Melhores filmes de 2017

Por André Dick

O cinema de 2017 trouxe um bom número de filmes que marcaram o espectador. Não é um ano comum este em que tivemos no cinema mais um filme de Terrence Malick, assim como a volta de David Lynch em Twin Peaks.
Se as animações não fizeram o mesmo sucesso do ano passado e mesmo assim foram exitosas (Meu malvado favorito 3, LEGO Batman), inclusive aquelas mais de arthouse (A tartaruga vermelha, Minha vida de abobrinha), o gênero de super-heróis teve novas obras da Marvel e da DC.
Os blockbusters e a ficção científica, de modo geral, estiveram muito bem servidos, desde Logan, passando por Kong – A Ilha da CaveiraAlien: Covenant, Dunkirk, Blade Runner 2049, Valerian e a cidade dos mil planetas, até o existencialista Planeta dos macacos – A guerra. No fim do ano, Star Wars – Os últimos Jedi tentou provar que a franquia continua rendendo em termos de crítica e financeiros.
Se a juventude teve momentos de conflito em família (Quase 18), com a sexualidade (Thelma), ela também esteve na guerra (A longa caminhada de Billy Lynn, Frantz, Castelo de areia e Até o último homem) e tentando se adaptar a uma vida de roubos (Em ritmo de fuga, Tramps) ou à alta tecnologia (O círculo), assim como envolvida com o terrorismo (Nocturama). Também esteve na busca por seguidores religiosos, em Silêncio, e por fãs de música, em Patti Cake$.

O gênero do terror passou por uma revitalização com Corra!, A morte te dá parabéns, Raw, Ao cair da noite, Annabelle 2 e A cura, principalmente, com diferentes estilos e mesmo aplicando um bom humor, sendo que o maior sucesso desse campo foi It – A coisa, com seu grupo de crianças. Em ExtraordinárioO livro de Henry, também havia a amizade entre crianças e a descoberta do mundo adulto.
No cinema de ação, a mistura entre lutas e neons ficou explícita em Atômica e John Wick 2, mas nenhum deles parecia superar o sul-coreano A vilã.
O universo da família esteve bem representado pelos mais diversos filmes, com os objetivos mais múltiplos: Mãe!, Os Meyerowitz, O filme da minha vida, Logan Lucky, Primeiro, mataram o meu pai, O castelo de vidro, Fala comigo, Um homem chamado Ove, Como os nossos paisO mínimo para viver, O reino da beleza, Manchester à beira-mar, Mulheres do século 20 e Suburbicon.
E filmes falaram da solidão contemporânea com rara eficácia: Já não me sinto em casa nesse mundo, O mar de árvores, Una, A garota desconhecida, Certas mulheresMoonlightColossalO estado das coisas, Um limite entre nós e o belíssimo Columbus.

Se tivemos a mitologia de lendas inglesas em Rei Arthur – A lenda da espadaDeath note, Power Rangers e A vigilante do amanhã – Ghost in the shell transitaram pelo universo de adaptações de games e mangás orientais.
Algumas cinebiografias ajudaram a movimentar o gênero, daquele que fez posse de uma marca de lanches até uma primeira-dama afetada por uma perda histórica: Fome de poder, Estrelas além do tempo, Loving, Até o último homem, Maudie – Sua vida e sua arte, Regras não se aplicamAlém das palavras e Jackie.
A poesia esteve em discussão na época clássica, em Além das palavras (sobre Emily Dickinson), passando pelo momento atual em Paterson (um poeta motorista de ônibus) e pela autobiografia Poesia sem fim, além de estar registrada na vida de um cineasta no documentário David Lynch – A vida de um artista e na influência de uma música, vivida por Rooney Mara, por Rimbaud em De canção em canção.
Enquanto a história foi recontada por filmes como Primeiro, mataram o meu pai, passado no Camboja, mostrando mais uma vez o talento de Angelina Jolie na direção, o tema da imigração se fez presente no sensível O outro lado da esperança (da Finlândia) e o preconceito foi debatido explícita ou implicitamente em Terra selvagem, Uma mulher fantásticaA qualquer custo, Detroit em rebelião, Extraordinário e Bright. O tênis serviu para falar do movimento de mudança feminino em A guerra dos sexos e para tratar de lendas esportivas separadas pelo comportamento em Borg vs McEnroe.
Hong Sang-soo continuou sua filmografia metalinguística com Na praia à noite sozinha, e o canadense Denys Arcand regressou com O reino da beleza, mas é Chan wook-Park que fez uma adaptação ousada de um livro inglês em A criada. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne tiveram mais uma visão sobre a situação da Europa em A garota desconhecida, assim como Julia Docournau entregou um terror com estilo francês em Raw e François Ozon retratou a Segunda Guerra Mundial em Frantz. O chinês Zhang Yimou tentou estabelecer uma ponte entre os blockbusters da América do Norte e da Ásia em A grande muralha. E o grande sucesso de público e crítica do cinema brasileiro foi Bingo – O rei das manhãs.

Os filmes avaliados para as listas estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2017, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2016, seja (agora um diferencial em relação aos anos anteriores) nos cinemas, em VOD ou na Netflix. Não é mais possível avaliar como foi o ano apenas com base naquelas obras que chegaram às salas, principalmente porque várias de qualidade não estreiam por causa de filmes de menos qualidade. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e irão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta a seguir listas com filmes que quase entraram na lista dos 25 melhores, menções honrosas, apreciados, subestimados, apreciados em parte e decepções e/ou superestimados. Foi um grande ano cinematográfico.

Quase entraram entre os 25

Castelo de areia (Fernando Coimbra), Z – A cidade perdida (James Gray), Logan Lucky – Roubo em família (Steven Soderbergh), Lion – Uma jornada para casa (Garth Davis), O outro lado da esperança (Aki Kaurismäki), Ao cair da noite (Trey Edward Schults), Primeiro, mataram o meu pai (Angelina Jolie), Liga da Justiça (Zack Snyder), Fala comigo (Felipe Sholl), Patti Cake$ (Geremy Jasper), Maudie – Sua vida e sua arte (Aisling Walsh), A morte te dá parabéns (Cristopher B. Landon), Terra selvagem (Taylor Sheridan), A longa caminhada de Billy Lynn (Ang Lee), Regras não se aplicam (Warren Beatty), O reino da beleza (Denys Arcand), Loving (Jeff Nichols), Uma mulher fantástica (Sebastián Lelio)

Menções honrosas

O castelo de vidro (Destin Cretton), Bright (David Ayer), O mar de árvores (Gus Van Sant), John Wick – Um novo dia para matar (Chad Stahelski), As duas Irenes (Fabio Meira), Um homem chamado Ove (Hannes Holm), Na vertical (Alain Guiraudie), Lucky (John Carroll Lynch), Até o último homem (Mel Gibson), Homem-Aranha – De volta ao lar (Jon Watts), Na praia à noite sozinha (Hong Sang-soo), Eu já não me sinto em casa nesse mundo (Macon Blair), Annabelle 2 – A criação do mal (David F. Sandberg), Tramps (Adam Leon), Quase 18 (Kelly Fremon Craig), Guardiões da galáxia Vol. 2 (James Gunn), Buster’s mal heart (Sarah Adina Smith), Thelma (Joachim Trier), Uma beleza fantástica (Simon Aboud), Mulheres do século 20 (Mike Mills), A guerra dos sexos (Jonathan Dayton, Valerie Faris), Gaga: five foot two (Chris Moukarbel), Colossal (Nacho Vigalondo), Spielberg (Susan Lacy), O mínimo para viver (Marti Noxon), Manchester à beira-mar (Kenneth Lonergan), Lovesong (So Young Kim), O invasor americano (Michael Moore), Top model (Mads Matthiesen), Beleza colateral (David Frankel), Boneco de neve (Tomas Alfredson), Suburbicon Bem-vindos ao paraíso (George Clooney), A qualquer custo (David Mackenzie), Una (Benedict Andrews), Certas mulheres (Kelly Reichardt), Star Wars – Os últimos Jedi (Rian Johnson), Wilson (Craig Johnson), Eu, Daniel Blake (Ken Loach), Free fire – O tiroteio (Ben Wheatley)

Apreciados

Nossas noites (Ritesh Batra), Detroit em rebelião (Kathryn Bigelow), Atômica (David Leitch), Doentes de amor (Michael Showalter), Onde está Segunda? (Tommy Wirkola), Kong – A ilha da Caveira (Jordan Vogt-Roberts), A garota desconhecida (Jean-Pierre e Luc Dardenne), Logan (James Mangold), Raw (Julia Docournau), Você e os seus (Hong Sang-soo), T2: Trainspotting (Danny Boyle), Power Rangers (Dean Israelite), Fome de poder (John Lee Hancock), A vilã (Jung Byung-Gil), O estado das coisas (Mike White), Frantz (François Ozon), Além das palavras (Terence Davies), Planetarium (Rebecca Zlotowski), Rakka (Neil Blomkamp), Mulher-Maravilha (Patty Jenkins), Lady Macbeth (William Oldroyd), A tartaruga vermelha (Michel Dudok de Wit), Um limite entre nós (Denzel Washington), Aliados (Robert Zemeckis), Estrelas além do tempo (Theodore Melfi), Borg vs McEnroe (Janus Metz Pedersen), Minha vida de abobrinha (Claude Barras), Extraordinário (Stephen Chobsky), O rei do show (Michael Gracey)

