Star Wars: A ameaça fantasma (1999), Ataque dos clones (2002) e A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar.
Iniciando por uma retrospectiva da série, o que mais chama a atenção em A ameaça fantasma é que Lucas apresenta personagens interessantes, mesmo não substituindo o carisma dos originais. Na pele do mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson consegue mostrar novamente que é um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas. Parece ser de Ewan McGregor, na pele de Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente (se alguém esquecer outro personagem do filme), levemente deslocado, sendo, no período, um ator de produções independentes, como Cova rasa e Trainspotting.

A história do primeiro episódio da nova trilogia é simples como todas as outras da saga, embora aqui com peso maior político. A fim de realizar um acordo com a Federação Comercial, sobre rotas do comércio intergaláctico, a rainha Padmé Amidala (Natalie Portman), do planeta Naboo, envia os dois cavaleiros Jedi, Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi. Eles, no entanto, caem numa armadilha e descobrem que há uma invasão planejada ao planeta Naboo. Acabam voltando a ele em naves invasoras e, ao se depararem com Jar Jar Binks, conhecem os Gungans, que vivem submersos num lago (a melhor criação de Lucas para o filme, embora com elementos de O segredo do abismo, de Cameron), com o objetivo de pedir ajuda para salvar Amidala (não nos percamos nos nomes). A rainha, mesmo sem a ajuda dos Gungans, acaba sendo salva, mas a nave de fuga de Naboo acaba tendo problemas – sendo salva por um droide, chamado R2-D2 (Kenny Baker) – e é obrigada a pousar no planeta desértico de Tatooine, palco de sequências em Guerra nas estrelas e O retorno de Jedi. Ali, Qui-Gon Jinn acaba descobrindo Anakin Skywalker (Jake Lloyd), criador do robô C-3PO (Anthony Daniels) e escravo do estranho alienígena voador Watto, que, para conseguir as peças que consertem a nave da rainha, precisa entrar numa corrida de miniespaçonaves (pods) no deserto, patrocinada por Jabba (o monstrengo da reedição de Guerra nas estrelas e de O retorno de Jedi). Anakin combaterá Darth Anakin vive com a mãe Shmi (Pernilla August).

É visível como Lucas, neste reingresso em seu universo, optou por um direcionamento infantojuvenil, tanto  no desenho dos personagens quanto na sucessão de batalhas que parecem mais parte de um video game. Porém, ainda assim, ele consegue desenvolver certa mitologia dos Jedi, por meio do encontro de Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi com Anakin. Resulta, por vezes, em certo material expositivo, e ainda assim se contrapõe às discussões sobre política no espaço sideral. Algumas cenas são verdadeiramente bem feitas, como a corrida de Anakin no deserto, proporcionando um visual notável, outras insistem demasiadamente num humor que se mostra deslocado. Lucas tenta mesclar o material mais sério da primeira trilogia, por meio de frases de sabedoria, e insere uma origem enigmática para o jovem Anakin, porém sem aliviar o peso de mostrá-lo como um escravo, em busca de libertação, o que concede uma complexidade ao que acontecerá depois a ele.

A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, Ataque dos clones, cujo tom interno é de mais melancolia e romance, contrariando o primeiro desta trilogia, mesmo com a habitual trilha sonora animada de John Williams. Os atores estão um tanto engessados pelo roteiro, e Hayden Christensen é uma escolha não tão acertada para Anakin Skywalker: ainda assim, quem faria melhor com os diálogos entregues, de uma simplicidade visível e que Harrison Ford certamente não seguiria? Bem, até Christensen não está tão mal numa revisão. O romance de Anakin com Padmé Amidala (Natalie Portman), que se transformou em senadora da República, acontece repentinamente; por outro lado, ele não desaquece a parte mais interessante, que é a perseguição de Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) a quem ameaça Amidala, chegando a Jango Fett (Temuera Morrison), pai do pequeno Boba (Daniel Logan) – um dos vilões da primeira trilogia. Yoda e Mace Windu (Samuel L. Jackson) estão preocupados com a revolta crescente de Anakin e entregam a ele a tarefa de vigiar Amidala. Anakin tem pesadelos com a mãe que não vê há dez anos, precisando regressar a Tatooine, num momento que remete à primeira trilogia. E há Christopher Lee como o Conde Dooku, trazendo intrigas aos jedi. A questão política envolvendo a princesa, por quem Anakin se apaixona, continua presente, e Palpatine (Ian McDiarmid) tenta organizar o jogo.

