Zodíaco (2007)

Por André Dick

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O cineasta David Fincher, depois de realizar o subestimado Alien 3, regressou com Seven, que traz Brad Pitt e Morgan Freeman, como investigadores de um serial killer. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima mórbido, com reviravoltas e uma experiência sensorial, cercada por uma galeria de mortes inspirada nos sete pecados capitais. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade, sobretudo impactante. Depois de Clube da luta e Vidas em jogo, ele realizou O quarto do pânico, ainda tateando, indefinido, como nesses anteriores, entre a estética e a história bem contada, mostrando uma mãe (Jodie Foster) e sua filha (Kristen Stewart), com problema de asma, presas num quarto do pânico, por causa de um assalto que acontece em sua casa. Se há problemas narrativas, Fincher trabalha de forma notável o elemento claustrofóbico.
Em Zodíaco (daqui em diante, possíveis spoilers), Fincher volta ao clima de perseguição a um psicopata de Seven com todas as doses de suspense de que é capaz e consegue solucionar o clima de O quarto do pânico de forma efetiva. Mostra isso ao começar contando a história do assassino que se autonomeia Zodíaco (ele mandava cartas para jornais, incitando a polícia e novas vítimas), mas nunca consegue ser descoberto, ao longo de anos, mesmo investigado por um policial, David Toschi (Mark Ruffalo), acompanhado de William Armstrong (Anthony Edwards), sob o comando do Capitão Marty Lee (Dermot Mulroney).

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Esses investigadores ganham a parceria de Jack Mulanax (Elias Koteas), em Vallejo, e Narlow Ken (Donal Logue), em Napa. Todos os seus crimes são cometidos sem deixar pistas: inicia-se no dia 4 de julho de 1969, em meio a festividades dos Estados Unidos, com fogos de artifício riscando o escuro da noite e a quebra com a inocência dos anos 50 e 60 – depois de os personagens pararem numa lanchonete à la American graffiti –, e o mais impactante é um à beira de um lago, quando um casal é abordado pelo criminoso que surge por trás das árvores (com o Zodíaco desenhado em sua roupa), e sua tentativa mais assustadora aquela em que aborda uma mulher na estrada.
Fincher mostra a repercussão dos assassinatos do Zodíaco no San Francisco Chronicle, com a cobertura de um jornalista alcoólatra, Paul Avery (Robert Downey Jr., excelente). Todas as tramas ganham o interesse de um cartunista do jornal, Robert Graysmith (Jack Glylenhaal, no melhor papel de sua carreira, escolhido por Fincher depois de assistir a Donnie Darko), obcecado pelo caso e pela criptografia enviada pelo Zodíaco para provocar os leitores do jornal. Trata-se de um caso quase impossível e coloca até sua mulher, Melanie (Chloë Sevigny), e seus filhos em perigo para conseguir obter novas pistas, sobretudo quando a polícia se mostra cansada com a procura sem resolução.
Graysmith se torna amigo de Avery, tentando fazer parte da investigação, e são especialmente divertidos os momentos em que o jornalista diz a seu chefe que está sendo ameaçado. Além disso, Fincher, com seus ambientes amarelados, por meio do auxílio da excelente fotografia de Harris Savides, dialoga abertamente com Todos os homens do presidente, de Alan J. Pakula, sobretudo nos debates da redação sobre como os crimes do Zodíaco devem ser abordados. Também provoca suspense a procura para desvendar a caligrafia do assassino, com um especialista, Sherwood Morrill (Phillip Baker Hall), além de haver as tentativas de um apresentador de TV, Melvin Belli (Brian Cox), em estabelecer uma ligação com o assassino pretendendo antecipar suas ações.