Subestimados

Sandy Wexler (Steven Brill), Vida (Daniel Espinosa),  Transformers – O último cavaleiro (Michael Bay), War machine (David Michôd), A vigilante do amanhã – Ghost in the shell (Rupert Sanders), Carros 3 (Brian Fee), Rei Arthur – A lenda da espada (Guy Ritchie), O livro de Henry (Colin Trevorrow), A grande muralha (Zhang Yimou), O círculo (James Ponsoldt), Piratas do Caribe – A vingança de Salazar (Joachim Rønning, Espen Sandberg)

Apreciados em parte

Assassin’s creed (Justin Kurzel), Como nossos pais (Laís Bodanzky), David Lynch A vida de um artista (Jon Nguyen, Rick Barnes, Olivia Neergaard-Holm), Armas na mesa (John Madden), Thor: Ragnarok (Taika Waititi), Feito na América (Doug Liman), LEGO Batman – O filme (Chris McKay), Death note (Adam Wingard), Passageiros (Morter Tyldum), Bingo – O rei das manhãs (Daniel Rezende), Depois daquela montanha (Hany Abu-Assad), Vizinhos nada secretos (Greg Mottola)

Decepções e/ou superestimados

Dunkirk (Cristopher Nolan), It – A coisa (Andy Muschietti), A bela e a fera (Bill Condon), Toni Erdmann (Maren Ade), Fragmentado (M. Night Shyamalan), Jogo perigoso (Mike Flanagan), Okja (Joon-Ho Bong), Sete minutos depois da meia-noite (Juan Antonio Bayona), Bom comportamento (Ben Safdie, Josh Safdie), Shimmer Lake (Oren Uziel), Nocturama (Bertrand Bonello), Sala verde (Jeremy Saulnier), Marjorie prime (Michael Almereyda), Minha prima Rachel (Roger Michell), Roda gigante (Woody Allen), A morte de Luís XIV (Albert Serra), Strange weather (Katherine Dieckmann)

Abaixo, a lista dos 25 melhores filmes de 2017 segundo o Cinematographe. Agradeço pela companhia durante o ano e desejo um ótimo 2018.

Com uma trilha sonora esplendorosa de Alexandre Desplat, apanhando algumas notas de Jerry Godsmith da antiga série de cinema Star Trek, e fotografia notável de Thierry Arbogast, arquitetando um festival de cores, Valerian se move num ritmo contínuo, mas sem parecer excessivo nesse ponto. Luc Besson tem um talento notável aqui para compor um quadro de imagens coloridas sem parecer kitsch, acertando na escolha do par central: DeHaan e Delevingne possuem uma química em todas as cenas nas quais aparecem juntos. Talvez mais do que todos os acertos técnicos ou de escolha de elenco, fica visível o respeito que Besson tem por esse universo de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, do qual é visivelmente um admirador.

A obra de Olivier Assayas, apostando no drama em que é especialista, embora às vezes irregular, não deixa de ser um thriller disfarçado de Hitchcock por meio da paisagem parisiense, com toques de Leos Carax e seu Holy Motors, além de uma interessante analogia final com Oslo, 31 de agosto, por meio da presença do ator Anders Danielsen Lie. Assim como na obra de Carax, a tecnologia parece deixar o cinema “antigo” para trás: a sensação, aqui, é que Assayas está tratando do cinema digital em primeiro lugar por meio de uma trama instigante. Há uma cena que define isso: quando Maureen, numa bela interpretação de Kristen Stewart, está diante de um acontecimento que mudará sua trajetória, há barulhos e luzes distantes que remetem a uma sala de cinema. O que estará acontecendo lá? Para Assayas, está acontecendo essa procura por sua própria identidade. É estranho, diferente e assustador, como Personal shopper.

Mais do que aterrorizar, Amat Escalante pretende estabelecer ligações entre um ser alienígena e personagens no interior do México. Com a ajuda da fotografia de Manuel Alberto Claro, do Chile, ele traça um mapa dessa situação, nunca se aproximando demais da ficção científica nem abdicando de uma influência surrealista. O melhor em seu cinema, desde Heli, é sua facilidade em construir uma narrativa antilinear que não soa desesperada em ser arthouse. Escalante lida com cenas de nudez sem que elas ultrapassem um determinado limite ou configurem um exagero, mas de forma quase casual. Alguns tendem a aproximar a atmosfera de A região selvagem daquela de Stalker; eu diria que ela está mais próxima de Twin Peaks, com sua floresta no meio da neblina e uma aparente tranquilidade nunca solucionada. Escalante é mais um grande nome do cinema mexicano, ao lado de Iñárritu, Cuarón, Reygadas e Del Toro.

Corra! foi lançado no Festival de Sundance e, a partir de um orçamento irrisório de 4,5 milhões, arrecadou 254. O sucesso se deve certamente à sua mescla entre suspense, terror, crítica social e toques de comédia que parecem deslocados, mas que no conjunto fortalecem o resultado. É um filme que prende a atenção do início ao fim, no entanto o espectador necessita de uma certa suspensão da narrativa mais comum do gênero, pois Corra! trabalha num campo em que Richard Kelly, de A caixa sobretudo, é um referencial. Desde a década de 70, o terror normalmente esteve personificado em ameaças indestrutíveis, como Freddy Krueger, Michael Myers e Jason, além de outros derivados; em Corra! esse medo parece se basear no comportamento da humanidade e de como a vítima reage a ele.

Uma espécie de testamento de sua obra, Alejandro Jodorowsky, autor de clássicos como El Topo e Santa Sangre, faz uma homenagem à sua origem como poeta, intercalando imagens de infância e da sua entrada na vida adulta, cercada de figuras estranhas. Mais do que uma das influências de David Lynch, por exemplo, Jodorowsky é um criador de imagens inesquecíveis, o que faz novamente aqui com auxílio da fotografia de Cristopher Doyle, que trabalha frequentemente com Wong Kar-Wai. A mescla de cores e uma narrativa surrealista conduz o filme a um espaçamento em que o espectador não sabe exatamente o que está acontecendo ao certo, mas sabe certamente que é grande cinema.

Alien: Covenant expande com qualidade evidente as ideias de Prometheus, sem ficar restrito ao universo simplesmente de monstros alienígenas; pode-se dizer que Ridley Scott ingressa numa fase em que o choque, como mostra ao final de O conselheiro do crime, atualiza o heroísmo dos anos 70 e 80. Não assusta como Vida, inspirado em Alien, mas é mais denso, e que alguns espectadores não queiram esse caminho mostra o quanto Scott está no caminho certo: do acréscimo substancial à sua criação. Do mesmo modo, Katherine Waterston, na figura de Daniels, configura uma espécie de libertadora de uma certa visão masculina, como Ripley. No entanto, enquanto havia fúria em Ripley, Waterston atenua seu enfrentamento com um receio plausível. Ela sofre ao ter de enfrentar a situação, não é uma guerreira como Ripley – e nisso Scott desenha um arco diferente e interessante da produção de Cameron principalmente, na qual Sigourney Weaver construía uma versão feminina de combate. No final, apesar da montagem excessivamente rápida, Scott continua exímio em filmar cenas de ação, com a fotografia impecável de Dariusz Wolski.

Além de Pablo Larraín extrair grandes atuações de todo o elenco, o que mais chama atenção, contudo, é a maneira como o cineasta transmite as sensações de cada personagem. Há um sentido de solidão diante do inesperado, uma angústia que não consegue se desprender do corpo e puxa o enfrentamento de toda uma existência. Jackie, depois do assassinato de JFK, vê toda sua vida se transformar em horas, e o que lhe resta é tentar projetar imediatamente o que pode acontecer a seguir. O roteiro de Noah Oppenheim (o mesmo, surpreendentemente, de Maze Runner) é eficaz na maneira como liga passado e presente (o da entrevista) e como deixa algumas lacunas para o espectador preencher, sobretudo quando Jacqueline precisa preparar o enterro do marido. O político, que existia por exemplo em JFK, de Oliver Stone, acaba sendo diluído em meio a comportamentos de bastidores que oscilam entre o drama implacável e a simples necessidade de esquecer o que aconteceu.

Os atores que representam Cherrie nas três fases da vida apresentam características que levam a crer que parecem realmente a mesma pessoa, e este é outro acerto de Barry Jenkins. O personagem acaba tendo uma ênfase que não se dá por meio dos diálogos (eles quase inexistem de sua parte) e Jenkins dá uma espécie de transcendência a momentos focados do cotidiano. Durante quase todo a narrativa, ele tem receio justamente de se enxergar, de saber o que realmente deseja em relação ao que se passa à sua volta, e isso se mostra ainda mais quando Jenkins lança a analogia entre as cores de sequências diferentes para interligá-las. Se para alguns isso pode soar apenas visualmente interessante, estilo sobre a substância, é preciso dizer que ele realmente consegue efetuar um desenho para cada símbolo que vai evocando, principalmente mais ao final, de maneira comovente. Essas cenas dispersas parecem banhadas literalmente pela luz do luar, assim como o momento definidor para o sentimento de Cherry se dá à noite em frente ao mar. É uma obra absolutamente comovente, sem fazer nenhuma força para que isso aconteça.

