A forma da água (2017)

Por André Dick

O diretor mexicano Guillermo del Toro sempre esteve entre os principais nomes situados entre a fantasia, o terror e o suspense. Nos últimos anos, ele entregou dois filmes completamente distintos: Círculo de fogo, uma ficção científica mais pop, mostrando a invasão de monstros (kaijus), na Terra, e A colina escarlate, com uma história mais clássica, sempre com uma parte técnica irretocável. E, apesar de se inspirar muitos em fábulas e lendas populares, ele sempre foi reconhecido pela originalidade. Por isso, a polêmica que surgiu de que seu novo filme, A forma da água, fosse inspirado sem dar crédito à peça teatral Let Me Hear You Whisper, do ganhador do Pulitzer Paul Zindel, surgida na semana passada, talvez coloque seu favoritismo ao Oscar ameaçado. Se a premissa de seu filme é igual à da peça (que também virou filme, em menor escala, nos anos 90), ainda assim a obra de Del Toro pode ser vista como, mais do que uma relação estranha, um retrato de época. Diretor também dos dois primeiros Hellboy e um dos roteiristas da trilogia O hobbit, o mexicano é uma referência do gênero de fantasia, no sentido mais épico.

A forma da água conta a história da faxineira muda Elisa Esposito (Sally Hawkins), que trabalha num laboratório governamental secreto no início dos anos 1960, durante a Guerra Fria, e tem como melhor amiga Zelda Fuller (Octavia Spencer). Neste laboratório, ela conhece uma estranha criatura aquática (Doug Jones), que está sendo investigada pelo coronel Richard Stricklandor (Michael Shannon) e pelo Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg).
Elisa tem como melhor amigo o companheiro de prédio Giles (Richard Jenkins, em ótimo momento), sendo que moram em cima de um cinema, Orpheum. Este nome é a senha para o filme mostrar algo que lembra a mitologia grega de Orfeu e Eurídice: o monstro representa aquela figura que deve ser resgatada. Num diálogo com outro filme, há muito de O fabuloso destino de Amélie Poulain aqui, inclusive na trilha sonora notável de Alexandre Desplat, assim como de Splice, produzido por Del Toro e que mostra uma relação estranha como a desse filme, embora com mais violência e voltada mais ao plano da sexualidade. Em O labirinto do fauno, também havia a história de uma menina inserida num mundo histórico em transformação (a Guerra Civil Espanhola), que se refugiava na fantasia.

Não precisaríamos ir muito longe para ver as influências de Del Toro: sendo a figura aquática da Amazônia, certamente Del Toro conhece a lenda do boto que deu origem a um filme com Carlos Alberto Riccelli nos anos 80, e mesclou essa lenda ao seu arsenal de estranhezas. Del Toro possui um talento raríssimo para compor uma reconstituição de época da Guerra Fria de modo perfeito, com ambientes externos e internos feitos com esmero por Paul D. Austerberry, começando pelo início que estabelece como fonte A árvore da vida, de Malick. O visual insere o espectador na história, que, mais do que sobre a aproximação de uma humana de uma criatura, trata de temas como o subúrbio norte-americano de Baltimore, do american way of life, o preconceito contra os negros e gays, contra hispânicos, sem nunca destoar de uma história baseada no fantástico nem parecer pouco orgânico. É uma cidade em composição e decomposição, como vemos por meio de Stricklandor. Del Toro demonstra seu amor por filmes através do cinema Orpheum, localizado embaixo do apartamento de Elisa, com imagens de uma plasticidade bem dosada, com a fotografia de Dan Laustsen. Assim como por meio de Giles, que é pintor e faz cartazes para filmes.

O vilão feito por Shannon em determinados momentos se sente um pouco caricato pelo rumo oferecido pelo roteiro, mas o ator entrega, por outro lado, uma de suas melhores composições, e há um momento do segundo ato em que a história se dispersa um pouco, sem que Del Toro deixe a narrativa cair em gestos banais, respeitando uma certa poeticidade que dialoga com o ambiente enfocado, com seu verde que remete ao musgo da água original, de onde veio a estranha criatura. Sally Hawkins tem uma atuação excelente, assim como Spencer se mostra novamente uma coadjuvante bastante especial, numa história que consegue sintetizar o melhor de Del Toro num formato que se contrabalança entre o fantástico e a visão romântica sobre o mundo do cinema (spoiler: não por acaso, em determinado momento há uma cena musical que remete tanto a O artista quanto a La La Land). O trabalho dele por vezes registra um grau inusual de violência perto de produções típicas de Hollywood, mas em A forma da água ele não parece tão interessado em mostrá-la, o que poderia prejudicar o tom de sua história.

Mais do que sobre uma paixão extraordinária, A forma da água é uma lembrança de Del Toro do poder do cinema sobre a personagem central, quando conversa com seu vizinho vendo filmes na TV, mas estabelece vínculo mesmo com os experimentos de Spielberg no âmbito dos anos 80 (a exemplo de E.T.) e John Carpenter (Starman). O filme trata exatamente da solidão desses personagens, em vínculo com a da sala de cinema, com poucos espectadores, assim como com a música, na impossibilidade do diálogo. Há alguns elementos que Del Toro colocou anteriormente em sua trajetória, contudo são melhor resolvidos aqui. Mesmo em relação ao A colina escarlate, subestimado, A forma da água se sente com temas mais complexos e distribuídos em camadas iguais. E a água é, afinal, o símbolo da libertação da narrativa. Todas as sequências que a envolvem dão uma sensação de que a opressão causada por determinados humanos é colocada em segundo plano e os personagens encontram a sua essência. Em A colina escarlate, já havia uma metáfora da terra. Além disso, como em A espinha do diabo e O labirinto do fauno, Del Toro faz com que seus personagens em transformação também combatam a guerra que há nos bastidores de suas existências.

The shape of water, EUA, 2017 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: J. Miles Dale e Guillermo del Toro Duração: 123 min. Estúdio: TSG Entertainment, Double Dare You Productions Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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Artista do desastre (2017)

Por André Dick

Trabalho mais recente de James Franco na direção, Artista do desastre vem sendo muito associado a Ed Wood, de Tim Burton, tratando de uma produção conhecida pela estranheza e pela precariedade de atuações e de acabamento, The room, de Tommy Wiseau, lançado em 2003. Quem já viu esse filme sabe do quanto podemos ter um outro nível de entendimento sobre o que seriam boas atuações e uma narrativa calibrada: The room é tão estranho (no bom ou mau sentido, dependendo de cada espectador) que chega por vezes a ser engraçado.
É justamente Wiseau que o também diretor James Franco interpreta aqui. Ele conhece em 1998 o aspirante a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James na realidade), numa aula de teatro, quando nenhum consegue se destacar. No entanto, Wiseau se mostra um ator que, na falta de expressão melhor, se arrisca no tablado. Os dois se mudam para Los Angeles, a fim de tentarem uma carreira e se tornarem estrelas. Apesar de Greg conseguir uma agente, Iris Burton (Sharon Stone), e uma namorada, Amber (Alison Brie), nenhum deles é reconhecido. Wiseau decide escrever, produzir e dirigir um filme, exatamente The room. Os momentos em que ele está escrevendo o roteiro são alguns dos mais cômicos da história, justamente pela despretensão do ator-diretor.

