Superman II – Corte de Richard Donner (2006)

Por André Dick

Neste momento em que Zack Snyder vai conseguir finalmente trazer à cena sua versão original para Liga da Justiça, que teve, depois de um afastamento conturbado seu, uma finalização de Joss Whedon, o diretor de Os vingadores, é interessante lembrar do caso de Superman II. Ele foi feito por Richard Donner ao mesmo tempo que o primeiro, lançado em 1978, mas sua versão de fato não foi lançada nos cinemas em 1980. Em razão de os produtores Alexander e Ilya Salkind não pretenderem pagar um acréscimo financeiro para Marlon Brando, que fazia o pai de Superman, Jor-El, que já tinha feito cenas para o segundo, Donner não aceitou sua exclusão, foi afastado e substituído por Richard Lester, que, para poder assinar o filme, teve de realizar ou refazer ao menos 51% das cenas dele. A versão de Donner foi lançada apenas em 2006 em Blu-ray e DVD, incluindo as cenas com Brando e, apesar de conter quase todas as cenas da versão do cinema, não têm algumas acrescentadas por Lester e possui outras que mudam o significado.
Donner é uma diretor especialista em filmes de ação com drama e comédia, o que pode ser constatado em filmes como Os GooniesMáquina mortífera. Em Superman, ele estabelece um padrão para o que viria na década seguinte, com o Batman, de Tim Burton, e com certo bom humor recente e vertiginoso de Os vingadores, de Joss Whedon. O Superman de Reeve, e isso se deve sobretudo à visão de Donner, é, sobretudo, alguém indefinido entre tempos diferentes: ao mesmo tempo em que conserva um ar dos anos 40, 50, ele consegue efetuar uma transição para os momentos em que precisa enfrentar seu maior inimigo, Luthor,de maneira plausível.

Na versão de Donner para Superman II, é estabelecida uma conexão diretamente com o final do primeiro. Se na versão de Lester Zod (Terence Stamp), Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas ), expulsos de Krypton no início do original, eram libertados de sua prisão numa espécie de espelho gigante pela explosão de uma bomba tirada pelo Superman da Torre Eiffel, na versão de Donner eles já se libertam com a explosão do míssel teleguiado por Lex Luthor levado ao espaço sideral pelo super-herói antes de fazer o tempo voltar. A versão de Donner reprisa também mais claramente a expulsão de Zod, Non e Ursa por Kal-El (Marlon Brando), enquanto na versão de Lester era mais rápida e quase incompreensível.
Por sua vez, as cenas iniciais no Daily Planet são muito mais interessantes na versão de Donner, não apenas pela fotografia de Geoffrey Unsworth, como pela tentativa de Lois (Margot Kidder) descobrir se Clark Kent (Christopher Reeve) é Superman, primeiro pintando uma foto do super-herói com os óculos e terno do parceiro de trabalho e depois jogando-se do prédio – o que inexiste na versão exibida nos cinemas. Clark está cada vez mais próximo de Lois e ambos, inclusive, vão viajar juntos para as cataratas do Niágara. Na versão de Lester, este trecho se prolonga; com uma cena buscando comicidade na figura de um funcionário do hotel onde se hospedam, na de Donner é mais sintética. No filme assinado por Lester, é quando Lois tenta provar que Clark é Superman, atirando-se nas águas do Niágara. Ele está cansado de ser herói, deseja ser humano, e, para isso, volta às suas origens, à Fortaleza da Solidão, em que está a explicação do seu passado, para tentar ser igual aos demais seres humanos.

Lá estiveram antes Luthor e sua assessora Eve Teschmacher (Valerie Perrine) – na versão de Lester conversando com a mãe, Lara (Sussanah York), de Superman; na de Donner, com seu pai. No entanto, chegam os três criminosos à Terra depois de uma passagem pela Lua (que aparece nas duas versões): coronel  Zod, Non e Ursa, mandados embora de Krypton no início do primeiro filme, condenados por Jor-El, e eles vão querer perturbar a população, sobretudo o filho de quem os mandou embora, tendo como aliado Lex Luthor. Luthor tenta chegar às origens do herói, a fim de tentar encobri-lo com sua tentativa de romper o mundo. Mas sua relação com Superman é estranha: ao mesmo tempo que proporciona doses de violência, sobretudo moral, ele não consegue se posicionar como um vilão todo o tempo, e tenta disfarçar com uma ironia seca seu objetivo (e Hackman não quis refazer nenhuma de suas cenas com Lester; aquelas em que aparece foram todas filmadas por Donner).
A questão é como o herói voltará a ser como era antes. Como observa Pauline Kael, “as transições de Clark Kent para Super-Homem e vice-versa agora são números cômicos bem acabados”. Nesse sentido, se a versão de Lester é mais cômica, a de Donner é mais séria, com a presença de Marlon Brando e sequências mais impressionantes (como a inicial). Donner dosa a humanidade de Clark sem torná-la superficial ou maniqueísta (na interpretação talentosa de Reeve). É interessante como os vilões também conseguem ficar no limite do bom humor aceitável, principalmente em sequências com duelos militares e na famosa invasão da Casa Branca -os primeiros numa cidade do interior feitas exclusivamente por Lester.

Há muitas cenas de ação de destaque, efeitos especiais melhores do que o primeiro, e no todo trata-se de uma continuação divertida, apoiado novamente num roteiro de Mario Puzo (criador de O poderoso chefão), com a colaboração de David e Leslie Newman. E a versão de Donner conta com a fotografia de Geoffrey Unsworth, que fez a do primeiro e faleceu em 1979; as cenas modificadas ou acrescentadas por Lester têm a fotografia de Robert Paynte, não tão talentoso. Não existe também, na versão de Lester, a melancolia impregnada por Donner nas bordas de suas versões: o seu Superman é, ao mesmo tempo, um herói e alguém realmente trágico, não com rompantes para o humor exagerado. A maneira como Clark recupera seus poderes com a ajuda do pai é definitiva. Jor-El parece abandoná-lo quando surge do além e lhe transmite os poderes de volta. Não que Lester não perceba a essência dele, mas é certo que Donner consegue desenhá-la de maneira mais adequada, assim como sua relação conflituosa com o pai que não conheceu e com a dualidade entre alguém de outro planeta e o humano. Se eu fosse indicar uma versão do filme, seria a de Donner lançada em 2006.

Superman II – The Richard Donner Cut, ING/EUA, 2006 Diretor: Richard Donner Elenco: Christopher Reeve, Gene Hackman, Marlon Brando, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Margot Kidder, Valerie Perrine, Susannah York, Terence Stamp, Jack O’Halloran Roteiro: Mario Puzo, David e Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth e Robert Paynte Trilha Sonora: John Williams  Produção: Pierre Spengler e Michael Thau Duração: 117 min. Distribuidora: Warner Bros.

300 (2006)

Por André Dick

Na virada do século, o filme Gladiador, de Ridley Scott, retomou a ideia de um cinema épico baseado na ideia de homens lutando em arena. O personagem principal, Maximus, cujo intérprete, Russell Crowe (ganhador do Oscar de ator), faz crer numa volta a um tempo clássico, de Spartacus, é um fiel seguidor de Marcus Aurelius (Richard Harris), imperador de Roma, mas é traído e se torna um gladiador. Roma passa a ser governada por um tirano, Commodus (Joaquin Phoenix), o filho de Marcus Aurelius. Ridley Scott consegue transformar o argumento em imagens antológicas de lutas em arenas, com atuação eficiente de todo o elenco (cada personagem é tratado de forma nada unidimensional). A direção de arte e os efeitos especiais também são de muita consistência, sobretudo porque estamos diante de um filme de época, que leva o espectador por algumas horas numa volta a um tempo histórico, com uma trilha sonora magnífica de Hans Zimmer e Lisa Gerrard, além da fotografia irretocável de John Mathieson.

Em Madrugada dos mortos, a refilmagem do clássico dos anos 70 dirigido por George Romero, que marca a estreia na direção de Zack Snyder, baseado num roteiro de James Gunn, que viria a dirigir Guardiões da galáxia, o diretor não mostra completamente seu estilo, no entanto consegue extrair situações interessantes de um panorama caótico. Seu real estilo viria a partir de 300, que ingressou exatamente nesse universo suscitado por Scott, remetendo também a Os 300 de Esparta.
A mitologia greco-romana sempre atraiu o olhar de cineastas com interesse pelo trabalho narrativo e pela questão visual: tivemos nos anos 80 Fúria de titãs, precursor de muitos elementos do campo de efeitos visuais, assim como sua refilmagem nos anos 2010, e Tróia, o grandioso experimento de Wolfgang Petersen.
Snyder adaptou 300 com fidelidade à HQ de Frank Miller, e o elenco oferece um desempenho dedicado. O filme inicia mostrando a infância do rei Leônidas: aos 7 anos, é afastado de sua mãe para iniciar o agogê, período de privações a que os cidadãos de Esparta são levados.

Depois de 30 anos, um mensageiro persa (Peter Mersah) chega a Esparta falando que Xerxes I (Rodrigo Santoro) quer dominar a território – assim como outros povoados gregos à época. Leônidas (Gerard Butler), casado com a Rainha Gorgo (Lena Headey), decide aniquilar toda a comitiva. Sendo período da festa de Carneia, ele seleciona 300 homens de sua guarda para enfrentar os invasores da Pérsia – levando-se em conta que em Esparta os homens eram treinados para lutar em batalhas. A seu lado, estão Stellios (Michael Fassbender), Dilios (David Wenham), Capitão Artemis (Vincent Regan) e seu filho Astinos (Tom Wisdom). Mas contra está o político Theron (Dominic West). Tudo tem como centro a Batalha das Termópilas de 480 a.C.
Com poucos diálogos (sendo uma obra essencialmente de batalhas) e trama não trabalhada de forma suficiente, na qual o rei Leônidas enfrenta, com seus homens, o exército persa de Xerxes. 300 se sente, mais do que outros filmes de Snyder acusados disso, mais estilo do que substância. A violência prepondera do início até o fim, principalmente na segunda metade em larga escala, e Snyder usa e reusa a câmera lenta para criar cenas de impacto – e ainda assim muitas sem o peso emocional necessário. Há uma tentativa de traçar duelos políticos e uma certa privação da mulher num universo predominantemente masculino, e Snyder faz isso ligando os personagens a uma certa tentação pelo que pode levá-los à queda. O rei Xerxes – com uma voz acentuadamente estranha de Rodrigo Santoro – é o símbolo de uma espécie de avanço do pecado contra uma comunidade que, longe de ser ingênua, ainda tenta conservar seus integrantes.

Como no seu filme de estreia, Snyder tem noção de cenas de ação e da potência dos embates, além do cuidado uso de efeitos sonoros capazes de amplificar a atmosfera, mas ainda lhe falta uma certa reflexão que viria com Watchmen, em sua lentidão. Ainda assim, é um estilo único, e pode-se dizer que os quadrinhos de Miller são traduzidos em perícia visual de um modo que dificilmente seria visto novamente, nem mesmo em sua sequência, quase uma década mais tarde, com Eva Green como a grande vilã. Isso se deve também ao trabalho de fotografia de Larry Fong, que voltaria a trabalhar com Snyder em Batman vs Superman, utilizando os recursos do CGI para iluminar cada cena de maneira grandiosa e tentando buscar comparações diretas da pintura. É aí que a obra de Snyder cresce em retrospectiva, aliando atuações boas num cenário de batalha devastador que não faz o espectador esquecer daquilo pelo qual esses homens estão lutando, colocando em questão diálogos sobre honra, traição, fidelidade e amor cercado pela morte.

300, EUA, 2006 Diretor: Zack Snyder Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Dominic West Roteiro: Zack Snyde, Kurt Johnstad, Michael B. Gordon Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Gianni Nunnari, Mark Canton, Bernie Goldman Jeffrey Silver Duração: 116 in. Estúdio: Legendary Pictures, Virtual Studios, Atmosphere Pictures, Hollywood Gang Productions
Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Encontros e desencontros (2003)

Por André Dick

No seu segundo filme, Encontros e desencontros, Sofia Coppola tenta fazer uma comédia agridoce depois de seu vital As virgens suicidas – que consegue contrabalançar as estranhezas com magníficas atuações de Kirsten Dunst e James Woods – e consegue, tornando-se uma referência, que manteria com Maria Antonieta e Um lugar qualquer (que se parece com este em sua estrutura de tédio). Enquanto o casal do filme combina, mesmo bastante diferente (Bill Murray e Scarlett Johansson), o roteiro, também escrito por Sofia, em grande parte, encadeia uma sucessão de momentos soltos da vida de ambos. O filme parece entrar na onda de seu título original (“Perdido na tradução”) e tenta dar a impressão apenas do deslocamento de um ator de Hollywood, Bob Harris (Bill Murray), que está no Japão para rodar um comercial de uísque por 2 milhões de dólares, e Charlotte (Scarlott Johansson), que faz pós-graduação em Filosofia pela Yale e é abandonada no hotel por seu marido, John (Giovanni Ribisi), fotógrafo de moda.

A realização tenta ser contemporânea: nunca vemos os personagens em situações forçadas e a trilha (com elementos indie e dos anos 80) remete a um sentimento de existência solitária numa cidade grande. Esta grande qualidade do filme acaba sendo também seu lado menos atrativo: o espectador não é atraído por nenhum conflito; pelo contrário, a experiência de assisti-lo parece ser a mesma dos personagens que perambulam por ele, em busca de uma razão para entender o outro e o diferente. Murray tem grande tendência para atuações patéticas, e neste filme ele tenta sublimá-las com seu melhor momento, sobretudo num momento em que tenta correr na esteira. As cenas em que filma a propaganda sem entender japonês é divertida e constrangedora por causa dele (embora saibamos que um astro como ele andaria com um tradutor, ou seja, há buracos substanciais no roteiro, que, no entanto, conseguem fornecer um certo aspecto indeterminado).

Bob conhece Charlotte no bar do hotel e logo fazem amizade. Quando voltam a se encontrar nas noites seguintes, ela o convida para participar de uma festa com outros jovens. Em clima de melancolia e de crise da meia idade, Bob Harris cria um interesse platônico por Charlotte. Isso se costura mais por meio de imagens do que palavras, e certamente é esta saída que deu a Sofia o Oscar de melhor roteiro original.
No seu livro referencial sobre o Japão, O império dos signos, e entendo que Sofia o leu antes de escrever o roteiro, Roland Barthes escreve – e poderia servir para o casal formado por Bob e Charlotte e suas peregrinações: “A cidade de que falo (Tóquio) apresenta este paradoxo precioso: possui certamente um centro, mas esse centro é vazio. A cidade toda gira em torno de um lugar ao mesmo tempo proibido e indiferente, morada escondida pela vegetação, protegida por fossos de água, habitada por um imperador que nunca se vê, isto é, literalmente, por não se sabe quem. Diariamente, em sua circulação rápida, enérgica, expeditiva como a linha de um tiro, os táxis evitam esse círculo, cuja crista baixa, forma visível da invisibilidade, oculta o ‘nada’ sagrado. Uma das duas cidades mais poderosas da modernidade é, portanto, construída em torno de um anel opaco de muralhas, de águas, de tetos e de árvores, cujo centro nada mais é do que uma ideia evaporada, subsistindo ali não para irradiar algum poder, mas para dar a todo o movimento urbano o apoio de sue vazio central, obrigando a circulação a um perpétuo desvio. Dessa maneira, dizem-nos, o imaginário se abre circularmente, por voltas e rodeios, ao longo de um sujeito vazio” (Tradução de Leyla Perrone-Moisés, p. 46)

É em meio a esse “anel opaco de muralhas, de águas, de tetos e de árvores” que transcorre o filme de Sofia. A distância que Bob sente da jovem pelo qual é atraído, de qualquer modo, é a mesma que ele tem por esse país distante: a vontade de tocá-la é a mesma de esquecer que está distante, mas que quer voltar, pela liberdade que ele concede. O casal vai a um karaokê, anda por Tóquio animado (num momento indie), a uma boate, com seus neons, volta ao quarto de hotel, apanhando um elevador e dorme abraçado, introspectivamente. O que importa a eles é a companhia, nada mais, por isso tanta densidade nessa aproximação. Mesmo a amiga de Bob, a atriz de Hollywood Kelly (Anna Faris), não a traz para um interesse do cenário.
São belas, também as cenas em que Charlotte, solitária – e sua personagem é o alter ego de Sofia –, caminha pelo parque Hyatt. Como escreve Barthes: “Da encosta das montanhas ao canto do bairro, tudo aqui é habitat, e estou sempre no cômodo mais luxuoso desse habitat: esse luxo (que é alhures o dos quiosques, dos corredores, das casas de prazer, dos gabinetes de pintura, das bibliotecas privadas) vem do fato de esse lugar não ter outro limite senão seu tapete de sensações vivas, de signos resplandecentes (flores, janelas, folhagens, quadros, livros); não é mais o grande muro contínuo que define o espaço, é a própria abstração dos pedaços vistos (de ‘vistas’) que me cercam: o muro está destruído sob a inscrição, o jardim é uma tapeçaria mineral de pequenos volumes (pedras, rastros do ancinho sobre a areia), o local público é uma série de acontecimentos instantâneos, que chegam ao notável num brilho tão vivo, tão tênue, que o signo se abole antes de qualquer significado ter tido o tempo de ‘pegar’”.

O filme trata da imersão desses personagens num cenário estranho, do qual não fazem parte, porém que, aos poucos, começa a impregná-los. Os letreiros em movimento da cidade e as longas ruas e passarelas lembram uma efusão constante de pessoas, muitas sem uma direção definida. Sofia consegue desenhar, com isso, um elemento de reflexão sobre aquilo que parece não permanecer em meio a uma paisagem grandiosa, que é exatamente o da reflexão sobre os pequenos gestos – e adormecer no ombro alheio passa a carregar toda uma mudança de percepção cultural.
Na verdade, Encontros e desencontros é um produto acabado dos anos 2000, com sua espécie de síntese entre o sentimento de vazio do indivíduo e sua tentativa de compreendera paisagem que o cerca – e a cidade de Tóquio se presta com perfeição a isso. Não há dúvida de que Sofia, com sua sensibilidade particular, anuncia aqui o que expandiria ainda mais em Maria Antonieta.

Lost in translation, EUA, 2003 Diretor: Sofia Coppola Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris, Fumihiro Hayashi Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Lance Acord Produção: Sofia Coppola, Ross Katz Duração: 105 min. Estúdio: American Zoetrope e Elemental Films Distribuidora: Focus Features (Estados Unidos), Tohokushinsha Film (Japão)

Star Wars: A ameaça fantasma (1999), Ataque dos clones (2002) e A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar.
Iniciando por uma retrospectiva da série, o que mais chama a atenção em A ameaça fantasma é que Lucas apresenta personagens interessantes, mesmo não substituindo o carisma dos originais. Na pele do mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson consegue mostrar novamente que é um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas. Parece ser de Ewan McGregor, na pele de Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente (se alguém esquecer outro personagem do filme), levemente deslocado, sendo, no período, um ator de produções independentes, como Cova rasa e Trainspotting.

A história do primeiro episódio da nova trilogia é simples como todas as outras da saga, embora aqui com peso maior político. A fim de realizar um acordo com a Federação Comercial, sobre rotas do comércio intergaláctico, a rainha Padmé Amidala (Natalie Portman), do planeta Naboo, envia os dois cavaleiros Jedi, Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi. Eles, no entanto, caem numa armadilha e descobrem que há uma invasão planejada ao planeta Naboo. Acabam voltando a ele em naves invasoras e, ao se depararem com Jar Jar Binks, conhecem os Gungans, que vivem submersos num lago (a melhor criação de Lucas para o filme, embora com elementos de O segredo do abismo, de Cameron), com o objetivo de pedir ajuda para salvar Amidala (não nos percamos nos nomes). A rainha, mesmo sem a ajuda dos Gungans, acaba sendo salva, mas a nave de fuga de Naboo acaba tendo problemas – sendo salva por um droide, chamado R2-D2 (Kenny Baker) – e é obrigada a pousar no planeta desértico de Tatooine, palco de sequências em Guerra nas estrelas e O retorno de Jedi. Ali, Qui-Gon Jinn acaba descobrindo Anakin Skywalker (Jake Lloyd), criador do robô C-3PO (Anthony Daniels) e escravo do estranho alienígena voador Watto, que, para conseguir as peças que consertem a nave da rainha, precisa entrar numa corrida de miniespaçonaves (pods) no deserto, patrocinada por Jabba (o monstrengo da reedição de Guerra nas estrelas e de O retorno de Jedi). Anakin combaterá Darth Anakin vive com a mãe Shmi (Pernilla August).

É visível como Lucas, neste reingresso em seu universo, optou por um direcionamento infantojuvenil, tanto  no desenho dos personagens quanto na sucessão de batalhas que parecem mais parte de um video game. Porém, ainda assim, ele consegue desenvolver certa mitologia dos Jedi, por meio do encontro de Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi com Anakin. Resulta, por vezes, em certo material expositivo, e ainda assim se contrapõe às discussões sobre política no espaço sideral. Algumas cenas são verdadeiramente bem feitas, como a corrida de Anakin no deserto, proporcionando um visual notável, outras insistem demasiadamente num humor que se mostra deslocado. Lucas tenta mesclar o material mais sério da primeira trilogia, por meio de frases de sabedoria, e insere uma origem enigmática para o jovem Anakin, porém sem aliviar o peso de mostrá-lo como um escravo, em busca de libertação, o que concede uma complexidade ao que acontecerá depois a ele.

A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, Ataque dos clones, cujo tom interno é de mais melancolia e romance, contrariando o primeiro desta trilogia, mesmo com a habitual trilha sonora animada de John Williams. Os atores estão um tanto engessados pelo roteiro, e Hayden Christensen é uma escolha não tão acertada para Anakin Skywalker: ainda assim, quem faria melhor com os diálogos entregues, de uma simplicidade visível e que Harrison Ford certamente não seguiria? Bem, até Christensen não está tão mal numa revisão. O romance de Anakin com Padmé Amidala (Natalie Portman), que se transformou em senadora da República, acontece repentinamente; por outro lado, ele não desaquece a parte mais interessante, que é a perseguição de Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) a quem ameaça Amidala, chegando a Jango Fett (Temuera Morrison), pai do pequeno Boba (Daniel Logan) – um dos vilões da primeira trilogia. Yoda e Mace Windu (Samuel L. Jackson) estão preocupados com a revolta crescente de Anakin e entregam a ele a tarefa de vigiar Amidala. Anakin tem pesadelos com a mãe que não vê há dez anos, precisando regressar a Tatooine, num momento que remete à primeira trilogia. E há Christopher Lee como o Conde Dooku, trazendo intrigas aos jedi. A questão política envolvendo a princesa, por quem Anakin se apaixona, continua presente, e Palpatine (Ian McDiarmid) tenta organizar o jogo.

O filme inicia com uma perseguição fantástica em cenários que remetem a Blade Runner e segue em planetas oceânicos (Kamino, que possui uma estação com interiores evocando THX 1138, obra que projetou Lucas) ou desérticos, com fugas fantásticas em meio a meteoros. O desenho de produção deste episódio, vendo anos depois e com uma imagem melhor do que a do digital no cinema, destacando a fotografia de David Tattersall (e justificando por que as irmãs Wachowski o chamaram depois para fazer o trabalho em Speed Racer), é muito bom, escolhendo cores acertadas para cada ambiente – e isso é metade da fantasia. E a trama, se não tem grandes diálogos, nunca interrompe o fluxo: Lucas não é um grande diretor de atores, e ainda assim ele sabe dar uma cadência de aventura a suas histórias, baseando-se numa sensível melhora na atuação de McGregor em relação ao primeiro. Os últimos 40 minutos passados em Geonosis, uma espécie de Tatooine, reservam alguns momentos memoráveis, tanto em termos de efeitos especiais quanto de design, além das lutas. Lucas havia sido pego na metade do cainho pela onda O senhor dos anéis e tenta inserir um pouco desse universo em cenários de cavernas com inúmeras criaturas, antecipando igualmente John Carter, muito presentes no trabalho de Peter Jackson. A fascinação de Lucas pelo CGI e pelo digital também transforma alguns momentos muito próximos de uma animação, trazendo, por um lado, um trabalho interessante de cores e, por outro, uma certa artificialidade. E o filme, sem dúvida, cresce como uma antecipação de A vingança dos Sith, em razão de uma escalada rumo a um desfecho mais grandioso e que cria certo impacto e interessante para o melhor episódio da segunda trilogia.

As cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos de A vingança dos Sith não chegam a cansar, e Lucas entrega uma obra verdadeiramente à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Padmé Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação mais dedicada, fazendo um bom contraponto a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou um pouco à trilogia.
A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, porém pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Anakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu (Jackson) finalmente tem uma participação decisiva na história.

A revolta de Anakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Anakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, Ataque dos clones já tinha uma melancolia, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Anakin à Terra e o reencontro com Padmé Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com desenho de produção impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções clássicas deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode I – The phantom menace, EUA, 1999 Diretor: George Lucas Elenco: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, Ian McDiarmid, Anthony Daniels, Kenny Baker, Pernilla August, Frank Oz Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 138 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox


Star Wars: episode II – Attack of the clones, EUA, 2002 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Christopher Lee, Anthony Daniels, Kenny Baker, Frank Oz Roteiro: George Lucas e Jonathan Hales Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd Distribuidora: Fox Film

Série Indiana Jones (1981, 1984, 1989, 2008)

Por André Dick

Os caçadores da arca perdida, como se sabe, é a aventura que consagrou Indiana Jones como o herói da década de 1980, um arqueólogo que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas no Peru e traído pelo companheiro de viagem (um jovem Alfred Molina) – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula e é amigo do dono de museu Marcus Brody (Denholm Elliott), ele vai em busca da Arca da Aliança, no Poço das Almas, no Egito, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês René Belloq (Paul Freeman). e Major Toht. (Ronald Lacey) como líder imediato, ele reencontra uma antiga namorada, Marion Ravenwood.(Karen Allen), num bar do Nepal, com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Cairo, Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas e inserindo o ótimo personagem Sallah (John Rhys-Davies).

As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina. Ele possui medo mortal de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda. Os caçadores… recebeu cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de Lawrence Kasdan, baseando-se em história de George Lucas e Phillip Kaufman, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e trilha sonora (mais um trabalho marcante de John Williams, na sua melhor fase). E Spielberg já insere aqui a presença dos nazistas, o que trataria de modo histórico em A lista de Schindler. São eles que desejam a Arca da Aliança, com o objetivo de possuírem ter um acesso ao desconhecido. No entanto, deparam-se com Indiana Jones e com o fato de a Arca não poder ser aberta, pois, antes de mais nada, seria um veículo de “comunicação com Deus”, o que não seria propenso aos alemães seguidores de Hitler.

Indiana Jones e o templo da perdição segue Os caçadores da arca perdida, e, como o terceiro ato do filme de 1981, procura a ação incessante. Com roteiro de Gloria Katz e Williard Huyck (autores de Loucuras de verão com George Lucas), mostra o arqueólogo inicialmente em uma de suas jornadas por Shangai, China (em 1935, um ano antes do filme original), acompanhado por um ajudante mirim, Short Round (o ótimo Ke Huy Quan, de Os Goonies) e da cantora brega Willie Scott (Kate Capshaw). Sim, são dois estereótipos, mas nem por isso menos divertidos. Depois de um acidente de avião no Himalaia, eles caem perto da vila Mayapore, no norte da Índia, que teve suas plantações queimadas e as crianças levadas por uma entidade chamada Shiva, depois de uma pedra sagrada ter sido roubada.
Já se percebe que, mesmo com a ação fantasiosa de Os caçadores da arca perdida, Spielberg exerce seu poder sobre imagens que atraem pela inverossimilhança – é nisso o personagem sobrevive, cercado de personagens que parecem saídos de um musical dos anos 30 (não à toa, o filme começa exatamente com um número musical). Todo o modo com que Spielberg relata a primeira parte faz parte de outro imaginário, de produções B, ao contrário da classe atingida em Os caçadores da arca perdida.
Indiana chega com os amigos ao Palácio Pankot, onde, além de encontrar uma seita de fanáticos (com rituais macabros, como arrancar o coração de uma pessoa viva e afundá-la no fogo) liderada involuntariamente pelo marajá Zalim Singh (Raj Singh), descobre as crianças do vilarejo trabalhando feito escravas para procurar outras pedras sagradas, enterradas em catacumbas, onde existe uma mina. Já sabemos de início que ele não tem a seriedade de parte de Os caçadores da arca perdida, com suas referências religiosas, mas mesmo assim é um passeio curioso. Extremamente bem feito, a parte técnica tem achados (figurino e design de produção) e a direção de Spielberg em cenas como a do banquete ou do momento no qual Willie espera uma declaração amorosa de Indiana é particularmente inspirada. Às vezes, Spielberg se excede na violência, em oposição a um tratamento quase juvenil de determinadas situações e, em outras ele prefere a fantasia de modo preponderante, para aliviar alguma saída que soa um pouco realista demais para seu objetivo. De modo geral, ele conecta os personagens por meio da ação e o seu humor tenta equilibrar a narrativa.

Repleto de ação e talvez mais bem-humorado do que os dois primeiros, com a mesma trilha musical de John Williams, e roteiro elaborado por Jeffrey Boam (Máquina mortífera II). Indiana Jones e a última cruzada inicia mostrando a juventude de Indiana Jones (em atuação de River Phoenix) em 1912, fugindo de ladrões com uma relíquia em Utah. Reveça-se, de forma convincente, como surgiram o chapéu, o chicote e o medo de cobras do herói. Num salto no tempo, já adulto, luta contra os mesmos bandidos, atrás da mesma relíquia. A ação não para nunca, e talvez Spielberg esteja disfarçando um pouco que o filme é uma reedição de Os caçadores da arca perdida sob um ponto de vista da paternidade. Indiana entra no plano de reencontrar seu pai, desaparecido enquanto procurava o cálice do Santo Graal.
Seu pai, Henry Jones (Connery), foi capturado pelos nazistas e Indiana é contratado pelo milionário Walter Donovan (JUlian Glover) para encontrá-lo. Nesse meio tempo, ele tem um caso com Elsa Schneider (Alisson Doody), foge de ratos, há uma perseguição eletrizante de lanchas em Veneza, outra em motos, e se encaminha para a caverna onde está o Cálice do Graal. Bastante parecido com o primeiro também no que se refere ao aspecto religioso e o interesse nazista por peças religiosas, este Indiana é, com todo seu aspecto de filme de aventuras descompromissado, antológico. É impressionante como Spielberg consegue efetuar transições por meio de uma edição ágil e nunca torna a violência impactante em excesso, preferindo vê-la mais como numa espécie de animação. A ligação entre pai e filho também funciona não apenas por Ford e Connery, mas porque Boam consegue inserir elementos de melancolia e lembrança juvenil e de como uma relação passada não tão resolvida pode se manifestar melhor numa situação de alto risco, assim como o regresso dos personagens de Marcus Brody e Sallah adicionam elementos cômicos imprevistos e a fotografia de Douglas Slocombe, responsável pela dos dois filmes anteriores também, é exímia em captar dias ensolarados ou nublados, criando uma atmosfera imersiva. Também talvez seja interessante apontar como Quentin Tarantino se inspirou, aqui e ali, para compor seu roteiro de Bastardos inglórios.

Em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal, Harrison Ford decidiu regressar ao personagem de Indiana Jones depois de George Lucas e Steven Spielberg retomarem uma série que já era dada como finalizada. Neste episódio, os elementos lembram sobretudo do início de Os caçadores da arca perdida, no qual Indiana está no mesmo depósito do desfecho no primeiro filme, desta vez em 1957. Ele é capturado por agentes soviéticos liderado por uma agente russa, da KGB, Irina Spalko (Cate Blanchett), que deseja chegar a uma misteriosa caveira de cristal, capaz de dar acesso a um universo paralelo – e nesse caso já sabemos que, em se tratando de Spielberg, deve ser algo parecido com Contatos imediatos do terceiro grau. Toda essa parte termina com uma explosão bastante exagerada, mostrando que, se os outros tinham sequências inverossímeis, este se aprimora em fazê-las ainda mais inverossímeis.
Quando consegue fugir do grupo de soviéticos, Indy volta à universidade para lecionar história, mas é procurado por um jovem, Mutt Williams (Shia LaBeouf), que tem uma carta de Harold Oxley (John Hurt), passada por sua mãe, Marion (Karen Allen), da obra original. Este é o motivo para Indiana vir à América do Sul, investigar onde se encontram as pistas dadas por Oxley. O país é o Peru, fechando um círculo em relação ao primeiro filme, onde vai à noite a um cemitério, sendo atacado por várias crianças assustadoras, até chegar à caveira de cristal. Em seguida, ele é novamente capturado pelo grupo chefiado por Irina. Reencontra Marion e a ação incessante começa, para não parar mais, em meio a perseguições na Amazônia (obviamente impossíveis de acontecer).

O humor fica a cargo do quarteto Ford-LaBeouf-Allen-Hurt, explorando, de modo inteligente, um roteiro um tanto limitado de David Koepp (Jurassic Park) para o tempo que durou o hiato entre Indiana Jones e a última cruzada e este, de quase 20 anos, inserindo pelo menos um personagem dispensável: George “Mac” McHale (Ray Winstone). No entanto, é um referencial no que diz respeito a lances sobre os anos 50, desde os mistérios escondidos numa sede secreta dos militares até uma cidade com manequins para experimentos com a bomba atômica (e até esquecemos os momentos com as marmotas saindo de buracos na terra que aproximam Spielberg de uma tentativa de reproduzir a Disney). Trata-se de uma sátira, em alguns momentos, à Guerra Fria, no entanto sem se entregar a um revisionismo histórico previsível. As dicas estão lá e são muito bem inseridas em meio à história, com uma coerência por vezes não encontrada no mais elogiado Indiana Jones e o templo da perdição. .O interessante aqui também é a parte técnica: a fotografia de Janusz Kamiński evocando os anos 70 é excelente, e a trilha sonora de John Williams mais uma vez marca boa presença. O mais engraçado é, sem dúvida, Ford, sempre oferecendo uma boa interpretação, desta vez em estilo mais ranzinza,q que viria a adotar a partir de então. Entre efeitos visuais baseados em CGI ou locações de estúdio em alguns instantes, evocando as aventuras dos anos 50, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal parece ser, por enquanto, o penúltimo dessa série antológica, pois ainda se anuncia um quinto para 2022.

Raiders of the lost ark, Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliott Roteiro: Lawrence Kasdan Fotografia: Douglas Slocombe Trilha Sonora: John Williams Produção: Frank Marshall Duração: 115 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Indiana Jones and the temple of doom, EUA, 1984 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Ke Huy Quan Roteiro: Willard Huyck e Gloria Katz Fotografia: Douglas Slocombe Trilha Sonora: John Williams Produção: Robert Watts Duração: 118 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Indiana Jones and the last crusade, EUA, 1989 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover,Sean Connery Roteiro: Jeffrey Boam Fotografia: Douglas Slocombe Trilha Sonora: John Williams Produção: Robert Watts Duração: 126 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent, Shia LaBeouf Roteiro: David Koepp Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Frank Marshall Duração: 122 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Cruzada (2005)

Por André Dick

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Poucos são os cineastas que conseguem voltar a um tempo demarcado da história sem darem a impressão de que estão querendo apenas relatar fatos. Ridley Scott é um deles. Ele sempre fez filmes primorosos visualmente (como Os duelistas, Alien e Blade Runner). A partir do novo século, ele passou a focar mais em dramas cotidianos, mas sempre com cenários elaborados, alternando com peças de sentido histórico. Vencedor do Oscar em 2001, Gladiador é um feito moderno da narrativa mais simples e, ao mesmo tempo, épica, grandiosa. O personagem principal, interpretado por Russel Crowe, é traído e precisa recuperar sua dignidade voltando à Roma para salvá-la de um tirano (Joaquin Phoenix), o filho do antigo César. O argumento é mais do que previsível, contudo Ridley Scott consegue transformá-lo em imagens antológicas de lutas em arenas, com atuação eficiente de todo o elenco. A direção de arte e os efeitos especiais também são de muita consistência, sobretudo porque estamos diante de um filme de época, que nos faz crer que Roma está de volta.

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Também não há muitos filmes em que o corte do diretor realmente mude o significado da história e da narrativa. O portal do paraíso talvez seja o mais representativo, em razão da polêmica que cercou o corte imposto à metragem original da obra de Cimino. E há os cortes com os quais os diretores não concordam, como aquele de Duna, nunca aceito por David Lynch. Nos últimos anos, talvez não haja outro corte novo tão significativo quanto o de Cruzada, feito por Ridley Scott. A duração original tinha 144 minutos e a que saiu em Blu-ray tem 194 minutos, ou seja, quase uma hora de acréscimo. O filme com a metragem original tinha uma grande qualidade, no entanto era irregular; Scott, por meio dessas cenas novas, mostra realmente um épico. Talvez essa diferença não funcione com todos, talvez eu tenha visto a primeira versão em uma época em que esperava mais, e hoje esse gênero de filme parece mais raro; particularmente, a versão estendida de Cruzada é extraordinária, um dos melhores momentos na trajetória de Scott.
O filme inicia em 1184, mostrando um ferreiro, Balian (Orlando Bloom), na França, às voltas com a perda recente da esposa, que se suicidou depois de perder o bebê. Chega à sua cidade o Barão Godfrey de Belin (Liam Neeson), que pede a Balian para que o acompanhe em direção à Terra Santa. Godfrey lhe pede para que sirva ao Rei de Jerusalém, Rei Baldwin IV (Edward Norton, escondido atrás de uma máscara de ferro), assessorado por Tiberias (Jeremy Irons), o Marechal de Jerusalém. O rei é irmão da princesa Sibylla (Eva Green), que se interessa por Balian, enquanto seu marido Guy de Lusignan (Marton Csokas) investe contra os muçulmanos com a Ordem dos Templários. Abre-se uma guerra de Jerusalém contra Saladino (Ghassan Massoud).

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Dizer que Cruzada tem elementos de Gladiador, filme anterior de Ridley Scott, é bastante claro. Mas eis uma obra em que realmente a fotografia, de John Mathieson, faz uma diferença imprescindível, auxiliado pelo fabuloso desenho de produção. Se Orlando Bloom se entrega com certa dificuldade ao papel principal – e seus conflitos nunca são devidamente externados –, Scott selecionou um grande elenco coadjuvante, não apenas Norton, Irons e Massoud, mas Eva Green em um dos momentos de início de carreira mais exitosos. Sua personagem em Cruzada é possivelmente a mais elaborada do roteiro, adotando uma dualidade estranha, e, ao mesmo tempo que tenta ser sedutora, é abalada pela tragédia. É Green quem conduz com talento as cenas com Bloom. Trata-se de um personagem feminino típico da filmografia de Scott, que lançou a Ripley de Sigourney Weaver em 1979 e pouco mais de uma década depois fez Thelma & Louise. A personagem de Green se conecta com essas personagens na maneira de ver além de seu tempo, e Scott deseja visualizá-la com os encantos de Marion Cotillard de Um bom ano num cenário justificado de combate entre exércitos.

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Já Scott filma não apenas cenários do Oriente Médio com um talento impressionante, como faz uma batalha final (de em torno de 40 minutos) com a mesma persuasão de Kurosawa em Ran, como apontou certa crítica. Não estamos mais no meio da fantasia, mas de uma reprodução da história poucas vezes igualada na história do cinema. Se a atuação de Bloom não está à altura dessa grande condição alcançada pelo filme, não exatamente importa: a versão com mais de três horas concede a ele uma chance a mais, com sequências não quebradas de maneira abrupta como na versão que foi aos cinemas. Com este filme, também se conclui que os anos 2000 não ficam para trás dos anos 70-80 na qualidade da obra de Scott: Cruzada forma um número de fpeas muito interessantes, ao lado de Falcão negro em perigo, Os vigaristas e O gângster.

Kingdon of heaven, EUA, 2005 Diretor: Ridley Scott Elenco: Orlando Bloom, Eva Green, Jeremy Irons, David Thewli, Brendan Gleeson, Marton Csokas, Liam Neeson, Marton Csokas Roteiro: William Monahan Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Ridley Scott Duração: 144 min. (versão de cinema) 194 min. (versão estendida) Estúdio: Scott Free Productions,
Inside Track,Studio Babelsberg Motion Pictures GmbH Distribuidora: 20th Century Fox

 

 

O curioso caso de Benjamin Button (2008)

Por André Dick

Esta fábula dirigida por David Fincher pode parecer, à primeira vista, um Forrest Gump com menos humor, mas fica apenas na superfície a comparação. Em certos aspectos também parecido com Peixe grande, de Tim Burton, embora superior, o filme de Fincher tem um lado fabular não apenas pela figura de Benjamin Button, que nasce velho e vai rejuvenescendo. Isso seria o resultado de uma espécie de pedido feito por Monsieur Gateau (Elias Koteas), que está construindo o relógio da estação de trem de Nova Orleans e, tendo perdido seu filho na guerra, gostaria que o tempo contasse para trás (spoilers a partir daqui)..
Nascido no dia de encerramento da Primeira Guerra, em 1918, Button é abandonado pelo pai, Thomas Button (Jason Flemyng) na escadaria de um asilo e acolhido por uma afro-americana, Queenie (Taraji P. Henson), uma enfermeira, e seu namorado Tizzy (Mahershala Ali). Neste ambiente, em que a morte está presente todos os dias, e também trazendo todas as enfermidades no corpo de nenê, Button se refugia do restante do mundo. No entanto, já um pouco crescido (embora curvado e numa cadeira de rodas), é levado pela mãe adotiva a uma missa, sob as preces de um pastor começa a andar – lembrando também o filme com Tom Hanks – e, aos poucos, vai se acostumando a sair de casa, até que conhece Daisy (na infância, Ellen Fanning; na vida adulta Cate Blanchett), cuja avó mora no asilo.

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É esse amor que vai acompanhá-lo a vida toda, até que se reencontram quando têm a mesma idade, ou seja, no meio da vida. Tal drama – de o personagem nunca pertencer totalmente a seu tempo – é o que torna o filme de Fincher tão denso, assim como a maneira com que expõe o relato da mulher apaixonada por Benjamin.
Ao mesmo tempo, temos o relato de Daisy já envelhecida, acompanhada de Caroline (Julia Ormond), sua filha num hospital, que lê o diário de Benjamin, enquanto se aproxima a tempestade do Katrina. Suas lembranças não são apenas aquelas de que a mãe participa, mas principalmente as de Benjamin, que conta sobre o dia em que conhece Ngunda Oti (Rampai Mohadi), que, pelo tamanho, acha ser uma pessoa muito próxima e enfrenta seu primeiro afastamento de casa; sua amizade com o capitão Mike (Jared Harris), que lhe dá um emprego em seu rebocador, o leva para conhecer um bordel, em cuja saída acaba sendo abordado, sem saber, pelo pai; e o seu envolvimento com Elizabeth Abbott (Tilda Swinton, sempre com uma discrição elegante), mulher de um espião inglês, a qual conhece num hotel em que fica hospedado enquanto aguarda o momento de ir para alto-mar.

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Numa dessas idas e vindas, o rebocador de Mike é chamado para servir na Segunda Guerra, e Benjamin se oferece para integrar a tripulação. Todas essas lembranças são filmadas de maneira delicada por Fincher, utilizando de maneira irrepreensível os cenários, quase sempre vazios, mas acolhedores, como aquele em que Benjamin encontra sua amante (o filme recebeu o Oscar de direção de arte) no hotel. Entre idas e vindas para o asilo, Benjamin não consegue esquecer Daisy, sua paixão desde a infância, desde o momento em que conversa com ela debaixo de uma cabana na sala do asilo, iluminado pelas lanternas (como algum registro perdido de Wes Anderson), e ela se torna dançarina, participando de um grande grupo de balé, levando a uma das mais belas cenas – quando ele a contempla dançar depois de anos em frente a um espelho de estúdio.
O roteiro é de Eric Roth, o mesmo que realizou o de Forrest Gump, a partir de uma história de F. Scott Fitzgerald, talvez por isso haja elementos de ligação entre os dois filmes. O terreno é o da fantasia, pouco experimentado por Fincher, a não ser em Alien 3, com todo seu peso e opressão, expandido em policiais de serial killers de Zodíaco, Seven e Millennium e na claustrofobia de O quarto do pânico e Clube da luta. Mas em Benjamin Button o plano trágico do personagem – de ter sido abandonado e não recebido o amor da mãe, como acontece com Forrest – se destaca nas mãos de Fincher.

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Vemos seu personagem por dentro, ou seja, não é um simples arquétipo de fábula ou uma história universal, mas trágico,  o que é traduzido por uma das melhores interpretações até hoje de Brad Pitt. Nesse sentido, ainda mais interessante o romance atemporal de Benjamin pela amada e a noção de que a origem pode também representar o fim, ou vice-versa, e Cate Blanchett, com seu habitual distanciamento , convence. Todos esses sentimentos são reunidos com singularidade por Fincher, e a atmosfera do filme adquire um grau de melancolia que abrange tanto os afastamentos de Button da família e de Daisy (quase forçados) quanto aqueles em relação aos amigos que ele fará, mas certamente não irá manter, seja pela separação, seja pela perda. Há uma ambientação poucas vezes vista em outros filmes, em que o tempo ganha uma aceleração e uma permanência, uma aproximação e uma distância. Benjamin, ao contrário de Gump, não participa de grandes realizações, mas está permanentemente interessado em concretizar seu amor por Daisy e, quando participa de um acontecimento, como o da Segunda Guerra, é mais como coadjuvante.
Ainda assim, isso parece proposital em Fincher: ele está justamente mostrando um personagem singular, que não consegue se inserir nunca no tempo em que está. Também parece não ter interesse especial por isso: ele está mais interessado em reencontrar o espaço onde foi salvo, como se a ele tivesse de se apegar para a continuidade de sua existência. O espaço do asilo é sempre uma referência para a junção dos tempos que se perderam, assim como os comentários de um senhor sobre fatos de seu passado e os encontros tardios com seu pai.

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O que realmente é curioso no filme de Fincher é como esse quadro sentimental de vários personagens não tenta ser, em nenhum momento, piegas: sua emoção surge não dos personagens, mas da maneira como as imagens foram selecionadas. De inegável beleza toda a trajetória do casal pelos anos 60, pintando o apartamento e vivendo de forma descompromissada, acentuando a solidão de cada imagem; ou de Pitt, lembrando o Marlon Brando de O selvagem da motocicleta, andando numa estrada deserta e encoberta por nuvens escuras.
O filme ganha relevo por meio da bela fotografia de Claudio Miranda e da trilha sonora arrebatadora de Alexandre Desplat (lembrando alguns elementos daquela que Morricone fez para Cinzas no paraíso). Miranda filma Benjamin Button com os detalhes que conhecemos em outras obras de Fincher, e ele prossegue a linha de imagem entre o amarelo e o verde de O quarto do pânico, Zodíaco, e, depois de Benjamin Button, de Millennium e A rede social, sempre com as digitais de Fincher. Cada instante do filme de O curioso caso de Benjamin Button consegue arrebatar pela melancolia.

The curious case of Benjamin Button, EUA, 2008 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Mahershala Ali, Fiona Hale, Elle Fanning, Jared Harris, Tilda Swinton Roteiro: Eric Roth Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Ceán Chaffin, Kathleen Kennedy, Frank Marshall Duração: 166 min. Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / The Kennedy/ Marshall Company Distribuidora: Paramount Pictures (América do Norte) e Warner Bros. Pictures (Internacional)

Embriagado de amor (2002)

Por André Dick

Continuar a carreira iniciada com um filme sobre artistas pornôs e, decisivamente, sobre ser solitário nos anos 1970 (em Boogie Nights) com um filme interligando várias histórias, nos moldes de Robert Altman em Short Cuts, é para poucos diretores, inclusive para os mais firmados. Paul Thomas Anderson faz exatamente isso em Magnólia, em que o ponto-chave é a relação entre um senhor que está morrendo, Earl Partridge (Jason Robards), assessorado por sua jovem mulher, que se casou por dinheiro, Linda (Julianne Moore), bem mais jovem e seu enfermeiro, Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), e um conselheiro de sexo, Frank Mackey (Tom Cruise).
Mas, em meio a essa história, temos um flashback, com a história de um menino, Stanley Spector (Jeremy Blackman), que deseja ser ganhador de um programa de perguntas e respostas, cujo apresentador, Jimmy Gator (Philip Baker Hall), sofre de câncer, e uma trilha saborosamente setentista; um policial, Jim Kurring (John C. Reilly), que se apaixona por uma das vítimas que visita etc.; um homem, Donnie Smith (William H. Macy), apaixonado por um atendente de bar e com planos de assaltar sua empresa. Apresentando movimentos de câmera que complementam a história, ou seja, não mostram apenas virtuosismo, Magnólia é um filme de roteiro (indicado ao Oscar) e elenco completos.

Nele, existe o desespero existencial que caracteriza Anderson, assim como a dualidade entre a amoralidade ligada a problemas familiares e a obsessão pela conquista do dinheiro. No entanto, a base é a mesma: a constituição e genética de uma família, a relação conflituosa entre pais e filhos; o peso do passado sobre o presente e o reflexo no futuro. Temos o apresentador de TV e o idoso na cama, enigmático, como Bowman em frente ao monolito, que caracterizam essa falha diante dos bens materiais, quando por trás se esconde várias peças não resolvidas – Cruise falando de sexo para uma jornalista o leva para o lado oposto do personagem de De olhos bem fechados – e um cosmos todo ampliado de sensações que vagam a cada corte, com a trilha incessante de fundo.
Há algumas cenas enigmáticas (como a conhecida chuva de rãs, com fundo bíblico) e, por mais que o próprio título não chega a se explicar totalmente (a não ser por uma ligação geográfica), é difícil encontrar um elenco coadjuvante tão à altura do desafio – temos William H. Macy em momento especialmente bom; também Reilly, quando seu tipo não havia cansado, e, reitera-se, um surpreendente Cruise, além das habituais atuações convincentes de Moore, Seymour Hoffman e Robards.

Se Magnólia é o registro do potencial de Anderson para focalizar a comunidade, na sua peça seguinte, Embriagado de amor, o personagem vivido por Adam Sandler, Barry Egan, representa um salto para a estranheza e a solidão. Com um comportamento violento em momentos-chave, atenuado pelo amigo Lance (Luis Guzmán), Egan tem uma súbita transformação em razão do interesse amoroso que tem por Lena Leonard (por Emily Watson, sempre discreta e eficiente), amiga de sua irmã Elizabeth (Mary Lynn Rajskub). E isso vem acompanhado pelo conflito que tem com o chefe de um telessexo, Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman, às vezes aterrorizador), que pretende extrair dele o máximo de dinheiro, por chantagem, porque quer encobrir uma ligação num momento em que começa a descobrir o mundo do amor. Há muito de Uma mulher é uma mulher, de Godard, sobretudo no uso do figurino dos personagens.
É bem verdade que some, aos poucos, a impressão de que estamos diante de uma comédia – expectativa causada pela presença de Sandler. É mais um drama amargo, agricoce, com pontos de humor aqui e ali e uma tensão permanente no ar, talvez por falta do que se dizer em muitos momentos, próximo de um filme de terror, com sons asfixiantes ao fundo. Numa sequência, acontece um acidente perto do lugar onde o personagem de Sandler trabalha e também aparece um piano, como se saído do imaginário do personagem, que passa a ir ao supermercado comprar um determinado produto a fim de adquirir milhas de viagem aéreas (e o ambiente lembra o do videoclipe “Fake plastic trees”, do Radiohead). Ver Sandler pulando em meio a prateleiras de produtos coloridos caracteriza algum espírito ao mesmo tempo rebelde e conservador deste início de século. Seu personagem é um neurótico, e o ator oferece essa dimensão mesmo sem o auxílio de muitas falas no roteiro: Egan é quase insuportável em seus maneirismos e irritações, preso a seu mundo de trabalho. No entanto, Anderson o visualiza como uma representação do amor que deseja mostrar. Sem sua existência, talvez não tivéssemos os homens deslocados de Sangue negro, O mestre, Vício inerente e Trama fantasma.

Por isso, o roteiro tem uma certa ideia metafórica do amor: os cenários são sempre extensos e é difícil passar por eles, como sentimentos, sendo preciso esperar por um breve encontro num lugar que traz certa fantasia romântica, como é o Havaí. Depois, é preciso enfrentar os vilões que desejam atrapalhá-lo, numa perseguição por uma noite escura. Trata-se de uma espécie de Kubrick falando de romantismo, e muitas cenas se mostram enigmáticas, mas às vezes sem a sutileza que caracteriza o trabalho de Anderson (vencedor do prêmio de diretor em Cannes por este trabalho). O personagem deve ser como é: alguém problemático, em certos momentos transtornado (como quando quebra um banheiro de restaurante), mas ao mesmo tempo calmo e tímido. Ele veste um terno azul, enquanto a personagem Emily gosta de vermelho.
Toca, em determinado ponto, “He ned’s me”, que Shelley Duvall, como Olívia Palito, cantava em Popeye. Todas as cores são trabalhadas para que no intervalo apareçam aquelas que remetem a algum ponto perdido dos anos 1950. E Phillip Seymour Hoffman grita ao telefone querendo mais dinheiro de Barry Egan, assustando o espectador. São nuances interessantes, e o diretor Anderson tem talento para travellings estilísticos (que se acentuariam em sua obra-prima Sangue negro), mas aqui não resolve totalmente as ligações, como havia mostrado em seus filmes anteriores, transformando sua peça mais numa metalinguagem definida como tal. Barry Egan diz que descobriu um amor, mas não se sente uma paixão surgindo (como, diante deste, o linear e clássico Antes do pôr do sol), e sim Anderson querendo veicular a imagem que ele tem do amor por meio de cenários e comportamentos.

Punch-drunk love, EUA, 2002 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Mary Lynn Rajskub Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Jon Brion Produção: JoAnne Sellar, Daniel Lupi, Paul Thomas Anderson Duração: 95 min. Estúdio: Revolution Studios, New Line Cinema Distribuidora: Columbia Pictures

Maria Antonieta (2006)

Por André Dick

A cineasta Sofia Coppola costumava, até se transformar em diretora, ser mais lembrada por sua participação um tanto deslocada em O poderoso chefão III (no qual fazia a filha do chefão Pacino, apaixonada pelo seu primo, interpretado por Andy Garcia). Nada que antecipasse seu talento como diretora, assim como já ocorria em As virgens suicidas e Encontros e desencontros. Além de sempre escolher bem o elenco e a equipe técnica, com destaque para o fotógrafo Lance Acord, em mais um trabalho notável aqui, tudo no trabalho de Sofia é lento e gradual: as cenas se apresentam como uma espécie de teatro encenado muitas vezes que, de tão representado, fica natural.
Kirsten Dunst interpreta Maria Antonieta, filha de Maria Teresa (Marianne Faithfull), que se casa com Luís XVI (Jason Schwartzman), prestes a assumir no lugar de rei Luís XV (Rip Torn), e se muda para a França. Lá, ela é recepcionada pela condessa de Noailles (Judy Davis). Mostrando sua aproximação com o marido em casamento arranjado, Sofia questiona até que ponto Maria Antonieta representa a liberdade e a prisão de uma mulher destinada a fazer história.

Dedicada às caminhadas pelo Palácio de Versalhes e indiferente ao que acontece com o povo (“Que comam os brioches” é sua famosa frase, antes da guilhotina, que não aparece), Sofia tem uma percepção atenta e destaque para detalhes como a primorosa direção de arte e o figurino oscarizado de Milena Canonero, tornando o mundo em que vivia Maria Antonieta tão pop – não diria exatamente extravagante, apesar dos exageros em todas as suas cores – quanto o de uma adolescente com cartazes em seu quarto, embalando o filme com uma trilha dedicada a bandas da atualidade (como The Strokes, Gang of Four, The Cure, New Order, Air), o que confunde os tempos. É justamente este elemento pop –  não menosprezando, visualmente, suas influências, que vão de Amadeus, de Milos Forman, a O novo mundo, de Malick – que sustentam o filme e lhe oferecem um rosto contemporâneo. Cada gesto é delineado a partir de um cuidado – às vezes rebuscado – com as cores, ressoando esta geração que cerca os Coppola, incluindo Sofia, Roman e Wes Anderson.

A Revolução Francesa não pode surgir nem em sua imaginação porque Maria Antonieta  é povoada pelas ideias de uma jovem descompromissada. Recebendo joias e festas de presente, não é do seu interesse nenhum contexto. Mas Sofia não a condena por isso. Como seu posicionamento diante das virgens suicidas e de Charlotte, em Encontros e desencontros, Maria Antonieta é uma espécie de heroína, destinada à tragédia de não conseguir simbolizar alguma ruptura na história e não se interessar por política – e ter seu nome tão lembrado nos livros, sobretudo pela miséria do povo no período em que foi o comentário principal. Seus devaneios com o amante, Conde Axel von Fersen (Jamie Dornan), e a pouca atenção dada ao Imperador Joseph II (Danny Huston), seu irmão que a aconselha a parar com festas, com as drogas (em meio a fumaças de ópio, a bebida) são apenas acréscimos numa trajetória cuja finalidade é servir ao marido e ter filhos.
Na verdade, por mais que Sofia esconda, pois sua narrativa é sempre despistada por cores de cenários e atuações leves, há uma espécie de tragédia nesta vida em que parece não haver tragédia alguma – é como se Maria Antonieta acordasse como Paris Hilton, mas vivesse como um personagem em meio às névoas de Shakespeare. Sem entender exatamente seu posto, recém-saída da adolescência, Maria Antonieta não deixa de enfrentar as maledicências com um choro escondido atrás da porta, e também não deixa de tentar fazer política de bom relacionamento com quem se aproxima para tentar reverenciá-la. Na ida à ópera, foge, para admiração de Luís XVI, do convencional e aplaude os componentes da peça, sendo observada como se fosse John Merrick em O homem elefante. Em meio a isso, o ar entre o cômico e o entendiado do rei Luís XVI ganham uma interpretação definitiva com o subestimado Schwartzmann (de Rushmore e Moonrise Kingdom). E a amante de seu pai Madame du Barry (Asia Argento) também chama a atenção.

O senso de responsabilidade, para Sofia, é o mesmo: a cobrança feita à mulher parece igual, independente da situação. Seus personagens, aqui, estão envolvidos com trivialidades, como estivemos em qualquer época da história, e isso, além de não causar uma densidade que esperaríamos num drama histórico (não é o objetivo de Sofia), torna tudo mais acessível e mainstream. No entanto, Sofia não ingressa numa questão feminista. Do mesmo modo, ela não torna o plano social (que prejudicaria o entendimento do filme, que é justamente enfocar personagens à parte de um universo real) uma extensão de suas preocupações, como o faz Arcell em O amante da rainha, que se inspira claramente em Maria Antonieta, mas acaba sucumbindo, em determinados momentos, tanto ao elenco mais limitado quanto ao peso de determinados aspectos. Quando ela vai a festas, seu comportamento é exatamente de uma mulher que não vivenciou o encontro não planejado pela corte – e Sofia registra cada festa não como uma passarela pessoal e sim como um lugar para se esconder quem é, atrás da máscara, vestindo outra personagem.

Do mesmo modo, quando Sofia filma os doces, as roupas e as joias, com um registro sonoro dos anos 80, parece querer transformar Versalhes numa espécie de extensão da new wave, embora, para a personagem principal, seja mais do que um belo lugar, com suas árvores transplantadas: trata-se de uma espécie de prisão pessoal, uma espécie de exílio da juventude, onde ela deixará tudo que imaginava esquecer em algum momento. Na terceira parte do final, quando ingressamos na saturação dos prazeres de Maria Antonieta, o filme declina um pouco de sua tentativa de se manter alheio à história. Quando há discussões ao redor de uma mesa, com Luís XVI, elas sempre continuam no terreno do comportamento juvenil, com o personagem olhando a esposa com uma luneta de papel, mas o contexto se esforça para fazer parte da visão de Sofia. Trata-se do momento mais fraco de Maria Antonieta, ainda que com a fotografa de Acord perfeitamente agradável.
Kirsten Dunst  substitui o papel de namorada do Homem-Aranha pela mulher de vestidos suntuosos que abalou a França numa determinada época e a questão é que devemos estar atentos à história, pois é ela, trivial ou não, que nos move – e nos manter à distância desse universo enfocado, sobretudo o político – e sua atuação consegue ser eficiente sempre que chamada ao centro da ação. Mais ainda: como demonstraria mais adiante, sobretudo em Melancolia, Kirsten guarda uma certa tristeza que se confunde ao que ela consegue elaborar por meio da personagem, sem atrair o filme para um lugar em que não se quer mais vê-lo. Maria Antonieta ainda guarda sua maior atuação, e isso não é pouco, além de também ser o melhor filme de Sofia Coppola.

Marie Antoinette, EUA, 2006 Diretor: Sofia Coppola Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Judy Davis, Asia Argento, Marianne Faithfull, Aurore Clément, Steve Coogan Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Lance Acord Produção: Sofia Coppola, Ross Katz Duração: 123 min. Estúdio: Pricel, Tohokushinsha Film Corporation, American Zoetrope, Pathé Distribuidora: Columbia Pictures Corporation

Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Por André Dick

A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado competência em Amnésia e em Insônia, mas passou a ser visto como cineasta mais popular por meio de Batman begins. Nele, o super-herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (Liam Neeson), que pretende dizimar a civilização decadente com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme.

Ela quer prender os integrantes do crime organizado de Gotham, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman) e a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard, em tom crescente e efetivo). Ou seja, Nolan tem uma clara opção em situar o personagem sob uma luz mais realista.

De qualquer modo, Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan desenha seus personagens de maneira equivalente com seus objetivos. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman, é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher. Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é cuidadosa em todos os seus quesitos.
O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação visual do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Numa nova sessão, de qualquer modo, é uma obra que se encontra cada vez mais contemporânea, além de influência direta na maioria dos filmes adaptados de quadrinhos. É visível a influência de Nolan do cineasta Michael Mann, principalmente aquele de Fogo contra fogo e Miami Vice, de alguns anos antes. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton, com acentos dramáticos funcionais. O não emprego de humor no personagem principal, um super-herói amargurado, talvez deixe a narrativa mais pesada, e isso se reproduz no clima proporcionado pela fotografia belíssima de Wally Pfister, diferenciando-se de suas versões anteriores, mesmo daquela de Burton. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação: os acontecimentos do início do século XXI estão subentendido pelo roteiro. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Heath Ledger, que recebeu um Oscar póstumo merecido de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos, tendo à frente Frank Miller, e decisivamente psicopata. O Coringa de Jack Nicholson no Batman de Burton era tão desequilibrado quanto, mas com nuances mais atenuadas e um humor corrosivo às vezes de tom infantojuvenil. Estamos diante de um vilão que coloca não apenas Batman em xeque, como todo o sistema (policial, jurídico) da cidade. Não se pode acreditar em mais ninguém; tudo está sob suspeita. A vida de Wayne se sente vazia, tanto quanto a de Dent em busca de correção.

Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador quase sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o a trilha sonora tensa de Howard e Zimmer quase não se ausenta, sendo interrompida apenas num ato final um pouco mais expositivo do que o restante.
Algumas das peças cinematográficas de Nolan têm mais de um final, e este tem pelo menos três, no entanto quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. Seu Batman é um super-herói endurecido pela realidade de Gotham, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries, sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa. Há nessas sequências, também, uma referência à tortura de terroristas, bem enfocada em A hora mais escura, alguns anos depois, por Kathryn Bigelow. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Porém, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. O dilema aqui ultrapassa a tendência romântica do super-herói e chega a um ponto em que não consegue mais controlar sua tendência de buscar a todo custo coibir que o crime tome conte de sua cidade.

Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que ateia fogo a uma pilha gigantesca de dinheiro, com o empenho apenas de destruir. Por exemplo, a cena do hospital é grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de uma ficção, e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado, como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros. São momentos em que o gênero de filme de super-heróis se mescla ao thriller urbano. Ao contrário de Batman begins, que preferia mostrar becos enfumaçados e muita chuva, O cavaleiro das trevas prefere a simetria de arranha-céus e esconderijos tecnológicos, além de uma noite asséptica, com grandes avenidas vazias.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred ou o cientista Lucius Fox. Há várias obras coladas nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que toma como fundo a transformação da sociedade, seja com sua horda de gângsteres terroristas, seja com um tom até mesmo otimista diante de tudo. Nolan também está interessado em Batman como alguém que vigia a todos por meio de celulares, antecipando uma era moderna, e constantemente perturbado por um passado que não consegue resolver. Talvez seja ainda aquele filme de super-heróis que conseguiu estabelecer um vínculo direto com a realidade e mesmo por isso fez tamanho sucesso. Seu roteiro responde por vários pontos, inclusive pelo talento de Nolan em transformar o que seria menos respeitoso em algo com certo tamanho irrestrito.

The dark knight, EUA/Reino Unido, 2008 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Nestor Carbonell, Melinda McGraw, William Fichtner, Nathan Gamble Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: James Newton Howard, Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas, Lorne Orleans Duração: 152 min. Estúdio: Legendary Pictures, Syncopy Films, DC Comics Estúdio: Warner Bros. Pictures