O mais interessante talvez seja como Selton Mello vai costurando memórias e narrações internas com o cenário ao redor: as viagens de motocicleta por estradas desertas evocam uma solidão estendida aos personagens. Se o diálogo com o cinema de Fellini é evidente por meio da metalinguagem e da maneira como se desperta a paixão pelo cinema, os arredores da casa de campo onde Tony e sua mãe vivem, com seus varais de roupa e uma longa fileira de árvores distante remete ao melhor Andrei Tarkosky de O espelho e Nostalgia, com sua sensação de isolamento de tudo, o que se sente igualmente na ficção científica do cineasta russo Solaris. Conhecendo algumas dessas paisagens, arrisco dizer que Selton Mello as mostra como talvez nenhum cineasta brasileiro antes dele (lembrei algumas vezes do subestimado e semiesquecido O quatrilho, mas aqui uma dinâmica narrativa maior está em jogo). Isso não é pouco, visto a qualidade de algumas obras.

A trilha sonora de Michael Giacchino fornece a introversão e a generosidade que o roteiro do diretor Matt Reeves e Mark Bombak repassa aos espectadores por meio de pouquíssimos diálogos. O filme passa sensações ao invés de um sentimento de aventura: a maneira como César precisa enfrentar o Coronel, o tratamento dado aos seus companheiros símios na construção do muro, o sentimento de ter uma menina órfã depois de causar a ela o que ele mesmo passou em sua vida. Todos esses temas se misturam com uma paisagem invernal, em mudança (o diretor de fotografia Michael Seresin acerta na paleta de cores escolhida), e os personagens em esconderijos ou presos, esperando o anúncio de uma rebelião que possa trazê-los de volta à vida. Planeta dos macacos – A guerra é um filme muito denso e mesmo profundo, com uma segurança técnica irretocável e um senso de escala capaz de proporcionar às cenas de ação uma grandiosidade especial.

Nicole Kidman está num de seus melhores momentos (embora Geraldine Page faça muito bem o papel no original de Clint Eastwood, muito inferior a este), Kirsten Dunst é minuciosa nos gestos de uma jovem melancólica, Colin Farrell é notável, entre uma certa ingenuidade e uma tentativa de manipular, e Elle Fanning acerta no tom de fingimento (o único senão é sua pouca presença, ao contrário de sua personagem na versão de 1971). Por esses elementos, entende-se que Sofia Coppola volta a seus melhores momentos, de Maria Antonieta e Um lugar qualquer, mas com um desenvolvimento ainda maior de temas discretos, que não se apresentam para o espectador com uma necessidade de convencê-lo sobre determinadas abordagens. Para Sofia, o mistério da humanidade está escondido no bosque como o soldado, à espera de atendimento. Não parece por acaso a maneira como a diretora utiliza a névoa do amanhecer como uma espécie de convite a tentar desvendar esse mistério insondável.

Gore Verbinski lida com suas ideias de maneira às vezes subjetiva, mas que conferem poder de fôlego, mesmo no final do terceiro ato, quando tudo é impulsionado a um gênero que mais parece dialogar com as fitas de terror de Roger Corman, quase se transformando num exemplo de cinema dos anos 50 sob o olhar contemporâneo. Pode-se dizer que, com esse intuito, Verbinski desenha um cinema que parte dos anos 40 e chega aos dias atuais, utilizando molduras já usadas com outras verdadeiramente inovadoras, sempre inovando com um design de produção no qual mergulha literalmente tanto os personagens quanto os espectadores. Há um senso de realidade permanente nas passagens do lugar sendo descobertas e é como se fossem pinturas vivas.

Darren Aronofksy destrói o conceito literário de autor e de si mesmo – à medida que escreve o roteiro. A metáfora de mãe! é uma sátira ao próprio Aronofsky: importa, para ele, não a personagem, e sim Jennifer Lawrence, que está, por sinal, excelente, no melhor momento de sua carreira depois de Joy, lembrando muito a performance de Laura Dern em Império dos sonhos. Sem a musa não há obra, não há vida. Mas, no final, pode-se trocá-la: é preciso um novo escrito. Sim, o terceiro ato é difícil de ser visto, especialmente uma cena desagradável, contudo é ele que sintetiza a estranheza.
Diante disso, estamos também lançados num filme sem gênero demarcado. O que mãe!, além de uma adaptação de ideias de A república de Platão, poderia ser? Um drama? Um suspense? Um terror? Certamente, um híbrido de todos esses gêneros. E mãe!, mesmo com seu psicologismo por vezes nada discreto, mas ainda interessante, ainda consegue ser um filme pop, ou seja, acessível, exercendo um magnetismo próprio e fascinante de um acabado cult movie. Poucos diretores conseguiriam isso, e Aronofsky é um deles.

Especialista em cenas de ação elaboradas, como mostrou principalmente em Chumbo grosso, aqui Edgar Wright consegue ainda mais. Inspirado claramente pelo referido DriveAtração perigosa, de Ben Affleck, e Caçadores de emoções, Wright torna o arsenal de cores dos cenários num pacote de amplo apelo popular, sem facilitar a narrativa. O diretor utiliza esse apoio de maneira eficiente em várias sequências, fazendo um repertório capaz de desenhar ainda melhor seu personagem central e inserir o espectador no ritmo da narrativa, basicamente sobre o sonho de um jovem em adentrar na vida adulta. Como em Scott Pilgrim, não há gênero definido aqui, apenas diversão inteligente garantida.

O diretor estreante Kogonada mescla seus personagens aos lugares que visitam, e a maneira como eles os filma também em casa, com seus reflexos em espelhos, mostra um grande potencial narrativo. Poderia resultar num cinema excessivamente calculado, restrito a imagens e simbologias, porém há uma emoção que abastece internamente a história. Mais ainda quando Casey (Haley Lu Richardson), em determinado momento, fala de seus sentimentos e a câmera, que filmava um prédio, de costas, a mostra de frente, mas sem revelar o que está dizendo. Nesse sentido, humanidade e arquitetura se conjugam no mesmo tempo. Em outro momento, a personagem central liga para uma pessoa e a observa do lado de fora em razão de o prédio ser todo envidraçado: o olhar invade a arquitetura, mas nem por isso há uma aproximação maior entre as pessoas. Outro momento que chama a atenção é quando, sentindo-se um tanto perdido, Jin observa a distância um prédio abandonado: é como se o prédio representasse exatamente como ele se sente.

Noah Baumbach consegue conciliar o ambiente urbano de Nova York, pano de fundo para muitos de seus filmes com um ambiente mais bucólico, de interior, como se a intimidade dos personagens sempre estivesse conciliada com os cenários. Algumas passagens podem parecer desnecessariamente explicativas, no entanto conservam sempre um tom familiar capaz de tornar o material de Baumbach próximo do espectador. Os personagens, mesmo adultos, adotam algumas vezes um comportamento infantil, mas o roteiro não torna isso superficial, tentando minimizar a dimensão deles, e sim os torna mais complexos. Na tentativa de não reprisarem o passado, eles olham para a geração futura com a preocupação de fazerem o certo: não há também um sentido de competição novamente em cena.

O filme lança os homens no lado oposto das mulheres: para Chan-wook Park, elas assumem seus papéis, enquanto eles fingem assumi-los e, quando o fazem, nunca saem de seus esconderijos. Nesse sentido, seu objetivo é psicológico em vários sentidos, e absolutamente simétrico em suas escolhas. Um drama nos moldes vitorianos transportado para o cenário asiático, com toques de um thriller e sobre a violência subjetiva, A criada também é um filme de costumes excêntricos com tendência ao erótico em algumas cenas belissimamente filmadas. É inevitável, por sua temática e cenas ousadas, lembrar do francês Azul é a cor mais quente, que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013. De qualquer modo, Park, ao contrário de Kechiche, não filma essas cenas como semidocumentais: ele adota mais a beleza plástica de cores e gestos de Oshima em O império dos sentidos.

Como A separação e mesmo À procura de Elly, que tinha uma primeira metade esplendorosa para uma segunda de menos impacto, O apartamento joga com o sentimento do espectador de modo a fazê-lo entender os sentimentos de vingança e de perdão em igual sintonia. Sabemos por que a raiva transborda e entendemos quando ela deixa de ter efeito, quando as pessoas se desnudam diante de um acontecimento e se mostram simplesmente pelo que são. Vencedor dos prêmios de melhor roteiro e ator em Cannes, O apartamento investe numa narrativa situada entre o universo iraniano e a peça de origem norte-americana de Miller, instituindo um paralelo entre os personagens representados e os da realidade, assim como o belo cenário teatral cria um contraste com o apartamento real cheio de rachaduras e ainda não habitado por completo, à medida que o casal deseja sair dele.