Desde o início, é evidente que Franco está levando o personagem a sério, mas ao mesmo tempo não está: em determinados momentos, sua obra se sente como uma reunião de amigos no fim de semana. Mas, se há reuniões dele que resultam em filmes pouco interessantes (É o fim, por exemplo), outros se sentem realmente instigantes, como este. Artista do desastre, à sua maneira, é uma homenagem a Hollywood, que certamente nunca levou Wiseau em consideração – e Franco, pelas acusações que teve de assédio depois de ganhar seu Globo de Ouro, parece ir por outro caminho, embora não com o mesmo grau de impacto que as que atingiram Kevin Spacey e Harvey Weinstein.
O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, responsáveis por (500) dias com ela, A culpa é das estrelas e O maravilhoso agora, adaptado de um livro sobre as filmagens de The room, escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, tenta capturar o momento da criação. Artista do desastre lida com a imagem de quem tenta se inserir no meio artístico (no caso, o cinema) com as condições que tem à mão. No entanto, a arte é visualizada mais como um descompromisso do que como um dever de mostrar uma certa sofisticação.

As filmagens conturbadas do longa são bem calibradas pela atuação de James Franco, fazendo um personagem excêntrico, mas, principalmente, pela do irmão, Dave, com uma ressonância que é quase inexistente em trabalhos recentes. Em filmes como The little hours, em que faz um homem que vai parar num convento, Dave Franco já mostra um talento inabitual para a sátira que se leva a sério. Aqui não é diferente e ele até emociona como alguém que realmente tenta ser amigo de Wiseau. Há uma sequência em que ambos compartilham a admiração por James Dean (o qual James interpretou num telefilme em 2001) e tanto Artista do desastre quanto The room possuem um visual, algumas vezes, de Juventude transviada, clássico dos anos 50. No filme de Wiseau, o CGI do alto do prédio normalmente se confunde com tomadas perdidas de clássicos, embora o roteiro seja tão desencontrado que as semelhanças interrompem aí. Que Franco tenha escolhido seu irmão para interpretar o papel do melhor amigo de Wiseau é uma homenagem à própria inserção de ambos no universo cinematográfico.

Embora ele tenda a romantizar excessivamente o personagem que retrata e muitas vezes anule uma complexidade maior, que poderia ser melhor trabalhada em pontos, também atinge de certo modo o público: sua figura atrai o interesse do espectador e o conduz durante todo o filme. O modo como ele recupera os trejeitos do verdadeiro Wiseau é realmente convincente e as filmagens, com a presença do assistente de roteiro e direção Sandy (Seth Rogen), são perturbadas de modo divertido, com uma série de participações especiais (Jacki Weaver, Zac Efron e Josh Hutcherson, para citar alguns). Depois de atuações como as de 127 horas, Milk, Oz – Mágico e poderoso e na série Freaks and geeks, Franco já mostrou um talento para a composição de personagens dos mais variados. Que ele responda pelas acusações gravíssimas de assédio (o que vem tentando fazer nas últimas semanas) e Desastre do artista não seja também aquele filme que interrompa sua carreira.

The disaster artist, EUA, 2017 Diretor: James Franco Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Zac Efron, Sharon Stone Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber Fotografia: Brandon Trost Trilha Sonora: Dave Porter Produção: James Franco, Vince Jolivette, Seth Rogen, Evan Goldberg, James Weaver Duração: 103 min. Estúdio: New Line Cinema, Good Universe, Point Grey Pictures, Rabbit Bandini Productions, Ramona Films Distribuidora: A24, Warner Bros. Pictures

The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

Sem fôlego (2017)

Por André Dick

O diretor Todd Haynes já conseguiu, junto a seu fotógrafo Edward Lachman, algumas proezas visuais, a exemplo de Longe do paraíso e Carol, às vezes não encontrando uma ressonância emocional em equilíbrio. Em Sem fôlego, ele adapta uma novela juvenil assinada por Brian Selznick. Este é o mesmo autor de A invenção de Hugo Cabret, e a adaptação de Haynes, pode-se dizer, tem elementos daquela de Martin Scorsese. No entanto, onde Scorsese celebra mais o fantástico e o grandioso, Haynes se concentra mais no material que pode mostrar o cinema como um grande museu a céu aberto.
A história também é um pouco mais antilinear do que a de Hugo Cabret. Começa mostrando a história de um menino, Ben (Oakes Fegley, muito bem), de Lake, Minnesota, em 1977, cuidado pela tia e que determinado dia sonha com a mãe, Elaine (Michelle Williams). Chega às suas mãos um livro dela, Wonderstruck, com uma orelha com a frase “Amor, Danny” – que ele imagina ser seu pai. Normalmente, ele tem pesadelos com lobos o perseguindo por uma floresta. Acaba caindo um raio na sua casa e ele perde totalmente a sua audição. Fugindo do hospital, ele vai parar no Museu Americano de História Natural, em Nova York, onde conhece Jamie (Jaden Michael), cujo pai (Raul Torres) trabalha no lugar.

Ao mesmo tempo, Haynes mostra a trajetória de Rose (Millicent Simmonds, ótima), que vive sempre dentro de casa, oprimida pelo pai (James Urbania), em Hoboke, Nova Jersey, em 1927. Ela é surda, assim como fica Ben, e também vai para Nova York, a fim de conhecer a atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore), de quem é fã. Nesse meio tempo, ela encontra o irmão Walter (Cory Michael Smith). As histórias de ambas as crianças vão se cruzando e parecem se justapor em alguns momentos, como se a memória, para Haynes, representasse um universo à parte.
Ela também faz o percurso até o Museu Americano de História Natural. Não, isso não seria uma versão mais séria de Uma noite no museu, embora os cenários às vezes até lembrem (assim como o Jumanji dos anos 90). É interessante como Haynes mostra em tempos diferentes, mas com trajetórias parecidas, mesclando, ao mesmo tempo, uma homenagem à ideia de família e ao mundo do cinema – mudo, da década de 20, principalmente, por meio dos personagens de Ben e Rose. Essa é parte que talvez mais se assemelhe com A invenção de Hugo Cabret, no entanto é mais do que evidente que Haynes constrói uma sólida concepção de poesia em cima de uma história que poderia ser rotineira. Buscando alinhar seus personagens, ele compõe uma espécie de reencontro de um menino com a infância que faltou e com a vida que ainda vai se expandir a partir de suas descobertas. A trilha sonora de Carter Burwell é brilhante, servindo como uma pontuação de filme de época.

O momento em que Rose avista Nova York do navio em sua chegada é coberto por um sentimento de a-historicidade que leva a própria tendência de Haynes em mostrar a mesma cidade dos anos 70 sob um ponto de vista mais contemporâneo, até chegar ao terceiro ato extremamente sentimental e ainda assim belo. Seu filme é exatamente sobre pessoas que são surdas e, portanto, parecem, por vezes, reclusas em seu mundo, mas é exatamente aí que as expande para uma busca pelo amor inigualável entre seus pares. A história de Sem fôlego se mostra cada vez mais próxima do espectador quando aparenta estar distante, com seu jogo de ilusões e espelhos. Que esta obra nova de Haynes tenha sido recebido com tanta apatia, ao contrário do anterior (não tão interessante, a meu ver), Carol, mostra, infelizmente, certa padronização no que se refere a histórias com crianças. O filme, de maneira exemplar, trata da íntima comunicação que se estabelece quando menos se percebe e onde menos parece ser atrativa: trata dos dilemas mais pessoais de um ser humano em busca de sua história, assim como a humanidade busca a sua num museu. Quando, em determinado momento, Haynes expõe uma enorme maquete, extraordinária, pode-se dizer que ela representa tudo aquilo em que esses personagens passeiam, com a segurança de quem conseguirá obter o acesso a um grande planetário a céu aberto.

Wonderstruck, EUA, 2017 Diretor: Todd Haynes Elenco: Oakes Fegley, Julianne Moore, Michelle Williams, Millicent Simmonds, Jaden Michael, Raul Torres Roteiro: Brian Selznick Fotografia: Edward Lachman Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Pamela Koffler, John Sloss, Christine Vachon Duração: 117 min. Estúdio: Killer Films, FilmNation Entertainment, Cinetic Media, Picrow Distribuidora: Amazon Studios, Roadside Attractions

 

Indicados ao Oscar 2018

Por André Dick

Em outubro de 2017, fiz um texto sobre 10 possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme de 2018.

Dos que apontei, cinco chegaram às indicações de melhor filme: A forma da água, Dunkirk, Três anúncios para um crime, Trama fantasma e O destino de uma nação. Das repescagens, The Post – A guerra secreta. E de possibilidades menores Lady Bird, Me chame pelo seu nome e Corra! Entre os outros que apontei, não se imaginava que o filme de Alexander Payne, Pequena grande vida, fosse o grande fracasso comercial e de crítica de sua carreira e que Blade Runner 2049 fosse tão desconsiderado depois de recebido como uma obra-prima, mesmo tendo sido indicado a várias categorias técnicas. Do mesmo modo, O estranho que nós amamos e Detroit em rebelião foram esquecidos na temporada de premiações. E Projeto Flórida, que vinha sendo apontado como um favorito até mês passado, perdeu fôlego na corrida ao prêmio e recebeu apenas uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, merecida, para Willem Dafoe.

Melhor filme

Dunkirk
Me chame pelo seu nome
O destino de uma nação
Corra!
Lady Bird – A hora de voar
Trama Fantasma
The Post – A guerra secreta
A forma da água
Três anúncios para um crime

Gosto tanto da seleção deste ano quanto a do ano passado. Há três filmes excelentes (Lady Bird, A forma da água e Três anúncios para um crime), um muito bom (Corra!) e um historicamente interessante e bem interpretado (O destino de uma nação). Não sou apreciador de Dunkirk nem de Me chame pelo seu nome, e não assisti ainda aos filmes de PTA e Spielberg. Novamente a Academia não atinge 10 concorrentes, o que desvaloriza um pouco a indústria. Numa décima vaga, poderiam ter lembrado de Todo o dinheiro do mundo, Blade Runner 2049, Ghost Story, Os Meyerowitz, O sacrifício do cervo sagrado, Columbus, De canção em canção, Mudbound, mãe!, Planeta dos macacos – A guerra, Logan Lucky, Terra selvagem, Maudie, Suburbicon, Z – A cidade perdida, Primeiro, mataram o meu pai e Lucky. Outras ausências que se lamenta nesta temporada de premiações: indicações a A melhor escolha, de Linklater, com elenco extraordinário, e Wonderstruck, de Todd Haynes. A Academia só nomearia os melhores filmes a partir de uma determinada média, mas é estranho filmes como Blade Runner 2049 e Mudbound (primeiro filme da Netflix indicado ao Oscar), por exemplo, com várias indicações, não chegarem a essa média. Nisso, anos que alternam entre 8, 9 ou 10 candidatos (apenas nos dois primeiros anos em que a regra passou a valer, em 2009 e 2010) parecem indicar uma inconstância que não está de acordo com o que acontece, pois claramente há no mínimo de 15 a 20 filmes marcantes por ano.
Dos indicados, a disputa vai ficar, ao que tudo indica, entre A forma da água, Três anúncios para um crime e Lady Bird. A única surpresa pode ser, ao que tudo indica, Trama fantasma.

Melhor diretor

Christopher Nolan, por Dunkirk
Jordan Peele, por Corra!
Greta Gerwig, por Lady Bird – A hora de voar
Paul Thomas Anderson, por Trama fantasma
Guillermo del Toro, por A forma da água

O grande favorito é Guillermo del Toro, por A forma da água, que já recebeu o Leão de Ouro em Veneza e o Globo de Ouro. Mais lembrado como roteirista, PTA finalmente volta a concorrer como diretor depois de Sangue negro. Ele havia feito duas obras-primas nos últimos anos, O mestre e Vício inerente, que receberam indicações nas áreas de atuação e roteiro e uma técnica, o que não equivalia à total qualidade deles. A até então atriz reconhecida Greta Gerwig conquista um espaço merecido, e sua direção em Lady Bird é muito bem dosada. Jordan Peele consegue uma indicação em sua estreia, e Nolan marca mais um inglês prestigiado pela Academia depois do injustiçado Interestelar. Perdeu a vaga para ele McDonagh, de Três anúncios, que apresenta, particularmente, um trabalho superior. Poderiam facilmente ter indicado Denis Villeneuve (Blade Runner 2049), Angelina Jolie (Primeiro, mataram o meu pai), Sofia Coppola (O estranho que nós amamos), Terrence Malick (De canção em canção), Sean Baker (Projeto Flórida), Yorgos Lanthimos (O sacrifício do cervo sagrado) e Ridley Scott (Todo o dinheiro do mundo).

Melhor ator

Timothée Chalamet, por Me chame pelo seu nome
Daniel Day-Lewis, por Trama fantasma
Daniel Kaluuya, por Corra!
Gary Oldman, por O destino de uma nação
Denzel Washington, por Roman J. Israel, Esq.

Não vi todas as atuações, mas Gary Oldman está extraordinário em O destino de uma nação. Não aprecio a interpretação de Timothée Chalamet em Me chame pelo seu nome, apesar de reconhecer que a direção e o roteiro o prejudicam. Kaluuya tem bela atuação em Corra! e Denzel Washington volta a ser prestigiado depois de Um limite entre nós. Day-Lewis, no seu último papel no cinema, pode ter a chance de ganhar seu quarto Oscar, depois de Meu pé esquerdo, Sangue negro e Lincoln. Entre os esquecidos, aprecio em especial as performances de Jake Gyllenhaal em O que te faz mais morte; Harry Dean Stanton em Lucky; Adam Sandler em Os Meyerowitz; Jeremy Renner em Terra selvagem, Ethan Hawke em Maudie; e Steve Carell em Guerra dos sexos e A melhor escolha. Tom Hanks, como é lugar-comum na última década, foi ignorado novamente por sua atuação em The Post.

