Melhores filmes 2010-2017 (até agora)

Por André Dick

Assim como aconteceu em relação aos anos 1980, 1990 e 2000, é apresentada, aqui, uma lista de melhores filmes de 2010 a 2017 (o deste ano, claro, provisória),  cada uma seguida por menções honrosas. Em cada ano, são destacadas 25 obras. O cinema dos anos 2010, como o da década que abre o século, é caracterizado por apresentar o cinema fora dos Estados Unidos de uma maneira que nunca havia acontecido em décadas anteriores.
Cineastas vindos de Taiwan (Apichatpong Weerasethakul), da China (Jia Zhangkhe), do Japão (Wong Kar-Wai, Hirokazu Koreeda), da Coreia do Sul (Joon-ho Bong, Chang-Dong Lee, Chan-wook Park, Hong Sang-soo) e da Malásia (Tsai Ming-Liang) são correntes nessa década, em que o cinema norte-americano também continuou abrindo espaço para diretores estrangeiros, a exemplo de Ang Lee, Walter Salles, Werner Herzog, Alfonso Cuarón, Wim Wenders, Pablo Larraín e Guillermo del Toro, com destaque para Alejandro G. Iñárritu, que ganhou dois Oscars consecutivos, e Nicolas Winding Refn, com seu artesanato surrealista (ocupando o lugar de um ausente David Lynch no cinema, que regressou em grande estilo com Twin Peaks).
Nuri Bilge Ceylan continua apresentando um trabalho interessante, assim como Abdellatif Kechiche e Béla Tarr, além de Carlos Reygadas, todos vitoriosos em Cannes. Também continua tendo destaque o cinema iraniano, com cineastas como Abbas Kiarostami, que lamentavelmente faleceu em 2016.
E, mais ainda do que seu regresso em O novo mundo, na década passada, Terrence Malick tem cada vez mais ressurgido com frequência. Seu cinema é o mais influente dos anos 2010.

Cineastas que começaram produzindo nos anos 70 ou 80 continuaram a mostrar seus filmes, como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Tim Burton, David Cronenberg, Cameron Crowe, Oliver Stone, Woody Allen, William Friedkin, Joel e Ethan Coen, Francis Ford Coppola, Michael Mann, Gus Van Sant, Robert Zemeckis, Brian De Palma, Ron Howard, Jim Jarmusch, Spike Lee, Sam Raimi e Clint Eastwood. Numa retrospectiva, chamou atenção como o trabalho de Ridley Scott continua vigoroso, tendo sido indicado ao Oscar de direção por Perdido em Marte. Firmaram-se também Kathryn Bigelow e M. Night Shyamalan, este apesar de todas as críticas.
O austríaco Michael Haneke conquistou Cannes, assim como novamente os irmãos Dardenne, enquanto Lars von Trier se viu convidado a se retirar dele. Destaques também para os irmãos belgas Jean-Pierre Jeunet, juntamente com os franceses François Ozon, Jacques Audiard, Olivier Assayas, Benoît Jacquot e Phillipe Garrel e o franco-argentino Gaspar Noé, além da continuidade de Jean-Luc Godard.
A geração ligada ao cinema indie dos anos 90 continuou seu trabalho, mostrando sua vitalidade: Quentin Tarantino, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Darren Aronofsky, Alexander Payne, Spike Jonze, Richard Linklater, Sofia Coppola e Todd Solondz. Entre eles, muitos continuaram chegando ao Oscar ou chegaram pela primeira vez à nomeação de melhor filme, como Jonze, Linklater e Anderson.

Como na década passada, prosseguiram seus trabalhos Greg Mottola, com sua visão de juventude, assim como Judd Apatow, depois da série Freaks and geeks, além de Noah Baumbach, enquanto surgiram ou mostraram novos trabalhos nomes como Jeff Nichols, Derek Cianfrance, Shane Carruth, David Robert Mitchell, Jean-Marc Vallée, David O. Russell e Ben Affleck. E David Fincher continuou trabalhando entre o drama e o suspense. No campo da comédia, Seth MacFarlane (à frente de séries de animação) e Sam Esmail (criador de Mr. Robot) migraram da TV para o cinema, e Shawn Levy mostrou um talento subestimado que se confirmaria à frente de alguns episódios e da produção de Stranger things, série exitosa de 2016.
Também surgiram grandes diretoras, a exemplo de Mia Hansen-Løve, Angelina Jolie, Gia Coppola, Stéphane Lafleur, Julia Loktev, Céline Sciamma, Maïwenn, Sophie Barthes e Jessica Hausner, além do documentarista Joshua Oppenheimer. Duplas-revelações: Phil Lord e Christopher Miller e Veronika Franz e Severin Fiala.
Na Austrália, tivemos o surgimento de David Michôd. Em Portugal, Miguel Gomes lançou o marcante Tabu. Na Romênia, surgiu Cristian Mungiu; na Grécia, Yorgos Lanthimos; na Argentina, Lisandro Alonso; na Suécia, Ruben Östlund; e na Rússia, testemunhamos a volta de Andrey Zvyagintsev.
Também nos Estados Unidos, prosseguiram com inclinação para o espetáculo nomes como Peter Jackson, J.J. Abrams, Christopher Nolan, Bryan Singer e Zack Snyder, com os acréscimos de Joss Whedon e Jon Favreau, outros para o drama cotidiano, como Jason Reitman, James Ponsoldt, Mike Mills e Kelly Reichardt, ou drama histórico ou atual, com James Gray.

Os irmãos Wachowski tentaram avançar em seus experimentos com Cloud Atlas, embora tenham recuado um tanto em O destino de Júpiter, ao lado do alemão Tom Tykwer. Da Inglaterra, continuaram a se destacar Guy Ritchie, Lenny Abrahamson, Andrea Arnold, David Yates, Stephen Frears, Steven McQueen, Edgar Wright e Joe Wright. No Canadá, Denis Villeneuve se firmou ainda mais, como o jovem cineasta Xavier Dolan, e Atom Egoyan continuou a lançar filmes em grande quantidade.
E, no universo da animação, apesar da presença da Pixar, foi Hayao Miyazaki quem continuou se destacando. Entre os cineastas brasileiros, assinala-se a manutenção de cineastas como Laís Bodanzky, Jorge Furtado, José Padilha, Anna Muylaert e Cláudio Assis, e as revelações Fellipe Barbosa, Kleber Mendonça Filho, Marina Person, Alê Abreu, Paulo Morelli e Júlia Rezende, assim como Carlos Saldanha, de Rio, para lembrar alguns nomes.

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Como observado na lista aos melhores filmes das décadas de 1980 a 2000, alguns filmes que não agradam na primeira visão se mostram interessantes e até mesmo indispensáveis quando revisitados. Muitas dessas listas mudaram em poucos anos, à medida que, ao rever alguns filmes, fui gostando mais ou menos deles (um exemplo é O lado bom da vida, que estava longe de ser um dos meus favoritos quando lançado e, em revisões, cresceu como obra). Ou seja, aqueles que a princípio parecem indispensáveis, com o passar dos anos parecem ter o impacto reduzido e se tornam menos importantes. A premissa de que um filme é bom ou fraco muitas vezes varia, mas a distância dos anos parece ser a melhor maneira de constatar isso. Os anos de cada filme estão de acordo com o IMDb, com raras exceções. Nesta década, às vezes é difícil precisar o ano de alguns filmes, pois muitos são exibidos primeiramente em festivais (em Cannes e Sundance, por exemplo) para serem lançados oficialmente dali a um ou até dois anos. Veja-se os casos de Personal shopper e Graduation, que estrearam em Cannes em 2016, mas só foram lançados internacionalmente este ano. Ou seja, tento colocar o filme no ano em que ele tem data de lançamento internacional, não apenas em seu país de origem, pelo menos nos últimos dois anos, quando isso se tornou mais recorrente. A partir de 2017, os filmes produzidos pela Netflix passam em alguns festivais ou estreiam em poucos cinemas, isso quando não são exibidos apenas pela plataforma. Eles passaram a ser considerados como filmes (não telefilmes), principalmente porque costumam ter uma produção cinematográfica, incluindo diretores de fotografia, compositores e elenco. Alguns títulos mantenho no original, pois não gosto especial da tradução feita, como Cloud Atlas (intitulado no Brasil A viagem) e Greenberg (chamado no Brasil de O solteirão).  Tenta-se um equilíbrio com essas informações, mas às vezes elas podem destoar.
Espera-se que as listas levem você, cinéfilo e leitor, a rever ou descobrir alguns desses filmes.

Atualização: em 13 de junho, A cura entrou na lista de melhores filmes de 2017. Em setembro, Twin Peaks entrou na lista por ser um filme dividido em 18 episódios, sendo que seus dois primeiros foram exibidos no Festival de Cannes.

1. Mistérios de Lisboa (Raoul Ruiz)
2. Cisne negro (Darren Aronofksy)
3. Reino animal (David Michôd)
4. Cópia fiel (Abbas Kiarostami)
5. Bravura indômita (Joel e Ethan Coen)
6. A rede social (David Fincher)
7. Poesia (Chang-Dong Lee)
8. O mágico (Sylvain Chomet)
9. O mito da liberdade (David Robert Mitchell)
10. Incêndios (Denis Villeneuve)

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11. Um doce olhar (Semih Kaplanoğlu)
12. Um lugar qualquer (Sofia Coppola)
13. Scott Pilgrim contra o mundo (Edgar Wright)
14. Greenberg (Noah Baumbach)
15. Ventre (Benedek Fliegauf)
16. Não me abandone jamais (Mark Romanek)
17. O escritor fantasma (Roman Polanski)
18. Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 1 (David Yates)
19. Como você sabe (James L. Brooks)
20. Caminho para o nada (Monte Hellmann)
21. The Runaways – Garotas do rock (Floria Sigismondi)
22. O atalho (Kelly Reichdart)
23. Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (Apichatpong Weerasethakul)
24. Filme socialismo (Jean-Luc Godard)
25. Encontro explosivo (James Mangold)

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Menções honrosas: 127 horas (Danny Boyle), Tron – O legado (Joseph Kosinski), A origem (Christopher Nolan), A mentira (Will Gluck), O último mestre do ar (M. Night Shyamalan), Atração perigosa (Ben Affleck), Homem de ferro 2 (Jon Favreau), A ressaca (Steve Pink), O lobisomem (Joe Johnston), Coincidências do amor (Josh Gordon, Will Speck), Biutiful (Alejandro G. Iñárritu), Cyrus (Jay Duplass), Além da vida (Clint Eastwood), A lenda dos guardiões (Zack Snyder), As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky), Meu malvado favorito (Pierre Coffin, Chris Renaud), Splice (Vincenzo Natali), Paul – O alien fugitivo (Greg Mottola), Essential killing (Jerzy Skolimowski), Salt (Phillip Noyce), Confiança (David Schwimmer), Deixe-me entrar (Matt Reeves), Red – Armados e perigosos (Robert Schwentke), Shrek para sempre (Mike Mitchell), O estranho caso de Angélica (Miguel de Oliveira), Wall Street – O dinheiro nunca dorme (Oliver Stone), Uma noite fora de série (Shawn Levy), Lembranças (Allen Coulter), Pânico na neve (Adam Green), Uma manhã gloriosa (Roger Michell), O lenço amarelo (Udayan Prasad), Tropa de elite 2 (José Padilha), Reencontrando a felicidade (John Cameron Mitchell)

1. A árvore da vida (Terrence Malick)
2. Os descendentes (Alexander Payne)
3. A separação (Asghar Farhadi)
4. Drive (Nicolas Winding Refn)
5. O cavalo de Turim (Béla Tarr)
6. O abrigo (Jeff Nichols)
7. Pina (Wim Wenders)
8. O garoto da bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
9. Era uma vez na Anatólia (Nuri Bilge Ceylan)
10. Super 8 (J.J. Abrams)

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11. A invenção de Hugo Cabret (Martin Scorsese)
12. Millennium – O homem que não amava as mulheres (David Fincher)
13. Meia-noite em Paris (Woody Allen)
14. Melancolia (Lars von Trier)
15. Amor a toda prova (Glenn Ficarra, John Requa)
16. A pele que habito (Pedro Almodóvar)
17. Missão madrinha de casamento (Paul Feig)
18. Margaret (Kenneth Lonergan)
19. Tomboy (Céline Sciamma)
20. 50% (Jonathan Levine)
21. Polissia (Maïwenn)
22. Jovens adultos (Jason Reitman)
23. Planeta solitário (Julia Loktev)
24. As aventuras de Tintim (Steven Spielberg)
25. Virgínia (Francis Ford Coppola)

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Menções honrosas: Oslo, 31 de agosto (Joachim Trier), Ataque ao prédio (Joe Cornish), Tudo pelo poder (George Clooney), A hora do espanto (Craig Gillespie), Kung fu panda 2 (Jennifer Yuh Nelson), Carnage (Roman Polanski), Hanna (Joe Wright), Las acacias (Pablo Giorgelli), Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2 (David Yates), Histórias cruzadas (Tate Taylor), Quero matar meu chefe (Seth Gordon), Contágio (Steven Soderbergh), A arte da conquista (Gavin Wiesen), O artista (Michel Hazavenicus), Thor (Kenneth Branagh), Alpes (Yorgos Lanthimos), Rango (Gore Verbinski), Cowboys e aliens (Jon Favreau), Para a floresta da luz dos vaga-lumes (Takahiro Omori), Compramos um zoológico (Cameron Crowe), O homem que mudou o jogo (Bennett Miller), Meu país (André Ristum), Minha semana com Marilyn (Simon Curtis), Sherlock Holmes – O jogo das sombras (Michael Ritchie), Vencer, vencer (Tom McCarthy), Sucker Punch (Zack Snyder), Se beber, não case! – Parte II (Todd Phillips), Amor profundo (Terrence Davies), Rio (Carlos Saldanha), X-Men – Primeira classe (Matthew Vaughn), Margin Call – O dia antes do fim (J. C. Chandor), Inquietos (Gus Van Sant), O exótico Hotel Marigold (John Madden)

1. Cloud Atlas (Andy e Lana Wachovski e Tom Tykwer)
2. O mestre (Paul Thomas Anderson)
3. Moonrise Kingdom (Wes Anderson)
4. Amor (Michael Haneke)
5. As vantagens de ser invisível (Stephen Chobsky)
6. Um alguém apaixonado (Abbas Kiarostami)
7. A hora mais escura (Kathryn Bigelow)
8. Luz depois das trevas (Carlos Reygadas)
9. Na estrada (Walter Salles)
10. O hobbit – Uma jornada inesperada (Peter Jackson)

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11. O som ao redor (Kleber Mendonça Filho)
12. Prometheus (Ridley Scott)
13. A visitante francesa (Hong Sang-soo)
14. Tabu (Miguel Gomes)
15. Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (Christopher Nolan)
16. O gebo e a sombra (Miguel de Oliveira)
17. Ferrugem e osso (Jacques Audiard)
18. Anna Karenina (Joe Wright)
19. Vampiras (Amy Heckerling)
20. Holy Motors (Leos Carax)
21. A caça (Thomas Vinterberg)
22. O lado bom da vida (David O. Russell)
23. As aventuras de Pi (Ang Lee)
24. Cosmópolis (David Cronenberg)
25. Sombras da noite (Tim Burton)

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Menções honrosas: Os miseráveis (Tom Hooper), No (Pablo Larraín), Lincoln (Steven Spielberg), O voo (Robert Zemeckis), As loucuras de Charlie (Roman Coppola), Além das montanhas (Cristian Mungiu), 007 – Operação Skyfall (Sam Mendes), Um divã para dois (David Frankel), Celeste e Jesse para sempre (Lee Toland Kriger), John Carter – Entre dois mundos (Andrew Stanton), O amante da rainha (Nicolaj Arcel), Ruby Sparks – A namorada perfeita (Jonathan Dayton, Valerie Faris), Django livre (Quentin Tarantino), Vizinhos imediatos de terceiro grau (Akiva Schaffer), As sessões (Ben Lewin), O espetacular homem-aranha (Marc Webb), Branca de neve e o caçador (Ruppert Sanders), Para Roma com amor (Woody Allen), Anjos da lei (Phil Lord, Christopher Miller), Adeus à rainha (Benoît Jacquot), Bem-vindo aos 40 (Judd Apatow), A baía (Barry Levinson), Espelho, espelho meu (Tarsem Singh), Os vingadores (Joss Whedon), Detona Ralph (Rich Moore), Barbara (Christian Petzold), Amigos inseparáveis (Fisher Stevens), Ted (Seth MacFarlane), O ditador (Sascha Bara Cohen), Paranorm (Chris Butler, Sam Fell), Amor mudo (Jeff Nichols), Dentro da casa (François Ozon), Hitchcock (Sacha Gervasi), O labirinto de Kubrick (Rodney Ascher), Eles voltam (Marcelo Lordello)

1. Azul é a cor mais quente (Abdellatif Kechiche)
2. Ela (Spike Jonze)
3. Amor pleno (Terrence Malick)
4. O grande mestre (Wong Kar-Wai)
5. Heli (Amat Escalante)
6. O lobo de Wall Street (Martin Scorsese)
7. Vidas ao vento (Hayao Miyazaki)
8. Nebraska (Alexander Payne)
9. Cores do destino (Shane Carruth)
10. O conselheiro do crime (Ridley Scott)

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11. O maravilhoso agora (James Ponsoldt)
12. A imagem que falta (Rithy Panh)
13. 12 anos de escravidão (Steve McQueen)
14. Bastardos (Claire Denis)
15. Gravidade (Alfonso Cuarón)
16. Temporário 12 (Destin Daniel Cretton)
17. Star Trek – Além da escuridão (J.J. Abrams)
18. Apenas Deus perdoa (Nicolas Winding Refn)
19. O conto da princesa Kaguya (Isao Takahata)
20. Rush – No limite da emoção (Ron Howard)
21. O lugar onde tudo termina (Derek Cianfrance)
22. Walt Disney nos bastidores de Mary Poppins (John Lee Hancock)
23. Um toque de pecado (Jia Zhangke)
24. Fruitvale Station (Ryan Coogler)
25. A vida secreta de Walter Mitty (Ben Stiller)

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Menções honrosas: O grande Gatbsy (Baz Luhrmann), Frances Ha (Noah Baumbach), Oldboy – Dias de vingança (Spike Lee), Pais e filhos (Hirokazu Koreeda), Um estranho no lago (Alain Guiraudie), O mordomo da casa branca (Lee Daniels), We’re the Millers (Rawson Marshall Thurber), Red 2 (Dean Parisot), Une jeune fille (Catherine Martin), O verão da minha vida (Jim Rash, Nat Faxon), Universidade Monstros (Dan Scanlon), Depois da terra (M. Night Shyamalan), O foguete (Kim Mordaunt), Antes da meia-noite (Richard Linklater), Philomena (Stephen Frears), O menino e o mundo (Alê Abreu), Os estagiários (Shawn Levy), Círculo de fogo (Guillermo del Toro), Oz – Mágico e poderoso (Sam Raimi), Filha de ninguém (Hong Sang-soo), Meu namorado é um zumbi (Jonathan Levine), O homem de aço (Zack Snyder), Clube de compras Dallas (Jean-Marc Vallée), A menina que roubava livros (Brian Percival), O ciúme (Philippe Garrel), Um fim de semana em Paris (Roger Michell), Bling Ring – A gangue de Hollywood (Sofia Coppola), Trapaça (David O. Russell), Elysium (Neill Blomkamp), Entre nós (Paulo Morelli), A morte do demônio (Fede Alvarez), Mesmo se nada der certo (John Carney), Jack, o caçador de gigantes (Bryan Singer), Confissões de adolescente (Daniel Filho, Chris D’Amato), Caça aos gângsteres (Ruben Fleischer), Sem evidências (Atom Egoyan)

1. Boyhood (Richard Linklater)
2. Vício inerente (Paul Thomas Anderson)
3. Interestelar (Christopher Nolan)
4. Ida (Pawel Pawlikowski)
5. Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) (Alejandro G. Iñárritu)
6. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos (Peter Jackson)
7. Sono de inverno (Nuri Bilge Ceylan)
8. Leviathan (Andrey Zvyagintsev)
9. O homem duplicado (Denis Villeneuve)
10. Dois dias, uma noite (Jean-Pierre e Luc Dardenne)

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11. Palo Alto (Gia Coppola)
12. Homens, mulheres e filhos (Jason Reitman)
13. O grande hotel Budapeste (Wes Anderson)
14. Força maior (Ruben Östlund)
15. Ninfomaníaca – Vol. I (Lars von Trier)
16. O ano mais violento (J. C. Chandor)
17. Jersey Boys – Em busca da música (Clint Eastwood)
18. Cães errantes (Tsai Ming-liang)
19. Vida de adulto (Scott Coffey)
20. Mapas para as estrelas (David Cronenberg)
21. Nós somos as melhores! (Lukas Moodysson)
22. RoboCop (José Padilha)
23. Invencível (Angelina Jolie)
24. Transcendence (Wally Pfister)
25. Êxodo: deuses e reis (Ridley Scott)

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Menções honrosas: A culpa é das estrelas (Josh Boone), Acorda, Nicole (Stéphane Lafleur), Ninfomaníaca – Vol. II (Lars von Trier), Pássaro branco na nevasca (Gregg Araki), O duplo (Richard Ayoade), Noé (Darren Aronofsky), O reino da beleza (Denys Arcand), Cake – Uma razão para viver (Daniel Barnz), Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro), Calvário (John Michael McDonagh), Uma viagem extraordinária (Jean-Pierre Jeunet), Grandes olhos (Tim Burton), Amores inversos (Liza Johnson), Tirem o sorriso do rosto (Daniel Patrick Carbone), Duna de Jodorowksy (Frank Pavich), Planeta dos macacos – O confronto (Matt Reeves), Frank (Lenny Abrahamson), Guardiões da galáxia (James Gunn), Magia ao luar (Woody Allen), Uma aventura LEGO (Phil Lord, Christopher Miller e Chris McKay), Boa noite, mamãe (Veronika Franz, Severin Fiala), Anjos da lei 2 (Phil Lord e Christopher Miller), O abutre (Dan Gilroy), The blue room (Mathieu Almaric), Marcados pela guerra (Peter Sattler), Top five (Chris Rock), Willow creek (Bobcat Goldthwait), À procura (Atom Egoyan), Love & Mercy (Bill Pohlad), Jogos vorazes: A esperança – Parte 1 (Francis Lawrence), Sniper americano (Clint Eastwood)

1. O regresso (Alejandro G. Iñárritu)
2. Amour fou (Jessica Hausner)
3. Os oito odiados (Quentin Tarantino)
4. Eden (Mia Hansen-Løve)
5. A juventude (Paolo Sorrentino)
6. Creed (Ryan Coogler)
7. Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (Roy Andersson)
8. O peso do silêncio (Joshua Oppenheimer)
9. Sob o mesmo céu (Cameron Crowe)
10. À beira mar (Angelina Jolie Pitt)

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11. A assassina (Hou Hsiao-Hsien)
12. A colina escarlate (Guillermo del Toro)
13. Hacker (Michael Mann)
14. Corrente do mal (David Robert Mitchell)
15. Casa Grande (Fellipe Barbosa)
16. Jauja (Lisandro Alonzo)
17. 007 contra Spectre (Sam Mendes)
18. O conto dos contos (Matteo Garrone)
19. O quarto de Jack (Lenny Abrahamson)
20. Sicario – Terra de ninguém (Denis Villeneuve)
21. Rio perdido (Ryan Gosling)
22. Peter Pan (Joe Wright)
23. No coração do mar (Ron Howard)
24. O fim da turnê (James Ponsoldt)
25. Homem-Formiga (Peyton Reed)

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Menções honrosas: Califórnia (Marina Person), Madame Bovary (Sophie Barthes), Poltergeist – O fenômeno (Gil Kennan), Oeste sem lei (John Maclean), Férias frustradas (John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein), Chatô – O rei do Brasil (Guilherme Fontes), Homem irracional (Woody Allen), Cidades de papel (Jake Schreier), Amizade desfeita (Levan Gabriadze), Love (Gaspar Noé), Jogos vorazes: A esperança – O final (Francis Lawrence), Vingadores – A era de Ultron (Joss Whedon), A teoria de tudo (James Marsh), Phoenix (Christian Petzold), Magic Mike XXL (Gregory Jacobs), Nossa irmã menor (Hirokazu Koreeda), A visita (M. Night Shyamalan), Ponte aérea (Júlia Rezende), Star Wars – O despertar da força (J.J. Abrams), O agente da U.N.C.L.E. (Guy Ritchie), Eu estava justamente pensando em você (Sam Esmail), O bom dinossauro (Peter Sohn), A garota dinamarquesa (Tom Hooper), Que horas ela volta? (Anna Muylaert), A travessia (Robert Zemeckis), Joy – O nome do sucesso (David O. Russell), A grande aposta (Adam McKay), Enquanto somos jovens (Noah Baumbach), Timbuktu (Abderrahmane Sissako), Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível (Brad Bird), American Ultra – Armados e perigosos (Nima Nourizadeh), Ted 2 (Seth MacFarlane), Faults (Riley Stearns), Pixels – O filme (Chris Columbus), O que fazemos nas sombras (Jemaine Clement, Taika Waititi), Lugares escuros (Gilles Paquet-Brenner)

1. Cavaleiro de copas (Terrence Malick)
2. Paterson (Jim Jarmusch)
3. La La Land (Damien Chazelle)
4. Batman vs Superman – A origem da justiça (Zack Snyder)
5. Ave, César! (Joel e Ethan Coen)
6. Cemitério do esplendor (Apichatpong Weerasethakul)
7. Silêncio (Martin Scorsese)
8. Demônio de neon (Nicolas Winding Refn)
9. A criada (Chan-wook Park)
10. Elle (Paul Verhoeven)

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11. Depois da tempestade (Hirokazu Koreeda)
12. Jovens, loucos e mais rebeldes (Richard Linklater)
13. Docinho da América (Andrea Arnold)
14. Wiener-dog (Todd Solondz)
15. Moonlight – Sob a luz do luar (Barry Jenkins)
16. Voyage of time: Life’s journey (Terrence Malick)
17. Jackie (Pablo Larraín)
18. É apenas o fim do mundo (Xavier Dolan)
19. As montanhas se separam (Jia Zhangke)
20. Regras não se aplicam (Warren Beatty)
21. Zootopia (Byron Howard, Rich Moore, Jared Bush)
22. Lion – Uma jornada para casa (Garth Davis)
23. Mais forte que bombas (Joachim Trier)
24. Dois caras legais (Shane Black)
25. Café Society (Woody Allen)

Menções honrosas: Loving (Jeff Nichols), A longa caminhada de Billy Lynn (Ang Lee), Animais fantásticos e onde habitam (David Yates), A garota no trem (Tate Taylor), Animais noturnos (Tom Ford), O nascimento de uma nação (Nate Parker), Cães de guerra (Todd Phillips), Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan), Uma repórter em apuros (Glenn Ficarra, John Requa), O mar de árvores (Gus Van Sant), Sully (Clint Eastwood), O invasor americano (Michael Moore), Mãe só há uma (Anna Muylaert), Rogue One – Uma história Star Wars (Gareth Edwards), Demolição (Jean Marc-Vallée), Mogli – O menino lobo (Jon Favreau), Memórias secretas (Atom Egoyan), Um holograma para o rei (Tom Tykwer), Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos (Duncan Jones), Até o último homem (Mel Gibson), Cosmos (Andrzej Zulawski), A qualquer custo (David Mackenzie), Popstar: sem parar, sem limites (Akiva Schaffer, Jorma Taccone), Meu amigo, o dragão (David Lowery), A incrível aventura de Rick Baker (Taika Waititi), A lenda de Tarzan (David Yates), Kung fu panda 3 (Jennifer Yuh Nelson, Alessandro Carloni), Top model (Mads Matthiesen), A chegada (Denis Villeneuve), A luz entre os oceanos (Derek Cianfrance), Star Trek – Sem fronteiras (Justin Lin), Florence – Quem é esta mulher? (Stephen Frears), 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi (Michael Bay), A chefa (Ben Falcone), Invasão zumbi (Yeon Sang-ho), O lar das crianças peculiares (Tim Burton), O contador (Gavin O’Connor), Esquadrão suicida (David Ayer), Terra violenta (Tiu West), Gênios do crime (Jared Hess), O abraço da serpente (Ciro Guerra), Sing Street – Música e sonho (John Carney), Alice através do espelho (James Bobin), Shin Godzilla (Hideaki Anno, Shinji Higuchi), Quase 18 (Kelly Fremon Craig), Mulheres do século 20 (Mike Mills), Beleza oculta (David Frankel)

1. Twin Peaks – O retorno (David Lynch)
2. De canção em canção (Terrence Malick)
3. Trama fantasma (Paul Thomas Anderson)
4. Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve)
5. Lady Bird – A hora de voar (Greta Gerwig)
6. Projeto Flórida (Sean Baker)
7. A lei da noite (Ben Affleck)
8. O apartamento (Ashgar Farhadi)
9. Happy end (Michael Haneke)
10. Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) (Noah Baumbach)

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11. Todo o dinheiro do mundo (Ridley Scott)
12. Lágrimas sobre o Mississipi (Dee Rees)
13. A forma da água (Guillermo del Toro)
14. Sombras da vida (David Lowery)
15. Columbus (Kogonada)
16. Em ritmo de fuga (Edgar Wright)
17. mãe! (Darren Aronofksy)
18. A cura (Gore Verbinski)
19. O estranho que nós amamos (Sofia Coppola)
20. Planeta dos macacos – A guerra (Matt Reeves)
21. O filme da minha vida (Selton Mello)
22. O sacrifício do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos)
23. Graduation (Cristian Mungiu)
24. Alien: Covenant (Ridley Scott)
25. The Square – A arte da discórdia (Ruben Östlund)

Menções honrosas: Poesia sem fim (Alejandro Jodorowsky), Três anúncios para um crime (Martin McDonagh), A região selvagem (Amat Escalante), Corra! (Jordan Peele), Personal shopper (Olivier Assayas), Valerian e a cidade dos mil planetas (Luc Besson), Castelo de areia (Fernando Coimbra), Z – A cidade perdida (James Gray), Logan Lucky – Roubo em família (Steven Soderbergh), O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki), Ao cair da noite (Trey Edward Schults), Primeiro, mataram o meu pai (Angelina Jolie), A morte te dá parabéns (Cristopher B. Landon), Terra selvagem (Taylor Sheridan), O castelo de vidro (Destin Cretton), Maudie (Aisling Walsh), John Wick 2 (Chad Stahelski), Um homem chamado Ove (Hannes Holm), Free fire – O tiroteio (Ben Wheatley), Na vertical (Alain Guiraudie), Homem-Aranha – De volta ao lar (Jon Watts), The little hours (Jeff Baena), Nossas noites (Ritesh Batra), Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo), Sandy Wexler (Steven Brill), Eu já não me sinto em casa nesse mundo (Macon Blair), The comedian (Taylor Hackford), Vida (Daniel Espinosa), Little boxes (Rob Meyer), Atômica (David Leitch), Rastros (Agnieszka Holland), Tramps (Adam Leon), Doentes de amor (Michael Showalter), Insensata paixão (Pierre Godeau), Guardiões da galáxia Vol. 2 (James Gunn), Wilson (Craig Johnson), Buster’s mal heart (Sarah Adina Smith), Transformers – O último cavaleiro (Michael Bay), War machine (David Michôd), Una (Benedict Andrews), Fobia (Ana Asensio), Uma beleza fantástica (Simon Aboud), Onde está Segunda? (Tommy Wirkola), Lovesong (So Young Kim), Kong – A ilha da Caveira (Jordan Vogt-Roberts), Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso (George Clooney), Gaga: five foot two (Chris Moukarbel), Colossal (Nacho Vigalondo), As aventuras de Brigsby bear (Dave McCary), A garota desconhecida (Jean-Pierre e Luc Dardenne), Logan (James Mangold), Raw (Julia Docournau), Você e os seus (Hong Sang-soo), Spielberg (Susan Lacy), A vigilante do amanhã – Ghost in the shell (Rupert Sanders), Jasper Jones (Rachel Perkins), T2: Trainspotting (Danny Boyle), O círculo (James Ponsoldt), Carros 3 (Brian Fee), Founds of love (Ben Young), Agnes (Johannes Schmid), Power Rangers (Dean Israelite), Na selva (Greg Mclean), Fome de poder (John Lee Hancock), Rei Arthur – A lenda da espada (Guy Ritchie), Lotte (Julius Schultheiß), O mínimo para viver (Marti Noxon), Ingrid goes west (Matt Spicer), Patti Cake$ (Geremy Jasper), O estado das coisas (Mike White), Frantz (François Ozon), LEGO Batman – O filme (Chris McKay), O livro de Henry (Colin Trevorrow), Além das palavras (Terence Davies), Os amantes (Azazel Jacobs), Eine hunerhörte frau (Hans Steinbichler), A grande muralha (Zhang Yimou), Feito na América (Doug Liman), A tartaruga vermelha (Michel Dudok de Wit), Planetarium (Rebecca Zlotowski), Rakka (Neil Blomkamp), American fable (Anne Hamilton), Mulher-Maravilha (Patty Jenkins), Liga da Justiça (Zack Snyder), Extraordinário (Stephen Chobsky), Detroit em rebelião (Kathryn Bigelow), O que te faz mais forte (David Gordon Green), Boneco de neve (Tomas Alfredson), A guerra dos sexos (Jonathan Dayton, Valerie Faris), Depois daquela montanha (Hany Abu-Assad), Star Wars – Os últimos Jedi (Rian Johnson), Sem fôlego (Todd Haynes), A melhor escolha (Richard Linklater), Uma mulher fantástica (Sebastián Lelio), O rei do show (Michael Gracey), O destino de uma nação (Joe Wright), Homens de coragem (Joseph Kosinski), 120 batimentos por minuto (Robin Campillo), A grande jogada (Aaron Sorkin), Viva – A vida é uma festa (Lee Unkrich), Ratos de praia (Eliza Hittman), Honra ao mérito (Jason Hall), Bright (David Ayer), Roman J. Israel, Esq. (Dan Gilroy), Pequena grande vida (Alexander Payne), O formidável (Michel Hazanavicius)

A serem vistos/lançados: Jupiter’s Moon (Kornél Mandruczo), Uma criatura gentil (Sergei Loznitsa), Radiance (Naomi Kawase), Le jour d’après (Hong Sangsoo), Rodin (Jacques Doillon), Marshall (Reginald Hudlin), The man with the iron heart (Cédric Jimenez), How to talk to girls at parties (John Cameron Mitchell), Hostiles (Scott Cooper), 55 steps (Bille August), The current war (Alfonso Gomez-Rejon)

Acompanhe atualização desta lista de melhores filmes de 2017  aqui.

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2001 – Uma odisseia no espaço (1968)

Por André Dick

Este é um dos maiores clássicos da ficção científica com efeitos impressionantes para sua época (e ainda hoje) de Douglas Trumbull, um roteiro, baseado no conto “A sentinela”, de Arthur C. Clarke, que lançaria o livro homônimo quase simultaneamente ao lançamento do filme, e uma direção impecáveis. Kubrick está interessado em mostrar o isolamento do homem não apenas em sua aurora, mas no espaço sideral, assim como fez com o jovem Alex, que servia de cobaia para experimentos químicos em Laranja mecânica, e o Jack Torrance, de Nicholson, em O iluminado. E mostra que, por meio da experiência da solidão, o homem pode mudar e avançar contra o passado e contra o futuro, ao mesmo tempo.
2001 (spoilers a partir daqui) inicia com homens-macacos em algum lugar remoto do passado, descobrindo a defesa – atacados por leopardos ou ameaçados por outras tribos – e a violência – ao esfacelar o crânio de um animal – e entrando em contato com um monólito, perto de rochas onde eles dormem. Essas imagens revitalizam qualquer gênero, e o filme de Kubrick contradiz a ficção científica como um gênero apenas baseado no fantástico e não no histórico, mesmo como narrativa, ao mesmo tempo em que é um cinema praticamente sem diálogos, o que é apontado como um motivo de tédio, isso se 2001 não fosse também uma revitalização da forma de narrar.
Depois de lançado um osso ao espaço – numa transição antológica –, este se transforma em espaçonave, transportando o espectador para 2001, que carrega o Dr. Heywood Floyd  (William Sylvester), depois de uma conversa com Elena (Margaret Tyzack), cientista russa, e seu colega Dr. Smyslov (Leonard Rossiter), em direção à lua, em que foi desencavado um monólito negro misterioso, igual àquele que os homens-macacos cercavam.

Esta mudança de lugar e tempo é típica do talento de Kubrick, que move sempre a narrativa para espaços diferentes daqueles que naturalmente se esperava – aqui, vai até a Pré-História, numa reconstituição que impressiona a cada vez que assistimos, para, a partir daí, se deslocar rumo ao infinito e ao vazio do espaço inexplorado pela Discovery (em Nascido para matar, o espaço do Vietnã é também o da loucura e de um regresso às origens, assim como o Overlook, de O iluminado, é um traçado do labirinto da mente humana e De olhos bem fechados, uma saga noturna em busca da autossatisfação), em missão até Júpiter, através de novos sinais do monólito – e talvez de presença alienígena. Em nenhum momento, é suscitada uma presença divina, ou algum vínculo exatamente religioso, mas 2001 também traz – como A árvore da vida, de Malick, em que há sequências que lembram o filme de Kubrick – este aspecto de discussão. Também traz o embate não mais entre os homens-macacos e os animais, mas entre os homens e os computadores.
O computador da nave, o HAL 9000 (com voz marcante de Douglas Rain), em plena expansão da IBM – letras seguintes de HAL –, o único a realmente saber sobre a missão, começará a se rebelar contra os tripulantes, deixando os astronautas David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood) perplexos. Ele acredita, pois, antes de tudo, tem uma concepção humana, que a missão deve ser abortada. É inevitável perceber que HAL tem traços mais humanos do que os tripulantes da Discovery, sobretudo David, que recebe um cumprimento de aniversário sem mostrar o menor ânimo ou sentimento, e, quando se aproxima de seu desligamento, acaba demonstrando o mesmo medo humano. Ao mesmo tempo, os astronautas parecem mais um experimento e correm e se alimentam sem tratarem de nenhum aspecto da missão.
Mas o mistério maior está no monólito negro, uma peça que se desloca entre tempos distintos (estava na Pré-História, cercado por macacos, e agora flutua pelo espaço). É ele que mostra a atemporalidade da vida, o que Kubrick quer constantemente ressaltar. Não sabemos se é o monólito aquele que confunde HAL 9000, ou o conduz à tentativa de encerrar a missão. Quando David se vê numa situação extremamente difícil, resta a ele continuar sua trajetória. E Kubrick continua, em cada frame, notável. O final é enigmático e, ao mesmo tempo, precursor de imagens relacionados ao futuro, mostrando os limites do espaço, em busca de Deus. O quarto nos moldes vitorianos em que o astronauta vai parar, com seu piso iluminado (uma espécie de ambiente precursor dos ambientes de Barry Lindon e do salão de festas de O iluminado, além do piso de Os embalos de sábado à noite, cuja discoteca se chama exatamente 2001), é, do mesmo modo, a contemplação da história e da juventude nos olhos de um ser que passou por todos os momentos de sua vida num piscar de segundos.

Kubrick realiza tudo com exatidão e detalhamento, pontuados pela direção de arte, tendo à frente Anthony Masters, que havia feito a de Lawrence da Arábia e faria a de Duna, e pela fotografia de Geoffrey Unsworth, que trabalhou na série Superman, Cabaret, entre outros filmes. É a junção entre direção de arte e fotografia – com a trilha sonora clássica de fundo, pontuando as cenas de transição da Pré-História para o futuro, como o “Danúbio azul” – que torna o filme um objeto tão brilhante, a ser examinado sempre, uma espécie de ficção científica baseada num conceito de inovação e ruptura.
Nada a ver, portanto, com sua sequência, 2010, que, mesmo com excelentes efeitos especiais de Richard Endlund (de Indiana Jones e Guerra nas estrelas) e uma direção de arte irretocável (de Syd Mead, de Blade Runner) e cuja narrativa trata de americanos, comandados pelo doutor Floyd (Roy Scheider), e russos numa missão – encontrar a nave Discovery, desaparecida no final do primeiro filme, que foi localizada pela última vez perto da lua de Saturno –, não apresenta novidades. É claro que os americanos comandam os soviéticos e há patriotismo na trama, mas a mensagem do filme, embora com ar de Guerra Fria, é interessante. Sua meta é explicar, o que não aconteceu em 2001, vagamente por que o computador HAL 9000 enlouqueceu no primeiro e parte do mistério do monólito negro.
Por sua vez, Kubrick deseja uma espécie de mistério inexplicável sobre a origem do universo e para onde somos conduzidos, seja pela mão de uma força superior, seja por nossas próprias forças. Sua visão sobre nossa origem e como a evolução traz detalhes semelhantes (os homens-macacos ao redor do monólito, assim como os astronautas na Lua) revela uma extrema sensibilidade, sobretudo porque apresenta uma síntese para nossos receios e desejos. Como diz Kubrick: “Tentei criar uma experiência visual, que contorne o entendimento para penetrar diretamente o inconsciente com seu conteúdo emocional” (em Claude Beylie, As obras-primas do cinema).

Por isso, ao mesmo tempo, o brilho do sol em Kubrick tenta revelar uma espécie de verdade. Se muitas tomadas de A árvore da vida embaixo das árvores – vendo sempre o ponto de vista da criança – procuram sempre um resquício de sol (que num determinado momento lembra exatamente o de 2001, na cena em que ele aparece vagarosamente na linha do horizonte), nem por isso ele se deixa carregar por um sentimento de ver a linguagem se esvair em imagens de apenas encantamento, em 2001 a luminosidade é uma tentativa de alinhar os planetas e as naves. Difícil entrar em contato com imagens tão profundamente enigmáticas como aquelas que cercam a aurora do homem – com seu horizonte alaranjado –, passando pela missão na Lua, em que a sombra, antes dos ossos animais no amanhecer, agora é das espaçonaves passando por elevações, até a sequência final, que conduz a um labirinto de cores fortes eclodindo nos olhos e a leveza da imagem do feto, do bebê, dentro da forma de um planeta, na qual Kubrick eleva a imagem a um símbolo, a uma metáfora, de tudo que havia sido observado antes. É exatamente o “conteúdo emocional” das imagens que conduz 2001 ao patamar de obra-prima.

2001 – A space odyssey, EUA/ING, 1968 Diretor: Stanley Kubrick Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Dan Richter, Douglas Rain, Leonard Rossiter, Margaret Tyzack, Robert Beatty, Sean Sullivan, Frank Miller, Penny Brahms Produção: Stanley Kubrick  Roteiro: Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke Fotografia: Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: Alex North, Gyorgy Ligeti Duração: 139 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Stanley Kubrick Productions

Cotação 5 estrelas

Twin Peaks – O retorno (Episódios 3 e 4) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers. 

O terceiro episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix) acentua a estranheza dos dois primeiros e pode-se vê-lo como uma espécie de contribuição de David Lynch para a mescla entre o cotidiano e o surrealismo que tanto incentivou na série original. Numa continuação do segundo episódio, o agente Cooper (Kyle MacLachlan) é lançado em outra dimensão, em que vai encontrar um oceano que remete a Solaris, de Tarkovsky. Depois de se deparar com uma mulher sem os olhos – num típico movimento de Lynch para seus curta-metragens mais experimentais –, ele fica a bordo de um cubo gigante escuro no espaço sideral (teria ligação com a caixa de vidro do primeiro episódio?). Lá, Cooper vê a imagem do Major Briggs (Don S. Davis) passar nas estrelas. O major, para quem acompanha a série desde as primeiras temporadas, é o pai de Bobby, um dos rebeldes da cidade, e aquele que conhece segredos do que acontece em Twin Peaks e no Black Lodge. Ele fala “rosa azul”, que é o código do FBI para temas que ultrapassam a nossa dimensão. Em seguida, Cooper chega a uma sala em que uma jovem (Phoebe Augustine, que fez Ronette Pulaski, amiga de Laura Palmer) fala de maneira estranha, como no Black Lodge, enquanto é transportado, pela eletricidade de um aparelho, para a nossa dimensão. Será a nossa mesmo? No filme para o cinema de Twin Peaks, o anão no Black Lodge dizia “electricity” e o som de sua voz se reproduzia nos postes de luz perto do trailer onde morava Teresa Banks, a primeira vítima. A maneira como essa passagem se dá remete não apenas a Kafka, como também a Dostoiévski, de O duplo – aqui virando um triplo.

Cooper substitui, nesta passagem pela eletricidade, um homem chamado Dougie Jones (mais uma vez MacLachlan), quase idêntico a ele, não fossem o corte de cabelo e a roupa, e que está com sua amante, Jade (Nafessa Williams), enquanto sua versão do mal (também MacLachlan) capota de carro em Dakota do Sul e vomita uma quantidade intoxicante de milho – o garmonbozia, segundo o anão do Black Lodge, nas temporadas passadas, que reúne “dor e tristeza”. Essas passagens estão entre as mais estranhas da filmografia de David Lynch, pois o homem chamado Dougie Jones, que Cooper substitui, é levado para o Black Lodge e ouve do Homem de um Braço Só (Al Strobel) que ele foi “fabricado por alguém” – para, em seguida, aparentemente se transformar em Beetlejuice e desaparecer em efeitos especiais que recordam Eraserhead e Cidade dos sonhos.
Repare-se em uma referência a Twin Peaks – Fire walk with me: Dougie, depois de acordar, sente o seu braço adormecido e ele carrega num dos dedos o anel da Coruja, símbolos, no filme, de que o personagem será vitimado, como ocorre com Laura Palmer. Cooper, sendo visto como Dougie, é levado por Jade para um cassino em Las Vegas. Mas repare-se antes disso o bairro para o qual ele foi transportado. Ele lembra aqueles bairros idílicos das peças de Tim Burton ou, mais exatamente, de Amor pleno, de Malick, e a rua onde Cooper vai parar se chama Rua dos Sicômoros (árvores da floresta que demarcam onde se dá a passagem justamente para o Black Lodge).

No cassino, acontece o mais estranho: Cooper começa a visualizar o chão e a cortina do Black Lodge sobre as máquinas de jogo. Depois de uma rápida passagem por Twin Peaks, em que Hawk (Michael Horse), Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) continuam tentando decifrar a mensagem da Senhora do Tronco – e o tema passa a ser um coelho de chocolate (sim, Império dos sonhos) –, temos, ainda, a aparição do agente Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), acompanhados pela agente Tamara Preston (Chrysta Bell), sendo informados do que aconteceu com o casal em Nova York do primeiro episódio e que Cooper foi encontrado em Dakota do Sul. O mais interessante é que eles ficam sabendo disso numa sala que tem um quadro da bomba atômica ao fundo e numa das paredes o retrato de Franz Kafka, um dos pais do surrealismo.
Este terceiro episódio é um dos mais chamativos para o fato de que Lynch pretende usar vários estilos em conjunto na nova temporada e quase não pode ser entendido sem o conhecimento de elementos das primeiras temporadas e, principalmente, do filme Twin Peaks – Fire walk with me. A mistura é um pouco perturbadora e por vezes requisita uma atenção especial do espectador. O surrealismo entra em choque com a realidade solar, ao contrário de trabalhos anteriores de Lynch. Isso porque em Império dos sonhos, por exemplo, em que o experimentalismo era total, Lynch não mudava excessivamente os cenários e estilos de filmagem: a estranheza era permanente, do início ao fim, sem quebras.

No quarto episódio, Cooper, sendo tratado como Dougie Jones e repetindo palavras básicas como se estivesse tentando reencontrar a linguagem (e não poucas vezes recorda E.T.), é levado para a sua casa numa limousine (uma homenagem de Lynch a Leos Carax e seu Holy Motors) cheio de dinheiro que ganhou no cassino. Antes de encontrar a esposa, Janey-E (Naomi Watts), ele enxerga uma coruja – um dos símbolos de Twin Peaks – voando no céu noturno. Em seguida, a história se transporta para Twin Peaks, onde finalmente vemos o novo xerife, Frank (Robert Forster),  irmão do antigo (Michael Ontkean), que se encontra doente. Ele se reúne com Hawk para discutir a informação recebida a respeito do agente Cooper, e entre seus comandados está uma figura inesperada, que suscita uma ponte direta com a série antiga, por meio da trilha de Angelo Badalamenti e do retrato de Laura Palmer (Sheryl Lee). Também conhecemos uma figura familiar a Andy e Lucy, que protagoniza uma ótima cena com o xerife, em diálogos espantosamente desfocados e remetendo a O selvagem e a O poderoso chefão. Novamente temos a presença dos agentes federais, quando Gordon Cole encontra Denise Bryson (David Duchovny), que era uma das agentes que ajudava Cooper na segunda temporada, agora chefe do FBI.

Em seguida, ele viaja com Albert para encontrar o que consideram ser o agente Cooper, encontrado em Dakota do Sul. No entanto, este se encontra no subúrbio, ainda confundido com Dougie e tentando compreender o que se passa, além de tentar vestir sua gravata e tomar café da manhã, ao som de “Take five”, de Dave Brubek, e olhando para seu filho, ou melhor, filho de Dougie, Sonny Jim (Pierce Gagnon). Chama a atenção como alguns traços do agente Cooper se apresentam de maneira engraçada, como o sinal de positivo que ele faz, ou o café que tenta tomar (além da coruja de plástico no balcão ao fundo). Do mesmo modo, perceba-se como seu duplo do mal, que se encontra em Dakota, tem mais memória de fatos reais: ele recorda de Gordon Cole, por exemplo, e faz o sinal de positivo logo que o enxerga, falando, no entanto, com uma voz assustadora, como se a sua fala não estivesse modulada. Este episódio equilibra melhor os diferentes registros e se parece mais com o que seria o tom dos dois primeiros episódios. O diálogo final entre Cole e Albert, recordando a “rosa azul” e Phillip Jeffries (para ver mais sobre esse personagem, clique nesta outra resenha), é excepcional, com uma fotografia apropriadamente azulada, entre o dia e a noite.

Lynch encontra um novo tom para Twin Peaks nesta terceira temporada, conseguindo usar o seu surrealismo de modo eficaz mesmo em meio a passagens do cotidiano. Os dois primeiros episódios tinham longos silêncios, porém principalmente o quarto se parece muito com as duas primeiras temporadas – e se trata de um novo estilo enquadrado no antigo. A fotografia especialmente de Peter Deming é muito boa, além de MacLachlan ter uma excelente atuação, seguido por um excepcional Lynch, junto com Naomi Watts e outros coadjuvantes. Para um filme dividido em 18 episódios, como Lynch se refere a este retorno de Twin Peaks, teremos ainda partes que poderão explicar ou ampliar o que aconteceu até agora, o que é interessantíssimo. É como se, até o momento, Lynch brincasse não apenas com os duplos do agente Cooper, como também com a visão que o espectador tem de Twin Peaks e a maneira como os personagens vão sendo reinseridos e a sua linguagem fosse sendo reaprendida com novos elementos, assim como Cooper tomando o lugar de Dougie Jones, e novas abordagens. Em suma, é cinema de primeiro nível.

Twin Peaks – Episodes 3 & 4, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Naomi Watts, Kimmy Robertson, David Lynch, Michael Horse, Harry Goaz, Nafessa Williams, Michael Cera, Robert Forster, Dana Ashbrook, Al Strobel, David Duchovny, Richard Chamberlain, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Brent Briscon, Pierce Gagnon Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Duração: 114 min. Distribuidora: Showtime

 

Alien: Covenant (2017)

Por André Dick

Depois de Prometheus, em 2012, tende-se a dizer que Ridley Scott não deveria ter voltado mais à franquia Alien. Talvez tenha sido um dos melhores caminhos adotados pelo cineasta depois de um início de século com várias obras de destaque, a exemplo de Gladiador, Cruzada, Falcão negro em perigo e O gângster. Desta vez, com roteiro de John Logan (007 – Operação Skyfall e Gladiador) e Dante Harper, Scott desenha uma continuação que fica entre Prometheus e os demais filmes da série. Ele é um exemplo de cineasta que, nos seus quase 80 anos, continua tentando mostrar uma visão que se situe entre a grandiosidade e o drama de seus personagens.
O início estabelece logo uma ligação com Prometheus. Peter Weyland (Guy Pearce, agora jovem) conversa com David (Michael Fassbender), recém-criado por ele, nome baseado na obra escultural de Miguelangelo, e lhe pede para que toque ao piano uma música de Wagner. Na parede ao fundo, a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, na qual aparece a figura de Virgem Maria ajoelhada diante do bebê Jesus. Atrás dessas figuras, estão cinco anjos músicos, dois violonistas e três cantores. Então, a história se transporta para 2104, quando, ao som da trilha de Jed Kurzel com referências à original de Jerry Goldsmith, a nave colonizadora Covenant carrega dois mil colonos (predominantemente casais) e mil embriões a bordo. Lembrando uma espécie de arca sideral (chamada de “mãe” pelos tripulantes), a nave tem como androide Walter (também Fassbender), modelo igual a David. Acontece um problema e alguns tripulantes acordam (a partir daqui, possíveis spoilers). Durante o conserto da nave, feito por Tennessee (Danny McBride), um sinal de rádio é captado, e essa sequência lembra muito tanto 2001 quanto sua sequência, 2010.

O capitão Oram (Billy Crudrup), com discordância da subcapitã Daniels (Katherine Waterston), resolve ir atrás do sinal. Originalmente, ele não havia sido escolhido para o posto, porque teria fé, podendo comprometer suas ações. Uma equipe, tendo entre os componentes a mulher de Tennessee, Faris (Amy Seimetz), Ledward (Benjamin Rigby), Karine (Carmen Ejogo), Hallett (Nathaniel Dean) e Lope (Demián Bichir), desce no planeta do qual vem a transmissão a fim de investigar o que acontece e o espectador pode vir a saber finalmente sobre o destino de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), do filme anterior. Imediatamente, Scott mostra de maneira impressionante a influência de germes do planeta sobre alguns deles. Na nave, tanto Tennessee quanto Upworth (Callie Hernandez) tentam manter a calma. Embora não haja a interação necessária entre os personagens – e os teasers divulgados antes da estreia e que certamente foram cortados de alguma versão inicial acrescentariam –, Scott em nenhum momento interrompe a história com diálogos excessivos como fez em Perdido em Marte.
Se o espectador não deseja ver exploradores do espaço se colocando em situações complicadas ou arriscando sua vida sem nenhuma justificativa, não deve assistir nem a Alien: Covenant nem a nenhum outro filme da série, pois ela existe justamente por causa dessa falta de atenção de que há um ser alienígena capaz de tirar suas vidas rondando o lugar onde se encontram.

Por isso, é estranho que se diga que em Alien – O oitavo passageiro há uma construção de personagens (quase psicológica) e que em Aliens ou, principalmente, em Prometheus ela inexista. Trata-se de uma invenção da crítica, para provocar um culto especial à obra dos anos 70, ignorando que o cinema desde então proporcionou um universo mais amplo da série, por meio de James Cameron, David Fincher, Jeunet (apesar dos pesares) e novamente Scott. Outra necessidade visível é delimitar que Scott não tem domínio (ou até conhecimento) sobre a figura do alien, o que é no mínimo questionável. Não apenas ele é um cineasta vigoroso na criação de um universo como entende sua criação como os cineastas que o antecederam não entendem – Scott visualiza o universo da criação do monstro como um mistério que pode elucidar a própria condição humana e a fé de personagens como Oram em conflito com o universo onde adentra.
Em Prometheus, ele buscava diálogos com A árvore da vida, de Malick, numa ficção científica existencialista, voltada a construir um passado para a genealogia de Alien muito interessante. Chega a ser lamentável que não visualizem na figura de David aquela de Batty em Blade Runner: ele procura o criador assim como os seres humanos e seu comportamento de androide não o impede de querer exercer esse domínio sobre quem teria criado a humanidade. Isso já ficava claro em seu confronto com o space jockey no primeiro filme e nessa continuação atinge um grau ainda mais interessante. Não por acaso, Alien: Covenant inicia mostrando seu olhar verde, assim como Scott mostrava os olhos dos androides a serem investigados em Blade Runner.

Lembre-se que ele é convidado a tocar Wagner, compositor preferido de Hitler, e David se comporta justamente como ele, pretendendo criar uma nova espécie (numa das sequências de que participa, um povo é perseguido por uma fumaça de vírus impactante). No planeta onde essa equipe desce, David vive como um criador, com desenhos de xenomorfos espalhados numa caverna. E ele tenta ensinar Walter a tocar uma flauta, assim como Weyland, no início, tentava lhe mostrar a arte musical, também presente na pintura “Natividade”. Em Alien: Covenant, como em Prometheus, David quer a todo custo ser um criador (ou o guia da humanidade), mas o que realiza mostra como ele se torna o pior monstro: em relação a um determinado personagem, por exemplo, ele age como Frankenstein. E perceba-se que os engenheiros parecem ter a mesma forma da estátua de Miguelangelo que levou Weyland a nomear David.
Impressiona como Scott fundamenta sua história com base naquelas premissas religiosas que ele cultiva desde Blade Runner, mas que se pronunciam ainda mais em A lenda – uma adaptação livre de Adão e Eva –, Cruzada, Gladiador e o subestimado Êxodo, todos com um notável design de produção. Alien: Covenant faz lembrar o embate entre Moisés e Ramsés II nas figuras de David e Walter – ambos idênticos visualmente, mas com comportamento diferente, em grande atuação de Fassbender. Mais ao final, Scott ainda mostra uma fotografia com os integrantes da espaçonave lembrando a Santa Ceia (com o primeiro comandante ao centro).

Do mesmo modo, Katherine Waterston, na figura de Daniels, configura uma espécie de libertadora de uma certa visão masculina, como Ripley. No entanto, enquanto havia fúria em Ripley, Waterston atenua seu enfrentamento com um receio plausível. Ela sofre ao ter de enfrentar a situação, não é uma guerreira como Ripley – e nisso Scott desenha um arco diferente e interessante da produção de Cameron principalmente, na qual Sigourney Weaver construía uma versão feminina de combate. No final, apesar da montagem excessivamente rápida, Scott continua exímio em filmar cenas de ação, com a fotografia impecável de Dariusz Wolski, e faz uma homenagem no terror do espaço a Psicose (neste caso, o diretor retoma os esboços originais do monstro feitos por H.R. Giger, com viés sexual), além de fazer um paralelo de David com Norman Bates. Waterston, que aparece em Vício inerente e Animais fantásticos e onde habitam, tem uma atuação excepcional, que também dialoga com a de Noomi Rapace em Prometheus, embora tenha menos cenas do que deveria. Alien: Covenant expande com qualidade evidente as ideias de Prometheus, sem ficar restrito ao universo simplesmente de monstros alienígenas; pode-se dizer que Scott ingressa numa fase em que o choque, como mostra ao final de O conselheiro do crime, atualiza o heroísmo dos anos 70 e 80. Não assusta como o recente Vida, inspirado em Alien, mas é mais denso, e que alguns espectadores não queiram esse caminho mostra o quanto Scott está no caminho certo: do acréscimo substancial à sua criação.

Alien: Covenant, EUA, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Amy Seimetz, Carmen Ejogo, Benjamin Rigby, Jussie Smollett, Callie Hernandez Roteiro: John Logan, Dante Harper Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: David Giler, Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Walter Hill Duração: 122 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Brandywine Productions / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Twin Peaks – O retorno (Episódios 1 e 2) (2017)

Por André Dick

Assistir a uma nova temporada de Twin Peaks é, antes de tudo, uma realização para quem acompanhava a série nos anos 1990 e teve de aceitar seu encerramento com baixos índices de audiência e uma resposta inconclusiva ao final. O filme, Twin Peaks – Fire walk with me, com sua qualidade notável, ajudou a estabelecer a mitologia dos personagens. Também é uma peça de nostalgia: lembrar que há 25 anos nunca se imaginava que ela regressaria algum dia. Quantas vezes minha esposa – também fã da série – e eu conjecturamos a volta dela, sempre com as negativas públicas de David Lynch, até que… Normalmente, o Cinematographe não fala de séries de TV. Abre uma exceção para uma série que é, na verdade, antes de tudo, cinema e por causa do diretor, particularmente o mais ousado dos últimos 40 anos, ao lado de Terrence Malick.
Ontem, finalmente, os dois primeiros episódios foram lançados pelo Showtime e distribuídos no Brasil pela Netflix, em tempo recorde (em torno de 4 horas depois da estreia nos Estados Unidos). Com uma abertura diferente, mas a mesma música de Angelo Badalamenti, David Lynch regressa depois de 11 anos sem filmar: Império dos sonhos foi seu último projeto cinematográfico. Em sua companhia, o outro criador, Mark Frost. Recordo que em 1990, quando a primeira temporada estreou no Brasil, minha mãe e eu nos tornamos fãs assíduos (ela apreciava especialmente a trilha sonora, que à época lembro de ter comprado em LP, e a interação entre os personagens). Obviamente, não havia as redes sociais para as teorias se proliferarem e não lembro de colegas de escola falando da série, mas havia bastante divulgação nos jornais e cheguei a comprar os livros O diário secreto de Laura Palmer e aquele contendo gravações do agente Cooper desde a infância. Imagino que agora, com a nova temporada, os fãs para isso terão um prato cheio.

Em seus dois primeiros episódios, Twin Peaks é Twin Peaks sem de fato ser como a série antiga. A estranheza e o humor estão lá, mas modulados pela fase cinematográfica de Lynch iniciada em Twin Peaks – Fire walk with me e continuada em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos.

Para quem não quer nenhum spoiler, sugere-se não seguir adiante.

A série tem início com imagens do agente Cooper e Laura Palmer na série antiga e, em seguida, passa para imagens em preto e branco, recordando o primeiro filme de Lynch, Eraserhead. O agente (Kyle MacLachlan, excelente) conversa com o Gigante (Carel Struycken) no Black Lodge, enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. A partir daí, Lynch dispara em várias frentes: embora tenhamos a visualização de alguns personagens da série antiga, o episódio se concentra num diretor de escola, William Hastings (Matthew Lillard), de Buckhorn, Dakota do Sul. Ele é casado com Phyllis (Cornelia Guest), preocupada com o jantar, e não se lembra de um crime que teria cometido, o que remete ao filme A estrada perdida. O detetive Dave Mackley (Brent Briscoe), além de tudo, é seu amigo. Ainda vemos em Nova York um jovem, Sam Colby (Ben Rosenfield) filmando uma caixa de vidro com câmeras. Ele sempre recebe a visita de Tracy (Madeline Zima), interessada no que está fazendo.

Lynch obviamente andou vendo filmes de seu pupilo Nicolas Winding Refn – a primeira tomada área de Nova York é idêntica a uma de Refn sobre Los Angeles em Drive e essas sequências deixam claro isso, pela simetria e disposição de luzes no ambiente –, assim como evoca Cosmópolis e Videodrome, de David Cronenberg, diretor com o qual costuma ser comparado, embora ambos sejam muito diferentes. Também há um personagem surpreendente cuja camisa por baixo da jaqueta lembra Sailor de Coração selvagem e, junto com uma gangue, parece ser responsável por matar pessoas. Este primeiro episódio evoca bastante Cidade dos sonhos, principalmente na descoberta de um corpo, nas conversas absurdas entre alguns personagens e na imagem assustadora de uma espécie de mendigo numa cela de cadeia, que remete àquele do final da obra-prima de 2001.
No segundo episódio, Cooper trava novos diálogos com Laura Palmer (Sheryl Lee, extraordinária) e o espectador é reinserido no Black Lodge. Não há mais o anão, e sim uma árvore com uma cabeça de borracha que remete a Eraserhead e a pinturas que David Lynch expôs na Tilton Gallery em 2012. Vemos algumas figuras conhecidas. O policial Hawk (Michael Horse), de origem indígena, conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson, que fez suas cenas durante tratamento contra o câncer, o qual, infelizmente, veio a vitimá-la em 2015). Enquanto isso, a gangue do primeiro episódio tem uma cena-chave com Darya (Nicole LaLiberte). Não é bom dizer muito desta vez. É estranho. É puro David Lynch. Assim como o design de som, feito por ele mesmo.

Quando assistimos a esses dois episódios, fica claro que Lynch é um artista: ele não está interessado em apenas continuar as duas primeiras temporadas; ele quer reinserir novos elementos a partir dos antigos. O estilo é de uma elegância rara para os meios televisivos, pois é cinema em seu grau mais explorado. As cores, a colocação dos objetos em cena, as atuações – tudo é meticuloso. Os mais de dez anos de afastamento das câmeras não prejudicaram o talento do diretor. Ele também não está interessado, pelo menos ainda, a deixar claro o que está acontecendo – e quando ele esteve? Mesmo a ação da polícia para descobrir o que aconteceu dentro de um apartamento é atrasada pelo surrealismo dos personagens. Tendo seu fotógrafo Peter Deming, o que me deixava mais preocupado era o ritmo da série. Explico: Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch e montadora de seus filmes a partir de Twin Peaks – Fire walk with me, era uma parceira artística, embora Duwayne Dunham, o atual montador, tenha trabalhado com o diretor em Veludo azul e Coração selvagem e participado do piloto da série, assim como do antológico episódio inicial da segunda temporada. Aqui, não apenas pelo envelhecimento dos personagens, como pela estranheza geral, não há o mesmo ritmo, mas sim um ainda mais distinto, levando o surrealismo ao limite. Pode-se dizer que nada depois de Império dos sonhos tenha esta escala de originalidade que esses dois episódios possuem. Muitos vão confundir com maneirismos, mas costumam ser os mesmos que não gostam do Lynch mais experimental e consideram o filme de Twin Peaks do cinema uma traição à série. Esta nova série não pode ser entendida sem o espectador ter visto Twin Peaks – Fire walk with me; há referência, inclusive, a Phillip Jeffries, interpretado no filme por David Bowie. Os dois primeiros episódios lembram mais o terror desse filme, com algumas cenas ultraviolentas.

O que se constata aqui é que Lynch e Frost, seu parceiro de criação, querem estabelecer o Black Lodge como explicação para o mal que se comete no universo, e deve ser reparado pela bondade. Fica muito claro aqui o direcionamento que teria tido a série em 1992 se David Lynch não tivesse outros compromissos, tendo dirigido e escrito apenas alguns episódios da segunda temporada. Ou seja, Twin Peaks continua sendo uma série sobre os limites do ser humano e Lynch pretende contar esse retorno em 18 episódios, que ele considera como um filme (talvez o Decálogo desta década). Mas é claro também que quando a história se concentra exatamente na cidade-chave a atmosfera remete aos anos 90, mesmo com a passagem de tempo, principalmente quando mostra Lucy Moran (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e os irmãos Ben (Richard Beymer) e Jerry Horne (David Patrick Kelly) no Greath Northern, estes num diálogo bem-humorado. E o final do segundo episódio evoca Julee Cruise cantando no Bang Bang Bar, desta vez com uma belíssima canção da banda The Chromatics, quando o espectador revê Shelly (Mädchen Amick) e James Hurley (James Marshall). David Lynch – e nunca se disse isso nos últimos 11 anos – está realmente de volta. O cinema (não apenas a TV, okay, Pedro Almodóvar?) agradece. Não duvide: baseando-se nesses episódios de retorno, em termos de cinema, não se verá nada como esta terceira temporada de Twin Peaks neste ano.

Twin Peaks – Episodes 1 & 2, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Kimmy Robertson, Richard Beymer, David Patrick Kelly, James Marshall, Matthew Lillard, Madeline Zima, Ben Rosenfield, Cornelia Guest, Michael Horse, Catherine E. Coulson, Harry Goaz, Carel Struycken, Brent Briscoe, Ray Wise Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 111 min. Distribuidora: Showtime

 

Pintura e cinema em David Lynch e Twin Peaks

Por André Dick

O cineasta David Keith Lynch nasceu em 20 de janeiro de 1946 em Missoula, Montana, filho de um cientista, Donald Walton Lynch, que servia o Departamento de Agricultura dos EUA, e de uma professora de inglês, Edwina “Sunny” Lynch. Depois de uma infância com várias mudanças de cidade, Lynch, em 1964, começou seus estudos na School of the Museum of Fine Arts, Boston. Voltando de uma viagem à Europa, foi estudar pintura, em 1965, na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia, onde conheceu sua primeira esposa, Peggy Reavey, com quem teve Jennifer Lynch.
Em Lynch, as imagens valem por si e se autoexplicam. Se em Veludo azul e Twin Peaks, elas evocam as pinturas de Edward Hopper, em O homem elefante e Império dos sonhos podemos perceber a influência de Francis Bacon. E a cortina é um elemento-chave, pictórico: para revelar a mulher misteriosa de Eraserhead, ou para servir de pano de fundo às apresentações de Isabela Rossellini, como a cantora Dorothy Vallens, em Veludo azul, de Julee Cruise, em Twin Peaks, e de Rebekha del Rio, em Cidade dos sonhos, por exemplo, no Club Silencio (Lynch, inclusive, projetou um lugar com este nome em Paris, inaugurado em 2011).
Há algumas tomadas de Twin Peaks, sobretudo da parte externa do Double R, quando passam caminhões com toras, que lembram pinturas em movimento de Edward Hopper.

Isso quando não são quase bastante semelhantes: o posto de Big Ed (personagem de Twin Peaks) dialoga diretamente com a pintura “Gas”, de Hopper:

Além disso, entre 1982 e 1983, Lynch fez a história em quadrinhos intitulada O cão mais raivoso do mundo. Numa entrevista ao The Guardian, explica: “I always say Philadelphia, Pennsylvania is my biggest influence. But for painters, I like many, many painters but I love Francis Bacon the most, and Edward Hopper. Both really different, but Edward Hopper makes us all dream, take off from a painting. Magical stuff. And Bacon for a whole bunch of reasons, but those two are big, big, big inspirations”. Vejamos algumas pinturas expostas por Lynch na Tilton Gallery em 2012:

Perguntado por Ana Maria Bahiana (em entrevista intitulada “David Lynch, diretor, roteirista e escoteiro”, Revista SET, ed. 41, nov. 1990) por que faz filmes, David Lynch respondeu: “Bom, eu queria ser pintor e cheguei aos filmes através das pinturas, porque eu queria que as pinturas se mexessem. E eu ouvia pequenos sons vindos da tela, enquanto pintava, daí resolvi fazer filmes, em vez de pintar”.
Especificamente de René Magritte, difícil não perceber que Lil, que vem explicar, por meio de Gordon Cole, o modo como o agente do FBI Chester Desmond deve se comportar na cidade em que investigará o assassinato de Teresa Banks, no filme de Twin Peaks, é uma pintura em movimento de “Le tombeau des lutteurs”.

E a conversa de Chester Desmond e Sam Stanley com Irene no Hap’s Diner Café remete à pintura “Nighthawks”, de Edward Hopper. Como Hopper, Lynch retrata aquilo que era seu objetivo no início da carreira: falar da vida do interior norte-americano e o que se esconde sob ela.

A mãe de Laura, quando acorda à noite, em outro momento do filme, tem uma visão que evoca “The blank shake”, pintura de Magritte, explorando ainda mais o aspecto pictórico da narrativa e sua ligação com a floresta.

Num momento determinante para a história do filme, Laura sonha e entra no quadro dado de presente pelos Tremond, uma avô e seu neto que na série aparecem na agenda de entregas de almoço que a personagem fazia para o Double R. Dentro do quadro, surgem, exatamente, a velhinha Tremond e o neto fazendo um passe de mágica, como se eles representassem uma espécie de subconsciente. Ela, então, encontra o anão do Red Room e o agente Cooper. Depois, ela acorda dentro do sonho e vai até a porta; virando-se para trás, vê sua própria imagem à porta dentro do quadro; em seguida, realmente acorda. Perceba-se que na primeira imagem há o cenário do quarto dela por trás, mas, na última imagem desta sequência, aparece a cortina vermelha do Red Room, do seu sonho. Toda essa parte simboliza uma tentativa de Lynch estabelecer uma ligação de Laura com esses personagens estranhos e com o agente que investigará sua morte – mas sobretudo com a pintura e com os sonhos.

Podemos estabelecer uma relação entre a representação existente na pintura e a realidade da pintura “La condition humaine”, de Magritte, em que a janela é ao mesmo tempo uma pintura:

Em seu quarto, Laura também possui o quadro abaixo:

Em determinado momento do filme, quando sua angústia se acentua, a figura do anjo desaparece (spoiler em seguida). No final, ao fazer reaparecer o anjo – como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, Lynch encerra o filme com uma nota otimista, mostrando o encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

David Lynch é um dos raros cineastas que conseguiram isso: transformar pinturas em filmes.

* Esta é uma síntese do texto que abriu o “Especial David Lynch“, com algumas alterações, publicado em 29 de setembro de 2012.

Twin Peaks – Piloto – Versão europeia (1990)

Por André Dick

Como trama policial e narrativa de suspense, não foi feito ainda nada parecido na TV como Twin Peaks. A história da jovem rainha da escola Laura Palmer (Sheryl Lee), que aparece morta enrolada num plástico, na margem do rio de Twin Peaks, é um pretexto para descobrirmos, como em outras obras de David Lynch, o que acontece por trás de alguns habitantes de uma cidade do interior. A sequência de aviso da morte ao pai de Laura, Leland (Ray Wise), e à mãe, Sarah (Grace Zabriskie), é realizada em tom crescente e melancólico, em razão da música de Angelo Badalamenti, assim como o aviso dado pelo diretor da escola sobre o acontecimento, repercutindo entre os amigos de Laura. A partir daí, conhecemos Bobby Briggs (Dana Aschbrook), namorado de Laura, o motoqueiro James Hurley (James Marshall), amante dela, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), sua amiga, além de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), filha de Ben Horne (Richard Beymer), dono do hotel da cidade, o Great Northern.

Designado para a investigação, o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan, em seu melhor papel) parece voltar a uma cidade da infância, dos anos 50, mas onde não há mais inocência, e ganha a parceria do xerife Truman (Michael Ontkean), o qual passa a apresentá-lo aos envolvidos com Laura Palmer. Cooper tenta desvendar o quebra-cabeças, em meio a perguntas sobre os pinheiros que existem na rota para a cidade, explicações para o seu gravador (para a secretária Diane) e interesse por rosquinhas e café preto – que não atenuam o pesadelo do cenário, contrastando com a beleza da paisagem.
Nisso tudo, a atuação do elenco é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick e James Marshall – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas que ficam marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).

Toda essa teia de personagens tem várias extensões. A primeira temporada mostra, a partir disso, a perseguição aos principais suspeitos do assassinato de Laura, entre os quais estão também o caminhoneiro Leo (Eric Da Re) e alguns desses personagens referidos. No entanto, particularmente seu piloto (tanto o feito para a TV quanto o feito para a Europa, um pouco mais extenso, com 19 minutos a mais) tem uma condição de cinema como nada na TV, antes e depois. As cores escuras da cidade são trabalhadas em detalhes por Lynch: a perseguição a James Hurley e Donna Hayward no episódio-piloto, por exemplo, ajuda a determinar o clima de tensão da série. Há um misto de seriedade e ironia em cada ação dos personagens, mas o humor é incorporado à ação de cada um, o que não torna nada pesado. Na versão europeia do piloto, vemos, por exemplo, uma sequência estranhíssima com Lucy Moran (Kimmy Robertson) e o policial Andy Brennan (Harry Goaz), que, ao longo da série, nunca seriam vistos em sua casa como aqui, assim como a presença de duas figuras-chave para a explicação da trama.

É interessante porque se trata do piloto, excepcional, acrescido de um tom surreal, matéria-prima do restante da série. É David Lynch em seu grande momento como diretor. De qualquer modo, é o clima (a fotografia de Ron García, que colaborou com Vittorio Storaro em O fundo do coração, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete em que os personagens se reúnem, que ajuda a constituir boa parte da série.
Twin Peaks atravessa um terreno da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acaba afastando muitos espectadores que não conseguem associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não é à toa que, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. De qualquer modo, o universo de Twin Peaks é muito mais sintético, voltado a uma única cidade e a inter-relação entre seus habitantes, dentro ou fora de uma investigação policial. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, mesmo que o distúrbio seja de origem desconhecida. Importante reconhecer como o piloto da série já anunciava tanto as características dos capítulos seguintes como ganha mais interesse ainda em razão do filme que se passa justamente antes dele, embora lançado depois.

Há muitos detalhes aqui que seriam reconhecidos no filme feito para o cinema Twin Peaks – Fire walk with me, remetendo a Ronette Pulaski (Phoebe Augustini), por exemplo, ao fato de Bobby Briggs ter se envolvido num problema, junto com Laura, e, principalmente, à relação conflituosa entre Laura, Donna e James Hurley e a Laura trabalhar entregando refeições no Double R. E a versão europeia do piloto traz as imagens do Black Lodge, o quarto vermelho, onde estão Cooper, Laura Palmer e o anão que dança ao som de Angelo Badalamenti deixando pistas (Lynch apreciou tanto essas cenas realizadas para a Europa que resolveu incluí-las no terceiro episódio da série). O filme para o cinema mostra onde tudo começou, com Teresa Banks numa cidade vizinha, e esta personagem também é lembrada aqui pelo agente Cooper. Daí o piloto de Twin Peaks ser praticamente uma continuação (em estilo cinematográfico) realmente de Twin Peaks – Fire walk with me. O mais interessante é que ele foi lançado no Miami Film Festival, em fevereiro de 1990, antes de estrear na BBC. Num momento em que se quer determinar que o “real cinema” só se vê nos cinemas, Twin Peaks é precursor e mostra que a qualidade vem em primeiro lugar.

Twin Peaks, EUA, 1990 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Russ Tamblyn, Eric Da Re, Kimmy Roberts, Harry Goaz, Peggy Lipton, Don S. Davis Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron García Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração: 113 min.

 

Corra! (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Jordan Peele tem tido uma recepção que lembra a de A bruxa ou The invitation, no ano passado. No entanto, ao contrário desses dois filmes, ele tenta um diálogo interessante com questões envolvendo uma sociedade fundada sobre um preconceito prévio, mesmo que, no caso dos Estados Unidos, Barack Obama tenha sido eleito presidente duas vezes (e afirma-se isso principalmente porque sua figura é lembrada textualmente durante a narrativa). Corra! parece o resultado de um encontro entre um filme de terror dos anos 80 e a série Histórias maravilhosas, produzida por Spielberg.
O fotógrafo afromericano Chris Washington (Daniel Kaluuya) viaja com a namorada branca Rose Armitage (Allison Williams) para conhecer os pais dela, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra que trabalha com hipnose Missy (Catherine Keener), assim como o irmão Jeremy (Caleb Landry Jones). Eles moram numa casa de campo, com a criada Georgina (Betty Gabriel) e um ajudante braçal, Walter (Marcus Henderson). Chris está inseguro que os pais dela não saibam que ele é um afroamericano e tem como melhor amigo Rodney Williams (LilRel Howery); Rose, por sua vez, não dá importância, pois acredita que seus pais não terão nenhum preconceito.

Depois do primeiro encontro, em que tudo se passa bem, apesar de algumas conversas enviesadas, Missy (numa brilhante atuação de Keener) se oferece, à noite, para hipnotizar Chris, a fim de que ele consiga parar de fumar; o jovem acorda no dia seguinte como se tudo não tivesse passado de um sonho, envolvendo também sua mãe. Este é o ponto de partida para uma história bastante original. Chris não entende, sobretudo, por que os personagens com que se depara agem de maneira estranha. No entanto, a sua namorada é uma figura que mantém sua posição de não desconfiar do que está ocorrendo, e ela, sem dúvida, é muito bem desenhada pelo roteiro, pois indica toda a sensibilidade que parece faltar às demais pessoas, a começar por uma festa na casa de campo.
Corra! foi lançado no Festival de Sundance e, a partir de um orçamento irrisório de 4,5 milhões, já arrecadou 214. O sucesso se deve certamente à sua mescla entre suspense, terror, crítica social e toques de comédia que parecem deslocados, mas que no conjunto fortalecem o resultado. É um filme que prende a atenção do início ao fim, no entanto o espectador necessita de uma certa suspensão da narrativa mais comum do gênero, pois Corra! trabalha num campo em que Richard Kelly, de A caixa sobretudo, é um referencial. Desde a década de 70, o terror normalmente esteve personificado em ameaças indestrutíveis, como Freddy Krueger, Michael Myers e Jason, além de outros derivados; em Corra! esse medo parece se basear no comportamento da humanidade e de como a vítima reage a ele.

Kelly se revela a principal influência de Peele, seguido por John Carpenter, Nicolas Winding Refn e David Cronenberg, aquele de Videodrome, pelo indie atmosférico de Ryan Gosling, Rio perdido, e pelo suspense Corrente do mal. Desse último, é extraída a qualidade do que se mostra como ponto de movimento ao fundo e sobretudo alguns sustos provocados por situações corriqueiras, que não representam ameaça alguma. Peele consegue lidar de maneira exitosa com o humor em um contexto no qual ele pareceria deslocado, por meio da atuação primorosa de LilRel Howery (lembrando Anthony Anderson, de Todo mundo em pânico), que parece saído de outro filme, e em algumas falas engraçadas, como uma que remete a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Peele dá a impressão de aproveitar elementos do cinema mais previsível com um contexto bem mais delineado do que se espera, e será lamentável se quiserem transformar esta peça no início de uma nova franquia.
Ele possui, além de tudo, um senso de estética muito forte, com auxílio da bela fotografia de Toby Oliver, trabalhando o jogo de luzes e sombras de maneira afiada, além de um jogo elaborado de plasticidade que lembra Sob a pele. Todo o elenco está em grande momento, com destaque para Kaluuya e uma convincente Williams, mostrando que Peele tem um domínio sobre o elenco. E há os sustos: Corra! rivaliza, até agora, com Vida como um dos filmes deste ano que realmente mais amedrontam o espectador e o colocam em uma posição permanente de insegurança, na maneira com que é filmado e nas situações verossímeis que vão se configurando.

Há certas referências a Tarantino e Amargo pesadelo, porém Peele conduz tudo como uma obra realmente original. Ele, inclusive, não se sente tão pretensioso como seu marketing sugere, querendo indicá-lo como uma obra-prima. Sob um ponto de vista mais metafórico, no qual trabalha em muitos momentos, pode-se indicar que ele está representando um certo domínio de uns em relação aos outros, mesmo por meio de seus ambientes (a sala de estar, depois um quarto no piso inferior), além de uma comunidade toda reunida com o objetivo talvez de manter as coisas como estão, ou, na opinião dela, sempre esteve. Em certos momentos, Corra! pode até ser visto como uma sátira, no entanto Peele parece saber exatamente que é neste limite que seu trabalho se dá do melhor modo: não está levando tão a sério o que mostra e isso concede a seu trabalho um insuspeito talento de concretizar uma ideia que normalmente estaria equivocada desde o início.

Get out, EUA, 2017 Direção: Jordan Peele Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, LilRel Howery, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root Roteiro: Jordan Peele Fotografia: Toby Oliver Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick Duração: 104 min. Estúdio: Blumhouse Productions / QC Entertainment

Twin Peaks no Festival de Cannes

Por André Dick

Twin Peaks.David Lynch.Filme

Nesta semana inicia o 70º Festival de Cannes, onde serão exibidos os dois primeiros episódios da terceira temporada de Twin Peaks, o acontecimento cinematográfico do ano que, talvez de forma estranha, se dará na TV (por meio do canal Showtime). O cineasta David Lynch teve, a partir da década de 90, mais reconhecimento na Europa do que nos Estados Unidos, e isso se deve sobretudo a Cannes. Coração selvagem foi seu primeiro filme exibido no Festival, no mesmo período em que o diretor fazia sucesso na televisão com Twin Peaks. Competindo com Coração de caçador, de Clint Eastwood, Nouvelle Vague, de Jean-Luc Godard, Cyrano de Bergerac, de Jean-Paul Rappeneau, Bem-vindos ao paraíso, de Alan Parker, e Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, entre outros, Coração selvagem recebeu a Palma de Ouro principal. Neste filme (crítica completa aqui), mais do que em outros, Lynch tenta criar uma ligação com a cultura pop, mas, como em Veludo azul, na procura por um certo interior norte-americano. Para ele, as figuras perdida pela estrada – e elas são muitas em Coração selvagem – são estranhas e ajudam a definir a realidade para o casal Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern).
Se em 1999, Lynch voltou ao Festival de Cannes com o sensível História real (crítica completa aqui), que foi comprado pela Walt Disney para distribuição mundial, em 2001 ele recebeu a Palma de Ouro de melhor diretor com Cidade dos sonhos (crítica completa aqui), dividindo a cena com os irmãos Coen, por O homem que não estava lá. O prêmio de melhor filme foi para O quarto do filho, de Nano Moretti, e estavam na mostra competitiva A pianista, de Michael Haneke, Vou para casa, de Manoel de Oliveira, Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, e o desenho animado Shreck.

No entanto, o filme que rendeu mais polêmica da trajetória de Lynch foi exatamente a adaptação para o cinema de Twin Peaks, exibido na mostra competiva de Cannes em 1992. Tarantino, que estreava por lá com seu Cães de aluguel, saiu da sessão desapontado, dizendo que nunca mais veria um filme do diretor, do qual se dizia fã. Pedro Almodóvar – um dos integrantes do júri, que tinha como presidente Gérard Depardieu –, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.
Twin Peaks – Fire walk with me figurou ao lado de filmes que acabaram se tornando referências, como O jogador, de Robert Altman, Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, Retorno a Howards End, de James Ivory, O fim de um longo dia, de Terence Davies, e Simples desejo, de Hal Hartley. Quem venceu foi As melhores intenções, de Bille August, que já havia recebido a Palma pelo ótimo Pelle – O conquistador.
É a melhor obra de Lynch e aquela que antecipa seus filmes mais recentes (como A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos), sendo menos hermético do que todos eles. É, no entanto, o cineasta em estado bruto, uma paranoia visual em vermelho, com contrastes de verde, amarelo e azul.

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Laura Palmer é o foco deste filme, ao contrário da série, em que havia inúmeros personagens, e talvez esta seja a principal distância que o filme mantém da série (já que a fotografia de Ron García e a música arrebatadora de Angelo Badalamenti continuam iguais, senão melhores). Não há o hotel Great Northern, ou seja, não há também cenas de humor ou de encontros de estrangeiros pelos corredores do hotel; os conflitos da madeireira, os discursos estranhos do prefeito, também não vemos os relacionamentos amorosos do xerife e do dono do hotel ou as inúmeras passagens na lanchonete, onde aconteciam alguns dos momentos mais divertidos da série; nem tanta presença de Dale Cooper, cujo bom humor certamente mantinha boa parte da série; ou seja, de certo modo, é outra coisa.
Todavia, o clima da série está todo lá, com a inserção de jovens que tentam lidar com a proximidade de Laura com a morte (Bobby e James, seus amantes), o homem perturbado que guarda o diário de Laura (e que na série mora ao lado dos Tremond, suicidando-se em sua estufa); o cafetão Jaques Renault; a misteriosa casa de Laura Palmer; a dança do anão e a sala vermelha; os semáforos noturnos impedindo a passagem ou não dos motoqueiros; e mais: há um plano em negativo que conduz a outro universo, desencadeando um universo bom. O universo do filme se reduz especificamente à trajetória de Laura, à sua solidão; por isso, para uma série tão expansiva, cheia de personagens, fica um vazio, mas é o vazio a ser completado com a história dela, para que entendamos o que vem depois. Desse modo, o filme se sustenta sozinho, também pela qualidade da narrativa e a direção excepcionalmente concentrada de Lynch, mesmo que cenas extras com alguns dos personagens da série tenham sido cortadas e lançadas apenas num Blu-ray em 2014, chamado As peças que faltam (crítica completa aqui).

É importante dizer que o cineasta transforma vários símbolos (o anão, Bob, Mike) em figuras importantes para tentar esclarecer este filme. O sangue, ao final, transformando-se em cereal de milho mostra a “garmonbozia” (mistura de dor e sofrimento) do anão e toda a simbologia da série – do menino Tremond, passando pela cena do jantar e do café da manhã na casa dos Palmer, até o menino atrás da máscara (o mesmo menino Tremond), comendo o cereal.
É como se o mundo se alimentasse também dessa dor e através desse alimento nativo, de séculos. A floresta de Lynch representa séculos de simbologia – nela, esconde-se algo sempre estranho, uma ameaça. E os clarões na floresta, onde mora a Senhora do Tronco, iluminam, na verdade, os personagens do outro mundo, que não existem. A cena em que Laura e Bobby recebem drogas no meio do bosque representa esse prenúncio de perigo. Laura vê as árvores, a floresta, como uma representação deste subterfúgio e de seu desaparecimento.
Do mesmo modo, entrar num quadro ou num sonho pode ser um perigo iminente em um universo onde se busca os amigos para fugir de casa, do sonho de vida. Lynch quer desenhar esta pintura, porém não especifica as cores, deixando que façamos a própria mistura.
E, ao fazer reaparecer o anjo que some num quadro de Laura Palmer – com o qual ela sonha, como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, ao final, Lynch encerra a série e o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

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Mas há, antes de tudo, o prólogo do filme. Depois da abordagem surreal a um ônibus escolar de Fargo pelo FBI, ele mostra a investigação de Chester Desmond (Chris Isaak), que, ao contrário do agente Cooper, prefere códigos por meio de Lil, vestida de vermelho, e Sam Stanley (Kiefer Sutherland), do assassinato de Teresa Banks, que antecede o de Laura Palmer, na série de TV. Depois de uma estranha passagem pela delegacia de Deer Meadow, onde aconteceu o crime, eles vão a uma lanchonete, Hap’s Diner, em frente da qual há a imagem de um palhaço em neon chorando, entrevistam a antiga chefe de Teresa, e no dia seguinte encontram o dono de um campo de trailers, Carl Rodd, feito por Harry Dean Stanton, com um curativo que não consegue cobrir totalmente o sangue na testa, quando são visitados por uma senhora quase anã, que cobre um dos olhos com um pedaço de pano. Em seguida, temos cenas de sonho e uma aparição surpreendente de David Bowie em meio a chuviscos de TV. Há mais: postes habitados por sons indígenas, um anel embaixo de um trailer que pode ser uma passagem para um universo paralelo e uma atmosfera que impressiona. Trata-se da meia hora mais estranha da trajetória de David Lynch e o definidor de que o filme para o cinema de Twin Peaks é uma obra-prima. Coração selvagem é um ótimo filme, mas é Twin Peaks – Fire walk with me (crítica completa aqui) que merecia a Palma de Ouro.

Personal shopper (2016)

Por André Dick

Uma das lendas propagadas por determinada crítica é de que Kristen Stewart se transformou numa boa atriz apenas quando iniciou sua parceria com Olivier Assayas em Acima das nuvens, justamente porque foi a primeira atriz norte-americana a receber o César, o Oscar do cinema francês. Pode-se lembrar, inclusive, das piadas feitas com ela numa cerimônia do Oscar, numa época em que poucos a consideravam como atriz. Outra lenda é de que ela se transformou numa atriz realmente após a série Crepúsculo. São avaliações equivocadas de quem certamente não assistiu a suas atuações em O quarto do pânico, Na natureza selvagemO silêncio de Melinda, feitos antes de Crepúsculo (série na qual tem a mesma base de interpretação, apenas com um roteiro de apelo mais pop), e em The Runaways, O lenço amarelo, Adventureland, Na estradaAmerican Ultra e Café Society, feitos ao mesmo tempo que ou após a série, nos quais apresenta atuações destacadas e de uma atriz que procura caminhos diferentes, embora mantenha um determinado estilo. Diante disso, a constatação é a seguinte: Stewart só teve seu talento valorizado quando destacada pelos franceses, igual a outros artistas desde o século passado.

Em Personal shopper, ela interpreta Maureen Cartwright, que perdeu o irmão gêmeo Lewis e tenta se conectar com ele por meio da mediunidade, elemento que ele também possuía. Ela trabalha exatamente como “personal shopper”, escolhendo roupas para uma celebridade, Kyra (Nora von Waldstätten), cujo namorado é Ingo (Lars Eidinger). O filme de Assayas mostra ela entre a tentativa de contactar o irmão, mas é muito mais sobre a falta de diálogo entre as pessoas vivas. Há um casal de amigos (Audrey Bonnet e Pascal Rambert), interessado em comprar a casa onde ela e Lewis viviam, mas Maureen quer primeiro reencontrar, de algum modo, o irmão. Essa tentativa de voltar à casa onde se morou retoma certamente um dos temas de Assayas em Horas de verão, sobre o reencontro de uma família, e as folhas amarelas de outono que caem na sacada do lugar representam essa mudança existencial.
Situado entre Paris e Londres, Personal shopper tem uma atmosfera muito interessante – uma mistura entre arthouse e obra sobre paranormalidade – e, além da belíssima fotografia de Yorick Le Saux, apresenta uma das melhores atuações de Stewart, atriz que certamente acrescentou a seu repertório um traço de atriz europeia, bem mais arriscado daquele a que o espectador está acostumado. É uma atuação comovente até determinado ponto, pois é sua busca pelo irmão a todo custo e contra qualquer vestígio material, mesmo tentando se manter ligada à ex-namorada dele, Lara (Sigrid Bouaziz).

Vaiado no Festival de Cannes de 2016, onde foi lançado e no qual recebeu o prêmio de melhor diretor (dividido com Cristian Mungiu, do excelente Graduation), Personal shopper talvez seja o filme mais estranho de Assayas. Ele está a todo momento contrapondo mundo material (roupas, joias) ao mundo espiritual (que se reflete em luzes e sombras, principalmente quando Maureen passa a noite numa casa vazia a fim de ver se recebe algum sinal do irmão), assim como usa smartphones e computadores como um meio de estabelecer relações com aqueles que existem (mas também inexistem), a exemplo de seu namorado Gary (Ty Olwin), que trabalha no Oriente Médio, ou não estão presentes e surgem a princípio como curiosidades para se transformarem em stalkers (as conversas durante uma viagem dela a Londres por meio de celular são especialmente bem feitas, utilizadas de maneira realmente funcional como no drama Homens, mulheres e filhos). A relação de Maureen com Kyra é tão fantasmagórica quanto qualquer matéria intangível: ao ser um manequim vivo da celebridade, Maureen vive de reflexos e de uma existência ao mesmo tempo vazia de vínculos. Ela se divide entre um ar resignado e sofrido (da mesma maneira que se apresenta no recente A longa caminhada de Billy Lynn) e procurando uma sexualidade que visualiza em Kyra.

O momento mais contundente neste sentido é quando ela resolve experimentar as roupas de Maureen no apartamento dela: é um diálogo com a tentativa de viver realmente como outra pessoa, embora seu drama pessoal seja não encontrar mais seu irmão. Com toques de suspense e assustador em determinadas sequências, Personal shopper tem características do melhor Assayas, aquele de Boarding gate, que também trazia a imagem de uma mulher solitária num universo do crime, e de Clean, sobre uma junkie que tem uma banda de rock com o marido e, depois de determinado acontecimento, encontra-se solitária. A obra de Assayas, apostando no drama em que é especialista, embora às vezes irregular, não deixa de ser um thriller disfarçado de Hitchcock por meio da paisagem parisiense, com toques de Leos Carax e seu Holy Motors, além de uma interessante analogia final com Oslo, 31 de agosto, por meio da presença do ator Anders Danielsen Lie. Assim como na obra de Carax, a tecnologia parece deixar o cinema “antigo” para trás: a sensação, aqui, é que Assayas está tratando do cinema digital em primeiro lugar por meio de uma trama instigante. Há uma cena que define isso: quando Maureen está diante de um acontecimento que mudará sua trajetória, há barulhos e luzes distantes que remetem a uma sala de cinema. O que estará acontecendo lá? Para Assayas, está acontecendo essa procura por sua própria identidade. É estranho, diferente e assustador, como Personal shopper.

Personal shopper, FRA, 2016 Diretor: Olivier Assayas Elenco: Kristen Stewart, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Pascal Rambert, Lars Eidinger, Nora von Waldstätten, Ty Olwin, Audrey Bonnet Roteiro: Olivier Assayas Fotografia: Yorick Le Saux Produção: Charles Gillibert Duração: 105 min. Estúdio: arte France Cinéma / CG Cinéma / Detailfilm / Poisson Rouge Pictures / Scope Pictures / Sirena Film / Vortex Sutra