Jogador Nº 1 (2018)

Por André Dick

Há sete anos, Steven Spielberg realizou seu primeiro desenho animado, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerraLincoln e Ponte dos espiões, ele regressou com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. No ano passado, Spielberg fez o “Oscar bait” The Post – A guerra secreta, chegando, talvez, a seu limite como realizador de obras guiadas por fatos, através de um veículo com o objetivo de buscar nomeações a prêmios e sem a devida autenticidade.

Menos de meio ano depois, ele regressa ao universo pop com Jogador Nº 1, baseado em romance de Ernest Cline. A história mostra o jovem Wade Watts (Tye Sheridan), que vive a maior parte do tempo em seu avatar, Parzival, dentro da realidade virtual intitulada Oasis, criada por James Haliday/Anorak (Mark Rylance), com a ajuda de Ogden Morrow (Simon Pegg). Morando em Columbus, Ohio, ele está interessado por uma garota participante do jogo, chamada Art3mis, ou melhor, Samantha Cook (Olivia Cooke), que o ajuda numa missão determinada com amigos Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), em busca de um “easter egg”, e pretende descobrir o que pretende Nolan Sarrento (Ben Mendelsohn). Sarrento quer ter o domínio sobre Oasis, com a colaboração direta do monstro i-R0k (TJ Miller). A história se passa em 2045, quando toda a terra parece ter sido erguido sobre favelas – embora os primeiros momentos lembrem mais Speed Racer, das irmãs Wachowski, e uma estranha movimentação de edifícios lembre A origem, de Nolan.

Se O bom gigante amigo trazia imagens que mesclavam as árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau, Jogador nº 1 é uma coleção de referências cinematográficas diversas. O início remete a De volta para o futuro (com Watts num DeLorean) e King Kong, além de i-R0K ter um peito em forma de caveira, aquela da caverna de Indiana Jones e o templo da perdição, e há uma passagem fantástica (spoiler a seguir) que insere o espectador nos corredores e quartos do Overlook de O iluminado. Trata-se de um alívio, pois finalmente se sabe onde Spielberg estava nas filmagens de The Post: filmando na verdade Jogador Nº 1.
À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar de maneira brilhante, Spielberg desenha um universo atrativo. Jogador Nº 1, ao contrário dos cenários pálidos dos últimos filmes do cineasta, é um primor de concepção visual e remete ao melhor da configuração em video game já mostrada no cinema, a de Tron. A ambientação da casa de Wade Watts – que diz ter sido assim batizado como um Peter Parker ou Bruce Banner – lembra as de Minority Report e A.I., misturando cores soturnas e uma conjunção de imagens computadorizadas. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, ele localiza aqui a de solidão não da infância, como em Império do sol, e sim da adolescência. Em seu roteiro, os jovens não têm praticamente uma “vida real”: eles sobrevivem por meio do jogo. Nisso, os anos 80 povoam o imaginário do filme, também musicalmente, com “Jump”, do Van Halen, por exemplo, assim como numa festa temos New Order.

Misturando imagens de video game e atores reais – que lembra em alguns instantes o subestimado Warcraft –, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, Jogador Nº 1 não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. Graças às atuações de Sheridan e Cooke, o cineasta consegue entregar certa dramaticidade a partir dessa ideia, embora não extraia notas diferenciadas de Mendelsohn (praticamente o vilão do cinema atual) ou Pegg (um pouco subaproveitado). Talvez se lamente que os atores não apareçam tanto como suas peças virtuais, pois todos exercem uma química em conjunto. Ao contrário do que demonstra no quase desastroso The Post, Spielberg se sente à vontade de regresso à cultura pop que ele ajudou a organizar, desta vez com a colaboração na trilha de Alan Silvestri no lugar de John Williams, que já concede um ritmo diferente – e faz várias referências a seu trabalho em De volta para o futuro. As cenas de ação se sentem vívidas, como aquelas de As aventuras de Tintim, com um senso de realismo mesmo na irrealidade representada.

Talvez ele tenha sido aqui o que menos se revela ultimamente: um autor até discreto. Em poucos momentos, ele homenageia a si mesmo. Ele prefere fazer reverência aos filmes oitentistas de John Hughes, Robert Zemeckis (um de seus “alunos”) e coloca O gigante de ferro, da animação dos anos 90 de Brad Bird, como uma espécie de exterminador do futuro de James Cameron. Em termos conceituais, o roteiro de Zak Penn não traz nada de especialmente relevante, com uma mensagem até previsível, porém Spielberg não se mostra aberto ao excesso de sentimentalismo que por vezes desconcerta sua obra, principalmente ao final. Ele prefere se basear na ideia de um universo múltiplo, uma espécie de Avatar adolescente, para retomar elementos que foi esquecendo ao longo dos últimos anos, praticamente desde o contestado Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Há uma certa despretensão bem-vinda, com uma intensidade notável até a primeira parte, que conduz tudo a um desfecho direto e sem contorcionismos para enfeitar esse universo.

Ready player one, EUA, 2018 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller Simon Pegg, Mark Rylance Roteiro: Zak Penn Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Steven Spielberg, Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger Duração: 140 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, Village Roadshow Picture, De Line Pictures, Farah Films & Management Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

O bom gigante amigo (2016)

Por André Dick

O bom gigante amigo 19Há cinco anos, Steven Spielberg realizou sua primeira animação, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerra, Lincoln e Ponte dos espiões, ele regressa com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. A adaptação do livro de Dahl, publicado em 1982, foi o último trabalho de Melissa Mathison, a autora de E.T. – O extraterrestre, também desse ano, e Spielberg utiliza seu manancial de imagens para compor uma história melancólica, talvez a mais intensa sua desde A.I. – Inteligência artificial.
Sophie (Ruby Barnhill) é uma jovem que mora num orfanato de Londres e determinada noite ela ouve barulhos da rua, vendo um gigante idoso (Mark Rylance), que a leva para seu país onde há inúmeros gigantes ameaçadores. O gigante, que se intitula Big Friendly Giant (no Brasil, BGA), avisa a Sophie que ela deve ficar no lugar, pois caso contrário poderia contar aos outros sobre a sua existência. Quando um dos gigantes maus, Bloodbottler (Bill Hader), entra em sua casa, Sophie é obrigada a se esconder num vegetal chamado de snozzcumber.

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BFG conta à menina que ele captura sonhos em forma de vaga-lumes num determinado lugar – que parece uma mescla das árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau – e os leva para casa, trabalhando-os como poções. Depois, o gigante espalha esses sonhos luminosos com um trompete gigante enquanto as crianças dormem. No entanto, o grande inconveniente da vida de BFG é enfrentar esses gigantes: além de Bloodbottler, há Bonecruncher (Michael David Adamthwaite), Gizzardgulper (Chris Gibbs), Manhugger (Adam Godley), Childchewer (Jonathan Holmes) e Butcher Boy (Daniel Bacon), entre outros. A história vai guiar BFG e Sophie a Elizabeth II (Penelope Wilton), Rainha do Reino Unido, no Palácio de Buckingham, com sua empregada Maria (Rebecca Hall) e seu mordomo, Mr. Tibbs (Rafe Spall).
Com a trilha incessante de John Williams, o início de O bom gigante amigo lembra bastante a adaptação de Spielberg para Peter Pan, Hook – A volta do Capitão Gancho e o episódio que ele dirigiu para No limite da realidade (sendo que neste o espaço era um asilo em que os idosos queriam se transformar novamente em crianças), também escrito por Mathison. Em razão da fraca interpretação de Barnhill, Spielberg não consegue desenvolver o arco da personagem de Sophie de modo a princípio envolvente, mesmo com a boa atuação de Rylance como o gigante e uma sequência irrepreensível em que ele vai se ocultando nas ruas de Londres, passando-se por postes de luz, para não chamar a atenção de moradores.