Melhor atriz

Sally Hawkins, por A forma da água
Frances McDormand, por Três anúncios para um crime
Margot Robbie, por Eu, Tonya
Saoirse Ronan, por Lady Bird – A hora de voar
Meryl Streep, por The post – A guerra secreta

Nenhuma grande surpresa. Hawkins, das indicadas, parece a melhor, seguida por Ronan e McDormand. Robbie é uma ótima atriz, mas não merece, particularmente, a indicação por Eu, Tonya. Acrescento entre as atrizes que poderiam ter sido lembradas: Jennifer Lawrence (mãe!), Sareum Srey Moch (Primeiro, mataram o meu pai), Rooney Mara (Una ou De canção em canção), Emma Stone (Guerra dos sexos), Danielle Macdonald (Patty Cake$) e Haley Lu Richardson (Columbus). Nicole Kidman foi esquecida por ótimas atuações em O sacrifício do cervo sagrado e O estranho que nós amamos. E a atuação de Michelle Williams em Todo o dinheiro do mundo é um dos pontos altos do filme de Scott. Além de Jessica Chastain estar talvez em seu melhor momento depois de A hora mais escura em A grande jogada. McDormand é a favorita, mas, embora esteja bem, se vier a ganhar não será de todo justo. Inclusive se lembrarmos que a menina Brooklyn Prince, de Projeto Flórida, sequer foi indicada.

Melhor ator coadjuvante

Willem Dafoe, por Projeto Flórida
Woody Harrelson, por Três anúncios para um crime
Richard Jenkins, por A forma da água
Sam Rockwell, por Três anúncios para um crime
Christopher Plummer, por Todo o dinheiro do mundo

Não indicarem Bryan Cranston a ator coadjuvante por A melhor escolha é um dos maiores esquecimentos. Ele não só merecia ser indicado, mas ganhar. No entanto, todos os indicados são excelentes: Sam Rockwell e Harrelson têm papéis expressivos em Três anúncios para um crime; Willem Dafoe mostra um lado sentimental insuspeito em Projeto Flórida; Richard Jenkins é comovente em A forma da água; e Christopher Plummer estranhamente maligno em Todo o dinheiro do mundo. Michael Stuhlbarg e Armie Hammer foram deixados de lado por Me chame pelo seu nome; nenhuma das atuações comportava uma indicação, mas Stuhlbarg ao menos tinha um belo monólogo mais ao final. Ben Stiller poderia ter sido lembrado por Os Meyerowitz, no qual entrega sua melhor atuação desde Greenberg, Patrick Stewart por Logan e Josh Brolin por Only the brave.

Melhor atriz coadjuvante

Allison Janney, por Eu, Tonya
Mary J. Blige, por Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi
Lesley Manville, por Trama fantasma
Laurie Metcalf, por Lady Bird – A hora de voar
Octavia Spencer, por A forma da água

Laurie Metcalf é a melhor concorrente por Lady Bird. No entanto, a favorita é Allison Janney por um papel de mãe exploradora em Eu, Tonya. Octavia Spencer (vencedora nessa categoria por Histórias cruzadas) está ótima em A forma da água e Blige, magnífica em Mudbound. Lesley Manville é apontada como uma revelação no filme de PTA. Izabela Vidovic poderia ter sido lembrada por sua bela presença em Extraordinário, assim como Kirsten Dunst em O estranho que nos amamos. Também Holly Hunter vinha sendo lembrada por sua participação em Doentes de amor, mas não emplacou. Bria Vinaite, por sua vez, aparece excelente em Projeto Flórida; mais uma injustiça ao filme sua não indicação.

Melhor roteiro original

Greta Gerwig, por Lady Bird – A hora de voar
Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani, por Doentes de amor
Jordan Peele, por Corra!
Guillermo del Toro, por A forma da água
Martin McDonagh, por Três anúncios para um crime

Todos os indicados possuem qualidades: Greta pelo bom enfoque sobre a mudança da adolescência para a vida adulta em Lady Bird; Gordon e Nanjiani por uma comédia de conflitos entre costumes em Doentes de amor; Peele pela crítica social em Corra!; McDonagh pelo humor corrosivo de Três anúncios; e Del Toro pela fantasia de A forma da água. Gostaria muito que tivessem lembrado dos roteiros de O sacrifício do cervo sagradoColumbus, Projeto Flórida, Os Meyerowitz, Viva – A vida é uma festa e Ghost story.

Melhor roteiro adaptado

Scott Neustadter e Michael H. Weber, por Artista do desastre
James Ivory, por Me chame pelo seu nome
Aaron Sorkin, por A grande jogada
Scott Frank, James Mangold e Michael Green, por Logan
Virgil Williams e Dee Rees, por Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

Nesta categoria, meu favorito é Aaron Sorkin por A grande jogada, embora o favorito para ganhar seja Ivory, pelo trabalho menos interessante de todos. Uma grande surpresa a indicação para Logan, embora merecida. O roteiro de Mudbound é belíssimo, e merecia ser considerado. Neustadter e Weber são indicados por Artista do desastre depois de trabalhos reconhecidos em (500) dias com ela, O maravilhoso agora e A culpa é das estrelas. Lamentável o esquecimento de Todo o dinheiro do mundo nesta categoria. Também Primeiro, mataram o meu pai e O estranho que nós amamos mostram bons trabalhos de adaptação.

Melhor filme em língua estrangeira

Uma mulher fantástica (Chile)
O insulto (Líbano)
Sem amor (Rússia)
Corpo e alma (Hungria)
The Square: A arte da discórdia (Suécia)

Depois da eliminação de Em pedaços, da Alemanha, favorito até então entre os pré-indicados, The square, vencedor em Cannes, toma o seu lugar. No entanto, não se deve menosprezar Sem amor, do mesmo diretor de Leviathan, e Uma mulher fantástica, do Chile, é irretocável. Havia bons filmes que não chegaram entre os finalistas, como Thelma e Rastros, e o ótimo Primeiro, mataram o meu pai.

Melhor animação

O poderoso chefinho
The Breadwinner
Viva – A vida é uma festa
O touro Ferdinando
Com amor, Van Gogh

Infelizmente, não assisti a todos. Viva – A vida é uma festa, no entanto, é um dos meus favoritos do ano passado.

Melhor documentário

Abacus: Pequeno o bastante para condenar
Visages villages
Ícaro
Últimos homens em Aleppo
Strong Island

Melhor documentário em curta-metragem

Edith+Eddie
Heaven is a traffic jam on the 405
Heroin(e)
Knife skills
Traffic stop

Melhor curta de animação

Dear Basketball
Garden park
Lou
Negative space
Revolting rhymes

Melhor curta

Dekalb elementary
The 11 o’ clock
My Nephew Emmett
The silent Child
Waty Wote/All of us

Melhor fotografia

Bruno Delbonnel, por O destino de uma nação
Roger Deakins, por Blade Runner 2049
Hoyte van Hoytema, por Dunkirk
Rachel Morrison, por Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi
Dan Laustsen, por A forma da água

Melhor trilha sonora

Hans Zimmer, por Dunkirk
Jonny Greenwood, por Trama fantasma
Alexandre Desplat, por A forma da água
John Williams, por Star Wars – Os últimos Jedi
Carter Burwell, por Três anúncios para um crime

Melhor canção

“Remember me” (Viva – A vida é uma festa)
“Mighty river”! (Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi)
“Mystery of love” (Me chame pelo seu nome)
“Stand up for something” (Marshall)
“This is me” (O rei do show)

Melhor design de produção

Blade Runner 2049
A bela e a fera
O destino de uma nação
Dunkirk
A forma da água

Melhor figurino

A bela e a fera
O destino de uma nação
Trama fantasma
A forma da água
Victória e Abdul

Melhor edição

Em ritmo de fuga
Dunkirk
Eu, Tonya
A forma da água
Três anúncios para um crime

Melhor mixagem de som

Star Wars – Os últimos Jedi
Em ritmo de fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A forma da água

