O curioso caso de Benjamin Button (2008)

Por André Dick

Esta fábula dirigida por David Fincher pode parecer, à primeira vista, um Forrest Gump com menos humor, mas fica apenas na superfície a comparação. Em certos aspectos também parecido com Peixe grande, de Tim Burton, embora superior, o filme de Fincher tem um lado fabular não apenas pela figura de Benjamin Button, que nasce velho e vai rejuvenescendo. Isso seria o resultado de uma espécie de pedido feito por Monsieur Gateau (Elias Koteas), que está construindo o relógio da estação de trem de Nova Orleans e, tendo perdido seu filho na guerra, gostaria que o tempo contasse para trás (spoilers a partir daqui)..
Nascido no dia de encerramento da Primeira Guerra, em 1918, Button é abandonado pelo pai, Thomas Button (Jason Flemyng) na escadaria de um asilo e acolhido por uma afro-americana, Queenie (Taraji P. Henson), uma enfermeira, e seu namorado Tizzy (Mahershala Ali). Neste ambiente, em que a morte está presente todos os dias, e também trazendo todas as enfermidades no corpo de nenê, Button se refugia do restante do mundo. No entanto, já um pouco crescido (embora curvado e numa cadeira de rodas), é levado pela mãe adotiva a uma missa, sob as preces de um pastor começa a andar – lembrando também o filme com Tom Hanks – e, aos poucos, vai se acostumando a sair de casa, até que conhece Daisy (na infância, Ellen Fanning; na vida adulta Cate Blanchett), cuja avó mora no asilo.

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É esse amor que vai acompanhá-lo a vida toda, até que se reencontram quando têm a mesma idade, ou seja, no meio da vida. Tal drama – de o personagem nunca pertencer totalmente a seu tempo – é o que torna o filme de Fincher tão denso, assim como a maneira com que expõe o relato da mulher apaixonada por Benjamin.
Ao mesmo tempo, temos o relato de Daisy já envelhecida, acompanhada de Caroline (Julia Ormond), sua filha num hospital, que lê o diário de Benjamin, enquanto se aproxima a tempestade do Katrina. Suas lembranças não são apenas aquelas de que a mãe participa, mas principalmente as de Benjamin, que conta sobre o dia em que conhece Ngunda Oti (Rampai Mohadi), que, pelo tamanho, acha ser uma pessoa muito próxima e enfrenta seu primeiro afastamento de casa; sua amizade com o capitão Mike (Jared Harris), que lhe dá um emprego em seu rebocador, o leva para conhecer um bordel, em cuja saída acaba sendo abordado, sem saber, pelo pai; e o seu envolvimento com Elizabeth Abbott (Tilda Swinton, sempre com uma discrição elegante), mulher de um espião inglês, a qual conhece num hotel em que fica hospedado enquanto aguarda o momento de ir para alto-mar.

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Numa dessas idas e vindas, o rebocador de Mike é chamado para servir na Segunda Guerra, e Benjamin se oferece para integrar a tripulação. Todas essas lembranças são filmadas de maneira delicada por Fincher, utilizando de maneira irrepreensível os cenários, quase sempre vazios, mas acolhedores, como aquele em que Benjamin encontra sua amante (o filme recebeu o Oscar de direção de arte) no hotel. Entre idas e vindas para o asilo, Benjamin não consegue esquecer Daisy, sua paixão desde a infância, desde o momento em que conversa com ela debaixo de uma cabana na sala do asilo, iluminado pelas lanternas (como algum registro perdido de Wes Anderson), e ela se torna dançarina, participando de um grande grupo de balé, levando a uma das mais belas cenas – quando ele a contempla dançar depois de anos em frente a um espelho de estúdio.
O roteiro é de Eric Roth, o mesmo que realizou o de Forrest Gump, a partir de uma história de F. Scott Fitzgerald, talvez por isso haja elementos de ligação entre os dois filmes. O terreno é o da fantasia, pouco experimentado por Fincher, a não ser em Alien 3, com todo seu peso e opressão, expandido em policiais de serial killers de Zodíaco, Seven e Millennium e na claustrofobia de O quarto do pânico e Clube da luta. Mas em Benjamin Button o plano trágico do personagem – de ter sido abandonado e não recebido o amor da mãe, como acontece com Forrest – se destaca nas mãos de Fincher.

