Série Indiana Jones (1981, 1984, 1989, 2008)

Por André Dick

Os caçadores da arca perdida, como se sabe, é a aventura que consagrou Indiana Jones como o herói da década de 1980, um arqueólogo que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas no Peru e traído pelo companheiro de viagem (um jovem Alfred Molina) – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula e é amigo do dono de museu Marcus Brody (Denholm Elliott), ele vai em busca da Arca da Aliança, no Poço das Almas, no Egito, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês René Belloq (Paul Freeman). e Major Toht. (Ronald Lacey) como líder imediato, ele reencontra uma antiga namorada, Marion Ravenwood.(Karen Allen), num bar do Nepal, com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Cairo, Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas e inserindo o ótimo personagem Sallah (John Rhys-Davies).

As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina. Ele possui medo mortal de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda. Os caçadores… recebeu cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de Lawrence Kasdan, baseando-se em história de George Lucas e Phillip Kaufman, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e trilha sonora (mais um trabalho marcante de John Williams, na sua melhor fase). E Spielberg já insere aqui a presença dos nazistas, o que trataria de modo histórico em A lista de Schindler. São eles que desejam a Arca da Aliança, com o objetivo de possuírem ter um acesso ao desconhecido. No entanto, deparam-se com Indiana Jones e com o fato de a Arca não poder ser aberta, pois, antes de mais nada, seria um veículo de “comunicação com Deus”, o que não seria propenso aos alemães seguidores de Hitler.

Indiana Jones e o templo da perdição segue Os caçadores da arca perdida, e, como o terceiro ato do filme de 1981, procura a ação incessante. Com roteiro de Gloria Katz e Williard Huyck (autores de Loucuras de verão com George Lucas), mostra o arqueólogo inicialmente em uma de suas jornadas por Shangai, China (em 1935, um ano antes do filme original), acompanhado por um ajudante mirim, Short Round (o ótimo Ke Huy Quan, de Os Goonies) e da cantora brega Willie Scott (Kate Capshaw). Sim, são dois estereótipos, mas nem por isso menos divertidos. Depois de um acidente de avião no Himalaia, eles caem perto da vila Mayapore, no norte da Índia, que teve suas plantações queimadas e as crianças levadas por uma entidade chamada Shiva, depois de uma pedra sagrada ter sido roubada.
Já se percebe que, mesmo com a ação fantasiosa de Os caçadores da arca perdida, Spielberg exerce seu poder sobre imagens que atraem pela inverossimilhança – é nisso o personagem sobrevive, cercado de personagens que parecem saídos de um musical dos anos 30 (não à toa, o filme começa exatamente com um número musical). Todo o modo com que Spielberg relata a primeira parte faz parte de outro imaginário, de produções B, ao contrário da classe atingida em Os caçadores da arca perdida.
Indiana chega com os amigos ao Palácio Pankot, onde, além de encontrar uma seita de fanáticos (com rituais macabros, como arrancar o coração de uma pessoa viva e afundá-la no fogo) liderada involuntariamente pelo marajá Zalim Singh (Raj Singh), descobre as crianças do vilarejo trabalhando feito escravas para procurar outras pedras sagradas, enterradas em catacumbas, onde existe uma mina. Já sabemos de início que ele não tem a seriedade de parte de Os caçadores da arca perdida, com suas referências religiosas, mas mesmo assim é um passeio curioso. Extremamente bem feito, a parte técnica tem achados (figurino e design de produção) e a direção de Spielberg em cenas como a do banquete ou do momento no qual Willie espera uma declaração amorosa de Indiana é particularmente inspirada. Às vezes, Spielberg se excede na violência, em oposição a um tratamento quase juvenil de determinadas situações e, em outras ele prefere a fantasia de modo preponderante, para aliviar alguma saída que soa um pouco realista demais para seu objetivo. De modo geral, ele conecta os personagens por meio da ação e o seu humor tenta equilibrar a narrativa.

Repleto de ação e talvez mais bem-humorado do que os dois primeiros, com a mesma trilha musical de John Williams, e roteiro elaborado por Jeffrey Boam (Máquina mortífera II). Indiana Jones e a última cruzada inicia mostrando a juventude de Indiana Jones (em atuação de River Phoenix) em 1912, fugindo de ladrões com uma relíquia em Utah. Reveça-se, de forma convincente, como surgiram o chapéu, o chicote e o medo de cobras do herói. Num salto no tempo, já adulto, luta contra os mesmos bandidos, atrás da mesma relíquia. A ação não para nunca, e talvez Spielberg esteja disfarçando um pouco que o filme é uma reedição de Os caçadores da arca perdida sob um ponto de vista da paternidade. Indiana entra no plano de reencontrar seu pai, desaparecido enquanto procurava o cálice do Santo Graal.
Seu pai, Henry Jones (Connery), foi capturado pelos nazistas e Indiana é contratado pelo milionário Walter Donovan (JUlian Glover) para encontrá-lo. Nesse meio tempo, ele tem um caso com Elsa Schneider (Alisson Doody), foge de ratos, há uma perseguição eletrizante de lanchas em Veneza, outra em motos, e se encaminha para a caverna onde está o Cálice do Graal. Bastante parecido com o primeiro também no que se refere ao aspecto religioso e o interesse nazista por peças religiosas, este Indiana é, com todo seu aspecto de filme de aventuras descompromissado, antológico. É impressionante como Spielberg consegue efetuar transições por meio de uma edição ágil e nunca torna a violência impactante em excesso, preferindo vê-la mais como numa espécie de animação. A ligação entre pai e filho também funciona não apenas por Ford e Connery, mas porque Boam consegue inserir elementos de melancolia e lembrança juvenil e de como uma relação passada não tão resolvida pode se manifestar melhor numa situação de alto risco, assim como o regresso dos personagens de Marcus Brody e Sallah adicionam elementos cômicos imprevistos e a fotografia de Douglas Slocombe, responsável pela dos dois filmes anteriores também, é exímia em captar dias ensolarados ou nublados, criando uma atmosfera imersiva. Também talvez seja interessante apontar como Quentin Tarantino se inspirou, aqui e ali, para compor seu roteiro de Bastardos inglórios.

Em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal, Harrison Ford decidiu regressar ao personagem de Indiana Jones depois de George Lucas e Steven Spielberg retomarem uma série que já era dada como finalizada. Neste episódio, os elementos lembram sobretudo do início de Os caçadores da arca perdida, no qual Indiana está no mesmo depósito do desfecho no primeiro filme, desta vez em 1957. Ele é capturado por agentes soviéticos liderado por uma agente russa, da KGB, Irina Spalko (Cate Blanchett), que deseja chegar a uma misteriosa caveira de cristal, capaz de dar acesso a um universo paralelo – e nesse caso já sabemos que, em se tratando de Spielberg, deve ser algo parecido com Contatos imediatos do terceiro grau. Toda essa parte termina com uma explosão bastante exagerada, mostrando que, se os outros tinham sequências inverossímeis, este se aprimora em fazê-las ainda mais inverossímeis.
Quando consegue fugir do grupo de soviéticos, Indy volta à universidade para lecionar história, mas é procurado por um jovem, Mutt Williams (Shia LaBeouf), que tem uma carta de Harold Oxley (John Hurt), passada por sua mãe, Marion (Karen Allen), da obra original. Este é o motivo para Indiana vir à América do Sul, investigar onde se encontram as pistas dadas por Oxley. O país é o Peru, fechando um círculo em relação ao primeiro filme, onde vai à noite a um cemitério, sendo atacado por várias crianças assustadoras, até chegar à caveira de cristal. Em seguida, ele é novamente capturado pelo grupo chefiado por Irina. Reencontra Marion e a ação incessante começa, para não parar mais, em meio a perseguições na Amazônia (obviamente impossíveis de acontecer).

O humor fica a cargo do quarteto Ford-LaBeouf-Allen-Hurt, explorando, de modo inteligente, um roteiro um tanto limitado de David Koepp (Jurassic Park) para o tempo que durou o hiato entre Indiana Jones e a última cruzada e este, de quase 20 anos, inserindo pelo menos um personagem dispensável: George “Mac” McHale (Ray Winstone). No entanto, é um referencial no que diz respeito a lances sobre os anos 50, desde os mistérios escondidos numa sede secreta dos militares até uma cidade com manequins para experimentos com a bomba atômica (e até esquecemos os momentos com as marmotas saindo de buracos na terra que aproximam Spielberg de uma tentativa de reproduzir a Disney). Trata-se de uma sátira, em alguns momentos, à Guerra Fria, no entanto sem se entregar a um revisionismo histórico previsível. As dicas estão lá e são muito bem inseridas em meio à história, com uma coerência por vezes não encontrada no mais elogiado Indiana Jones e o templo da perdição. .O interessante aqui também é a parte técnica: a fotografia de Janusz Kamiński evocando os anos 70 é excelente, e a trilha sonora de John Williams mais uma vez marca boa presença. O mais engraçado é, sem dúvida, Ford, sempre oferecendo uma boa interpretação, desta vez em estilo mais ranzinza,q que viria a adotar a partir de então. Entre efeitos visuais baseados em CGI ou locações de estúdio em alguns instantes, evocando as aventuras dos anos 50, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal parece ser, por enquanto, o penúltimo dessa série antológica, pois ainda se anuncia um quinto para 2022.

Raiders of the lost ark, Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliott Roteiro: Lawrence Kasdan Fotografia: Douglas Slocombe Trilha Sonora: John Williams Produção: Frank Marshall Duração: 115 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Indiana Jones and the temple of doom, EUA, 1984 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Ke Huy Quan Roteiro: Willard Huyck e Gloria Katz Fotografia: Douglas Slocombe Trilha Sonora: John Williams Produção: Robert Watts Duração: 118 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Indiana Jones and the last crusade, EUA, 1989 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover,Sean Connery Roteiro: Jeffrey Boam Fotografia: Douglas Slocombe Trilha Sonora: John Williams Produção: Robert Watts Duração: 126 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, EUA, 2008 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent, Shia LaBeouf Roteiro: David Koepp Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Frank Marshall Duração: 122 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Paramount Pictures

 

Os intocáveis (1987)

Por André Dick

Os intocáveis 8É difícil não gostar de Os intocáveis, com seu ambiente situado nos anos 30, mesclando diversos gêneros: policial, aventura, suspense, drama e alguns momentos de violência. Desde o início de sua carreira, De Palma se notabilizou por sua influência do mestre Alfred Hitchcock, o que fica claro em filmes como Carrie, a estranha e, sobretudo, Um tiro na noite, Vestida para matar e Dublê de corpo. No entanto, ele parece ter encontrado a maneira certa de incorporar essas referências neste último policial verdadeiramente clássico (depois dele, apenas Los Angeles – Cidade proibida talvez rivalize com ele), com uma atmosfera ao mesmo tempo contemporânea, muito em razão da fotografia de Stephen H. Burum. Trata-se, a princípio, de uma colagem de referências – mas uma colagem que nos remete a vários tempos do cinema, sem nenhum artificalismo ou vontade de fazer simples metalinguagem. Quatro anos antes, De Palma havia refilmado Scarface, de Howard Hawks, com Al Pacino, e aqui, ele reproduz boa parte do clima dos anos 30 com méritos subversivos ainda mais refinados do que em sua adaptação de um dos símbolos da máfia. O filme tem características diferentes do seriado em que se baseou, no qual Robert Stack era Eliot Ness (aqui interpretado por Kevin Costner). Passa-se em Chicago, na época da Lei Seca, quando se proibia qualquer venda de bebidas, e Al Capone (De Niro, ótimo mesmo em papel secundário) governava o crime (daqui em diante, spoilers). O detetive Ness entra em ação convocando policiais novos e veteranos: o jovem George Stone (Andy Garcia, antecipando a grande atuação de sua carreira, em O poderoso chefão III), na verdade Giuseppe Petri, o veterano Jim Malone (Connery, em atuação que lhe valeu o Oscar de coadjuvante) e um agente do FBI, Oscar Wallace (Charles Martin Smith, convincente), dedicado à contabilidade.

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Eles se autodenominam “os intocáveis” e começam a lutar contra Capone e seus homens, encurralando-os nas entregas de bebidas em lugares determinados. A maneira como Ness parte do fracasso ao combate contra Capone – numa das batidas, ele é enganado por uma informação falsa, descobrindo um carregamento de sombrinhas – e encontra Malone, fazendo uma ronda noturna, torna-se memorável, junto com o instinto de selecionar este policial experiente para apoiá-lo. Justamente Malone propõe um combate mais endurecido e ajuda a selecionar Stone, de origem italiana, enquanto Ness entrega uma arma ao assustado Wallace. De Palma utiliza bem o elenco e faz menções a clássicos como O encouraçado Potemkin (o tiroteio nas escadarias), além de nunca se perceber se ele não está sempre refazendo cenas de filmes antigos, como o tiroteio em cima do prédio. A música de Ennio Morricone possui um tom eletrizante (como no letreiro inicial, em que o título vai formando uma espécie de cidade com edifícios e suas sombras), remetendo tanto às suas colaborações com faroestes quanto com Era uma vez na América (com seu parceiro Sergio Leone), o figurino, bem cuidado, e a direção de arte, muito fiel – em todas essas categorias, Os intocáveis foi indicado ao Oscar.
Em algumas cenas, De Palma incorpora tanto Hitchcock quanto Dublê de corpo. Lembremos que neste filme, também dos anos 80, um ator de filmes B que sofre de claustrofobia (o eficiente Craig Wasson) se envolve num jogo de sedução quando testemunha os stripteases de uma vizinha de condomínio, olhando-a pela luneta de casa (clara referência a Janela indiscreta), começando a segui-la – a stripper é Debora Shelton, ex-miss dos Estados Unidos. Não se entende muito bem por que ela tem envolvimento com um amigo de Wasson, mas é certo que o filme diverte, com seu clima de sedução e estranheza, ajudado ainda por Melanie Griffith. O filme, como outros de De Palma, quer ver a ambiguidade dos personagens, e sua principal qualidade, além desta, é saber realizar movimentos de câmera que não fiquem exagerados. Em Os intocáveis, em toda a sequência na qual Malone parece ser perseguido por um mafioso dentro de seu apartamento e depois se vira com a arma, surpreendendo-o, para expulsá-lo pela porta, traz esse clima que vemos em Dublê de corpo.

