Animais fantásticos e onde habitam (2016)

Por André Dick

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Depois de dirigir os quatro últimos filmes da série Harry Potter, David Yates estabeleceu uma parceria com a autora J.K. Rowling. Agora, baseando-se no roteiro dela, a partir de um livro nos moldes de um bestiário que ela também escreveu, temos a volta a um universo que se convencionou chamar de mágico e aqui parece traçar paralelos com a realidade de modo mais abrangente. Animais fantásticos e onde habitam é o primeiro filme de uma anunciada franquia composta por cinco obras.
Em 1926, o magiozoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega de viagem a Nova York. Este início poderia lembrar Era uma vez em Nova York, na chegada da personagem de Marion Cotillard a uma América prometida, e o cuidado visual não fica distante: tudo no filme é apresentado com uma riqueza de detalhes. Durante um discurso de Mary Lou Barebone (Samantha Morton), um dos animais que ele traz em sua mala escapa; é o Niffler, que tem atração por objetos reluzentes. Newt acaba se deparando com Jacob Kowalski (Dan Fogler), um “no-maj”, um trouxa (ou seja, os não magos), que deseja ter uma padaria, e leva os doces que faz para obter um negócio no banco. Ambos acabam trocando de mala. A investigadora Tina Goldstein (Katherine Waterston) leva Newt para MACUSA (Congresso Mágico dos Estados Unidos), mas a presidente Seraphina Picquery (Carmen Ejogo) e Percival Graves (Colin Farrell) não lhe dão a devida importância.

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No entanto, várias criaturas escapam da mala, agora sob alçada de Kowalsi, atraindo Tina e Newt. Juntos, eles conhecem a irmã de Tina, Queenie (Alison Sudol, agradável). Já Mary Lou Barebone dirige um orfanato, onde ela ensina as crianças a acreditar em bruxos, entre as quais Credence Barebone (Ezra Miller, excepcional), sempre sob proteção secreta de um dos integrantes do MACUSA.
O roteiro de J.K. Rowling é ágil, principalmente em sua primeira meia hora quando apresenta os personagens de maneira a despertar simpatia. Redmayne faz uma boa composição, entre o tímido e o corajoso, como Newt, conseguindo se desvencilhar não apenas da atuação marcante de A teoria de tudo como dos trejeitos um pouco forçados de A garota dinamarquesa e, principalmente, do vilão que apresentava em O destino de Júpiter, mas é Waterston, filmada como uma atriz dos anos 20 e 30, que se destaca com sua sensibilidade vista antes em Vício inerente. Por sua vez, o coadjuvante Fogler tem um tempo de humor notável, que combina com o de Sudol, fazendo esses personagens a princípio atrativos. Com uma fotografia primorosa de Phillipe Rousselot, uma trilha sonora brilhante de James Newton Howard (sem açucarar demais as notas e evocando a trilha de John Williams de Harry Potter, assim como de Alexandre Desplat) e um figurino irretocável, Animais fantásticos e onde habitam é uma das melhores surpresas entre os blockbusters deste ano.

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É o chamado filme que tem uma finalidade comercial bem clara e ainda assim consegue ter coração. Como um não fã exatamente da série Harry Potter, apesar de reconhecer as qualidades dela, especialmente dos três últimos capítulos, esta obra, que se passa setenta anos da saga do menino com poderes supremos, sugere temas envolvendo a magia sob um ponto de vista talvez mais soturno. Há menções, claro, a Hogwarts, mas o filme se sente outro universo, ou seja, o espectador não tem nenhuma obrigação de conhecer a outra franquia para poder entendê-lo. Além disso, ele evita ser o que parecia ser anunciado: uma espécie de Jumanji dos anos 20, com animais soltos por Nova York. Ele toca mais aquele ponto em que uma figura ameaçadora que pode estar causando estragos na cidade se volta contra figuras políticas, representadas pelo senador Henry Shaw (Josh Cowdery), filho de Henry (Jon Voight).
O filme trata de uma cidade não apenas ameaçada por criaturas e sim a ser reconstruída, e pode-se destacar a beleza das imagens que dialogam com King Kong, de Peter Jackson, principalmente em seus instantes de uma enorme criatura (não daremos spoilers) que corre pelo gelo atrás de Kowalski. As cenas de ação têm um vigor interessante, já empregado por Yates nos episódios que dirigiu da série Harry Potter, mesclando a elas um tom assustador.

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Existe uma certa desenvoltura na construção dessa narrativa, passada quase completamente à noite, com a sua figura mítica da águia, conhecida em diversas fábulas. A estreia como roteirista de Rowling se mostra altamente competente ao dosar passagens de um lirismo natural – a entrada no universo dos animais fantásticos – e de quase pesadelo – quando Scamander e Tina são colocados em ameaça. Não há o excesso de subtramas da série Harry Potter, que muitas vezes leva o espectador a perder o fio da meada e Rowling trabalha com referências oportunas à Nova York transformada depois de 11 de setembro, representadas antes de tudo por essa águia, que remete, na narrativa, também ao Arizona, ao velho oeste utópico da cultura norte-americana. Há um trânsito fluente entre o drama e o humor, na figura do padeiro, por exemplo, graças à atuação de Fogler, e uma atmosfera agradável que remete ao cinema clássico, principalmente quando os personagens visitam uma taverna. Newt não aprecia exatamente os seres humanos – tampouco as figuras importantes do filme parecem gostar – e as criaturas que carrega parecem ser ameaçadoras não apenas para a cidade, mas para quem vive no universo mágico. Por outro lado, são dele os gestos de generosidade ao longo da trama e a compreensão que ele lança sobre as ameaças a Nova York são a de quem exatamente entende o que acontece em seus subterrâneos mesmo que não aparente ou finja estar distraído.

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Neste ano, Yates já havia lançado A lenda de Tarzan, que trazia a ligação do homem com a natureza: aqui, ele mostra a ligação do homem com a natureza por meio de um universo mágico e extraordinário, e a visita que fazemos ao artefato que Newt carrega é impactante na resolução dos efeitos visuais – e, com CGI ou não, são magníficos. Esse artefato (a mala) contém não apenas criaturas fantásticas, como poderia também abrigar a cidade – e no momento-chave do final ela adquire uma imponência ainda maior. Se Harry Potter teve pelo menos dois capítulos iniciais como uma espécie de teste para o elenco, este filme começa a todo ritmo, tanto com o quarteto quanto com vilões ameaçadores. Ao mesmo tempo, por seu tom agridoce, Animais fantásticos se sente igualmente também como um grande universo ainda a ser explorado com esses personagens: ele realmente envolve o espectador a ponto de nos deixar com saudade deles depois que a sessão termina.