Claro que, por todo seu contexto, sua publicidade, Silêncio trata da fé do ser humano: quando vamos ao filme, porém, Martin Scorsese lança um olhar de que a condição da fé passa pela materialidade, tanto que os personagens cristãos são obrigados a enfrentarem símbolos, neste caso cruzes ou a imagem de Cristo num molde de metal que eles precisam desrespeitar ou não. Vários filmes de Scorsese tem esse conflito religioso como pano de fundo – como o subestimado Vivendo no limite, sobre um motorista de ambulância, Gangues de Nova York, permeado pela violência, ou ainda Cabo do medo –, e obviamente ele não está doutrinando o espectador e sim mostrando que o discurso está ligado mais a símbolos. A pergunta que Scorsese lança é: podemos prendê-los e ameaçá-los de morte?

Quase não há mais obras sobre gângsters e este especificamente traz uma mistura de Os intocáveisDália negra e Dick Tracy (os tiroteios são filmados com uma precisão irretocável), além de Inimigos públicos, de Michael Mann, principalmente na maneira como Ben Affleck apresenta seus personagens. A reconstituição fina oferecida pelo filme não é menos atrativa do que sua narrativa desenhada com recursos mínimos a partir do romance de Dennis Lehane. Não há o mesmo nervosismo urbano dos primeiros filmes de Affleck, justamente pela atmosfera, e sim uma frieza impactante nas entrelinhas, acrescentada pela narração esporádica de Coughlin. Também não há nenhum humor aqui: esta é uma tentativa de empregar o mesmo clima das peças de gângsters dos anos 40 e 50. Talvez seja ainda mais: Affleck mostra como os gângsters estão presos a um momento histórico e a um comportamento que apenas pretende flertar com a violência, sem ter nenhuma ideia do que ela acarreta.

Quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades. Nesse sentido, Damien Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

A maneira como o diretor Jim Jarmusch mostra os poemas criados pelo motorista de ônibus (criações de Jarmusch e do poeta Ron Padgett) vai se mesclando ao seu dia a dia repetitivo, e Driver tem a melhor atuação de sua trajetória, depois de viver o vilão Kylo Ren do Star Wars de Abrams, mostrando um crescimento desde os filmes realizados com Baumbach: fazendo um homem tranquilo e gentil, trata-se da liderança do filme e conduz tudo com rara eficácia. Ele se sente gentil, contudo não de maneira simplista, e generoso, sem aparentar um exagero. Num determinado momento decisivo, ele olha para a capa de um de seus livros preferidos, imaginando possivelmente seu poema junto dele. Em outro, ele visualiza o nome de uma marca de fósforos, Ohio Blue Tip, gravado na caixinha, e começa a selecionar a partir dessa imagem palavras para um poema. As palavras e os versos são retratados como parte de um mesmo ciclo: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, o volante e a biblioteca; tudo recomeça novamente a partir da imaginação.

Se o original de Ridley Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K (Ryan Gosling). Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa, outra assinada por Denis Villeneuve.

De canção em canção requer novas visualizações para se obter mais das camadas que Terrence Malick entrega. Talvez seja melhor assisti-lo como um conjunto de peças que vão se encaixando mais por meio da sensação visual e dos temas enfocados e pelas atuações, não se dando tanta importância à ordem em que isso acontece: melhor seria acompanhar os trajetos indefinidos dos pássaros no céu, mostrados ao longo de todo o filme, em momentos diferentes. Como a vida, Malick não esclarece onde as relações começam ou terminam: é a própria viagem que se faz o importante. Os personagens conturbados necessitam apenas de uma ligação humana para darem sentido ao que vivem. O que se tem é mais um dos grandes momentos do cinema, uma amostra de como tornar um filme numa verdadeira experiência, muito em razão novamente da arte conjunta de Malick e Lubezki.

Este é considerado um “show de TV”, sobretudo porque é dividido em episódios. Mas Decálogo, de Krzysztof Kieślowski, também era dividido em episódios de TV e muitos o elegem como melhor filme dos anos 80. Twin Peaks é um experimento cinematográfico que apenas um canal de TV quis bancar, nos tempos modernos. Quem quiser o considera uma série de TV, mas, como diz Lynch, pode ser um filme de 18 horas, uma continuação direta de Twin Peaks – Fire walk with me (1992) e de Império dos sonhos, com o anjo de Laura Palmer pairando sobre a pequena cidade na divisa com o Canadá, em meio a visões de Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e tentativas do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) de voltar ao bom café. O diretor, o elenco, a fotografia, a trilha sonora e o design de produção são de artistas renomados do cinema. Twin Peaks é cinema que não chegou à tela grande – como várias grandes obras hoje. Das suas 18 horas, ao menos 10 são algumas das maiores peças audiovisuais da década. Da sala vermelha de Lynch à estrada perdida de Hitchcock, também é a história do cinema sendo recontada, passando pelo extraordinário momento em que o destino de Laura é selado. Neste momento, o cinema passa a não ser apenas cinema.

Anúncios

Melhores de 2017 (diretores, atores, atrizes… e categorias técnicas)

Por André Dick

Cinematographe apresenta, a seguir, listas dos cinco melhores nas categorias principais (diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, elenco, roteiro original e roteiro adaptado) e técnicas (fotografia, trilha sonora, montagem, design de produção, figurino, maquiagem, efeitos visuais e efeitos sonoros) de filmes disponibilizados comercialmente em diferentes plataformas no Brasil ao longo de 2017. Não há, nelas, ordem de preferência. O próximo post apresentará os melhores filmes do ano.

Melhor diretor

Jim Jarmusch (Paterson), Denis Villeneuve (Blade Runner 2049), Damien Chazelle (La La Land), Terrence Malick (De canção em canção), David Lynch (Twin Peaks – O retorno)

Melhor ator

Andrew Garfield (Até o ultimo homem), Adam Sandler (Os Meyerowitz – Família não se escolhe), Joel Edgerton (Loving), Ryan Gosling (La La Land), Kyle MacLachlan (Twin Peaks – O retorno)

Melhor atriz

Jennifer Lawrence (mãe!), Natalie Portman (Jackie), Sareum Srey Moch (Primeiro, mataram o meu pai), Rooney Mara (Una), Danielle Macdonald (Patty Cake$)

Melhor ator coadjuvante

Ben Stiller (Os Meyerowitz – Família não se escolhe), Dev Patel (Lion – Uma jornada para casa), Garrett Hedlund (A longa jornada de Billy Lynn), Trevante Rhodes (Moonlight – Sob a luz do luar), Miguel Ferrer (Twin Peaks – O retorno)

Melhor atriz coadjuvante

Bridget Everett (Patty Cake$), Naomi Watts (Twin Peaks – O retorno), Lily Gladstone (Certas mulheres), Izabela Vidovic (Extraordinário), Greta Gerwig (Mulheres do século 20)

Melhor elenco

Os Meyerowitz – Família não se escolhe, De canção em canção, Twin Peaks – O retorno, Silêncio, O estranho que nós amamos

Melhor roteiro original

Kogonada (Columbus), Jim Jarmusch (Paterson), Noah Baumbach (Os Meyerowitz – Família não se escolhe), Jordan Peele (Corra!), Mike Mills (Mulheres do século 20)

Melhor roteiro adaptado

Martin Scorsese e Jay Cocks, baseado em romance de Shūsaku Endō (Silêncio), Loung Ung e Angelina Jolie, baseados em romance de Loung Ung (Primeiro, mataram o meu pai), Selton Mello e Marcelo Vindicato, baseados em romance de Antonio Skármeta (O filme da minha vida), Barry Jenkins, baseado em peça teatral de Tarell Alvin McCraney (Moonlight – Sob a luz do luar), Chan-wook Park e Chung Seo-Kyung, baseados em romance de Sarah Waters (A criada)

Melhor fotografia

Roger Deakins (Blade Runner 2049), Chung Chung-hoon (A criada), Linus Sandgren (La La Land), Emmanuel Lubezki (De canção em canção), Christopher Doyle (Poesia sem fim)

Melhor trilha sonora

Mica Levi (Jackie), Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (Blade Runner 2049), Justin Hurwitz (La La Land), Alexandre Desplat (Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso), Angelo Badalamenti (Twin Peaks – O retorno)

Melhor montagem

Jonathan Amos e Paul Machliss (Em ritmo de fuga), Tom Cross (La La Land), Joe Walker (Blade Runner 2049), Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase (De canção em canção), Sebastián Sepúlveda (Jackie)

Melhor design de produção

Dennis Gassner (Blade Runner 2049), Seong-hie Ryu (A criada), Eve Stewart (A cura), David Wasco (La La Land), Hugues Tissandier (Valerian e a cidade dos mil planetas)

Melhor figurino

Jacqueline West (A lei da noite), Pascale Montandon-Jodorowsky (Poesia sem fim), Sang-gyeong Jo (A criada), Madeline Fontaine (Jackie), Dante Ferretti (Silêncio)

Melhor maquiagem

BrightValerian e a cidade dos mil planetas, Star Wars – Os últimos Jedi, Extraordinário, Guardiões da galáxia Vol. 2

Melhores efeitos visuais

Blade Runner 2049, Alien: CovenantStar Wars – Os últimos JediValerian e a cidade dos mil planetasLiga da Justiça

Melhores efeitos sonoros

Blade Runner 2049, Alien: CovenantStar Wars – Os últimos JediDunkirkLiga da Justiça

Extraordinário (2017)

Por André Dick

Conhecido por escrever o romance-diário As vantagens de ser invisível e adaptá-lo para o cinema, também à frente da direção, Stephen Chbosky era o diretor ideal para Extraordinário. A partir de outro romance, um best-seller escrito por R. J. Palacio, Chbosky mostra os passos de August “Auggie” Pullmann, que possui um problema raro que afeta sua face, “disostose mandibulofacial”. Depois de várias cirurgias, ele estudou em sua casa, com aulas da própria mãe, Isabel (Julia Roberts). No entanto, antes do ensino médio, Isabel e seu marido, Nate (Owen Wilson), o matriculam numa escola particular.
A experiência de um novo mundo se descortina para August. No primeiro dia, ele é acompanhado por três futuros colegas, entre eles Jack Will (Noah Jupe). Depois, ele é ajudado pelo diretor Tushman (Mandy Patinkin) e pelo professor de inglês Sr. Browne (Daveed Diggs) a enfrentar o bullying de Julian (Bryce Gheisar) e seus amigos. Toda essa parte lembra muito As vantagens de ser invisível, que tratava de um adolescente solitário, com problemas para se enturmar e visivelmente desconfortável no colégio, que fazia amizade apenas com um professor (Paul Rudd).

