Alien: Covenant (2017)

Por André Dick

Depois de Prometheus, em 2012, tende-se a dizer que Ridley Scott não deveria ter voltado mais à franquia Alien. Talvez tenha sido um dos melhores caminhos adotados pelo cineasta depois de um início de século com várias obras de destaque, a exemplo de Gladiador, Cruzada, Falcão negro em perigo e O gângster. Desta vez, com roteiro de John Logan (007 – Operação Skyfall e Gladiador) e Dante Harper, Scott desenha uma continuação que fica entre Prometheus e os demais filmes da série. Ele é um exemplo de cineasta que, nos seus quase 80 anos, continua tentando mostrar uma visão que se situe entre a grandiosidade e o drama de seus personagens.
O início estabelece logo uma ligação com Prometheus. Peter Weyland (Guy Pearce, agora jovem) conversa com David (Michael Fassbender), recém-criado por ele, nome baseado na obra escultural de Miguelangelo, e lhe pede para que toque ao piano uma música de Wagner. Na parede ao fundo, a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, na qual aparece a figura de Virgem Maria ajoelhada diante do bebê Jesus. Atrás dessas figuras, estão cinco anjos músicos, dois violonistas e três cantores. Então, a história se transporta para 2104, quando, ao som da trilha de Jed Kurzel com referências à original de Jerry Goldsmith, a nave colonizadora Covenant carrega dois mil colonos (predominantemente casais) e mil embriões a bordo. Lembrando uma espécie de arca sideral (chamada de “mãe” pelos tripulantes), a nave tem como androide Walter (também Fassbender), modelo igual a David. Acontece um problema e alguns tripulantes acordam (a partir daqui, possíveis spoilers). Durante o conserto da nave, feito por Tennessee (Danny McBride), um sinal de rádio é captado, e essa sequência lembra muito tanto 2001 quanto sua sequência, 2010.

O capitão Oram (Billy Crudrup), com discordância da subcapitã Daniels (Katherine Waterston), resolve ir atrás do sinal. Originalmente, ele não havia sido escolhido para o posto, porque teria fé, podendo comprometer suas ações. Uma equipe, tendo entre os componentes a mulher de Tennessee, Faris (Amy Seimetz), Ledward (Benjamin Rigby), Karine (Carmen Ejogo), Hallett (Nathaniel Dean) e Lope (Demián Bichir), desce no planeta do qual vem a transmissão a fim de investigar o que acontece e o espectador pode vir a saber finalmente sobre o destino de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), do filme anterior. Imediatamente, Scott mostra de maneira impressionante a influência de germes do planeta sobre alguns deles. Na nave, tanto Tennessee quanto Upworth (Callie Hernandez) tentam manter a calma. Embora não haja a interação necessária entre os personagens – e os teasers divulgados antes da estreia e que certamente foram cortados de alguma versão inicial acrescentariam –, Scott em nenhum momento interrompe a história com diálogos excessivos como fez em Perdido em Marte.
Se o espectador não deseja ver exploradores do espaço se colocando em situações complicadas ou arriscando sua vida sem nenhuma justificativa, não deve assistir nem a Alien: Covenant nem a nenhum outro filme da série, pois ela existe justamente por causa dessa falta de atenção de que há um ser alienígena capaz de tirar suas vidas rondando o lugar onde se encontram.

Por isso, é estranho que se diga que em Alien – O oitavo passageiro há uma construção de personagens (quase psicológica) e que em Aliens ou, principalmente, em Prometheus ela inexista. Trata-se de uma invenção da crítica, para provocar um culto especial à obra dos anos 70, ignorando que o cinema desde então proporcionou um universo mais amplo da série, por meio de James Cameron, David Fincher, Jeunet (apesar dos pesares) e novamente Scott. Outra necessidade visível é delimitar que Scott não tem domínio (ou até conhecimento) sobre a figura do alien, o que é no mínimo questionável. Não apenas ele é um cineasta vigoroso na criação de um universo como entende sua criação como os cineastas que o antecederam não entendem – Scott visualiza o universo da criação do monstro como um mistério que pode elucidar a própria condição humana e a fé de personagens como Oram em conflito com o universo onde adentra.
Em Prometheus, ele buscava diálogos com A árvore da vida, de Malick, numa ficção científica existencialista, voltada a construir um passado para a genealogia de Alien muito interessante. Chega a ser lamentável que não visualizem na figura de David aquela de Batty em Blade Runner: ele procura o criador assim como os seres humanos e seu comportamento de androide não o impede de querer exercer esse domínio sobre quem teria criado a humanidade. Isso já ficava claro em seu confronto com o space jockey no primeiro filme e nessa continuação atinge um grau ainda mais interessante. Não por acaso, Alien: Covenant inicia mostrando seu olhar verde, assim como Scott mostrava os olhos dos androides a serem investigados em Blade Runner.