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Vemos seu personagem por dentro, ou seja, não é um simples arquétipo de fábula ou uma história universal, mas trágico,  o que é traduzido por uma das melhores interpretações até hoje de Brad Pitt. Nesse sentido, ainda mais interessante o romance atemporal de Benjamin pela amada e a noção de que a origem pode também representar o fim, ou vice-versa, e Cate Blanchett, com seu habitual distanciamento , convence. Todos esses sentimentos são reunidos com singularidade por Fincher, e a atmosfera do filme adquire um grau de melancolia que abrange tanto os afastamentos de Button da família e de Daisy (quase forçados) quanto aqueles em relação aos amigos que ele fará, mas certamente não irá manter, seja pela separação, seja pela perda. Há uma ambientação poucas vezes vista em outros filmes, em que o tempo ganha uma aceleração e uma permanência, uma aproximação e uma distância. Benjamin, ao contrário de Gump, não participa de grandes realizações, mas está permanentemente interessado em concretizar seu amor por Daisy e, quando participa de um acontecimento, como o da Segunda Guerra, é mais como coadjuvante.
Ainda assim, isso parece proposital em Fincher: ele está justamente mostrando um personagem singular, que não consegue se inserir nunca no tempo em que está. Também parece não ter interesse especial por isso: ele está mais interessado em reencontrar o espaço onde foi salvo, como se a ele tivesse de se apegar para a continuidade de sua existência. O espaço do asilo é sempre uma referência para a junção dos tempos que se perderam, assim como os comentários de um senhor sobre fatos de seu passado e os encontros tardios com seu pai.

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O que realmente é curioso no filme de Fincher é como esse quadro sentimental de vários personagens não tenta ser, em nenhum momento, piegas: sua emoção surge não dos personagens, mas da maneira como as imagens foram selecionadas. De inegável beleza toda a trajetória do casal pelos anos 60, pintando o apartamento e vivendo de forma descompromissada, acentuando a solidão de cada imagem; ou de Pitt, lembrando o Marlon Brando de O selvagem da motocicleta, andando numa estrada deserta e encoberta por nuvens escuras.
O filme ganha relevo por meio da bela fotografia de Claudio Miranda e da trilha sonora arrebatadora de Alexandre Desplat (lembrando alguns elementos daquela que Morricone fez para Cinzas no paraíso). Miranda filma Benjamin Button com os detalhes que conhecemos em outras obras de Fincher, e ele prossegue a linha de imagem entre o amarelo e o verde de O quarto do pânico, Zodíaco, e, depois de Benjamin Button, de Millennium e A rede social, sempre com as digitais de Fincher. Cada instante do filme de O curioso caso de Benjamin Button consegue arrebatar pela melancolia.

The curious case of Benjamin Button, EUA, 2008 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Mahershala Ali, Fiona Hale, Elle Fanning, Jared Harris, Tilda Swinton Roteiro: Eric Roth Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Ceán Chaffin, Kathleen Kennedy, Frank Marshall Duração: 166 min. Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / The Kennedy/ Marshall Company Distribuidora: Paramount Pictures (América do Norte) e Warner Bros. Pictures (Internacional)

Aliados (2016)