Chbosky também se concentra na rotina de Olivia, ou “Via”, a irmã de Auggie, que se matricula numa peça de teatro, onde conhece um rapaz, Justin (Nadji Jeter), depois que sua amiga, Miranda (Danielle Rose Russell) passa a ignorá-la. Ela não tem vergonha do irmão, mas se sente um pouco feliz por ser colocada sempre em segundo plano pelos pais, principalmente a mãe, que desistiu de sua carreira para cuidar do filho. Chbosky, com o auxílio da ótima atuação de Izabela Vidovic, como Olivia, tira um pouco o foco do personagem central e faz com que uma coadjuvante cresça em importância para a narrativa. Nesse sentido, lamenta-se que, mesmo terno, o personagem da mãe não se destaque como poderia, e Julia Roberts entrega ainda assim uma bela atuação, e o do pai é pouco aproveitado, mesmo com o sempre interessado Owen Wilson.

Para um filme que mostra uma criança com problema de ser aceita socialmente, Chbosky é muito sensível e tenta contrabalançar realidade e fantasia. O menino é fã de Star Wars e várias vezes se enxerga como se Chewbacca estivesse chegando ao colégio. Trata-se de uma resolução talvez simplista para o problema, mas, ao mesmo tempo, toca o espectador. Sua admiração também pela ciência – sintetizada pelo fato de querer esconder seu rosto usando um capacete de astronauta – funciona em vários pontos, interligando-o a outros personagens. Do mesmo modo, há uma lembrança cortante de Via da sua avó (feita por Sonia Braga) diante de uma praia deserta que sintetiza mais o personagem do que todas as suas situações.
Talvez o filme que mais tenha contato com Extraordinário seja o belíssimo Marcas do destino, em que Eric Stoltz fazia um jovem, Roy L. Dennis, com uma doença que o fazia se parecer com o “homem elefante” de Lynch. Lá, Bogdanovich equilibrava as atuações de Stoltz e Cher, como sua mãe, com rara eficácia. Em Extraordinário, Chbosky toca em alguns pontos sensíveis quando mostra diálogos entre Auggie e sua mãe, e a química entre Tremblay e Roberts é comovente.

Depois de O quarto de Jack, pelo qual merecia uma indicação ao Oscar, Tremblay aparece sob uma maquiagem muito bem feita, mas, quando precisa realçar pontos sensíveis a seu personagem, demonstra a competência que já havia repetido este ano no curioso O livro de Henry. Ele ganha uma companhia exitosa de Vidovic e Jupe, ambos muito bem, servindo como acréscimos substanciais à sua história. Apenas se lamenta que, ao contrário do que mostra em As vantagens de ser invisível, Chbosky evita a complexidade da história e prefere estabelecer pontos entre os personagens com uma humanidade que parece por vezes encaixada demais para agradar à plateia. Seu roteiro para A bela e a fera deste ano já tinha esse problema. Isso, por um lado, não prejudica Extraordinário, uma vez que sua narrativa continua fluida, por outro lado concede certo desapontamento por não se ver esses personagens e suas inter-relações exatamente desenvolvidas. Ainda assim, seu entusiasmo diante da vida contagia o espectador.

Wonder, EUA, 2017 Diretor: Stephen Chbosky Elenco: Julia Roberts, Owen Wilson, Jacob Tremblay, Mandy Patinkin, Noah Juper Daveed Diggs, Nadji Jeter, Danielle Rose Russell, Sonia Braga Roteiro: Jack Thorne, Steve Conrad, Stephen Chbosky Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Fotografia: Don Burgess Produção: Michael Beugg, Dan Clark, David Hoberman, Todd Lieberman Duração: 113 min. Estúdio: Lionsgate, Mandeville Films, Participant Media, Walden Media, TIK Films Distribuidora: Lionsgate

Bom comportamento (2017)

Por André Dick

Desde sua estreia no Festival de Cannes, Bom comportamento gerava grande expectativa, principalmente pela atuação de Robert Pattinson, cotado ao prêmio de melhor ator antes de serem revelados os vencedores. Ele interpreta Constantine Nikas, que tenta tirar seu irmão Connie (Ben Safdie, um dos diretores do filme, ao lado de Joshua Safdie) da terapia para conduzi-lo a um assalto a banco no Queens. Sua namorada, Corrie (Jennifer Jason Leigh), é chamada a tentar ajudá-lo numa situação que se configura arriscada. Seu interesse em ajudar o irmão é genuíno, mesmo que desperte um conflito com a avó, lembrando, num outro escopo, a relação dos irmãos de Rain Man.
Depois de uma passagem angustiante por um hospital, ele precisa em determinado momento da ajuda de uma senhora, Annie (Gladys Mathon), que mora com sua neta Chrystal (Taliah Webster), quando a história se desenrola de maneira decisiva, e as imagens acabam lembrando, mesmo de forma involuntária, Enter the void, de Gaspar Noé, sobretudo na maneira como são filmados os televisores.

Há filmes que têm um conceito interessante, e este é um. Sua primeira meia hora é muito bem solucionada: a montagem trepidante não dá quase espaço ao espectador recuperar o fôlego, e tudo se interliga de modo eficiente. No entanto, aos poucos, parece que algo na narrativa vai se perdendo. Apesar de elogiada, a trilha sonora de Daniel Lopatin é muito intrusiva, querendo dar uma dimensão especial a cada cena, o que tira o realismo que elas possuem e não está à altura do compositor que lhe serve de inspiração, Cliff Martinez. Perde-se o número de vezes em que a tensão é diluída por sua presença de fundo, extraindo mesmo a energia dos atores, parecendo um filme policial lado B dos anos 90. Ao mesmo tempo, uma certa história paralela se superpõe à principal, e um dos personagens principais se torna coadjuvante. Os close-ups vão tentar emprestar dramaticidade às sequências e algumas vezes conseguem, no entanto eles tentam imprimir muitas vezes expressões faciais que não acrescentam à narrativa.

Os ambientes sujos ou com neons tentam captar um universo em ebulição; faltam, contudo, diálogos e situações mais interessantes. Não raras vezes, a escrita soa forçada, ao contrário do que acontece num filme de Tarantino, a exemplo de Cães de aluguel, uma referência aqui. A atuação de Pattinson é boa, mas não chega perto da competência demonstrada em Cosmópolis, The Rover, Mapas para as estrelas e Z – A cidade perdida, ou mesmo Lembranças, passado na mesma Nova York. Os diretores não conseguem desenvolver um personagem que poderia ser fascinante, assim como desperdiçam Jennifer Jason Leigh, e a própria cidade onde a ação se passa. Uma metrópole sempre é um ótimo cenário para colocar personagens em movimento, guiados por uma perturbação interna ou externa, pois o diálogo é estabelecido de imediato. Em Bom comportamento, isso acontece mais ao início, mas, à medida que a trama progride, vai se sentindo um certo vazio, e não é apenas dos lugares imensos e caóticos que enfoca, sempre com uma câmera acelerada, tentando acompanhar a ação desses personagens.

A impressão que se tem é que, mais do que um drama, é um filme de ação disfarçado de indie. O melhor personagem, mais humano, acaba sendo Connie, numa boa atuação de Ben Safdie, e a revelação Taliah Webster representa bem a solidão e opressão de uma adolescente nesse universo enfocado. Ao mesmo tempo, por ser filmada com uma cor rosa, ela representa um resquício de inocência em meio a um universo marginal. Imagina-se um outro filme dirigido por Scorsese, dos anos 70 e 80, ou mesmo verdadeiramente influenciado pelo ótimo Vivendo no limite, com mais urgência e acerto. Por exemplo, Taxi Driver, uma referência visível, criava um atrito entre o mundo de Bickle, o taxista, e a trilha sonora calma: em Bom comportamento, tudo deve sugerir um mundo de perdição, e isso acaba sendo levado ao exagero. Uma boa aproximação seria com Baby Driver, com tom mais comercial e fotografia mais leve, muito superior em sua despretensão de mostrar o mundo do crime. Enquanto o filme de Wright acelera, o dos irmãos Safdie é de um vazio e pretensão capaz de agradar a quem imagina estar diante de um cinema antimainstream, quando, sem saber muito bem, está mergulhado naquilo que visa aos mesmos prêmios do cinema mainstream.