Lembre-se que ele é convidado a tocar Wagner, compositor preferido de Hitler, e David se comporta justamente como ele, pretendendo criar uma nova espécie (numa das sequências de que participa, um povo é perseguido por uma fumaça de vírus impactante). No planeta onde essa equipe desce, David vive como um criador, com desenhos de xenomorfos espalhados numa caverna. E ele tenta ensinar Walter a tocar uma flauta, assim como Weyland, no início, tentava lhe mostrar a arte musical, também presente na pintura “Natividade”. Em Alien: Covenant, como em Prometheus, David quer a todo custo ser um criador (ou o guia da humanidade), mas o que realiza mostra como ele se torna o pior monstro: em relação a um determinado personagem, por exemplo, ele age como Frankenstein. E perceba-se que os engenheiros parecem ter a mesma forma da estátua de Miguelangelo que levou Weyland a nomear David.
Impressiona como Scott fundamenta sua história com base naquelas premissas religiosas que ele cultiva desde Blade Runner, mas que se pronunciam ainda mais em A lenda – uma adaptação livre de Adão e Eva –, Cruzada, Gladiador e o subestimado Êxodo, todos com um notável design de produção. Alien: Covenant faz lembrar o embate entre Moisés e Ramsés II nas figuras de David e Walter – ambos idênticos visualmente, mas com comportamento diferente, em grande atuação de Fassbender. Mais ao final, Scott ainda mostra uma fotografia com os integrantes da espaçonave lembrando a Santa Ceia (com o primeiro comandante ao centro).

Do mesmo modo, Katherine Waterston, na figura de Daniels, configura uma espécie de libertadora de uma certa visão masculina, como Ripley. No entanto, enquanto havia fúria em Ripley, Waterston atenua seu enfrentamento com um receio plausível. Ela sofre ao ter de enfrentar a situação, não é uma guerreira como Ripley – e nisso Scott desenha um arco diferente e interessante da produção de Cameron principalmente, na qual Sigourney Weaver construía uma versão feminina de combate. No final, apesar da montagem excessivamente rápida, Scott continua exímio em filmar cenas de ação, com a fotografia impecável de Dariusz Wolski, e faz uma homenagem no terror do espaço a Psicose (neste caso, o diretor retoma os esboços originais do monstro feitos por H.R. Giger, com viés sexual), além de fazer um paralelo de David com Norman Bates. Waterston, que aparece em Vício inerente e Animais fantásticos e onde habitam, tem uma atuação excepcional, que também dialoga com a de Noomi Rapace em Prometheus, embora tenha menos cenas do que deveria. Alien: Covenant expande com qualidade evidente as ideias de Prometheus, sem ficar restrito ao universo simplesmente de monstros alienígenas; pode-se dizer que Scott ingressa numa fase em que o choque, como mostra ao final de O conselheiro do crime, atualiza o heroísmo dos anos 70 e 80. Não assusta como o recente Vida, inspirado em Alien, mas é mais denso, e que alguns espectadores não queiram esse caminho mostra o quanto Scott está no caminho certo: do acréscimo substancial à sua criação.

Alien: Covenant, EUA, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Amy Seimetz, Carmen Ejogo, Benjamin Rigby, Jussie Smollett, Callie Hernandez Roteiro: John Logan, Dante Harper Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: David Giler, Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Walter Hill Duração: 122 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Brandywine Productions / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Mulheres do século 20 (2016)