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À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar, Spielberg desenha um universo atrativo: a habitação de BFG é um primor de concepção visual e remete a detalhes de Indiana Jones e o templo da perdição, enquanto sua caminhada atrás de sonhos no lado invertido de uma árvore dialoga com o melhor da animação japonesa e com a parte final de A.I., misturando cores vivas e um tom mais sóbrio. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, é de se surpreender com o fato de que ele não selecionou uma boa atriz para o papel central nem trabalha com o sentimento de solidão da infância como em Império do sol, independente de o tom da história ser mais infantil. Spielberg prefere, aqui, mostrar uma espécie de amargo envelhecimento, por meio da figura do gigante, sempre sendo importunado pelos companheiros com quem não se identifica, inclusive porque perto deles tem um tamanho quase minúsculo e porque, principalmente, ele não devora humanos (a quem os gigantes maus se referem como feijões). O trecho em que ele tenta expulsá-los de sua casa é certamente um dos mais angustiantes da carreira de Spielberg, como se não houvesse tranquilidade aparente à vista. O Palácio de Buckingham se torna aquele espaço em que o gigante se torna ao mesmo tempo admirado e acolhido, e pode-se dizer que é o filme do diretor de Indiana Jones que mais presta tributo a uma certa devoção à tradição real inglesa (spoiler: se, em certo momento, há a presença de militares é porque, para os desavisados, isso já aparece no texto original). E Dahl sempre esteve sob observação de Spielberg, tendo escrito nos anos 40 um livro chamado The Gremlins, sobre criaturas que sabotavam aviões britânicos.

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Pela atuação de Rylance, cujo Oscar de ator coadjuvante por Ponte dos espiões, no lugar de Stallone, foi a surpresa deste ano, BFG é certamente o personagem mais triste da exitosa carreira de Spielberg. Ele tem uma sensação de estar sempre deslocado não apenas pelo tamanho como também pelo que parece ter insegurança para dizer, a exemplo do que acontece no encontro com a rainha, e é isso que mais realça esta obra que se transformou numa das piores bilheterias da carreira do diretor (para um orçamento de 140 milhões de dólares, ele recuperou até agora a metade). Misturando animação e atores reais, o que faz lembrar obras como Uma cilada para Roger Rabbit e Se minha cama voasse, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, O bom gigante amigo não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. No roteiro, também é possível ver elementos que interessam a Mathison, que escreveu nos anos 90 o filme Kundun para Scorsese, sobre o Buda, uma espécie de solidão cósmica que já se entrevia no seu grande sucesso E.T. No entanto, falta um elo de ligação entre as camadas do filme que poderiam aproximá-lo ainda mais do espectador, que, no entanto, é recompensado por sua beleza plástica de evidente talento e um traço mais contemplativo que pouco lembra outras animações mais comerciais.

The BFG, EUA, 2016 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Jemaine Clement, Rebecca Hall, Penelope Wilton, Bill Hader, Rafe Spall Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 117 min. Produção: Frank Marshall, Sam Mercer, Steven Spielberg Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Kennedy/Marshall Company, The / Reliance Entertainment / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

Ponte dos espiões (2015)

Por André Dick

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O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado Encurralado, Tubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdida, E.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de Schindler, Amistad e O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificialMinority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.
Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Era momento, portanto, de voltar ao drama histórico, o que ele faz com Ponte dos espiões. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e a animação com Tintim – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.

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Ele parece reunir a mesma equipe (fotógrafo, montador e aqui apenas se ausentou John Williams da trilha sonora) e, inclusive, um ator recorrente em sua filmografia (Tom Hanks, já presente em O resgate do soldado Ryan, Prenda-me se for capaz e O terminal) para entregar um drama bem feito, no entanto perfeitamente previsível dentro de seu esquema como grande diretor de Hollywood. Infelizmente, Ponte dos espiões se ressente não de um grande elenco e de uma grande produção, e sim de ideias que possam comover mais o espectador.
É a história de Rudolf Abel,  preso em 1957 no Brooklyn, enquanto faz o que mais gosta: pintar.  No entanto, ele é visto como um possível espião da KGB, e os agentes recolhem tudo o que pode comprometê-lo. Para sua defesa, é chamado James B. Donovan (Tom  Hanks), especialista em contratos de seguros, com o intuito de os Estados Unidos mostrarem que trazem um julgamento justo. Ninguém espera o que Donovan faz: realmente defender Rudolf Abel, por ter uma simpatia especial por ele. Este é o lado spielberguiano de Ponte dos espiões: nunca fica muito claro por que Donovan fica tão devotado a Abel, além daquilo que vemos: o público toma uma aversão por ele, mas Donovan continua a querer provar que seu cliente é inocente, sem querer saber se é um espião ou não; para ele, isso não importa.

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Ele vai ao juiz do caso, Mortimer W. Byers (Dakin Matthews), para pedir uma suspensão de pena, imaginando uma situação mais adiante. Em meio a isso, o soldado Francis Gary Powers (Austin Stowell) sofre um acidente de avião e é capturado pelos russos, sendo submetido a interrogatórios diários. Do mesmo modo, Spielberg mostra Frederic Pryor (Will Rogers), estudante de economia americana, que, ao visitar sua namorada em Berlim Oriental, passa pela experiência da construção do muro, e acaba sendo preso. Spielberg vai mostrar daqui em diante o que essas experiências têm a ver com a Rudolf Abel, e o que Donovan terá de fazer para que as pessoas no trem que pega diariamente parem de observá-lo com condenação.
Do início ao fim, Ponte dos espiões é um típico filme do Spielberg mais maniqueísta: Donovan é o exemplo de idealista, capaz de fazer justiça por todos os meios. Para ele, tudo pode ser resolvido no diálogo, tanto que ele seja ouvido, e trata-se, por causa de Hanks, num personagem fascinante, embora sem muitas nuances. Em se tratando de um personagem real, Donovan, no entanto, fica no meio-termo quando passa a ser peça de um jogo maior, a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Não há, aqui, os detalhes emocionais que vemos em A lista de Schindler, Soldado Ryan, mesmo no mais recente Lincoln (no qual Day-Lewis dava um componente mais altivo ao presidente americano) e outras peças dramáticas de Spielberg: tudo é levado de forma mais ou menos dispersa, sem os graus de tensão necessários, a não ser em seus primeiros 40 minutos, que lembraram muito o ritmo do excepcional JFK, de Oliver Stone, inclusive pelos cenários soturnos e pela relação de Donovan com a família.

