O curioso caso de Benjamin Button (2008)

Por André Dick

Esta fábula dirigida por David Fincher pode parecer, à primeira vista, um Forrest Gump com menos humor, mas fica apenas na superfície a comparação. Em certos aspectos também parecido com Peixe grande, de Tim Burton, embora superior, o filme de Fincher tem um lado fabular não apenas pela figura de Benjamin Button, que nasce velho e vai rejuvenescendo. Isso seria o resultado de uma espécie de pedido feito por Monsieur Gateau (Elias Koteas), que está construindo o relógio da estação de trem de Nova Orleans e, tendo perdido seu filho na guerra, gostaria que o tempo contasse para trás (spoilers a partir daqui)..
Nascido no dia de encerramento da Primeira Guerra, em 1918, Button é abandonado pelo pai, Thomas Button (Jason Flemyng) na escadaria de um asilo e acolhido por uma afro-americana, Queenie (Taraji P. Henson), uma enfermeira, e seu namorado Tizzy (Mahershala Ali). Neste ambiente, em que a morte está presente todos os dias, e também trazendo todas as enfermidades no corpo de nenê, Button se refugia do restante do mundo. No entanto, já um pouco crescido (embora curvado e numa cadeira de rodas), é levado pela mãe adotiva a uma missa, sob as preces de um pastor começa a andar – lembrando também o filme com Tom Hanks – e, aos poucos, vai se acostumando a sair de casa, até que conhece Daisy (na infância, Ellen Fanning; na vida adulta Cate Blanchett), cuja avó mora no asilo.

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É esse amor que vai acompanhá-lo a vida toda, até que se reencontram quando têm a mesma idade, ou seja, no meio da vida. Tal drama – de o personagem nunca pertencer totalmente a seu tempo – é o que torna o filme de Fincher tão denso, assim como a maneira com que expõe o relato da mulher apaixonada por Benjamin.
Ao mesmo tempo, temos o relato de Daisy já envelhecida, acompanhada de Caroline (Julia Ormond), sua filha num hospital, que lê o diário de Benjamin, enquanto se aproxima a tempestade do Katrina. Suas lembranças não são apenas aquelas de que a mãe participa, mas principalmente as de Benjamin, que conta sobre o dia em que conhece Ngunda Oti (Rampai Mohadi), que, pelo tamanho, acha ser uma pessoa muito próxima e enfrenta seu primeiro afastamento de casa; sua amizade com o capitão Mike (Jared Harris), que lhe dá um emprego em seu rebocador, o leva para conhecer um bordel, em cuja saída acaba sendo abordado, sem saber, pelo pai; e o seu envolvimento com Elizabeth Abbott (Tilda Swinton, sempre com uma discrição elegante), mulher de um espião inglês, a qual conhece num hotel em que fica hospedado enquanto aguarda o momento de ir para alto-mar.

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Numa dessas idas e vindas, o rebocador de Mike é chamado para servir na Segunda Guerra, e Benjamin se oferece para integrar a tripulação. Todas essas lembranças são filmadas de maneira delicada por Fincher, utilizando de maneira irrepreensível os cenários, quase sempre vazios, mas acolhedores, como aquele em que Benjamin encontra sua amante (o filme recebeu o Oscar de direção de arte) no hotel. Entre idas e vindas para o asilo, Benjamin não consegue esquecer Daisy, sua paixão desde a infância, desde o momento em que conversa com ela debaixo de uma cabana na sala do asilo, iluminado pelas lanternas (como algum registro perdido de Wes Anderson), e ela se torna dançarina, participando de um grande grupo de balé, levando a uma das mais belas cenas – quando ele a contempla dançar depois de anos em frente a um espelho de estúdio.
O roteiro é de Eric Roth, o mesmo que realizou o de Forrest Gump, a partir de uma história de F. Scott Fitzgerald, talvez por isso haja elementos de ligação entre os dois filmes. O terreno é o da fantasia, pouco experimentado por Fincher, a não ser em Alien 3, com todo seu peso e opressão, expandido em policiais de serial killers de Zodíaco, Seven e Millennium e na claustrofobia de O quarto do pânico e Clube da luta. Mas em Benjamin Button o plano trágico do personagem – de ter sido abandonado e não recebido o amor da mãe, como acontece com Forrest – se destaca nas mãos de Fincher.