Por André Dick

O diretor Mike Mills é conhecido por um drama respeitado, mas de difícil envolvimento, Toda forma de amor, que rendeu um Oscar de ator coadjuvante merecido para Cristopher Plummer. Lá, as relações humanas ou familiares eram trabalhadas sob um ponto de vista quase europeu, com uma certa lentidão que por vezes prejudicava a narrativa. Aqui, em Mulheres do século 20, ele concentra a história em 1979, em Santa Barbara, Califórnia. Mostra Dorothea Fields (Annette Bening), uma professora e fumante inveterada de 55 anos, que pede ajuda de Abbie (Greta Gerwig), sua inquilina, e Julie (Elle Fanning), a quem trata de forma materna, para criar seu filho, Jamie (Lucas Jade Zumann), de 15 anos, afeito a fazer algumas brincadeiras fora de hora e a andar de skate. Isso porque o mundo está numa acelerada mudança, e ela simplesmente não consegue entender exatamente o que ele pensa. Por meio de pequenos gestos, Mills desenha um ambiente familiar em que a conciliação e o entendimento está no olhar. A casa de Dorothea respira um ar de comunidade, de pessoas diferentes que se entendem e estão de passagem em busca de um mínimo de afeto.

Com uma bela trilha sonora de Roger Neill, é um filme que trata das mudanças pelas quais a mulher passou quase ao final do século 20, assim como sua insegurança em relação à criação de filhos. Bening faz muito bem o papel da mãe, e Zumann do filho, e são essenciais os momentos em que contracenam juntos, expondo suas inseguranças e projeções para uma época que ainda virá. Já havia um pouco esse elemento em Toda forma de amor, em que o personagem de Ewan McGregor tinha recordações de sua mãe. No entanto, as duas atrizes que brilham são Gerwig, fazendo uma fã de punk rock que deseja ser fotógrafa, mais afastada de seu estilo nova-iorquino, e Fanning, que tem relações com vários rapazes e não se define, preferindo apenas dormir e dividir inseguranças ao lado de Jamie, de quem se considera amiga. Especialmente Gerwig, com seu corte de cabelo, lembra da new wave que se consolidou no início dos anos 1980. Por sua vez, Billy Crudup (num de seus melhores momentos) faz William, um carpinteiro hospedado na casa de Dorothea para ajudar em reformas do ambiente, assim como Abbie, e que viveu a era de Aquarius como poucos. Esses personagens se interligam de maneira evidente, com destaque para a maneira como Mills mostra o passado de cada um deles, e a fotografia de Sean Porter desenha de maneira clara essa ambientação nos anos 70, sem apelar para um design de produção e figurinos facilmente rotuláveis. O período enfocado, de verão, revela essa mudança.

A montagem do filme é um pouco estranha, meio entrecortada, mas aos poucos o espectador se acostuma a ela, como a seus personagens. É uma obra bastante sensível, dedicada tanto a momentos de reflexão quanto a elementos bem-humorados (“O punk rock é divisor”), apanhando um certo tédio existencial de Jarmusch e Wes Anderson sem levá-lo a extremos. Basicamente, é sobre um jovem testemunhando a vida de três mulheres em idades diferentes e a maneira como elas transformam o mundo e o seu próprio pensamento acerca de todas as mudanças. Quando Abbie leva Jamie ao clube de punk rock no qual sempre vai e o apresenta às pessoas do lugar, num período em que ele está também saindo da adolescência, a obra se torna receptiva a uma amizade calcada nos mínimos detalhes. E quando vemos Jamie tentando se declarar a Jamie vemos ainda mais a passagem de fases como poucos filmes consegue mostrar de maneira tão imperceptível e intensa. Ao determinar o século 20 como limite, Mills enfoca, na verdade, gerações diferentes que se encontram em determinado momento e que antecipam os rumos do que se intensificaria no século 21. Principalmente no início dos anos 90, obras como Tomates verdes fritos e Thelma & Louise representaram essa força da imagem feminina, mas Mulheres do século 20 é mais original ao deixar sua temática subentendida por meio da força de cada personagem que enfoca, assim como as obras dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Essas mulheres são precursoras sem terem necessariamente consciência disso, ou seja, Mills não as enquadra dentro de um movimento ou as enxerga como figuras que representariam uma certa independência com o objetivo de se inserir na história; o diretor as mostra como se compusessem um grande panorama de época, em que a sensibilidade ainda estava a favor da inter-relação procurada por cada um e não de um discurso ensaiado, no qual sempre se ausenta a autenticidade de querer algo por simplesmente considerar notável. A ambientação dos anos 1970 e a localização na Califórnia permitem uma grande proximidade do espectador com a faceta solar dessas histórias que se explicam em conjunto. Há alguns momentos que são inseridos em trechos da história (um pronunciamento de Jimmy Carter, fotografias icônicas de shows de rock), contudo nada que exclua o filme de uma visão universal, lembrando pela simplicidade (sem se confundir com o simplismo) de Paterson, com um roteiro belíssimo (infelizmente a sua única indicação ao Oscar). Também há algumas vinhetas em que Mills explora a trilha sonora de Neill como uma passagem de tempo notável, parecendo um pouco onírica e no qual as personagens se sentem ainda mais vivas, assim como utiliza imagens de Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio, uma ópera de imagens mostrando a modernidade do indivíduo descentralizado. Ao final, sem preparar o espectador para isso em nenhum momento, em razão de uma narrativa sem apelo dramático evidente, Mulheres do século 20 eclode numa emoção quase secular.