Good time, EUA, 2017 Diretores: Ben Safdie e Josh Safdie Elenco: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Ben Safdie, Barkhad Abdi, Buddy Duress Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein Fotografia: Sean Price Williams Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Dougas, Paris Kasidokostas Latsis Duração: 99 min. Estúdio: Elara Pictures, Rhea Films Distribuidora: A24

Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso (2017)

Por André Dick

George Clooney tem se mostrado alguém capaz de mesclar as carreiras de ator e diretor com uma competência poucas vezes vista. Depois de ser elogiado principalmente por Boa noite e boa sorte, que recebeu várias indicações ao Oscar, inclusive a melhor filme, sua carreira passou a ser mais visada: nesse caminho, Tudo pelo poder foi um êxito fora de série, com uma parceria notável entre Clooney e Ryan Gosling, e Caçadores de obras-primas, recebido com uma grande indiferença.
Para este novo projeto, depois da rejeição a seu último filme, Clooney obteve um roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen, que ele desenvolveu ainda mais com Grant Heslov. Passado em 1959, no bairro de Suburbicon, habitado por brancos, tudo treme com a chegada dos Mayer, uma família afro-americana. O início representa bem isso: o carteiro passeia pela rua entregando correspondências até que vê a senhora Mayer (Karimah Westbrook). Ele logo pergunta à vizinha se já viu quem chegou ao bairro e o que acontece a seguir é uma reunião no estilo Ku Klux Khan como que para definir o que fazer com a nova família. Isso é mais do que uma sátira: é uma visão ainda mais contundente sobre os subúrbios que Tim Burton já havia feito nos ótimos As aventuras de Pee-wee e Edward, mãos de tesoura, além do recente Grandes olhos.

Determinada noite, a família de Gardner Lodge (Matt Damon) é atacada por ladrões (Glenn Flesher e Alex Hassell), que amarram sua mulher, Rose (Julianne Moore), loira, que vive numa cadeira de rodas, assim como Margaret, a irmã gêmea, com cabelo escuro, e o filho Nicky (Noah Jupe). Este é o único que conversa com o filho dos Mayer, Andy (Tony Espinosa).
A invasão é estranha e deixa marcas na família, mas o que mais implode é a raiva dos moradores de Suburbicon contra os novos vizinhos. Margaret passa a agir de modo ainda mais estranho, tomando o lugar da irmã, inclusive ao pintar o cabelo da mesma cor que o dela. Há uma estranha relação entre Gardner e os bandidos que invadiram sua casa, que remete a Fargo e Arizona nunca mais, outras obras dos Coen. De maneira geral, pode-se entender por que esse roteiro dos Coen foi escrito logo depois da estreia deles, em Gosto de sangue, em 1984: ele basicamente antecipa os temas da dupla de diretores no cinema. No entanto, ao contrário dos Coen, Clooney utiliza os pátios de um bairro calmo nos Estados Unidos para fazer uma espécie de homenagem às pinturas de Edward Hopper, assim como em Um homem sério, no entanto com uma falta de alívio cômico (o humor, sobretudo no personagem de Damon, é anticlimático a todo momento).

O filme soa pesado em todos os termos de tratamento que oferece a seus personagens, lembrando a estreia de Clooney na direção, Confissões de uma mente perigosa, nunca deixando o espectador confortável, e a trilha excelente de Alexandre Desplat mostra uma espécie de recuperação da imagem do subúrbio como uma ameaça presente desde Alfred Hitchcock. Os personagens também são ambíguos, no melhor sentido, nunca se sentindo fáceis ou meras caricaturas, como poderiam ser, o que acontece nos experimentos mais fracos dos Coen, a exemplo de Matadores de velhinhas e O amor custa caro. Clooney trabalhou com os diretores em outro momento menos inspirado, E aí, meu irmão, cadê você?, e aqui ele mostra um determinado senso que remete a eles no visual. No entanto, mais do que a eles, Clooney retoma um padrão clássico de imagem e sonoro, dos anos 50, para introduzir uma ambientação bem trabalhada. Mesmo quando Gardner e Margaret são flagrados no porão por Nicky há um clima de Psicose no ar (não parece aleatória a escolha de Julianne Moore para o papel, tendo ela feito a refilmagem da obra de Hitchcock nos anos 90). Também existe uma mescla entre comportamento estranho, relacionamentos não esclarecidos e um desrespeito constante à infância diante dos problemas que eclodem no bairro. O elenco, a começar por Moore e Isaac, contribui muito para esse senso deslocado.

A fotografia de Robert Elswit, com sua luminosidade, apenas esconde um lado muito nublado, turvo, da América, que não se deixa identificar. Numa visita à delegacia, também sentimos a presença da textura de imagem, além do trabalho impecável de figurino, da obra-prima O mestre, de Paul Thomas Anderson. Não parece inexplicável que este filme tenha sido tão questionado pela crítica em geral: Suburbicon realmente não define seu gênero nem explica exatamente sua proposta. A visão de Clooney para o que deveria ser um roteiro menos corrosivo dos Coen se mostra caótica, tanto quanto a recepção da vida moderna que temos aqui por meio de imagens dos anos 50. Tudo aqui antecipa a era Kennedy e os protestos em torno de Malcolm X, que trouxeram um novo panorama à sociedade norte-americana. O trabalho de Gardner Lodge, por trás de escritórios e portas simétricas, esconde apenas uma desilusão. Para Clooney, esses personagens querem mudar suas famílias, de algum modo, e visam sempre uma espécie de trama implícita em suas ações. Não há nada em Suburbicon que não esteja em pé de confronto, mas os personagens se escondem disso, agindo de maneira infantilizada e enfrentando uma rua escura com uma bicicleta.

Suburbicon, EUA, 2017 Diretor: George Clooney Elenco: Matt Damon, Julianne Moore, Oscar Isaac, Noah Jupe, Glenn Fleshler, Alex Hassell, Gary Basaraba, Jack Conley, Karimah Westbrook, Tony Espinosa, Leith Burke Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, George Clooney, Grant Heslov Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: George Clooney, Grant Heslov, Joel Silver, Teddy Schwarzman Duração: 105 min. Estúdio: Paramount Pictures, Black Bear Pictures, Silver Pictures, Smoke House Pictures Distribuidora: Paramount

Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Columbus (2017)

Por André Dick

Há filmes que têm um certo encantamento visual que poderiam ser apreciados apenas por suas imagens, sem os diálogos: Columbus é um deles. Lançado no Festival de Sundance, principal evento do cinema independente, trata-se da estreia na direção do sul-coreano Kogonada, até então responsável por vídeos artísticos feitos para a Criterion Collection e Sight & Sound. Ele apresenta uma jovem, Casey (Haley Lu Richardson, de Quase 18), que trabalha na Biblioteca Memorial Cleo Rogers, da cidade de Columbus, Indiana, na qual tem como melhor amigo Gabriel (Rory Culkin), aluno de doutorado, que nutre certo interesse por ela. Determinado dia, Casey conhece um coreano, Jin (John Cho), um tradutor de livros, que está na sua cidade para acolher seu pai no hospital. Seu pai é um estudioso de arquitetura, exatamente o campo pelo qual a jovem é apaixonada. Ela, inclusive, assistiria a uma palestra dele.

Enquanto Jin reencontra a assistente do pai, Eleanor (Parker Posey), por quem já foi atraído, Casey cuida de sua mãe viciada, Maria (Michelle Forbes). Com uma fotografia de Elisha Christian evidentemente inspirada em Emmanuel Lubezki, de A árvore da vida, este é um filme sobre como a arquitetura pode representar o sentimento humano. Trata-se de quase uma adaptação não oficial do livro A arquitetura da felicidade, de Alain de Botton, com seus diálogos tranquilos sobre como as formas levantadas em blocos de concretos e aliviadas por vidraças modernistas podem conduzir o ser humano a um sentimento de acolhida pelo outro. No livro de Botton, investiga-se também a arquitetura moderna de Frank Lloyd Wright, a partir da qual Columbus se desenha em linhas retas. Kogonada mostra a biblioteca onde a personagem central trabalha como uma espécie de extensão de sua própria existência: ela está sempre guardando livros, de estudos feitos por outros alunos. Levando em conta que ela não sabe se conseguirá cursar faculdade, por causa justamente dos cuidados necessitados pela mãe, é uma rotina simétrica. Esta é levada ao lado do companheiro de trabalho, e Culkin entrega um trabalho discreto e eficaz, principalmente quando trata do mundo atual, em que uma parcela de pessoas não consegue se concentrar, usando os videogames em contraponto à leitura, sugerindo uma interpretação para a demanda desse filme.

