Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

Logan (2017)

Por André Dick

Desde a trilogia X-Men, iniciada por Bryan Singer no início dos anos 2000, até a mais recente, com um elenco jovem, passando pelos filmes de Wolverine, a Fox sempre apostou nesses personagens da Marvel com um apuro temático e visual, tentando criar novas referências para o gênero, com maior ou menos êxito. O personagem estrelado por Hugh Jackman ganhou um filme solo em 2009, com um primeiro ato muito bem feito, para se perder depois em tramas paralelas que não correspondiam à expectativa. A continuação se deu em 2013, com um trabalho visual que remetia a Refn, pelo trabalho com cores e o cenário oriental. Agora, o mesmo James Mangold propõe um encerramento para a trilogia de Wolverine com uma homenagem ao gênero do faroeste. Se A qualquer custo era quase um filme de assalto no qual poderia aparecer Clint Eastwood como justiceiro, Logan homenageia o gênero com seus cenários isolados e empoeirados, que ganham destaque na fotografia de John Mathieson, colaborador de Ridley Scott em obras como Gladiador, Cruzada e Robin Hood e que trabalhou em X-Men – Primeira classe.
O filme se passa em 2029, quando os mutantes estão quase extintos. James “Logan” Howlett, mais conhecido como Wolverine, está morrendo devido ao adamantium em seu organismo. Trabalhando como motorista de uma limousine no Texas, ele vive na fronteira mexicana numa fábrica abandonada, onde também se encontram o mutante albino Caliban (Stephen Merchant) e o Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), cuja idade faz com que ele não tenha mais domínio sobre seus poderes telepáticos. Caliban precisa se manter afastado dos raios de sol e, com seu rosto protegido, ele parece mais alguém preparado para assaltar uma diligência.

Certo dia, Logan se depara com uma moça, Gabriela Lopez (Elizabeth Rodriguez), que trabalhou num projeto chamado Transigen, em que conheceu a menina Laura (Dafne Keen). Logo se colocam em seu encalço, sem saber exatamente os motivos, Donald Pierce (Boyd Holbrook), com os Reavers, seus agentes, e Zander Rice (Richard E. Grant), o criador de Transigen.
Este é o mote inicial para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características que remetem, aqui, igualmente a George Miller, de Mad Max, com sua crueza na abordagem das perseguições de carro e nas cenas de violência. Impressiona o quanto Mangold não evita o traço de violência, embora Wolverine – O filme fosse igualmente impactante nesse quesito.
O roteiro, escrito por Mangold em parceria com Scott Frank e Michael Green, é inteligente ao mostrar o Professor Xavier na posição de um pai de Wolverine e, sobretudo, ao desenvolver sua relação com Laura. Desta vez, Wolverine parece uma espécie de Josey Wales (embora em determinado momento Mangold use imagens de Os brutos também amam, faroeste dos anos 1950), personagem de Eastwood dos anos 70, perseguido depois de perder toda sua família.

Seu sentimento em relação à família obviamente está comprometido pela passagem dos anos e por todos os acontecimentos que o cercaram, mas é quando ele precisa de demonstrar afeto que surge a atuação notável de Hugh Jackman, seu melhor momento no cinema ao lado de Os miseráveis. Não ficam para trás Stewart, numa atuação exemplar, e a menina Dafne Keen, ótima em uma atuação minimalista.
É de se lamentar, perto dessas atuações, que aquelas dos vilões feitos por Holbrook e Grant se sintam tão esvaziadas e com poucas cenas para realmente contribuir com um embate entre partes completamente distintas, que poderia render momentos mais épicos. Tendo sido um apreciador do normalmente menosprezado X-Men – Apocalipse, do ano passado, tende-se a ver Logan apenas por suas indiscutíveis qualidades, sem ao certo ver que ele estabelece um novo parâmetro para esses personagens que não necessariamente está de acordo com o universo em geral da Marvel (a HQ em que o filme se baseia em parte tem personagens como Hulk, que não puderam ser utilizados), o que pode se constituir numa qualidade e num problema.
Logan tem um início extremamente violento – num estacionamento – que logo anteciparia uma adaptação radical dos quadrinhos e, ao longo da narrativa, não atenua seu ímpeto, quebrado apenas por algumas passagens mais demoradas. As garras do “super-herói” estão afiadas como a sua vontade de encontrar uma saída para a situação em que se encontra, e ela pode existir tanto em si quanto nas pessoas que o cercam. Em determinado momento, ele é impelido a buscar o “Éden”, um lugar onde se esclareceriam algumas questões – e este “Éden” parece uma impossibilidade diante de seus percalços.

Curioso como Mangold também insere as histórias em quadrinhos na explicação da narrativa do filme, buscando um interessante contraponto entre “ficção” e “realidade”, um traço metalinguístico, apesar de em nenhum momento escolher um design de produção que proporcione algum elemento de fantasia, sendo justamente sua tentativa a de trazer a fantasia para um espaço visto como plenamente real.
A menina Laura acaba proporcionando uma viagem nos moldes do recente Destino especial, de Jeff Nichols, em que a infância se misturava a poderes não explicados pelo olhar comum, com um intervalo que dá espaço a uma família tendo à frente Will (Eriq LaSalle) e Kathryn Munson (Elise Neal), com inevitável empatia junto ao espectador. Mangold, no entanto, centraliza essa busca com um apelo dramático dificilmente encontrado em filmes que adaptam quadrinhos e, quando tentam fazê-lo, são vistos como inevitavelmente soturnos. A paisagem solar do Texas não esconde a vulnerabilidade do personagem central desde o início: ele parece escondido por trás das paisagens que se erguem no deserto como sucata, sendo a sua limousine um contraponto a essa decadência que observa neste futuro que habita. É ele, no entanto, que de algum modo ainda se sente próximo de algo a ser reencontrado além das montanhas que evocam o seu início em 2009, quando trabalhava numa madeireira canadense, com a possibilidade de se proliferar novamente para que uns se sintam menos afastados dos outros, carregando um verdadeiro sentido de família.

Logan, EUA, 2017 Diretor: James Mangold Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Richard E. Grant, Boyd Holbrook, Stephen Merchant Roteiro: James Mangold, Scott Frank, Michael Green Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg Duração: 135 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Twentieth Century Fox Animation