Gremlins 2 – A nova geração (1990)

Por André Dick

Gremlins é uma comédia com elementos de terror dirigida pelo mesmo Joe Dante de Piranha e se constitui um dos clássicos remanescentes dos anos 80. Nele, um pai cientista querendo agradar a seu filho, Billy Peltzer (Zach Galligan), resolve presenteá-lo com um mogwai, criatura que encontra numa loja de relíquias chinesa. Ele não pode se alimentar depois da meia-noite, nem ser molhado ou exposto à luz. Caso contrário, pode acontecer um problema. Já sabemos que, diante da direção de Dante e da produção de Spielberg, o problema é perturbador e divertido. O rapaz dá o nome de Gizmo ao seu novo amigo e tem uma vida tranquila no banco da cidade onde mora, mas, antes de tudo, tenta se declarar a uma moça que trabalha numa lanchonete, Kate Beringer (Phoebe Cates).

No dia em que não segue às ordens dadas para que Gizmo não dê problemas, sua casa se transforma numa confusão, e panelas voam para todos os lados, em direção sobretudo à mãe de Billy. É preciso avisar a polícia, mas quem acredita em pequenos monstros saltando pelas ruas em plena noite natalina? Nesse ponto, a cidade já está completamente abandonada e mesmo no cinema, ao som de Branca de Neve e os sete anões, os monstrinhos, ou gremlins já estão queimando até as pipocas. Tudo o que se passa neste filme é absurdo, e Dante comprova nele o valor que já mostrara não apenas em Piranha, como também em Grito de horror, e que investiria novamente em Viagem insólita, Meus vizinhos são um terror e Matinê, este já nos anos 90.
O objetivo desta continuação é encadear gags a partir dessa situação em Nova York, com homenagens a vários filmes. Para realizar Gremlins 2 – A nova geração, Dante pediu liberdade total à Warner e investiu num roteiro de Charles S. Haas que começa com uma referência aos Looney Tunes e satiriza desde Batman e Rambo até musicais da MGM. É uma diversão notável – embora não raro forçada, no entanto talvez por isso mesmo encantadora.

Desta vez, Gizmo – que dava origem aos gremlins no primeiro filme – perde seu dono, o Sr. Wing (o chinês Keye Lucke). Em Nova York, ele se reencontra com o antigo dono, Billy, e sua namorada Kate. A ação se passa no prédio do magnata Daniel Clamp (o excelente John Glover), sempre acompanhado por seu braço direito, Forster (o ótimo Robert Picardo). O mogwai é molhado pela água de um bebedouro, dando origem à nova geração de monstrinhos, maiores e piores. O primeiro, levado por engano para casa por Kate, é completamente alucinado, com os olhos rodando a todo vapor. Por sua vez, os vizinhos do casal da cidade de origem, Murray Futterman (Dick Miller) – aquele que gritava no original que se chamavam “gremlins” determinados aviões da Segunda Guerra Mundial –  e sua esposa Sheila (Jackie Joseph), aparecem para visitar o casal e novamente se envolvem com a confusão generalizada provocada pelas criaturas ameaçadoras.
Essas invadem o laboratório do Dr. Catheter (Christopher Lee, em participação antológica) e passam a tomar produtos químicos, surgindo gremlins dos mais diversos tipos. Tudo muito original, com as tintas acentuadas pela trilha sonora circense de Jerry Goldsmith, um exemplo de cinema independente bancado pela indústria. Em meio à confusão, um figurante de uma série de terror gravada no prédio, vovô Fred (Robert Prosky), decide virar repórter para cobrir os acontecimentos.

Com algumas boas piadas que se perdem na tela pequena (spoiler a seguir), como a interrupção do filme pelos gremlins como se estivessem na cabine do projetor do cinema, e mesmo inferior ao original (um clássico do humor) Gremlins 2, de qualquer modo, é uma diversão contagiante, pois consegue, por meio de seu cenário único, levar o espectador aos lugares e sensações mais inusitados, colocando até o conhecido crítico Leonard Maltin em situação delicada. A coleção de gremlins, como no original, representa os humanos num sentido hiperbólico, por isso revela que Joe Dante é um mestre nesse sentido. Em Grito de horror, ele mostrava uma comunidade de lobisomens aterrorizando humanos e em Meus vizinhos são um terror um bairro em polvorosa por causa da chegada de uma nova família, estranha e que não saía à luz do sol. Dante tem um talento especial para elaborar personagens cartunescos que não chegam a ser caricaturas, ou seja, é possível reconhecer neles traços humanos e mesmo sensíveis. Em Gremlins 2, ele associa os monstrinhos à organização da sociedade de maneira ainda mais elaborada, em alguns momentos bastante engraçada. É um exemplo de cinema anárquico e até, de certo modo, conceitual.