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Ao contrário de Seven, não temos, aqui, crimes a serem solucionados da noite para o dia, mas uma indagação que percorre anos, décadas, desde os anos 1960, entrelaçando diferentes personagens interessados ou não pelo crime. Fincher não entrega qualquer resposta, pois no fim das contas quer relatar como uma história hedionda pode perpassar a própria atemporalidade das pessoas envolvidas, que vão do ápice ao desaparecimento, ou ao contrário, em segundos. Nesse sentido, sua aproximação de Memórias de um assassino, de Joon-Ho Bong, se destaca, com a obsessão da polícia em capturar um criminoso imprevisível durante anos (o filme de Fincher apenas tem menos humor). Quando surge Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch), essa sensação se mostra ainda mais presente. Aos poucos, cada policial começa a imaginar que as demais investigações só podem andar se o Zodíaco for preso; é como se ele fosse um impecilho em suas vidas. Do mesmo modo, Graysmith passa a se desentender com a mulher, à medida que, mesmo com filhos, concentra seu olhar numa possível investigação pessoal, trazendo para casa telefonemas anônimos. O tempo corre para todos, mas o espectador não o vê passar na Golden Gate Bridge, apenas na construção de edifícios e na passagem de datas assinalada pelo diretor, além de na clara construção psicológica dos personagens.
A cada pista não correspondida, Fincher não mostra nenhum mistério solucionado e cenas de perseguição gratuitas, mantendo-se mais no plano da investigação em cima de materiais enviado pelo Zodíaco ao jornal de San Francisco e nos documentos de delegacias e depoimentos. Ele parece interessado, muito mais, em cada personagem do que em Seven ou qualquer outro filme – talvez pela admiração que tem com os personagens reais, pois trata-se de uma história que habitou sua infância. Está lá também sua homenagem ao cinema, quando Graysmsith encontra Toschi na sala em que é exibido Dirty Harry – com Clint Eastwood –, cuja história tem ecos de Zodíaco. Toschi sai do cinema perturbado por exatamente não conseguir solucionar o crime que lembra o do filme.

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Numa metalinguagem sensível à obra de Fincher, mais bem solucionada do que normalmente, o diretor ainda mostra um encontro entre Graysmith e alguém que teria trabalhado com o assassino num cinema. Nele, pode-se dizer que Fincher brinca claramente com a obra de Hitchcock, quase sendo uma homenagem à parte. Mais interessante é que surge uma amizade também entre Graysmith e Toschi, e a habitual competência de Ruffalo para compor papéis cotidianos com sensibilidade cria um grande vínculo com a insistência cercada de ingenuidade de Glyllenhall.
Como em O curioso caso de Benjamin Button, A rede social e Millennium, Fincher está interessado na progressão que cada um desses personagens tem para a história e na história, deslocando-se de uma década para a outra sem nenhum sobressalto, mas como se tudo fosse atemporal. Isso ganha a colaboração da excelente trilha sonora e da fotografia de Savides. Se em seu início a estética crescia sobre o roteiro e os personagens, em Zodíaco Fincher começa a atingir o equilíbrio. Com isso, revela-se, em toda sua abrangência, a obsessão pelos detalhes e pelos personagens complexos. E ainda revela mais: um dos artesãos mais sensíveis que o cinema ofereceu nos últimos 20 anos, pelo menos.

Zodiac, EUA, 2007 Diretor: David Fincher Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Philip Baker Hall, David Lee Smith, J. Patrick McCormack, Adam Goldberg, James LeGros Roteiro: James Vanderbilt Fotografia: Harris Savides Trilha Sonora: David Shire Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, James Vanderbilt Duração: 158 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / Phoenix Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

Horas de desespero (1990)

Por André Dick

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Praticamente toda a carreira de Michael Cimino a partir de O portal do paraíso é marcada pela desconfiança e por críticas fora do tom habitual feita a outros diretores que, como ele, ajudaram a estruturar a Nova Hollywood nos anos 1970. É interessante, por exemplo, a trajetória de William Friedkin ganhar novamente respeito depois de Bug, quando nos anos 80 e 90 foi praticamente esquecido, enquanto Cimino continua a ser visto com certo distanciamento. Horas de desespero se constitui na refilmagem de um filme com Humphrey Bogart, de 1955, recebido como uma obra de violência extrema, com uma atuação limitada de Mickey Rourke e sem o impacto que poderia proporcionar o seu elenco. Seu produtor é o mesmo Dino de Laurentiis de O ano do dragão, parceria anterior de Cimino com Rourke e, como todas as produções do italiano, mostra uma tentativa de capturar signos conhecidos de um cinema habitualmente aceito em uma nova visão cinematográfica (foi De Laurentiis quem produziu David Lynch em Duna e Veludo azul, por exemplo).
Tendo seu início nas montanhas geladas de Salt Lake (um trecho que dialoga diretamente com os cenários de O portal do paraíso), com a advogada Nancy Breyers (Kelly Lynch) preparando um plano a ser concretizado pelo cliente Michael Bosworth (Mickey Rourke), Horas de desespero apresenta, com auxílio de sua pontuação de David Mansfield, baseada em Bernard Herrmann, um aspecto clássico, da fotografia irretocável de Doug Milsome (colaborador de Kubrick em O iluminado e Nascido para matar). Michael segue, com os comparsas Wally (Elias Koteas), seu irmão, e Albert (David Morse), para um bairro de Salt Lake City, onde há uma claridade entre os verdes dos gramados e das árvores. Esses homens entrarão na casa dos Cornells, em que o pai, Tim (Anthony Hopkins), está separado de Nora (Mimi Rogers), e tem dificuldades de relação com os dois filhos, May (Shawnee Smith) e Zack (Danny Gerard). A chegada do grupo à casa evolui num crescente: depois de estarem ao ar livre diante do lago do início do filme, eles pretendem escolher o lugar onde podem se esconder até uma fuga planejada para o Novo México. O mais interessante é a maneira como Michael parece escolhê-la: há uma placa de vendas em frente a ela, ou seja, ele pretende justamente se trancar nela e permanecer ali, como se pudesse ordenar a saída ou entrada de todos nela. A casa passa a pertencer a ele, e o smoking deve ser vestido para impressionar a família.