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Vemos seu personagem por dentro, ou seja, não é um simples arquétipo de fábula ou uma história universal, mas trágico,  o que é traduzido por uma das melhores interpretações até hoje de Brad Pitt. Nesse sentido, ainda mais interessante o romance atemporal de Benjamin pela amada e a noção de que a origem pode também representar o fim, ou vice-versa, e Cate Blanchett, com seu habitual distanciamento , convence. Todos esses sentimentos são reunidos com singularidade por Fincher, e a atmosfera do filme adquire um grau de melancolia que abrange tanto os afastamentos de Button da família e de Daisy (quase forçados) quanto aqueles em relação aos amigos que ele fará, mas certamente não irá manter, seja pela separação, seja pela perda. Há uma ambientação poucas vezes vista em outros filmes, em que o tempo ganha uma aceleração e uma permanência, uma aproximação e uma distância. Benjamin, ao contrário de Gump, não participa de grandes realizações, mas está permanentemente interessado em concretizar seu amor por Daisy e, quando participa de um acontecimento, como o da Segunda Guerra, é mais como coadjuvante.
Ainda assim, isso parece proposital em Fincher: ele está justamente mostrando um personagem singular, que não consegue se inserir nunca no tempo em que está. Também parece não ter interesse especial por isso: ele está mais interessado em reencontrar o espaço onde foi salvo, como se a ele tivesse de se apegar para a continuidade de sua existência. O espaço do asilo é sempre uma referência para a junção dos tempos que se perderam, assim como os comentários de um senhor sobre fatos de seu passado e os encontros tardios com seu pai.

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O que realmente é curioso no filme de Fincher é como esse quadro sentimental de vários personagens não tenta ser, em nenhum momento, piegas: sua emoção surge não dos personagens, mas da maneira como as imagens foram selecionadas. De inegável beleza toda a trajetória do casal pelos anos 60, pintando o apartamento e vivendo de forma descompromissada, acentuando a solidão de cada imagem; ou de Pitt, lembrando o Marlon Brando de O selvagem da motocicleta, andando numa estrada deserta e encoberta por nuvens escuras.
O filme ganha relevo por meio da bela fotografia de Claudio Miranda e da trilha sonora arrebatadora de Alexandre Desplat (lembrando alguns elementos daquela que Morricone fez para Cinzas no paraíso). Miranda filma Benjamin Button com os detalhes que conhecemos em outras obras de Fincher, e ele prossegue a linha de imagem entre o amarelo e o verde de O quarto do pânico, Zodíaco, e, depois de Benjamin Button, de Millennium e A rede social, sempre com as digitais de Fincher. Cada instante do filme de O curioso caso de Benjamin Button consegue arrebatar pela melancolia.

The curious case of Benjamin Button, EUA, 2008 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Mahershala Ali, Fiona Hale, Elle Fanning, Jared Harris, Tilda Swinton Roteiro: Eric Roth Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Ceán Chaffin, Kathleen Kennedy, Frank Marshall Duração: 166 min. Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / The Kennedy/ Marshall Company Distribuidora: Paramount Pictures (América do Norte) e Warner Bros. Pictures (Internacional)

100 melhores filmes da década 2010-2019

Por André Dick

O Cinematographe apresenta a seguir os 100 melhores filmes da década 2010-2019. Foi uma década com uma quantidade impressionante de ótimos filmes e selecioná-los não foi fácil: era possível fazer uma lista de 200 imprescindíveis. Alguns cineastas têm mais de um filme aqui, o que mostra o trabalho importante que eles apresentaram. Como todas as listas, as escolhas são pessoais. E as preferências tendem, às vezes, a mudar com o tempo. Alguns desses abaixo não estavam entre os principais das minhas listas de melhores de 2010 a 2019. Apenas numa revisão delas, pude separar melhor aqueles que, ao longo da década, foram se tornando mais destacáveis, em várias revisões, inclusive, enquanto outros a princípio mais relevantes foram perdendo um pouco a preferência. Por isso, há filmes mais ao final do ano de 2019; no caso, são ainda muito recentes e não tão vistos ou apreciados quanto os anteriores, embora muitos desse ano já tenham se tornado automaticamente marcantes. O objetivo principal é oferecer um panorama geral e que o leitor possa relembrar ou descobrir algumas dessas obras. É o modo como vejo as listas que contêm filmes dos quais gosto e não gosto. A lista foi publicada anteriormente no Twitter do Cinematographe (e agradeço a quem acompanhou sua publicação nesta plataforma) e os cartazes de cada um dos escolhidos está nesta página do Letterboxd. Agradeço a você por acompanhar o trabalho realizado aqui quase ao longo de toda a década passada, tendo o Cinematographe iniciado em 2012.