O filme inicia com uma perseguição fantástica em cenários que remetem a Blade Runner e segue em planetas oceânicos (Kamino, que possui uma estação com interiores evocando THX 1138, obra que projetou Lucas) ou desérticos, com fugas fantásticas em meio a meteoros. O desenho de produção deste episódio, vendo anos depois e com uma imagem melhor do que a do digital no cinema, destacando a fotografia de David Tattersall (e justificando por que as irmãs Wachowski o chamaram depois para fazer o trabalho em Speed Racer), é muito bom, escolhendo cores acertadas para cada ambiente – e isso é metade da fantasia. E a trama, se não tem grandes diálogos, nunca interrompe o fluxo: Lucas não é um grande diretor de atores, e ainda assim ele sabe dar uma cadência de aventura a suas histórias, baseando-se numa sensível melhora na atuação de McGregor em relação ao primeiro. Os últimos 40 minutos passados em Geonosis, uma espécie de Tatooine, reservam alguns momentos memoráveis, tanto em termos de efeitos especiais quanto de design, além das lutas. Lucas havia sido pego na metade do cainho pela onda O senhor dos anéis e tenta inserir um pouco desse universo em cenários de cavernas com inúmeras criaturas, antecipando igualmente John Carter, muito presentes no trabalho de Peter Jackson. A fascinação de Lucas pelo CGI e pelo digital também transforma alguns momentos muito próximos de uma animação, trazendo, por um lado, um trabalho interessante de cores e, por outro, uma certa artificialidade. E o filme, sem dúvida, cresce como uma antecipação de A vingança dos Sith, em razão de uma escalada rumo a um desfecho mais grandioso e que cria certo impacto e interessante para o melhor episódio da segunda trilogia.

As cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos de A vingança dos Sith não chegam a cansar, e Lucas entrega uma obra verdadeiramente à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Padmé Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação mais dedicada, fazendo um bom contraponto a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou um pouco à trilogia.
A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, porém pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Anakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu (Jackson) finalmente tem uma participação decisiva na história.

A revolta de Anakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Anakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, Ataque dos clones já tinha uma melancolia, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Anakin à Terra e o reencontro com Padmé Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com desenho de produção impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções clássicas deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode I – The phantom menace, EUA, 1999 Diretor: George Lucas Elenco: Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman, Jake Lloyd, Ian McDiarmid, Anthony Daniels, Kenny Baker, Pernilla August, Frank Oz Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 138 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox


Star Wars: episode II – Attack of the clones, EUA, 2002 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Christopher Lee, Anthony Daniels, Kenny Baker, Frank Oz Roteiro: George Lucas e Jonathan Hales Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd Distribuidora: Fox Film

Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa (2020)

Por André Dick

Com o sucesso de bilheteria de Esquadrão suicida em 2016, a personagem que mais se destacou foi a de Arlequina, feita por Margot Robbie, embora o Pistoleiro, interpretado por Will Smith, também tivesse uma presença acentuada. Aproveitando uma passagem da DC, como alguns dizem, mais soturna, planejada por Zack Snyder, para outra mais descompromissada e com elementos mais de humor, Arlequina recebeu seu filme solo, com coadjuvantes. Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa é precedido por alguns dos maiores sucessos da DC, Mulher-Maravilha, Aquaman e Coringa – este sem fazer parte do universo estendido –, além do familiar e divertido Shazam!, o que constitui um desafio: tentar se equilibrar entre dois tons.
Ao contar logo no início sobre o rompimento de Arlequina com Coringa – entendido como o rompimento de Jared Leto com a DC –, a diretora Cathy Yan mostra a personagem desolada num clube noturno, cujo dono é o terrível gângster Roman Sionis. No lugar, ela conhece a cantora Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell), uma espécie de protegida de Sionis, cujo braço direito, Victor Zsasz (Chris Messina), gosta de cometer crimes em profusão.