20th century women, EUA, 2016 Direção: Mike Mills Elenco: Annette Bening, Lucas Jade Zumann, Elle Fanning, Greta Gerwig, Billy Crudup Roteiro: Mike Mills Fotografia: Sean Porter Trilha Sonora: Roger Neill Produção: Anne Carey, Megan Ellison, Youree Henley Duração: 118 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Archer Gray

Jackie (2016)

Por André Dick

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Depois de receber o Oscar de melhor atriz por Cisne negro, Natalie Portman poucas vezes teve seu talento novamente aproveitado, e se destacou, nos últimos anos, especialmente nos poucos minutos de tela em Cavaleiro de copas, de Malick, como uma das namoradas do roteirista de Hollywood Rick, feito por Christian Bale. É uma participação quase sem falas, baseada em gestos, e que Portman converte numa das melhores de sua carreira, que inclui ainda peças como O profissional, dos anos 90, as prequelas de Star Wars, Closer, V de Vingança e os dois filmes da série Thor. Uma grande atriz não precisa percorrer a calçada da fama e estar presente em tweets todos os anos como Meryl Streep: é em papéis específicos que ela consegue brilhar como poucas outras em toda a sua carreira. Neste filme do chileno Pablo Larraín, ela interpreta Jacqueline Kennedy, esposa de JFK quando aconteceu o assassinato mais tempestuoso dos Estados Unidos na década de 60, que repercute até hoje.
Basicamente, é o relato de Jackie ao jornalista Theodore H. White (Billy Crudup), quando ela lembra dos acontecimentos que marcaram o dia fatídico com seu marido e presidente (feito por Caspar Phillipson) e o que transcorreu depois, com a posse de Lyndon Johnson (John Carroll Lynch), ao lado da esposa Lady Bird (Beth Grant), a ligação com Bobby (Peter Sarsgaard), irmão do presidente, e sua amizade com a secretária social Nancy Tuckerman (Greta Gerwig) e Bill Walton (Richard E. Grant). Todas essas ligações vão se desenhando de maneira interessante pelas lentes de Larraín, captando uma atmosfera de desespero e consternação diante do ocorrido.

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Para uma obra que parece um relato histórico, Jackie possui uma profundidade no drama, graças à maneira como Portman se apresenta longe e à frente das câmeras. Ela concede uma grandeza trágica a essa primeira dama, e suas conversas com Bobby e a secretária social se transformam em referências para entendê-la, assim como quando conversa com um padre (John Hurt, excelente, em um dos seus últimos papéis). Tudo isso poderia resultar em apenas um dos tantos relatos históricos cansativos que assistimos na televisão, em que se eliminam as falhas da figura evocada para tecer um panorama perfeito.
Larraín é um diretor de talento, como já havia mostrado na sua análise sobre a disputa política em No, e já havia trabalhado no gênero de cinebiografia com Neruda, um dos favoritos ao Oscar de filme estrangeiro antes de anunciarem os pré-finalistas, contudo mais exatamente no primeiro não exibia o domínio narrativo que possui aqui. Jackie é uma obra belíssima, no sentido tanto das atuações, principalmente de Portman, capaz de rivalizar com a atuação de Huppert, quanto na parte técnica. A trilha sonora de Mica Levi (que antes apresentara um trabalho excêntrico em Sob a pele) e a fotografia de Stéphane Fontaine (de Elle) ajudam a dar uma sustentação notável, assim como o design de produção da Casa Branca: cada elemento está ali para agir em conjunto com o restante.