Por André Dick

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Depois de apostar em animações na década passada, como Beowulf, O expresso polar e Os fantasmas de Scrooge, Robert Zemeckis vai aos poucos regressando aos filmes com atores: primeiro, foi O voo, com uma atuação notável de Denzel Washington, o segundo A travessia, apresentando Joseph Gordon-Levitt num papel curioso, e agora Aliados. Zemeckis foi uma das grandes descobertas de Steven Spielberg. Revelado no divertido Febre da juventude, sobre um grupo de jovens que tentava chegar aos Beatles antes de eles se apresentarem num programa dos Estados Unidos, Zemeckis coescreveu 1941 e realizou algumas pérolas dos anos 80, a exemplo de Tudo por uma esmeralda, De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, esses dois últimos produzidos por Spielberg. Nos anos 90, completou a trilogia de De volta para o futuro e dirigiu Forrest Gump, que lhe deu os Oscars de melhor filme e direção, além da já clássica ficção científica Contato, tendo Jodie Foster e Matthew McConaughey à frente do elenco. Ainda na virada do século ele realizou uma das melhores obras com Tom Hanks, Náufrago.
Baseado num roteiro de Steven Knight, Zemeckis mostra o encontro na Segunda Guerra Mundial de um oficial da inteligência canadense Max Vatan (Brad Pitt) e a integrante da Resistência Francesa Marianne Beausejour (Marion Cotillard). Eles viajam para Casablanca, no Marrocos, a fim de empreenderem uma missão contra nazistas. Isso porque Marianne tem contatos com os alemães e faz com que ambos possam ingressar num determinado local.

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Ambos se mostram interessados em serem verdadeiramente um casal, também para disfarce, principalmente por parte de Marianne. A aproximação surge aos poucos, embora a princípio Max queira se concentrar apenas nas suas tarefas como espião, e uma tempestade no deserto é vista como o ponto de conciliação entre duas pessoas solitárias. Já envolvido, ele passa a desconfiar que Marianne pode ser uma espiã da Alemanha. Os seus superiores, principalmente Frank Heslop (Jared Harris) e um oficial da SOE (Simon McBurney), passam a querer que ele faça testes a fim de provar isso, e o filme segue a linha de um thriller de espionagem com toques de romance.
Max entra em contato com alguns homens, Guy Sangster (Matthew Goode), e um piloto chamado George Kavanagh (Daniel Betts), a fim de descobrir se ela de fato pode não ser a pessoa que diz que é. Sua única familiar a dividir seus receios é a irmã Bridget (Lizzy Caplan, subaproveitada) e, a partir desse ponto, Aliados se mostra como a construção de um homem acuado por um futuro que terá de construir em desconfiança. Nesse sentido, Cotillard constrói uma Marianne de maneira interessante: se, por um lado, sabemos que ela tem um preparo para o combate, ela se mostra vulnerável na maioria das vezes. O espectador, porém, não tem certeza se ela é uma pessoa que pode prejudicar ou não Max e viver uma vida tranquila com ele.

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A narrativa simples trata, na verdade, do enigma de estar apaixonado por alguém que verdadeiramente não se conhece, o que rende, por parte do roteiro, sequências em que o personagem de Pitt se sente realmente conturbado. É interessante como ele em nenhum momento se sente disponibilizado às tarefas que precisa efetuar e, nesse sentido, a possível vida tranquila que poderia ter com Marianne representa o reencontro com suas próprias origens longe da carreira que empreendeu. Os símbolos que Zemeckis distribui ao longo da história remetem algumas vezes a outras obras, como Império do sol e Ponte dos espiões, ambos de Spielberg, principalmente na empatia melancólica que os personagens centrais despertam – longe de qualquer manifestação de êxito, esses são personagens que procuram apenas o sossego em meio ao eclipse humano de uma Guerra Mundial.
Até certo ponto, parece que Zemeckis deseja oferecer uma versão romântica da Segunda Guerra Mundial – e as batalhas aéreas que ele filma lembram sobretudo as de Esperança e glória, dos anos 80 – quando, na verdade, está mostrando como esta faceta pode ser colocada em dúvida ou mesmo corrompida quando não existe num ambiente capaz de mantê-la.