O ambiente é propício para Arlequina, que se sente ainda parte das escolhas do ex-namorado, uma das ameaças a Gotham City. A maneira como Arlequina lembra dele, assim como do seu passado trabalhando como psiquiatra no Asilo Arkham, recorda substancialmente o filme de David Ayer – aqui um dos produtores executivos – e se destaca como o enfoque neste universo não tem relação com o de Todd Phillips, uma saída encontrada pela Warner/DC para a abordagem de cada um, e isso pode ser sentido também no nome que Arlequina dá a uma hiena que adota.
Depois de uma de suas estripulias (homenageando de forma criativa Thelma & Louise), acentuada por uma narração tentando aproximar tudo de um universo lúdico – mesmo quebrar braços e pernas – e lembrando, pelas cenas iniciais, os Looney Tunes, Arlequina passa a ser perseguida por Renee Montoya (Rosie Perez), detetive da polícia. As coisas se complicam quando a menina órfã Cassandra Cain (Ella Jay Basco) rouba um diamante precioso de Zsasz. Até esse momento, a diretora costura uma sucessão de flashbacks, com gráficos apresentando os personagens que dialogam com os de Esquadrão suicida e uma trilha sonora de músicas pop. Funciona às vezes, quando a edição fica menos sobrecarregada de idas e vindas.

Se Margot Robbie ressalta uma nova visão de Arlequina mais frenética, diferente do filme de Ayer, no qual alternava alegria desenfreada e certa tristeza, Roman Sionis é um vilão bastante desagradável, feito com receio e certo constrangimento por Ewan McGregor, deslocado em pelo menos três cenas excessivas, mas salvo pela presença de Messina. A narrativa ganha mais peso de entretenimento e mesmo emocional quando começa a dar espaço para outras personagens, como o da órfã ou o de Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead), que passou por um grande problema quando criança, tirando o foco de Arlequina e de Sionis. A diretora se sente à vontade, inclusive, para prestar homenagem a um determinado filme de Quentin Tarantino, assim como a clássicos dos anos 50, Os homens preferem as loiras e A dama e o vagabundo. E o título original, com os parênteses, é uma clara referência a Birdman, de Iñárritu. Também parece que vai havendo, ao longo da trama, uma predisposição em fazer os figurinos de Arlequina se encaixarem mais com o ambiente e o design de produção.

São elas, ao mesmo tempo, que trazem Arlequina de volta para a narrativa, depois de um início trepidante, e fazem Robbie diminuir o overactring do primeiro ato e voltar a certa carga mais dramática. Igualmente é muita boa a atuação de Jurnee Smollett-Bell, aproveitando os poucos diálogos que recebe do melhor modo. Os personagens dos homens representam o que há de pior na sociedade, e em algum momento Arlequina brinca que eles só querem violência – é justamente o elemento oferecido pelo filme em larga escala, aliado ao bom humor de determinadas situações. Algumas cenas de ação em câmera lenta dialogam bem com o estilo da DC, embora algumas vezes não fosse necessário adotá-lo.
Preponderantes do início ao fim, as lutas são coreografadas com competência, principalmente quando vai se aproximando o final, com uma sucessão de cortes apoiados na fotografia exitosa de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofsky, como em Cisne negro e mãe!. Com isso, Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa tem uma boa dose de entretenimento e funciona bem dentro do seu universo, fazendo uma apresentação coerente com a proposta e as personagens.