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Há uma influência clara, na maneira de filmar, de Petzold, principalmente de Barbara e Phoenix, assim como de O espião que sabia demais, mas falta a Spielberg um ponto maior no que diz respeito à construção subjetiva dos personagens. Há sempre um pouco de de previsibilidade em cada um deles, e principalmente Abel não tem seus caracteres elaborados, o que é uma pena, em razão de Mark Rylance, cuja atuação fica tremendamente superestimada pelo tempo de duração e o roteiro. Thomas Waters, o chefe de Donovan, feito por um subaproveitado Alan Alda, é também o limite do maniqueísmo, ao mesmo tempo que Jesse Plemons é desperdiçado como Murphy, amigo de Powers. No entanto, existe em torno dos personagens uma atmosfera maravilhosa de época, uma grande reconstituição em detalhes, principalmente nos figurinos e no comportamento gestual dos atores e personagens. Houve realmente um estudo.minucioso da época em que o filme se passa, sempre uma característica dos filmes de Spielberg: o espectador fica imerso nas imagens. Por outro lado, essas imagens parecem apresentar os personagens a certa distância, em que nunca ganham a verdadeira importância. O roteiro, assinado também pelos irmãos Joel e Ethan Coen (que parecem emprestar sua assinatura a filmes históricos feitos por outros diretores, tomando como exemplo Invencível), não chega a trabalhar exatamente o terceiro ato, tornando tudo algo muito próximo de uma fantasia e não exatamente de um filme com certa legitimidade histórica. Muito tem se dito sobre o patriotismo de Ponte dos espiões: isto não é exclusividade do filme, e sim do cinema-norte-americano e não seria uma falha se tivesse um ponto de vista mais interessante. Spielberg tem uma verdadeira paixão pelo cinema e por filmar. Quando ele acredita estar mostrando algo espetacular, é seu problema: ele consegue atingir este limite quando não tem essa pretensão.

Bridge of spies, EUA, 2015 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Sebastian Koch, Amy Ryan, Scott Shepherd, Alan Alda, Austin Stowell, Mikhail Gorevoy, Jesse Plemons, Dakin Matthews  Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Matt Charman Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: DreamWorks SKG / Fox 2000 Pictures / Marc Platt Productions / Participant Media

Cotação 2 estrelas e meia 

Hook – A volta do capitão Gancho (1991)

 Por André Dick

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Esta fantasia de Spielberg teve alguns problemas durante a produção, mas resultou num conto de fadas original. Isso porque o roteiro atualiza a trama e explora a maldade do vilão, indo um pouco na linha contrária da adaptação em desenho dos estúdios Disney, sendo até mais interessante que a história de James Matthew Barrie (daqui em diante, spoilers). Agora o menino que não queria crescer, cresceu e virou Peter Banning (Robin Williams), executivo sem tempo para a mulher, Moira (Caroline) e os dois filhos pequenos, Charlie (Korsmo) e Maggie (Amber). Em viagem a Lonres, onde reencontra a avó Wendy (Maggie; na adolescência, Gwyneth Palthrow), ele tem seus filhos capturados pelo capitão James Gancho, e precisa voltar a ser criança para tê-los de volta. A fada Sininho (Julia) o leva para a Terra do Nunca, onde se encontra o enorme navio do vilão, Jolly Roger, e a tribo dos garotos perdidos. Arranja um duelo com o pirata, mas antes precisa esquecer seu lado adulto e cheio de compromissos e se concentrar numa espécie de volta forçada à infância esquecida. Para isso, Sininho tenta conseguir alguns dias de treinamento, mas quem acaba roubando a cena é o Capitão Gancho (Hoffman, em bela atuação) e seu braço direito Barrica (o excelente Bob Hoskins), emprestando humor – algumas vezes escrachado – às cenas. Com uma parte técnica impressionante, trilha de John Williams nos seus picos mais sentimentais e uma mensagem comovente, a trama de Malia Scotch Marmo, Nick Castle Jr. e Jim V. Hart sempre interessa, mas Hook é profundamente irregular em seu resultado.

Hook

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O primeiro problema é que nunca se decide em ser uma homenagem à história original, sempre agindo como uma espécie de sequência, ou um filme infantojuvenil ou melancólico (mais direcionado para adultos). Revendo hoje em dia, sua premissa é bastante próxima daquela de Prenda-me se for capaz, em que Steven Spielberg fez uma mistura divertida entre ação, comédia e drama, na qual DiCaprio interpreta Frank Abagnale Jr., uma espécie de minigênio desvirtuado que se torna falsificador de cheque e passa a assumir diversas personas para conseguir ganhar dinheiro (como ser médico e se casar com a filha de um magnata). Talvez por causa de DiCaprio, que faz tão bem Frank. Ele precisa se desvencilhar do agente do FBI (Hanks), que precisa prendê-lo. Encontra-se furtivamente com seu pai (Cristopher Walken), admirador de suas ações e abandonado pela mulher. Frank fixou aquela imagem infantil de família perfeita e não quer se desligar dela. Este é o mote do filme, sobretudo quando Frank se torna copiloto de avião sem, claro, nunca ter pilotado nenhum. DiCaprio tem uma imagem adulta e infantil, o que cabe bem num filme esteticamente bem produzido, com bela fotografia dos anos 60-70 e uma direção de arte bem cuidada. Os momentos em que o agente quase pega Frank são muito bem feitos e humorados, graças à dupla central, e Spielberg faz, como em Hook, uma espécie de releitura de alguém que não quer crescer, que precisa habitar um mundo de fantasia, mas ao mesmo tempo é chamado para a realidade.
O Peter Banning de Robin Williams, numa versão piorada de seu Popeye de Altman, precisa aprender a conciliar sua vida de empresário com a de pai, e tem em Sininho (Julia Roberts reduzida por Spielberg a uma coleção de sorrisos) sua confidente. Ele não lembra praticamente de nada que remete à infância. Seu dia a dia é dedicado à vida no escritório. Hook apanha Spielberg no conflito central de sua carreira, o que a torna também tão diferenciada: depois de dois filmes dramáticos de larga escala, A cor púrpura e Império do sol, com intenções de ganhar Oscar, ele fez o irregular Além da eternidade e retornou, aqui, ao molde que o havia feito conhecido a partir de Contatos imediatos, mas sobretudo de E.T. e da série Indiana Jones. Assim como Banning, Spielberg sabe que cresceu e esqueceu deliberadamente (ou quis esquecer) de determinados elementos que nortearam sua trajetória. No entanto, sente-se culpado e deseja ter novamente a atenção dos filhos – a plateia infantojuvenil – já adulta.