Os personagens de Casey e Jin são interessantes justamente porque representam polos quase opostos, e não por acaso Kogonada mostra tanto uma escultura de madeira dividida em duas partes, como se fossem eles. A atuação de Richardson é muito delicada, mostrando ser uma nova atriz bastante promissora, enquanto Cho é explorado numa certa falta de empatia necessária para se transformar no complemento da personagem que conhece e quer lhe mostrar os principais pontos arquitetônicos de Columbus. Casey se torna aquela pessoa que vai apresentar a Jin o sentimento da arquitetura: ambos, em meio a isso, estão vinculados seja à mãe, no caso dela, seja ao pai, no caso dele: eles se unem para a apreciar a beleza da vida por meio de pontos de arquitetura. O isolamento não é permitido porque eles vivem transpirando também esse universo que se ergue ao redor do verde e dos gramados. Havia esse movimento em parte no romântico (500) dias com ela, em que Gordon-Levitt fazia um personagem voltado a esse campo, mas em Columbus isso se torna mais figurativo.

O diretor, em cada visita, vai mesclando esses personagens aos lugares, e a maneira como eles os filma também em casa, com seus reflexos em espelhos, mostra um grande potencial narrativo. Poderia resultar num cinema excessivamente calculado, restrito a imagens e simbologias, porém há uma emoção que abastece internamente a história. Mais ainda quando Casey, em determinado momento, fala de seus sentimentos e a câmera, que filmava um prédio, de costas, a mostra de frente, mas sem revelar o que está dizendo. Nesse sentido, humanidade e arquitetura se conjugam no mesmo tempo. Em outro momento, a personagem central liga para uma pessoa e a observa do lado de fora em razão de o prédio ser todo envidraçado: o olhar invade a arquitetura, mas nem por isso há uma aproximação maior entre as pessoas. Outro momento que chama a atenção é quando, sentindo-se um tanto perdido, Jin observa a distância um prédio abandonado: é como se o prédio representasse exatamente como ele se sente.
A fotografia de Elisha Christian possui uma simetria que serve às intenções do diretor sem menosprezar um sentimento naturalista, principalmente quando os personagens conversam em meio a árvores, no que se corresponde com o cinema de Wes Anderson, de Moonrise Kingdom, por exemplo. Casey é fascinada por uma igreja de sua cidade que possui uma fachada assimétrica, mas mesmo assim parece exata: talvez esteja falando do próprio desenvolvimento da narrativa, pois nenhum personagem consegue realmente se autossatisfazer, mas nem por isso sua busca por isso é menos intensa. É um filme, à sua maneira, muito oriental, feito por meio de pausas e gestos mínimos, com caráter independente e surpreende que ele não esteja na lista de favoritos a todos os prêmios.

Columbus, EUA, 2017 Diretor: Kogonada Elenco: John Cho, Haley Lu Richardson, Parker Posey, Rory Culkin, Michelle Forbes, Jim Dougherty Roteiro: Kogonada Fotografia: Elisha Christian Trilha Sonora: Hammock Produção: Danielle Renfrew Behrens, Aaron Boyd, Giulia Caruso, Ki Jin Kim, Andrew Miano, Chris Weitz Duração: 104 min. Estúdio: Depth of Field, Nonetheless Productions, Superlative Films Distribuidora: Sundance Institute

Boneco de neve (2017)

Por André Dick

Responsável por Deixa ela entrar e O espião que sabia demais, ambos considerados referenciais do cinema contemporâneo, o diretor sueco Tomas Alfredson enfrentou uma bateria de críticas pesadas a Boneco de neve, baseado em livro de Jo Nesbø. Ele mesmo veio a público se desculpar por não ter conseguido terminá-lo da maneia que gostaria. Não se sabe exatamente o que não deu certo junto ao público e à crítica, mas certamente nem mesmo a produção de Martin Scorsese e a montagem de sua habitual parceira, Thelma Schoonmaker, junto a Claire Simpson, tiraram o peso de decepção com que o filme foi recebido.
Basicamente, é a história de Harry Hole (Michael Fassbender), um detetive que investiga o desaparecimento de uma mulher no início do inverno numa cidade em torno de Oslo, na Noruega. O suspeito é um serial killer chamado “The Snowman” (“Boneco de Neve”, como o título brasileiro antecipa), que já esteve na ativa, pois deixa exatamente uma figura desse boneco no gelo indicando suas vítimas. A primeira a desaparecer é Birte Becker (Genevieve O’Reilly), casada com Filip (James D’Arcy), pais de Josephine (Jeté Laurence). Como ajudante, Hole recebe a chegada de Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), que diz ter estudado seus casos na academia. A aproximação entre os dois não chega a se consumar de fato, pois Hole está imerso em problemas alcóolicos e Bratt esconde um detalhe de seu passado que pode ajudar a explicar seu comportamento presente.

Se Deixa ela entrar tinha problemas, a fotografia não era um. Neste novo filme, ela novamente é um destaque. O trabalho de Dion Beebe carrega uma atmosfera que mescla referenciais claros, como os trabalhos de Atom Egoyan, e mesmo os filmes dos anos 80. O detetive feito por Fassbender lembra, pelo jeito e figurino, o Rick Deckard de Blade Runner. Ele tem relação com a ex-esposa, Rakel Fauke (Charlotte Gainsbourg), e seu filho adolescente, Oleg (Michael Yates). Ela namora Mathias (Jonas Karlsson), um médico que tenta ser agradável com Hole, a fim de evitar atritos familiares. E no meio da história ainda se insere uma espécie de ricaço e que tenta levar Oslo a sediar as Olimpíadas de Inverno, Arve Stop (J.K. Simmons). Alfredson mostra de modo interessante como o comportamento e o sistema familiar se intensificam em tempos diferentes e como podem perturbar a mente de um homem. Os personagens são desenvolvidos mais em seu aspecto enigmático e expositivo, e é muito diferente assistir a Boneco de neve: pouco existe aqui de cinema comercial. E o que se mostra de apelo mais popular é, ao mesmo tempo, misterioso, calcado em imagens diferenciadas.

Há alguns flashbacks que focam o personagem de outro detetive, Gert Rafto (Val Kilmer, quase irreconhecível), que investigou o serial killer do boneco de neve anos antes e, se este material certamente teria mais agilidade com outro diretor, há exatamente um certo fascínio em acompanhar essa história com a lentidão empregada, com toques ainda do Insônia, de Nolan, e o igualmente subestimado À procura, de Egoyan. Fassbender é um dos melhores atores da atualidade e ele confere uma presença determinada a cada cena, representando a frieza do lugar que o cerca: suas atitudes são mecânicas e remotas, mesmo por causa do seu problema com o álcool. No entanto, a investigação o leva, mais do que adotar métodos já utilizados em outras investigações, a enfrentar o que não gostaria: o passado, tanto representado por Rafto quanto pela casa onde se dão alguns momentos-chave do serial killer. A casa, para Hole e o criminoso, representa uma mudança de tempo e atitude.

Também há outro elemento interessante rondando suas peregrinações: Alfredson o pressiona dentro de ônibus, casas, escritórios, como se não tivesse uma saída adequada de seu problema central. Ferguson, como sua companheira, é muito interessante, com uma presença magnetizante, assim como Gainsbourg. É uma narrativa que poderia lembrar Millennium, de Fincher, caso tivesse mais subtramas e desenvolvimento; o que permanece, contudo, me parece estar muito acima do que vem sendo dito, sobretudo pela atmosfera construída, com planos abertos mostrando a solidão desses lugares enfocados da Noruega, que se estende a seus personagens. O que se fala de Boneco de neve se espalhou como acontece às vezes: basta a crítica inventar que um filme é fraco e muitos passam a considerar o mesmo. As críticas mais notáveis se baseiam em detalhes essenciais para a história: o personagem central ter problemas com a bebida e os crimes serem anunciados por um boneco de neve (este é o mote do romance, então não haveria motivo para mudanças, e Alfredson opta por um caminho correto ao mostrar a figura). Mal se sabe que, guardadas as comparações, este filme não fica a dever para outros do gênero.

The snowman, EUA, 2017 Diretor: Tomas Alfredson Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer, J. K. Simmons Roteiro: Hossein Amini, Peter Straughan, Søren Sveistrup Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Peter Gustafsson Duração: 119 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films, Another Park Film Distribuidora: Universal Pictures

Em ritmo de fuga (2017)

Por André Dick

Depois de dois sucessos de crítica, Todo mundo quase morto e Chumbo grosso, com um bom humor corrosivo e tramas ágeis, o inglês Edgar Wright passou a ser uma referência do cinema contemporâneo, uma figura de apelo pop. Ele veio a confirmar seu talento em Scott Pilgrim contra o mundo, uma adaptação das HQs com Michael Cera em grande momento e uma profusão visual inovadora para o cinema, sem definir gênero, mas misturando vários (fantasia, drama, comédia, romance). Depois de colaborar no roteiro de As aventuras de Tintim e de uma volta às suas origens em Heróis de ressaca, talvez sua obra com humor mais inglês, Wright quase dirigiu a adaptação Homem-Formiga (do qual foi um dos roteiristas), assim como Star Trek – Sem fronteiras, sendo talvez impedido pelo seu excesso, digamos assim, de estilo próprio.