Birds of Prey (and the fantabulous emancipation of One Harley Quinn), EUA, 2020 Diretora: Cathy Yan Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Rosie Perez, Chris Messina, Ella Jay Basco, Ali Wong, Ewan McGregor Roteiro: Christina Hodson Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Margot Robbie, Bryan Unkeless, Sue Kroll Duração: 109 min. Estúdio: DC Films, LuckyChap Entertainment, Kroll & Co. Entertainment, Clubhouse Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Doutor Sono (2019)

Por André Dick

Em O iluminado, Stanley Kubrick trouxe às telas talvez a adaptação mais conhecida de um romance de Stephen King, um dos nomes que mais tiveram um acesso amplo no meio cinematográfico. O escritor não chegou a apreciar a adaptação feita, apontando mais qualidades na versão realizada para a TV anos depois. No entanto, pode-se dizer que a história de Jack Torrance (Jack Nicholson) e sua mulher, Wendy (Shelley Duvall) e o filho Danny (Danny Lloyd) no hotel Overlook, nas montanhas rochosas, é uma das mais interessantes já mostradas no universo do terror e do suspense graças ao talento de Kubrick.
Agora, quase 40 anos depois, o diretor Mike Flanagan adaptou a sequência escrita pelo mesmo Stephen King, intitulada Doutor Sono. A história inicia mostrando Danny Torrance (Roger Dale Floyd) e sua mãe, Wendy (Alex Essoe), vivendo na Flórida. Ele ainda é abalado pelos fantasmas do Hotel, principalmente a mulher do banheiro do quarto 237 e se comunica com o fantasma de Dick Halloran (Carl Lumbly). Ao mesmo tempo, há uma seita chamada True Knot, tendo como líder Rose the Hat (Rebecca Ferguson), que atravessa os Estados Unidos num trailer em busca de iluminados do qual possam sugar um determinado vapor capaz de dar vitalidade.

Esse traço King parece ter extraído de O cristal encantado de uma seita que lembra a de Quando chega a escuridão, filme de vampiros dos anos 80 feito por Kathryn Bigelow, com acréscimo de um figurino por vezes excessivamente excêntrico ou a de Quadrilha de sádicos, de Wes Craven. Eles estão vigiando Snakebite Andi (Emily Alyn Lind), uma jovem com poderes telepáticos, indo até um cinema, no qual se evoca um pouco Corrente do mal.
Ainda abalado pelos acontecimentos do passado, Danny tem problemas que reproduzem o do pai e vai trabalhar numa cidade pequena, onde tem como amigo com Billy Freeman (Cliff Curtis, bem, mas subaproveitado), e depois vai parar num hospício. Ao mesmo tempo, ele é rastreado por Abra Stone (Kyliegh Curran), uma menina com poderes telecinéticos parecidos com os seus. Esses momentos, principalmente quando ele é entrevistado por John Dalton (Bruce Greenwood), responsável nas reuniões dos Alcóolicos Anônimos das quais participa Danny e coordenador do hospício, são idênticos à primeira ida de Torrance ao Overlook no filme de Kubrick, do mesmo modo que os atores Floyd, Assoe e Lumbly são parecidos com Lloyd, Duvall e Scatman Crothers (não desrespeitando o original, como poderia) e as inscrições nas paredes do quarto onde vai morar Danny tenham ligações com o ato final da obra de 1980. São os quarenta minutos iniciais que mais lembram a obra de Kubrick, intensificando o mistério e a contemplação, assim como a trilha sonora, os efeitos sonoros e a transição elegante das cenas.

Há um cuidado na atmosfera e Flanagan cresce como cineasta em comparação a seu trabalho anterior, Jogo perigoso, também baseado em King, e mesmo a Hush No entanto, há diferenças claras: não há a fotografia nem o design de produção brilhantes da obra de Kubrick, embora o trabalho de Michael Fimognari seja competente na captação de imagens e conceda ao filme um padrão visual baseado no verde musgo do banheiro de O iluminado. Se Doutor Sono for visto diretamente em comparação com a peça de 1980, ele é muito diferente, como 2010 em relação a 2001. No entanto, ele tem suas qualidades: apesar de sua história ser mais direta, menos psicológica numa comparação com o original, mesmo que a atuação de Ewan McGregor seja notável em seu comedimento, ao contrário da antológica de Jack Nicholson. Do mesmo modo, Ferguson, como a vilã Rote, e Curran, como a jovem Abra. complementam bem esse trio envolvido num embate, além de ótimas (apesar de breves) participações de Jacob Tremblay e Henry Thomas. Há momentos que parecem dialogar mais com o universo de X-Men, soando estranho no contexto de um filme de terror, principalmente uma passada num bosque, mas chama a atenção que King quis uma continuação realmente distanciada da peça de Kubrick, da qual não gostou. E seria difícil outra continuação repetir Blade Runner 2049. Por outro lado, há uma passagem notável que ecoa Os vampiros de Salem, de Tobe Hooper, do final dos anos 1970, no melhor uso de efeitos visuais da trama.

Flanagan, porém, é visivelmente um admirador de O iluminado: ele utiliza algumas figuras e imagens de maneira muito interessante, principalmente quando o espectador tem acesso a sequências emocionantes, capazes de despertar uma nostalgia e, ao mesmo tempo, inseri-las num novo contexto e um novo sentido. É quando Doutor Sono mais se aprofunda nas ligações com o anterior, na maneira como as recordações podem perdurar como traumas dentro de um personagem, e a volta do passado significa encontrar literalmente fantasmas, que a trama mais toma um caminho instigante e mesmo surpreendente. O iluminado, além de uma obra-prima, é uma referência da cultura pop e possui um brilhante campo de diálogos por meio de suas imagens. Flanagan logo no início faz o mesmo: entre figuras ameaçadoras, coloca uma vestida como Wendy, a mãe de Danny, no início do filme de Kubrick. É um aceno de que os sustos podem permanecer por décadas e mesmo se reproduzir numa sequência a princípio dispensável e, agora que existe, com qualidades evidentes.

Doctor Sleep, EUA, 2019 Diretor: Mike Flanagan Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Cliff Curtis, Emily Alyn Lind, Dale Floyd, Alex Essoe, Carl Lumbly Roteiro: Mike Flanagan Fotografia: Michael Fimognari Trilha Sonora: The Newton Brothers Produção: Trevor Macy e Jon Berg Duração: 151 min. Estúdio: Intrepid Pictures, Vertigo Entertainment Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (2018)

Por André Dick

O diretor Marc Forster é conhecido por seus belos A última ceia e Em busca da terra do nunca, por um 007 menos atrativo (007 – Quantum of solace) e escolhas desajeitadas (A passagem). Trata-se de um diretor que vem se aprimorando pela multiplicidade. Guerra Mundial Z poderia ter sido dirigido por um cineasta especialista em ação, mas Pitt, como um dos produtores, apostou em Forster, com quem se desentendeu durante as filmagens, criando quebras de orçamento e polêmicas antes da estreia. O resultado foi bastante irregular, ainda que tenha rendido uma boa bilheteria e proporcionado a ideia de uma continuação, a ser realizada por David Fincher.
Forster retoma sua carreira com Christopher Robin, distribuído pela Disney, em que o maior diálogo é com seu próprio filme Em busca da terra do nunca, sobre o criador de Peter Pan, J.M. Barrie (feito então por Johnny Depp), e justamente Hook – A volta do Capitão Gancho, que adapta para a idade contemporânea a obra de Barrie. O Peter Banning de Robin Williams precisa aprender a conciliar sua vida de empresário com a de pai, e tem em Sininho (Julia Roberts) sua confidente. Ele não lembra praticamente de nada que remete à infância, ou seja, de ter sido Peter Pan. Seu dia a dia é dedicado à vida no escritório.

O mesmo acontece com Christopher Robin (Ewan McGregor), depois de ter sido amigo, na infância, de Winnie the Pooh (Jim Cummings), Tigger (Cummings novamente), Piglet (Nick Mohammed ), Eeyore (Brad Garrett), Kanga (Sophie Okonedo), Roo (Sara Sheen), Owl (Toby Jones) e Rabbit (Peter Capaldi), que ele conheceu no Bosque de Cem Acres. Robin cresce, passa por um internato, serve na Segunda Guerra Mundial e se casa com arquiteta Evelyn (Hayley Atwell), com quem tem a filha Madeline (Bronte Carmichael). Ele trabalha numa empresa chamada Winslow Luggages, colocando sua família em segundo plano. Seu chefe, Giles Winslow Jr. (Mark Gatiss) lhe diz que deve demitir funcionários para reduzir os custos. Isso faz Christopher, perturbado pela atitude a ser tomada, ir para sua casa de campo em Sussex para um fim de semana de fim de verão.
Baseado em uma série de história do urso Winnie the Pooh, de A.A. Milne e E. H. Shepard, o roteiro de três escritores independentes e ecléticos, Tom McCarthy (Spotlight O agente da estação), Allison Schroeder (Estrelas além do tempo) e Alex Ross Perry (que escreve e dirige filmes na Nova York contemporânea, a exemplo de Golden exits), transita entre fazer referências a ursinhos de pelúcia contemporâneos – Ted e Paddington mais exatamente – com uma melancolia poucas vezes vista em filmes dos estúdios Disney, mais condizente com um projeto de Terrence Malick, como já tinha sido Meu amigo, o dragão de 2016.

É interessante como Christopher Robin possui momentos que remetem a Sombras da vida, também, do mesmo David Lowery de Meu, amigo, o dragão, com uma sensação de mistura de épocas que passam desgovernadas na vida de um indivíduo, sem ele dar especial atenção, explicadas como se constituíssem capítulos de um livro infantojuvenil. E, embora seja considerado um live action de animações com esses personagens de 1977 e de 2011, ele não possui o mesmo número de efeitos especiais e CGI que Mowgli, por exemplo: sua base de efeitos visuais e o contraste entre Londres e o bosque misterioso do filme se dão de maneira muito discreta visualmente, apostando na magia como uma extensão das brumas misteriosas, tanto que a árvore pela qual Pooh, Robin e seus amigos atravessam guardam muito de Tim Burton. Também é notável um diálogo com Onde vivem os monstros, o filme de Spike Jonze sobre a transição da infância para a adolescência, em que um menino crescia em meio a monstros de um universo paralelo localizado numa ilha distante.

Forster utiliza os ambientes isolados de campo para situar os personagens distanciados tanto da realidade quanto do mundo, mas o faz de modo efetivo, criando uma emoção que remete a seu melhor filme, Mais estranho que a ficção, com Will Ferrell habitando a história de uma escritora. A diferença é que, por ser mais próximo da estrutura de uma fábula, literalmente, com bichos de pelúcia falantes, Christopher Robin possui um ato final mais previsível e voltado a uma lição de moral. Contudo, McGregor realmente convence em seu papel, num momento alto de sua trajetória, conseguindo conciliar a melancolia de seu personagem de Trainspotting 2 com a tentativa de ser alegre, como demonstra em Peixe grande. Ele fornece ao filme uma camada extra de credibilidade, conseguindo interagir com os personagens de um universo paralelo de maneira eficaz e emocionalmente ressonante. Inevitável pensar no quanto esse filme tem em comum com As aventuras de Paddington 2, tanto na gentileza de Pooh e sua tentativa de entender o universo humano quanto na concepção visual curiosamente próxima de uma fábula contemporânea, mesmo não se passando na era moderna. Ele trata intimamente da gentileza e da tentativa de compreender o outro, temas considerados hoje em dia, infelizmente, banais. Talvez por isso Christopher Robin atinja notas tão altas com um repertório que poderia ser, nas mãos de um diretor e elenco comuns, bastante previsível.

Christopher Robin, EUA/ING, 2018 Diretor: Marc Forster Elenco: Ewan McGregor, Hayley Atwell, Jim Cummings, Brad Garrett, Mark Gatiss, Bronte Carmichael, Nick Mohammed, Sophie Okonedo, Sara Sheen, Toby Jones, Peter Capaldi Roteiro: Alex Ross Perry, Tom McCarthy, Allison Schroeder Fotografia:Matthias Koenigswieser Trilha Sonora: Geoff Zanelli, Jon Brion Produção: Brigham Taylor, Kristin Burr Duração: 104 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, 2DUX² Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

A bela e a fera (2017)