Gremlins 2 – The new batch, EUA, 1990 Diretor: Joe Dante Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, John Glover, Robert J. Prosky, Robert Picardo, Christopher Lee, Dick Miller, Jackie Joseph, Keye Lucke Roteiro: Charles S. Haas Fotografia: John Hora Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Michael Finnell Duração: 106 min. Estúdio: Amblin Entertainment (Amblin Partners) Distribuidora: Warner Bros.

Star Wars: Episódio III – A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

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Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar: por exemplo, interpretando o mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson comprova ser um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas e, entre excessos de efeitos especiais, as paisagens de Tatooine tinham o mérito de dialogar com a saga original.
O descompromisso de A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, O ataque dos clones, cujo tom interno é mais melancólico e mesmo arriscado, contrariando, ao contrário do primeiro desta trilogia, a franquia antiga, mesmo com a habitual trilha de John Williams. Continuam nele os problemas de A ameaça fantasma, em que existia pouco humor, mesmo mostrando R2-D2 e C-3PO, mas se anuncia a base da história que repercutirá em A vingança dos Sith. Percebe-se que Annakin Skywalker (agora Haydeen Christensen) quer tomar o lugar do mestre Obi-Wan Kenobi (McGregor) e confrontar Yoda – em movimento –, assim como Mace Windu (Samuel L. Jackson).

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A questão política envolvendo a princesa Amidala (Natalie Portman), por quem Annakin se apaixona, continua presente, e Palpatine tenta organizar o jogo. No entanto, nem os cenários diferentes e a presença de Jango Fett (Temuera Morrison), pai de Boba Fett (da série antiga), acabam conferindo ao filme uma ação interessante. Outro vilão, Conde Dooku (o ótimo Cristopher Lee), não chega a ter uma relação direta com a ação, e os personagens estão constantemente passando em frente a cenários magníficos, ou trocando ideias com fundo político, mas parecem não fazer parte deles. Ou seja, o chroma-key, aqui, é desgastante. No entanto, há algumas qualidades: há um bom ritmo, com uma perseguição inicial que remete a Blade Runner, as paisagens reproduzem um visual fascinante e tudo se encaminha para uma grande luta de jedis numa caverna do deserto.
A segunda trilogia de George Lucas precisava encerrar com um filme pelo menos superior aos dois primeiros, sobretudo o segundo Suas cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos não chegam a cansar e, em A vingança dos Sith, Lucas entrega uma obra à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente, levemente deslocado, mesmo em comparação a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou à trilogia.

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A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, mas pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (o excelente Ian McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Annakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu finalmente tem uma participação decisiva na história.
A revolta de Annakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Annakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, O ataque dos clones já tinha uma tristeza impenetrável, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Annakin à Terra e o reencontro com Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com direção de arte impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções interessantes deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas e meia

O hobbit – A batalha dos cinco exércitos (2014)

