Batman vs Superman – A origem da justiça – Edição definitiva (2016)

Por André Dick

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Este texto apresenta descrições de algumas cenas incluídas

Passados alguns meses depois do lançamento no cinema, a versão estendida, anunciada desde antes da estreia, de Batman vs Superman – A origem da justiça começa a ganhar os primeiros espectadores. A Warner Bros sofreu críticas de quem queria assisti-la na tela grande, mesmo porque a versão original desagradou a muitos fãs e críticos. A metragem agora é de 182 minutos, enquanto a versão dos cinemas é de 151 minutos (Snyder já havia feito duas versões estendidas para Watchmen, sendo que a segunda tem 215 minutos). Batman vs Superman poderia ser um filme polarizador se não tivesse sido lançado numa época estranhamente desigual também no cinema, em que alguns filmes sem tanta qualidade adquirem status de clássicos instantâneos, enquanto outros, como ele, são considerados fracassos de realização.

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De fato, não criou uma polarização: enquanto há admiradores do filme, grande parte do público (pelo menos a maior parte de quem se manifesta) o rejeitou, embora a média do IMBb seja razoável: 7/10. Em termos de crítica, no Rotten Tomatoes, ele recebeu 27% de aprovação. Esta marca é um pouco superior à de Batman e Robin e Superman IV – dois filmes bastante fracos com esses super-heróis. No Letterboxd, impressiona a quantidade de cotações de meia estrela até duas estrelas, como se fosse um dos piores do ano, até antes da estreia da versão definitiva – e, desde então, a média passou para três a quatro estrelas. Antes mesmo de o filme não chegar à marca respeitável – embora inferior às expectativas – de 900 milhões de dólares nas bilheterias, houve pedidos pela saída de Zack Snyder dos projetos da DC Comics. A Warner subentende que, nos bastidores, haverá mudanças para A Liga da Justiça.
Mas Batman vs Superman é merecedor desse status de filme problemático? Merece que elogios a ele se tornem raros e quase proibitivos? Minha crítica feita à época do lançamento está aqui. Continuo, desde lá, achando que depende do ponto de vista – que, para mim, é claro e talvez não agrade. Se o espectador não está disposto a ver mudanças da linguagem dos quadrinhos para o cinema e escolhas artísticas de Snyder, ele passa a ser incômodo. Se ele não aceita o roteiro menos linear do filme, também. E, se não concordar que o universo de Snyder para esses personagens é realmente mais soturno, não haverá uma boa recepção. E é muito difícil imaginar se um espectador que desgostou do original irá aproveitar mais este. A questão é que Batman vs Superman não precisaria de uma versão estendida para ser de fato um grande filme, um dos melhores do ano. Mas, se esta versão já estava anunciada, o correto é realmente lançá-la e vê-la como a ultimate edition (no Brasil, edição definitiva).

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Muitos reclamaram de lacunas na trama de Batman vs Superman e que a versão estendida tenta resolvê-las. Não acredito que haja tantas lacunas, nem que houvesse a montagem caótica. Tenho em mente uma dúzia de filmes com montagem realmente confusa que foram ganhadores de prêmios importantes e elogiados por espectadores e público. Mas qualquer acréscimo a um grande filme é bem-vindo. Batman vs Superman dá destaque, principalmente, à narrativa de Lois Lane (Amy Adams) no país africano de Nairomi, que agora passa com mais agilidade – e estabelece uma relação clara com Lex Luthor (Jesse Eisenberg), além de enfocar um cenário de guerra que remete a A hora mais escura, com a presença destacada de um personagem chamado Jimmy Olsen (Michael Cassidy) e cenas de destruição de drones. São passagens que ajudam a aprofundar detalhes que desembocam na política, um dos temas da obra. Do mesmo modo, temos mais cenas de momentos de reflexão do Superman. Esta é uma reclamação comum: que o Superman (Henry Cavill) de Snyder não possui muitas falas. Pelo filme, percebe-se que não se sente nem humano nem alienígena; sente-se, de fato, deslocado. Há uma cena muito bem feita nesta versão estendida, quando ele sai do Capitólio com uma das vítimas da explosão e observa os feridos à sua volta. Ela revela o quanto Snyder não possui visão apenas para cenas de fantasia, como trabalha com o choque diante de uma realidade incontornável. Também vemos um prólogo ao encontro de Clark Kent com seu pai no alto de uma montanha.

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O vilão, Lex Luthor, recebe algumas cenas a mais, inclusive ao final, quando tem um encontro um pouco mais prolongado com Batman, e uma de suas subtramas se sente mais resolvida, embora no original não seja especialmente necessária, envolvendo a figura de uma mulher, Kahina Ziri (Wumni Mosaku), que recorre à senadora Finch (Holly Hunter). E também temos breves detalhes interessantes, como Alfred (Jeremy Irons) cortando lenha do lado de fora da mansão, numa contradição com o universo de tecnologia que habita.
De maneira geral, a versão estendida de Batman vs Superman se concentra mais na investigação inicial de Lois sobre o que aconteceu em Nairomi e também a de Clark Kent atrás de informações de Batman (Ben Affleck) – quando encontra um homem que lhe mostra uma raspadinha com o contorno do símbolo do morcego –, investigando um prisioneiro, Cesar Santos (Sebastian Sozzi), que foi marcado pelo símbolo do justiceiro de Gotham City na pele e isso significa morrer na prisão. Esses dois acréscimos tornam o filme mais interessante no sentido de que há uma explicação mais bem conduzida para Superman se contrapor a Batman, principalmente. Também há um acréscimo nas consequências da explosão do Capitólio, com a técnica de laboratório Jenet Klyburn (Jena Malone) trazendo uma explicação-chave. A versão estendida possui, como se previa, mais cenas de violência, alguns detalhes, como no assassinato dos pais de Wayne ou no confronto entre os super-heróis – nada, no entanto, que lembre a violência, por exemplo, de Watchmen. Snyder, ao final, reserva algumas cenas do luto público pela morte de Superman, assim como de seu funeral, criando uma atmosfera ainda mais melancólica, e assinalada com beleza.

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Esta versão se mostra ainda mais soturna e com temas raros para algo que as pessoas desejariam que fossem apenas de super-heróis. É ainda menos infantil, certamente desagradando a um público dessa idade. E, ao contrário da trilogia de Nolan, este Batman vs Superman se sente ainda mais num universo em que os super-heróis parecem não ter certeza para onde devem se dirigir. Isso parece o principal incômodo para certo público: Snyder realmente arriscou fazer um filme em que duas figuras que representam a salvação não parecem saber indicar um caminho. Bastante revelador quando, depois da morte de Superman, aparece uma capa de jornal sobre o assassinato de Kennedy, como se ele representasse um sinal de esperança. As ruas de Metrópolis estão vazias: todos lamentam a morte daquele que trazia segurança. É complexo e humano, muitas vezes, além de denso. A versão estendida, diga-se, melhora ainda mais um filme que já era excelente. Não é simplesmente para um público mais adulto, como já foi a trilogia de Nolan. Ao mesmo tempo que ele homenageia alguns quadrinhos, ele apresenta um traço novo. Poucas vezes se tem certeza de que uma obra foi injustiçada, e Batman vs Superman é um desses casos.