Melhor edição de som

Em ritmo de fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A forma da água
Star Wars – Os últimos Jedi

Melhor maquiagem e cabelo

O destino de uma nação
Victoria e Abdul
Extraordinário

Melhores efeitos visuais

Blade Runner 2049
Guardiões da galáxia Vol. 2
Kong – A ilha da caveira
Star Wars – Os últimos Jedi
Planeta dos Macacos – A guerra

Nas categorias técnicas, Blade Runner 2049 é o principal destaque, seguido por Dunkirk e Star Wars – Os últimos Jedi. Entre esquecimentos notáveis, Valerian e a cidade dos mil planetas (com design de produção, efeitos visuais e maquiagem ótimos), De canção em canção (a fotografia de Emmanuel Lubezki principalmente, que só concorre e ganha com filmes que não sejam de Terrence Malick) e Todo o dinheiro do mundo (fotografia, montagem e design de produção irretocáveis). Suburbicon também possui uma ótima parte técnica (fotografia, trilha sonora, design de produção, figurinos), assim como O estranho que nós amamos. Wonderstruck também poderia ter sido lembrado nas categorias de fotografia, design de produção e trilha sonora (Burwell foi indicado por Três anúncios).

A cerimônia de entrega dos prêmios ocorre no dia 4 de março.

Me chame pelo seu nome (2017)

Por André Dick

O tradicional diretor James Ivory, conhecido por seus filmes históricos dos anos 80 e 90, alguns de notável qualidade, adaptou o romance de André Aciman para este filme dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, influenciado aqui especificamente por Eric Rohmer, aquele de Pauline na praia. Ele mostra a trajetória de Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, que vive numa área rural da Itália com seus pais, Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar). O pai é um estudioso de arquelogia e recebe um estudante de pós-graduação, Oliver (Armie Hammer), para ficar com a família no verão de 1983 e ajudá-lo a catalogar novas peças. A casa é um verdadeiro oásis: lembrando as paisagens de Um bom ano, de Ridley Scott, este interior da Itália é um convite a um passeio, e a bela fotografia de Sayombhu Mukdeeprom consegue mostrá-las de modo atrativo.
Oliver parece, a princípio, um típico personagem norte-americano, tentando contrastar sua cultura com os belos lugares enfocados pelo diretor. Elio, por algum motivo não definido explicitamente, se torna seu companheiro de visita à região, sobretudo de bicicleta. Em pouco tempo, Oliver já encontra um bar e companhia para apostas, mas Guadagnino quer emprestar a ele uma aura cultural que vai se manifestando em doses ao longo da narrativa. Já Elio, com conhecimento extremo em música, tem interesse por Marzia (Esther Garrel), contudo começa a se sentir atraído pelo pesquisador, em meio a suas experimentações com o violão e o piano de casa.

Na história do cinema recente, em que já tivemos os ótimos O segredo de Brokeback Mountain, The normal heart e Moonlight, para citar apenas alguns conhecidos sobre a relação entre dois homens, Me chame pelo seu nome pretende incluir grandes temas por meio de seu roteiro, no entanto se sente estranhamente vazio. O roteiro de Ivory não consegue esclarecer – mesmo que seja o objetivo, fica num meio-termo – o personagem de Oliver, e Hammer entrega uma atuação aqui capaz de contentar quem questiona seu talento interpretativo (e, particularmente, ele tem atuações destacáveis, em A rede social e O agente da U.N.C.L.E., entre outros). Não há uma ligação dele com o Sr. Perlman, e ele parece mais um turista em férias do que um estudioso dedicado. Em determinado momento, o Sr. Perlman fala dele como se fosse algum gênio não descoberto, mas nada antes o mostra como tal. Nem Hammer nem o roteiro emprestam empatia ao personagem, lembrando apenas alguém certo de um brilhantismo pessoal. Elio é uma espécie de versão mais jovem dele, situando-se entre o tédio de um jovem que não precisa se esforçar para ter tudo e a necessidade de quem deseja corresponder à atração também pela mulher de maneira autocentrada. Timothée Chalamet atua de maneira mais segura, mas longe de qualquer traço memorável, e falta a seu personagem um desenvolvimento.

Além disso, o tom de sedução de Oliver em reação a Elio é enfraquecido pelo roteiro expositivo, sem nuances ou complexidade real. Eles não conversam; eles expõem conceitos, por meio de imagens com o intuito de captar elementos da Roma Antiga, de estátuas históricas. O pesquisador representa essa faceta. Contudo, percebe-se, aos poucos, que Guadagnino evita close-ups em Hammer, pois este não consegue transparecer uma emoção dosada. E isso surpreende, pois ele já havia feito com talento o homem casado com J. Edgar interpretado por DiCaprio no filme de Eastwood.
O número de diálogos em tom pouco crível é notável ao longo da narrativa. Isso se mostra na aproximação pouco natural entre os personagens: durante um jogo de vôlei no gramado dos Perlman, Oliver sai do campo para ver se as costas de Elio, sentado, olhando a partida, estão tensas. Em outro momento, talvez porque não houvesse pêssegos no café atrativo da família Perlman, ele resolve roubar um de Elio enquanto ele está dormindo. Oliver ainda quer ensinar a Elio as melhores notas para uma música sobre a qual não tem conhecimento, possivelmente porque lê Heráclito. Muito do que leva o espectador a gostar do filme é simpatizar com suas figuras: aqui, ambas são pouco naturais, ao contrário do que pretende o filme e seus atores são constantemente prejudicados pela maneira como Guadagnino parece se envergonhar da relação que está mostrando, usando a natureza como subterfúgio. Ele tenta ser naturalista como um filme de Rohmer, mas tudo soa muito disperso para ter uma real emoção. Em momento algum, Oliver e Elio discutem o que estão sentindo um pelo outro; talvez fosse o objetivo, mas para um filme que pretende focar uma paixão é como se algo faltasse.

Em certos momentos, com destaque para aqueles em que Elio toca piano para distrair os convidados dos pais, o diretor quer enfocar um certo vazio rodeado pela cultura (inserindo diálogos sobre Heidegger, como se isso encobrisse a falta do que dizer dos personagens, ou mostrando artefatos históricos) com um bom panorama do interior italiano, capaz de despertar a sexualidade dessas figuras. Não existe, porém, uma química entre os atores, visivelmente desconfortáveis: basta comparar suas atuações com aquelas de Brokeback Mountain e Moonlight, por exemplo. Quando há uma aproximação entre os dois, Guadagnino prefere filmá-los se divertindo, pulando na cama, ou Elio pulando nas costas de Oliver, sem, na verdade, querer mostrar diálogos mais afetivos. Sim, há, mais perto do desfecho, alguns momentos que parecem trazer uma certa essência, num discurso excepcional do personagem de Sthulbarg, mas encaixado para estabelecer uma coesão em relação ao que se viu antes e como uma tentativa de Guadagnino em definir o que não faz ao longo da narrativa por meio dos personagens centrais.
No final das contas, Me chame pelo seu nome procura apresentar uma experiência para o espectador, mas o que atinge é somente a superfície: vemos as paisagens de cartão postal da Itália, mas não a paixão entre duas pessoas, pelo pouco que tem a dizer de maneira emocional e sem recorrer a uma certa pose naturalista. É um filme que, tentando falar de paixão o tempo todo, se esquece efetivamente de transparecer um afeto: como os passeios de bicicletas, ele investe num movimento para que o espectador não perceba que pouco ocorreu. Havia uma história complexa e melancólica no roteiro, sobre como o ser humano precisa se adaptar às mudanças da vida (na última cena, muito bem composta e enquadrada). Faltaram o diretor e os atores certos para fazer isso.