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Não será exatamente a presença de Michael que aliviará a tensão do ambiente, e Cimino o coloca como uma espécie de símbolo (sem reduzi-lo a isso) de uma sociedade violenta. Tim é um ex-combatente do Vietnã e, como em todos os filmes de Cimino, mas principalmente em O franco-atirador, é exatamente essa violência que se abaterá sobre a situação. Não apenas o aspecto militar é sintetizado em Horas de desespero. O FBI também é visto por Cimino de maneira irônica, por meio da figura de Brenda Chandler (Lindsay Crouse), que coloca um exagero em suas falas, característico de uma detetive capaz de liderar uma equipe de homens para tentar capturar Michael. É Brenda que proporciona esta ponte de Horas de despero entre ser uma obra violenta e opressiva e, ao mesmo tempo, uma crítica ao comportamento dos meios de investigação norte-americano. Cimino não tem receio de levar a cabo esse exagero, na sequência, por exemplo, em que Albert precisa se livrar de um corpo e, em seguida, com a camisa ensanguentada, se depara com algumas mulheres seminuas na beira da estrada, parecendo saídas de um catálogo de fotos de Hollywood. Sua tentativa de persegui-la acaba em uma sequência na qual aparece por trás de cavalos, num riacho em meio a desfiladeiros, que lembram um cenário de Velho Oeste, dialogando tanto com O portal do paraíso quanto com a obra posterior de Cimino, e sua última, pelo menos até hoje, o belíssimo Na trilha do sol.
A atitude da polícia diante desta situação é, no mínimo, acentuada – e Cimino não foge também a uma sequência de brincadeira com o gênero noir, em que a agente Brenda fala com um policial com lanternas dentro de um carro, ou mesmo aquela em que a amante de Michael recebe um microfone e encarna a femme fatale. Também há uma clara influência de Hitchcock não apenas no início, como no momento em que há uma perseguição a Nancy, em carros e helicópteros, depois que ela para na estrada para falar ao telefone. Esta influência se dá não apenas no mesmo ritmo de Intriga internacional (referenciado pela paisagem do deserto) como no próprio comportamento de Nancy como uma femme fatale. Do mesmo modo, devem ser destacados os primeiros quinze minutos, em Michael precisa colocar em prática seu plano de fuga do tribunal onde está sendo julgado.

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Mesmo com perseguições em carros e helicópteros e embora os personagens dialoguem por telefone e acompanhem o noticiário ao vivo, há algo muito mais primitivo nessa violência enfocada por Cimino: é a base de uma sociedade. Há uma discrição nesta sátira, quase a mesma daquela de Paul Verhoeven em Showgirls, outro filme visto como um dos menos bem-sucedidos dos anos 90 (não sabemos onde termina a crítica e onde inicia a sátira). Não à toa, Michael se refere a Tim como o “xerife” da casa, e que as regras ali são muito rígidas, tentando soar simpático com o filho, Zack. Cimino não controla os personagens em busca de suspense, mas tenta mostrar as reações que eles terão diante da violência. Parece, desse modo, bastante plausível a própria Nancy ter tanto medo de Michael e mesmo assim continue atraída por ele, ou seja, para o perigo – como se ele significasse o próprio destino dessa sociedade enfocada.
O ator inglês Anthony Hopkins, um ano antes de receber o Oscar por O silêncio dos inocentes, e é o alicerce do filme, apoiado pela interpretação de Rourke, a sua melhor antes de O lutador, capaz de comprovar sua revelação nos anos 80, de Mimi Rogers e de David Morse. A atmosfera de Horas de desespero, num tempo linear, mistura pressão e tentativa de se libertar. Uma parte do filme se passa de dia, com o bairro ao redor da casa sob uma luminosidade e com o verde dos gramados, e outra à noite, quando não há nenhum movimento, a não ser dos personagens, e Cimino compõe um thriller que, apesar de sua linearidade, oferece mais do que o gênero costuma propor, principalmente neste diálogo com a sociedade como vítima. E o final (spoiler) é um dos retratos mais contundentes sobre a presença do sentimento de guerra na sociedade norte-americana: a porta crispada de balas do FBI sendo fechada pela família Cornell, a meu ver, é irretocável e dialoga diretamente com O portal do paraíso, no desfecho para a relação entre James Averill e Ella. Para Cimino, o ambiente de guerra, de duelos do Velho Oeste e do Vietnã, mesmo no subúrbio aparentemente tranquilo dos Estados Unidos, está longe de terminar: faz parte de uma cultura voltada a lidar com o medo. Daí o extremo exagero da rua fechada por um miniexército: Michael Bosworth é apenas um motivo para que esta reação sem limites ao medo venha à tona.

Desperate hours, EUA, 1990 Diretor: Michael Cimino Elenco: Mickey Rourke, Anthony Hopkins, Danny Gerard, David Morse, Elias Koteas, Kelly Lynch, Lindsay Crouse, Mimi Rogers, Shawnee Smith Roteiro: Joseph Hayes Fotografia: Douglas Milsome Trilha Sonora: David Mansfield Produção: Dino De Laurentiis, Michael Cimino Duração: 105 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 4 estrelas e meia

 

Além da linha vermelha (1998)

Por André Dick

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Filme de Terrence Malick com fotografia perfeita de John Toll (responsável pelo design visual de Cloud Atlas) e elenco grandioso, Além da linha vermelha, baseado em obra de James Jones, é o retrato de um momento da Segunda Guerra Mundial, desta vez do avanço de uma tropa – Companhia C – à Batalha de Guadalcanal, em 1942, para atacar os japoneses, mas aqui sob o ponto de vista existencial, ou seja, o personagem principal, Witt (Jim Caviezel) está longe, mas não tira seu pensamento do éden da Melanésia. O interessante é como num filme de guerra Malick consegue fotografar mínimos detalhes da natureza com tanta atenção. Para ele, mais ainda do que em seus filmes iniciais, dos anos 1970, a natureza é uma metáfora da própria existência humana.
Se Malick fez um drama de guerra filosófico, retomando uma trajetória de direção interrompida vinte anos antes, com Dias de paraíso, no mesmo ano Steven Spielberg empregou a meia hora mais impactante de sua carreira no início de O resgate do soldado Ryan, que inicia com a chegada de tropas americanas à praia francesa de Omaha, defendida por alemães, com imagens espetaculares e realistas, em que Tom Hanks interpreta o líder do pelotão. Depois dessa carnificina, ele é incumbido, com alguns de seus homens, a encontrar o último filho sobrevivente da família Ryan, para que não se abata uma tragédia completa sobre ela.
Basicamente, o filme relata essa busca. Mas Spielberg, com seu habitual talento para o manejo das câmeras e a fotografia cuidada, transforma este num dos filmes de guerra mais impressionantes, graças, também, à interpretação de todo o elenco, a começar pela de Hanks, que constrói um coronel com problemas físicos na mão e quer esconder isso da tropa. Ao final, quando chegam a uma cidadezinha em ruínas, preparam uma ofensiva contra nazistas que estão para invadi-la. É aí que Spielberg melhor mostra seu talento, num verdadeiro tour de force de som e efeitos especiais.

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O resgate do soldado Ryan constitui-se num filme de guerra com peso nostálgico e histórico (a cena inicial se completa na parte final), com uma certa dureza no que se refere à composição dos personagens – afinal, lida com um cenário de guerra –, mas que acaba preenchendo algumas lacunas com uma emoção calculada, rara em Spielberg, mais propenso a extravasar, o que ele faz com todos os tons permitidos a um diretor conhecido pelo olhar que tem sobre a ação. Diferente de Malick, que consegue, em Além da linha vermelha, por meio da guerra, retratar, de maneira mais densa e menos nebulosa, o que dela não faz parte. Os filmes, em sua abertura, se parecem, mas cada diretor toma suas escolhas diante das próprias características.
Malick é um cineasta que emprega os diálogos e os mínimos detalhes como o centro da ação. Desse modo, a preocupação do primeiro sargento Welsh (Sean Penn) em tirar Witt do Pacífico, da Melanésia, para reintegrá-lo no exército e guiá-lo para a ilha onde se dará o combate derradeiro, na Colina 210, peça-chave da artilharia japonesa, não passa de uma tentativa de convencer a si mesmo de que a guerra vale a pena (e certamente, ele sabe, não vale). O olhar do sargento interpretado por Hanks se direciona para a morte, e é dela que os personagens querem escapar em Além da linha vermelha, sem necessariamente conseguir.