Batman v Superman – Dawn of justice – Ultimate Edition, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Jena Malone, Michael Cassidy, Wumni Mosaku, Sebastian Sozzi Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 182 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

 

As montanhas se separam (2015)

Por André Dick

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É muito interessante a trajetória do cineasta chinês Jia Zhangke. Se em Plataforma ele fazia um apanhado histórico sobre a Revolução Cultural na China, em Prazeres desconhecidos ele concebia seu cinema em movimento como se estivesse preso a uma reflexão. O belíssimo O mundo, no qual as vidas de várias pessoas se localizavam dentro de um parque com réplicas de diferentes partes da Terra, não é apenas o precursor de Em busca da vida, outro grande filme, desta vez com uma crítica ao avanço de corporações sobre o meio natural, como consegue traduzir realmente o que pensa Jia sobre o universo que o cerca, traço também encontrado em 24 city, embora neste ele não se sinta tão à vontade com sua narrativa em forma de documentário. Um de seus esforços mais recentes é Um toque de pecado, desta vez apostando numa ambientação mais violenta e dividido mais claramente em histórias que se relacionam por um fio temático e que parecem influenciadas pelo Tarantino que recriou o Oriente, no seu díptico Kill Bill. Este é o cineasta homenageado no documentário Jia Zhang-ke by Walter Salles, exibido no Festival de Cannes de 2015.

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Neste mesmo festival, ele lançou As montanhas se separam, mais uma peça com recursos dramáticos interessantes. Ele inicia em 1999, mostrando dois homens, Zhang Jinsheng (Zhang Yi) e Liang Jangjung, ou Liangzi (Liang Jing Dong), apaixonados por Shen Tao (Zao Thao). Enquanto Jinsheng tem negócios que lhe rendem dinheiro suficiente para sempre comprar novas minas de carvão, Liangzi é um operário. Jinsheng pressiona Shen a decidir por um dos dois – e essas cenas rendem momentos de desentendimento complicados para Shen, que parece gostar de ambos. Anos depois, em 2014, um deles volta novamente a estabelecer contato com ela, que tem um filho, Zhang Daole (Zishan Rong), ou Dollar, como passa a ser chamado pelo pai, com o qual não tem boa relação. Finalmente, Jia faz um hiato temporal para mostrar um desses personagens em 2024, morando na Austrália, e que possui um laço afetivo com sua professora de inglês, Mia (a excelente Sylvia Chang).
As montanhas se separam possui, como em toda a obra de Jia, uma fotografia deslumbrante de Yu Lik-wai, com uma predileção por captar ambientes externos com um cuidado irreparável, assim como deixa cenários internos com uma sensação de realismo destacada. A China antiga e a China moderna convivem não raramente no mesmo enquadramento, e se temos algum sinal de neve é sempre em meio a uma natureza já surgida no asfalto. Cenas que captam a tradição chinesa são ampliadas com um afeto trabalhado, lembrando o que Ka-Wai e Kurosawa já fizeram para o Oriente em termos de imagem. E, em meio a essas imagens, a presença cada vez maior do Ocidente, sobretudo na circulação de automóveis e vendas de equipamentos de som, e um sentimento de que a China vive o futuro, principalmente na velocidade dos trens e na tentativa de incorporar outras linguagens.

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Este também é o filme mais acessível do cineasta, que entrega a temática de forma mais facilmente identificada com seu pensamento, a partir da canção “Go west”, do Pet Shop Boys, na véspera do Ano Novo, unindo passado e futuro. Desse modo, há uma estranha ambiguidade em alguns momentos, não existente em seus trabalhos anteriores. O primeiro ato é especialmente forte, com um sentimento trabalhado na solidão dos personagens, uns afastados dos outros, mesmo próximos, e o segundo mostra a aproximação que existe mesmo a distância. Se o terceiro ato parece um pouco desajeitado é pela tentativa de Jia de surpreender com uma narrativa antilinear – e em determinado momento muda-se o tamanho da tela de 1,85: 1 para 2,35: 1. A princípio deslocada, a conclusão melhora com o crescimento de um determinado sentimento com que o personagem enfocado precisa trabalhar, e há um trabalho sentimental em torno das ações. Nisso tudo, Jia arrisca fazer com que o filme não tenha personagens centrais fixos, ou seja, eles vão se modificando conforme a narrativa avança.
Enquanto em Um toque de pecado, o cineasta mostrava o crescimento da violência associado ao crescimento financeiro, aqui ele faz uma espécie de homenagem aos homens que crescem à margem de um sistema já pré-determinado, ou de homens que não querem seguir essa linhagem já entregue. Em certos momentos, ele não evita o vocabulário mais reducionista, mas isso não atrapalha o andamento. Ele trabalha com a memória de maneira que ela se perde, se reencontra ou se esvai em camadas, por meio de objetos (um cartão de casamento, um amuleto da sorte, dois fones de ouvido entrelaçando duas pessoas, um cenário, ou uma situação semelhante a outra já vivida).

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Jia trabalha principalmente por meio da atuação de sua atriz preferida, Zhao, mais uma vez brilhante num papel com poucas falas, e ainda pela melancolia transmitida por Liangzi, graças ao ator que o interpreta, o excelente Liang Jing Dong, com uma discrição impressionante, enquanto Zhang Yi, como seu oponente, é levemente exagerado. A sensação, como em outros filmes do cineasta, especialmente O mundo, é a de estarmos vivendo dentro de um ciclo que vai se desdobrando e com o qual as pessoas vão lidando. Uma pessoa vai substituindo a outra apenas superficialmente: os sentimentos, para Jia, se conservam longe da superfície e cada personagem é movido por eles. Pode-se dizer que o cineasta tem êxito ao mostrar essas sensações e o sentimento de afastamento e solidão é incômodo, embora bem desenhado e desenvolvido, e uma casa deixada pelo tempo adquire uma força especial ao neutralizar mágoas. É um mundo onde trens e aviões criam afastamentos e aproximações, assim como pessoas estão sempre caminhando em linha reta, ao lado ou não de cães que simbolizam um afeto duradouro, sem se preocuparem com as separações entre as montanhas e esperando ver o que permanece do outro lado do mar.