Por André Dick

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Depois de receber os Oscars de melhor filme e direção pela terceira parte de O senhor dos anéis, Peter Jackson iniciou a sua fase de adaptação a um cinema sem tanta mitologia, mas, mesmo assim, ele refilmou King Kong e tentou fazer uma história sobre o além em Um olhar do paraíso. Sem ter o êxito esperado, ele voltou ao universo de Tolkien, desta vez para a trilogia de O hobbit. No entanto, além de ficar razoavelmente circunscrito a este universo, ele passou a não ser visto mais como um cineasta de especial criatividade, justamente pela opção em transformar um livro de Tolkien em três filmes, parecendo mais interessado no lucro proporcional da franquia. O primeiro O hobbit (Uma jornada inesperada) foi recebido com desconfiança pela crítica, embora, particularmente, seja um filme de muita qualidade, enquanto A desolação de Smaug, a segunda etapa da peregrinação de Bilbo e os anões foi melhor aceito, mas tinha dificuldade de criar o movimento necessário porque justamente Jackson o projetou depois de conceber O hobbit em apenas duas partes.
Essa decisão praticamente afastou Jackson de uma pretensa admiração pela obra de J.R.R. Tolkien, na visão de muitos: ele parecia mais interessado em fazer render a franquia e proporcionar uma tentativa de se equivaler com O senhor dos anéis. Finalmente chegamos à parte final da série, O hobbit – A batalha dos cinco exércitos, e já podemos ter uma noção bastante clara no sentido comparativo com a trilogia anterior.  Como se avalia desde o início, O hobbit não foi concebido, ainda em livro, para ser um épico na proporção de O senhor dos anéis, nem tinha, apesar dos personagens interessantes, o número proporcional de situações e reviravoltas. Nesse sentido, Jackson, ao incluir novamente Legolas e mais uma elfa na linha de frente, desde A desolação de Smaug, fazia o possível para lançar seu olhar pessoal para a obra de Tolkien, a meu ver sem tanta efetividade. Mas a questão é que o segundo filme tinha um encerramento sem ligação com seus longos 160 minutos e personagens ficavam soltos, sem nenhum direcionamento específico, inclusive Bilbo, que praticamente não aparecia, além de alguns personagens serem acrescentados sem a devida força.

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A terceira parte de O hobbit começa justamente onde o segundo terminou (e aqui há possíveis spoilers para quem também não viu A desolação de Smaug), com o ataque do dragão à Cidade do Lago. Jackson coloca uma dinâmica espetacular nessa sequência, com uma sucessão de efeitos especiais notáveis e um trabalho sonoro minucioso, além da agilidade da fotografia de Andrew Lesnie, o referencial desde a primeira trilogia. Este ataque de Smaug é certamente o clímax do filme passado transposto para o início deste, e o espectador logo teme que Jackson, em seguida, tome mais alguns minutos de exposição para o que acontecerá, sem o devido ritmo. Aos poucos, ele estabelece a narrativa, mas sem lacunas e demoras, ao mostrar Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) dentro da Montanha enfrentando o que os seus companheiros de viagem chamam de “doença do dragão”. Considerando-se um rei, Thorin esquece suas promessas aos habitantes da Cidade do Lago para tentar abraçar o ouro de sua morada. Bilbo tenta contornar a situação com a ajuda sobretudo a Balin (Ken Scott), mas nada impedirá uma guerra por causa justamente de vários povos saberem do que aconteceu e irem atrás do ouro – daí os cinco exércitos do título.
A saída de Jackson para sua saga poderia render certamente batalhas e destruições em massa, com o mesmo enfoque de outros filmes de fantasia. Mas, de forma inusitada, pois Jackson se mostrava excessivamente confiante com a segunda parte da série – justamente a que foi filmada em grande parte depois de ele terminar a saga, ou seja, ele a criou para formar uma trilogia –, O hobbit derradeiro é um filme que consegue lembrar não apenas os melhores momentos de O senhor dos anéis, como apontar uma maneira original de ver esses personagens que havia, a meu ver, em Uma jornada inesperada. Ou seja, enquanto no segundo Jackson parecia fazer cenas de ação simplesmente para estender poucos argumentos do roteiro, aqui ele consegue, como em O senhor dos anéis, justificar a ação por meio da decisão de seus personagens. Há filmes de ação, que surgem principalmente no verão, que não trazem nenhuma dosagem dramática; O hobbit – A batalha dos cinco exércitos faz sua ação a partir do drama dos personagens, um elemento que Jackson resgata sobretudo da batalha do Abismo de Helm em As duas torres.