Hook.Filme 9

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Nesse sentido, com seu jogo de cores bonito, mas forçado, e sua direção de arte espetacular – embora nunca nos sintamos em outro universo, mas um universo de estúdio, pensado e elaborado para o filme –, Hook consegue atrair, mas sempre deixando o espectador adotando um recuo em relação às suas intenções mais claras. Ele tem elementos do fantástico, que Spielberg exploraria dois anos mais tarde novamente em Jurassic Park, mas uma espécie de tristeza, como O império do sol. Seus altos se concentram na tentativa de colocar o Gancho como uma figura necessária para que Banning assuma a paternidade. Com sua aversão à figura do crocodilo, que na obra de Barrie o colocou numa tentativa de escapar a qualquer relógio, é ele que sinaliza a falta de interesse em que o tempo passe na Terra do Nunca e, se Spielberg coloca um Peter Pan já com cinquenta anos em roupas verdes, tentando voar ao lado dos Garotos Perdidos, e enfrentando o atual líder deles, Rufio (Dante Basco), também há uma sinalização dele para territórios até então inexplorados com a mesma atenção, como a melancolia da separação dos filhos e, principalmente, o fato indesejável de ver os filhos realizando os sonhos ao lado do vilão de contos de fadas. E, neste ponto, Dustin Hoffman e Bob Hoskins formam uma ótima parceria. Ao mesmo tempo, é a primeira vez que realmente um personagem central de Spielberg valoriza estar ao lado da família depois do Capitão Brody de Tubarão. Não víamos isso em Contatos imediatos, E.T. e na solidão aventureira de Indiana Jones, tampouco em A cor púrpura. É como se Spielberg visse um elemento que não tinha tanto destaque em sua obra, na mesma época em que começou a aumentar sua família na realidade. E seu encontro com este elemento se dá um pouco pela culpa. Há menos espontaneidade do que vemos em E.T. na apresentação, por exemplo, dos Garotos Perdidos, como se Spielberg não conseguisse mais o mesmo equilíbrio mostrado anteriormente – e o embate entre Peter Pan e Rufio, num jantar multicolorido, por meio de palavrões, é um exemplo do campo em que Spielberg nunca foi bom, o do humor.
Não é possível, ao final, não ver um exagero quando Peter Banning volta da Terra do Nunca e reencontra a família, com um discurso que tenta ser comovente, auxiliado pela sinfonia de John Williams, e soa apenas forçado, desmanchando um pouco a energia que cerca a atmosfera tanto da Terra do Nunca quanto de Londres (Harvey Weinstein teria sido bem-vindo aqui com sua obsessão em editar filmes). Ainda assim, com todos os seus problemas, Hook continua sendo uma fantasia a ser vista e apreciada, mostrando uma transição interessante na obra de Spielberg, na qual o cineasta se revela por completo, também como autor.

Hook, EUA, 1991 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dustin Hoffman, Robin Williams, Julia Roberts, Bob Hoskins, Maggie Smith, Caroline Goodall, Charlie Korsmo, Amber Scott, Laurel Cronin, Phill Collins, Dante Basco Roteiro: Nick Castle Jr., Jim V. Hart, Malia Scotch Marmo Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Gerald R. Molen, Jerry Molen Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: John Williams Duração: 135 min. Estúdio: Amblin Entertainment / TriStar Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

Uma cilada para Roger Rabbit (1988)

Por André Dick

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Duas crianças causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é Mary Poppins(Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Van Dyke neste filme de 1964. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Alguns o consideram um musical, outros um filme direcionado ao público infantil, mas é difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, Mary Poppins, de Robert Louis Stevenson, marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).
Outra referência distante a misturar desenho animado com atores foi A canção do sul, de 1946, também dos estúdios Disney, ganhador do Oscar de canção (“Zip-A-Dee-Doo-Dah”), e com cenas antológicas. É o retrato de uma criança, que vai viver no sul dos Estados Unidos com a mãe. Lá, acaba fazendo amizade com um homem (James Baskett), contador de histórias sobre um coelho, uma raposa e um urso – as cenas animadas são ótimas –, o que acaba provocando a vaidade da mãe do garoto. É uma pequena obra-prima.

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Uma cilada para Roger Rabbit, baseado no romance homônimo de Gary K. Wolf, reuniu as técnicas desses filmes do final dos anos 1980 com os ganhos da Industrial Light & Magic de Goerge Lucas. Tecnicamente impecável – ganhou Oscars de montagem, efeitos sonoros, efeitos especiais e melhor animação especial –, é um dos melhores filme de Robert Zemeckis (Febre de juventude, De volta para o futuro e Forrest Gump), também porque consegue mostrar uma ambientação histórica (a Hollywood dos anos 40, mais exatamente de 1947, ou seja, durante a II Guerra Mundial), mais rara em sua trajetória. Ele acerta desde a escolha do elenco até os atores que dublam os desenhos.
Começa em plena ação animada, em que o coelho Roger tenta salvar Baby Herman (voz impagável de Lou Hirsch) de um tombo. Em seguida, Baby sai resmungando do estúdio, empurrando os  humanos. Isso porque os desenhos animados vivem em Toontown, em Hollywood, convivendo com seus criadores. R.K. Maroon (Alan Tilvern) contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, excelente) para investigar se Jessica, a mulher de um desenho animado, Roger Rabbit (com voz trepidante de Charles Fleischer), que trabalha para a Maroon Desenhos, está cometendo traição.
Depois de ser informado da possível traição de Jessica com Marvin Acme (Stubby Kaye), dono da Corporação Acme e proprietário da Toontown, este é morto e Roger Rabbit vira o principal suspeito. O coelho procura Valiant para tentar se salvar. O detetive, com a ajuda da namorada Dolores (Joanna Cassidy) e psicologicamente abalado depois da morte do irmão, precisa repensar na ideia de tentar ajudar um desenho – cuja imagem ainda lhe traz calafrios. Quando chega ao local do crime, o detetive conhece o juiz da Corte Superior Distrital de Toontown, Doom (Cristopher Lloyd, o Doc Brown de De volta para o futuro), que procura por Roger.

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Mistura-se a essa ideia inicial o fato de que Acme havia feito um testamento deixando Toontown para os desenhos, que não interessa a Doom, que pretende construir uma autoestrada no lugar. No entanto, ele quer mais: destruir os desenhos animados com um caldo químico verde capaz de dissolvê-los, e anda cercado de doninhas que dirigem um furgão policial.
A intensidade de cores se completa com cenas brilhantes – a perseguição no carro Benny, os personagens dos estúdios Disney desfilando pelos cenários (personagens de Fantasia, Dumbo, Peter Pan, Mickey Mouse) – e humor na medida certa (o momento em que Valiant encontra Betty Boop no show de Jessica). Os elementos anteriores da trajetória de Zemeckis estão aqui: como em Febre da juventude e De volta para o futuro, Zemeckis emprega uma sucessão de situações divertidas, mas sem o peso descartável de grande parte dos blockbusters. Do mesmo modo, consegue humanizar personagens que poderiam ser vistos apenas como rótulos. Embora Valiant represente um detetive situado nos anos 40 e numa situação, apesar de diferente, típica do cinema noir, ele consegue se desvencilhar sempre de uma pretensão extra, embora pareça, ao mesmo tempo, atingido por seu passado – e que conduz sua desconfiança ao mundo das animações. Zemeckis também consegue colocar num limite a figura de Roger Rabbit sem que ele soe insuportável, quando no início ele assiste a uma apresentação de Donald e Patolino (cada qual em seu piano, prestes a uma mútua destruição) e depois acaba tendo seu lado emotivo e transtornado à mostra – isso sem falar na cena em que ele está no cinema se divertindo com Pateta, para ele o maior astro. Com a voz de Kathleen Turner certamente reprisando Corpos ardentes e influenciada pelas divas dos anos 40, Jessica também consegue marcar presença entre Valiant e os vilões.
No entanto, há um subtexto bem mais grave nos gracejos de Uma cilada para Roger Rabbit, que é a própria condução de um personagem que deseja exterminar uma cidade de desenhos animados com um caldo químico capaz de fazê-los desaparecer (a partir daqui, spoilers). Os requintes de maldade do juiz Doom e a necessidade de passar por cima dos bondes para dar visibilidade ao seu desejo é também a necessidade de, em meio à II Guerra Mundial, lucrar não mais por meio da arte, mas em cima da destruição. O juiz Doom, de certo modo, consegue simbolizar que o maior inimigo esconde, por trás, a própria composição daqueles que combate – composição desvirtuada – e o seu figurino é similar ao do nazista de Os caçadores da arca perdida. Ou seja, ele, mais do que destruir sua origem, quer, por meio dela, atingir outra fonte de faturamento. Por isso, a cena de Roger e Jessica pendurados no final tentando fugir de uma mangueira com o produto químico que pode destruí-los, contra um muro que se abre para a cidade de Toontown, representam a linha que, assim como separa a realidade da fantasia, aproxima as duas, assim como Se minha cama voasse. Para Zemeckis, durante a II Guerra Mundial, a ideia de infância da humanidade era apagada pela tragédia. E por isso Uma cilada para Roger Rabbit conseguiu se tornar uma obra única no gênero, um dos responsáveis por reerguer o campo das animações e que, mais do que acrescentar agradáveis surpresas e reviravoltas bem delineadas, é um acabado produto histórico.