Call me by your name, ITA/FRA/EUA, 2017 Diretor: Luca Guadagnino Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois Roteiro: James Ivory Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Sufjan Stevens Produção: Peter Spears, Luca Guadagnino, Emilie Georges, Rodrigo Teixeira, Marco Morabito, James Ivory, Howard Rosenman Duração: 132 min. Estúdio: Frenesy Film Company, La Cinéfacture, RT Features, Water’s End Productions Distribuidora: Sony Pictures Classics

Roda gigante (2017)

Por André Dick

A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, o diretor Woody Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris) e agora com Roda gigante.

No filme, passado nos anos 1950, vemos a narração de um jovem salva-vidas, Mickey Rubin (Justin Timberlake), que trabalha na praia de Coney Island, perto de um parque de diversões, onde Ginny Rannell (Kate Winslet) trabalha num restaurante e seu marido Humpty (Jim Belushi) num carrossel, quando não está pescando. Mais: eles moram de frente para a roda gigante do lugar. Ela é mãe de Richie (Jack Gore), um piromaníaco, e determinado dia recebe a filha sumida de Humpty, Caroline (Juno Temple), fugindo do ex-marido, um gângster. Para Allen oferecer seu toque autoral, Mickey deseja ser escritor de peças de teatro e Ginny é uma ex-atriz.
As referências do diretor ao cinema dos anos 30 a 50 são apaixonadas, com uma trilha sonora embalada pelo jazz e um trabalho espetacular novamente da fotografia de Vittorio Storaro, que trabalhou com ele em Café Society e remete aos melhores momentos de O conformista, dos anos 70 (quando mostra o restaurante de Ginny), e O fundo do coração (quando algumas situações ganham colorações diferentes) e um desenho de produção belíssimo. Storaro ilumina o parque de diversões com uma alegria incomum, enquanto a casa dos Rannell tem tons mais azulados e vermelhos, de acordo com o sentimento sugerido, igual ao filme de Coppola. Este é um Adventureland de época e sem muitos amores a serem descobertos.

Neste ponto, Allen parece dialogar com um universo de sonhos não concretizados, e igualmente pouco amargo e sim otimista, mais no sentido de Blue Jasmine do que de Magia ao luar, por exemplo. No entanto, Roda gigante parece uma obra inacabada, embora Kate Winslet ainda seja uma boa atriz. Não se trata exatamente da escolha do diretor, mas porque, ao longo do filme, Allen usa uma série de elementos para que o espectador consiga identificar as mudanças de comportamento e tom de Ginny em relação às pessoas, dependendo de sua situação. Quando finalmente o espectador parece entendê-la, assim como seu encanto pela arte, ele pede para que entendamos, como em Blue Jasmine, que tudo aquilo que foi visto na verdade foi guiado por um certo desequilíbrio, sem que se elabore o que veio antes de sua vida com Humpty e depois para que se chegasse naquele ponto, sendo o comportamento dela apenas falho ou não suficientemente tratado. O homem, para Allen, nunca é responsável pela situação da vida alheia: seria apenas alguém que divaga sem solidez, e Humpty, que só pensa na filha, se torna cada vez mais violento.

Inicialmente, a situação de Ginny destoa do tom ameno, embora amargo, de todo o filme, tornando-se um estudo de caso frustrante. Allen parece não querer dar espaço a um tema pesado, tentando se desapegar da preocupação da personagem de enfrentar seu sonho (a atuação, o mundo da arte) para, enfim, reduzir todos os personagens a um ponto de interrogação e conscientes de uma vida que o diretor considera plana. Para ele, Ginny, como o filho, é uma fonte de destruição e não se deve ouvi-la nem ampará-la. A atuação de Kate Winslet nos diz o contrário do que entrega o diretor: embora ela queira falar, ele não permite. E, se Timberlake só oferece uma real atuação em A rede social, não convencendo aqui como um aspirante a dramaturgo e prejudicando cada cena com Winslet, Belushi não chega a ser o elo fraco, parecendo até divertido como em alguns momentos de Twin Peaks. A parte menos interessante fica a cargo de uma subaproveitada Temple, com uma personagem um tanto dispersa. E o Allen com tom moralista, que torna os personagens apenas em símbolos do que gostaria de transmitir – aquele de Crimes e pecadosMemórias Match Point – é, sem dúvida, o menos atrativo, extraindo toda a energia que poderia haver na estrutura de Roda gigante.

Wonder wheel, EUA, 2017 Diretor: Woody Allen Elenco: Jim Belushi, Juno Temple, Justin Timberlake, Kate Winslet Roteiro: Woody Allen Fotografia: Vittorio Storaro Produção: Letty Aronson, Edward Walson, Erika Aronson Duração: 101 min. Estúdio: Gravier Productions, Perdido Productions Distribuidora: Amazon Studios

Viva – A vida é uma festa (2017)

Por André Dick

Nos últimos anos, a Pixar tem se destacado junto à Disney com obras como Divertida mente, mesmo sem os atrativos da época de Wall-E e UP, quando a companhia, ainda independente, fazia um trabalho considerado superior à maioria das animações. Particularmente, Universidade Monstros é o trabalho mais interessante da companhia, mas nunca foi devidamente aceito; no início de 2016, O bom dinossauro já havia sido severamente subestimado e Carros 3, no ano passado, fracassou injustamente nas bilheterias. No entanto, ao final do ano, surgiu um novo desenho animado, desta vez assumindo o posto de grande bilheteria: Viva – A vida é uma festa. Trata-se de um projeto pensado com visível afeto pela cultura que apresenta, dando atenção a detalhes temáticos e históricos.

A história se passa em Santa Cecilia, no México. Miguel Rivera (Anthony Gonzalez), de 12 anos, filho de Enrique (Jaime Camil) e Luisa (Sofía Espinosa), é o tataraneto de Amelia Rivera (Alanna Ubach), que foi casada com um músico que abandonou sua família. Ele abandonou Amelia e sua filha Ines (Ana Ofelia Murguía), bisavó de Miguel. Desde então, Amelia proibiu a música em sua família, agora dedicada ao trabalho de sapataria. O menino, no entanto, sonha em se transformar conhecido como Ernesto de la Cruz (Benjamin Pratt), cantor e ator consagrado dos tempos de Amelia. Quando é descoberto com um violão construído por ele próprio, a avó de Miguel, Elena (Renée Victor), fica muito irritada.
Depois de uma descoberta familiar, ele sai em busca de um violão para o show de talentos do Dia dos Mortos. Passando para o além, ele e seu cão Dante (uma homenagem à Divina Comédia) terão de passar por uma série de aventuras conhecendo figuras em forma de esqueleto, já mortas. Miguel conhece Hector (Gael García Bernal), que foi amigo de Ernesto. Ele está para ser esquecido pelo mundo dos vivos, pois ninguém mais homenageia sua imagem no Dia dos Mortos. Para isso, ele carrega um pedaço de fotografia. E o menino, para não ser amaldiçoado, não podendo mais voltar ao mundo dos vivos, por tentar roubar o vilão, precisa correr contra o tempo e solucionar questões que correspondem à história da família, tudo ao som de uma agradável trilha sonora de Michael Giacchino.

Dirigido por Lee Unkrich, o mesmo de Toy Story 3, com a codireção Adrian Molina, Viva – A vida é uma festa se situa entre o mundo dos vivos e o dos mortos, mas o faz de uma maneira nada previsível, não procurando colocar o espectador em meio a lições de moral apenas emotivas. Ele possui um núcleo, que é justamente a figura de Miguel. Querendo ser reconhecido como músico, em nenhum momento ele se comporta como alguém que deseja passar por cima dos outros a fim de atingir seus objetivos, e sim uma figura generosa. A maneira como Unkrich o desenvolve é o sinal de êxito do filme. Seu visual, além disso, é de um primor poucas vezes visto em animações, mesmo as de mais qualidade: há uma sensação de profundidade nas cenas, assim como os personagens não soam como caricaturas. Interessante como é mostrado o mundo dos mortos, com um colorido multifacetado e mesmo futurista, remetendo a algumas sequências de Tomorrowland. Um certo ar de estranheza percorre o mundo dos mortos, parecendo dialogar com algumas obras de Tim Burton, sem nunca perder o seu objetivo. E há figuras como Frida Kahlo (Natalia Cordova-Buckley) que aparecem no mundo dos mortos e acrescentam à movimentação dos personagens coadjuvantes de maneira bem-humorada. Há uma inserção do espectador neste universo apresentado.

Toda a jornada de Miguel é governada por um caráter de crescimento interno, reproduzido principalmente na maneira como ele passa a enxergar as figuras que antes idolatrava. O dilema dele – de precisar voltar à vida para não permanecer no universo dos mortos – tem elementos daquele de Marty McFly no primeiro De volta para o futuro – e mesmo seu braço se transformando em esqueleto ou a fotografia de Héctor remetem ao filme de Zemeckis. Havia bons momentos sobre o reconhecimento da terceira idade em Carros 3 e em Viva isso se repete de maneira comovente, por meio das figuras referenciais da família de Miguel. Os diretores Unkrich e Molina conseguem transparecer um sentimento que poucos filmes atingem, a exemplo de Nebraska, de Alexander Payne, ao tratar do isolamento de um familiar já um tanto distanciado dos demais devido ao tempo de vida. O roteiro de Adrian Molina e Matthew Aldrich é de grande sensibilidade nesse sentido, distribuindo para os personagens um espaço notável e sintetizando tudo com a canção “Remember Me”, numa obra que homenageia a cultura mexicana e a torna universalmente bela.

Coco, EUA, 2017 Diretor: Lee Unkrich Elenco: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Lombardo Boya, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Edward James Olmos, Sofía Espinosa Roteiro: Adrian Molina e Matthew Aldrich Fotografia: Matt Aspbury e Danielle Feinberg Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Darla K. Anderson Duração: 109 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

 

Thelma (2017)

Por André Dick

O cineasta dinamarquês Joachim Trier se projetou com duas peças elogiadas, Reprise e Oslo, 31 de agosto, ambos com o ator Anders Danielsen Lie e um tom de melancolia exasperante e uma fotografia capaz de captar uma faceta gélida da humanidade. Em sua estreia nos Estados Unidos, realizou o ótimo Mais forte que bombas, em que colocava Jesse Eisenberg no papel de um filho de uma jornalista feita por Isabelle Huppert e retratava a solidão da adolescência nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que conflitos estabelecidos de maneira primordial. Sempre interessou a Trier um certo olhar sobre a sociedade, e não por acaso o personagem de Eisenberg nesse filme era um professor da área. Há uma perspectiva muito apurada sobre a solidão contemporânea na obra dele, que se manifesta por meio de figuras diferentes e mesmo sem pontos em comum: o personagem central de Oslo, 31 de agosto tinha questões a resolver totalmente diferentes daquele de Mais forte que bombas, no entanto sente-se uma unidade neles.

Desta vez, em Thelma, Trier busca exatamente o caminho de uma mistura entre drama e suspense, com ecos de Carrie, a estranha, de Brian De Palma e uma singela homenagem ao cinema de super-heróis. A personagem central, exatamente Thelma, feita pela Eili Harboe, chega à universidade, onde irá estudar, distanciando-se do pai, Trenn (Henrik Rafaelsen), e da mãe, Unnie (Ellen Dorrit Petersen), mas com o conselho de que deve aproveitar o quanto puder a experiência. Ela começa a se interessar por uma jovem, Anja (Kaya Wilkins), que vê primeiramente na biblioteca quando sofre uma estranha convulsão, no exato momento em que pássaros batem na vidraça da janela, lembrando algo da série Lost.
Thelma é repleto de momentos que remetem a outras obras e talvez esta seja sua maior característica. Trier busca novamente o retrato afastamento da sociedade, que retrata sobretudo em Oslo, 31 de agosto, para se fixar numa personagem que o representa do melhor modo. Com um problema que os outros não conseguem entender, Thelma parece situada entre a realidade e o onirismo. As cenas em que ela passa por uma bateria de exames é a mais provocativa do filme, mas Trier está interessado em situá-la como alguém que tenta se desapegar da religião e não consegue.

Sua visão de uma serpente do paraíso às voltas do seu interesse pela jovem estudante é capaz de provocar toda uma simbologia da qual parte o filme. No entanto, há um problema nisso: a simbologia acaba por vezes se sobrepondo à personagem, e mesmo a atuação de Eili Harboe soa distante para o espectador. Aos poucos, essa falta de aproximação adequada justifica o ponto que Trier deseja abordar. E se, do mesmo modo, o personagem de Anja não chega a se efetivar como um claro complemento e sim apenas como uma peça capaz de substituir os desejos mais íntimos da protagonista, há uma cena antológica em que o personagem central se sente, por meio de outro, se dividir em milhares de pedaços. Em outra sequência, numa festa, Thelma vê o corpo dos outros se iluminar: o fogo e a eletricidade correspondem a uma sexualidade interrompida. A personagem procura pelo passado dos amigos na internet, no entanto nesta nada descobre.
Não sem méritos, Trier, de origem publicitária, compõe uma sequência de imagens capaz de atrair o espectador. Ele tem em vista muitas referências, principalmente Suspiria, de Argento, nas cenas que envolvem a água, seja na piscina ou num lago. A água representa tanto a sensação de morte quanto de vida da personagem. Diante delas, chega a ser quase uma obrigação reconhecer que Trier tem um olhar para capturar o fantástico de modo muito incisivo. Os símbolos são inquietantes: peixes embaixo de um lago congelado, pássaros sem direção e uma serpente rastejando pelo campus da universidade até o quarto de Thelma.