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Para quem esperava encontrar novamente ligações entre os personagens na Terra-média, finalmente temos uma presença bastante interessante de Thorin Escudo de Carvalho, numa atuação definitiva de Richard Armitage, fazendo algo difícil: colocar o espectador como alguém que tem aversão a seu comportamento, mas também atrair a empatia. Bilbo, praticamente esquecido no segundo filme, servindo como coadjuvante de Bard, o arqueiro, consegue novamente se sobressair, como no primeiro, sobretudo em alguns lances de humor e comoção do ótimo Martin Freeman. Não apenas esses personagens surpreendem, como também o próprio arqueiro consegue uma justificativa para sua presença – e Luke Evans finalmente tem reações emocionais quase ausentes no primeiro filme –, assim como Legolas (Orlando Bloom), Tauriel (Evangeline Lilly) e Kili (Aidan Turner) arquitetam uma trama paralela com interesse o suficiente para o espectador, inclusive em sua relação com Thandruil (Lee Pace), embora não sejam expansivos como os de O senhor dos anéis. Contudo, são personagens, pelo menos neste filme, com motivações humanas e uma procura inata pela nobreza que independe de guerra ou linhagem, mesmo que haja um paralelismo: em determinado momento a Arkenstone desejada por Thorin pode se passar por sementes: aquela simboliza o domínio sobre o reino; as sementes simbolizam o domínio da natureza sobre os poderes e os reinos que passam. Kili pode dar uma peça pessoal a Tauriel, e ela contém sempre uma aproximação, tendo como figura contrária a de Alfrid (Ryan Gage), que acompanha os habitantes da Cidade do Lago com outro objetivo.
Esse elenco consegue criar um equilíbrio com a parte técnica do filme. Um dos maiores incômodos da segunda parte de O hobbit era sua parte técnica com alguns problemas. Em razão de muitas cenas terem sido filmadas depois da rodagem oficial ser concluída, havia um excesso de CGI nos cenários, sobretudo na passagem pela cidade dos elfos. Aqui, se continua havendo CGI, deve-se reconhecer a riqueza de detalhes, acompanhada por figurinos que dialogam com as cores captadas por Lesnie, e Jackson coloca finalmente uma coleção de imagens fantásticas capazes de lembrar não apenas O senhor dos anéis, mas fábulas fantasmagóricas e assustadoras. Os interiores da Montanha Solitária ganham detalhes imprevistos, assim como Jackson consegue obter um olhar de 360 graus sobre o que cerca a Montanha e as batalhas em seu centro, tendo Azog (Manu Bennett) como o grande inimigo, à frente de milhares de orcs. Trata-se de um final ao mesmo tempo com tom dramático, mostrando várias ações paralelas, e teatral, como se tudo precisasse ser decidido num único lugar, em que todos os personagens se reúnem para a alegria ou a tragédia.

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Parte desta decisão se deve ao fato de ter se dividido as duas partes em três, mas o fato é que O hobbit – A batalha dos cinco exércitos funciona de maneira emocional, dramática e com um palco aberto a cenas fantásticas e de resolução que não havia em A desolação de Smaug. Um duelo do qual faz parte Gandalf (Ian McKellen, compensando a dificuldade com que fez o filme, por motivos de doença, com sua empatia) em meio a figuras fantasmagóricas apenas anuncia esse eixo em que os personagens se reúnem pela sua vida ou morte (e por um instante mesmo Galadriel, numa cena magnífica, parece lembrar a cena derradeira do Padre Karras de O exorcista, mas potencializada com mais efeitos especiais). Nesse sentido, a presença não apenas de Bilbo, como também do arqueiro, mostram sempre a necessidade de se buscar um sentido para a casa. O arqueiro, à frente daqueles que sobraram da Cidade do Lago, precisa dar um novo lar a seu povo, enquanto Thorin não entende por que Bilbo coleciona motivos para levar ao condado.
Há uma cena magnética em que Thorin, dentro da Montanha, enfrenta seu próprio eu e imagina um piso banhado de ouro – numa atuação excepcional de Armitage. Esta sequência estabelece uma relação direta com uma situação em que Thorin precisa lutar sobre a água, simbolizando sua origem, e não mais sobre o ouro. Também chama a atenção uma fala de Bilbo sobre as águias que remete ao final de Uma jornada inesperada, quando ele e Thorin conversam no alto de uma montanha sobre ter um lar. Essa motivação pessoal vai ao encontro daquela de Legolas, sobre voltar ou não para seu povo. Existiam esses elementos em O senhor dos anéis, e aqui eles são expostos de maneira sensível, em meio a batalhas ruidosas e fantásticas, assim como uma bela ligação das paisagens mais ensolaradas de Uma jornada inesperada com o cinza e a ambientação mais fria de A batalha dos cinco exércitos, como se as estações da jornada se completassem.
Neste sentido, este O hobbit consegue estabelecer pontes diretas com os filmes anteriores sem levar o espectador a se perguntar por que Jackson está estendendo determinada cena. E, em meio a sequências com um ritmo contínuo (e pela primeira vez a metragem não é excessiva, levando o espectador a se interessar pelo material que foi excluído), Jackson forma uma unidade interessante com O senhor dos anéis. Se a partir do segundo filme poderia haver uma desconfiança em relação ao cineasta, ele finaliza a trilogia com um êxito que certamente traria percalços a quem não dirigiu O senhor dos anéis. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos não é apenas um grande filme de fantasia ou de ação, ou uma adaptação à altura do universo imaginado por Tolkien. Do mesmo modo, não é um filme apenas para os fãs dessa obra, como muitas vezes é recebido, e sim para quem admira um cinema no qual é possível rever e guardar parte da própria imaginação, que cresce como as sementes que Bilbo carrega.