Por André Dick

Desde o sucesso bilionário de Alice no país das maravilhas, a Walt Disney vem procurando fazer versões com atores de suas animações clássicas. Em seguida, tivemos Cinderela, Malévola e ano passado Mogli – O menino lobo e Meu amigo, o dragão. Se Cinderela e Malévola fizeram sucesso e Mogli atingiu novamente uma cifra bilionária, Meu amigo, o dragão, o melhor deles, acabou tendo uma recepção moderada. Este ano as expectativas estavam voltadas para a adaptação de A bela e a fera, realizada não apenas a partir da obra de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, como também da adaptação do ótimo desenho animado de 1991, o primeiro a ser indicado na categoria principal do Oscar.
Se em 1991 as músicas criadas para A bela e a fera tinham uma grande surpresa, nesta versão de Bill Condon, que fez filmes como Deuses e monstros e os dois últimos da série Crepúsculo, há uma atualização de alguns temas. Com a narrativa passada na França, o filme inicia mostrando a transformação de um príncipe numa Fera, que passa a viver encastelado com seus objetos, antes pessoas de seu círculo. Na aldeia de Villeneuve, perto dali, anos depois, moram Belle (Emma Watson) e seu pai, Maurice (Kevin Kline). Gaston (Luke Evans) é um ex-soldado que tenta conquistá-la, sempre acompanhado pelo braço direito LeFou (Josh Gad).

Ela, porém, não está interessada nele. Certo dia, seu pai, numa viagem, é atacado por lobos e vai parar no castelo da Fera (Dan Stevens). Sua filha surge para resgatá-lo e se torna prisioneira em seu lugar. Exatamente como a história original e como na animação de 91. No entanto, é notável que Belle aqui é uma mulher que tenta criar uma independência do papel visualizado para a mulher, trabalhando numa biblioteca e tentando ensinar crianças a ler (o que pode ofender alguns habitantes do vilarejo), e que Gaston, mais do que um pretendente, é um vilão ameaçador e que, com sua obsessão em falar com o espelho, pode lembrar outro personagem bastante conhecido dos contos de fada.
O roteiro de Stephen Chbosky, diretor de As vantagens de ser invisível, escrito a partir de uma primeira versão de Evan Spiliotopoulos, poderia trabalhar esses temas de maneira inovadora, no entanto Condon não consegue efetuar essa transposição de uma maneira interessante. Não apenas porque a personagem de Belle surge desinteressante, apesar da empatia, em razão de uma performance pouco efetiva de Emma Watson, como porque toda a narrativa se desenvolve de maneira a não mostrar a Fera como de fato uma figura solitária.

Os símbolos funcionavam na animação, mas não funcionam aqui – e a graça dos objetos tinha um componente superior anteriormente, embora continuem interessantes Lumière (Ewan McGregor), o candelabro, Cogsworth (Ian McKellen), um relógio de lareira, e Sra. Potts (Emma Thompson), um bule de chá disposto a uma conversa. Evans e Kline têm bons desempenhos, mas o vilão é baseado estritamente numa ideia de caricatura já vista em outros filmes, sem nuances. Os personagens estabelecem vínculos, mas nunca com naturalidade, e as decisões, quando tomadas, parecem sempre pertencer a outra história, não ao que estávamos assistindo até então. As mudanças bruscas no comportamento da Fera apenas acentuam uma sensação contínua de falta de interesse para o roteiro ser de fato interessante e é decepcionante que Chbosky tenha participação nele depois do êxito de seu filme em 2012, do qual Emma Watson participava, com mais vigor.
É visível a influência de Condon: Os miseráveis, de Tom Hopper, de 2012, tanto pela composição dos cenários e figurinos (belíssimos) quanto pela inserção das canções (excelentes, novamente sob comando de Alan Menken, que recebeu o Oscar de melhor trilha sonora e canção pelo A bela e a fera dos anos 90) em meio a movimentos de câmera que tentam captar a grandiosidade dos ambientes. Uma dança numa taverna é especialmente bem feita, aliada a uma composição espetacular de cores que lembra o melhor traço visual de filmes recentes dos estúdios Disney, a exemplo de Oz – Mágico e poderoso, assim como a dança entre Belle e a Fera se sinta quase componente de um cenário de Barry Lindon.