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Além de Larraín extrair grandes atuações de todo o elenco, o que mais chama atenção, contudo, é a maneira como o cineasta transmite as sensações de cada personagem. Há um sentido de solidão diante do inesperado, uma angústia que não consegue se desprender do corpo e puxa o enfrentamento de toda uma existência. Jackie, depois do acontecimento, vê toda sua vida se transformar em horas, e o que lhe resta é tentar projetar imediatamente o que pode acontecer a seguir. O roteiro de Noah Oppenheim (o mesmo, surpreendentemente, de Maze Runner) é eficaz na maneira como liga passado e presente (o da entrevista) e como deixa algumas lacunas para o espectador preencher, sobretudo quando Jacqueline precisa preparar o enterro do marido. O político, que existia por exemplo em JFK, de Oliver Stone, acaba sendo diluído em meio a comportamentos de bastidores que oscilam entre o drama implacável e a simples necessidade de esquecer o que aconteceu.
Larraín transforma cenas aparentemente simples, como a chegada dos Kennedy ao Texas, numa aula de ligar cinema e história, sempre aproximando a câmera das reações de Jackie e dando oportunidade a Portman de entregar nuances que não seriam vistas de outra maneira. Outro bom momento, nesse sentido, é quando ela conversa com o motorista do carro que transporta o caixão de JFK e presencia o silêncio abalado de Bobby, uma figura que empunha determinado poder capaz de fazer Lyndon Johnson se curvar em sua cadeira e cujos negócios, como lembra Jackie, não são plenamente estabelecidos. O belo figurino que ela veste é como se fosse um contraponto à sua angústia, mais exatamente quando ela chega ao quarto da Casa Branca depois do assassinato e visualiza as manchas de sangue nele. Há uma primeira dama que aparece em frente às câmeras, forçando uma fala perfeita, quase robótica, e outra justificadamente abalada, nos bastidores.

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Mas atenta, principalmente, a alguns momentos-chave, por exemplo quando Jackie se limpa em frente a um espelho depois do atentado e quando testemunha a passagem de poder, como se estivesse, num prazo curto de tempo, saindo da história para ingressar no temido esquecimento. Muitas vezes, ela compara o que está acontecendo a ele com o que aconteceu a Abraham Lincoln, e há uma ligação disso com o momento em que ela e JFK recebem uma equipe de TV na Casa Branca para mostrar a reforma que foi realizada nela, em razão de Jackie, quando se criou um quarto e a conservação de peças históricos desse presidente referencial para a extinção da escravatura, como já vimos em Lincoln. Há breves entraves nessa sequência em relação ao restante da narrativa, assim como é mostrada a entrevista com o jornalista, que poderiam servir apenas como introdução.
No entanto, em relação a alguma tentativa de tornar as imagens de JFK e Jackie em irretocáveis, nada mais falso: a coragem aqui se mostra em revelar como o centro do poder desaba diante de uma tragédia incontornável para uma população e uma conversa gentil com os filhos se mostra o resquício de uma liberdade ainda a ser guardada. Larraín aprimora isso com a fotografia de Fontaine, que parece misturar os trabalhos de Malick, Noé e, sobretudo, Reygadas (principalmente nos tons das cores, a exemplo daquele momento em que Jacqueline corre atrás de seus filhos). O clima chuvoso de Washington, com suas árvores e gramados, com o clima fúnebre, também ajuda a transmitir, por outro lado, a angústia enfocada: todos esses elementos tornam Jackie num filme de raríssimo impacto.

Jackie, CHI/EUA/FRA, 2016 Diretor: Pablo Larraín Elenco: Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Hurt, John Carroll Lynch, Beth Grant, Caspar Phillipson Roteiro: Noah Oppenheim Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora: Mica Levi Produção: Ari Handel, Darren Aronofsky, Juan de Dios Larraín, Mickey Liddell, Pascal Caucheteux, Scott Franklin Duração: 100 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Jackie Productions / Jackie Productions (II)

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Spotlight – Segredos revelados (2015)

Por André Dick

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Alguns filmes adquirem, de um momento para outro, uma determinada importância que os fazem ser assistidos com mais ou menos expectativa. Alguns correspondem a ela, outros não. Quando o também ator Tom McCarthy (ele está na série Entrando numa fria, como um dos cunhados de Robert De Niro), realizou, por exemplo, O agente da estação, ainda era um cineasta em início de trajetória, e Ganhar ou ganhar mostrou sua sensibilidade, por meio da bela atuação de Paul Giamatti, enquanto Trocando os pés trouxe mais um Adam Sandler de rotina, mas com Spotlight – Segredos revelados ele acaba chamando a atenção para si e para o elenco que atrai para esta história baseada em fatos reais.
O jornal Boston Globe contava com uma equipe de reportagens especiais, Spotlight, tendo à frente Walter Robbinson (Michael Keaton), com Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) como parceiros. Eles são incumbidos pelo novo chefe, Marty Baron (Liev Schreiber), de investigar abusos por parte de padres pedófilos ligados à Igreja Católica em Boston. Trata-se de um assunto de extrema importância, sobretudo porque necessita um tratamento que não seja condescendente com o assunto. Há alguns filmes pontuais que fazem uma crítica direta à Igreja Católica e são bastante ousados, a exemplo de O poderoso chefão III, quando mostra Michael Corleone com contatos diretos dentro do Vaticano.

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O tema de Spotlight é distinto – e lida com uma questão que atinge a Igreja há alguns anos, por todas as notícias a que se tem acesso. McCarthy tinha uma linha a seguir de emotividade, no entanto, em termos narrativos, Spotlight se destaca por ser um filme de diálogos sobre uma matéria a ser feita. Parece que muito está acontecendo, e quando se percebe não chega a haver uma linha mais aprofundada de cada personagem. Eles buscam informações e se movimentam, mas o espectador dificilmente está com eles. Como na referência central do filme, Todos os homens do presidente, sobre o Caso Watergate, eles vão atrás de pessoas e poucas vão recebê-los, no entanto Pakula sabia construir um crescente de tensão e desconfiança; McCarthy parece apenas registrar fatos e colocar personagens para dizê-los sem a ênfase necessária, ao som de uma trilha sonora surpreendentemente tímida de Howard Shore.
Spotlight fica no limite da denúncia, no entanto um pouco afastado do tema que pretende abordar, por meio, principalmente, do empecilho que o direito colocaria para impedir a verdade. A questão, ao que parece, é que a importância de Spotlight não parece ser a mesma de seu tema em questão, e pelo que se vê essa mistura está sendo feita em grande quantidade, mesmo quando tem grandes momentos.
Os relatos de vítimas são muito bem feitos no início, dando ao filme uma carga dramática específica, principalmente os de Phil Saviano (Neal Huff), Joe Crowley (Michael Cyril Creighton) e Patrick McSorley (Jimmy LeBlanc), todos em excelentes atuações, por outro lado McCarthy os descarta para dar uma movimentação ininterrupta. Todos os jornalistas falam o tempo todo dos casos, não abrindo espaço para uma emoção que podem tirar deles. Nessa movimentação, é visível que se ausenta a parte que na investigação é responsável pelos acontecimentos. Quando ela surge, é de maneira um tanto encoberta, como se não quisesse mostrá-la. Ou seja, há uma pauta jornalística a ser cumprida pela equipe Spotlight; isso em termos de cinema não significa que dê um filme destacado. E é difícil acreditar que McCarthy deseja extrair um traço de humor do aviso de Matt Carroll a seus filhos.

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Com esta falta de carga dramática, as atuações têm dificuldade para se sobressair, exceto as de Mark Ruffalo e de alguns coadjuvantes (Stanley Tucci e Schreiber), principalmente Billy Crudup como o advogado ambíguo Eric Macleish e John Slattery, no papel de Ben Bradlee Jr. Keaton e McAdams, apesar de estarem bem (e admiro ambos), talvez estejam em parte desperdiçados em personagens que poderiam mais contundência. Não há traços claros da sensibilidade interpretativa que McCarthy mostrou em seus belos O agente da estação e Ganhar ou ganhar, ou a simplicidade que realçava as bordas emocionais desses filmes. Num ano em que há um filme como Juventude, é difícil considerar que Spotlight chegue perto de ter o melhor elenco.
A montagem, para um filme quase documental, é igualmente confusa e as camadas vão se sobrepondo, abandonando ideias interessantes, outras menos, porém sempre deixando para trás alguma linha pela qual o espectador poderia seguir com mais clareza para que o impacto seja devidamente atingido. À medida que Spotlight hesita em mostrar quem eram os responsáveis pelos acontecimentos, em raras exceções, o filme se sente, de certa maneira, incompleto. Não há uma clareza entre o público e o privado, não da maneira proposital que deveria, e sim para o crescimento dos personagens nessas duas redomas. A exposição do problema crucial para Boston, tão referida ao longo do filme, se torna para além do filme: não é o ponto para McCarthy. Tudo, para ele, continua e continuará em segredo, pelo menos para o espectador que acompanha a história. A verdade só poderá vir depois da notícia, e nos perguntamos se veremos Saviano, Crowley e McSorley diante de quem cometeu algo trágico em suas vidas.

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Mesmo a maneira com que McCarthy filmou sua história, com um design de produção bastante simplista (lembra um telefilme antes das produções mais recentes sofisticadas) e movimentos de câmera em parte previsíveis (algumas conversas são acompanhadas pelas costas dos personagens, mas nunca recebem um significado mais amplo), incomoda. Além disso, a redação de jornal não se confirma como um lugar atrativo e os cenários além dela são dispersos e pouco numerosos. McCarthy opta por uma certa secura visual, como se isso desse a ele mais efetividade no tratamento do tema.
E ele realmente não consegue solucionar a montagem da melhor maneira. Não era o objetivo, claro, mostrar a amizade entre os repórteres; o problema é que em Spotlight não há um elo de ligação evidente que os torna uma equipe, e isso é sentido no resultado final, que parece absorver toda a emoção que haveria nos relatos originais, entregando apenas o que seria impresso. Isso acaba criando um afastamento inevitável do espectador que percebe esse impasse na narrativa de McCarthy, de que os personagens são apenas o elo para uma denúncia de impacto enorme (o final mostra muito bem essa característica, especialmente) e não, como em Todos os homens do presidente, também figuras intrinsecamente ligadas ao assunto, exceto a do personagem feito por Ruffalo, ao menos em termos de convencimento cinematográfico. O editor feito por Keaton é um exemplo. É isto o que mais chama a atenção ao fim de Spotlight: a vida dessas pessoas prejudicadas tragicamente por padres pedófilos parece, antes de tudo, servir apenas a uma matéria, e o roteiro acaba por se ressentir de um acabamento: aquele que faz do espectador também parte daquela emoção. Para o que gostaria de ser, falta, na verdade, um editor para Spotlight.

Spotlight, EUA, 2015 Diretor: Tom McCarthy Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachael McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Billy Crudup, John Slattery, Len Cariou, Neal Huff, Michael Cyril Creighton, Jimmy LeBlanc Roteiro: Josh Singer, Tom McCarthy Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Blye Pagon Faust, Michael Sugar, Nicole Rocklin, Steve Golin Duração: 128 min. Distribuidora: Sony PicturesEstúdio: Anonymous Content / Participant Media / Rocklin / Faust

Cotação 2 estrelas e meia

Watchmen – O filme (2009)

Por André Dick

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Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com um dos melhores filmes já feitos a partir de quadrinhos, o original de Richard Donner. Anos antes ele já havia feito este Watchmen – O filme, uma espécie de prévia para o diretor de seus projetos futuros. Considerando a versão com seu corte (215 minutos, sendo que o original tinha 162), é difícil imaginar outro épico com super-heróis. Adaptado da novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen é um exemplo de obra que cresce com seu material de origem. Para isso, era importante contar com Snyder, um cineasta que certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente nesse filme (não em O homem de aço, em parte uma decepção por não utilizar o talento demonstrado aqui). Essa característica, ainda assim, voltaria em sua peça seguinte, o menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse.

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Os heróis de Watchmen são Edward Morgan Blake/Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Walter Kovacs/Rorschach (Jackie Earle Haley), Laurie Jupiter/Spectre Silk (Malin Akerman), Daniel Dreiberg/Nite Owl (Patrick Wilson), Adrian Veidt/Ozymandias (Matthew Goode) e Jon Osterman/Dr. Manhattan (Billy Crudup). Eles se encontram fora de ação desde que Richard Nixon (Robert Wisden), na Casa Branca ainda em 1985, em meio à Guerra Fria e visto como uma referência por ter conseguido vencer no Vietnã, proibiu heróis mascarados, e se reúnem novamente para investigar o assassinato de um deles, o Comediante. Isso é motivo inicialmente para Snyder empregar, mais do que em 300, um estilo bastante específico, uma espécie de mistura entre filmes de heróis e suspense noir. Os ambientes e a atmosfera histórica, de lugar sem tempo definido, são fascinantes e carregam Watchmen para um outro nível. É interessante como Snyder apresenta os personagens de maneira lenta, recorrendo a flashbacks, e não incorre num caminho afetado por maneirismos, sem excesso de jogos de câmera, por exemplo, em sequências de ação, conservando tudo na dose certa. Não chegam a ser recordações didáticas e sim com o intuito de acrescentar mais densidade a cada figura.
E o elenco é realmente excelente: Wilson é uma surpresa como Nite Owl, assim como Akerman, depois de exibir bons elementos de comediante em Antes só do que mal casado (um dos filmes mais menosprezados dos Irmãos Farrelly), apresenta uma Spectre Silke com traços de dificuldade com a mãe (Carla Gugino), integrante do grupo Minutemen, de quem herdou o título de heroína, e em sua relação com Dr. Manhattan, que teria ajudado Nixon a vencer a guerra do Vietnã. Akerman é o personagem que une todos os heróis e está, ao contrário de algumas críticas à sua atuação, excelente. Temos, ainda, Matthew Goode, numa de suas atuações mais equilibradas, como Ozymandias, que se tornou um multibilionário graças à sua inteligência, e tem uma parceria com Dr. Manhattan.