The Hobbit – The battle of the five armies, EUA, 2014 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Luke Evans, Lee Pace, Stephen Fry, Ken Stott, Benedict Cumberbatch, Cate Blanchett, Manu Bennett, Hugo Weaving, Christopher Lee, Billy Connolly, Ian Holm  Roteiro: Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Carolynne Cunningham, Fran Walsh, Peter Jackson Duração: 144 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: 3Foot7 / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

 

O senhor dos anéis (2001, 2002, 2003)

Por André Dick

O senhor dos anéis.SérieA saga O senhor dos anéis, adaptada dos livros de J.R.R. Tolkien, teve uma transposição para o cinema à altura de seu desafio. Apesar de Peter Jackson não ter dado provas anteriores de que seria capaz de adaptar com tal força a trilogia (esteve à frente, por exemplo, de Os espíritos), é bem verdade que ele consegue um resultado superior ao que um diretor comum ou consagrado conseguiria. Ou seja, ele não era nem um cineasta do underground nem alguém incorporado a superproduções hollywoodianas. Talvez por tudo isso ele tenha criado um ritmo tão equilibrado para os três filmes, baseado em locações fantásticas da Nova Zelândia e um trabalho de adaptação e incorporação de cada personagem no imaginário de modo notável.
No primeiro, A sociedade do anel, ele apresenta os personagens, o surgimento do anel e o tom da série, passada na Terra-média. Gandalf (Ian McKellen) vai ao Condado dos hobbits para a festa de despedida de Bilbo (Ian Holm). Este tem um sobrinho, Frodo Bolseiro (Elijah Wood), amigo de Sam (Sean Astin). Gandalf acaba descobrindo que seu amigo carrega o anel do poder, ou seja, aquele que o possuir estará dominado pelas trevas e o desejo de poder. Ele pede que Frodo saia em jornada, com Sam – os quais, pelo caminho, encontram Pippin (Billy Boyd) e Merry (Dominic Monaghan) –, levando junto o anel, em direção ao vilarejo soturno de Bri, onde eles se encontram com Aragorn (Viggo Mortensen), que os ajuda a fugir de cavaleiros assustadores, em meio às árvores do Condado. Frodo entende, aos poucos, que sua missão não é tão simples quanto se imagina. Depois de um novo enfrentamento e serem salvos pela elfa Arwen (Liv Tyler), os hobbits vão para Valfenda, onde a sociedade do anel do subtítulo se reúne por meio da figura de Elrond (Hugo Weaving). Nela, há um elfo, Legolas (Orlando Bloom), um anão, Gimli (Rhyam-Davies), e Boromir (Sean Bean), que se integram à “sociedade do anel”, e o filme intensifica o poderio das imagens – constituindo o elo entre os três filmes. Eles precisam ajudar Frodo a chegar à Montanha da Perdição, em Mordor, onde o anel deverá ser destruído, em meio a provocações entre o anão e o elfo e o desequilíbrio de Boromir. Ao mesmo tempo, Gandalf precisa enfrentar Saruman (Cristopher Lee), que tem planos de seguir o Olho de Mordor, o qual deseja recuperar o anel. Saruman (Cristopher Lee) aprisiona Gandolf em Isengard, a princípio – depois de uma cena de embate em que os cajados representam a força de cada um –, mas logo é enfrentado.