Embora Condon tenha dirigido Dreamgirls, não há quase um sinal de seu estilo nesta obra. Além disso, há também elementos que remetem a Frozen, a animação de grande sucesso em 2013, que impedem ainda mais de o filme soar com o mínimo de identidade. Há um momento em que a câmera se distancia e mostra o castelo da Fera ao longe e este tem o formato daquele que acompanha a marca dos estúdios Disney: é como se não apenas o príncipe vivesse encastelado numa situação que não queria; a própria história não foge nem um traço do que aguardam os produtores do projeto. Se no excepcional Deuses e monstros Condon mostrava uma relação interessante entre dois homens, a tentativa de ele mostrar LeFou como um pretendente de Gaston soa como uma possibilidade de abordar um tema inicialmente à parte, mas logo se perde pela inconsistência do roteiro e seu temor de fazer qualquer abordagem nesse sentido, nem mesmo quando LeFou sabe que Belle é uma ameaça para o que deseja. Isso se associa à extensa metragem para pouca história (mais de duas horas), quando a animação tinha agilíssimos 84 minutos. Que este A bela e a fera tenha arrecadado quase meio bilhão de dólares em duas semanas de exibição é surpreendente, mas talvez justificável: não será tão cedo que a Disney arrisque numa continuação de John Carter. Mais surpreendente ainda quando o chamado caça-níquel Alice através do espelho, um semifracasso dos estúdios Disney no ano passado, se sinta uma obra realmente distinta perto desta versão.

Beauty and the beast, EUA, 2017 Diretor: Bill Condon Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Kevin Kline, Josh Gad, Ewan McGregor, Stanley Tucci, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Gugu Mbatha-Raw Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos Fotografia: Tobias A. Schliessler Trilha Sonora: Alan Menken Produção: David Hoberman, Todd Lieberman Duração: 129 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Walt Disney Pictures

 

Star Wars: Episódio III – A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

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Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar: por exemplo, interpretando o mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson comprova ser um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas e, entre excessos de efeitos especiais, as paisagens de Tatooine tinham o mérito de dialogar com a saga original.
O descompromisso de A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, O ataque dos clones, cujo tom interno é mais melancólico e mesmo arriscado, contrariando, ao contrário do primeiro desta trilogia, a franquia antiga, mesmo com a habitual trilha de John Williams. Continuam nele os problemas de A ameaça fantasma, em que existia pouco humor, mesmo mostrando R2-D2 e C-3PO, mas se anuncia a base da história que repercutirá em A vingança dos Sith. Percebe-se que Annakin Skywalker (agora Haydeen Christensen) quer tomar o lugar do mestre Obi-Wan Kenobi (McGregor) e confrontar Yoda – em movimento –, assim como Mace Windu (Samuel L. Jackson).

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A questão política envolvendo a princesa Amidala (Natalie Portman), por quem Annakin se apaixona, continua presente, e Palpatine tenta organizar o jogo. No entanto, nem os cenários diferentes e a presença de Jango Fett (Temuera Morrison), pai de Boba Fett (da série antiga), acabam conferindo ao filme uma ação interessante. Outro vilão, Conde Dooku (o ótimo Cristopher Lee), não chega a ter uma relação direta com a ação, e os personagens estão constantemente passando em frente a cenários magníficos, ou trocando ideias com fundo político, mas parecem não fazer parte deles. Ou seja, o chroma-key, aqui, é desgastante. No entanto, há algumas qualidades: há um bom ritmo, com uma perseguição inicial que remete a Blade Runner, as paisagens reproduzem um visual fascinante e tudo se encaminha para uma grande luta de jedis numa caverna do deserto.
A segunda trilogia de George Lucas precisava encerrar com um filme pelo menos superior aos dois primeiros, sobretudo o segundo Suas cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos não chegam a cansar e, em A vingança dos Sith, Lucas entrega uma obra à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente, levemente deslocado, mesmo em comparação a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou à trilogia.

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A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, mas pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (o excelente Ian McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Annakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu finalmente tem uma participação decisiva na história.
A revolta de Annakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Annakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, O ataque dos clones já tinha uma tristeza impenetrável, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Annakin à Terra e o reencontro com Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com direção de arte impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções interessantes deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas e meia