Onde ele se perde é exatamente onde Thelma mais deveria entregar com credibilidade uma trama misteriosa: seu personagem central nunca se sente exatamente inter-relacionada com os demais, não apenas pela frieza de Harboe (ainda assim numa boa atuação) e sim por problemas de ajuste no roteiro, escrito pelo diretor em parceria com seu habitual parceiro Eskil Voght. Os personagens se sentem unidimensionais mesmo inseridos numa situação fantástica e os temas implícitos nunca se manifestam com a confiança que deveriam ser manifestados. Ainda assim, a maneira como Thelma é conduzido leva o espectador a se interessar pelo desenvolvimento e desfecho. Sente-se uma elegância inusual na maneira como Trier mostra os corredores da universidade, assim como as árvores e postes de luz que definem suas direções, representando uma solidão da juventude. Uma ida a uma peça musical é a representação de algo se transformando, não se sabe de que modo, assim como uma caminhada no gelo pode representar uma ameaça inexplicável. É um bom núcleo para se estudar certos relacionamentos humanos, dos quais Thelma nunca se afasta com sua carga de impressões sobre a humanidade.

Thelma, Noruega, 2017 Diretor: Joachim Trier Elenco: Eili Harboe, Kaya Wilkins, Henrik Rafaelsen, Ellen Dorrit Petersen, Grethe Eltervåg Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt Fotografia: Jakob Ihre Trilha Sonora: Ola Fløttum Produção: Thomas Robsahm Duração: 116 min. Estúdio: Motlys Distribuidora: SF Studios Norway (Noruega) e Magnolia Pictures (Estados Unidos)

120 batimentos por minuto (2017)

Por André Dick

Um dos grandes títulos lançados no Festival de Cannes de 2017, 120 batimentos por minuto, do diretor e roteirista marroquino, naturalizado na França, Robin Campillo, pretende traçar um panorama sobre o vírus da Aids, que se alastrou em meados dos anos 80 em todo o mundo. O foco é a França, mais exatamente um grupo, ACT UP, que protesta contra empresas farmacêuticas no início dos anos 90. Essas empresas não desejam a liberação fácil de remédios para as pessoas doentes. Com um início trepidante, quase em estilo documental e muito influenciado pelo estilo de filmagem de Kechiche em Azul é a cor mais quente, por meio da fotografia instável de Jeanne Lapoirie, o filme de Campillo se situa entre os protestos – nos quais os integrantes jogam balões com um produto que lembra sangue – e as reuniões desse grupo. Não parece inoportuno lembrar que Campillo fez o roteiro de outro filme muito parecido com este em termos de estrutura e constantes debates, Entre os muros da escola, que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2008.

Mais atentamente, Campillo, que fez parte desse grupo de protesto na realidade, dá destaque a um dos jovens, Nathan (Arnaud Valois), e sua relação com Sean (Nahuel Pérez Biscayart). Nathan é HIV positivo, e Sean é negativo; eles se apaixonam num ambiente apropriadamente conturbado. Ambos os atores estão excelentes, trazendo nuances a seus personagens. Nathan tem um discurso sobre a vida depois que contraiu a doença num metrô observando o pôr do sol em Paris por trás dos edifícios e esta sequência concede uma sensação incômoda de perda, ao mesmo tempo que impõe um novo sentido à vida. No início, Campillo organiza tudo como uma zona de guerra contra a indústria e contra a falta de anseios da sociedade em relação a notícias que possam explicar melhor a nova doença, sem que ela fique circunscrita ao fato de que ela só existiria entre homossexuais, e a maneira como, de determinado momento, se espalhou essa notícia. Há poucos filmes, impressionantemente, sobre o assunto: Filadélfia, de Jonathan Demme, talvez tenha sido o primeiro mais contundente, dando uma premiação de Oscar a Tom Hanks, seguido pelo belo e semiesquecido Clube de compras Dallas. Recentemente, a HBO fez um grande filme (apesar de lançado apenas na TV é um filme de fato), The normal heart, com grande elenco, e Mark Ruffalo e Julia Roberts em grandes atuações, sobre a epidemia de Aids na Nova York dos anos 80. Talvez este seja o principal filme sobre o tema.

Contudo, Campillo não consegue entrelaçar os manifestos, a discussão em grupo e a intimidade dos personagens. Os diferentes registros soam conflitantes entre si, fazendo de um filme que deveria ser comovente estranhamente distante do espectador. Não que o drama dos personagens não convença, mas a maneira com que é tratado não faz o conjunto dramático ressoar como deveria. As reuniões são intrigantes, entretanto, ao mesmo tempo, sem o peso necessário, e os personagens são muito dispersos para que o espectador tenha uma ideia mais exata de suas emoções. Por outro lado, há momentos em que os personagens dançam em um clube noturno e Campillo os visualiza quase como partículas espalhadas pelo espaço: o efeito visual é interessante. Sabemos o que eles querem: a maneira como isso é apresentado não é levada aos extremos, como deveria. O roteiro escrito pelo diretor em parceria com Phillipe Mangeot mostra a liderança de Thibault (Antoine Reinartz) e Sophie (Adèle Haenel, a médica de A garota desconhecida, que, depois de Lírios-d’água, tem tido algumas atuações estranhas, parecendo sempre assustada), mas esses líderes não possuem uma ligação mais próxima dos integrantes do movimento, e os únicos momentos em que os vemos agindo são em espaço público. E há Max (Félix Maritaud), que contraiu a doença com transfusão, acompanhado de sua mãe Hélène (Catherine Vinatier).

De qualquer modo, o casal composto por Nathan e Sean mostra uma fuga a essas manifestações públicas e um ingresso na intimidade. Sean trata de um ex-amante que nunca mais encontrou, e Nathan se torna como uma espécie de reprodução da imagem dele. O momento em que compartilham o espaço de um quarto soturno leva o espectador para longe das manifestações públicas e do toque e do romantismo, porém Campillo, de certo modo, impede que cheguemos mais perto desses personagens por uma necessidade de seguir uma linha mais documental, da qual fazem parte inúmeros filmes franceses.
Há toques, aqui, do Assayas de Depois de maio, mas de maneira ainda mais radical, sem espaço para inter-relações mais evidentes. De certa maneira, o filme segue um terceiro ato bastante pesaroso, com um inquestionável registro de boas atuações e cinco minutos finais de grande sensibilidade. No entanto, não concedem o espaço que Campillo certamente desejaria: aquele de maior compreensão em relação às figuras que mostra, como indivíduos e não parte de um movimento. Para o diretor, o primeiro momento é o da ação, e o segundo da reflexão. Depois, enfrenta-se o desconhecido. Quando se chega ao final catártico, é normal que algo tenha se perdido, no entanto, de repente, se encontra, na representação de um grito até então abafado que, instantaneamente, desperta e se torna parte de cada um e de algo maior. Nesse caminho, 120 batimentos por minuto se transforma num filme bastante interessante para a discussão de um tema, mas um tanto em falta com seu impacto em termos de cinema e narrativa a ser acompanhada. O que sobra em talento para Campillo captar imagens talvez não tenha a devida ênfase em seus relatos históricos, relevantes como igualmente necessários.

120 battements par minute, FRA, 2017 Diretor: Robin Campillo Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Félix Maritaud, Ariel Borenstein, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Coralie Russier, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Jérôme Clément-Wilz, Jean-François Auguste, Saadia Bentaieb Roteiro: Robin Campillo e Philippe Mangeot Fotografia: Jeanne Lapoirie Trilha Sonora: Arnaud Rebotini Produção: Hugues Charbonneau, Marie-Ange Luciani, Jacques Audiard Duração: 140 min. Estúdio: Les Films de Pierre, France 3 Cinéma, Page 114, Memento Films, FD Production Distribuidora: Memento Films