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 3

O senhor dos anéis

Neste primeiro filme, além da apresentação dos personagens, há detalhes surpreendentes, sobretudo quando eles chegam às Minas de Moria. Deparando-se com um monstro submarinho com tentáculos, o grupo foge para dentro dessa caverna, sem saber que nela os espera algo pior e aterrorizador. Peter Jackson consegue emprestar a sequências magníficas um tom, ao mesmo tempo, de pesadelo e fantasia, sem nunca cair num excesso; pelo contrário, a cada desmoronamento de uma montanha ou a abertura de um chão repleto de escadarias, apesar de sua grandiosidade, é dado um aspecto fabular inesquecível e modificador também para a narrativa.
No segundo filme, As duas torres, Frodo e Sam, já separados do restante do grupo, continuam a ser seguidos por Gollum (numa atuação de Adam Serkins), dono anterior do anel, que não consegue ficar longe dele, ao qual chama de “precioso”. Ao mesmo tempo, vemos Aragorn, Gimli e Legolas atrás de Pippin e Merry, que foram levados por orcs. Sarumon quer destruir a Terra-média, no entanto sabemos que há as árvores da Floresta de Fangorn para impedi-lo. Nela, Merry e Pippin conhecem a Barbárvore, que pertence aos ents e é incitado a se revoltar contra Saruman, que está querendo destruir, por meio dos orcs, toda a vegetação para a construção de seu exército. No meio do caminho, Aragorn e seus amigos precisam salvar o Rei Theoden (Bernard Hill) de um feitiço de Saruman, preservado por Gríma Língua de Cobra (Brad Dourif), fazendo com que se desloquem todos para o Abismo de Helm. Ele é pai de Éowyn (Miranda Otto), que se apaixona por Aragorn. Porém, precisam enfrentar uma batalha imprevisível – com um desfecho impressionante. Há, como se vê, uma miscelânea de histórias, mas que Jackson consegue unificar com raro empenho, nunca permitindo que determinados personagens sumam de vista (mesmo que personagens como o de Galadriel, de Cate Blanchett, e de Elrond, de Weaving, sejam menos interessantes para o andamento).

O senhor dos anéis.As duas torres

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Já Sam e Frodo, na continuação da viagem, precisam enfrentar Faramir (David Wenham), irmão de Boromir, interessado no destino do anel. Nessas sequências fantasiosas (em pântanos, sobrevoados pelos Cavaleiros Negros, e montanhas), vemos o maior potencial de O senhor dos anéis: o delírio de imagens, aliadas aos efeitos especiais, é forte o bastante para sustentar a atenção do espectador. A batalha do Abismo de Helm, por exemplo, apresenta-se antológica, fabulosa, sobretudo quando vemos a muralha desabar para a entrada assustadora dos orcs, debaixo da chuva, com os urros no meio da noite e luzes de tochas ao longe.
No terceiro filme, O retorno do rei, sabemos que Peter Jackson está desenhando um epílogo que deve estar de acordo com a série. Apresenta uma primeira hora um tanto devagar, com alguns traços românticos – entre Aragorn e a elfa –, para, então, ao mesmo tempo que acompanha a jornada de Frodo, Sam e Gollum, até a destruição do anel, vermos o que falta ainda ser resolvido, o que inclui uma batalha entre orcs e fantasmas, a loucura de Denethor (John Noble), pondo a Terra-média em risco, uma aranha gigante tentando enredar o personagem principal, a escalada na Montanha da Perdição passando em meio a tropas de orcs. Novamente, Jackson imprime uma montagem rápida, com talento especial para construir cenários fantásticos, e a verdade é que as versões estendidas – cada filme com vários minutos a mais, alguns se transformando em outros filmes, inclusive com peças mais bem-humoradas – são melhores do que as originais, o que impressiona, pois O senhor dos anéis, no original, já tem uma significativa extensão: mais de 9 horas no total. Peter Jackson tem uma tendência para a grandiosidade, o que ele viria a mostrar em King Kong, mas é ainda melhor quando se restringe a elementos básicos ao sucesso de um filme.