山河故人, China/França, 2015 Diretor: Jia Zhangke Elenco: Zhao Tao, Zhang Yi, Liang Jing-dong, Dong Zijian, Sylvia Chang Roteiro: Jia Zhangke Fotografia: Yu Lik-wai Trilha Sonora: Yoshihiro Hanno Produção: Ren Zhonglun, Nathanaël Karmitz, Liu Shiyu, Shozo Ichiyama Duração: 131 min. Estúdio: Arte France Cinéma / Beijing Runjin Investment Distribuidora: Imovision

Cotação 4 estrelas e meia

X-Men: Apocalipse (2016)

Por André Dick

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O terceiro filme que mostra os personagens em sua faceta mais jovem da série X-Men volta a ser dirigido por Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros do início dos anos 2000 e pelo anterior a este, com o subtítulo Dias de um futuro esquecido, depois da reinicialização por Matthew Vaughn, em Primeira classe. Singer é um diretor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack e o caçador de gigantes (com o mesmo Hoult que trabalha como um dos X-Men), e seus próximos projetos incluem Broadway 4D (dirigido com Gary Goddard, de Mestres do universo) e uma nova versão de 20.000 léguas submarinas.
A nova história (a partir daqui, possíveis spoilers) começa mostrando En Sabah Nur, ou Apocalipse (um ótimo Oscar Isaac), como o mutante original, que fica por centenas de anos preso numa câmara embaixo da terra, no Cairo, até que é desenterrado. Possuindo poderes cada vez maiores, ele ressurge exatamente em 1983, e conhece uma jovem, Ororoe Munroe (Alexandra Shipp), que se torna sua discípula e, investida de poderes, em Tempestade.

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Por sua vez, na Berlim Oriental, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) encontra Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee) lutando com Anjo (Ben Hardy), pois seu papel agora parece ser o de libertar mutantes, e não por acaso ela surge como uma referência feminina na parede de Ororoe, que diz querer ser como ela. Ela não consegue impedir que Apocalipse venha atrás não apenas do Anjo, mas de Magneto (Michael Fassbender) e Psylocke (Olivia Munn). No encalço da criatura ressuscitada, está a agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), que apareceu pela primeira vez no primeiro X-Men nesta nova franquia.
Por sua vez, o professor Charles Xavier (James McAvoy), para tentar lidar melhor com o passado, procura constituir uma nova família e recebe novos alunos em sua escola em Westchester County, New York, entre os quais Jean Grey (Sophie Turner), que está com problemas para se adaptar a seus superpoderes. Já Scott Summers/Ciclope (Tye Sheridan) é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers), assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Na escola, também reaparecem Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) e Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão de aumentar os seus poderes sobre os mutantes, sem antes encontrar o Coronel William Stryker (Josh Helman).

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Em X-Men: Apocalipse, como na segunda parcela desta nova franquia esclarece, as décadas passam e com elas se vê a participação dos mutantes em fatos históricos – e o diálogo se estende a Watchmen. Aqui, nos anos 80, o pano de fundo é a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética, e Apocalipse está interessado na desintegração da humanidade e na necessidade de mostrar que há “falsos deuses” entre os heróis. Tudo inicia no que poderia se chamar de uma parte extraída diretamente de A caçada ao outubro vermelho.
Em X-Men, as batalhas históricas se tornam parte de uma grande fantasia e um dos momentos mais dramáticos deste episódio mostra Magneto/Erik Lehnsherr vivendo como um operário numa fábrica de metais da Polônia, país natal, feliz ao lado de esposa, Magda (Carolina Bartczak), e sua jovem filha, Nina (T.J. McGibbon). Procurado pelo mutante original, ele é levado a Auschwitz, onde teria começado a manifestar seus poderes depois da morte de sua família. Não por acaso, é a parte que parece mais interessar a Singer em seus projetos mais pessoais, como O aprendiz e Operação Valquíria: para ele, o peso da Segunda Guerra Mundial marca para sempre Magneto, indefinido entre seguir seus companheiros ou de se vingar pelas situações em que se envolve e são trágicas para sua vida pessoal. Para Fassbender, presente em outro filme referencial sobre a Segunda Guerra, Bastardos inglórios, a essência do personagem é estar, de fato, preso a um passado que se repete a cada dia e cuja família não pode encobrir. Se ele é buscado por um homem que se autodenomina Apocalipse, como não lembrar de Hitler?

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Por sua vez, o Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas, porém, é que os personagens quase não possuem cenas em conjunto, o que proporcionaria uma maior aproximação deles no sentido de que são figuras complementares, à medida que também lida com a tentativa de Xavier em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado.
Por isso, às vezes, a sensação é de que o roteiro de Singer e Simon Kinberg, cujo maior acerto é Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com o apoio ainda de Dan Harris e Michael Dougherty, tem inúmeros personagens à mão e é difícil solucionar a narrativa de cada um, mesmo em quase duas horas e meia, facilitando as transições e diminuindo, no terceiro ato, o peso do vilão, feito com perícia com Isaac. O filme flutua entre uma leveza de Xavier tentar uma aposta romântica e a descoberta de dois jovens de seus poderes, além de referências claras ao ano de 1983, como no figurino do Noturno, ainda mais parecido com aquele utilizado por Michael Jackson no videoclipe “Thriller”. Ele segue os capítulos anteriores com uma sequência de cenas que vão se conectando sem muito esforço para o espectador, com a fotografia de Newton Thomas Sigel, habitual colaborador de Singer, dedicada a uma mescla interessante de cores, principalmente quando o Prof. Xavier acessa o monumental cérebro.

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O roteiro às vezes é tão leve quanto a piada que faz consigo mesmo, quando os jovens saem do cinema e lamentam que O retorno de Jedi é a parte mais fraca de Guerra nas estrelas – Singer não se refere a X-Men – O confronto final, de Brett Ratner, o qual não dirigiu, e sim ao que espera que a crítica falará de seu filme, como de fato ocorreu.
A primeira parcela desta nova geração foi muito bem feita por Vaughn e esta terceira não fica nada a dever em termos de ação e efeitos visuais, embora haja um pouco de CGI carregado demais na sequência da batalha final. Muito boa a participação também do elenco: de McAvoy, Fassbender, Turner, Hoult e Peters, principalmente, servindo como alívio cômico, talvez na melhor sequência do filme, sonorizado por “Sweet Dreams (Are Made of This)”, de Eurythmics. Não fica muito clara qual a participação de Lawrence, mas ela sempre é uma presença eficiente em cena, e Byrne poderia ser melhor aproveitada. Por outro lado, aprecio mais esse elenco do que o da primeira trilogia e o saldo final deste X-Men: Apocalipse é agradavelmente positivo.

X-Men: Apocalypse, EUA, 2016 Diretor: Bryan Singer Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Lana Condor, Olivia Munn, Warren Scherer, Rochelle Okoye, Monique Ganderton, Fraser Aitcheson Roteiro: Bryan Singer, Dan Harris, Michael Dougherty, Simon Kinberg Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: John Ottman Produção: Lauren Shuler-Donner, Simon Kinberg Duração: 144 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Dune Entertainment / Marvel Entertainment / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas e meia

 

Zootopia (2016)

Por André Dick

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Este novo desenho da Walt Disney foi incensado pela crítica e pelo público (que deixou mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias!) e pode-se achar, antes de assisti-lo, que é mais um produto de marketing superestimado. Nos últimos anos, há uma sequência de animações que se caracterizam por um grande apoio da crítica especializada, vendo nelas, sobretudo, temas que agradam mais a adultos do que a crianças. Passam a ser animações inteligentes, paradoxalmente consideradas “não infantis”, como se este público não as entendesse de fato. Esses temas não raramente são inseridos em meio ao que se considera politicamente correto, tendo como mensagem exatamente lições que podem ser interpretadas sob o ponto de vista de manifestações vistas com mais respeito. Estamos aqui diante de uma animação que pode lidar com tais temas, mas parte do pressuposto de que é dirigida realmente a todas as idades, sem facilitar ou complicar para um determinado público.
Zootopia (que tem um dispensável subtítulo em português, Essa cidade é o bicho) inicia mostrando a infância de Judy Hopss (Ginnifer Goodwin), filha de Stu (Don Lake) e Bonnie (Bonnie Hunt), da zona rural de Bunnyburrow, cujo sonho é se transformar na primeira coelha a ser policial e se dedica a uma peça teatral, numa breve homenagem a Rushmore, de Wes Anderson. Em seguida, ela é confrontada por uma raposa, Gideon Gray (Phil Johnston), deixando-a traumatizada. Os pais, obviamente, não querem que ela siga este caminho, pois pretendem que ela se transforme, como eles e seus irmãos, numa fazendeira.

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Quando cresce, ela vai parar exatamente no departamento de polícia da cidade vizinha, Zootopia. Excluída pelo chefe, Bogo (Idris Elba), da tarefa de investigar crimes – a princípio, pelo seu pequeno porte –, ela passa a ser controladora de trânsito. No meio do serviço, ela conhece Nick Wilde (Jason Bateman), exatamente outra raposa, e Finnick (Tommy ‘Tiny’ Lister), que aprontam fazendo trabalhos suspeitos. Num deles, Nick pretende comprar um picolé num estabelecimento que vende apenas para elefantes para o que seria seu filho, até que a coelha descobre que tudo não passa de uma grande invenção. Ainda incansável com a ideia de que deve também ser uma investigadora, ela recebe o apoio da vice-prefeita, Dawn Bellwether (Jenny Slate), maltratada pelo prefeito Lionheart (J.K. Simmons), ao querer ajudar a Sra. Otterton (Octavia Spencer).
Tudo é início de uma aventura que transformará Zootopia, onde todos os animais deveriam conviver em harmonia, o que lembra um pouco Uma cilada para Roger Rabbit. No filme de Zemeckis, havia Toontown, a cidade onde os desenhos viviam em comunidade. Em Zootopia, também convivem diferentes épocas: há cenários futuristas com outros que lembram os de dias atuais e até aqueles que lembram um passado mais imediato.

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Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, diretores do filme, conseguem compor uma personagem central muito interessante e mesmo original no universo da animação, e coloca como parceiro dela uma figura das mais empáticas do universo animado recente, graças, também, à voz do ótimo Bateman. Ambos têm ligações também pelo passado em comum, mesmo um sendo associado à tranquilidade e outro à vilania. Em razão do talento dos diretores em compor um design visual atrativo, com uma cidade que lembra, em diferentes momentos, a de Tomorrowland e De volta para o futuro 2, junto com influências visíveis de O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson, e uma homenagem bem-humorada a O poderoso chefão, Zootopia demarca uma atmosfera realmente original. Poucos desenhos recentes conseguem demarcar um cenário amplo, a partir do qual o espectador pode visualizar os personagens, e a sua cidade se caracteriza, além de pela diversidade, por uma ideia realmente consistente de cotidiano, não apenas de um meio urbano, como também do meio rural.
Além disso, o filme traz como temas a identidade, o estereótipo, a discussão de gêneros e liberdade entre diferentes, no entanto sem se basear nisso o sucesso. Nesse sentido, ele me parece desenvolver melhor tais temas do que outros desenhos animações, mesmo o recente Detona Ralph, dirigido por Moore, um dos codiretores deste, e atua num plano em que Universidade Monstros, lamentavelmente desvalorizado, se arrisca: o de que a infância possui medos que devem ser colocados à prova, não exatamente original, mas poucas vezes tão bem trabalhado quanto aqui.

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É difícil dizer se, em alguns momentos, Zootopia não aplica uma certa vontade de rotular o que exatamente critica – mesmo que haja ótimas gags, como a do elefante na sala. Os pequenos animais são vistos sempre sob o ponto de vista de que são bons ou inofensivos (os coelhos, as ovelhas), em relação aos maiores, e os diretores brincam com essa ideia. Sob outro ângulo, eles colocam um tigre atendendo no departamento de polícia que está mais interessado em acompanhar a trajetória de uma cantora de Zootopia, Gazelle, que parece uma homenagem a Adele, mesmo tendo a voz de Shakira. Além de tudo, há uma sequência de cenas de ações bem feitas e bem-humoradas (como o encontro com os funcionários de trânsito, que são bichos-preguiça) e uma transição natural, nada forçada, entre as cenas. É muito raro encontrar uma animação que ainda invista numa trama policial e não se perca pelo meio do caminho, capaz de desenhar uma amizade entre figuras diferentes de maneira tão crível. As comparações feitas, por exemplo, com o clássico Chinatown são realmente verossímeis e bem solucionadas pelo roteiro escrito por um dos diretores, Jared Bush, e Phillip Johnston, colaborador em Detona Ralph. Em certos momentos, arrisca-se até mesmo um clima noir, em meio a uma perseguição numa floresta seguida de um amanhecer do sol radiante. Ele não soa excessivamente infantil nem apresenta temas mais adultos de maneira pretensiosa, ficando num meio-termo agradável. De maneira mais ampla, este desenho me parece o maior acerto do selo da Disney (não contando o departamento da Pixar) desde Aladdin, de 1992, muito superior a sucessos recentes da companhia.

Zootopia, EUA, 2016 Direção: Byron Howard, Jared Bush, Rich Moore Elenco: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, Jenny Slate, Nate Torrence, JK Simmons Roteiro: Jared Bush, Phillip Johnston Trilha Sonora: John Powell Produção: Clark Spencer Duração: 108 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos (2016)

Por André Dick

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Baseado em jogos eletrônicos da Blizzard Entertainment, Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos pode ser visto como uma peça destinada apenas aos fãs específicos. Não sendo um conhecedor da série de jogos, World of Warcraft, criada em 1994, no entanto, cheguei ao filme principalmente por ser de uma vertente que admiro – a fantasia – e pela direção de Duncan Jones, realizador de uma obra muito interessante de ficção científica, com orçamento modesto, intitulada Lunar, além do thriller de ficção Contra o tempo. Duncan é filho de David Bowie, mas, enquanto o pai músico também apareceu à frente das câmeras, em diversos filmes interessantes, ele vem se tornando um dos nomes procurados para o desenvolvimento de projetos diferenciados. O natural é que Warcraft, a princípio, afaste quem não conhece nem admire especialmente sua origem nos jogos.
O espectador é colocado no meio de uma trama em alta velocidade. Uma horda de orcs guerreiros está para deixar seu planeta, Draenor, que está em ruínas, por um grande portal, guiada por Gul’dan (Daniel Wu), diretamente para Azeroth. Ali moram humanos, e a preocupação passa a ser com uma iminente batalha. Lothar (Travis Fimmel) busca a ajuda de um jovem mago, Hadgar (Ben Schnetzer), e ambos vão a Mago Medivh (Ben Foster), o atual Guardião de Tirisfal, com uma biblioteca secular, Karzhan. Enquanto isso, o Rei Llane Wrynn (Dominic Cooper), que tem como assessora Lady Taria (Ruth Negga), a rainha-consorte de Stormwind, espera por mais informações para que possa decidir o que fazer.