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Desse modo, a câmera de De Palma, não raramente em travelling, quer mostrar ambientes caracterizados pela tensão: é assim no início, quando acompanhamos um homem levantando o jornal e o café até Al Capone. Um filme que revive os antigos tempos e em meio a esse cuidado de fotográfico, Os intocáveis não se nega a lançar alguns lugares-comuns, como as ameaças à família de Ness assim que Capone passa a persegui-lo (fazendo com que ele tente escondê-la longe da cidade), e a corrida dos intocáveis por uma rua noturna, armados e conversando ao mesmo tempo, que antecipa uma das muitas influências que recebe do western (que irrompe na cena da polícia montada canadense, ao mesmo tempo em que os personagens estão à espera de um carregamento ilegal de bebidas numa cabana). É claro que se pretende falar da ética policial em muitos momentos e do quanto o crime corrompe – Capone representa isso, assim como o homem que ele coloca para perseguir os intocáveis, Frank Nitti (Billy Drago), e um policial que se ressente da fama inesperada de Malone. Mas é Nitti que aparece no filme como uma espécie de ameaça invisível, apoiado pela lei e pela política, ao lado de Capone, num terno branco alinhado de forma impecável. E Capone, em razão da atuação meticulosa de De Niro, é uma mistura de gentleman com serial killer, dividido entre quartos de hotel caríssimos, óperas e reuniões com taco de beisebol, avesso a risadas enquanto discursa. Este vilão consegue se contrapor a Ness de maneira que se torna um dos motes para o interesse de Os intocáveis, assim como se mostra oposto a Malone e sua dedicação contra o crime.

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Os intocáveis 12Esta movimentação entre mocinhos e vilões chega ao cuidado fotográfico. Em muitos momentos, a câmera foca Capone de cima, quando ele está se barbeando. Em outros, o mostra de baixo para cima, e vice-versa, como na cena da reunião com os comparsas num salão luxuoso. Há também a sequência em que Ness e Capone se enfrentam numa escadaria de hotel: Ness o observa de baixo para cima. Outra é aquela em que George segura o carrinho de nenê empunhando a arma de baixo para cima contra o comparsa de Capone. Mais ainda: Ness aponta a arma para Frank Nitti, quando está no parapeito de um prédio e, finalmente, depois aponta a arma novamente para Nitti quando este se encontra pendurado numa corda tentando descer do prédio. Em outro momento, Malone sai pela porta de seu apartamento e vê Nitti com sua metralhadora, à distância, no andar de cima. Nessa composição fotográfica, De Palma lida não apenas a situação daqueles personagens em determinado momento, mas um jogo de poder, de perseguidor e perseguido – mas não exatamente de vencedor ou perdedor. Além disso, o roteiro de David Mamet (diretor de Jogo de emoções e As coisas mudam), dramaturgo de origem, é inteligente, trabalhando todos os elementos de maneira equilibrada – diante de filmes atuais, chega a ser um tanto incômodo saber que esse roteiro teve tantas críticas, apontando-o como superficial. A meu ver, Os intocáveis, o que não é pouco, é o grande filme de Brian De Palma, como elenco, direção e parte técnica perfeitos. Ele anteciparia outras obras dele normalmente desconsideradas pela crítica, como Pecados de guerra, A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim, mas com qualidade, e mantém-se como exemplo de filme que, capaz de mesclar diversos gêneros, se torna único a ponto de ser uma obra-prima.

The untouchables, EUA, 1987 Diretor: Brian De Palma Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Billy Drago Roteiro: Oscar Fraley, Eliot Ness, David Mamet Fotografia: Stephen H. Burum Trilha Sonora: Ennio Morricone  Produção: Art Linson Duração: 119 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 5 estrelas