O senhor dos anéis 3

O senhor dos anéis.O retorno do rei

O cineasta é fiel às características de cada personagem, colocando Gollum como uma criatura de dupla face, assim como situando os dois lados da magia, nas figuras de Gandalf e Saruman. Gollum é apenas um ser levado pelos eventos e pela própria incapacidade de administrar o poder que o anel tem sobre ele, enquanto os dois magos são decisivos para a existência ou não da Terra-média. Por sua vez, Frodo é combativo e não se entrega ao objeto, mesmo que ele possa levá-lo a momentos de perigo, inclusive desconfiando de Sam. No entanto, é preciso, afinal, acreditar na amizade e não no anel. E assim o que poderia se transformar numa espécie de contemplação da fantasia forçada – vemos o elfo brigando sempre com o anão, para saber quem é o mais ágil; a amizade entre Frodo e Sam sem cair em pieguice; a alegria de Gandalf ao avistar os hobbits depois de muitas batalhas – transforma-se em referência.
O que torna O senhor dos anéis uma trilogia respeitável como a do primeiro Guerra nas estrelas é seu talento em humanizar personagens que poderiam ser vistos como estereótipos de um mundo mágico, imersos num cenário que poderia não parecer verdadeiro, contudo acontece o contrário, costurado pelos figurinos, uma fotografia sempre adequada e uma trilha musical esplêndida – como se Jackson tivesse visto, enfileirados, os clássicos de fantasia dos anos 80 e pretendido revitalizá-los com o olhar e a tecnologia contemporâneos. Jackson está interessado em ver o que há atrás dessas personagens, seus significados mais densos e suas preocupações com o que pode ser dito nas fábulas a serem contadas a partir de seus feitos (o que se corresponde com o próprio Tolkien). Por isso, vai apresentando e dando espaço um a um, aos poucos. Claro que as cenas de batalha são muitas e preenchem boa parte da trilogia, mas o aspecto humano nunca escapa às suas lentes, que procuram a dramaticidade mesmo nos momentos em que flechas e fogos disparam para todos os lados e espadas necessariamente se confrontam, em meio à violência da batalha. É claro, também, que sem o elenco de que dispunha não daria certo: McKellen faz um Gandalf antológico, assim como Morttensen um Aragorn sem exageros, apoiados nos momentos bem-humorados de Orlando Bloom e John Rhys-Davies e no cast juvenil dos hobbits (Sean Astin é um destaque, enquanto Elijah consegue mostrar um herói bastante pressionado pela situação, no tom certo), além das antológicas participações de Cristopher Lee e Bernard Hill. Se alguns do elenco não estão à altura (Hugo Leaving e Cate Blanchett), em momento algum prejudica.

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O retorno do rei.Série 2

Pois, se no início a vida dos hobbits é vista como tranquila, com tocas em meio a montanhas de verde e simpáticas a ponto de parecerem convidar a nossa visita, e os fogos de artifício se transformando em um dragão dão a medida exata dessa fantasia que se inicia, o mundo que se desvenda para os hobbits é muito mais perverso: depois de Valfenda, com suas belas paisagens, eles precisam enfrentar cavernas, vales imensos, sendo perseguidos por orcs, finalmente pântanos (com as imagens de almas), montanhas pouco convidativas e uma caverna habitada por uma aranha gigante. Todavia, esta jornada não é sem efeitos e sem recompensas: os hobbits sabem que estão crescendo em enfrentar tal caminho, e Jackson está interessado em mostrá-lo da maneira mais completa possível. O que poderia ser apenas uma saga para tentar vender mais livros se transforma numa antologia cinematográfica. Peter Jackson entrega uma trilogia clássica, como poucas que conhecemos.

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Tim Sanders, Barrie M. Osborne Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 178 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Two Towers, EUA/Nova Zelândia, 2002 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Brad Dourif, Miranda Otto, Bernard Hill Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Tim Sanders Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 179 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Dourif (versão extendida), Christopher Lee (versão extendida) Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 201 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas