidade onde os problemas de Greyskull vão terminar, enquanto a sala do trono de Esqueleto remete tanto a Star Wars quanto a Flash Gordon e Gwildor seja uma lembrança direta dos hobbits, à época apenas na literatura e em animações. O grupo de vilões que Esqueleto coloca para caçar He-Man também lembra a trupe comandada por Vader em O império contra-ataca em caçada a Han Solo. Também há elementos de outras fantasias dos anos 80, como Krull, O cristal encantado e A lenda. Particularmente, Eternia, aqui, remete a O cristal encantado, e não por acaso David Odell escreveu ambas as narrativas. Talvez seja um filme menos respeitado mais por causa de seu material de origem, não visto como respeitoso, do que como obra cinematográfica, em que de fato tem méritos não justificadamente apreciados. O primeiro motivo é, claro, Lundgren: sua atuação é de madeira o filme todo, nunca conseguindo entregar o personagem das animações.. Era uma época em que Schwarzenegger, Chuck Norris e Van Damme se lançavam como astros, no entanto faltava a Lundgren um mínimo de carisma e boa atuação (e ele viria a mostrar bom desempenho depois, em Creed II, por exemplo). O outro é, sem dúvida, o design de produção, que, mesmo curioso, não possui profundidade e grandiosidade necessários para os embates mostrados. No entanto, Langella tem uma atuação de destaque como Esqueleto e Billy Barty faz Gwildor de maneira empática. E há uma jovem Courteney Cox antes de Friends e Pânico, repisando alguma obra juvenil de John Hughes.

Sob determinado ponto de vista, Mestres do universo é um dos filmes que melhor representam os anos 80 na maneira com que lidava com a fantasia, nunca pendendo para uma excessiva pretensão, mas utilizando suas motivações de maneira clara. Sua carga de neons e fumaça remetem a um período no qual o cinema ainda estava distante de CGI e de franquias sem fim, anunciadas a cada semestre como se fossem uma mudança de rota para o cinema. Mesmo a proximidade de Kevin do mundo da música, ligando-o à chave cósmica, é uma pista para os anos 80. E a montagem de Anne V. Coates, que fez trabalhos tão diversos como Lawrence da Arábia, O homem elefante, Greystoke, Chaplin e Erin Brokovich, nunca deixa o ritmo cair ou soar demasiadamente em lacunas, imprimindo na trama uma agilidade particular. Nesse sentido, trata-se de um filme que busca os elos da fantasia de maneira exemplar e não sobrevive apenas de sua nostalgia.

Masters of the universe, EUA, 1987 Diretor: Gary Goddard Elenco: Dolph Lundgren, Frank Langella, Courteney Cox, James Tolkan, Christina Pickles, Meg Foster, Peter Brooks Roteiro: David Odell Fotografia: Hanania Baer Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Yoram Globus, Menahem Golan, Edward R. Pressman Duração: 106 min. Estúdio: Golan-Globus Distribuidora: Cannon Films

Cobra Kai II (2019)

Por André Dick

No ano passado, o YouTube lançou Cobra Kai, dando continuidade à série Karatê Kid, dos anos 80, ampliando um universo que conecta Ocidente e Oriente. Tudo teve início em Karatê Kid – A hora da verdade, de John G. Avildsen, que ganhou um Oscar surpreendente por Rocky – Um lutador. Como o filme de Stallone dos anos 70, a obra de 1984 tinha uma mensagem válida, cenas de luta interessantes e personagens acessíveis, assim como os dois episódios seguintes e ainda um quarto, com Hilary Swank.
O protagonista era o jovem Daniel LaRusso (Ralph Macchio, bom ator) , que chegava a Reseda, bairro de Los Angeles, vindos de Newark, New Jersey, e passava a ser perseguido por Johnny Lawrence (William Zabka), isso porque se envolvia com a ex-namorada desse, Ali Mills (Elizabeth Shue). LaRusso era ajudado pelo Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), um zelador do seu condomínio, depois que começava a sofrer violência. Na primeira temporada de Cobra Kai, Johnny reerguia o dojo Cobra Kai, do sensei John Creese (Martin Kove), enquanto Daniel se mostrava um competente vendedor de carros, ao lado da esposa Amanda (Courtney Henggeler). Nesta segunda, o próprio Creese reaparece para tentar reviver guerras antigas.

Cobra Kai, como o primeiro Karatê Kid, funcionava de maneira quase perfeita. Cobra Kai II atrai o espectador para a ligação entre Lawrence e Creese, que o ajudou desde quando era pequeno e tinha problemas familiares. Creese sempre incentivou seus alunos a um karatê violento, enquanto os ensinamentos do Sr. Miyagi se baseiam num contato com a natureza, seja no mar ou num lago. O mesmo acontece na segunda temporada, quando Daniel abre seu dojo Miyagi-Do, tendo como seus dois primeiros alunos a filha, Samantha (Mary Mouser), e o filho de Johnny, Robby Keene (Tanner Buchanam), praticamente abandonado pela mãe e com problemas de relacionamento com o pai. Este se dedica a ajudar principalmente seu melhor aluno, Miguel (Xolo Maridueña, ótimo), enquanto nutre um interesse secreto pela mãe do aluno, Carmen (Vanessa Rubio). A série volta a trabalhar com as classes sociais de Daniel e Johnny: no filme, o primeiro morava na periferia e o segundo na parte de classe alta da cidade. As coisas se invertem, e o espectador, por vezes, se vê compadecido com a situação de Lawrence, mesmo que ele às vezes pareça não ter mudado muito em sua personalidade.

Ele admite a volta do antigo sensei e não consegue ter domínio sobre os alunos mais violentos, especificamente Hawk (Jacob Bertrand), que também sofria bullying. Hawk, no entanto, abandonou o antigo amigo nerd, Demetri (Gianni Decenzo), que tem dificuldades de se adaptar ao Cobra Kai e parte em busca da ajuda de Daniel no dojo Miyagi-Do. A maneira como os personagens vão mudando conforme a situação é o melhor elemento dessas duas temporadas e um exemplo de fan service sem cair na previsibilidade. Lawrence se vê sob conflito quando descobre que seu antigo sensei passa por dificuldades, no entanto também sente ausência de uma companheira e não compreende por que o filho não quer seu contato e sim com seu maior inimigo.
Cobra Kai II mostra que as decepções e mágoas temporais estão em discussão e o tempo vai trazendo novas lições para, inclusive, esclarecer o passado. O diálogo com os episódios do cinema é muito bem trabalhado, desta vez quando Daniel, por exemplo, lembra de quando foi ludibriado por um amigo de John Creese, Terry (Thomas Ian Griffith), na terceira parte da série de cinema. Do mesmo modo, as lembranças do Sr. Miyagi, por meio, por exemplo, de uma medalha de guerra dele, são exitosas. As tentativas de Daniel ensinar a seus alunos as técnicas do karatê também replicam memórias dos anos 80, assim como os carros no pátio da mesma casa de Miyagi onde ele organiza o seu dojo.