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A percepção de Malick atravessa não apenas as paisagens, como o elenco, com uma série de astros em pontas (ficaram conhecidos os cortes que Malick impôs a atores consagrados naquele período, como Billy Bob Thornton). De maneira geral, a amplitude do cinema de Malick converge para um lugar filosófica, em que o amor e o vínculo entre as pessoas e seres humanos se desenham a distância ou em situações-limite. Embora haja sequências inteiras que remetem Além da linha vermelha a um gênero de guerra, parece que mais ainda Malick deseja uma filosofia das relações. O Tenente-Coronel Tall (Nick Nolte) fala com o general Quintard (John Travolta) – em momentos nos quais Anderson certamente se inspirou para compor O mestre –, mas a atenção de Malick está voltada para a paisagem. Do mesmo modo, Jack Bell (Ben Chaplin), está interessado mais em lembrar de sua mulher, Marty (Miranda Otto), num balanço e paisagens que seriam intensificadas em A árvore da vida e To the wonder. Temos ainda o capitão James Staros (Elias Koteas), o cabo Fife (Adrien Brody), o soldado Jack Bell (Ben Chaplin), o capitão Charles Bosche (George Clooney), o capitão John Gaff (John Cusack), o sargento Keck (Woody Harrelson), o sargento Maynard Storm (John C. Reilly) e o sargento McCron (John Savage), entre outros.
Todos os personagens têm em algum momento ligação entre si, mas Malick está certamente mais interessado no retrato que faz de imagens idílicas, do capim alto em que os soldados rastejam para atingir a colina inimiga, o cenário paradisíaco, com crocodilos, galhos em rios, ilhas minúsculas perdidas no meio do mar e árvores altas, que, no entanto, reservam uma sequência de tiros incalculável. A morte está sempre à espreita, mas, para esses personagens, a morte não significa exatamente o afastamento da natureza idílica? Para Malick, há uma presença divina em meio a um cenário caótico de guerra, e quando os homens precisam se deparar com algum corpo entregue ao verde das colinas tentam desviar seu olhar para o vento e os pássaros, ou para as lembranças, sempre ligadas a algum elemento da natureza: os raios de sol e as cortinas esvoaçantes de uma pintura de Andrew Wyeth. Não se trata, para Malick, de estetizar a guerra, mas de mostrar a solidão dela e o adensamento de trilhas solitárias em meio às árvores de uma mata fechada.

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Além da linha vermelha.Cena 1Se Coppola colocou quilos de napalm para explodir em Apocalypse now e Kubrick transformou a guerra num centro repleto de soldados sob o comando de prometer o cumprimento da morte em nome da corporação, Malick contorna todos com o simples olhar de dentro da guerra e sua reflexão, caracterizada mais pelo olhar estupefato do que pela certeza. A cada tomada de atitude em relação ao combate e cada acampamento montado, Malick está tratando da impermanência da humanidade e do modo como ela se adapta à loucura, mas apenas a controla por meio de lembranças, até que consiga aceitar, finalmente, que não passa de uma pequena ilha solitária na corrente e contra um horizonte não necessariamente aberto. O passado é tão presente quanto a invasão a Guadalcanal, pois é preciso uma justificativa, mesmo que mínima, para que se tenha chegado ali com vida. Malick não consegue retribuir esta justificativa para o espectador diante do peso dramático dos componentes que seleciona ao longo de sua obra, e não consegue se comprometer com o vazio que passa a existir depois da derrocada de um grupo de combatentes. Há um sentido forte de afastamento em Além da linha vermelha como havia sobretudo em Dias de paraíso, e é ele que consegue, ao mesmo tempo, aproximar os personagens de um Éden almejado.

In the red line, EUA, 1998 Diretor: Terrence Malick Elenco: Nick Nolte, Jim Caviezel, Sean Penn, Elias Koteas, Ben Chaplin, Dash Mihok, John Cusack, Adrien Brody, John C. Reilly, Woody Harrelson, Miranda Otto, Jared Leto, John Travolta, George Clooney, Nick Stahl, Thomas Jane, John Savage, Will Wallace, John Dee Smith, Kirk Acevedo, Penelope Allen, Kazuyoshi Sakai, Masayuki Shida, Hiroya Sugisaki, Kouji Suzuki, Tomohiro Tanji, Minoru Toyoshima, Terutake Tsuji, Jimmy Xihite, Yasuomi Yoshino, John Augwata Produção: Robert Michael Geisler, Grant Hill, John Roberdeau Roteiro: Terrence Malick Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 170 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Fox 2000 Pictures / Phoenix Pictures / Geisler-Roberdeau

Cotação 5 estrelas