Fantastic beasts and where to find them, EUA/ING, 2016 Direção: David Yates Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Ezra Miller, Colin Farrell, Zoë Kravitz, Ron Perlman, Samantha Morton, Jon Voight, Carmen Ejogo Roteiro: J.K. Rowling Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Heyman, J.K. Rowling, Lionel Wigram, Neil Blair, Steve Kloves Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Warner Bros.

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A chegada (2016)

Por André Dick

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O diretor canadense Denis Villeneuve vem se transformando num dos nomes mais cultuados do cinema, principalmente desde seu ingresso em Hollywood, com Os suspeitos, seguido por O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. Antes de lançar a continuação aguardadíssima de Blade Runner, para a qual foi convidado pelo diretor Ridley Scott, Villeneuve apresenta uma ficção científica com roteiro de Eric Heisserer (Quando as luzes se apagam), baseado no conto Story of your life, de Ted Chiang, que vem, desde seu lançamento em Veneza, transformando-se no que foi Gravidade em 2013 e Interestelar em 2014, para não falar no interessante, embora falho, Perdido em Marte em 2015. Todos esses filmes tiveram grande recepção, inclusive indo ao Oscar ou ganhando outros prêmios importantes.
A narrativa já começa em alto movimento, mostrando os passos da linguista Louise Banks (Amy Adams), especialista em tradução, que é procurada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para que possa fazer parte de uma equipe em que se encontra também o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), a fim de tentar estabelecer contato com uma espaçonave alienígena nos arredores de Montana, onde se montou um grande acampamento militar. Há doze dessas espaçonaves ao redor do mundo, e é inevitável, por mais que esta seja uma ficção arthouse, que A chegada acaba lembrando Independence day involuntariamente. Na verdade, há muitos momentos de A chegada que remetem a outras ficções conhecidas, como Contato, Interestelar e, claro, o clássico Contatos imediatos do terceiro grau. Mais ainda: não apenas pela dupla central, como pela atmosfera, A chegada deve muito a Arquivo X.

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Não se está em questão, porém, a originalidade, já que a ficção científica tem passos semelhantes em muitos filmes – para dar um exemplo, Shawn Levy, que produz e dirige alguns episódios de Stranger things, está entre os produtores. Trata-se da pretensão. Em nenhum momento, a fotografia de Bradford Young se contenta com menos do que aparentar ser esta a ficção científica definitiva, e Villeneuve tenta oferecer ares de Solaris a alguns momentos, com toques de 2001, sobretudo quando se mostra a espaçonave. A trilha sonora de Jóhann Jóhannsson procura o mesmo caminho, com um tom grave oferecido a cada momento, acompanhado pelos efeitos sonoros muitas vezes aterradores, sem esquecer uma certa emoção em momentos decisivos.
Villeneuve, no entanto, ao contrário do que acontece em sua adaptação de Saramago em O homem duplicado, não torna essa narrativa aparentemente fácil em algo complexo. Sabemos que a equipe está em Montana para estabelecer esse contato e o que vemos são as tentativas, mas sem o envolvimento com os personagens e sim um afastamento que alguns poderiam chamar de malickiano. No entanto, Malick consegue, por meio de personagens às vezes vagos, constituir um panorama. Parece ser isto o que falta ao filme de Villeneuve, que se sustenta no contato da equipe com os alienígenas, baseado-se na linguagem que eles têm a oferecer para que não soe igual a outros. Este é o contato entre linguagens, seguido pelo possível atrito entre nações diferentes.

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A chegada lembra um pouco Prometheus: Villeneuve aproveita elementos daquele (na imponência da espaçonave sobre a montanha, por exemplo, na questão de Deus existir ou não na solidão do espaço sideral e na perda de um ente querido, no caso de Prometheus, do pai da arqueóloga, e no caso de A chegada da filha da linguista). Os efeitos visuais, em alguns momentos, são notáveis, embora os alienígenas, apelidados de Abbott e Costello, pareçam lembrar excessivamente os aracnídeos de O homem duplicado e todo o diálogo com eles ser excessivamente hermético e mostrado ao espectador como se estivesse diante de uma tela de cinema – nesse sentido, é uma ficção também metalinguística. Perceba-se, nesse sentido, como a nave espacial lembra o formato das lâmpadas da casa de Louise e num determinado momento ela parece encarnar o personagem de Gyllenhaal de O homem duplicado, entre o sonho e a realidade. Há momentos de poesia, como aquele em que um dos tentáculos do alien se transforma numa espécie de estrela do mar; no todo, contudo, falta uma variação de cenários, tudo se situando entre a parte interna da espaçonave e o acampamento militar, além de o grande empecilho, o agente Halpern (Michael Stuhlbarg), ser excessivamente previsível.
No elenco, Adams tem uma boa atuação, apresentando uma dramaticidade já vista em DúvidaTrapaça e Grandes olhos, por exemplo. Apesar de sua personagem ser fascinante, ela não atinge o mesmo caminho daquelas que Villeneuve mostrava como principais em Polytecnique e Sicario, esta com uma Emily Blunt na melhor fase de sua carreira. Já Renner é um ator subaproveitado aqui, assim como Whitaker, mesmo que ambos sejam adequados.

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Villeneuve é um diretor muito consciente de seu ofício e seus experimentos não raramente evocam de outros diretores: Os suspeitos é um David Fincher mais pop, enquanto Sicario é uma espécie de encontro entre Kathryn Bigelow e Steven Soderbergh, e mesmo o excepcional Polytecnique tem suas bases claras em Elefante, de Gus Van Sant. Ou seja, ele se mostra um diretor com claras referências, embutindo em todos o seu estilo próprio, inconfundível: uma certa lentidão europeia para tratar de temas espinhosos. Quando aqui ele tenta, por um lado, equivaler seu filme a obras-primas do cinema de ficção científica, por outro, acaba não encontrando o tom certo por vezes. É visível o seu desconforto com o roteiro e a tentativa de ser antilinear sem conceder ao espectador o momento certo de adivinhar a reviravolta.
O grande problema parece ser a indefinição de Villeneuve entre a ficção hermética e a mais emocional. Ele mantém o melhor para o ato final, em que convergem sinais de esperança na humanidade e uma delicada lembrança do que significa a ligação entre as pessoas. Há um choque de emoção que quase inexistia antes e, se talvez o filme fosse uma lembrança, ele pudesse crescer na memória. Seu cerebralismo excessivo se contrai quando sabemos que por trás de sua narrativa há esta tentativa de se estabelecer contato com um universo conhecido previamente, mas quando surgem analogias a partir da aproximação humana seu sentimento cresce de maneira incontornável.

Arrival, EUA, 2016 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Michael Stuhlbarg, Forest Whitaker, Mark O’Brien Roteiro: Eric Heisserer Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Aaron Ryder, Dan Levine, David Linde, Karen Lunder, Shawn Levy Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Estúdio: 21 Laps Entertainment / FilmNation Entertainment / Lava Bear Films

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Elle (2016)

Por André Dick

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Depois de alguns anos um pouco afastado do cinema, Paul Verhoeven regressa à cena aos 78 anos, com este Elle, cuja estreia se deu em grande estilo no Festival de Cannes. Verhoeven sempre será conhecido como um dos diretores europeus que conseguiram chegar a Hollywood e fazer sucessos, entre os quais estão RoboCop, O vingador do futuro e Instinto selvagem, assim como fracassos que lhe custaram anos de afastamento, a exemplo de Showgirls e Tropas estelares, além de O homem sem sombra. Dez anos depois do grande sucesso de crítica A espiã, ele regressa com esta produção feita em parceria entre França, Alemanha e Bélgica (e o filme foi indicado para representar a França no Oscar).
Isabelle Huppert interpreta Michèle Leblanc, chefe de uma empresa de jogos de vídeo bem-sucedida, que cria atritos com os empregados, principalmente Kurt (Lucas Prisor), e certo dia é atacada surpreendentemente por um homem com uma máscara de esqui em sua casa. Ao contrário do que se espera, ela não faz nenhuma reclamação nem procura a polícia, e ainda esconde o que aconteceu dos amigos, do ex-marido Richard (Charles Berling), um romancista desastrado, da sua mãe, Irène (Judith Magre), e do filho, Vincent (Jonas Bloquet). Pelo comportamento estranho dos personagens e do cenário de trabalho, este é o filme que Brian De Palma, uma das influências de Verhoeven aqui, gostaria de ter feito em Paixão.

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Será que o intruso voltará a atacá-la? Quem ele é? Alguém que conhece ou um completo desconhecido? Ela tem problemas de relacionamento com a mãe, que está prestes a se casar com um homem muito mais novo, e não se dá bem com a nora, Josie (Alice Isaaz), ou seja, sua vida é repleta de conflitos não resolvidos. Bem, ela parece procurá-los: por que, por exemplo, ela bate de propósito no carro de seu amigo? O gato que há em sua casa age como se a conhecesse melhor do que os humanos.
Verhoeven sempre teve um interesse por mulheres que colocam os homens em situação de ameaçados sexualmente. Aqui, a mulher sofre abusos do mascarado, mas não entendemos suas reações a isso. Huppert faz uma das personagens mais intrigantes do universo feminino dos últimos anos justamente porque parece lhe faltar qualquer compromisso com o discurso em sua própria defesa – parece, pois, na verdade, o que ela faz é justamente empregar esse discurso por meio de atitudes enviesadas. Verhoeven desenha isso com muito talento, procurando, a certa altura, explicações psicológicas de notável desenvoltura para a narrativa. Deve-se dizer que a melhor amiga de Michèle é sua companheira de empresa, Anne (Anne Consigny), cujo marido é Robert (Christian Berkel). Também há um vizinho, Patrick (Laurent Lafitte), que se mostra um amigo acolhedor enquanto arruma figuras religiosas no pátio de sua casa.

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Verhoeven obviamente transita entre um suspense influenciado por Hitchcock, cenários parisienses que lembram o melhor de Carax (por meio de um video game, uma referência em certo momento a Holy Motors é assustadora) e um humor sutil que supera aquele que introduz em cada um de seus filmes, sobretudo em Hollywood. Este aqui é um Verhoeven mais maduro: vejamos a relação de Michèle com a mãe e com o filho. Ela parece interpretar a todo momento uma personagem e acha também que os outros encarnam personagens (a noite em que se reúnem na sua casa para o Natal é definitiva disso). Sendo assim, parece apenas flutuar entre as pessoas, de forma inconsequente: seu comportamento parece tão banal que às vezes soa até correto.
Verhoeven provoca vários temas, como o feminismo e a religião, de forma que nunca chegamos a entender essa personagem. Também não entendemos as pessoas que a cercam, e são elas, por outro lado, que a explicam. Com roteiro adaptado por David Birke de um romance de Philippe Djian, Verhoeven trata algumas das figuras da narrativa como aquelas que apresenta, por exemplo, em Instinto selvagem e Showgirls: Michèle é dúbia em suas preferências e Alice Isaaz lembra claramente uma Sharon Stone mais nova. Há uma atmosfera de sexualidade ameaçada e ameaçadora em todos os cantos de Elle, mas de maneira mais reflexiva do que nos seus experimentos em Hollywood, em que havia sempre o clichê de terminar as histórias com uma decisão comercial. E uma sátira evidente por meio da relação entre o filho de Michèle e sua jovem esposa, que remete quase a uma comédia familiar de Woody Allen.

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Nesse sentido, o design de produção desta obra é não menos do que excepcional, em sua reconstituição de atmosfera, por meio de elementos, assim como o figurino de Michèle representa sua própria personalidade para cada ocasião. Considerar que este é um filme, como alguns dizem, de uma mulher que gosta de ser abusada sexualmente é simplesmente não entender a proposta dele, muito mais complexa e que leva ao instinto enigmático de um indivíduo. A maneira como Verhoeven retrata a ligação entre Michèle e seu filho Vincent, que parece ingênuo e completamente desligado da realidade, faz o filme parecer uma peça quase de nonsense quando esconde, no subterrâneo (simbolizado pelo porão), a liberdade que cada um escolhe para enfrentar seu próprio medo. Esses personagens estão sempre numa posição de defesa ou ataque, ou de superioridade ou inferioridade, a julgar, por exemplo, pelas sequências em que Michèle caminha por sua agência (olhando para o comportamento de um de seus empregados no andar de cima) ou quando está em casa (quando olha para a casa que fica do outro lado da rua). Huppert entrega a personagem mais fascinante de sua trajetória extensa. Ela acaba também se mostrando por meio de sua casa, do portão e das janelas semiabertas, como se estivesse entre a liberdade e a prisão, e que a fotografia de Stéphane Fontaine apresenta com notável propriedade. Não se deve explicar por que Michèle se mostra desse modo e sim deixar para o espectador este mistério de filme, talvez a obra máxima de Verhoeven. Que Elle tenha saído sem prêmios de Cannes é mais espantoso do que a ousadia de sua temática.

Elle, FRA/ALE/BEL, 2016 Diretor: Paul Verhoeven Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Jonas Bloquet, Virginie Efira, Christian Berkel, Judith Magre, Alice Isaaz Roteiro: David Birke Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Anne Dudley Duração: 130 min. Distribuidora: Sony Estúdio: Entre Chien et Loup / France 2 Cinéma / SBS Productions / Twenty Twenty Vision Filmproduktion GmbH

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Aquarius (2016)

Por André Dick

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O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho teve uma carreira inicial baseada em curtas-metragens, a exemplo de Eledrodoméstica e Recife frio, seguidos por uma grande estreia em longa, O som ao redor, que colheu opiniões entusiasmadas no mundo todo, e, particularmente, me parece uma obra-prima. Seu segundo filme, justamente este Aquarius, estreou em Cannes, cercado por um componente político: mais cedo ou mais tarde, muitos souberam que a equipe teria apontado em cartazes que haveria um golpe político no Brasil. Desde então, o filme vem sendo avaliado por muitos espectadores com um viés naturalmente ligado ao evento na Riviera Francesa. Eis que o filme estreou no Brasil na mesma semana em que foi votado o afastamento da presidente Dilma Rousseff, aconteceu a posse do até então interino Michel Temer e a polêmica veio à tona novamente.
Aquarius, de fato, como O som ao redor, é um filme político apenas para quem entende que a arte carrega sempre um discurso por trás dela. É permitido achar assim, e há filmes que se esclarecem contrários a um status quo. Ou dedicados a analisar políticas internas, como Nascido em 4 de julho e JFK, de Oliver Stone, ou à Revolução de Maio de 68 francesa, a exemplo de Amores constantes. Mas essas evidências não aparecem em O som ao redor, tampouco em Aquarius. Kleber Mendonça se movimenta entre uma visão de uma certa classe e suas aspirações à grandeza ou às circunstâncias mais comuns do cotidiano.

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Não por acaso, sua personagem central é Clara (Sônia Braga), na mesma Recife do diretor, uma ex-jornalista musical do alto de seus 60 e tantos anos, que mora no antigo edifício Aquarius, sendo a única a enfrentar a construtora Bonfim, que já comprou os outros apartamentos, a fim de modernizá-los. Essa construtora é representada pelo engenheiro Diego (Humberto Carrão, impecável), fazendo uma ponte com o personagem central de O som ao redor, João (Gustavo Jahn), que era um integrante do mercado imobiliário, cansado de suas tarefas. Diego é comprometido: ele realmente pretende tirar Clara do seu espaço. Este é o retrato universal de muitos personagens, ou seja, podemos ver esta temática nos mais diversos lugares, não sendo estritamente ligada ao Brasil – e me veio à mente principalmente Winter sleep, vencedor de Cannes em 2014, e seu dono de hotel com várias posses na região onde mora. Kleber sabe construir um sentido de ameaça por trás dessa condição, ao mesmo tempo que potencializa um certo drama que remete aos filmes de Jafar Panahi, Asghar Farhadi e exatamente Ceylan.
É nítido como, mais do que em O som ao redor, um filme extremamente experimentalista, apesar de aparentar apenas um retrato urbano, Kleber aqui condensa mais sua narrativa em algo acessível para o espectador. Juntamente com a atuação de Sônia Braga, em certos pontos exitosa e em outros menos (principalmente no ato final, quando algumas sequências são desnecessárias e parece haver um inacabamento), ele faz o filme se movimentar de maneira interessante, recorrendo à memória, mas, surpreendentemente, o faz de maneira plana – ao contrário de O som ao redor. Ele tem um olhar muito apurado para enquadramentos e sua primeira metade tem leveza e movimento, mas aqui lhe faz falta exatamente aquele toque experimental que fazia sua obra de estreia ser uma mistura entre um drama de Roberto Altman e um suspense de John Carpenter.

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Ele torna a personagem na representação de seu olhar sobre essa ameaça à memória sem reter dela o principal: de que ela não é meramente um símbolo contra o que considera uma injustiça; é, antes de tudo, uma personagem cotidiana. Kleber acaba destacando o posicionamento do engenheiro para que a personagem central, mais humana, se torne também uma heroína. Isso não acontece de modo sutil porque Braga, apesar de uma atriz experiente, não consegue em certos momentos superar o roteiro. Sempre que isso não acontece, porém, temos ainda a fotografia notável de Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, já presentes em O som ao redor, com um traço luminoso em cada cena e mesmo enigmático, quando mostra os arredores do Aquarius ou a praia do Recife.
O início do filme, mostrando a festa de aniversário de uma tia dela, Lucia (Thaia Perez), anos antes (quando Clara é interpretada por Barbara Colen), se encarrega de ser o ponto inicial para o que se considera uma memorabilia de reuniões: Kleber pretende mostrar como as moradias guardam recordações de uma vida inteira (sobretudo quando mostra Clara lidando com seus discos, e não se pode ignorar que Sônia Braga foi consagrada na TV brasileira com a novela Dancing days, eminentemente musical), como também podem apagar ou reacender relações perdidas. Isso rende tanto boas sequências (mais exatamente no início) quanto algumas deslocadas (quando a namorada do sobrinho coloca uma música para que ela escute). Ele tem um interesse amoroso tímido, um salva-vidas, Roberval (o excepcional Irandhir Santos, infelizmente pouco aproveitado), em instantes que remetem a Praia do futuro, enquanto pretende se afastar de possíveis discussões que podem envolver a venda do imóvel com a filha Ana Paula (Maeve Jinkings, de O som ao redor, novamente irretocável). Esses núcleos são interessantes, porém surgem em meio a outros que parecem inseridos à força.