Who framed Roger Rabbit, EUA, 1988 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Charles Fleischer, Joanna Cassidy, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Lou Hirsch, Richard Le Parmentier, Betsy Brantley, Joel Silver Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Seaman Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Frank Marshall, Robert Watts Duração: 104 min. Estúdio: Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Silver Screen Partners III

Cotação 4 estrelas e meia

E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

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Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre pacífico, diferente de todos que haviam aparecido no cinema – no mesmo período, John Carpenter lançava seu assustador O enigma de outro mundo –, uma espécie de símbolo da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido ainda o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de J.M. Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas. Parece mesmo a síntese da trajetória de Spielberg, por todo seu referencial envolvendo figuras que remetem a uma fábula, mas a verdade é que ele nunca esteve tão à vontade com este universo quanto aqui. Recém-saído de um êxito do cinema de ação em Os caçadores da arca perdida, e ainda aproveitando o mistérios de seres do outro mundo trazido por Contatos imediatos do terceiro grau, Spielberg, numa época em que já pensava na adaptação de Tintim para o cinema, em conversas com Hergé (que viria a concretizar com Peter Jackson em 2011), antecipa, e sintetiza, aquele cinema em que o foco são as casas do subúrbio do interior dos Estados Unidos, tão bem trabalhadas depois em filmes produzidos por ele, como De volta para o futuro, Os Goonies e Gremlins, com suas crianças e jovens envolvidos com questões fantásticas, desde uma máquina de tempo, passando por um mapa de tesouro até monstros que vão ao cinema ver Branca de Neve e os 7 anões.

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Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais objetivo, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estrelou um êxito e se destacaria, adulto, apenas em Gangues de Nova York) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa (representados pelo personagem do frio Peter Coyote), são, em grande parte, ameaçadores, e o foco aqui seria transformar Elliott numa espécie de personagem de Richard Dreyfuss em Contatos imediatos, sem a paranoia equivalente. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão, Michael (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore), a caçula. Sua mãe, Marie (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. Ao mesmo tempo em que ela parece ser uma mãe preocupada, ela habita um universo paralelo: é antológica, por exemplo, a sequência em que ela vai ao armário ver de onde vem um barulho, e se depara com inúmeros bonecos organizados milimetricamente, com destaque para um deles.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos do terceiro grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa, tanto quanto assustadora, no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, a cultura pop consequente dos anos 70 (e Spielberg faz uma homenagem a Star Wars, de George Lucas), mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta, uma espécie de versão mais tranquila de Poltergeist, lançado à época, mas não totalmente livre de um mistério.

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Marie, a mãe de Elliott, foi abandonada pelo marido, que se encontra com a amante no México, e as reuniões à noite trazem amigos de Michael – entre eles, C. Thomas Howell, que depois faria uma carreira razoável, inclusive O selvagem da motocicleta, de Coppola, no ano seguinte –, das quais o personagem principal tenta participar, sem muito êxito. A alternativa é olhar para as estrelas por trás da névoa da fumaça e da louça a ser lavada. Sob certo ponto de vista, Elliott precisa de uma amizade, e ela surge na figura do extraterrestre solitário. Uma ida à floresta para jogar balas pelo chão (como na fábula João e Maria) representa também o chamado à criatura de outro mundo – e ela nunca foi tão plausível quanto na criação de Carlo Rambaldi. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar). Nesse sentido, tudo acaba criando um ambiente de nostalgia, quando, por exemplo, Spielberg, durante uma festa de Halloween, coloca o ET tentando correr atrás de alguém fantasiado de Yoda e, depois de chegar à floresta, ajuda a construir um artefato que pode emitir sinais para sua volta, utilizando-se de galhos de árvore e os objetos mais estranhos, sintetizando, numa determinada parte, a distância e a aproximação com o desconhecido, além da impressionante melancolia das imagens (quando Michael, de bicicleta, vai tentar encontrar o ser espacial).
No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott, a metalinguagem divertida empregada por Spielberg, com o extraterrestre vendo um filme que se reproduz na realidade, com um beijo romântico. Spielberg está à vontade aqui em desenhar analogias, o que se desgastaria em sua trajetórias, em filmes interessantes, mas não tão efetivos, quanto Hook, em que a obra de Barrie não se torna mais uma referência entre outras, mas a própria tentativa de fazer uma versão adulta deste filme. E o vínculo que ele estabelece entre Elliott e o ET é eficiente, mesmo na parte final, em que parece haver uma manipulação emotiva, sobretudo pela atuação convincente de Henry Thomas.
Na versão comemorativa de 20 anos e E.T., em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do extraterrestre tomando banho, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, e a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 (relançada em Blu-Ray) é sem retoques. Assumido conto de fadas, uma espécie de síntese para o que os estúdios Disney sempre tentaram fazer no cinema com atores, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia de Allen Daviau, sobretudo nas cenas noturnas da floresta e nas perseguições de bicicleta (sobretudo a da ladeira) –, E.T. é uma espécie de símbolo das perdas e reencontros da infância, a cada ano mais contemporâneo.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures

Cotação 5 estrelas

Os Goonies (1985)

Por André Dick

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Durante a década de 1980 – mais especificamente entre 1984 e 1985 –, Steven Spielberg, além de ter realizado filmes antológicos, produziu peças únicas. São filmes que remetem aos recentes Super 8 e Cowboys e aliens, mas com um fôlego mais remanescente. Apesar de ter produzido outros sucessos naquela década, como Poltergeist (1982), Fievel (1986), Uma cilada para Roger Rabbit (1988) e Querida, encolhi as crianças (1989), foi nesses anos que Spielberg compôs, e que faria acréscimo a E.T., uma espécie de imaginário da infância e da adolescência, referenciado em cidadezinhas dos Estados Unidos ou em microcosmos de um detetive antológico.
Em 1984, ele produziu Gremlins, por exemplo, em que se mostra uma cidadezinha do interior sendo invadida por monstrinhos. Em 1985, por sua vez, em O enigma da pirâmide, o diretor Barry Levinson (Rain man), juntou-se com Spielberg para fazer uma adaptação juvenil das histórias de Sherlock Holmes e seu fiel companheiros das histórias de Conan Doyle, Watson, na qual se revela como eles se conheceram num colégio de Londres e como se deu seu primeiro caso, envolvendo casos estranhos, relacionados com um dardo venenoso que leva as vítimas a terem alucinações, e reunidos numa diversão que, à época, não teve grande público, mas acabou se tornando cultuada, também em razão de sua qualidade visual e de trama bem construída.
Entre a cidadezinha escondida de Gremlins (mas não devemos esquecer aquela em que mora Marty McFly em De volta para o futuro) e o lado detetivesco de Sherlock Holmes (mas também das histórias de capa e espada de Errol Flynn), tivemos finalmente Os Goonies, com roteiro do mesmo Chris Columbus de Gremlins e O enigma da pirâmide, pode ser vista a marca do produtor Steven Spielberg: elenco, roteiro e fotografia. Ainda tem como diretor Richard Dooner, capaz de fazer quase sempre diversões inteligentes (como Superman, Ladyhawke e a série Máquina mortífera). Com muita ação, elenco de crianças, canção marcante dos anos 80 (a cargo de Cindy Lauper) e uma história de mapa do tesouro, remetendo à infância, Os Goonies pode ser facilmente confundido como uma espécie de montanha russa, que hoje poderia vender muitos bonecos. No entanto, a nostalgia dele é mais intrínseca.