 

Uma vida oculta (2019)

Por André Dick

O cineasta Terrence Malick teve um hiato de vinte anos no cinema entre Cinzas no paraíso e Além da linha vermelha. A partir de 2011, mais exatamente depois do lançamento de A árvore da vida, ele se tornou um dos cineastas que mais lançou novas obras na década passada: Amor pleno, Cavaleiro de copas, Voyage of time e De canção em canção compuseram os novos momentos centrados no século XXI, mostrando casais em união ou em separação sob diferentes nuances. Embora esses filmes tenham sido recebidos com certa desconfiança, acredito que sejam, ao lado de A árvore da vida, o grande momento da carreira de Malick. Ele praticamente recriou, ao lado de Emmanuel Lubezki, a maneira de filmar e desenvolver uma narrativa no cinema contemporâneo, sempre com edições antilineares.

Embora seja mais linear do que os anteriores, Uma vida oculta partilha do mesmo estilo. Sua narrativa se localiza na Áustria, em 1939, na vila de St. Radegund. Nela, o camponês Franz Jägerstätter (August Diehl) vive com a esposa Franziska (Fani) (Valerie Pachner) ao lado dos filhos e de sua mãe (Karin Neuhäuser), numa espécie de paraíso sobre a terra, como acontecia em seu segundo filme, de 1978. Também vive com eles a cunhada, Resie (Maria Simon). Nisso, há brincadeiras com as crianças, aproveitando cada estação, enquanto trabalham no campo. O problema é quando a Segunda Guerra Mundial se aproxima com o domínio nazista de Hitler, e Franz é recrutado para treinamento. Extremamente religioso, ele frequenta a igreja, onde tenta se aconselhar com o padre Ferdinand Fürthauer (Tobias Moretti)  e tem discussões com o prefeito (Karl Markovics) sobre a verdadeira intenção do regime de Adolf Hitler. A questão mais grave, para ele, é ter de jurar lealdade ao ditador, que considera uma figura maléfica, ao contrário de muitos dos moradores de Radegund, quando passam a seguir os cumprimentos do nazismo. A palavra e o juramento estão em questão no filme de Malick mais do que em qualquer outro: como pode o indivíduo prestar lealdade a um regime que considera como o contrário do que acredita? Tudo é levado a um ponto extremo, para que o espectador possa raciocinar sobre as premissas de Franz.

Com uma trilha sonora emocional e discreta de James Newton Howard, principalmente a partitura para o casal central, e uma fotografia extraordinária de Jörg Widmer, substituindo Lubezki, mas selecionando algumas características dele (o movimento, o realismo da iluminação, os closes, a sensação de o espectador caminhar com os personagens), Uma vida oculta traz os mesmos elementos do restante da obra de Malick: trata-se de uma jornada de um sujeito tentando descobrir seu mais profundo sentimento, que pode lhe dar como resposta dúvidas que tem sobre a vida – ou simplesmente aumentá-las. É a mesma jornada dos personagens de filmes de época de Malick quanto nos contemporâneos, como o pesquisador feito por Ben Affleck em Amor pleno, ou o roteirista interpretado por Christian Bale em Cavaleiro de copas, ou os casais envolvidos com a música de De canção em canção. Com o acréscimo, aqui, de se tratar de uma história real e situada num momento especialmente trágico para a humanidade.

Se nos filmes mais recentes Malick focava a vida urbana no interior dos Estados Unidos, ou parte da vida rural, de modo passageiro, aqui ele lida com um universo de camponeses de maneira muito efetiva. O espectador parece se inserir no cenário montado por ele nas montanhas austríacas: tudo é arquitetado para que a atmosfera ganhe a tela de maneira abrangente. Os campos de trigo, as plantações, os animais (porcos, galinhas), os moinhos, a igreja do vilarejo e o carteiro que passa cruzando a vila desempenham uma noção fundamental para se entender a luta subjetiva desse homem. Em muitos momentos, Malick recupera uma espécie de cinema que parecia perdido, aquele, por exemplo, de A árvore dos tamancos ou de Os imigrantes, com uma condução do espectador para lugares inóspitos. Malick define a natureza, a rotina, o cotidiano como diametralmente oposto à ideia de guerra e seu caos e destruição. Isso se dá por meio de analogias de imagens e sua competência a colocar vozes de diálogos sobrepostas sobre cenas das quais já não fazem parte, construindo uma arquitetura delicada e humana, deslocando personagens de lugares nas mesmas conversas.