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A química entre Pitt e Cotillard só perde em destaque para a fotografia brilhante de Don Burgess e para a reconstituição de época detalhista. Existe aqui, no mote da história de Knight, autor de roteiros como o de Senhores do crime, de Cronenberg, não apenas uma clara homenagem ao clássico Casablanca, como referências a O céu que nos protege e Bastardos inglórios. Como nesses filmes – o de Bertolucci mostra especificamente um casal em crise numa viagem pelo Saara depois da Segunda Guerra Mundial –, os personagens são enigmáticos, e não se sabe muito bem qual o posicionamento de cada um. O clima é de uma peça europeia, bem mais lento do que normalmente um filme norte-americano costuma ser, com revelações sendo feitas aos poucos, sem nenhuma pressa. Possivelmente faltam alguns elementos: a narrativa não desenvolve os personagens centrais de maneira que o espectador possa se interessar mais por eles, e algumas soluções soam excessivamente fáceis. De qualquer modo, esta é uma história com reais atrativos e que Zemeckis entrega ao espectador com sua competência habitual de artesão.

Allied, EUA, 2016 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, Matthew Goode, Lizzy Caplan,Simon McBurney Roteiro: Steven Knight Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Graham King, Robert Zemeckis, Steve Starkey Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: GK Films / Paramount Pictures

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Poltergeist – O fenômeno (2015)

Por André Dick

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Numa época em que as continuações ou refilmagens dão o tom dos lançamentos no cinema, como Mad Max e Jurassic world, o terror Poltergeist – O fenômeno parece o menos atrativo. Não apenas porque o clássico original se mantém mais pela excelência e nostalgia do que pelo conhecimento de um novo público, à medida que suas duas continuações não foram bem-sucedidas, como pelo fato de não haver uma ligação direta, nos atores e na produção, ao original. A versão de 1982 é dirigida oficialmente por Tobe Hooper, de O massacre da serra elétrica, no entanto quem costuma ser visto como seu principal realizador é Steven Spielberg, autor do roteiro e responsável pela produção. Neste remake, quem substitui Spielberg na produção é Sam Raimi, de A morte do demônio e responsável pela primeira franquia de Homem-aranha.
A história se mantém a mesma. Baseada especificamente em O iluminado e O exorcista, mostra a chegada de uma família a uma nova casa. Os pais são Eric Bowen (Sam Rockwell), à procura de um emprego, e Amy (Rosemarie DeWitt), que deseja ser escritora. Seus filhos são Griffin (Kyle Catlett), Madison (Kennedi Clements) e Kendra (Saxon Sharbino). Enquanto a irmã mais velha, Kendra, gosta de assistir a um programa de paranormalidade, apresentado por Carrigan Burke (Jared Harris, o terrível vilão do segundo Sherlock Holmes), Griffin tem receio desde quando se perdeu, certo dia no shopping, e Madison vem se comportando de maneira estranha, sobretudo quando diante de um armário. O primeiro Poltergeist (particularmente, um dos filmes mais assustadores já feitos) era excelente na modelação de uma atmosfera, com a hora inicial muito bem trabalhada. Esta refilmagem, de certo modo, apaga parte desta construção e vai direto aos sustos. No entanto, mais interessante é se exigir desenvolvimento aqui e vibrar com a perseguição ininterrupta de Mad Max pelo deserto ou com os dinossauros previsíveis de Jurassic World.