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Depois de uma abertura dinâmica, em que os personagens são apresentados ao mesmo tempo em que acontece a perseguição da polícia a um mafioso que está fugindo da cadeia com a ajuda da mãe e do irmão, chegamos à casa de Mikey (Sean Astin), um garoto asmático, irmão de Brandon (Josh Brolin), que não conseguiu tirar sua carteira de motorista. No sótão de sua casa, Mikey encontra um mapa de tesouro, com inscrições em espanhol, do pirata Willy Caolho, junto com sua turma: há um minigênio, Dado (Quan), um gordinho, Bolão (Cohen), e um mentiroso compulsivo, Bocão (Feldman). Eles vivem nas Docas Goon, de Astoria, e, como suas famílias serão em breve despejadas de casa por não pagarem os impostos, eles resolvem procurar o tesouro. Em sua jornada, eles encontram duas meninas, Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton), que entram sem querer na busca e enfrentam uma família de criminosos, justamente aquela que estava sendo perseguida nos primeiros minutos, os Fratelli (tendo a excelente Anne Ramsey como mãe e líder e os filhos interpretados por Robert Davi e Joe Pantoliano). Eles escondem, no porão de uma restaurante abandonado à beira da praia, além de uma máquina para falsificação de dinheiro, um irmão que tentam ignorar, Sloth (John Matuszak), alimentado com pratos de comida indesejáveis. Para essa casa, o grupo de jovens se dirige, sem saber, claro, que ela esconde também uma passagem para o tesouro que procuram, com catacumbas cheias de morcegos e passagens imprevisíveis. Os Fratelli acabam aprisionando Bolão e, depois de um interrogatório, conseguem obter a informação de que é procurado um tesouro.
No entanto, essa jornada também reúne outros componentes: um é, claramente, a despedida da infância, no interesse de Mike por Andy, pretendida pelo irmão, e de Bocão por Stef (este mais subentendido), e as confusões entre os personagens no que dizem respeito a abandonar o local de origem e à despedida da bomba de ar. Não há dúvida de que Donner sucumbe, em muitos momentos, a uma espécie de Indiana Jones e o templo da perdição mais infantojuvenil (mesmo pela presença de Dado, o Short Round) e com picos de 007, pela bugiganga de invenções que carrega. Ainda assim, onde inicia o exagero, ele consegue logo encadear uma diversão, como naquele momento em que eles passam por baixo de um banheiro do clube pertencente às famílias ricas da cidade – as quais também querem despejá-los –, representadas por Troy (Steve Antin), e seu pai, Elgin Perkins (Curtin Hanson), ou embaixo de uma fonte dos desejos, em que as moedas são vistas como moeda de troca para que as casas dos pais não sejam vendidas e, irremediavelmente, ninguém se mude e a infância possa ganhar mais um tempo adiante. Os Fratelli, em determinado momento, passam a se encarregar da parte ao mesmo tempo assustadora. É evidente que em muitos momentos a vilania deles é exagerada, parecendo uma condescendência com o universo infantojuvenil, e que alguns personagens soam um tanto esquemáticos em algumas situações.

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De qualquer modo, Os Goonies consegue estabelecer um padrão de qualidade principalmente porque nenhum dos personagens chega a ser estereótipo. Donner sabe delinear cada um com determinada personalidade e sempre estamos diante de crianças, e não de miniadultos repetitivos, mesmo que cercados de pais um tanto desligados, e a peregrinação de Bocão com a mãe de Mikey (Mary Ellen Trainor) no início do filme, com a empregada que fala apenas espanhol (Lupe Ontiveros), é um exemplo, como caberia bem igualmente num filme de John Hughes.
Também por causa do elenco. Destaque-se que, além de atores conhecidos nos anos 80, como Feldman e Ke Quan, Os Goonies apresentou nomes que acabaram se mantendo, como os de Sean Astin (que faria Sam, em O senhor dos anéis), Brolin (de inúmeros filmes, a exemplo de Onde os fracos não têm vez e Wall Street – O dinheiro nunca dorme) e Plimpton (que estrela a série de TV Raising Hope).
Nesse sentido, como poucos filmes, Os Goonies tem o intuito de retratar uma determinada geração, como Spielberg tinha a sua. Lá estão as nostalgias dos filmes de piratas, monstros e a ação como em uma parque assustador, com catacumbas se abrindo e as crianças fugindo para um lugar onde os pais não representam a referência imediata, e sim a fantasia. É difícil negar o interesse que Os Goonies desperta sobretudo a partir dessas nostalgias, com sua vista para o mar num dia de inverno, árvores se agitando, bicicletas em curvas sinuosas de uma estrada à beira de uma baía, o acolhimento num esconderijo que pode causar também outros direcionamentos para a jornada, os sustos e os enfrentamentos com quem deseja, de algum modo, interromper a infância em curso. Há algo nele que é substancialmente ingênuo e essencial para a compreensão das próprias histórias, reais ou inventadas.
Daí, para Spielberg, e esses filmes esclarecem bem, as aventuras maiores estão concentradas em personagens que moram em cidades distantes ou para as quais ainda não há espaço – como as descobertas detetivescas de Sherlock Holmes. Depois delas, é certo que se abriu um nicho para novas produções, mas dificilmente com a mesma autencidade.

The Goonies, EUA, 1985 Diretor: Richard Donner Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Mary Ellen Trainor, Lupe Ontiveros Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner Roteiro: Chris Columbus Fotografia: Nick McLean Trilha Sonora: Dave Grusin Duração: 115 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / Amblin Entertainment

Cotação 5 estrelas


Lincoln (2012)