Mais uma vez, Malick coloca o casal como representação de um pedaço de paraíso na terra que pode ser afetado pelo mal, no caso Hitler. As atuações de Diehl e Pachner são notáveis. Diehl é curiosamente bastante conhecido por sua participação como um nazista que provoca uma confusão numa taverna em Bastardos inglórios, de Tarantino, no qual, diga-se de passagem, está também irretocável. Mesmo tendo poucos diálogos, eles conseguem, por meio do olhar e das ações, demonstrar uma grande e notável persuasão junto ao espectador. Todos os coadjuvantes (inclusive alguns atores que vão aparecendo ao longo da narrativa, a exemplo de Jürgen Prochnow e Bruno Ganz, em sua última obra) são nada menos do que excelentes. A temática religiosa de fundo se mostra de grande diálogo principalmente com Amor pleno, nas caminhadas de Franz com o padre da vila – naquele filme de 2012, o padre era interpretado por Javier Bardem. Também há um diálogo de Franz com um homem que faz pinturas religiosas, também ligado a A árvore da vida e a Amor pleno. Ele diz que sobrevive pintando o sofrimento sem saber o que é sofrer – é uma das linhas mais sensíveis de um filme de Malick e coloca a distinção entre teoria e prática do indivíduo. Mais do que em qualquer outro filme seu, a ideia de como as escolhas de um indivíduo afetam os demais ganha um grande espaço. E, em igual escala, como as crianças representam o futuro.

Por isso, Malick constitui uma obra à parte, na qual os filmes vão dialogando e se completando, talvez funcionando mais para o espectador que os conhece de antemão. Ainda assim, quem vai ao cinema sem conhecer o estilo de Malick se depara com uma obra em que a reconstituição de época é brilhante, desde o design de produção até o figurino, e tudo se encaixa dentro da montagem feita de forma proposital mais embaralhada. Essa montagem vai dando cadência às cenas passadas nas montanhas e aquelas em que Franz enfrenta os homens por causa do seu discurso. As paisagens a céu aberto contrastam com os muros e as celas da prisão. É a presença de uma força divina, a partir desse momento, como na obra em geral de Malick, que se manifesta nos cenários, assim como as narrações lembram confissões sobre a eternidade evocada pelos personagens por meio de suas ações.  A maneira como o diretor entrelaça o fim e o início traz uma comoção particular. Como toda a filmografia recente de Malick, Uma vida oculta é uma obra-prima, particularmente o melhor filme de 2019.

A hidden life, EUA/ALE, 2019 Diretor: Terrence Malick Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Matthias Schoenaerts, Tobias Moretti, Karl Markovics, Bruno Ganz, Jürgen Prochnow Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Jörg Widmer Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: Elisabeth Bentley, Dario Bergesio, Grant Hill, Josh Jeter Duração: 174 min. Estúdio: Elizabeth Bay Productions, Aceway, Studio Babelsberg Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

 

O preço da verdade (2019)

Por André Dick

Um diretor que investiu em filmes com caráter de denúncia é Steven Soderbergh. Embora tenha peças contra a indústria farmacêutica (Distúrbio, Terapia de risco) ou manipulação de contratos no esporte (High flying bird), talvez seu principal filme, nesse sentido, tenha sido aquele que foi lançado no mesmo ano de outro exemplar com essa característica, Traffic: o dramático e, ao mesmo tempo, bem-humorado Erin Brokovich, indicado ao Oscar de melhor filme em 2000, e ganhador do prêmio de melhor atriz (para Julia Roberts).
Ela desempenha com impressionante veracidade Erin Brokovich, uma mulher solteira, com filhos, que tenta descobrir como uma empresa está despejando dejetos tóxicos numa comunidade do interior dos Estados Unidos. Iniciando como secretária, torna-se uma assessora jurídica, tendo sempre desentendimentos engraçados com seu chefe (o ótimo Albert Finney).