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É difícil, no gênero de terror e suspense, definir o que garante a qualidade: em termos de sustos, esta refilmagem é bastante convincente. O quarto de Griffin, o armário de Madison – tudo é composto de maneira crível. Talvez não fique tão clara a paranormalidade de Madison, e quando a ameaça vem da televisão. Não apenas, de qualquer modo, o novo Poltergeist se mostra um filme interessante. Se a ação parece acontecer rapidamente demais (o que não deixa de ser um mérito, num período em que se contam os minutos para que um filme termine), tudo não acontece sem um cuidado no design da casa e da fotografia excelente de Javier Aguirresarobe. Seu trabalho em Os outros e A hora do espanto (além de trabalhar com Woody Allen) confirma como consegue captar sustos na movimentação de câmera e na mudança brusca de uma cena para outra.
É certo que o diretor Gil Kenan, do desenho animado muito interessante A casa monstro, não lida bem com a recepção dos pais diante do fato de que os filhos estão sendo ameaçados por fantasmas que saem da televisão. Ou seja, a atuação de Rockwell e DeWitt não se aproximam daquelas de JoBeth Williams e Craig T. Nelson. Ainda assim, Kenan emprega uma tensão  permanente e conta com Kyle Catlett, que no ano passado fez o personagem T.S. Spivet no sensível Uma viagem extraordinária e mostra aqui novamente seu talento. Levando em conta que Poltergeist é encenado praticamente dentro da casa (há apenas uma sequência de um jantar externo), fica fácil entender por que este filme soe sintético, também no desenvolvimento dos personagens e mesmo assim efetivo. Enquanto esta refilmagem não inova muito nas situações, ela reproduz cenas do original talvez de maneira mais apertada e assustadora, sobretudo uma que envolve uma árvore e, definitivamente, aquelas que se passam num armário, remetendo quase às paisagens infernais descritas por Dante, com uma concepção visual impressionante. E há duas sequências (com o drone e a furadeira) que lidam com uma montagem bastante eficiente, conduzindo o espectador para o espaço reduzido da casa.

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Perdi o número de vezes que vi o original e, sabendo o que aconteceria aqui na maior parte do tempo, ainda conseguiu ser assustador. Kenan também possui um olhar muito bom para capturar o cenário dos subúrbios, que desde Meus vizinhos são um terror talvez estejam sumidos. Há uma luminosidade nas ruas que dialoga com Amor pleno, de Malick, assim como um cuidado em reproduzir, por meio da fotografia, os espíritos se manifestando pela energia elétrica. Em alguns momentos, Aguirresarobe confere um trabalho tão específico de cores no quadro que este Poltergeist se sente ainda melhor filmado do que o original no sentido técnico (independente da diferença de anos e de utilização de efeitos especiais). Há um uso muito bom da televisão e dos aparelhos para criar suspense e os cenários de fundo parecem sempre guardar uma ameaça desconhecida, embora não se compare, entre as peças recentes do gênero, a Corrente do mal. Se a filha considera que um celular é item obrigatório, seus pais pouco querem conversar com os filhos ou ouvi-los. Neste Poltergeist, todos estão atentos apenas para o movimento: o diálogo com pessoas ao redor está sensivelmente diminuído. Se a crítica no original era de Spielberg à televisão, aqui a crítica se volta contra essa dispersão – e talvez por isso o final se sinta de tão pouca intensidade.
O que parece ainda afastar esta refilmagem do filme de Tobe Hooper é sua temática de fundo: enquanto no original tínhamos dois pais com problemas de relação com os filhos, e ainda assim interessados numa convivência, parece aqui que temos apenas dois pais ligeiramente desligados das questões mais urgentes, afetados pela crise dos Estados Unidos e sendo obrigados a morar no subúrbio por falta de opção. Rockwell é um ótimo ator para compor este tipo de atitude. A descrença dele no que está acontecendo é a mesma que ele lança sobre o preço oferecido pela casa em que sua família vai morar – ele está, digamos, em outra, praticamente durante toda a história, pouco ligando para o que acontece à sua volta; no momento em que ele precisa vir à tona, Rockwell se estabelece.
Ou seja, do mesmo modo que é possível entender que os admiradores do original considerem essa refilmagem desnecessária – em muitos pontos ela é –, é possível que quem conhece ou desconhece o filme de 1982 não se sinta tão desapontado e sinta que Kenan pretendeu aqui realmente fazer um filme visualmente cuidado, mesmo que visivelmente com um acabamento diferente do anterior: este Poltergeist é um filme ágil e brusco; ainda assim, é cinema de qualidade.

Poltergeist, EUA, 2015 Diretor: Gil Kenan Elenco: Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Kennedi Clements, Kyle Catlett, Saxon Sharbino, Jane Adams, Jared Harris Roteiro: David Lindsay-Abaire Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Marc Streitenfeld Produção: Nathan Kahane, Robert G. Tapert, Roy Lee, Sam Raimi Duração: 94 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Ghost House Pictures / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Vertigo Entertainment

Cotação 4 estrelas