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Watchmen é, claramente, uma crítica ao governo Nixon e de como um resultado diferente da Guerra do Vietnã não necessariamente acabaria com a Guerra Fria e a a ameaça nuclear, motivo pelo qual o governo depende do Dr. Manhattan, resultado de experimentos secretos. Os Estados Unidos mostrados pelo filme parecem viver numa permanente Segunda Guerra Mundial ou Guerra do Vietnã, sempre amedrontado. Nixon, em seu terceiro mandato, corresponde à ligação entre a década de 70 e os anos 80 de Ronald Reagan.
Do mesmo modo, a liberdade sexual dos anos 60 em Watchmen é conduzida a uma repressão não apenas das ligações afetivas como também da figura dos heróis. Escusado será entender que a sequência do zepelim parece ser a antítese dessa repressão, pairando sobre o céu de Nova York, e numa grande visualização de Snyder, assim como a passagem por Marte. Spectre Silke é o principal elo de ligação entre os heróis e esse intervalo histórico de certa repressão, pois não é dado aos heróis o espaço para imaginá-la que não livre do contexto de culpa e pecado. Por isso, ao mesmo tempo, tanto Dr. Manhattan quanto Nite Owl soam, de certo modo, deslocados e um pouco trágicos ao não conseguirem confessar seu amor. E, se Rorschach vai se escondendo por trás de luzes e sombras (dialogando tanto com The Blank, vilão mascarado de Dick Tracy, quanto com Darkman), o Comediante pode oferecer uma vida pregressa de crimes inclusive de guerra, vistos antes apenas em filmes de Oliver Stone ou Michael Cimino.
Esses caminhos, no entanto, não seriam os mesmos não fosse a qualidade com que Snyder os emprega. Isso talvez seja aquilo que mais chame a atenção nesta adaptação: apesar de ser fiel ao material original, em nenhum momento ele se coloca apenas como uma extensão direta do trabalho original, como vemos em 300, adaptação dos HQs de Frank Miller; em Watchmen o diretor de fato se coloca como um observador tanto da figura mítica do herói quanto do lugar em que ele pretende se inserir.

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Watchmen 14

Ele também poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, também adaptado dos quadrinhos de Miller, mas escolhe um tom mais próximo do cinema dos anos 40 ou 50, auxiliado pelo design de produção irretocável e a fotografia de Larry Fong (Super 8), sobretudo quando mostra a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia, assim como a nave de Nite Owl lembre mais um zepelim em tamanho menor noturno e o homem da banca de jornais relembre sempre as notícias diárias envolvendo os acontecimentos referentes a esses heróis. Do mesmo modo, os Tales of the Black Freighter/Contos do cargueiro negro (incluídos na versão estendida) lembram os quadrinhos dessas décadas. A impressão é que Snyder tem muito interesse em conservar essa análise à margem do filme mais do que propriamente a ação dos filmes de super-heróis, que acontecem em momentos pontuais e talvez sem a força conhecida em outras produções do gênero. Mesmo o final, sob este ponto de vista, pode ser fraco e por vezes ineficaz. No entanto, ao contrário do que realizou para O homem de aço, isso realmente parece não importar ao cineasta em Watchmen, uma referência do gênero.

Watchmen, EUA, 2009 Diretor: Zack Snyder Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Billy Crudup, Carla Gugino, Robert Wisden Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Deborah Snyder, Lawrence Gordon, Lloyd Levin Duração: 163 min. (versão original); 215 min. (versão estendida) Estúdio: Lawrence Gordon Productions

Cotação 4 estrelas e meia