Parece que o filme de Soderbergh, em suas aproximações e leves diferenças, é a premissa inspiradora de O preço da verdade, baseado também numa história verdadeira relatada no livro “The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare”, de Nathaniel Rich. Desta vez, acompanhamos um advogado, Robert Bilott (Mark Ruffalo), funcionário daTaft Stettinius & Hollister, em Cincinnati, Ohio, que é procurado por um fazendeiro, Wilbur Tennant (Bill Camp), que mora na cidade de sua tia, Parkersburg, Virgínia Ocidental.
A cidadezinha está às voltas justamente com m problema na água: parece que uma empresa conhecida, DuPont, está derramando substâncias tóxicas nelas, afetando não apenas os moradores, como também os animais da fazenda de Tennant. Quando Robert vai até lá, descobre que quase duzentas vacas morreram devido a complicações de saúde, sem uma explicação evidente. A questão imposta é que o advogado trabalha justamente para empresas que infringem as leis ambientais – o que coloca sua guinada como uma matéria de filme de Hollywood.

O diretor Todd Haynes é muito conhecido por seu apuro visual. Suas obras têm um detalhado rebuscamento, a exemplo de Longe do paraíso, Carol e o recente e belíssimo Sem fôlego, com sua fotografia em preto e branco. Usando novamente o trabalho do diretor de fotografia Edward Lachman, seu colaborador de longa data, Haynes filma esse advogado num universo soturno e praticamente sem vida. Enquanto Erin Brokovich tinha uma temática tão pesada quanto em alguns momentos, era mais solar, O preço da verdade faz a atmosfera se abater sobre o espectador. Em Erin Brokovich, Soderbergh empregava seu estilo documental, o que ocorre mesmo em sua franquia Onze homens e um segredo, mas dava especial atenção à relação entre os personagens. Erin se envolve com um hippie, que passa a cuidar de seus filhos. A claridade dos filmes de Soderbergh parece real, destacando-se nesse um tom dos anos 70 (cores pastéis, horizontes e planícies típicas de filmes dessa década), enquanto o de Haynes, apesar de soturno e parecendo mais próximo da realidade, adquire um formato um pouco mais irrealista. O roteiro de Mario Correa e Matthew Michael Carnahan se desvencilha de muitos diálogos e aprofunda no trabalho dos personagens em sua caracterização visual, a maneira como se comportam diante de um desafio.

O personagem representado por Mark Ruffalo tem um casamento estável com Sarah (Anne Hathaway) e trabalha numa firma de advocacia conhecida, tendo à frente Tom Terp (Tim Robbins). Quando ele se desentende com o advogado advogado da DuPont Phil Donnelly (Victor Garber), um dos homens que têm conhecimento do que faz a indústria na cidade, tudo passa a desencadear uma investigação pessoal em meio a milhares de arquivos. Há um ponto de vista sem dúvida mais romantizado do que o que vemos em Erin Brokovich: o personagem de Ruffalo é visualizado mais como um herói que combate o sistema, ao contrário da personagem de Roberts, mais humana. Isso, de qualquer modo, não diminui o interesse em se saber para onde se mexem as peças de O preço da verdade, um filme consciente dos temas que trata – embora não os leve até seu limite polêmico. Além de Ruffalo atuar muito bem, Hathaway, Garber e Robbins, além de Bill Pullman mais ao final, como um advogado, são ótimos coadjuvantes, concedendo a seus papéis uma credibilidade insuspeita. São eles que tornam O preço da verdade realmente sólido.

Dark waters, EUA, 2019 Diretor: Todd Haynes Elenco: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Camp, Victor Garber, Mare Winningham, Bill Pullman Roteiro:  Mario Correa e Matthew Michael Carnahan Fotografia:  Edward Lachman Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Produção: Mark Ruffalo, Christine Vachon, Pamela Koffler Duração: 126 min. Estúdio: Killer Films, Amblin Partners Distribuidora  Focus Features

Maria e João – O conto das bruxas (2020)