Por André Dick

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Desde o ano passado, Spielberg vem tentando voltar à forma dos dramas que apresentou com talento nos anos 80 e nos anos 90, apenas repetida recentemente em Munique. No entanto, em Cavalo de guerra, era impedido por uma necessidade de soar emocionante, o que bloqueava qualquer tentativa de ser efetivo no seu objetivo de mostrar a amizade entre um menino e um cavalo que partia para a guerra. Ficou a sensação, também com As aventuras de Tintim, de que Spielberg é um diretor especialista mesmo em aventura e diversão, nunca descartável. Este ano, já com todas as críticas feitas, e mesmo com a indicação ao Oscar de melhor filme de Cavalo de guerra, Spielberg tenta apresentar sua faceta mais comedida. Nunca se viu, em toda sua trajetória, um filme tão sóbrio quanto Lincoln, e John Williams, que colocou sua orquestra em vigília em Cavalo de guerra, aqui tenta, no máximo, dar um acompanhamento sonoro muito discreto às imagens. É visível ser um projeto planejado por Spielberg durante muito tempo. Um cineasta com capacidade de selecionar e abandonar projetos, mas nunca esquecê-los totalmente, ele se baseia desta vez num roteiro de Tony Kushner e se envolve num tema muito difícil em sua filmografia: a política. Se em Soldado Ryan, há um pouco de discurso patriótico, e em A lista de Schindler uma compreensão histórica do Holocausto, a política podia ser vista como elemento mais significativo apenas no subestimado Munique.
Já na sequência inicial, com Lincoln perguntando a dois soldados negros sobre a trajetória deles, Spielberg anuncia que o presidente norte-americano pretende tanto ouvir quanto, principalmente, fazer-se ouvir. O que se passa em quase duas horas e meia seguintes é justamente isso. Na persona de Abraham Lincoln, Daniel Day-Lewis é um ator novamente extraordinário, embora, importante lembrar, aqui não alcance Joaquin Phoenix, em O mestre. Habituado a compor tipos específicos (ganhou o Oscar por Meu pé esquerdo e Sangue negro, tendo sido indicado, entre outros, pelo açougueiro de Gangues de Nova York), Day-Lewis consegue transformar o presidente republicano num homem ao mesmo tempo humano e falho, mas decidido a aprovar a 13ª emenda, que trata da abolição dos escravos, esclarecido já num diálogo inicial com sua esposa, Mary Todd (a não menos notável Sally Field). Nesse sentido, Spielberg coloca o personagem num momento decisivo para o destino dos Estados Unidos: a Guerra Civil Americana traz milhares de mortos e sabe-se que é preciso terminar com ela e evitar que os estados escravistas se sobressaiam com algum recurso.

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As reuniões de gabinetes, com conselheiros e integrantes do governo, têm o intuito de conseguir votos da oposição no Congresso para que se concretize a aprovação da 13ª emenda. Obviamente, trata-se de uma prática de persuasão e de favores, e Spielberg consegue elaborar isso de maneira incisiva e que não coloca o ex-presidente norte-americano simplesmente com sua imagem mítica. Com a colaboração decisiva do secretário de estado William Seward (David Strathairn), e do deputado Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones, cuja interpretação, apesar de boa, não se equivale às de Cristoph Waltz e Phillip Seymour Hoffman), que representa o discurso pelo abolicionismo, Lincoln apresenta, em seus bastidores, também outro caminho. Do outro lado, os democratas são representados primeiramente por Fernando Wood (Lee Pace) e George H. Pendleton (Peter McRobbie), e revelam a faceta menos convicente de Lincoln: um certo maniqueísmo de que os vilões são maquiavélicos e despreparados para qualquer reviravolta.
Há alguns homens, não aproveitados na medida certa, que percorrem os balcões dos deputados atrás da aprovação e não podem ser descobertos (John Hawkes, Tim Blake Nelson e um quase irreconhecível James Spader), e, enquanto Lincoln tenta convencer sobre a importância da mudança histórica, temos seu filho, Robert (Joseph Gordon-Levitt), que pretende participar a todo custo da guerra, em conflito com a indiferença paterna, com suas atenções para o filho pequeno, Tad (Gulliver McGrath). Há, no relacionamento de Lincoln tanto com a mulher, conflituoso, em razão da morte de outro filho, por febre tifoide, quanto com Robert uma espécie de diálogo de Spielberg com outras obras suas.  No entanto, alguns filmes dele tratavam o tema com autoindulgência, como Hook – A volta do Capitão Gancho, Inteligência artificial e Guerra dos mundos. O que se sobressai, sob outro ponto de vista, é a necessidade de Lincoln demonstrar sua retórica. No momento em que dialoga com Taddheus, representante do governo a respeito da emenda, num porão, ele ingressa nas decisões políticas, mas em outros momentos ele quer se mostrar a todos. Insistentemente, quase não há emoção, e mesmo se tem uma espécie de frieza, o que não impede de Spielberg fazer uma aproximação do rosto do presidente, como se outro discurso a ser ouvido fosse se sobressair. A emoção, neste caso, acaba sendo substituída pelo maneirismo e cansando, mas sem prejudicar a atuação de Day-Lewis. Desta vez, Spielberg evita o que mostrava de modo excessivo em Cavalo de guerra, ao mesmo tempo em que é um cineasta notável quando quer, com suas características bem dosadas, como em A cor púrpura.

Lincoln.Daniel Day-Lewis.Sally Field

Spielberg

Lincoln também evita mostrar a situação dos escravos, concentrando-se nas relações travadas pelo presidente para que sua emenda fosse aprovada. Isso acaba conferindo, em parte, uma agilidade nas discussões, entretanto, pelo excesso de cenas dentro de salas, gabinetes e da Câmara dos deputados, sem espaço para as cenas de batalha (vistas de maneira distanciada), parece que a vida íntima ou política está distanciada da realidade, que, para Lincoln, ao que se parece, pelo menos nos quatro meses retratados no filme (o que não o torna um registro exatamente biográfico), se encerra na ópera. Também há cenas que poderiam ser expandidas e relacionamentos melhor trabalhados, como o dele e seu filho. Pelo contrário, Spielberg, aqui, acaba afastando-se completamente de qualquer tentativa, como se soubesse que, penetrando esse terreno, poderia voltar a seus excessos. Quando precisa conversar sobre a vontade de o filho se alistar na guerra, Lincoln é incapaz de um gesto que estende a outras pessoas. Ou quando conversa com Elizabeth Keckley (Gloria Reuben), que assessora a sua mulher, com sua pontada antirromântica e melancólica, não menos perdida do que aquela que mostra quando procura alguns deputados. Trata-se, particularmente, de um caminho interessante: para Spielberg, inserido em meio a reviravoltas históricas, querendo atenuá-las com piadas e casos, Lincoln também tinha necessidade de se afastar da realidade. Só isso explica o paradoxo de falar numa democracia que foge ao caos depois de tudo o precisou fazer e antes de passar por soldados mortos em batalha. Esse afastamento da realidade, porém, atinge o filme de Spielberg: em alguns momentos, os personagens são arquétipos e as situações (como algumas ocorridas na Câmara), simplesmente forçadas demais, como se alguns estivessem prontos para finalmente reconhecer as pretensões de Lincoln (“Sim, ele tinha razão!”), sob a contagem dos votos da primeira dama em seu caderno, o que soa, em certa medida, desnecessário.
Mesmo assim, e com sua excessiva frieza, Lincoln é uma visão histórica que merece respeito. Difícil imaginar outra produção com uma reconstituição de época tão detalhada, e isso vai do figurino, passando pela direção de arte, até a fotografia mais uma vez brilhante de seu habitual colaborador, Janusz Kaminski. O modo como ele apresenta a paleta de cores própria do filme, fazendo a cor da terra dialogar com a do céu e os uniformes dos personagens, assim como a luz vazando pelas janelas ou atravessando a cortina, remetendo ao trabalho de Vilmos Szigmond em O portal do paraíso, torna-se, em certa medida, um dos principais motivos do êxito dramático de Lincoln. Spielberg aproveita este elemento para tornar algumas imagens muito próximas de uma pintura histórica, como aquela em Lincoln e sua esposa estão conversando na sala, à noite, ou quando o seu filho caminha para se deparar com uma cena revoltante e o sol ilumina o prédio por trás dele. Grande parte dessa relevância histórica se deve, em igual intensidade, ao respeito evidente de Day-Lewis pelo personagem. Sabe-se que ele não havia aceitado inicialmente a proposta de participar do projeto por não se considerar à altura, tendo sido convencido por Spielberg. É realmente um acerto a sua presença e passa a ser difícil imaginar outro Lincoln como ele. A maneira como ele fala ou caminha, com o corpo um tanto curvado, com poucos gestos, empresta humanidade ao filme. A conversa que ele tem com outros dois telégrafos, além de nunca se repetir com o filho, também é primorosamente contida pela fala de Day-Lewis, mas ao mesmo tempo demonstra um deslocamento por acreditar numa espécie de mudança que escapa à sua presença e deve ser interpretada como histórica. Figuras como Lincoln acabam tendo uma espécie de sobrevida justamente pelo caminho que apontaram, nem que não sejam tão importantes, para os que estavam em torno, como a medida histórica que os cercava. Um homem incapaz de solucionar o que está em torno e precisa abraçar o filho olhando um livro infantil parece ser a premissa de Lincoln e seu sentido não apenas de grandiosidade, e para isso não precisa ser um mito, como também de recolhimento.