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A questão é que Kleber Mendonça Filho não apresenta a mesma perícia narrativa que havia exibido no seu filme de estreia, mesmo sabendo-se que se trata de um filme diferente em seu propósito: não por acaso, ele parece, algumas vezes, se voltar àquilo que Farhadi tentou fazer em sua peça seguinte à A separação, O passado. Kleber está mais interessado no retrato de um passado que se mantém no presente e o faz por meio de traços de melancolia, mas imbuídos de um certo vazio que não leva o espectador a ter uma expectativa especial pelo que acontece. O que mais guarda de semelhança com sua estreia é uma procura, às vezes, por imagens de tensão em zooms (não por acaso, há um cartaz de Barry Lindon no apartamento de Clara) e olhares deslocados. Em meio a isso, a necessidade final de desenhar um simbolismo que remete a David Lynch é superada pelo fato de que antes tudo é muito explícito para que soe de modo orgânico.
A recepção, claro, depende do espectador: se Clara torna-se uma personagem fascinante, o filme se encarregará do restante; caso não (particularmente da metade para o final), haverá uma sensação de afastamento e menos interesse. Dramaticamente, Aquarius empalidece perto, por exemplo, de dois filmes recentes que lidam com a casa como espaço da própria história: Casa grande e, no plano afetivo, É proibido fumar – sobre a relação entre uma mulher à procura de um amor (Glória Pires) com seu vizinho (Paulo Miklos). Clara é o ponto-chave, mesmo cercada de parentes e amigos, enquanto a grande riqueza de seu filme de estreia era a multiplicidade real de personagens e caminhos, uma mescla de vozes. Kleber, aqui, tenta se manter mais subjetivo, como se retratasse um monólogo: em certos momentos, ele cumpre com o objetivo; em outros, apenas o filme se encarrega de mostrar a sua passagem do tempo inabalável.

Aquarius, BRA, 2016 Diretor: Kleber Mendonça Filho Elenco: Sônia Braga, Julia Bernat, Humberto Carrão, Barbara Colen, Maeve Jinkings, Buda Lira, Irandhir Santos, Thaia Perez Roteiro: Kleber Mendonça Filho Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd Duração: 142 min. Distribuidora: Vitrine Filmes

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O nascimento de uma nação (2016)

Por André Dick

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O diretor e ator Nate Parker realizou O nascimento de uma nação com cerca de 8,5 milhões de dólares, um orçamento irrisório. Premiado como melhor filme no Festival de Sundance, ele teve grande recepção crítica e se tornou num dos possíveis candidatos ao Oscar num primeiro momento, mesmo porque houve a polêmica da premiação no início deste ano de não indicar artistas negros às categorias. E o título é uma clara referência ao filme de 1915 de D.W. Griffith que elogiava a Ku Klux Khan, inclusive colocando atores brancos pintados de negros, um épico de mais de três horas de duração que revolucionou a maneira de realizar filmes (infelizmente, muitas vezes no mau sentido).
O filme inicia mostrando o personagem central, Nat Turner, na infância (interpretado por Tony Espinoza), em Southampton, Virginia, quando é visto como uma espécie de libertador, marcado pela simbologia africana. Elizabeth Turner (Penelope Ann Miller) o ensina, desde pequeno, a ler e a escrever, além de estudar a Bíblia, aderindo ao cristianismo. Ele cresce e vira pregador. O filho de Elizabeth, Samuel (Armie Hammer), usa o fato de ele ser um pregador para controlar escravos mais rebeldes, e eles convivem proximamente, não exatamente tratando um ao outro como irmão, mas quase. No entanto, há o capataz Raymond Cobb (Jackie Earle Haley), um homem agressivo, já no início em combate com o pai de Nate, Isaac (Dwight Henry), e que pode ameaçar Cherry (Aja Naomi King), interesse amoroso do personagem principal, cuja figura referencial é a da mãe (Aunjanue Ellis).

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A atuação de Parker é excelente, lembrando um pouco a de Ejiofor de 12 anos, mas talvez com mais impacto em alguns momentos, mesmo pela temática mais contundente em alguns pontos, justificando a recepção em Sundance. No entanto, esta recepção exitosa – com grandes chances de ir ao Oscar – se deu até o momento em que uma notícia veio à tona em agosto: de que Parker e seu argumentista, Jean McGianni Celestin, foram acusados pelo estupro de uma jovem na época da faculdade, em 1999. Ao longo do julgamento, inocentaram o diretor, enquanto culparam seu parceiro, que teve as acusações retiradas depois de recorrer. A jovem acabou cometendo anos depois suicídio (há relatos mais apropriados em sites que investigaram o caso). É absolutamente lamentável a tragédia envolvendo a jovem estudante e muito importante o que a imprensa trouxe à cena.
Tentando ver seu filme do ponto de vista artístico e não dos temas que se formaram em razão da polêmica desagradável envolvendo Parker (o que não é fácil), ele tem uma sensibilidade na direção de atores (Hammer dá sua melhor atuação desde A rede social) e no uso da fotografia de Elliot Davis, com sua paleta entre o azul, o verde e o cinza. Pode-se dizer que é um retrato que se preocupa em mostrar um período devastador para a humanidade. O plano religioso também é trabalhado de forma adequada, com uma colocação do discurso como forma de atenuar qualquer rebelião – e, mesmo assim, podendo provocá-la, sob um entendimento equivocado.

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No local onde vive, há um outro reverendo, Zalthall (Mark Boone Júnior), a serviço do dono de Nat e que usa este para tentar controlar outros escravos da região, e um uso grande de imagens simbólicas referentes ao universo da pregação e da retórica que poderia colocar Turner como uma espécie de Malcolm X de sua época. Entre os amigos de Nate, está um escravo, Hark (Colman Domingo) que vê sua noiva (Gabrielle Union) também sofrer. Essas cenas mais graficamente violentas são talvez mais fortes do que aquelas que visualizamos anteriormente em 12 anos de escravidão e Django livre, com Parker tentando usar recursos visuais que McQueen e Tarantino não utilizam. A sensibilidade também é percebida na aproximação de Nat de Cherry, quando ele lhe oferece uma rosa – e a sua cor significa mais do que os espinhos que pode carregar. O espectador é capaz de sentir, como no filme de McQueen, o peso existencial sobre cada personagem.
Belas imagens, como o sangue da orelha sobre o milho, ou os escravos colhendo algodão enquanto o sol parece passar por um eclipse, ou as nuvens da noite cobrindo a lua, antecipam essa vingança baseada nas palavras religiosas. Os homens carregando tochas à noite lembram uma espécie de regresso à África, ao verdadeiro nascimento de uma nação. Uma cena especialmente discreta é impactante é quando uma menina negra brinca puxando outra pela corda na varanda de uma mansão, enquanto Nat observa da carroça.

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Há uma grandiosidade na maneira como os temas são retratados, com certa claustrofobia nos cenários e movimentos de câmera. Parker atua talvez melhor do que dirige, com uma gravidade nas palavras, principalmente quando reconhece o que fazem com escravos em fazendas vizinhas da sua, e isso sustenta talvez a melhor parte do filme. O nascimento de uma nação acontece exatamente por meio desse enfrentamento, que realmente existiu em 1831, mesmo este existindo sem a devida ênfase, por outro lado com uma crueza necessária.
Embora o orçamento seja limitado, o desenho de produção e o figurino têm grande qualidade e, se em alguns instantes parece tentar algo no caminho de Gangues de Nova York, deve mais à obra de McQueen e dialoga com traços de A cor púrpura. E há o elenco, quase todo uniformemente impecável, mesmo os coadjuvantes menos destacáveis. No ato final, Parker utiliza alguns elementos simbólicos e um deles remete, curiosamente, a Twin Peaks – Fire walk with me, de David Lynch, numa espécie de enfrentamento com o destino. Não se compreende que Parker perdoa alguma ação desencadeada pela vingança confundida com a religião, e sim de que ele é atormentado por visões que não explicam o que ele realiza. Isso acontece depois de uma sequência bem trabalhada, embora em fragmentos, e que justifica a obra como um retrato forte sobre a escravidão. Ao mesmo tempo, Nate Parker continuará a ser julgado, por tudo aquilo que teria acontecido em sua vida pessoal, mesmo tendo sido inocentado no plano da justiça, e por todos os temas que tentou levar às telas, de grande importância histórica e cinematográfica.

The birth of a nation, EUA, 2016 Diretor: Nate Parker Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Colman Domingo, Aja Naomi King, Jackie Earle Haley, Penelope Ann Miller, Gabrielle Union Roteiro: Nate Parker, Jean McGianni Celestin Fotografia: Elliot Davis Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Nate Parker, Kevin Turen, Jason Michael Berman, Aaron L. Gilbert, Preston L. Holmes  Duração: 120 min. Estúdio: Bron Studios, Mandalay Pictures, Phantom Four, Tiny Giant Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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Doutor Estranho (2016)

Por André Dick

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O diretor Scott Derrickson, do remake de O dia em que a terra parou e de alguns filmes de terror, como A entidade, foi o escolhido para estar à frente da adaptação de Doutor Estranho, personagem criado por Stephen J. Ditko e Stan Lee, para as telas de cinema. Antes do lançamento, como ocorrem com os filmes de super-heróis, houve uma grande onda de marketing, levando à questão de que são eles que parecem manter o sistema financeiro de Hollywood girando, a fim de que se possam bancar outras produções. Nada menos do que cinco obras do gênero estão entre as dez maiores bilheterias do ano até o momento: Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, Esquadrão suicida e X-Men: Apocalipse. Tudo indica que Doutor Estranho irá entrar nessa lista.
O neurocirurgião Stephen Strange é brilhante e competente no que faz, embora ao mesmo tempo ambicioso. Tendo como interesse amoroso a médica e colega Christine Palmer (Rachel McAdams), ele sofre um acidente que o incapacita a trabalhar no campo a que se dedica com fidelidade e acaba viajando viajando para o Kathmandu, Nepal, a fim de descobrir uma cura. Nisso, já fomos introduzidos também ao grande vilão, feiticeiro Kaecilius (Mads Mikkelsen), que, depois de entrar em Kamar-Taj para roubar um livro proibido, luta com uma figura misteriosa em meio a prédios cuja envergadura e imponência, se desdobrando, remetem claramente ao filme A origem.

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Derrickson, porém, faz dessa experiência visual algo realmente reconfortante, como se a realidade fosse um jogo de espelhos desmontável. Ou seja, o que Doutor Estranho mais joga para o espectador é uma necessidade de questionar o que seria, afinal, a realidade: no filme, tudo passa a ser colocado em dúvida, inclusive a existência. Se na peça de Nolan havia uma inspiração filosófica, em Doutor Estranho Derrickson abre um leque mais pop. Quando o personagem se refugia no Oriente, e o filme incursiona numa linha de meditação, por meio dos personagens da Anciã e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o roteiro de Derrickson com Jon Spaihts e C. Robert Cargill apresenta uma amostra da discussão dos planos físico e material de modo delicado.
Há uma interessante busca de si mesmo que claramente dialoga com outras histórias, mas é o cuidado com que esse ambiente é introduzido que faz o espectador ficar agradecido pelas imagens em composição: no momento em que a Anciã leva Strange a uma viagem psicodélica, pode-se lembrar mesmo de Bowman em 2001 ou de Enter the void, de Noé: é, em suma, espetacular. Derrickson nunca chegou a ser um cineasta vistoso; aqui ele se torna competente com poucos elementos à mão, como quando insere o personagem na dimensão espelho, que lembra um pouco a aula de lutas de Paul Atreides em Duna.

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Eis que se deve dizer, ainda assim, que, a partir de determinado momento, alguns temas parecem se repetir, a sobreposição se acentua e as cenas de ação passam a existir em sequência, sem nenhuma lacuna entre elas e sem uma ligação orgânica. O Doutor Estranho não permanece a mesma figura interessante que Cumberbatch desenha em sua primeira parte. A entrada do personagem central na biblioteca protegida por Wong (Benedict Wong) passa a ser exemplo da necessidade de um humor inusitado e desperdiçado, com sua série de menções a nomes da música pop, que destoam da narrativa. Claro que existe toda uma condição em jogo: se Strange vai decidir usar sua energia para voltar a usar suas mãos como gostaria ou disponibilizá-las para um enfrentamento com Kaecilius, seguido por um grupo feroz e que pretende trazer ao cenário uma figura de dimensão assustadora.
Em meio a isso, também há uma grande competência em construir uma parte visual calcada em efeitos espetaculares. Deve-se lembrar que  eles não são apenas inspirados em A origem, como também o filtro da fotografia é o mesmo, embora nunca tenha a profundidade dada por Nolan no sentido de compor uma mente vagando, melancólica. Por sua vez, o desenho de produção se mostra pouco amplo, parecendo lembrar cenários de estúdio, principalmente na reconstituição de detalhes orientais, às vezes excessivamente fechados (talvez porque estejam todos dentro de uma caixa mental), o que contrasta com a amplitude das viagens proporcionadas pela Anciã e mesmo com as ruas cheias de população de Kathmandu.

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Com trilha sonora de Michael Giacchino, habitual colaborador de J.J. Abrams, aqui num momento menos inspirado e mais intrusivo, e competente fotografia de Ben Davis, de Guardiões das galáxia e Vingadores – Era de Ultron, Doutor Estranho é encarnado por um Cumberbatch indefinido entre empregar seu estilo reconhecido também em Sherlock e lidar com o roteiro repleto de frases de exposição. O ator, já reconhecido pelo vilão de Além da escuridão – Star Trek e por Alan Turing de O jogo da imitação, não consegue muitas vezes tornar Doutor Estranho numa figura que poderia: fascinante. Ele começa muito bem e transmite bem o sentimento de abandono e solidão, logo sendo prejudicado pela necessidade de o roteiro colocar o personagem em meio a gags deslocadas (outro ponto complicado é quando tenta se adequar a seu uniforme). No início, há uma espécie de tragicidade bem dosada e depois o roteiro esquece disso para transformá-lo, aos poucos, num super-herói que desenvolve poderes literalmente num passe de mágica – porém, não há um sentido de algo sendo descoberto, crescente, e sim apenas como parte do script. Com ele, o elenco extraordinário é subaproveitado, mesmo Swinton, McAdams e Ejiofor. O vilão, feito pelo grande ator Mikkelsen, não se sente em nenhum momento ameaçador e sua motivação é rasa, além de não receber um punhado de bons diálogos para rivalizar com o Doutor Estranho.

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Todos se sentem deslocados pelo roteiro desenvolvido rapidamente e sem se aprofundar. O bibliotecário Wong? Ele existe para os momentos de humor. A Anciã? Apenas para adiantar o que Doutor Estranho deve fazer. Onde o filme de Derrickson mais ganha é quando explora a espiritualidade e o plano físico de modo fundamental, como nas cenas do hospital e nos duelos que se expandem para novos edifícios, numa maravilha técnica de encantar os olhos, com exceção do CGI exagerado do terceiro ato. Porém, falta um elo humano, por exemplo, entre Doutor Estranho e a Anciã: tudo é projetado demais para ressonar uma verdadeira emoção e colocado em nome da franquia a ser iniciada (para ter um exemplo, mesmo com temas mais profundos, não chega perto do que acontece com o Groot ao final de Guardiões da galáxia). Doutor Estranho tenta mesclar discussões interessantíssimas sobre a vida e a morte, mas prefere, na maior parte das vezes, atenuar tudo com o humor e a exposição nos diálogos. Derrickson não consegue (ou não quer) expandir essa faceta que tornaria o personagem mais interessante; é como se temas complexos precisassem ser invariavelmente substituídos pelo programa a ser seguido. Quando vemos um elenco dessa estirpe (talvez o melhor reunido num filme da Marvel) e uma grandiosidade técnica ser diminuída por um roteiro pouco desenvolvido, nota-se que está em jogo a própria essência que a companhia desenvolveu tão bem em Os vingadores e Guardiões da galáxia, por exemplo: um misto entre humor, sentimentalismo e ação que poucas vezes se viu, sem pular de quadro em quadro para um filme totalmente diferente.

Doctor Strange, EUA, 2016 Diretor: Scott Derrickson Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige Duração: 115 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

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Despedida

Para Lauro João Dick (1934-2016), com amor, in memoriam

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Meu pai tinha a literatura como seu grande referencial na arte, tendo sido professor desse campo, mas nunca deixou de apreciar excelentes filmes, também certamente por seu interesse pela dramaturgia. Num momento em que me despeço dele, lembro de alguns filmes que marcaram sobretudo a minha infância e entrada na adolescência: filmes que ajudaram a configurar minha paixão pelo cinema, que devo a ele tanto quanto à minha mãe. São obras que me marcaram quando assisti com ele e que eram também, alguns, de sua predileção. Os elos sentimentais se fazem por meio também da arte: as pessoas são parte de nosso elo com a imaginação, com a maneira com que vivenciamos essas relações (acho que nisso estou citando indiretamente Barthes). Tive alguns professores de literatura, mas nunca o tive como professor em aula. Entendo que ele não ensinava literatura, mas de fato a vivenciava.
Depois da época de pedir brinquedos, estava sempre atrás dele ou da mãe para comprarem a Cinemin, Vídeo News e a SET. Meu interesse por livros e filmes cresceu com a leitura dessas revistas, e devo isso a eles. Também lembro que meu pai gostava de comprar livros com roteiros de filmes, como o de Adeus, meninos, que eu ia mexer na biblioteca de casa. Era, igual à minha mãe, interessado na arte como forma de crescimento pessoal e como maneira de estabelecer relação com os filhos (minha irmã e meu irmão também sempre gostaram de filmes e livros), parentes, amigos. Conversávamos sobre isso sempre. Recordo, nisso, de sessões especialmente gratificantes de Aliens – O resgateGremlins e Gremlins 2Esqueceram de mim e Esqueceram de mim 2Império do sol, O ursoUma cilada para Roger RabbitUma secretária de futuroO segredo do abismo De volta para o futuro III, Os caça-fantasmas 2Indiana Jones e última cruzadaRain ManDick TracyTop Gang – Ases muito loucos, As tartarugas ninja, Corra que a polícia vem aí e O poderoso chefão III. E lembro especificamente de um filme que não assisti com ele e o marcou muito: Entre os muros da escola, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Tanto meu pai quanto minha mãe começaram a se afastar mais da vida no momento de fazer a passagem para algo maior e transcendental. A memória é o que fica. Abaixo, uma lista de 10 filmes marcantes, em homenagem a meu pai.

10. Jurassic Park – Parque dos Dinossauros

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Spielberg volta ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones: muita aventura e uma trama para justificá-la. Desta vez, ele se baseia num romance de Michael Crichton (também autor da adaptação para o cinema). O projeto do parque dos dinossauros é fascinante e ao mesmo tempo assusta um casal de arqueólogos e um matemático. Apesar da superficialidade dos personagens e da lição de moral previsível, o filme tem uma qualidade inegável: empolga o espectador. Spielberg não faria um mau filme de ficção, e este não fica para trás. O capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área, mesmo com os computadores atuais) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade. Quando o vi com meu pai em 1993, Jurassic Park nos deixou impressionados com seus efeitos visuais de ponta, a um palmo da tela. Eram mais de 10 anos depois de eu ter pedido para sair da sessão de um filme por causa das criaturas assustadoras: O cristal encantado.

9. Batman

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing. Esse marketing não poderia escapar ao fato de que meu pai e eu fomos assisti-lo no dia de estreia e na primeira sessão, quando um cinema inteiro conheceu o que era um ator fazendo a plateia rir a sessão toda: Jack Nicholson, um dos atores favoritos dele (meu pai gostava especialmente de Melhor é impossível).

8. O nome da rosa

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O nome da rosa, adaptado de um romance de Umberto Eco por Jean-Jacques Annaud, trazia Sean Connery como William de Baskerville, um fransciscano acompanhado pelo jovem Adso (Christian Slater) que investigava crimes numa abadia italiana. O mistério envolvia os livros de uma biblioteca. Tendo sido professor de latim e leitor da obra de Eco, entendo como este filme era tão agradável para meu pai, além de lindas paisagens e um mistério impressionante.

7. Os saltimbancos trapalhões

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Não havia um filme dos Trapalhões que eu perdesse. Extremamente popular nos anos 70 e 80, o grupo lançava um filme nas férias de inverno e outro nas de verão e meu pai era admirador deles. O mais marcante, para mim, foi Os saltimbancos trapalhões, passado no circo Bartolo. Dirigido por J.B. Tanko, é uma espécie de mistura entre humor, drama e musical, apresentando Os Trapalhões em grande momento, além de Lucinha Lins, com cuidado cenográfico especial na sua alternância de cenários.

6. Campo dos sonhos

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Um dos maiores sucessos de 1989, trata-se de uma obra modesta, baseada em livro de Ray Kinsella, com toques de ficção científica, de pouco mais de 6 milhões, que arrecadou dez vezes mais. Atestou também a posição de galã de Costner, que no ano seguinte faria o épico Dança com lobos. Aqui ele faz o fazendeiro Ray Kinsella, que vive com a mulher (Madigan) e uma filha (Gaby). Certo dia, começa a escutar vozes no milharal, que lhe dizem para construir um campo de beisebol. A princípio, fica assustado, pois apenas ele ouve as vozes. Um dia, ele tem a visão de um campo de beisebol e resolve construí-lo, já que seu falecido pai era fã do esporte. Era outro filme que meu pai adorava.

5. Sociedade dos poetas mortos

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Merecido vencedor do Oscar de roteiro original, concorreu também ao de melhor filme e tem todos os temas que poderiam interessar a meu pai. Robin Williams interpreta o professor de poesia John Keating, que em meados dos anos 50 dá aulas a uma turma de alunos inseguros da universidade Welton Academy, conhecida pelas tradições escocesas. O professor excêntrico sobe na mesa para explicar a arte poética e imita Marlon Brandon e John Wayne falando versos de poesia. A turma é formada por um futuro ator (o ótimo Robert Sean Leonard), um jovem tímido (Ethan Hawke), um apaixonado (Josh Charles), um disciplinado (Dylan Kussman) e o rebelde (Gale Hansen), entre outros. Eles acabam recriando a Sociedade dos Poetas Mortos, fundada pelo próprio Keating quando estudou na Welton Academy, para lerem poemas de autores antigos, numa gruta dentro da universidade. Mas, como sempre, enfrenta o preconceito dos diretores e pais. O maior problema é o de um jovem que deseja ser ator (Leonard, ótimo), mas seu pai (Smith) não deixa. Tecnicamente perfeito (direção, música, cenários, fotografia), foi um merecido sucesso e se mantém atual, tendo transformado Weir num dos diretores australianos mais requisitados de Hollywood (ele fez antes A testemunha e faria depois O show de Truman). Poucos filmes fazem chorar realmente. Este é um deles.

4. Guerra nas estrelas

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Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado negro da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – embora a história não se passe na Terra, mas em planetas com lugares parecidos – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.
A mensagem por trás das palavras de Obi Wan-Kenobi podem, hoje, parecer ingênuas – e foi criticada à época principalmente por seus amigos próximos –, mas a questão é que George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar o cinema para a diversão. Lembro de ter visto com meu pai este filme num cinema de praia, em que passam muitas vezes filmes antigos e de ter, à época, ficado especialmente assustado com Darth Vader.

3. JFK – A pergunta que não quer calar

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Oliver Stone coloca a pergunta: por que se quer encobrir o assassinato de Kennedy, visto como a ação solitária de Lee Oswald? Para isso, tenta desvendar aquilo que ficou encoberto no acontecimento em Dallas, Texas. Num lugar associado à mitologia do velho oeste, Kennedy sofreu a emboscada de um inimigo oculto, em que não teve chance de defesa. Mas Stone também está tratando daquele que é considerado como o país que tenta sempre estar à frente de qualquer questão política ou de guerra. No período em que Kennedy estava à frente da presidência, havia conspirações de toda ordem para que os Estados Unidos organizassem a situação no Vietnã e se contrapusessem à União Soviética. Havia motivos para que se quisesse, segundo Stone e os livros em que ele se baseia, a eliminação de JFK, quando ele teria deixado de agir com a firmeza esperada diante desses fatores – e não apenas se restringem a uma ação de Oswald. JFK definiu para mim o que seria um filme com fundo político, com suas inúmeras elucubrações. Em 1992, quando o assisti com meu pai, era como se descortinasse outro universo.

2. A missão

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Com fotografia esplêndida, A missão foi sucesso de bilheteria e mostra Robert De Niro e Jeremy Irons ótimos como jesuítas. Começa com os índios sacrificando um padre, mas logo vem outro (Irons) para tentar catequizá-los. De Niro interpreta um caçador de índios, traído pela mulher com seu irmão, o qual mata. Arrependido, pede ao padre jesuíta (Irons) para se converter e ajudar na guerra contra os espanhóis, que querem destruir as missões. A transformação dele de caçador sanguinário em missionário não tem nenhuma grande sutileza, mas o diretor Roland Joffé quer considerá-la parte intrínseca de um arrependimento maior, o qual não tem solução ou retorno. A amizade entre esses dois personagens sem nenhuma proximidade prévia, junto com algumas das mais belas imagens já captadas da natureza – com uma dose essencial de realismo –, ao som da excelente e antológica trilha de Ennio Morricone, faz o espectador gostar do filme sem nenhum comprometimento religioso, mas interessado em olhar o aspecto histórico de frente: embrenhar-se na mata fechada, em outra cultura, não é para inocentes. É justamente isto que A missão pretende tratar, de forma aberta, sem nenhum sectarismo, e com um golpe de realidade final como vemos em poucos filmes. Uma bela lição de história e de humanidade, esta obra me comoveu quando assisti com meu pai no início de 1987. Era um dos favoritos dele.

1. E.T. – O extraterrestre

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Finalmente, o filme mais clássico de Spielberg. Perdi a conta das vezes em que o assisti com meu pai: a cada Natal, depois de 1982, ele era relançado, antes de existir VHS. Álbum de figurinhas, revista Cinemin com a capa do filme, desenhos, pedidos para ter a mesma bicicleta de Elliot. Descoberta, vida, morte e ressurreição. Quando revimos a versão com cenas inéditas em 2002, algo estranho aconteceu: não era realmente o mesmo filme. Spielberg depois pediria desculpas por esta versão. Não precisava. Este filme é incrível. Há pessoas que mudam o sentido da vida. E há filmes que também podem mudar. E.T. – O extraterrestre é um deles. Obrigado, pai, por me ter levado para assisti-lo. Não há como não chorar com sua despedida final.