É esse estilo que ele confirma no seu filme mais recente, Em ritmo de fuga. A história se passa em Atlanta, Geórgia, onde Baby (Ansel Elgort) é o motorista chamado para assaltos de alto risco. Ele trabalha para Doc (Kevin Spacey), que parece ter uma espécie de trato com ele a respeito de número de vezes determinado para prestar o serviço, e cuida do seu pai adotivo, Joseph (CJ Jones), que é surdo-mudo. Certo dia, esperando por café conhece uma garçonete, Debora (Lily James), por quem se apaixona.
Trabalhar para Doc, no entanto, parece ser como trabalhar para a máfia: Baby é chamado de volta para ajudar novamente num assalto, do qual vão participar Buddy/Jason (John Hamm), Darling/Monica (Eiza González) e Bats/Leon (Jamie Foxx), enquanto Griff (Jon Bernthal) é outro componente da primeira ação mostrada. O problema é que Baby quer constituir uma nova vida com Debora, ficando numa situação delicada. “Seu nome é Baby? Você está em todas as músicas”, diz ela.

A figura de Baby é uma das mais originais de um filme do gênero, muito por causa da excelente atuação de Elgort, que já havia mostrado talento em A culpa é das estrelas e Homens, mulheres e filhos, prejudicado, no entanto, pela série Divergente. Elgort oferece um timing excepcional a seu personagem. Como sempre está escutando música, para ajudar a aliviar um zumbido crônico, ele alterna momentos de leveza, em seu convívio com o padrasto, de tensão, nas reuniões para fazer os assaltos, e de bom humor, quando passa a se interessar por Debora ou quando tenta mixar alguns sons gravados, numa espécie de desejo de ser DJ. Ele também usa óculos para esconder as cicatrizes do acidente que sofreu quando criança e lhe proporcionou o incômodo problema. No entanto, Elgort sempre fica um pouco distante, como é de praxe em suas atuações, para tornar seu personagem mais denso. O espectador consegue ver sua transformação de cena para cena, e poucos atores conseguem isso: Elgort é um. Desde o início, ao som de “Bellbottoms”, da Jon Spencer Blues Explosion, seu personagem preenche a tela, assim como o motorista de Drive feito por Ryan Gosling.

Wright também sempre foi especialista em cenas de ação elaboradas, como mostrou principalmente em Chumbo grosso, mas aqui ele consegue ainda mais. Inspirado claramente pelo referido Drive, Atração perigosa, de Ben Affleck, e Caçadores de emoções (na máscara de Mike Myers, não Michael Myers; ainda com uma participação de Flea, baixista do Red Hot Chili Peppers, que também aparecia na obra de Bigelow), Wright torna o arsenal de cores dos cenários num pacote de amplo apelo popular, sem facilitar a narrativa. O roteiro, sem grandes reviravoltas, é atraente o suficiente e os diálogos ágeis. Ainda temos ótimas atuações especialmente de Lily James – que lembra a Shelley de Twin Peaks, assim como a lanchonete em que trabalha recorda o Double R, principalmente em sua fachada – e Foxx, bastante ameaçador, numa versão séria daquela que faz bem-humorada em Quero matar meu chefe, embora Hamm particularmente cresça na etapa final.

Pode-se avaliar que aqui não há o estilo mais excêntrico de montagem dos filmes anteriores de Wright, embora mantenha sua agilidade. Isso dá ao filme um estilo mais americano, mas não menos eficiente para o espectador. Com isso, há trechos mais vagarosos em relação ao restante da filmografia do diretor. Uma cena é inspirada particularmente em Amor pleno, de Malick, quando Baby e Debora se encontram numa lavanderia – Wright torna o ambiente iluminado como o momento em que se encontram realmente. Não se pode deixar de mencionar a extraordinária trilha sonora do filme, pontuando a vida de Baby e as situações que vão se configurando: num determinado momento, em meio a uma música romântica, temos uma cena de alta tensão, criando um contraste que faz lembrar os melhores momentos de Scott Pilgrim. É como se a música representasse não apenas o afastamento do personagem de seu maior problema, como também do universo de bandidos a seu redor. Não por acaso, o personagem de Bats/Leon parece tão avesso ao fato de Baby ouvir música durante as reuniões. Wright utiliza esse apoio de maneira eficiente em várias sequências, fazendo um repertório capaz de desenhar ainda melhor seu personagem central e inserir o espectador no ritmo da narrativa, basicamente sobre o sonho de um jovem em adentrar na vida adulta. Como em Scott Pilgrim, não há gênero definido aqui, apenas diversão inteligente garantida.

Baby Driver, EUA, 2017 Diretor: Edgar Wright Elenco: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Jon Hamm, Jamie Foxx, Eiza González, Jon Bernthal, Sky Ferreira, CJ Jones Roteiro: Edgar Wright Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: Steven Price Produção: Eric Fellner, Nira Park, Tim Bevan Duração: 113 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Big Talk Productions

Patti Cake$ (2017)

Por André Dick

O diretor Geremy Jasper tem sua estreia à frente de um filme com Patti Cake$. Com produção, entre outros, de Chris Columbus (mais conhecido pelos roteiros de Gremlins e Os Goonies e por dirigir dois Esqueceram de mim e os primeiros Harry Potter) e do brasileiro Rodrigo Teixeira, ele conta a história de Patricia Dombrowski, ou, simplesmente, Patti (Danielle Macdonald), uma jovem obesa, que vive num bairro de periferia tentando obter rimas para seus raps. No entanto, ela é chamada de Dumbo e apenas seu amigo Jheri (Siddharth Dhananjay) a leva a sério. Enquanto cuida de sua avó, Nana (Cathy Moriarty, excelente), precisa ver sua mãe, Barb (Bridget Everett), cantando no mesmo bar onde atende. A mãe gostaria de ter tido uma carreira musical, mas em razão do compromisso com a filha não pôde se dedicar. Não é preciso mais que um par de cenas para mostrar a vida solitária da personagem, em meio à pressão de não conseguir valer sua arte. No entanto, é justamente essa solidão que a move para frente: mais do que qualquer personagem feminino recente, Patti é uma figura capaz de se superar com seus próprios problemas.

O diretor Jasper mostra um talento muito grande para encadear uma sequência de conflitos críveis e por vezes engraçados, além de ter escrito todas as canções (muito boas) da trama. A cena do clube em que ela vai para assistir a outros se apresentarem lembra uma atmosfera realista aplicada por diretores indie, por outro lado sem cair em maneirismos. Muitos apontam semelhanças com 8 mile, com Eminem, e realmente há, mas esta obra parece mais humana sobretudo por causa de Macdonald, excepcional no papel central, e Everett, como sua mãe (ambas mereciam ser indicadas ao Oscar). Ambas possuem uma química rigorosa em cena: a primeira cena em que se encontram no bar é conduzida com raro esmero, pois o espectador logo imagina que elas não têm nada em comum, quando as semelhanças se dão justamente pelas diferenças. Siddharth Dhananjay, como o melhor amigo dela, também é uma ótima revelação. São personagens que possuem um certo descompromisso que víamos no ano passado no excepcional Docinho da América, de Andrea Arnold, que fazem parte de uma América muitas vezes esquecida. Ele possui também algum estilo extraído de Dope – Um deslize perigoso, mas é melhor resolvido.

Nessa narrativa, Patti, que tem o nome artístico Killa P, tem como ídolo um rapper, OZ (Sahr Ngaujah), e conhece um músico, Basterd (Mamoudou Athie), um afroamericano rebelde que pode lhe proporcionar a capacitação sonora que sua música precisa. O que chama a atenção em Patti Cake$ é como ele não se leva a sério no bom sentido, parecendo realmente dar vida a uma personagem que representa muitas outras renegadas pelos “pilares” culturais de uma sociedade. Há passagens decisivamente cômicas e que não soam forçadas, funcionando num plano mesmo de nostalgia. E não deixa, algumas vezes, de desenhar uma espécie de sátira ao estilo do rap, principalmente nas visões e sonhos de Patti, sem nunca planificar o gênero. Ao mesmo tempo, ele soa dramático, a exemplo da sequência em que a personagem terá de confrontar um inimigo do verso num posto de gasolina e as pessoas que vão surgindo em torno desenham uma pressão a ser enfrentada pela aspirante à artista.

Mesmo querendo ser aceita pelo “sistema”, pela indústria musical, Patti quer, antes de mais nada, aplicar sua alma nas composições. Para ela, é questão necessária para se sobressair como ser humano. Nisso, o filme lida com relação entre fã e ídolo e rivalidade entre mãe e filha de modo tocante. E o melhor: Jasper nunca visualiza seus personagens de maneira a torná-los retratos de uma melancolia moderna, mesmo que também se sintam atingidos por ela. Seu foco, porém, é o sonho, a divagação. O visual do filme, baseado nos recentes Docinho da AméricaTangerine, possui cores vibrantes e um movimento contínuo, reforçado por uma trilha sonora de ótimo nível. A canção que Patti faz com seus companheiros e toca num momento-chave é um hit de rap poucas vezes ouvido. Fará o espectador que gostar da proposta torcer por ela e isso diz muito da obra de Jasper.

Patti Cake$, EUA, 2017 Diretor: Geremy Jasper Elenco: Danielle Macdonald, Cathy Moriarty, Bridget Everett, Siddharth Dhananjay, Mamoudou Athie Roteiro: Geremy Jasper Fotografia: Federico Cesca Produção: Chris Columbus, Michael Gottwald, Dan Janvey, Noah Stahl, Daniela Taplin Lundberg, Rodrigo Teixeira Duração: 108 min. Distribuidora: Fox Searchlight Pictures