Lincoln, EUA, 2012 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, David Strathairn, Michael Stuhlbarg, Jackie Earle Haley, Gloria Reuben, Adam Driver, Jared Harris, James Spader, Lee Pace, Gulliver McGrath, Walton Goggins, John Hawkes, David Oyelowo, Hal Holbrook, Tim Blake Nelson, Peter McRobbie Produção: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy Roteiro: Tony Kushner, John Logan, Paul Webb, baseado na obra de Doris Kearns Goodwin Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 150 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Amblin Entertainment / DreamWorks SKG / Imagine Entertainment / Reliance Entertainment / Participant Media / The Kennedy/ Marshall Company / Twentieth Century Fox Film Corporation / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia

As aventuras de Tintim (2011)

Por André Dick

As aventuras de Tintim 4

Tintim é um menino repórter com característica detetivesca, enquanto Indiana Jones era um arqueólogo. Foi justamente depois de Os caçadores da arca perdida que Spielberg tomou conhecimento do personagem de Hergé, ao qual compararam Indiana (em 1983, Spielberg iria conhecer Hergé durante as filmagens de Indiana Jones e o templo da perdição quando este veio a falecer). Spielberg, no entanto, havia prometido ao criador do Tintim que adaptaria as aventuras do personagem para o cinema. O resultado é surpreendente, com potencial para resultar em várias imitações e continuações (apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos). A animação é feita sobre atores reais, mas nem por isso deixa de ser animação: pelo contrário, parece ser uma animação ainda mais densa (não lembro de outro desenho que tenha tanta profundidade nas imagens, quanto aos detalhes e à ambientação). Não há como comparar Tintim com desenhos recentes e sem o mesmo toque de criatividade, apenas tentando ingressar no que a Pixar e a Disney entregaram em momentos altos.
Os caçadores, como se sabe, é a aventura que consagrou o arqueólogo Indiana Jones como o herói da década de 1980, uma espécie de 007 sem sustentação política que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula, ele vai em busca da arca perdida, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês Belocq, ele ainda arranja tempo para namorar a divertida heroína (Karen Allen, que regressaria em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), que reencontra num bar com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas. As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina e, por isso, apesar de parecer simples, é um personagem complexo. Ele e, claro, seus medos: de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda.

As aventuras de Tintim

As aventuras de Tintim 2

Tão bom ou melhor que os antigos seriados de TV, arrebatou cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de George Lucas e Phillip Kaufmann, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e músico (mais um trabalho irrepreensível de John Williams).
Tintim (Jamie Bell), que para Spielberg é um reingresso naquele universo de Os caçadores da arca perdida (e não tanto da série Indiana Jones subsequente), para descobrir um mistério relacionado à réplica em miniatura de um galeão, vai até um navio de verdade, com seu cão Milu, encontrando o capitão Haddock (com movimentos de Andy Serkis captados para a transformação em desenho), que passa quase o tempo todo sem sobriedade alguma. Além do seu humor, Haddock é a peça-chave para conectar o passado e o presente, histórias de piratas e tripulações, mas, sobretudo, de um mistério familiar. Depois, enfrentam o mar e o deserto, além do vilão Sackharine (Daniel Craig). A maneira como Spielberg lida com a amizade de Tintim e Haddock é, aliás, exemplar. Ambos os personagens mostram as aspirações deste universo entre o desconhecido e o real, e representam parte da trajetória de Spielberg: entre o menino curioso em descobrir detalhes que possam levá-lo a um tesouro (o que já vimos em Os Goonies) e um personagem como Haddock, que precisa encontrar seu passado e sua herança familiar para, enfim, conseguir mais clareza em sua trajetória, o que acontece numa fabulosa viagem pelo Saara, com uma ação inesgotável.
Enquanto os personagens centrais vão parar em lugares diferentes, uma dupla de detetives, Dupond e Dupont (Simon Pegg e Nick Frost), em Bruxelas, investiga quem pode ser um batedor de carteiras. Esta faceta de humor é dificilmente encontrada na trajetória de Spielberg (apenas quando o roteiro não costuma ser dele, como na série Indiana Jones ou em E.T. – O extraterrestre). Contudo, lá está Milu, um cãozinho com destreza capaz de dialogar com aquele que desconfia da presença do extraterrestre na casa de Elliott. E lá estão os vilões que não querem deixar o personagem sossegar e, muito mais, como a família Fratelli, em Os Goonies, não estão para brincadeira.

As aventuras de Tintim 5

Há, também, uma parte do filme passada no Marrocos que evoca a parte de Os caçadores passada no Egito, inclusive com a cenografia semelhante, captada pela fotografia notável do habitual colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, e a trilha de John Williams (que ressoa a de Prenda-me se for capaz).
Além do humor, seu excesso de ação garante boa diversão – é de se lembrar, também, a presença de Peter Jackson, de O senhor dos anéis, na produção. Alguns reclamam que o personagem principal não tem vida, ou não se tem nenhuma informação sobre sua família, ou o que a ação é absolutamente inverossímil, mas na verdade se esquece que estamos diante de uma fantasia, em que os personagens de Hergé ganham vida em estilo adequado e, embora não totalmente fiel (pois Spielberg também emprega suas características na montagem da narrativa), ainda assim adequado. Talvez nenhum outro cineasta conseguiria adaptar tal personagem como o faz Spielberg. Como Indiana Jones em 1981 – cujo lado familiar só viria mais à cena em Indiana Jones e a última cruzada.
Excetuando algumas sequências de maior violência para as crianças, este filme de Spielberg é um dos seus melhores nos últimos anos (talvez encontre correspondência apenas com suas peças dos anos 80, excetuando, recentemente, Prenda-me se for capaz). Além disso, para quem pode assisti-lo em 3D, pôde ver o quanto ele foi bem utilizado, ao contrário de em outros filmes, visando apenas o comércio. É impressionante como Spielberg consegue converter em espetáculo o que costuma ser apenas um acréscimo, e como consegue ser mais efetivo do que em Cavalo de guerra, com seu classicismo mal elaborado e mesmo, sem soar pejorativo, antiquado, e como lida melhor com a aventura do que em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Tintim representa o reencontro de Spielberg com a vertente que o tornou conhecido e reconhecido.

The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA/Nova Zelândia, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Craig, Simon Pegg, Jamie Bell, Andy Serkis, Cary Elwes Produção: Peter Jackson, Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 108 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / The Kennedy/Marshall Company / WingNut Films / Columbia Pictures / Paramount Pictures / Nickelodeon Movies / Hemisphere Media Capital

Cotação 4 estrelas