Por André Dick

Os contos de fadas têm sido utilizados nos últimos anos das mais variadas formas, seja em séries de TV (Grimm), seja em obras que lidam com um tom mais juvenil (A garota da capa vermelha) ou uma vertente de humor e violência (João e Maria – Caçadores de bruxas), além de animações (a exemplo de A bela e a fera), considerando ainda o tratamento metalinguístico no interessante Os irmãos Grimm, de Terry Gilliam. Este filme de Oz Perkins recupera a conhecida fábula dos irmãos Grimm sob um ponto de vista diferente, mais próximo do suspense e do terror, com claros elementos de A bruxa e uma fotografia excelente de Galo Olivares, assistente direto de Alfonso Cuarón na concepção de Roma.
O filme inicia com um bebê ficando doente numa vila distante, o que remete a alguma influência de uma releitura bíblica, e é entregue a uma feiticeira (Jessica De Gouw) para que possa sobreviver. No entanto, isso forma uma ação inesperada sobre o povoado. Maria (Sophia Lillis) e João (Samuel Leakey) vivem no lugar e ela é incitada a trabalhar pela mãe (Fiona O’Shaughnessy). Depois de negar a proposta de um homem, Maria é expulsa de casa com seu irmão e ambos vão parar num bosque. Depois de serem ajudados por um caçador (Charles Babalola), encontram Holda (Alice Krige), uma mulher que os recebe em sua casa com muitos doces.

Perkins utiliza um visual onírico que por vezes evoca Jodorowsky, principalmente aquele de A montanha mágica, dando uma sensação constante de pesadelo, assim como trabalha com elementos do videoclipe de “Heart-shaped box”, do Nirvana, principalmente numa sequência que imagina o preparo de uma comida de maneira distinta. Os galhos longos das árvores do bosque também remetem ao ótimo A lenda do cavaleiro sem cabeça, assim como os ambientes rústicos têm bastante influência de A vila, de Shyamalan, do mesmo modo que certo trabalho de cores. Em um determinado momento, uma grande árvore recorda Tarkovsky e sua releitura feita por Iñárritu em O regresso. É um trabalho visual de raro cuidado.
Nesse ponto, a fotografia de Olivares se destaca ainda mais, fazendo uma mescla entre as folhas laranjas pelo chão de um outono próximo da loucura que pode ser imposta num confinamento. Maria e Joao passam a viver com Holda sem suspeitar que ela, na verdade, seja uma bruxa e tentam se acostumar ao fato de que ali podem ter diariamente um banquete bem provido, diferente do lugar de onde vieram, expulsos do núcleo familiar. Esse clima claustrofóbico tanto ajuda quanto prejudica: em alguns momentos a narrativa perde em termos de impacto, pois Lillis é filmada diante de discursos expositivos. Ainda assim, sua narração contribui e trata-se de uma boa atriz, o que já mostrou em It – A coisa.

No plano simbólico, igualmente, o roteiro de Rob Hayes se sustenta bem: o homem significa a tentativa de salvar a comunidade e, ao mesmo tempo, sua perdição; a comida significa a entrada num universo paralelo àquele enfrentado pelo povoado; os cogumelos no bosque também ajudam na alucinação de algo que não existe; o espelho multiplica uma infinidade de crianças abandonadas, o trabalho delas é uma obrigação para conseguirem viver, contrapondo-se à vida que a bruxa oferta. Tudo é composto de maneira ao mesmo tempo orgânica e artificial, como cada doce dado pela bruxa aos seus hóspedes, acentuado por uma trilha sonora atmosférica de Robin Coudert.
Fica clara a intenção de realizar um terror mais artístico, no entanto se depara com limitações. A história torna-se em parte antilinear, no que tem bons propósitos, mas com toques mais ágeis ganharia em ênfase. Ainda assim é um filme que provoca interesse e pode crescer numa revisão. Ele tem uma boa mescla de ideias à medida que a trama vai se concentrando num espaço único, para o espectador disposto a perceber detalhes a princípio desnecessários e que ajudam a contar a história desses personagens de maneira essencial.

Gretel & Hansel, EUA, 2020 Diretor: Oz Perkins Elenco: Sophia Lillis, Sam Leakey, Charles Babalola, Jessica De Gouw, Alice Krige,Fiona O’Shaughnessy Roteiro: Rob Hayes Fotografia: Galo Olivares Trilha Sonora: Robin Coudert Produção: Brian Kavanaugh-Jones e Fred Berger Duração: 87 min. Estúdio: Orion Pictures, Automatik Entertainment, Bron Creative Distribuidora: United Artists Releasing