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Do lado dos orcs, acompanhamos a ação principalmente de Durotan (Tobby Kebbell), líder de uma das tribos de orcs, casado com Draka (Anna Galvin), que acabou de ter um filho, e que possui como principal amigo Orgrim Doomhammer (Robert Kazinsky) Ele é contrário ao posicionamento do grande líder, que parece sempre trazer destruição à sua volta, e encontra o mesmo posicionamento de Garona Meiorken (Paula Patton), uma mistura entre orc e humana. Se a quantidade de nomes incomoda, um conselho seria simplesmente embarcar na fantasia que o filme de Duncan Jones carrega, com um roteiro escrito por ele em parceria com Charles Leavitt, responsável pela narrativa de K-Pax e No coração do mar, baseados nas criações de Chris Metzen.
Se visto com superficialidade, Warcraft pode ser reduzido a apenas uma diluição de O senhor dos anéis – sobretudo quando aqui também há anões e águias voando para salvar os humanos –, porém, em termos de estética, ele propicia não apenas a aceitação de que realmente Peter Jackson deu uma contribuição preciosa ao mundo da fantasia, como abriu a possibilidade de se adaptar histórias até então não presenciadas na tela do cinema. Em termos de design de produção, assinado por Gavin Bocquet (da segunda trilogia Star Wars e Jack e o caçador de gigantes, que guarda semelhanças com o visual de Warcraft), por exemplo, o filme de Jones lembra vários outros do gênero, mas em nenhum momento deixamos de ver a atenção aos detalhes com que foi construído. Em igual escala, os figurinos de Mayes C. Rubeo (Avatar, John Carter) são verdadeiramente bem trabalhados e reais, com uma imponência que falta a outras peças do gênero, além de os efeitos visuais serem muito bem inseridos, de sobremaneira nas cenas em que o movimento dos orcs é captado, com uma verossimilhança destacável: é possível ver onde foram colocados os mais de 150 milhões de orçamento.

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Por mesclar muitos universos e referências, pode-se lembrar de Willow – Na terra da magia e Krull, ambos dos anos 80. De Krull, Jones apanha principalmente a primeira meia hora, quando o grupo do rei Llane anda por uma floresta e, finalmente, quando se misturam armas de fogo a duelos de espada entre homens e orcs (no filme de Yates, eram armas laser). De Willow, mais diretamente, uma referência bíblica em determinado momento. Também possui diálogos com Mestres do universo, a adaptação do desenho de He-Man feito pela Cannon. E um par ou outro de cenas remete ao melhor das adaptações nostálgicas de Conan com Schwarzenegger: eis um filme em que o diretor tem influências claras e consegue mesclá-las de maneira agradável e que tenha um conjunto capaz de ressoar junto ao espectador.
Warcraft está preocupado demais em criar uma atmosfera de fantasia para que o espectador perceba o quanto faltam alguns pontos para estabelecer melhor a trama, principalmente dentro da família real. No entanto, Jones se mostra muito competente em cobrir essas lacunas com cenas verdadeiramente impressionantes de ação, com uma violência um pouco acentuada em alguns momentos e ainda assim eficazes. Ele também funciona com o requisito do humor, principalmente com o Mago Medivh e o aprendiz Hadgar – numa relação que pode lembrar aquela de O nome da rosa, principalmente na importância simbólica da biblioteca e (spoiler a seguir) no fato de que um deles pode estar sendo envenenado, transformando-se em outro ser –, enquanto Lothar tem uma boa presença, por causa do seu intérprete Travis Fimmel, que lembra Paul Rudd. O vilão é realmente assustador, alimentando-se da energia de seres humanos para que possa ter ainda mais vigor – e a sua figura lembra a dos monstros de A vila, de M. Night Shyamalan.

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Jones também sabe fazer analogias entre o grupo de humanos e o grupo de orcs, por meio das figuras de Lothar e Durotan. Ambos querem manter a paz em seus povos, mesmo que esta paz represente justamente ter de se inserir numa batalha. Durotan, principalmente, está preocupado com seu filho e a continuação de seu clã. Não é diferente com Lothar, em relação a seu filho Callan (Burkely Duffield). A cena de nascimento do filho de Durotan e Draka é especialmente bem feita, como se ele fosse parte de dois mundos. Como O senhor dos anéis e outras fantasias, esta adaptação dos video games aposta no embaralhamento de linhagens e a manutenção ou não de um poder que possa trazer paz a todos. Em nenhum momento o filme nega as suas origens e isso contribui para que, mesmo quando não soe original, seja realmente autêntico. É bastante claro que Duncan Jones tem um respeito pela história e faz suas apostas com um grande elenco praticamente desconhecido. Como outro grande filme injustiçado, John Carter, também situado entre dois mundos, Warcraft vem ganhando quase a demissão sumária de grande parte da crítica, com gracejos, piadas, difamações e linhas escritas como frases de efeito inúteis. Mais uma vez, ela está errada: a obra de Duncan Jones é realmente interessante e, se vai ou não virar franquia, depende da sua recepção nas bilheterias. Torço, desde já, por uma continuação.

Warcraft, EUA, 2016 Diretor: Duncan Jones Elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Toby Kebbell, Ben Schnetzer, Robert Kazinsky, Clancy Brown, Daniel Wu, Ruth Negga Roteiro: Charles Leavitt, Duncan Jones Fotografia: Simon Duggan Trilha Sonora: Ramin Djawadi Produção: Alex Gartner, Charles Roven, Jon Jashni, Thomas Tull Duração: 123 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Universal Pictures

Cotação 4 estrelas

Rock em Cabul (2015)

Por André Dick

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Comédia dirigida por Barry Levinson, que fez filmes como O enigma da pirâmide, Rain Man, Avalon e Mera coincidência, além do recente (e inédito no Brasil) A baía, Rock em Cabul é um veículo para o talento de Bill Murray, capaz de sustentar uma trajetória desde o Saturday Night Live nos anos 70, com obras referenciais nos anos 80 (Os caça-fantasmas, Tootsie), 90 (Nosso querido Bob, Feitiço do tempo) e anos 2000 (Encontros e desencontros, Flores partidas), além de ter se tornado, desde Rushmore, no ator predileto de Wes Anderson. É um ator com potencial tanto de humor quanto dramático e caminha nesse meio-termo com raro talento, podendo até mesmo transformar uma participação especial (em Zumbilândia) no melhor momento de um filme. Poderíamos dizer como Woody Harrelson que é, afinal, o grande Bill Murray. Com uma bilheteria de 3 milhões para um custo modesto de 15, Rock em Cabul ingressou na lista de decepções do ano. Mais decepcionantes foram as críticas, certamente orientadas pelo politicamente correto e pela necessidade de os próprios norte-americanos criticarem a sua cultura quando ela aparece como influente em outro país, como se caracterizasse algo comercial ou desrespeitoso, em razão de a guerra já se constituir num assunto polêmico o bastante para dividir a população. Como fazer graça com temas que envolvem conflitos e militares em ação? Isto nunca poderia ser Timbuktu.

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No roteiro, Richie Lanz (Bill Murray) é um pretenso agente de novos músicos e trabalha no quarto de um motel em Van Nuys, na Califórnia. Depois de uma proposta, ele leva Ronnie (Zooey Deschanel, certamente brincando com seu personagem de Sim, senhor) para um turnê no Afeganistão em instâncias militares. Seu personagem é claramente um malandro, mas cuja humanidade e simpatia se sobressai à sua parcela menos confiável. Além de tudo, carrega a complicação de não poder ver sua filha, o que rende uma boa cena logo no início, depois de sua separação. O grande problema é que Ronnie foge com seu passaporte e dinheiro, deixando-o desesperado em Cabul. Determinada noite, ele conhece uma prostituta, Merci (Kate Hudson, um tanto subaproveitada, embora uma presença agradável), de quem fica amigo, assim como um motorista de táxi (o ótimo Arian Moayed), mas logo é ameaçado por Bombaim Brian (Bruce Willis, um pouco deslocado, mas atuando bem), enquanto conhece dois americanos com negócios suspeitos, Nick (Danny McBride) e Jack (Scott Caan). Interessado no que pode lhe ajudar para sair dessa enrascada, antes de tudo, ele descobre uma jovem afegã com talento, Salima (Leem Lubany). Repetindo a parceria de Moonrise Kingdom com Bruce Willis, Richie aproveita sua estadia em Cabul não apenas como forma de arrecadar dinheiro como de passar a ser o que tanto fala, um agente de música.

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A história foi adaptada de um documentário chamado Afghan Star, e se faz homenagem à protagonista dele, Setara Hussainzada. Com uma bela fotografia de Sean Bobbitt, parceiro de Steve McQueen, Rock em Cabul utiliza o cenário como uma espécie de sátira à própria procura de ídolos dos Estados Unidos. No entanto, como ver isso se é mais fácil ver que há uma exploração de uma cultura pela cultura ianque? É mais difícil ver que os americanos estão interessados em ficar dentro do quarto ou circulando pelas ruas enquanto explode uma guerra étnica do lado de fora. O personagem de Murray quer trocar ideias em vez de balas de metralhadora, então isso pode indicar que o americano simboliza a paz numa cultura em guerra? O que faz Merci, a prostituta, trabalhando num trailer dentro de uma base militar no Afeganistão? É preciso pensar em muitas coisas para negar que a narrativa tenha qualidade e uma sátira corrosiva por trás de sua linha fina e aparentemente simples (e é difícil negar que alguns personagens surgem e desaparecem sem dizer ao certo a que vieram). A mais fácil é realmente indicar que os diálogos e situações não têm respeito pela cultura afegã (Por via das dúvidas, o The Clash proibiu a música que dá título ao filme original ao longo da narrativa.) O personagem do agente feito por Murray tendo de aceitar o convite de uma tribo de afegãos e levar a eles um pouco de rock é o que marca esta obra de Barry Levinson.

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Barry Levinson já havia conseguido fazer uma comédia num cenário de guerra muito interessante nos anos 80, Bom dia, Vietnã, com Robin Williams. Aqui ele opta por uma visão mais distante dos acontecimentos e ainda assim tem uma certa coragem de fazer uma abordagem em que os países podem se unir por algum gosto, mesmo que isso pareça às vezes improvável ou açucarado para o espectador. Seu olhar não é menos profundo do que o Clint Eastwood em Sniper americano ao focalizar uma cultura estrangeira e um cenário em guerra, mas Rock em Cabul não é de Eastwood, e por isso precisa vir junto, nas críticas a ele, uma espécie de lição de moral embutida.
De qualquer modo, encontra no personagem de Murray uma figura empática, que diz a todos ter descoberto Madonna, e o ator está num bom momento, como recentemente também em Um santo vizinho. Sob determinado ângulo, o roteiro lembra Ishtar, comédia dos anos 80 com Warren Beatty e Dustin Hoffman, e é assinado por Mitch Glazer (que fez também o de Os fantasmas contra-atacam e A very Murray Christmas, com Murray), que se encarrega de não colocar uma ênfase desnecessária nos momentos de conflito, dosando a ironia nos momentos certos. Como um dos melhores filmes recentes de Levinson, A baía, Rock em Cabul é terrivelmente ignorado, como já o foi no ano passado Sob o mesmo céu, com o mesmo Murray em grande momento. Sinal de que as comédias de real qualidade não estão sendo prestigiadas como poderiam.

Rock the Kasbah, EUA, 2015 Diretor: Barry Levinson Elenco: Bill Murray, Kate Hudson, Bruce Willis, Zooey Deschanel, Danny McBride, Scott Caan, Kelly Lynch, Beejan Terra, Leem Lubany, Taylor Kinney, Fahim Fazli, Arian Moayed Roteiro: Mitch Glazer Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Produção: Bill Block, Ethan Smith, Mitch Glazer, Steve Bing Duração: 106 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Dune Films / QED International / Shangri-La Entertainment / Venture Forth

Cotação 3 estrelas e meia

Mais forte que bombas (2015)

Por André Dick

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Logo depois de surgir com Reprise e Oslo, 31 de agosto, cada um com características autorais e uma forte presença da solidão e do sentimento de luto, o cineasta norueguês Joachim Trier chega a um filme de língua inglesa com este drama, Mais forte que bombas, inicialmente lançado no Festival de Cannes do ano passado e desde então aguardado pelo público. O lançamento de filmes arthouse é cada vez mais dificultado pelas grandes produções, no entanto é possível descobrir cada vez mais um espaço para que possam se destacar, independentemente da recepção. Trier é um jovem diretor em que muitos veem reais possibilidades de constituir uma longa trajetória, depois de iniciar como publicitário, e se percebe principalmente em suas obras um estilo muito definido, no tratamento de personagens e na composição de situações inseridas num cotidiano comum.
O roteiro inicia com um jovem pai, Jonah Reed (Jesse Eisenberg), vendo o seu primeiro filho com a mulher, Amy (Megan Ketch). No mesmo hospital, encontra a ex-namorada, Erin (Rachel Brosnahan), cuja mãe veio a falecer, o que reacende lembranças escondidas em Jonah. Corte a cena e já estamos com Gene Reed (Gabriel Byrne). Ele vai ajudar David (David Strathairn) a escrever uma matéria para o New York Times sobre sua mulher falecida há alguns anos, Isabelle Reed (Isabelle Huppert), fotógrafa de cenários de guerra, sobretudo no Oriente Médio.

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Gene tem problemas de relacionamento com o filho menor, Conrad (Devin Druid), e quando recebe novamente a visita do mais velho, exatamente, há uma porção de sentimentos de culpa reunidos na mesma casa onde a mãe está ausente. Junta-se a isso a paixão não correspondida de Conrad por uma colega de aula, Melanie (Rubi Jerins), fazendo com que ele dedique tempo a jogos no computador, principalmente em cenários de guerra, e de ele não saber de fato por que sua mãe morreu (dando espaço a uma cena impressionantemente bem filmada por Trier, com a ajuda de seu habitual fotógrafo, Jakob Ihre). Esta explicação é escondida tanto pelo pai quanto pelo irmão que querem protegê-lo de uma verdade que nem eles gostariam de assumir. David lembra da esposa lhe contando sobre um sonho, que parece dizer mais do cenário de guerra do que seu cotidiano, enquanto o filho menor sonha encontrar o corpo da jovem que diz gostar ao relento, como se estivesse também morta. É o peso do luto que domina essa família, dominada também pelo enquadramento da imagem, seja aquele das fotografias deixadas pela mãe ou dos jogos e escritos do irmão mais novo no computador.
As lembranças da mãe Isabelle, entretanto, se mantêm, em família ou em relações próximas, e Trier acompanha, em flashbacks, a maneira como ela enxergava seu trabalho de fotografia, como algo importante e, ao mesmo tempo, elemento de uma página a ser virada no jornal, sem que se dê importância. Ela é a representação mais próxima do personagem central de Oslo, 31 de agosto, que está querendo sempre voltar para um cenário caseiro sem que isso lhe dê a mesma segurança que poderia ter antes.

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O roteiro, escrito por Joachim Trier e Eskil Vogt, tem uma influência clara dos filmes que mostram a juventude norte-americana, com certa música dos anos 80 (o título original é o mesmo de um álbum da banda The Smiths), e dialoga principalmente com o recente e contestado Homens, mulheres e filhos. Onde Jason Reitman mostra mais humor, Trier é mais comedido e, por meio de Conrad, pretende enfocar a solidão dessa juventude. Sua relação com o irmão é terna, assim como os conflitos com o pai demarcados por uma base real, especialidade de Trier. O momento em que o irmão Jonah lê um relato do cotidiano do irmão, levando o filme a um flashback revelador, se transforma no maior requisito para uma peça dramática que se anuncia em cada linha de roteiro. Mais ainda sua interação depois com um aparelho que configura uma realidade virtual, para onde certamente eles gostariam de ir. Mas nada diz mais do personagem de Jonah, doutor em Sociologia e prestes a se tornar professor, do que tentar ensinar ao irmão como, de fato, funciona a hierarquia no colégio – o que contradiz qualquer teoria do que seria uma verdadeira socialização, ou seja, assim como seu casamento, ele se mantém apenas pela base teórica, nunca enfrentando de fato a realidade. E Trier nunca esteve tão à vontade para mostrar seus elementos autorais, embora continue bastante pessimista no que diz respeito ao comportamento humano, ainda que não tanto quanto em Oslo, 31 de agosto, e consiga, por meio de uma montagem não linear em alguns momentos, fazer com que o espectador confronte diferentes momentos dos mesmos personagens, abrindo um leque de opções para que identifiquemos (ou não) os sentimentos deles.

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Estamos diante da antiga dificuldade de um pai solitário lidar com o filho adolescente, enquanto mantém um relacionamento secreto com sua professora, Hannah (Amy Ryan). Há uma sensação de nascimento, descoberta, autocontrole diante do outro e a morte ao fim de tudo que percorre cada imagem da obra de Trier, e aqui não é diferente. Mesmo momentos que poderiam ser leves (a visita dos irmãos a um campo de educação física escolar) se tornam introspectivos, ainda que nunca exagerados. Trier sabe extrair excelentes atuações de Eisenberg, Byrne e Druid, além de Huppert. Ela é a figura que simboliza um elo para o pai e os filhos, e todos eles querem ou se aproximar ou se afastar das mulheres – eles apenas não conseguem substituir o afeto materno. É exemplar a cena em que um dos irmãos se enxerga ao lado da mãe num espelho, e é possível ver nos braços dela as marcas de alguma bomba estilhaçada durante alguma cobertura jornalística. Jonah, principalmente, quer ser o esteio familiar que não consegue enxergar no pai, e seus diálogos com o irmão constituem esse momento particularmente interessante da obra de Trier. É sobre como os personagens parecem ser testemunhas de uma batalha quando, na verdade, estão inseridos numa, que é a própria compreensão de sua existência.

Louder than bombs, DIN/FRA/NOR, 2015 Diretor: Joachim Trier Elenco: Jesse Eisenberg, Devin Druid, Gabriel Byrne, Isabelle Huppert, Amy Ryan, Rachel Brosnahan, Megan Ketch, David Straitharn, Ruby Jerins Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier Fotografia: Jakob Ihre Trilha Sonora: Ola Fløttum  Produção: Albert Berger, Alexandre Mallet-Guy, Marc Turtletaub, Ron Yerxa, Suzanne Savoy, Thomas Robsahm Duração: 109 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Animal Kingdom / Arte France Cinéma / Beachside Films / Bona Fide Productions / Memento Films Production / Motlys / Nimbus Film Productions

 Cotação 4 estrelas e meia

Alice através do espelho (2016)

Por André Dick

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Os estúdios Walt Disney tiveram um primeiro semestre bastante lucrativo, com Mogli – O menino lobo, Zootopia e Capitão América – Guerra civil. Parece que o filme a ficar de fora desse grupo de sucesso será exatamente aquele que dá continuação a um dos maiores títulos da companhia desta década, Alice no país das maravilhas, de Tim Burton, que iniciava como uma jornada a um reino de encantamento e em busca da passagem ao universo adulto. Em Alice através do espelho, o diretor James Bobin (responsável pelos dois Muppets mais recentes) parece utilizar a mesma fórmula e o mesmo requinte visual de Burton. No entanto, desde o primeiro movimento, pode-se perceber algumas diferenças. Não apenas na bilheteria, que, pelo início, será muito inferior, acompanhada pelas acusações feitas a Johnny Depp por sua ex-esposa Amber Heard depois de uma separação tumultuada, mas pelo enfoque.
No primeiro Alice no país das maravilhas, a personagem central, depois de perseguir um coelho, acaba caindo num universo paralelo. Neste, ela inicia já como capitã de um navio, em meio a uma tormenta, fazendo o que sonhava. Depois de voltar para casa e ver que sua mãe, Helen Kingsleigh (Lindsay Duncan), está para vender o barco – a grande herança de seu pai – ao ex-noivo, Hamish (Leo Bill), ela ingressa, através de um espelho, seguindo uma larva, Absolem (Alan Rickman, a quem o filme é emotivamente dedicado), justamente de volta no País das Maravilhas.

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Lá, ela reencontra o Chapeleiro Maluco (Depp), a Rainha Branca (Anne Hathaway, novamente com um batom escuro contrastando com a pele pálida e a única visivelmente sem um papel definido) e os dois irmãos, Tweedledum e Tweedledee (Matt Lucas). Os cenários têm uma densidade pop muito forte como cores berrantes, mas nada que substitua um elemento soturno, que está no fundo das paisagens e dos personagens, como no primeiro. O Chapeleiro Maluco, nesse caso, é um Willy Wonka mais contido, melancólico, desta vez numa das atuações mais concentradas de Depp. Alice recebe um pedido dele: que encontre sua família desaparecida, em que o pai, Zanik Hightopp (Rhys Ifans), também faz chapéus. Para isso, Alice deve chegar ao Tempo (Sacha Baron Cohen), que tem relação com a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), aqui chamada Iracebeth, e parece controlar todos os relógios do mundo. No entanto, deve-se dizer que o que Alice mais procura é sua família, principalmente o pai já morto. Ao se refletir no desejo do Chapeleiro, ela passa a viajar pelo tempo.
Quando vemos as cenas de ação no primeiro, Tim Burton está na verdade querendo focalizar mais o aspecto dramático de seus personagens, ou seja, as relações de poder que surgem entre eles, e nesse sentido tornar uma fábula a princípio ingênua numa narrativa em forma de pesadelo. Essas características também o acompanhavam, de certo modo, em seus filmes mais soturnos, como a série Batman, Edward, mãos de tesoura e A lenda do cavaleiro sem cabeça, mas sempre com a presença do humor, capaz de atenuar alguma gravidade pretendida, sem abrir espaço mesmo para qualquer graça remetendo a jogos de palavras, Jaguadartes ou Humptys Dumptys. Neste segundo, o diretor Bobin está mais interessado numa narrativa em ritmo contínuo, sem quebras, e não trabalha tanto com o clima de pesadelo, embora o humor continue sendo uma parcela mal resolvida, mesmo com a presença de Baron Cohen. O diretor tem um senso considerável de manipulação de elementos fantásticos, com uma característica específica de comprimir as cenas em pequenos núcleos que vão se correspondendo uns com os outros.

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A questão é que Alice através do espelho esconde o que era mal resolvido no filme de Burton. Bobin oferece uma agilidade emotiva ao personagem central, também em razão de Mia Wasikowska ter crescido como atriz. Ela é uma especialista em viver personagens de época, a exemplo de Jane Eyre e Madame Bovary, assim como se provou excelente atriz de dramas contemporâneos e futuristas, como O duplo e Mapas para as estrelas, e mesmo num suspense falho, Segredos de sangue: aqui ela compõe uma Alice com a qual é possível se identificar. Há uma ressonância em sua atuação que consegue se equilibrar com o número de efeitos especiais e a história que faz referências a A invenção de Hugo Cabret, O Hobbit – A batalha dos cinco exércitos e De volta para o futuro 2. De modo geral, a história original de Lewis Carroll também dá oportunidade a Bobin fazer cenas que lembram um clássico infantojuvenil dos anos 80, A história sem fim, principalmente quando lida com as engrenagens do tempo e como se pode pará-lo, a fim de modificar as suas consequências. Trata-se de um elemento decisivo para compreender esse universo de Alice: não por acaso, ela, em determinado momento, se vê numa espécie de sanatório – como a personagem de Sombras da noite e parecendo estar em A colina escarlate – e perdendo seu sonho.
O filme trata de sonhos não realizados e de um passado que não pode ser realizado, mas, principalmente, da motivação em fazê-lo. Nessa linha, mais ainda do que o primeiro de Burton, um dos filmes mais irregulares de sua trajetória exitosa, Alice através do espelho focaliza o universo masculino como controlador, não apenas pela figura do Tempo e sim pela dos pais de Alice e do Chapeleiro: seguir a profissão paterna parece uma realização de sonhos. É este o elo principal que une os personagens principais. Do mesmo modo, é o que afasta a Rainha Vermelha de sua irmã: a aceitação dos pais.

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De maneira ampla, são temas comuns em filmes da Disney, porém existe aqui uma profusão de temas interessantes e mesclados, em razão também do roteiro de Linda Woolverton, responsável pelos de A bela e a fera O rei leão, e da montagem muito ágil de Andrew Weisblum, responsável por colaborar em O fantástico sr. Raposo e Moonrise Kingdom. E não se poderia deixar de comentar – sendo uma obra de fantasia – sobre o primor novamente dos figurinos, dos efeitos especiais e dos diálogos com obras de arte: os seguranças da Rainha Vermelha são como figuras do pintor Arcimboldo, compostos de alimentos. A máquina do tempo em que Alice viaja, chamada cronosfera, parece um globo terrestre em movimento e os anos que ela atravessa têm o formato de um mar tempestuoso, como se fosse seu próprio inconsciente projetado – e o gato Cheshire (Michael Scheen) se projeta numa das ondas. As cenas em que aparecem ponteiros de relógio gigantes e que devem ser saltados por Alice são também impressionantes, numa correspondência direta com Brazil – O filme, de Terry Gilliam. Também a imensa claraboia do sanatório lembra a cronosfera, mas apontando para um céu azul. E há robôs que assessoram o Tempo que remetem a O fantástico mundo de Oz, continuação do clássico feita nos anos 80. Como grande parte das peças de fantasia recentes igualmente contestadas, a exemplo de Peter Pan e Oz – Mágico e poderoso, Alice através do espelho se mantém muito pela nostalgia que pode ter ou não o espectador.

Alice through the looking glass, EUA, 2016 Diretor: James Bobin Elenco: Johnny Depp, Mia Wasikowska, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Sacha Baron Cohen, Rhys Ifans, Matt Lucas, Lindsay Duncan, Leo Bill, Geraldine James, Andrew Scott, Richard Armitage, Ed Speleers, Alan Rickman, Timothy Spall, Paul Whitehouse, Stephen Fry, Barbara Windsor, Michael Sheen, Matt Vogel Roteiro: Linda Woolverton Fotografia: Stuart Dryburgh Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 112 min. Produção: Jennifer Todd, Joe Roth, Suzanne Todd, Tim Burton Distribuidora: Disney Estúdio: Estúdio Shepperton

Cotação 4 estrelas