Igual à primeira temporada, é  interessante os limites entre o que é certo e o que é errado se tornarem um pouco menos claros. As vidas de LaRusso e Johnny se cruzam como aquelas que vemos no ótimo filme O lugar onde tudo termina, sobre a ligação entre diferentes gerações. Se os conhecíamos jovens, a sua versão mais velha e experiente leva a uma reavaliação do que os levou aonde estão. O momento em que dividem um restaurante com seus interesses amorosos, a exemplo de uma conversa de bar no primeiro, é um dos melhores. No entanto, Cobra Kai II acentua a figura da violência escolar desta vez por meio de Tori (Peyton List), uma nova aluna do Cobra Kai, que se desentende com a filha de LaRusso e se aproxima de Aisha (Nichole Brown), até então melhor amiga daquela. Tudo pode acabar no entendimento e em aprendizados interiores ou em lutas realmente violentas – e em Cobra Kai II estão as melhores do universo de Karatê Kid, principalmente aquelas que desencadeiam um grande final da temporada, excepcionais em sua coreografia.

Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que criaram a série Cobra Kai a partir do filme original, voltam a mostrar um trabalho de roteiro simples, mas notável, mesmo em sua introdução de personagens apenas para divertir, como o de Raymond (Paul Walter Hauser), aproveitando referências oitentistas sem cair no lugar-comum (talvez as melhores sejam aquelas que lembram um videoclipe e A garota de rosa shocking). E, apesar do ótimo elenco juvenil e de Macchio, Henggeler e Kove apresentarem boas atuações, é William Zabka novamente que se destaca no papel de Johnny Lawrence, numa atuação por vezes comovente, quando se encontra, por exemplo, com os antigos amigos. Cobra Kai II ajuda não apenas a ver as coisas menos estáticas, como mostra que o tempo ainda pode trazer o melhor da sabedoria, seja em qual parte o indivíduo se encontra de sua vida. Na maior parte de sua narrativa despretensioso, por vezes bem-humorado, ele consegue alcançar pontos dramáticos que mesmo os filmes de cinema não atingiam.

Cobra Kai II, EUA, 2018 Diretores: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Michael Grossman, Josh Heald, Jennifer Celotta Criadores: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg Roteiristas: Jason Belleville, Stacey Harman, Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Kevin McManus, Matthew McManus, Luan Thomas, Joe Piarulli, Michael Jonathan Smith Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Mary Mouser, Tanner Buchanan, Jacob Bertrand, Gianni Decenzo, Peyton List, Nichole Brown Fotografia: Cameron Duncan Trilha Sonora: Leo Birenberg e Zach Robinson Duração: entre 22-36 minutos (10 episódios) Distribuidora: YouTube Red

O cristal encantado (1982)

Por André Dick

Nos anos 1980, o gênero de fantasia se tornou mais popular com a segunda parte da série Star Wars, O império contra-ataca, também uma ficção científica de ponta. Participava dela um personagem chamado Yoda, criado por Frank Oz, o mesmo dos Muppets. Dois anos depois, ele lançou seu próprio filme, ao lado de Jim Henson, O cristal encantado. Tratava-se de uma fantasia com o intuito de se comunicar não apenas com crianças, como também com os adultos. Dotada de um visual impressionante, com uma compreensão de cenário minuciosa, é possível dizer que se trata do prenúncio de filmes que seriam lançados nos anos seguintes, a exemplo de Krull, A lenda e A história sem fim mais diretamente. Alguns cenários evocam também aqueles que Lucas e Marquand apresentariam no Planeta Tatooine em O retorno de Jedi, assim como David Lynch no Planeta Arrakis de Duna e Goddard no Planeta Greyskull de Mestres do universo.

A história é bastante simples. Depois que um cristal mágico se partiu, duas raças apareceram no Planeta Thra: Skeksis, criaturas maléficas, que usam o “cristal negro” para se perpetuar, e os Mistics. Jen é um Gelfling, que depois de seus pais serem mortos foi criado pelos Mistics. Ele descobre que para estabelecer o cristal original há uma parte com o astrônomo Aughra.
Basicamente, o roteiro mostra a jornada dele atrás de Aughra. Ele precisa fazer isso antes que haja um alinhamento dos três sóis de Thra, o que permitirá aos Skeksis um poder eterno. Esses vivenciam uma troca de comando, havendo um embate entre Chamberlain e o General. Jen acaba por conhecer Kira, outra Gelfling, sendo que até então achava ser o único de sua raça. Enquanto são perseguidos por Garthim, criaturas imensas que lembram aranhas com a capa de um escaravelho, a aventura se desenha mais difícil do que o esperado.
Em primeiro lugar, os Skeksis são criaturas bastante aterradoras. Com o bico lembrando o formato de um pássaro, seu tamanho e suas garras lembram mais alguma figura de filme de terror, e, ao se alimentarem  da energia de suas vítimas, colocam certamente medo em crianças. Há também temas mais adultos, como o da solidão de Jen no mundo, pouco propício a um universo infantil, assim como sua tentativa de amadurecer junto a um interesse amoroso em sua jornada rumo a salvar o planeta Thra.

Diante disso, lembro de ter ido assisti-lo no cinema ainda criança, levado pelo meu pai, e ter me assustado, pedindo para sair do cinema – devido, justamente, aos Skeksis. Hoje, décadas depois, ao finalmente terminar de assisti-lo, principalmente como espetáculo visual, é que O cristal encantado se destaca. É um primor visual a combinação que faz entre cenários reais, de estúdio, coma s criaturas e seus figurinos. Os dois Gilflings podem parecer bonequinhos de massa, no entanto. São mais propensos a um universo de Wes Anderson do que ao de Jim Henson, com sua excentricidade aterradora nesta história especificamente.
Diante do cenário atual do cinema, em que se destaca o uso de efeitos especiais muitas vezes inconvincentes e um CGI perturbador, é notável o que fazia Henson no início dos anos 80. Ele repetiria os caminhos exibidos aqui em Labirinto – A magia do tempo, desta vez com a figura de uma menina deixada em casa pelos pais com o irmão bebê, que é sequestrado por um ser ameaçador de um universo fantástico, interpretado por David Bowie. Há um sentido palpável nesse universo, uma textura realmente fantástica em todos os quesitos, acentuada pelo roteiro delirante de David Odell, que nos anos 80 escreveria também Supergirl e Mestres do universo.

Vencedor dos prêmios de melhor filme de fantasia no Saturn Awards e do Festival de Avoriaz, também uma referência do gênero, além de indicado na categoria de efeitos especiais do BAFTA, O cristal encantado surpreendentemente não recebeu um sequer aceno do Oscar. Tendo estreado no mesmo período de E.T. – O extraterrestre, é justificável que ele não tenha tido grande bilheteria. Foi relançado nos cinemas dos Estados Unidos este ano, com uma nova cópia, assim como recebeu um lançamento em Blu-ray 4K (que, se espera, chegue ao Brasil). É uma das raras obras de fantasia que merecem um olhar à parte. Há algo nele profundamente atemporal, com uma narrativa que flui do melhor modo possível, quase que sem necessitar dos seus diálogos. Ele projeta as imagens como se fossem o verdadeiro desenvolvimento de seu tema e os personagens ganham uma projeção visual muito interessante no espaço em que foram filmados.

The dark crystal, EUA, 1982 Diretores: Jim Henson e Frank Oz Elenco: Stephen Garlick, Lisa Maxwell, Billie Whitelaw, Percy Edwards, Barry Dennen Narração: Joseph O’Conor Roteiro: David Odell Fotografia: Oswald Morris Trilha Sonora: Trevor Jones Produção: Jim Henson e Gary Kurtz Duração: 93 min. Estúdio: Henson Associates e ITC Entertainment Distribuidora: Universal Pictures

Krull (1983)

Por André Dick

Os anos 80 foram profícuos em trazer fantasias, desde Fúria de titãs – trazendo a mitologia grega – e O cristal encantado, passando por A história sem fim, A lenda e Labirinto, até este Krull, normalmente esquecido. Um grande fracasso de público e crítica em sua estreia, ele traz na direção Peter Yates, que surgiu nos anos 60, Bullitt, e nunca seguiu um gênero determinado, alternando comédia (Nossa, que loucura!) e drama (O fiel camareiro, O vencedor). De certo modo, Krull não chega a ser apenas uma fantasia, e sim uma aventura com toques medievais e correspondência clara com O senhor dos anéis. Ele se cerca de correspondências com a cultura pop e literária de modo bastante particular, embora para muitos possa se situar de maneira menos inteligente do que seus parceiros cinematográficos.

No início, o espectador é avisado sobre uma profecia, de que uma jovem se tornará rainha e escolherá um rei, com o qual casará e cujo filho será o líder da galáxia. Num planeta chamado Krull, uma nave espacial ameaçadora, em forma de montanha – que remete imediatamente a O cristal encantado –, ou algo parecido, aterrissa. Esta fortaleza traz uma figura chamada a Besta (voz de Trevor Martin) com um exército de slayers, que utilizam armas a laser. Eles chegam à cerimônia de um casal, o príncipe Colwyn (Ken Marshall) e a princesa Lyssa (Lysette Anthony), que planeja se casar e fazer uma aliança entre reinos. Os slayers destroem o lugar, e sequestram Lyssa, enquanto Colwyn é encontrado por Ynyr (Freddie Jones), o Velho, uma mescla entre Gandalf e Obi-Wan Kenobi. Ele diz a Colweyn que existe uma chance contra a Besta: uma arma chamada “Glaive”, que lembra um bumerangue de alta tecnologia. Durante a jornada, os dois se juntam com o mago Ergo, o Magnífico (David Battley) e um grupo de nove bandidos, cujo líder é Torquil (Alun Armstrong) e entre os quais se encontra Kegan (um jovem Liam Neeson). Além disso, ele encontra o ciclope Rell (Bernard Bresslawl). Todos seguem até a casa do Emerald Seer (John Welsh) e seu aprendiz Titch (Graham McGrath). Emerald Seer consegue ver onde está a Fortaleza – que muda de lugar a cada nascer de sol – por meio de um cristal.

Nesse caminho, eles atravessam um pântano, que reúne talvez as imagens mais icônicas de Krull, dialogando com o planeta Dagobah, de O império contra-ataca (a fotografia é do mesmo Peter Suschitzky, especialista em dar um senso de escala ao que poderia ser comum), porém com uma eficiência particular em suas armadilhas, como uma areia movediça. Junto a isso, temos também o conhecimento de uma feiticeira que amava Ynyr e se encontra numa caverna onde há uma Aranha de Cristal.
Não fosse pelo par central, Krull possivelmente se sobressairia mais como filme. Marshall e Anthony possuem atuações no máximo medianas. No entanto, Yates consegue conservar, dentro de uma história bastante simples, elementos capazes de remeter a diferentes épocas da Terra: temos desde a pré-história, com a estranheza de vales inabitados e rochedos inalcançáveis, até a Idade Média, na figura dos castelos e das armaduras, até a era moderna, com a figura robótica dos slayers e suas armas a laser. Do mesmo modo, a arma “Glaive” é uma espécie de espada de Excalibur extraída por um rei que pode ser também Arthur, sendo que os bandidos aqui remetem aos cavaleiros da Távola Redonda. Ou seja, apesar de se passar em outro planeta, Krull representa a Terra, inclusive naquilo que há mais de natural dela, com árvores e rios. A proximidade com O senhor dos anéis – e antecipação no plano cinematográfico – se dá na utilização de cavernas misteriosas, feiticeiros, lagos cercados de bruma e pântanos intransponíveis, configurando um universo decisivamente fantástico para o espectador. Quando tomamos conhecimento do que trata o filme – da tentativa de reencontrar um amor –, não temos ideia do que vai acontecer para se chegar ali. E, enquanto a Besta tenta seduzir a princesa (antecipando A lenda, de Ridley Scott), é bastante cativante a interação entre os personagens secundários, como do velho Emerald, do Ciclope e do mágico, constituindo figuras completamente distintas entre si reunidas sob o mesmo manto fabular.

Yates consegue algumas proezas por meio dos efeitos especiais de Derek Meddings – que colaborou nos de Superman e, um ano depois, de Duna – e por isso mesmo satisfatórios, longe do excesso de CGI. O ingresso na caverna da Aranha de Cristal se torna realista, assim como temos uma grande efetividade no duelo final e na cena do pântano, quando os slayers surgem repentinamente, escondidos atrás de árvores. Se o cenário aqui é mais artificial – a sequência foi filmada nos lendários estúdios Pinewood, na Inglaterra –, suscita um plano ainda mais intenso de conto de fadas ou fábula futurista. Quando o filme vai se encerrando e os personagens completam sua trajetória, há uma interação surpreendente entre o visual fantasioso e a trilha sonora de James Horner, principalmente na corrida dos cavalos que produzem um rastro de fogo inimaginável. Se a ação filmada por Yates não se corresponde à agilidade daquela que mostrou no antológico Bullitt, ela nunca deixa a obra esmorecer, compondo uma interessante ligação com o imaginário dos anos 80 e uma sensação incontestável de nostalgia de um cinema blockbuster que também recriava, por meio de seu diálogo com outras obras, uma nova visão de cinema. Ao final, a constatação é que há poucos filmes como este capazes de reunir uma porção de referências e gêneros diferentes e colocá-los numa narrativa única.

Krull, EUA/ING, 1983 Diretor: Peter Yates Elenco: Ken Marshall, Lysette Anthony, Freddie Jones, Francesca Annis, David Battley, Alun Armstrong, Liam Neeson, Bernard Bresslawl, John Welsh, Graham McGrath Roteiro: Stanford Sherman Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: James Horner Produção: Ron Silverman Duração: 121 min. Estúdio: Barclays Mercantile Industrial Finance Distribuidora: Columbia Pictures

Os embalos de sábado à noite continuam (1983)

Por André Dick

Quando a continuação de Os embalos de sábado à noite estreou em 1983, a surpresa não deve ter sido pequena. Depois de um filme que foi um marco cultural no final dos anos 70, reproduzindo a febre da discoteca, com a trilha marcante dos Bee Gees, possivelmente ninguém esperava que sua sequência fosse realizada por Sylvester Stallone. E mais: que John Travolta, no personagem de Tony Manero, reaparecesse como uma espécie de Rocky Balboa, dançando na Broadway, com músculos e elasticidade de um atleta olímpico.
A aproximação feita por Stallone de Manero com seu personagem icônico é visível, inclusive no figurino do personagem e esse detalhe não é desprezível para que se entenda a aversão ao filme: praticamente toda a crítica o considerou um fracasso, mesmo que, junto ao público, tenha feito boa bilheteria. Os embalos de sábado à noite continuam mostra Manero querendo seguir carreira de dançarino. Isso poderia ser forçado, não fosse ao mesmo tempo um risco. Lembremos que no primeiro filme ele trabalha vendendo tinta no Brooklyn, mas quando chega sábado vai para uma discoteca, o Clube 2001 Odyssey, onde é o destaque, cercado de luzes, também embaixo de seus pés, típicas dos anos 70. Ele tenta se vestir como Al Pacino e Sylvester Stallone, suas referências do universo ítalo-americano e está tentando sair do seu universo, do qual não gosta, para tentar entreter as pessoas e, sobretudo, entreter-se. Annette (Donna Pescow) tem interesse por ele, porém é ignorada. Sua paixão é Stephanie (Karen Lynn Gorney), que deseja sair do Brooklyn para Manhattan, onde estão as neuroses contemporâneas vistas por Allen.

Trata-se de uma nova saída para o cinema – a saída pelo prazer da música, no entanto não aquela depositada no cinema áureo de Hollywood, de musicais como A noviça rebelde, Amor, estranho amor e Um violinista no telhado, e sim pelo dia a dia de pessoas comuns. Nesse sentido, este belo filme de John Badham (que nos anos 80 faria o referencial Jogos de guerra) antecipa todo o movimento de videoclipes e da MTV, assim como obras no estilo de Nos tempos da brilhantina (também com Travolta), Fama, Flashdance, Footloose e Dirty Dancing, esses quatro representativos dos anos 1980, e mesmo bandas nova-iorquinas, a exemplo de Blondie, nos anos 70, e The Strokes, neste século (cujo clipe “Hard to explain” tem imagens que lembram as discotecas dos anos 70 de Os embalos).
O filme, com seus relacionamentos e as dúvidas amorosas de Tony Manero – que seria “revivido”, já numa fase mais madura, por Travolta em Pulp fiction, de Tarantino –, consegue ser atemporal: ou seja, os temas de que trata, que resultam na condução ou desaparecimento de uma amizade e no sentido de que a infância e a adolescência estão ficando para trás, conseguem avançar sobre o espectador.

Na passagem do Brooklyn para Manhattan, em que o sonho se transforma em competitividade no trabalho, Manero faz testes para shows, sem passar em nenhum, enquanto trabalha numa academia ensinando dança e à noite como garçom. Sua namorada, Jackie (Cynthia Rhodes), também dança e dá aulas no mesmo lugar, além de ser vocalista de uma banda underground. Stallone desenha uma atmosfera típica do início dos anos 80 e, sendo o filme do mesmo ano de Flashdance, é interessante como ambos se pareçam, tanto em ritmo, na trilha sonora contínua, quanto em desenvolvimento dos personagens. O roteiro original era de Norman Wexler, autor do primeiro, mas parece que Stallone praticamente o reescreveu, certamente diminuindo o número de diálogos e tornando a narrativa mais compacta. Este não é mais o filme dos anos 70, de John Badham, e sim um dos 80, feito por Stallone um ano depois de Rocky III, que se parece visualmente com a sequência de Os embalos. Stallone coloca a trilha sonora nas mãos dos Bee Gees e de seu irmão Frank, e o resultado é uma sucessão notável de hits oitentistas.

O comportamento de Tony em relação às mulheres não mudou muito. Ele continua buscando quem o rejeita, nesta sequência a dançarina Laura (Finola Hughes, a mais fraca do elenco). Por meio curiosamente da música antológica “Staying alive”, dos Bee Gees, marca do primeiro filme, Stallone coloca Manero em situações que lembram aquelas da superação de Rocky Balboa: ele caminhando num parque, observando uma estátua, ou na ponte que liga Nova York e Manhattan. Isso recupera os conflitos do personagem em relação a seu passado, numa visita à mãe Flo (Julie Bovasso), e, quando passa pela antiga 2001 Odyssey, vê que se transformou numa boate gay, o que mostra especificamente o contexto do início dos anos 80 em Nova York de maneira exemplar, já exposto em Parceiros da noite, com Al Pacino, outra referência do personagem Manero. É genuína a atuação de Rhodes, fazendo um bom dueto com Travolta, principalmente nas sequências mais dramáticas, contudo também nas de dança, muito bem efetuadas e com um design de produção atrativo, remetendo a All That Jazz, de Bob Fosse, realizado em 1979, com a fotografia de Nick McLean mostrando um bom panorama do palco e da movimentação dos dançarinos sob a carga de luzes e jogo cenográfico. Stallone oferece a ela um figurino rosa nos momentos mais delicados e um vermelho quando se mostra no trabalho, como dançarina ou cantora.

Há, inclusive, um conflito nos bastidores da peça da qual Manero vai participar que tem ecos precursores do Cisne negro de Arronofsy, de maneira mais ingênua, é certo, no entanto resolvida dentro da narrativa mais modesta e objetiva. Os embalos de sábado à noite continuam é uma das sequências mais esquecidas da história do cinema, mas Travolta talvez tenha uma atuação aqui melhor do que a do primeiro (pela qual foi indicado ao Oscar), aplicando muito bem sua raiva interna pelas situações em que se envolve por teimosia. E Stallone, na obra mais estranha à sua filmografia, apresenta uma agilidade cênica que ele aplicaria novamente em Rocky IV, alguns anos depois, com o ponto de superação como meta. Manero tinha Stallone como referência no primeiro filme; aqui, embora pareça se converter nele, pelo menos fisicamente, não deixa de ser um símbolo de uma era em que os artistas queriam conquistar o mundo por meio da Broadway, na mesma época em que Wall Street personificava o sonho americano. Temos um nervosismo na atuação de Travolta e uma melancolia no olhar de Rhodes que representa bem essa passagem dos anos 70 para os 80, num mundo caminhando progressivamente para o conhecimento de que a selva nova-iorquina deve ser vencida pela diversão.

Staying alive, EUA, 1983 Diretor: Sylvester Stallone Elenco: John Travolta, Cynthia Rhodes, Finola Hughes, Steve Inwood, Julie Bovasso Roteiro: Sylvester Stallone, Norman Wexler Fotografia: Nick McLean Trilha Sonora: Barry Gibb, Maurice Gibb, Robin Gibb Produção: Sylvester Stallone, Robert Stigwood Duração: 93 min. Estúdio: RSO Records Distribuidora: Paramount Pictures

2010 – O ano em que faremos contato (1984)

Por André Dick

Filme 2010 11

Dar continuidade a uma das maiores obras de ficção científica não apenas de todos os tempos, mas também a uma obra-prima cercada por conceitos e enigmas não seria fácil de qualquer modo. Se tentasse se manter o mesmo estilo, ainda mais. Por isso, 2010 – O ano em que faremos contato, dirigido por Peter Hyams a partir de uma obra de Arthur C. Clarke, é visto, não por poucas pessoas, como uma decepção do tamanho do monólito negro que navega pelo espaçotempo de 2001, justamente por ter procurado seu caminho próprio. Hyams teria ligado ao próprio Kubrick, e este teria lhe dito para fazer a obra que quisesse. O diretor de Capricórnio Um, que trabalha com a ideia de que a chegada à Lua foi, na verdade, uma grande criação governamental, e de Outland – Comando Titânio, uma espécie de faroeste de ficção com Sean Connery de 1981, seguiu o conselho de Kubrick.

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E, como Kubrick, Hyams assumiu mais do que o posto de diretor: é também roteirista, diretor de fotografia e produtor. De 2010, lembro mais exatamente a capa do livro original, quando ia a uma livraria com meu pai quando criança, parecida com a do material de marketing do filme: no entanto, havia naquela capa um mistério que o filme tenta carregar consigo. Trata-se de uma ficção científica de bastante qualidade, que surgiu em meio a um período em que vigoravam as séries de Guerra nas estrelas e Star Trek, não encontrando público – conseguiu apenas cobrir seus custos –, e, apesar de comparado a 2001, pode-se dizer que certamente inspirou Gravidade e Interestelar e merece ser reavaliado, sobretudo na sua versão em Blu-ray, com cores notáveis.

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Se tudo inicia (possíveis spoilers a partir daqui) com as palavras do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea), o roteiro mostra norte-americanos, comandados pelo doutor Heywood Floyd (Roy Scheider, substituindo William Sylvester, do original), que têm o objetivo de reencontrar a nave Discovery, desaparecida no final do primeiro filme, localizada pela última vez perto da lua de Saturno. A União Soviética tem o plano de ir também atrás da nave, e para isso preparam a Leonov. Essa informação é levada por Dimitri Moisevitch (Dana Elcar) a Floyd. Com receio de sua esposa Caroline (Madolyn Smith) e do filho, Cristopher (Taliesin Jaffe), Floyd acaba concordando em partir numa missão conjunta, ao lado de Walter Curnow (John Lithgow), responsável pela construção da Discovery, e do Dr. Chandra (Bob Baladan), criador do HAL 9000. Na missão, entre os russos, estão a capitã Tanya Kirbuk (Helen Mirren), Vladimir Rudenko (Savely Kramarov), Irina (Natasha Schneider) e Maxim Brailovsky (Elya Baskin). Interessante a maneira como Hyams compõe a vida de Lloyd antes da viagem, com seu filho alimentando golfinhos numa piscina dentro de casa, e a luminosidade remete a um futuro solitário e vago – como, por exemplo, quando Lloyd está à frente da Casa Branca ou correndo numa estrada ao lado do filho, num carrinho.

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Já no espaço, há um conflito entre norte-americanos e soviéticos, entre o comando feminino e Floyd, além de certo patriotismo na trama, no entanto a narrativa, embora com ar de Guerra Fria, é interessante. Perto de Júpiter, eles localizam o monólito, assim como logo chegam à Discovery. A narração de Floyd se constitui principalmente em pedaços de mensagem para sua esposa e filho – ele está ali para proporcionar um amanhã diferente. A partir daí, Hyams explica vagamente por que o computador HAL 9000 enlouqueceu no primeiro e parte do mistério do monólito negro, ou seja, chega a ser didático, ao contrário do filme de Kubrick, o que também corresponde à continuação em livro, escrita por Arthur C. Clarke. Não surpreende que o filme seja apontado simplesmente como inferior ao primeiro, sem a devida análise e percepção de que se trata de uma obra com outro estilo. Existe, aqui, uma tentativa clara de aproximar mais o público de uma aventura espacial, e a primeira ida de Curnow e Chandra até a Discovery revela isso, com um apuro visual de Hyams e um trabalho na movimentação de câmera e no som que colocar o espectador em meio à sensação de estar no espaço sideral.

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Enquanto Kubrick sugeria mais por meio de imagens até poéticas, Hyams cria elementos de ligação mais evidentes para que a história se esclareça sem desvios. Pode-se apontar mais exatamente onde a obra envelheceu – principalmente por sua temática envolvendo norte-americanos e soviéticos –, no entanto existe aqui uma tentativa de ressoar uma real ficção científica. O conjunto de peças de Hyams é mais imersivo do que várias outras que viriam a seguir, sem a mesma força. O mais notável é que os efeitos especiais supervisionados por Richard Edlund (o mesmo de Indiana Jones e Guerra nas estrelas) não tenham sido premiados com o Oscar (conta também com excelente direção de arte, efeitos sonoros, som e figurino elaborados, igualmente indicados ao prêmio). Mantendo a parte técnica excelente do clássico de Stanley Kubrick , 2010 conta ainda com um visual futurista de Syd Mead (Blade Runner) e um elenco com bastante diversificação, em que Scheider é a peça principal, mas assessorada por um Baladan e Lithgow compenetrados e uma Helen Mirren discreta.

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Esse visual e elenco chegam ao limiar do tema abordado por Clarke: o de que o espaço e o monólito guardariam todas as fases da vida humana, e quando ressurge David Bowman em diferentes períodos de sua existência, Hyams oferece um toque quase surreal e fantasmagórico, como o encontro virtual com sua esposa, Betty Fernandez (Mary Jo Deschanel) no hospital. Não apenas o fantasma de Bowman surge na Terra, como avança sobre os espaços da Discovery. Tudo em 2010 é mais evidente. Não apenas nesse sentido, como na maneira como os astronautas, a exemplo de Floyd, atuam – num instante de perigo ele se abraça a uma colega soviética de jornada. É uma cena pouco imaginável em 2001. Em Kubrick, a sensação é de que estamos diante de um grande painel de mistério sobre a humanidade, em ritmo de ópera; em 2010, o ponto de equilíbrio é a discussão política e científica que surge por trás das ações dos personagens. Ainda assim, Hyams é capaz de elevar suas imagens a algo que remete a 2001 no trabalho de cores e visões. Cada uma delas lembra uma grande pintura espacial: eis o que esses filmes parecem ter de melhor.

2010, EUA, 1984 Diretor: Peter Hyams Elenco: Roy Scheider, John Lithgow, Helen Mirren, Bob Balaban, Keir Dullea, Betty Fernandez, Madolyn Smith, Savely Kramarov, Nastasha Schneider, Elya Baskin Roteiro: Peter Hyams Trilha Sonora: David Shire Fotografia: Peter Hyams Produção: Peter Hyams Duração: 116 min. Distribuidora: Metro Goldwyn-Mayer

Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984)/Cobra Kai (2018)

Por André Dick

Um dos grandes sucessos dos anos 80, que deu origem a três continuações (uma inclusive com Hilary Swank), um remake e uma série lançada este ano pelo YouTube Red – constituindo um universo amplo, em diferentes mídias, que lembra os de Arquivo X e Twin Peaks –, Karatê Kid – A hora da verdade é uma das obras que representam o imaginário infantojuvenil de uma época fundada por filmes de fantasia. É preciso, antes de tudo, gostar de histórias simples, ou seja, que coloquem os personagens de maneira humana, como já havia feito o mesmo diretor John G. Avildsen em Rocky – O lutador, pelo qual recebeu um surpreendente Oscar, para gostar da narrativa. Como o filme de Stallone, esse tem uma mensagem válida, cenas de luta interessantes e personagens acessíveis. Esses elementos estariam presentes em suas duas sequências com os mesmos personagens principais, uma de 1986 e outra de 1989, mas sem a mesma autenticidade (possíveis spoilers a partir daqui).

O jovem Daniel LaRusso (Macchio, bom ator) chega com a mãe, Lucille (Randee Heller), a uma nova cidade, Reseda, em Los Angeles, vindos de Newark, New Jersey. Depois de um dia na praia com novos amigos, ele desperta a raiva de uma gangue de motoqueiros e que luta karatê, cujo líder, de família rica, é Johnny Lawrence (William Zabka), isso porque Daniel se envolve com a ex-namorada de Johnny, Ali Mills (Elizabeth Shue). Após um baile de Halloween, no qual tenta se vingar de Johnny e gangue, vestidos com um figurino de esqueleto, LaRusso é perseguido por eles, até que o Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), um zelador do condomínio onde mora, resolve ensiná-lo a lutar também. Para impedir que a turma de Johnny continue a cercá-lo, Miyagi combina com o dono do dojo Cobra Kai, o sensei John Creese (Martin Kove), que Daniel vai enfrentar seus desafetos no torneio de karatê de All Valley. É exatamente Creese aquele que movimenta esses jovens em direção a uma ideia de que o esporte deve servir para o ataque e a vingança pessoal.

Por vezes, Karatê Kid parece um conto de fadas bem-humorado e possui uma narrativa simples e linear, mas inteligente. Parte da funcionalidade reside não apenas no fato de a amizade de Daniel evoluir depois de uma sessão em que poda um bonsai sob o olhar de Miyagi, mas o treinamento que recebe, por meio de atividades alheias ao esporte, como pintar cercas ou encerar carros. Enquanto Creese incentiva seus alunos a um karatê violento, os ensinamentos do Sr. Miyagi se baseiam num contato com a natureza, seja no mar ou num lago. Do mesmo modo, o relacionamento de Daniel com Ali é eficiente, não apenas pela química entre os personagens, como pelas atuações de Macchio e de Shue. Agora que a série Cobra Kai traz alguns desses personagens de volta e mostra LaRusso e Johnny sob um novo ponto de vista, mesclando uma nova versão para a vida do segundo, Karatê Kid revela que não era um filme comum e sim à frente de sua época. Daniel obviamente era um jovem que sofria bullying, mas tentava enfrentá-lo do seu modo: ele encarava seus opositores como fazem os jovens na série Cobra Kai.

Lawrence, pela nova ótica da série, parece um injustiçado, quando, na verdade, ele teve apenas sua complexidade acentuada. Nem os ensinamentos de Miyagi passaram a ser ultrapassados, nem os de Johnny ou de seu mestre Creese passaram a ser mais modernos ou aceitáveis – a violência continua violência, o bullying apenas se espalhou para novas plataformas, no caso o mundo digital moderno, especificamente com Samantha (Mary Mouser), filha de LaRusso. O que se destaca é Johnny também fazer trabalhos manuais como fazia o Sr. Miyagi e morar num condomínio de periferia, assim como Daniel no original, em Reseda. LaRusso, por sua vez, é dono de uma concessionária famosa de automóveis e mora no bairro padrão de vida sofisticada. É como se as vidas de ambos andassem em círculos complementares. Ao ver o dojo Cobra Kai reaberto por Johnny, Daniel não lembra apenas dos problemas de sua chegada, mas os posteriores, quando foi ludibriado por um amigo de John Creese, Terry (Thomas Ian Griffith), na terceira parte da série de cinema.
Ao retornarmos a este Karatê Kid dos anos 80, é justamente esse olhar sobre a perseguição de um grupo a um jovem que acentua o interesse pela história dele. O Miguel (Xolo Maridueña, ótimo) da série Cobra Kai é uma espécie de LaRusso ensinado sob os dogmas da Cobra Kai. O filho de Johnny, Robby Keene (Tanner Buchanam), possui o temperamento que tinha o pai na juventude e se transforma também numa espécie de LaRusso, mas sob os ensinamentos propagados por Miyagi. Johnny não era a figura maléfica – e sim seu sensei. No entanto, como mostra a história de Cobra Kai, é desvirtuado por um padrasto de instinto violento e a localização nos preceitos do dojo do antigo mestre como um mapa para suas escolhas de vida.

É interessante como os limites entre o que é certo e o que é errado se tornam um pouco menos claros. As vidas de LaRusso e Johnny se cruzam como aquelas que vemos no ótimo filme O lugar onde tudo termina, sobre a ligação entre diferentes gerações. Se os conhecíamos jovens, a sua versão mais velha  e experiente leva a uma reavaliação do que os levou aonde estão. O momento em que dividem uma mesa de bar, superados vários desentendimentos (o primeiro na loja de carros de LaRusso), é especificamente revelador do apego a um passado: mais do que a nostalgia, a juventude representou o que os levaria até ali. Do mesmo modo, a ligação entre Samantha e Miguel remete à de LaRusso e Ali, inclusive com os dois indo ao mesmo parque de diversões do original. Daniel agora é casado com Amanda (Courtney Henggeler), sua parceira de negócios, que lembra Ali em certos termos.
De maneira geral, a série do cinema de Karatê Kid não existiria sem a figura do Sr. Miyagi. Indicado merecidamente ao Oscar de ator coadjuvante, Pat Morita, escolhido para o papel fundamental do mestre, ocupou o lugar que seria de Toshiro Mifune, grande ator japonês de filmes de Kurosawa. Se Mifune tem um humor acentuado, como em Sanjuro, é certo que o roteirista Robert Mark Harmen, que não o queria no papel, deve ter gostado do acerto com a escolha de Morita. Ele parece frágil também como Daniel, além de mais baixo do que Macchio, e isso cria um diálogo entre os dois também neste quesito. A maneira como os ensinamentos são apresentados se situa entre o bom humor e a conquista pessoal. Avildsen tem um olhar muito bom para a relação entre aluno e mestre, como em Rocky mostrava o lutador sendo treinado por Mickey, e demonstraria esse talento ainda mais no ótimo Meu mestre, minha vida, com Morgan Freeman, curiosamente no mesmo ano em que apresentou a fraca terceira parte de Karatê Kid.

Miyagi, apesar de ausente em Cobra Kai, é a referência em todos os momentos desse crescimento já na vida adulta de Daniel. Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que criaram a série Cobra Kai a partir do filme original, colocam não apenas LaRusso com a complexidade do antigo mestre, como também Johnny Lawrence. Este, envolto por problemas alcóolicos (na obra de 1984, Miyagi, especialmente, se embebedava ao lembrar da antiga namorada de Okinawa) e fixado nas reprises de Águia de aço na TV (exatamente sobre a ligação entre um filho piloto da Força Aérea e seu pai sequestrado), não deixa de representar um ponto de superação – a família de Miguel se torna aquela que nunca teve. E se torna também uma superação para o ator: William Zabka, reduzido nos anos 80 a participações de fundo em filmes como De volta às aulas e Férias frustradas na Europa, se mostra surpreendente. No fundo, Karatê Kid fala de indivíduos constituindo, por meio do esporte, uma família que não possuem e talvez nisto resida sua universalidade e interesse. E Cobra Kai investe nessa ideia com rara autenticidade e êxito, resultando tão atraente quanto o filme original.

Karate Kid, EUA, 1984 Diretor: John G. Avildsen Elenco: Ralph Macchio, Noriyuki “Pat” Morita, Elisabeth Shue, Randee Heller, William Zabka, Martin Kove Roteiro: Robert Mark Kamen Fotografia: James Crabe Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Jerry Weintraub Duração: 127 min. Estúdio: Delphi II Productions, Jerry Weintraub Productions Distribuidora: Columbia Pictures

 

Cobra Kai, EUA, 2018 Diretores: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Jennifer Celotta, Josh Heald, Steve Pink Criadores: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg Roteiristas: Jason Belleville, Stacey Harman, Josh Heald, Jon Hurwitz, Robert Mark Kamen, Joe Piarulli, Hayden Schlossberg, Michael Jonathan Smith, Luan Thomas Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Mary Mouser, Tanner Buchanan Fotografia: Cameron Duncan Trilha Sonora: Leo Birenberg e Zach Robinson Duração: entre 22-36 minutos (10 episódios) Distribuidora: YouTube Red

A lenda (1985)

Por André Dick

A Segunda História da Criação da Bíblia inicia-se no versículo 5 do Cap. II do Gênese. Em III, 22, expressa-se a razão pela qual Deus pune o ser humano no paraíso. É que estariam, homem e mulher, a um passo de elevar-se à condição de “deuses” (III, 5). Bastaria que eles, já possuidores do “conhecimento”, lançassem a mão ao fruto da “árvore da vida” e, comendo-o, ganhassem a imortalidade, passando a viver para sempre.
Em A lenda, de Ridley Scott, este início da Bíblia se reproduz na história da Princesa Lily (Mia Sara), que é chamada por Jack (Tom Cruise) a ver dois unicórnios que não podem ser tocados no rio em meio a uma espécie de floresta encantada. Não há uma explicação clara, no roteiro, de como eles se conheceram, nem onde seria exatamente seu palácio, mas Jack surge como o seu amor – como se eles fizessem parte de um mundo à parte, em que Lily sai pela floresta apenas para encontrar uma camponesa amiga, Nell (Tina Martin).
Ela acaba por tocar num dos unicórnios e permite com que duendes, tendo à frente Blix (Alice Playten), enviados pela escuridão, cortem o chifre de um deles e levem a unicórnio fêmea para o sacrifício. A escuridão é almejada pelo senhor das Trevas (Tim Curry), e os unicórnios representam a claridade do universo.

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Depois de cair nas águas de um lago, a fim de encontrar o anel da princesa Lily, Jack acaba por ficar embaixo do gelo; quando ele consegue quebrá-lo, o mundo já está transformado e ele, sem saber ao certo o que aconteceu, passa a ir atrás de Lily, que volta à casa de Nell, tentando escapar dos duendes.
A lenda, de Ridley Scott, é um produto acabado dos anos 80 e encontra diálogo com outros filmes de fantasia, como Labirinto, Flash Gordon e Krull. Mas é interessante mesmo como o filme de Scott, com seu visual extraordinário (em que havia pouco CGI e os cenários, de Assheton Gordon e Leslie Dilley, este de Star Wars, pareciam realmente reais), composto nos estúdios Pinewood, da Inglaterra, além de influenciado por outros filmes de Scott, como Alien – e interessante como, hoje, se vê traços do filme também em Prometheus –, com a belíssima fotografia de Alex Thomson, tem esse curioso subtexto religioso. E, como outros filmes de Scott, sua qualidade fica ainda mais perceptível na versão estendida (109 minutos, vinte a mais que o original).

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Jack serve como uma espécie de Adão. Na Bíblia, este foi colocado para nomear as coisas do mundo. E para Lily ele nomeia os unicórnios. Assim como o unicórnio em A lenda, a maçã, na Bíblia, traz a queda do paraíso, e Adão, como um romântico, leva consigo a noção de Deus, como seu grande criador, mas também como o gênio solitário, que é abandonado, como o Werther de Goethe. O castigo imposto a Adão e Eva por Deus é um castigo exatamente por se ceder à maçã proibida.
A presença de Deus, levando as personagens (no caso, Adão e Eva) a tentar reconhecer o que desconhecem (e não tem nome, pois guarda o segredo do sexo e do corpo humano), revela uma autodescoberta da violência que existe quando não há nomeação para aquilo que se faz. Adão não consegue nomear o que fez, porém Deus sim: seria o pecado. Em A lenda, de Scott, esse pecado surge no momento em que Jack resolve mostrar a Lily os unicórnios. Ele não sabe ao certo por que o cenário se torna invernoso e encoberto, no entanto sabe que algo foi cometido, e não poderia. Seu amor também não se encontra definido, mas ele sabe que está ligado a ela.

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O homem, feito à sua imagem e semelhança, continua sendo o espelho de Deus, contudo este espelho, no silêncio do pecado, se quebra. E ele, expulso do paraíso, precisa enfrentar a escuridão. Em A lenda, esse enfrentamento começa na travessia de um pântano e nos corredores da grande torre onde se esconde a besta, com a ajuda de Honeythorn Gump (David Bennent e dublado por Alice Playten), a fada Oona (Annabelle Lanyon), que se apaixona por Jack – uma espécie de Sininho de Peter Pan –, e uma dupla de duendes (Billy Barty e Cork Hubbert).
É interessante como Lily e sua inocência também tem parentesco com a menina Sarah (Connely, ainda adolescente), de Labirinto, uma garota triste, que vive no mundo da fantasia e pede para que o rei dos duendes, Jareth (David Bowie), leve embora seu irmão por parte de pai. Ela se arrepende de ter feito isso; no entanto, ela terá de atravessar um labirinto para trazê-lo de volta. No labirinto, arranja inúmeros amigos, como Hogglle, que a ajuda a chegar ao castelo, e outros: Ludo, um gigante peludo, e Sir Didymus, que parece um Fox terrier. Há, aqui, outro parentesco com A lenda: os duendes ajudam Jack e Lily a buscarem o unicórnio fêmea.

Trata-se, como A lenda, de uma referência em direção de arte e efeitos especiais, e da tentativa de possuir responsabilidade de uma garota saindo entre a adolescência e a vida adulta. Connelly é uma boa atriz para representar essa passagem, e algo de sua inocência se perde nessa jornada: o ingresso no quarto depois de passar pelo ferro-velho é um primor de concepção. Mia Sara, em A lenda, desempenha um papel em que o atrito entre a fantasia e a realidade, e, assim como Connelly em Labirinto, deseja recuperar o universo que perdeu. A Lily de Sara precisa enfrentar o que o senhor das Trevas lhe oferece: todas as riquezas materiais e uma sensação de poder, de controle sobre todo o universo. Enquanto isso, Jack precisa enfrentar a ilusão do espelho causado pela fada Oona, que pode enganá-lo. Na sequência final, os claros-escuros de A lenda proporcionam algumas cenas assustadoras, o que explica por que a Disney, a quem o filme foi oferecido inicialmente, não o aceitou.
Interessante, ao mesmo tempo, como, afastado dos anos 80, A lenda é uma espécie de prenúncio visual para séries como O senhor dos anéis – sendo que seu roteiro se inspira claramente nos livros de Tolkien – e merece uma reavaliação à altura de seus conceitos e referências mitológicas e religiosas.

Legend, EUA/Reino Unido, 1985 Diretor: Ridley Scott Elenco: Tom Cruise, Mia Sara, Tim Curry, David Bennent, Alice Playten, Billy Barty, Cork Hubbert, Peter O’Farrell, Kiran Shah, Annabelle Lanyon, Robert Picardo, Tina Martin, Ian Longmur, Mike Crane, Liz Gilbert, Eddie Powell Roteiro: William Hjortsberg Fotografia: Alex Thomson Trilha Sonora: Jerry Goldsmith (Versão estendida), Tangerine Dream (Versão original) Produção: Arnon Milchan Duração: 89 min. (Versão original), 109 min. (Versão estendida) Distribuidora: Universal Pictures, 20th Century Fox